De
entre as exceções à condição de emergência, em que estamos a viver, sobressai a
possibilidade de levar a passear o cãozinho (ou canzarrão) à rua. Essa poderá
ser uma razão ou até uma desculpa para infringir o dever de recolhimento para
muitas pessoas e uma boa parte de insatisfeitos com aquilo que se está a
vivenciar.
Que
dizer, então, da confluência de arejamento, quando duas ou três ‘vizinhas’ (ou
vizinhos) se encontram à esquina da rua e, colocando os ‘lulus’ (de estima, de
companhia ou de substituição) à distância de segurança (pelo menos dois
metros), se colocam na conversa – a tal treta – sustida pela trela dos seus
argumentos para saírem de casa? Será esta mais uma das habilidades, à
portuguesa, para tornear as regras e fazer-de-conta que está tudo normal? Quantas
vezes e por quanto tempo se pode usufruir (usar ou abusar) deste regime de
exceção por dia? Não andaremos a explorar os animais com os ‘nossos’ descuidos
e subterfúgios de ocasião?
= De
facto, haverá um tempo antes do coronavírus ‘covid-19’ e um tempo posterior.
Nada será igual na mentalidade, no comportamento, na forma de entender e de
viver e mesmo nas atitudes com que vemos, entendemos e nos relacionamos uns com
os outros, connosco mesmos e talvez até com Deus.
Vejamos,
com a luz que temos agora e capacidade de discernimento mínima, quais as
implicações de tudo isto e daquilo que ainda pode vir.
* Que mentalidade? Dava a impressão que
andávamos (quase) todos numa vivência superficial – parecendo flutuar sem
referências – vivendo num festim de abundância para as coisas materiais ou
mesmo materialistas. Com que facilidade se trocaram os templos religiosos pelos
lugares de consumo e de consumismo. Veja-se o corrupio de veraneio em maré da
Páscoa. Uma boa parte dos nossos contemporâneos satisfaz-se mais com aquilo que
alimenta o corpo, esquecendo-se dos valores psicológicos/emocionais,
espirituais e transcendentes. Só numa rutura ou crise isso se manifesta pela
ausência…
* Que ética/moral? Bastou um sopro
ameaçador, vindo do extremo Oriente, e quase tudo colapsou. Que temos a mudar?
Onde está o nosso centro de vida? A discussão sobre a eutanásia não terá sido
mais um fait-divers de gente oca, vazia e apodrecida? Com a tal lógica do
descartável ainda se compreende o esforço de salvar vidas – sobretudo dos mais
velhos e dos (ditos) incapacitados – com que vemos os agentes da saúde a
arriscarem? Aqueles que defendiam que a eutanásia era a resposta para tantos
dos seus – não dos nossos! – problemas, não os temos visto a sair da sua lura
comodista e anarco-trotskista… Os humanos dá a impressão que os incomodam,
fazendo-os, antes, reféns de ideias agora denunciadas, subvertidas e
baralhadas. Efetivamente a ética/moral que serviam não passa, afinal, da parca
volumetria da sua prosápia e oportunismo.
* Que relacionamento? Parecendo um novo
tempo, estamos a viver uma nova idade, onde teremos de aprender a saber estar e
de nos fazermos presentes uns aos outros de forma mais sincera, atenta e
moderada. Nos tempos mais recentes veio crescendo algum excesso de exposição
das pessoas da sua vida privada, com a irremediável intromissão na vida alheia.
As conversas de alcoviteira passaram da soleira da porta ou dos bancos do café
para as (ditas) ‘redes sociais’, gerando-se alguma promiscuidade entre o que
seria de falar e tanta outra coisa que entrava no espaço do resguardar.
Repare-se na incongruência no número de ‘amigos’ faceboquianos e aqueles que o
possam ser de verdade. Foi custoso fazer compreender a tantos dos nossos
concidadãos o dever de reserva neste tempo de ‘emergência’. Tornou-se
lastimável ver os esforços de tantos agentes de saúde serem deitados a perder
com as passeatas à beira-mar em certos dias de sol… Vamos continuar como se
nada tenha de mudar? Ao menos por medo, mudemos as formas de relacionamento
social…
* Que religião? Perdurará na minha memória
a simbologia do Papa Francisco, na tarde de 27 de março (6.ª feira, duas
semanas antes da grande sexta-feira santa): um homem só, percorreu a praça de
São Pedro, no Vaticano, qual ‘bode expiatório’ (cf. Lv 16,1-23) desta
Humanidade sofredora, diante de um Deus misericordioso e atento, embora, por
muitos, ignorado, abandonado e desprezado. As suas palavras e gestos, o seu
rosto macerado e triste, o seu silêncio contemplativo, deixou a todos os
crentes uma mensagem. Será que já a entendemos? Ajudemo-nos a discernir os
sinais dos tempos, nesta hora de graça e da esperança!
António Sílvio Couto
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