Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



terça-feira, 20 de julho de 2021

A doença abre a Deus e/ou revela a pessoa humana?

 


De longa data se questiona: há doenças ou antes pessoas que estão doentes? Ao falarmos de alguma doença não temos, antes de tudo, de atender a quem está a sofrer essa/s doença/s? Num tempo que mais parece abjurar as situações de doença como nefastas e complicadas, não deveremos saber distinguir – pesando todas as questões envolvidas – a pessoa do doente mais do que tentar debelar a doença de forma abstrata e talvez pouco consequente?

Numa visão cristã podemos colocar em Jesus toda a nossa capacidade de compreensão sobre o sofrimento, de tantas e tão variadas formas manifestado nas doenças das pessoas, sejam crentes ou não. Com efeito, «comovido por tanto sofrimento, Cristo não só Se deixa tocar pelos doentes, como também faz suas as misérias deles: «Tomou sobre Si as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças» (Mt 8, 17). Ele não curou todos os doentes. As curas que fazia eram sinais da vinda do Reino de Deus. Anunciavam uma cura mais radical: a vitória sobre o pecado e sobre a morte, mediante a sua Páscoa. Na cruz, Cristo tomou sobre Si todo o peso do mal e tirou «o pecado do mundo» (Jo 1, 29), do qual a doença não é mais que uma consequência. Pela sua paixão e morte na cruz. Cristo deu novo sentido ao sofrimento: desde então este pode configurar-nos com Ele e unir-nos à sua paixão redentora» (Catecismo da Igreja Católica, n.º 1505).

Desde os primórdios da reflexão cristã que a figura do ‘servo de Javé’ – Is 42, 1-9; 49,1-6; 50, 4-9; 52,13-53, 12 – se tornou um protótipo da assunção de Jesus de todo o sofrimento humano, Ele que não tinha doenças, configurou em si a humanidade doente e cada pessoa humana nas suas circunstâncias mais marcadas pela doença.

Embora seja uma clara manifestação da contingência da nossa vida terrena, a doença pode tornar-se como que um dos melhores diagnósticos à nossa fé, bem como uma das formas mais subtis de acrisolar a nossa esperança, se bem que possa ainda servir-nos para testar a condição mínima da possível (ou real) caridade.

Se a doença pode ter causas muito diversificadas – mais ou menos aceitáveis, mais ou menos inesperadas, mais ou menos prolongadas –, basicamente poderá ter, numa visão teísta da existência humana, duas consequências: ou nos revolta e questiona quando a Deus ou nos proporciona uma nova abertura ao divino… Quantas pessoas refundaram a sua vida a partir de uma experiência de doença! Quantas pessoas reaprenderam a ver a sua vida e a dos outros com olhos diferentes, após uma vivência de doença, direta ou indireta! Quantas conversões de vida se aferiram mais a Deus, por ocasião de algum estado de doença pessoal, familiar ou de outras pessoas!

 = O que a Bíblia nos diz sobre a doença?

A Bíblia diz que a doença é um dos resultados do pecado no mundo. Assim como todos vamos morrer, todos corremos o risco de ficar doentes. Mas Deus não nos abandona na doença. Em Jesus temos uma grande esperança: na vida eterna não haverá mais doença.

Uma das consequências do pecado é a morte (Rm 6, 23). O corpo degrada-se gradualmente, até cessar a vida. A maldição que caiu sobre o mundo, por causa do pecado, significa que nessa vida enfrentamos dor e sofrimento. A doença é, por isso, parte da vida.

Mas isso não significa que toda doença é castigo por algum pecado, ou sinal de falta de fé. Uma doença pode ter várias origens:

- Física – a degradação do corpo ou o contato com algo nocivo para a saúde,

- Mental – os nossos pensamentos podem afetar o funcionamento de nosso cérebro,

- Espiritual – pecados ou ataques do demónio.

Nalguns casos, uma doença pode ser o resultado de vários fatores. Por exemplo, uma pessoa acamada com uma doença crónica pode ficar com depressão, se perder a esperança de melhorar. Essa pessoa vai precisar de ajuda psicológica, para tratar a depressão e encontrar esperança, mas também de ajuda médica para melhorar a sua condição física.

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Da ‘Igreja em catacumbas’ às catacumbas na Igreja


 Estes tempos de pandemia vieram revelar algo de muito complexo sobre a Igreja – dizemo-lo da sua expressão ‘católica’ sem esquecer outras denominações – na vivência comunitária ou em condições de maior constrangimento, nas coisas de âmbito social ou nas referências à família, na sua verificação diocesana ou paroquial, mas também nos grupos de compromisso em apostolado organizado.

Estamos a viver um tempo idêntico ao das igrejas em condição de catacumba, isto é, de perseguição ou de resistência, de minoria e não mais de cristandade, de procura na reinvenção de sabermos estar, depois de tantos que já por cá estiveram, de saber anunciar Jesus sem pressupor que já O conhecem…

 1. Igreja em catacumbas. Quando se fala na história da Igreja do tempo das catacumbas (até ao século V) precisamos de localizar-nos numa época de expansão do cristianismo sujeito a perseguições, em confronto com o paganismo romano maioritário, refugiando-se os cristãos nos espaços subterrâneos onde estavam sepultados os restos mortais dos ‘seus’ mártires e de quantos pagaram com a vida o seguimento de Jesus. Recorde-se que a imagem-simbólica deste tempo intenso e duro é a figura de ‘Cristo-bom pastor’ carregando aos ombros uma ovelha, como discípulo querido e amado.

 2. Perseguição ou resistência? Os cristãos com tantos dos seus pastores estavam inflamados da força do Espírito Santo e preferiam, à semelhança de São Ireneu, morrem trucidados pelos dentes das feras do que abjurarem da sua fé. Não há nada de romântico nesta fase do ser cristão, mas uma força capaz de viverem a perseguição, tal a dinâmica espiritual bebida nos evangelhos e nos escritos dos padres apostólicos. Com a pandemia não vimos tantos a acobardarem-se e a quedarem-se diante da televisão do que, com rigor e confiança, estarem com os seus? O zoom resolveu, mas não solucionou a acomodação!

 3. Minoria, já não cristandade. Designada, em meados do século vinte, como ‘cristandade profana’, continuamos a recorrer aos rituais religiosos-sacramentais como alheamento das condições em Igreja. Já não há mais coincidência entre sociedade e Igreja (cristianismo/catolicismo) nem os que professam a fé em Cristo têm superioridade aos outros cidadãos. Por vezes acontece precisamente o contrário: ser cristão, afirmá-lo e mostrá-lo, com sinais mesmo exteriores, torna-se complicado senão mesmo perigoso. Da limpeza dos crucifixos nos espaços públicos, exigida pelo laicismo exacerbado de muitos mentores políticos, fomos passando à exclusão ostensiva e provocatória de tudo quanto cheire a sinal de fé cristã. Questiono porque continuam a respeitar o ritmo social de certas festas – natal, páscoa, feriados religiosos – com base em preconceitos e/ou tiques de ignorância…Quando acordaremos para sabermos ser e estar como minoria num mundo paganizado, ateu e amoral?

 4. Procura: refontalização na renovação. Decorridos mais de cinquenta anos do tempo do Concílio Vaticano II ainda não aprendemos a cultivar uma forma de ser Igreja que não reproduza rituais vazios, não promova festas à custa dos santos, não faça da religião um ato social de descrentes.

O problema está aí: para uns tantos parece preferível recorrer à missa em latim como subterfúgio para a escuta da Palavra que converta; outros entretêm-se no croché de língua a discutir quem será mais importante…no seu grupo, movimento, paróquia ou diocese; há quem prefira umas rezas de devoção do que dedicar tempo a ler, meditar e tentar viver o que está na Sagrada Escritura…

 5. Novas catacumbas. As igrejas esvaziam-se, os grupos e movimentos envelhecem, as congregações religiosas fecham e vendem as casas por falta de vocações, os seminários recebem o que chega porque o saldo é baixo, as irmandades e confrarias estiolaram-se por falta de novos associados, as autarquias abocanham as festas (religiosas e não só) por ausência de cristãos desinstalados, órgãos de comunicação social entram em colapso pelo desinteresse da maioria dos cristãos…muitas vezes ignorantes que se tornam ignorados. Aí, nas catacumbas para onde nos querem enfiar, temos de acordar e suplicar ao Espírito de Deus que venha renovar a face da terra – como suplicamos nas orações do tempo de Pentecostes. Não podemos seguir uma tendência de revivalismo – no meu tempo é que era, quando era mais novo – nem tão pouco queremos retomar uma fase de inquisição, em busca de hereges ou de culpados, de vítimas nem de réus…

6. Sugestões para um novo espírito de Igreja Porque vivi, por graça especial de Deus, sobretudo nos tempos de jovem, de formação no seminário e nos primeiros anos de vida de padre, momentos que me fizeram crer que estávamos a viver um novo Pentecostes, ouso propor algumas linhas de conduta…de forma despretensiosa e humilde:

– Igreja de irmãos fiéis na fé, pela esperança para a caridade: de olhos novos; 

– Igreja serva, servidora, mas não servil: de joelhos só diante de Deus;

– Igreja de rosto compassivo e presença misericordiosa para dentro e com os de fora: de mãos abertas;

– Igreja profética nas palavras, nos gestos e com sinais: de boca em louvor permanente;

– Igreja que suja as mãos de trabalho, mas não de favores para com ninguém: de pés em caminho.

Temos de mudar de registo, cada por si e todos em conversão. Daqui a 50 anos ainda haverá fé nesta terra?      

 

António Sílvio Couto

domingo, 18 de julho de 2021

Num sistema (cultural) oscilo-batente


Comecemos pela definição-descrição do termo: ‘oscilo-batente’.

Refere-se a uma técnica, relativamente recente, de fabricação e de colocação de janelas. O mecanismo das janelas basculantes consiste num tipo de abertura eficaz para ventilar e renovar o ar nas salas, devido à sua abertura horizontal de 180.º e abertura vertical de aproximadamente 45.º. Num primeiro momento a janela pode ser aberta, como uma janela dobrável convencional, rodando o puxador e abrindo uma das faixas de forma semelhante à abertura de uma porta, graças às dobradiças na moldura. No entanto, ao contrário das janelas mais habituais, o mecanismo das janelas oscilo-batentes incorpora uma mecânica no seu interior que, facilita que, com apenas virar a manivela para cima, nos permitirá abrir a janela como se esta fosse oscilante, ou seja, com a folha inclinada cerca de 20 graus para o interior.

Feita a descrição vamos tentar encontrar ‘sinais’ dessa cultura oscilo-batente com que nos tentam ‘educar’, isto é, conduzir, influenciar ou mesmo manipular.

 

1. Um concurso do governo apurou, em abril passado, cerca de meia centena de técnicos qualificados – juristas, economistas, gestores, matemáticos, engenheiros, sociólogos e outros especialistas – para um tal serviço designado de ‘centro de competências de planeamento, de políticas e de prospetiva da administração pública’…mas este continua inativo e os selecionados não têm contrato de trabalho, correndo o risco de perderem o lugar conquistado. Para que lado abriu a janela? Não andará alguém a querer mostrar serviço sem arejar a sala do bafio da incompetência? Bastaria um pouco de bom senso – o serviço está na dependência direta do gabinete do chefe do governo – e não andaríamos a enganar-nos de forma tão cúmplice e desconexa… e às escondidas.

 

2. Pequenas-grandes notas fazem brechas no sistema ‘oscilo-batente’ na componente mais social: uma atriz, com quarenta e cinco anos de profissão, diz que só aufere 530 € de reforma. Terá feito os descontos todos, corretos e na hora própria? Não terá acontecido algo idêntico ao de outros campos de atividade: na hora de descontar quiseram colher mais do que aquilo que receberiam na fase final?

 

3. Mais um carro de um membro do governo foi apanhado a circular na fasquia dos 200 kms/hora. Um anterior carro de outro setor semeou a morte, o novo quedou-se pelo registo, sem coimas nem castigo aos infratores. Neste caso a versão oscilo-batente não nos concede o benefício da dúvida para com quem será o culpado, pois pela brecha da notícia manteve-se mais o desagradável do que a atitude responsável de todos os cidadãos, seja qual for a função, condição social ou cor partidária…

 

4. O comandante da task-force para a vacinação anti-covid em curso aparece-nos como um militar trajado de camuflado de serviço, dando a entender que está em missão de combate a toda a hora. Num país onde se veem tantos/as em ‘missão de serviço’, mais simbolizando de conveniência, temos muito a aprender com quem deste modo se perfila numa guerra sem tréguas. Os resultados vão sendo satisfatórios, mas da janela de comando se poderá perceber melhor que esta batalha é de todos com civismo…

 

5. Na Europa notam-se várias tentativas de obrigar todos a gostar – ideológica e socialmente – do mesmo, nem que seja à força e sob pressão de grupos e de setores de lóbi transnacionais. Veja-se a imposição da matéria de homofilia com que temos sido matraqueados, desde a área do desporto até à legislação e à intoxicação na comunicação social. Quem não for adepto, defensor ou militante de tais teorias, logo é rotulado de homofóbico-racista-xenófobo… Repare-se que estes três epítetos surgem na conversa mais barata encadeados e como se fossem elos da mesma cadeia… Retomando a imagem da janela oscilo-batente, abra-se uma brecha, por mais simples que se imagine, e com facilidade veremos que quem discordar – tendo em conta os valores judaico-cristãos essenciais – corre o risco de ser considerado populista, esse no novo rótulo de certas forças neo-marxistas, mescladas de tendências ética amorais e com tradição persecutória…

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 13 de julho de 2021

Preço dos combustíveis – da vergonha ao silêncio

 


Nos tempos mais recentes o preço dos combustíveis disparou duma forma assustadora e quase vergonhosa, tendo, da parte dos consumidores, uma espécie de reação de silêncio cúmplice, amorfo e sem nexo.

Há casos em que um litro de gasóleo custa – no correspondente à moeda antiga – quase quatrocentos escudos, isto é, 1,8 euros. Se repararmos bem e de forma atenta, exigente e consequente pagar 1,6 euros por um litro de gasolina faz-nos recordar que isso seria de cerca trezentos escudos… sem apelo e muito agravo.

 1. A coberto da pandemia temos visto e assistido, duma forma quase anódina ao aumento de tropelias por parte de quem nos governa, recebendo da maioria da população um tratamento concordante com quase tudo, parecendo que desistiu de reclamar, de se manifestar pela discordância ou de tornar audível seja na posição que for. A governança narcotizou o povo e este, num seguidismo atroz, caminha para o matadouro do fim dos seus direitos mínimos…se assim continuarmos.  Breves e ténues arremedos contra os preços praticados para com os combustíveis como que destoam do conformismo geral e generalizado.

 2. Dá a impressão que o vírus atingiu a racionalidade da imensa maioria dos nossos concidadãos: pelas não-reações a tantas malfeitorias ou na concordância nas benesses encapotadas de quem ocupa o espaço executivo, poderemos considerar que vivemos numa paz, que, além de podre, é infetocontagiosa pela desistência. Onde param os contestatários de outras épocas? Fugiram cobardemente ou desistiram pela acomodação às regalias adquiridas? Envelheceram nas ideias ou venderam-se nas circunstâncias. As manifestações de rua hibernaram por conveniência ou desapareceram por insolvência? Tantos dos cartazes provocadores fazem já parte do espólio de sindicatos e afins?

3. Com tantos e tão graves sinais procedentes desta dita ‘sociedade covil’ torna-se difícil não perceber que as pessoas preferem salvar a pele – literalmente e de forma vacinada – a questionarem o caminho por onde vamos. A situação afigura-se-nos perigosa, pois o ‘pão e jogos’ de outras épocas já não entretém nem ilude a populaça, por agora mais reservada nas suas reivindicações, refugiada nas suas ocupações e mesmo entretida nas suas devoções…que não meramente as religiosas de antanho.  

 4. Vejamos, a título de exemplo os preços dos combustíveis, em 2016 (tempo de verão), na vigência deste governo da geringonça e hoje, ano e meio em tempo de pandemia: a ‘gasolina 95 aditivada’ custava – 1,3 euros, agora custa 1,7 euros… depois de ter percorrido tabelas mais baixas. O gasóleo normal custava – 1,1 euros naquela data e hoje tem o preço de 1,5 euros...

Há uma pergunta que quase todos fazemos: o preço do litro de combustível reflete o quê? Qual o valor real lançado e vilipendiado pelos impostos? Qual a panóplia de taxas e taxinhas que estão associadas ao custo do litro de combustível?

65,3% do preço do litro da gasolina 95 representam impostos e taxas. No gasóleo, o valor de impostos é de 59,1%;. O custo final do combustivel apreenta os seguintes impostos; Imposto sobre os Produtos Petrolíferos (ISP), o adicionamento sobre as emissões de CO2 (Taxa de Carbono), a contribuição de serviço rodoviário (CSR).e ainda o montante de Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA)…numa palavra: mais de dois terços do valor pago pelo consumidor/contribuinte vão para impostos. É digno de registo: só os impostos sobre produtos petrolíferos (ISP) rendem aos cofres do Estado cerca de 3,5 mil milhões de euros…anuais!

 5. Vou discriminar uma fatura simplificada de 12.7.2021, às 16.01 horas, num posto de abastecimento da A1, na Mealhada:

Gasolina sem chumbo 95: 22,05 litros X 1,814 euros – 40 euros;

Numerário IVA 23%, 7,48 euros de 32,52 € líquido;

Taxa – ISP: 0,668/litro – 22,05 – 14,73 €.

Continuamos calados, deixando que nos explorem. Somos uns dos países mais caros da Europa. Até quando?

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 12 de julho de 2021

O ‘mal’ de uns é o ‘bem’ de outros?


 Há dias tive uma conversa que me ajudou a elucidar esta possível contradição (ou não) – o mal de uns é o bem de outros.

O meu interlocutor, à minha pergunta como iam os trabalhos, ele ripostou: com tantas restrições às saídas noturnas, os jovens não saem, não bebem mais um copo e não têm acidentes, por isso, o nosso trabalho está a ficar escasso… Ouvi, registei e deduzi: como não há tantos acidentes – sobretudo com chapa-batida – também não há tanto trabalho como seria desejável e/ou necessário!

 1. Em vários campos de atividade podemos constatar esta suposição de que do mal que acontece aos outros, há quem colha frutos benéficos, mesmo que isso não precise de repercutir-se nas desgraças alheias. Veja-se o resultado final do campeonato europeu de futebol, acontecido no último mês: a equipa dos ‘três leões’ fez de outros tantos jogadores – todos da mesma tez, por sinal – os réus da derrota. Não houve incúria de quem os escolheu para marcarem os penalties ou foi uma mera revelação das suas más prestações? Mais um vez aquele nefasto ajoelhar antes do jogo serviu como sinal de manipulação e de indisfarçável negligência duma maioria amestrada por razões não-racionais… Não aprenderam as lições recentes?

 2. As horas gastas nas televisões em explorar os erros alheios tem sido, nas duas últimas semanas, a forma encontrada para esticar a intoxicação quanto às mazelas dos outros: um empresário sem limites de ambição e uma ambição articulada com trejeitos de empresário, foram dois dos modelos de sociedade que nos entretiveram ao nível noticioso. A ascensão dos dois protagonistas são resultado das pretensões politico-culturais que fizeram fama, sucesso e dinheiro nos últimos vinte anos da nossa vida pública.

Os que antes se ufanavam de serem fotografados ou exibidos com tais figuras, agora sentirão alguma dose de vergonha, pois podem ser equiparados às vítimas…A promoção de antanho dá a impressão que seria preferível não ter acontecido… Os registos sobre o que era considerado ‘bem’ funciona como exemplar de todo o ‘mal’?

 3. Com que petulância vemos exibirem-se mentores da ‘moralidade’ com laivos de ilegalidade: uns aparecem como hakers e piratas informáticos, outros surgem como mentores do ‘quanto pior melhor’, pois, isso poderá significar conquista de votos, quando deveria ser averiguado o passado criminoso, tanto da família, quanto dos valores – mesmo económicos – em que se alicerçam. Já deu para perceber que é da ruindade de alguns que se faz a programação política de outros quanto ao presente e para o futuro. Esses ‘moralistas’ conseguem lançar um razoável fumo de confusão, mesmo que tenham as mesmas vivências e usufruam das piores condutas…até que caia a máscara em que se movem e por onde se guiam na sombra…

 4. Estamos num tempo em que os interesses pessoais (egoístas, interesseiros e mesquinhos) fazem com que os direitos dos outros sejam ofuscados e passem para plano secundário. A temática do combate à pandemia – cuidados, condições e vacinação – veio revelar que uma boa parte dos cidadãos se está a borrifar par o cumprimento das regras, pensando mais em si do que nas implicações que o comportamento pessoal tem na vida dos demais. Quantas facilitações têm contribuído para o retrocesso dos dados finais nos últimos dois meses. Porque já conseguimos atingir resultados de boa conduta, pelo contributo de todos, agora, nos devemos interrogar sobre o incumprimento e os resultados tão dramáticos: o bem dos outros não justificaria maior luta contra o mal de todos e de cada um? Efetivamente, o mal dos outros nunca atingirá o melhor de lutarmos pelo bem de cada um…  

 5. Pela benevolência que todos nos merecem precisamos de os incluir não na maledicência, com que tantas vezes os brindamos, mas inseri-los na repercussão que sobre eles lançamos, pelo olhar compassivo, misericordioso e atento. Será com bondade simples, sincera e leal que construiremos um tempo e um espaço mais fraterno porque mais humano e cristão!         

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Quando emergem falcatruas…antigas

 


Como se fosse já o tempo das vindimas, eis que caem na trituradora da vida – da justiça, da comunicação social ou da opinião pública – casos de pessoas, aparentemente, impolutas, veneráveis, benfeitoras e dirigentes…

Uns tantos esfregam as mãos de contentamento – quais infantis em maré de vitória – sobre as situações em apreço, pois eram concorrentes em espaço e modelo de conduta…os ‘perseguidos’ como que simbolizariam ideias contrárias aos regozijantes… num indisfarçável conluio de interesses e/ou de simulações.

Outros sentem-se embasbacados pelos que foram trazidos à barra do questionamento, pois até eram suporte de propaganda em maré de eleições…o vermelho, virou encarnado, simulando um e outro quem ajuda quem, quando, onde ou como…agora como no passado. O flamejar do estandarte revela poucas vitórias!

1. Com breves dias de diferença vimos figuras recentemente alçadas na vida pública – social, política, desportiva, cultural – a caírem com estrondo e aparato, desde logo não escapando ao juízo da populaça e com os inexplicáveis sabichões na comunicação social a atiçarem os problemas. Gente que fez o regime há poucos anos, está estatelada, censurada e, nalguns casos, coartada na liberdade…Quais mitos nas suas áreas de intervenção tornaram-se lazarentos de quem se foge por medo de contágio. 

 2. É quase medonho e diabólico o afã com que as pessoas são esquartejadas na sua personalidade, quando caem em desgraça: os que antes pareciam amigos, agora escafedem-se de mansinho e como ratos em maré de tempestade fogem dos infetados; os que os tinham por adversários saltam como inimigos sem dó nem piedade; os que nada têm a ver com o assunto, julgam-se capazes de emitir opinião e de apedrejarem quem antes quase-adulavam…dado o posto em que se exibiam.

 3. Diante destes episódios mais recentes surgem-me algumas perguntas nem sempre fáceis e tão pouco abonatórias: a maldade das pessoas emerge quando os outros são pisados e ofendidos? Não haverá pitada de compaixão para com quem é exposto na hora da desgraça? Serão estes indícios da classificação tão atroz de que ‘o homem é lobo do homem’? Não andaremos enganados e a enganarmo-nos, quando difundimos mais o mal dos outros e não tanto as suas qualidades? Porque se regozijam certas forças com as debilidades alheias, será vingança ou mesquinhez de mal resolvidos, invejosos e traumatizados? Esta onda negativista, que esta a percorrer o nosso país, não nos irá custar caro psicológica e culturalmente?

4. Como povo propenso para um certo fatalismo e dramaticidade estaremos a cavar a sepultura coletiva na proporção em que nos afundamos sem nexo nem pejo. Nota-se uma recorrência em vermos explorados casos de figuras ligadas ao mundo do futebol. Jogo de muitas paixões continua o setor do futebol a ser propício para jogadas nem sempre claras ou às claras. A mistura de interesses – autárquicos, políticos, religiosos, regionais ou de incidência mais nacional – tornou-se explosiva para quantos nele se metem, por vezes com outros intuitos que não os do desporto. Atendendo aos milhões de euros envolvidos – à vista de todos ou sob a mesa e/ou à socapa – os relacionamentos no futebol merecem ser colocados de atalaia, tanto mais que os casos conhecidos serão como que a ponta ínfima do icebergue…

 5. Urge, por isso, saber a verdade. Esta deverá sempre ser a melhor causa de quem está na vida pública, na medida em que a exercita na componente privada. Sem pretendermos defender ou acusar seja quem for, será necessário tratar todos os dirigentes e não só os da nossa não-simpatia com a mesma bitola de justiça, pois soaria a populismo esconso querer rotular uns como menos sérios e outros – só porque ainda não foi descoberto ou trazido à luz da informação – passarem pelo pingos da denúncia sem terem de pagar, se for o caso, as suas responsabilidades.

Há tanta gente com poder, mas sem autoridade e há quem exerça a autoridade no nível mínimo de poder.          

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 7 de julho de 2021

Quem (ou por quem) combatemos: ricos ou pobres?

 


Conta-se, numa espécie de anedótico, que um alto dirigente lusitano, em visita à Suécia, por ocasião dos eflúvios revolucionários de abril de 1974, terá deixado escapar: lá, em baixo, estamos a tentar acabar com todos os ricos; ao que o interlocutor respondeu: nós, aqui, queremos é acabar com os pobres…

Pelo que temos visto, ouvido e constatado a doença continua a proliferar em certos setores político-ideológicos, económico-financeiros e, sobretudo, culturais…deste país que tem sobrevivido de mão estendida para com a Europa, reclamando direitos, sobrepondo-os aos deveres de construção de um continente onde o trabalho esteja antes de sucesso ou de regalias. O sarcasmo estampado no rosto de certos/as deputados/as denúncia que parece estarmos mais há cerca de cinquenta anos atrás do que numa Europa dos direitos humanos mais básicos…até prova em contrário!

 1. Depois das tranches de fundos europeus dos diversos quadros comunitários de apoio, desde a adesão à CEE/UE, em 1986, eis que se avizinha uma catadupa de dinheiro – de 2021 a 2030 – para tentar suster o descalabro provocado pela pandemia e, de algum modo, como um balão de suporte para quem governa, pois poderá continuar a manter os seus à tona da água, dado o afundamento eminente… de tudo e de todos.

Eis alguns dados a reter: 12,9 mil milhões de euros a fundo perdido; 12,8 mil milhões ainda do quadro ’20-20’, que se estende até 2023; 29,8 mil milhões do ‘quadro financeiro plurianual’ 2021-2027; 1,8 mil milhões como reforço do fundo de coesão; 15, 7 mil milhões em valor de empréstimo a que se pode recorrer… perfazendo tudo: 73 mil milhões de euros… até ao final desta década o montante global com que a Europa vai contemplar Portugal.

 2. Com tanto dinheiro a entrar no nosso país devemos perguntar: onde se vai investir? A quem contemplar? Como distribuir e com que critérios? As áreas a contemplar serão as mais prioritárias no presente e para o futuro? A gestão de tanto dinheiro estará defendida de erros do passado recente? As entidades fiscalizadoras – tribunal de contas e outras a criar – terão capacidade de decidir no tempo correto e segundo objetivos mais amplos do que o ‘terreiro do paço’ lisboeta? A máquina rançosa da ‘administração pública’ terá velocidade e destreza para gerir todos os interesses sem favorecer alguns, desde já, interessados? O glutão ‘estado’ não será, mais uma vez, o favorecido, o beneficiado e o beneficiador?

 3. Fixemo-nos, então, naquilo que motiva esta reflexão: o alvo final de tanto dinheiro serão os ricos ou os pobres? Uns ou outros podem ser o sujeito do investimento de tantos milhões! Será, no entanto, perante aquilo que quisermos fazer a intenção, o desejo ou a motivação que tudo se explicará. Se forem os ricos o sujeito prioritário daquele investimento continuaremos a fazê-los ainda mais ricos, desnivelando as condições humanas, sociais, económicas e culturais para com os mais pobres, que, por seu turno, se tornarão ainda mais pobres. Se, por outro lado, forem os pobres o alvo de opção para aqueles milhões provenientes da UE, então poderão ser criadas condições, medidas e políticas, de favorecimento contra os pobres, não pelo recurso a subsídios – como tantas vezes tem sido feito e usado – mas pela valorização cultural (educativa e profissional) dos intervenientes ativos e não passivos sem critérios e valores. Com efeito, a tática recorrente de lançar dinheiro sobre os problemas dos pobres antes de os resolver mais os tem agravado, pois é preciso ensinar a lidar com as questões, usando os meios económicos como ajuda e não como mera solução.

 4. Muitas das forças políticas, sociais e até religiosas precisam dos pobres para sobreviverem nas suas tarefas em favor deles. Os ‘pobres’ dão de comer e promoção a muita gente. Por isso, há que tê-los presos pela boca – baixos salários, devedores de benesses, empregados baratos – e criando-lhes apetência por regalias que nunca terão, pois se as atingissem sairiam do role dos pobres e não dariam votos e devotos aos promotores. Por outro lado, se os ‘ricos’ forem mais humanizados – em linguagem cristã, evangelizados – poderão colocar os seus bens, dinheiro e capacidades múltiplas em fazerem diminuir os pobres…atuais e futuros. O problema é estar com eles sem se deixar aburguesar ou sem perder os critérios em favor dos outros.

Efetivamente combateremos pelos pobres, para os fazermos sair da pobreza, se os valorizarmos e combateremos pelos ricos, se os convencermos da sua utilidade em favor dos mais precisados, os outros.        

   António Sílvio Couto