Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sábado, 6 de março de 2021

… E o partido terá futuro?

 


Ocorre por estes dias o centenário do ‘partido comunista português’. Cidades, vilas e aldeias foram invadidas por milhares de bandeiras a assinalar a data. Conjuntamente foi semeado mais um slogan daquela formação partidária: ‘centenário – liberdade, democracia, socialismo – o futuro tem partido’.

Para quem não se identifica, minimamente, com o projeto, torna-se necessário consultar fontes que nos possam elucidar. Foi isso que fiz. Vasculhei os estatutos do partido. Nos setenta e três artigos, resumo os oito primeiros, naquilo que é dito sobre a identidade, natureza, objetivos e finalidade do mesmo (o itálico é citação dos estatutos)…

* Natureza e composição: partido político do proletariado, o partido da classe operária e de todos os trabalhadores portugueses... organiza nas suas fileiras os operários, os empregados, os pequenos e médios agricultores, os intelectuais e quadros técnicos, pequenos e médios comerciantes e industriais, homens e mulheres, que lutam contra a exploração e a opressão capitalistas, pela democracia, pelo socialismo e o comunismo (artigo 1);
* Ideologia: tem como base teórica o marxismo-leninismo: concepção materialista e dialéctica do mundo, instrumento científico de análise da realidade e guia para a acção (artigo 2);
* Os membros: educa os seus membros e orienta a sua actividade no espírito da fidelidade à causa da classe operária, dos trabalhadores e do povo português e à defesa dos interesses nacionais... Orienta os seus membros e a sua actividade no espírito do internacionalismo proletário, da cooperação entre os partidos comunistas e entre as forças revolucionárias e progressistas (artigo 3);
* Método: a força do partido assenta essencialmente numa correcta orientação política, na coesão ideológica, política e orgânica, na actividade organizada dos seus membros, na democracia interna e no trabalho colectivo (artigo 4);
* Ação e identidade: objectivos supremos a construção em Portugal do socialismo e do comunismo... e assegurar ao povo português o efectivo poder político, o bem estar, a cultura, a igualdade de direitos dos cidadãos e o respeito pela pessoa humana, a liberdade e a paz (artigo 5);
* Objetivos: regime de liberdade no qual o povo decida do seu destino... desenvolvimento económico...liberto do domínio dos monopólios... política social que garanta a melhoria das condições de vida dos trabalhadores e do povo... política cultural que assegure o acesso generalizado à livre criação e fruição culturais... uma pátria independente e soberana (artigo 6);
* Revolução de abril: a luta em defesa das conquistas...pelo socialismo (artigo 7);
* Democracia e socialismo:
na luta em defesa e pelo aprofundamento da democracia...empenha-se na criação de uma vasta frente social, [e] se traduza na convergência e unidade das forças democráticas e patrióticas (artigo 8).

Resumido o que pode ter interesse para quem não seja – nem pretenda nunca ser – militante, ouso colocar questões sobre o tal futuro.  

Atendamos aos resultados eleitorais do partido em celebração centenária:

- Legislativas: 2011 – 441.852 votos (7,9%); 2019 – 332.473 votos (6,3%);

- Autárquicas: 2013 – 552.690 votos (11,06%); 2017 – 489.189 votos (9,4%);

- Presidenciais: 2016 – 183.009 votos (3,9%); 2021 – 180.518 (4,3%)

Podemos considerar que há queda em cada ato eleitoral…tenha o intervalo que tiver (oito anos nas legislativas ou quatro nas autárquicas e presidenciais) nota-se descida. Será isso futuro ou tendência de desaparecimento?

Ainda não se percebeu que a ideologia coletivista está esgotada? As mudanças serão resultado de esclarecimento ou de desmotivação social e cultural?

Porque se escondem tantos fantasmas sob o manto de conquistas? Será de somenos que não se conheçam divergências, mas antes purgas? O pensamento único-coletivo revela força ou manifesta fraqueza?

Porque seremos, no nosso país, um caso de estudo, quando na Europa todos caíram a pique, aqui temos de ser mais melancólicos? Ou será manipulação prolongada com métodos usados pelos combatidos?   

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 3 de março de 2021

Desmascarando…sob máscara

 


Adereço ou peça essencial no nosso convívio e trato com os outros no dia-a-dia, a máscara trouxe muitos convenientes: nalguns casos escondeu o que nem sempre era tão bonito quão desejável; reduziu ao essencial o que seria visualizável; defende e serve-nos de defesa para que não haja contaminação viral; tem sido motivo de moda para desviar as atenções, criando outras intenções…

Poderemos, por outro lado, elencar ainda uns tantos inconvenientes nesta mascarada vigente e/ou necessária: deixamos de reconhecer com facilidade os nossos interlocutores; sem nos darmos conta corremos o risco de sermos indelicados, dado que não reconhecemos nem somos reconhecidos com quem nos cruzamos; o recurso à máscara talvez denuncie uma falta de respeito mútuo, pois facilitando vimos os números de infetados a crescer à mistura com tantos falecidos que se podiam ter evitado.

Se, anteriormente, ver alguém de máscara nos colocava de sobreaviso quanto a quem tal exibia, agora cruzar-nos com alguém sem máscara torna-se um risco, um perigo perante um potencial prevaricador a ser multado…

Ora, atendendo às leituras e interpretações deste ano de pandemia, questiono: por que não advertiram já a titular da pasta da saúde de que o seu ar prazenteiro e simpático não condiz nada com a gravidade dos números de infetados e de falecidos, que apresenta? Por que ainda temos de aturar algo que soa a mentira, mesmo que desejem vender outro produto?

  = Carta aberta às televisões generalistas nacionais

Andava entretido nestas lucubrações de saldo, quando foi publicado, num jornal diário, uma espécie de manifesto subscrito por 42 ‘personalidades’, que exigem «uma informação que respeite princípios éticos, sobriedade e contenção. E, sobretudo, que respeite a democracia».

Diz essa carta aberta, após enunciarem alguns ‘saberes’ sobre a doença, as vacinas, as regras sociais e até as crises dos ‘media’: «assinalamos a excessiva duração dos telejornais, contraproducente em termos informativos. Não aceitamos o tom agressivo, quase inquisitorial, usado em algumas entrevistas, condicionando o pensamento e a respostas dos entrevistados. Não aceitamos a obsessão opinativa, destinada a condicionar a receção da notícia, em detrimento de uma saudável preocupação pedagógica de informar. E não podemos admitir o estilo acusatório com que vários jornalistas se insurgem contra governantes, cientistas e até o infatigável pessoal de saúde por, alegadamente, não terem sabido prever o imprevisível – doenças desconhecidas, mutações virais – nem antever medidas definitivas, soluções que nos permitissem, a nós, felizes desconhecedores das agruras do método científico, sair à rua sem máscara e sem medo, perspetivar o futuro».
Contestam o uso de termos como ‘caos’ nos hospitais, ‘catátrofe’ ou ‘rutura’... e que se mostrem filas de ambulâncias, que se exibam agulhas, ventiladores, para concluirem: «sabemos que há uma pandemia causada pelo SARS-CoV-2, mas também sabemos que há uma diferença entre informação, especulação e espetáculo. E entre bom e mau jornalismo».

Seguem-se as ditas assinaturas, onde encontramos, entre tantos: oito professores universitários, três outros docentes, dois jornalistas, seis médicos, quatro escritores, cinco ligados às artes de representação... numa razoável lista de pessoas ‘capitalistas de esquerda’, isto é, que gravitam pela capital e estão conotadas com forças ideológicas do arco da atual governabilidade. Parecem ter deixado cair a máscara de quem querem proteger e atacar, dando a entender que não sabem lidar lá muito bem com a tal democracia que apregoam, mas que nem sempre (como agora) praticam... Pena é que alguns e algumas só emerjam em maré tão fétida.

Será que o governo já bateu tanto no fundo que precisa destes aios e aias para flutuar? Se há tanta competência, como insinuam, por que temem o poder dos particulares, na comunicação social? É verdade que esta anda de rastos, mas querer calá-la só depende de quem a compra ou visualiza, não de quem a pretende impingir ou silenciar!

Liberta que foi a classificação do livro das sevícias entre 25 de abril de 1974 e 25 de novembro de 1975, vemos com estupefação estas tomadas de posição ‘democráticas’, que mais parecem do tempo da ditadura!

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 1 de março de 2021

Enésima ‘praga do Egito’

 


Com alguma regularidade se ouve a alusão às ‘pragas do Egito’ para falar de algo complicado, de difícil interpretação e mesmo de estar sob suspeita de quem é a culpa ou se será castigo.

Muitos e diversos factos e acontecimentos foram acrescentados às ‘dez pragas do Egito’. Como não podia deixar de ser também esta pandemia do ‘coronavírus sars-cov-2’ – ‘covid19’ entra na já longa lista de ‘pragas’ continuadoras das ‘dez do Egito’.

Antes de mais façamos uma apresentação das ‘dez pragas do Egito’ suas causas e implicações e quais serão os sinais de leitura religiosa subjacentes.

 = As dez pragas: castigo ou modo de Deus se revelar?

Na Sagrada Escritura encontramos as pragas no livro do Êxodo capítulos 7 a 12, como sinais de Deus para a libertação do seu povo. Segundo alguns autores as ‘pragas’ podem ser um encadeado de fenómenos naturais que foram entendidos pelos israelitas como formas de Deus se revelar, ou dito por outras palavras e servindo-nos de uma linguagem usada no Concílio Vaticano II, os ‘sinais dos tempos’ (Constituição pastoral ‘Gaudium et spes’ sobre a Igreja no mundo atual, n.º 4) em contínua atualização.

Vejamos, então, as ‘pragas’, seu encadeado e, possível, julgamento dos deuses egípcios:

1) águas do Nilo convertem-se em sangue (cf. Ex 7,14-25) – será resultado de um fenómeno da mudança de clima e do aumento de temperatura em que se deu uma proliferação de algas e toxinas, avermelhando o rio; seria uma forma de colocar em causa o deus ‘hápi’, aquele que protegia o Nilo, como sinal de vida;

2) rãs cobrem a terra (cf. Ex 7,26 - 8,11) – em resultado da falta de oxigenação das águas do grande rio, as rãs subiram às margens e espalharam-se pela terra; seria uma forma de questionar a deusa ‘heqet’, símbolo da fertilidade;

3) piolhos (ou mosquitos) atormentam homens e animais (cf. Ex 8, 12-15) – em resultado da possível seca e das más condições das águas do rio e com as insuficientes condições de higiene surgem os piolhos e os mosquitos; seria uma forma de denunciar a incapacidade do deus ‘tot’, o inventor da escrita;

4) moscas escurecem o ar (cf. Ex 8, 16-28) – estas surgem em razão da morte das rãs que as comeriam, tendo ainda a ver com a falta de higiene devida a escassez de água do Nilo, que tinham sido contaminada; seria este fenómeno uma espécie de humilhação do deus ‘ptah’, criador do universo, aqui incapaz de suster a estabilidade:

5) morte dos animais (cf. Ex  9, 1-7) – dada a quantidade de mosquitos e moscas, bem como as alterações das águas do Nilo, os animais começaram a ficar doentes, sendo as primeiras vítimas do complexo estado infetocontagioso; vários deuses são questionados, pois não protegem aqueles a quem lhes seria devido: ‘hator’, deusa da beleza e da felicidade e ‘nut’, deusa-céu, criadora do universo;

6) pústulas cobrem homens e animais (cf. Ex 9,8-12) – essas erupções cutâneas poderiam ser resultado das infeções transmitidas pelos piolhos e as moscas; era colocada em causa ‘nete’, deusa da caça e da guerra;

7) chuva de granizo e fogo (cf. Ex 9,13-35) – as plantações são destruídas, em resultado da erupção do vulcão Thera (ilha no mar Egeu – de que há notícias em meados do segundo milénio antes de Cristo), misturando-se fortes chuvas com a lava incandescente; os deuses que controlam os elementos da natureza (água – ‘íris’ e fogo – ‘osíris’) são postos em causa;

8) gafanhotos (cf. Ex 10,1-20) – em razão das alterações climáticas (chuva de granizo e erupção vulcânica), com o solo húmido criou-se um ambiente propício para aparecerem milhares de gafanhotos, que atacaram as culturas; o deus do ar – ‘xu’ e o deus-crocodilo, protetor do Nilo – ‘sobek’ são questionados por não salvaguardem as plantações;

9) as trevas (cf. Ex 10, 21-29) – uma tempestade de areia ou as cinzas da erupção vulcânica, que encobriram o sol, podem explicar as densas e palpáveis trevas de três dias; o deus principal do Egito – ‘Rá – deus sol’ é colocado em causa e à prova;

10) morte dos primogénitos (cf. Ex 12,29-32) – seguindo uma tradição os filhos primogénitos eram os primeiros a comer, quando a comida era escassa, estes terão ingeridos alimentos contaminados com fezes de gafanhotos e morreram durante o sono; todos os deuses claudicaram, dado que não conseguiram livrá-los como ‘filhos dos deuses’, na designação dos egípcios sobre si mesmos.

Que lições podemos colher destas dez pragas? É uma forma de manifestar a grandeza e o poder do Deus de Israel, que foi derrotando e destruindo os deuses em quem os egípcios punham a sua confiança. Moisés e Aarão, como servos do Deus vivo, provam que Ele vence e está com o seu povo amado.

 = E, hoje, nós?

Quando algo se torna mais complexo de entender ou algum fenómeno da natureza questiona os entendidos (cientistas ou crentes) emerge a possibilidade de ser uma ‘praga do Egito’, nesse caso a 11.ª ou mais…As alterações climatéricas, em especial a poluição, os terramotos ou os tsunamis, questões relacionadas com a vida… poderão ser, hoje, sinais de ‘pragas do Egito’ atualizadas…

Que dizer ainda desta pandemia que tem varrido a Humanidade. Não será ela uma versão muito refinada do espírito das ‘pragas do Egito’? Os nossos deuses não estarão a ser submetidos à prova nesta enésima praga?

Para quem tenha um mínimo de fé, algo tem de nos questionar, inquirindo o nosso Deus…

           

António Sílvio Couto

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Palonços a mangar…

 


As palavras contidas neste título precisam, minimamente, de serem explicadas, até para que se possam compreender os objetivos deste texto e, sobretudo, os sujeitos/destinatários/intervenientes.

Comecemos pela palavra ‘palonço’, trazendo para aqui, antes de mais, a estória dos ‘amigos da onça’:

Dois caçadores conversam num acampamento:
- O que farias se estivesses agora na selva e uma onça aparecesse na sua frente? Dava-lhe um tiro.
- E se não tivesses nenhuma arma de fogo? Matava-a com uma faca.
- E se não tivesses uma faca? Apanhava um pau para me defender.
- E se não tivesses nenhum pau? Subiria à árvore mais próxima!
- E se não houvesse nenhuma árvore? Fugia a correr.
- E se ficasses paralisado pelo medo?
Então, o outro, já irritado, replicou: mas, afinal, tu és meu amigo ou amigo da onça?

Se tivermos na composição da palavra ‘palonço’ esse termo ‘onça’, então, poderíamos desmontar a compreensão de que um ‘palonço’ possa, sem se dar conta, ser amigo da onça mais reflexivo do que ativo ou passivo.
Onde se poderá radicar ainda a primeira parte da palavra - ‘pal’? Será uma abreviação de ‘palerma’? Será, por outro lado, uma mutação de ‘papalvo’, no significado de imbecil, parvo...
Eis em resumo significados de ‘palonço’: pessoa que se deixa facilmente enganar e prejudicar; pessoa que revela ingenuidade e falta de bom senso; pessoa que é pouco inteligente...
Por outro lado, explicando o outro termo usado no título. Que quer dizer: ‘mangar’? Na gíria popular pode significar: ‘fazer troça’, ‘escarnecer’, ‘zombar com a cara de alguém’...  podendo ainda envolver ‘fingir’, ‘mentir por brincadeira’.

Numa palavra: ‘palonços a mangar’ podem ser uns tantos a fazer chacota com os outros ou ainda que uns brincam jocosamente com os outros, rotulando-os de bacocos – outro termo da gíria – para envolver quem ‘não é muito esperto’ ou passa por ser ‘ingénuo’... 

= Vejamos, por isso, situações ou episódios, figuras e personagens, acontecimentos ou façanhas de palonços que andam por aí a mangar uns com os outros e com todos nós:

* Muitas das notícias –  verdadeiras ou falsas – têm subjacente mais um criar de intoxicação do que um autêntico sentido de informação. Tantas agências e empresas de comunicação fazem de nós palonços e estão a mangar connosco, seus súbitos, na maior parte das vezes, acríticos, anódinos e amorais... julgam eles!
A maior parte dos comentadeiros/as arregimentados por essas agências – na escrita, na rádio, na televisão ou nas redes sociais...em conjunto ou separadamente – são mais vendedores da mesma produção da empresa, que os contratou e eles paga, do que fazedores de opinião...que poucos acabarão por não apreciar, se descubrirem o logro em que estamos metidos.

Porque nos tentam impingir programas como ‘a hora da verdade’ ou o ‘polígrafo’? Acham que somos tão palonços e ainda não percebemos que, se é preciso escarafunchar mentiras, não será por sentirmos que estão a mangar com um tal foguetório de isenção?

* As longas e quase intermináveis discussões do futebolês gastam mais tempo do que os jogos. Se uns tantos têm o exclusivo pago para a visualização dos jogos – tem faltado coragem governamental para liberalizar em canal aberto as transmissões em tempo de pandemia – outros entretêm-se a limpar o osso dos casos, das intrigas clubísticas, das arbitragens, dos investimentos sem retorno desportivo... Há emblemas que vendem mais do que os outros, isto é, vemos mais palonços entretidos com a mangação fora das-quatro-linhas e o ambiente vai fervilhando...

* Que dizer da gestão política – governo, oposição, presidente e da população em geral – desta pandemia do covid-19? O tal ‘programa de recuperação e resiliência’ não parece ser um hino ao paloncismo nacional, mangando com zé-povo? Menos de um ano de covid matou mais do que 13 anos de guerra colonial... Ainda temos dúvida: somos palonços e estão a mangar connosco!

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

‘Big brother’: ainda faz sentido, hoje?

 


Decorridos mais de vinte anos sobre a primeira edição – 3 de setembro a 31 de dezembro de 2000 – podem e devem colocar-se várias questões: o ‘big brother’ (‘grande irmão’) faz sentido, ainda hoje? O público-alvo é o mesmo dessa época ou os alvos-públicos não mudaram? As condições sociais e tecnologias não se modificarão, de então para a cá? Mesmo com as diversas cambiantes (casa dos segredos ou quinta das celebridades), terá alguma utilidade pública um programa deste formato? Que influência ‘cultural’ trouxe à sociedade portuguesa tal programação televisiva e seus adereços, diversificações ou remarques? Até onde irá a panaceia de aturar tais entretenimentos? Com as indiscrições das redes-sociais, ainda terá algum interesse um programa de intrusão/exposição da vida privada ao espiolhar de todos?

Sendo um programa de formato televisivo, o ‘big brother’ tem tido múltiplas edições em vários países, desde o ‘original’ de reality show, proposta de uma empresa holandesa, em 1999, selecionando vários concorrentes que viveriam numa mesma casa, vigiada por câmaras e som vinte e quatro horas por dia…sendo feita uma votação para excluir os participantes, segundo critérios exteriores à casa ou intrínsecos aos conviventes.

O nome ‘big brother’ foi colhido do livro ‘1984’ de George Orwell, editado em 1949, que retratava um regime totalitário, inventado pelo autor, ao qual todos obedeciam, o ‘grande irmão’, num culto da personalidade, tolerada, embora detestada e combatida…até à sua queda final!

O ‘big brother’, em Portugal, teve seis edições com anónimos e mais três com os (apelidados) famosos. No sucedâneo ‘casa dos segredos’, estreado em 2010 e até 2018, houve treze edições (seis normais e sete especiais), até à reformulação em 2019, dando início a uma quinta temporada…mesmo em tempo de pandemia.

 = Feita esta deambulação histórico-literária-artística, talvez valha a pena centrar-nos nas razões desse tal programa de entretenimento, mas que se tornou algo mais do que aquilo que captamos ou que nos mostram.

Sair do anonimato – quem conhecia algum dos concorrentes, no dealbar da sua apresentação? Vindos das profundezas do país e das circunstâncias mais díspares, emergiram ‘figuras’ entre o tonto e o desequilibrado, à mistura com mentores de causas… num total devem ter passado pelos programas do ‘big brother’ e afins dezenas de figuras, figurinhas e de figurões, catapultando para a ribalta candidatos, concorrentes e até de alguns ‘artistas’ em maré de pouca visibilidade ou no ocaso da carreira. Desde a primeira hora foi tentador o prémio final, atingindo vinte mil contos (equivalente a cem mil euros)… Aquilo que foi novidade antanho já parece toda espremida, pois os concorrentes são material recesso de uma sociedade vazia, acomodada e derrotada.

– Expor a vida – uma das caraterísticas deste tipo de concurso televisivo ou reality show tem a componente de as pessoas permitirem ser expostas até nas facetas mais íntimas, dado que são vistas e ouvidas vinte e quatro horas por dia…para além daquilo que dizem, mostra-se o que fazem. Se a conquista do dinheiro/prémio poderia seduzir, esta exposição de tudo e a todos será um tanto questionável e particularmente deplorável. Há vinte anos atrás isso era ousadia, hoje pode parecer mais uma faceta desse colocar a vida-ao-sol que as redes sociais têm facultado, permitido ou incentivado… Em certos momentos ver intrigas e jogos nos entretenimentos da dita ‘casa’ já só na mente dos comentadores – alguns que já por lá passaram – e, sobretudo nos tempos mais recentes, de representantes de fações socioculturais mais ou menos amorais ou tendencialmente homifílicas…em maré de promoção.  

– Nivelar pelos pés – dá a sensação de ir decrescendo a qualidade dos intervenientes, mesmo que possam ser repetentes ou repescados. Tendo começado com teenagers – mais simples e sem filtros – tem aumentado a idade dos participantes, embora diminuindo a teor cultural e a consciência social das suas lucubrações desconexas. O ‘grande irmão’ – sem rosto nem tez – continua a deixar mistério e, quando há desvios do programa, ei-lo como inquisidor implacável…

Era bom que este tipo de chafurdice começasse a ser limpo do plano do audiovisual português. Basta de subdesenvolvimento e de exploração da classe trabalhadora, pois o que temos visto é a consagração da preguiça e da inutilidade, servindo ainda mais para criar a sensação de que tudo é fácil, barato e se consegue sem esforço… Cada concorrente ganha entre 200 e 850 euros por semana. Aquilo não é trabalho!

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Saúde ou economia?

 


Tem sido o maior dilema destes tempos mais recentes, designados de pandemia: como equilibrar as componentes saúde com economia e esta com aquela. Os dois confinamentos e os mais de dez ‘estados de emergência’ não conseguiram ainda esclarecer-nos sobre qual das vertentes se pode sobrepor uma à outra ou, pior ainda, se uma pode sobreviver sem a outra.

Claramente saúde e economia não se excluem, antes se complementam ou se devem conjugar e, sobretudo, precisamos de uma economia saudável. Ora, parece que é aqui que as coisas se complicam, no caso português, mais dependente das ajudas do estrangeiro e pouco com produção autónoma, seja na forma como no conteúdo, isto é, depois de nos terem ‘pago’ para não produzir, habituamo-nos a ter de tudo nos supermercados – como se fossemos ricos – deixando os nossos meios e bens de produção ao desmazelo ou à improdutividade… Decorridas três décadas de acomodação àquilo que a Europa – dita trabalhadora, produtiva e concorrencial – nos quis impingir, julgávamos que o ‘sol da nossa simpatia’ bastaria para gozarmos com os recursos dos visitantes… Fechada a torneira do afluxo turístico, entramos num descalabro ainda imprevisível… sem sabermos trabalhar a terra, incapazes de ter algo de próprio e à mercê do que nos quiserem dar em esmola!

 – Bastou um pequeno sopro de sobrecarga sobre o nosso sistema de saúde e logo entrou em rutura ou em pré-colapso. Os milhões despejados nos hospitais e outros adereços complementares ou subsequentes estatais não têm surtido o efeito – de propaganda e de ideologização – pretendido pelos seus exclusivos cultivadores. Muitos dos seus defensores, quando atrapalhados na saúde, não os vemos nas filas de espera das urgências nem nas listas intermináveis para ocorrências previstas. Soa-me a hipocrisia pura tanta exaltação do ‘sistema (ou será serviço?) nacional de saúde’…

Não está, minimamente, em causa a dedicação quase-sobre-humana dos profissionais de saúde, que, nesta fase de pandemia, deram o que tinham e algo bem mais profundo do que seriam capazes. Contesto, sim, a propaganda de certas forças estatizantes, que querem impor a tudo e a todos algo nefasto e contraproducente: só o que tem o rótulo de estatal é que é bom e/ou merece confiança.

Segundo dados mais ou menos fiáveis – foram recolhidos em consulta em organismos oficiais – há, em Portugal, duzentos e vinte e cinco hospitais, sendo destes cento e catorze privados. Perante tais verificações torna-se essencial questionar a ‘perseguição’ que certas forças marxistas-trotskistas têm em curso, a quem não se reduz a ser o que eles/elas desejam que todos sejam, pois não os conseguirão manipular como anseiam… ferozmente.

Em vez de ser criado um ‘sistema’ de conjugação entre os vários intervenientes, prefere-se um ‘serviço’ de exclusão pretensamente barato ou gratuito, simplista e até mal pago. Esse costuma ser o método usado pelos totalitários onde só eles têm razão e fora deles não se vislumbra solução. Ainda não aprenderam a respeitar a iniciativa privada e a capacidade de escolha dos cidadãos e a não sermos obrigados a viver no militarismo (ou será militantismo?) de pensamento-único.  

 – Na economia, que etimologicamente significa ‘governo da casa’, continuamos a ser intoxicados pela obsessão do estatal – o pretenso ‘plano de recuperação e resiliência’, cujas iniciais também podem ter a conotação de ‘para roubar e raspar-se’ – deixa quase exclusivamente de fora a iniciativa privada, conjugando e atribuindo mais força ao que consegue fazer das coisas públicas a preferência questionável. Pelo que se sabe de outros festivais e cantilenas, teme-se que, mais uma vez, os milhões vindos de Bruxelas desaguem nos mesmos lugares e beneficiem os portadores do cartão partidário e sob a simpatia de quem distribui… Pela recetividade de setores antagónicos – por exemplo sindicais e patronato – percebe-se que o dito ‘plano’ não agrada. Começa também a ficar a sensação de que, enquanto país membro da União Europeia, começamos a ficar viciados em fundos europeus, que se revezam uns atrás dos outros até ao esgotamento da subsidiodependência coletiva. Surge uma caterva de excluídos – como as autarquias e setores intermédios do Estado – que cobrarão, muito em breve, o silenciamento e o ficarem sem dinheiro. Haja saúde e trabalho!

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Fala-se mais daquilo que não há?

 


Por estes dias ouvi esta observação: perguntaram a um esquimó porque é que os poemas daquele povo falavam mais de ‘peixe’ do que de outras coisas; ao que o interpelado terá dito: falámos mais daquilo que não temos… assim como os vossos textos poéticos falam tanto de ‘amor’…

Embora possa parece algo de jocoso, nem por isso deveria deixar de interpelar-nos, sobretudo, no contraste colocado pelo dito esquimó para connosco, quanto ao que se refere à abundante alusão poética tendo em conta o tema aduzido: o ‘amor’, seja qual for o alcance que lhe quisermos dar…ou a necessidade a atribuir-lhe.

Na riqueza da nossa sabedoria popular encontramos frases-pensamento que resumem bem, por outras palavras, o que está contido nisto de que quisemos servir-nos e ocupar-nos neste texto.

Vejamos um desses adágios bastante citado, sobretudo quando as coisas ou situações correm menos bem: ‘casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão’.

– Desde logo temos de interpretar o âmbito de ‘casa’, que pode ir desde a simples residência ou morada (pessoal ou familiar) até ao espaço de um país, de uma empresa, de uma associação ou instituição privada ou pública, sem esquecer ainda as situações de alcance mais transversal, como os lugares de intervenção política, cultural ou intelectual/moral/ética… Não parece ser verdade que à força de tanto se insistir em certos temas e assuntos – alguns com ritmo cíclico, como democracia ou liberdade, responsabilidade ou participação, trabalho ou emprego, direitos ou deveres, etc. – como que denunciam (ou somos denunciados) a necessidade de serem muito mais aprofundados? De facto, falar de tais assuntos deixa a manifesto que estamos muito longe de já os termos compreendidos e de vivenciarmos segundo os critérios mais básicos… Com efeito, há terminologias que exigem que seja explicado o que entendemos por esses conceitos, dado que podemos estar a usar as mesmas palavras, mas, cada um, dá-lhe o significado que lhe convém ou lhe interessa. Por vezes assistimos a discussões de ‘lana-caprina’ (isto é, se a cabra tem lã ou se o pelo desta tem algum valor), que se tornam tão inflamadas pela simples razão de que não se usou o nível mais básico de uma conversa como é esse de cada qual explicar o que entende com aquilo que está a dizer ou a pretender comunicar… Se houvesse mais humildade e verdade, poderíamos construir em vez de derrubar!

– Ousemos explicitar o que significa ‘onde não há pão’, pois, em muitos casos, se reduz este elemento essencial da alimentação humana – o pão – a coisas meramente materiais, tornando os problemas afunilados em dialéticas marxizantes. Efetivamente nem tudo se poderá tornar esse alvo que faz correr tanta gente: as necessidades básicas, que mais do que suprimidas deverão ser satisfeitas. As primeiras vítimas em tempo de crise ou de colapso são os mais frágeis, muitas vezes rotulados de pobres e que alimentam tantos outros nas ações que tentam promover. Com efeito, se tirarem os ‘pobres’ aos políticos, aos sindicalistas, aos voluntários (mesmo em questões de Igreja), aos vendedores de feira ou aos promotores dos descontos nas grandes superfícies, que lhes restará? Os explorados em razão do pão – particularmente da falta dele – parece que sobrevivem enquanto os ‘pobres’ se reproduzem. Quanta gente está presa pela boca, qual anzol psicológico, para manter a flutuar tantos outros nem sempre sinceros para com aqueles que dizem servir!

– ‘Todos ralham’ – este ambiente de conflitualidade em que parecemos viver à flor-da-pele convém a muita comunicação social, que vai esticando as mazelas alheias para tirar proveito em maré de poucos assuntos. A crispação tem-se vindo a tornar um recurso alienatório, pois, enquanto, se discutem questões menores, outros – como os governos ditos populares, mas com alma de populistas – vão impondo as suas regras, por vezes, ditas democráticas, só pela simples razão de que foram, um dia, votadas.

– ‘Ninguém tem razão’, verdadeiramente, os problemas hodiernos são mais emocionais do que razoáveis. Querer impor a sua ‘razão’, disfarçada de opinião, parece ser hoje mais comum do que noutras épocas. Pior: pretende-se impor aos outros aquilo que não consentimos que não tenham para connosco. Precisamos, com urgência, de aprendermos a respeitar os outros, colaborando com eles para a construção de um mundo mais fraterno e solidário, mais humano e mais verdadeiro.

Afinal, quando se fala de ‘amor’ não significará que, acima de tudo, necessitamos de amar e de ser amados, de compreender e de sermos compreendidos, de cuidar e de sermos cuidados?     

 

António Sílvio Couto