Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Do homem-da-saia… à saia do homem


Um tanto pateticamente vimos, no dia de início da nova AR, um pretenso homem vestido, nos passos perdidos, de saia. Tudo parecia ainda mais inopinado se, ao lermos as ‘razões’, tal atitude possa roçar o exotérico, pois só ele e uns tantos mais (da sua linha ideológica-panfletária) perceberem a lição que pretendiam dar ao resto da população.
Aquela manobra de folclórica não terá sido uma forma de distração para os mais incautos da gaguez da deputada ao lado dele, no espaço parlamentar, que o tal assessor – soube-se depois que era essa a função em exercício – queria suportar? Será algo de paradigmático que, noutros assuntos, iremos ver manobras dessa distração para que os objetivos sejam atingidos com ironia suficiente e superficialidade quanto baste? Se a moda pega – não a da saia, mas a dos fait-divers – a dita ‘casa da democracia’ tornar-se-á ainda mais casa do jocoso e antecâmara do circo social e não-artístico? 
= Por muito (ou pouco) que o episódio possa revelar da liberdade de expressão, ele deverá ser mais do que motivo de distração, pois, como se viu posteriormente, o tal ‘homem-da-saia’ é mais do que um homem vestido com saia, mesmo que a moda em uso seja suscetível de críticas…mesmo do estilo e de gosto. Veja-se que logo vieram vozes – entre as quais a do próprio – a defender a alta cotação intelectual do dito. Mas não será que o ridículo e a falta de senso não andam muitas vezes associados à liberdade de fazer o que se quer, mesmo quando com isso se pretende que esteja longe da normalidade da regra? Certas (ditas) passagens de modelos, em acontecimentos que preenchem páginas e resmas de revistas cor-de-rosa, não andam na franja do bom senso e, quantas vezes, do sem-senso? Como se poderá compreender que haja na comunicação social um departamento de ‘crítica social’, que mais não faz do que colocar à mostra aquilo que a moda, a roupa ou a falta dela, quiseram despertar com outros seguidores, adeptos e sequazes? 
= Aquela imagem do ‘homem-da-saia’ nos passos perdidos da AR, trouxe à liça querer compreender um tanto melhor não o uso da saia, mas o seu recurso pelo sexo masculino… Se a coisa for colocada na instância de ‘género’, o assunto pode mudar ainda mais de figura e talvez mesmo de horizonte.
Nada nem ninguém tem autoridade para contestar que um homem se vista de saia. O traje eclesiástico da batina é o quê? O hábito dos religiosos não tem uma configuração um tanto idêntica à da saia, ao menos na formulação posterior do corpo? A tradição do kilt de certas culturas anglo-saxónicas não parte de idêntica e mais elaborada apresentação? 
= Talvez o que aconteceu na data de abertura da 14.ª legislatura, no passado dia 25 de outubro, pode tornar-se como que num não-assunto, onde as manobras de distração poderão andar de mão dada com iniciativas que intentem subverter a nossa cultura judeo-cristã, dando azo a que uns tantos possam aproveitar-se das fragilidades de outros para imporem – mesmo de forma bizarra e algo desleal – as suas ideias e não para criarem, como seria desejável, consensos sobre o que de melhor possa ser para todos e não só para os seus apaniguados.
A saia do homem-assessor não pode converter-se no ensaio do homem-da-saia… meramente provocador ou talvez não!

António Sílvio Couto

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Estado distribui o que os privados ganham?


A tendência em menorizar a iniciativa privada por contraste com a capacidade de distribuição de regalias pelo Estado tem vindo a acentuar-se, tanto na mentalidade como no comportamento de uma boa parte dos governantes – e afins – no nosso país.

Disso mesmo podemos dar conta ao consultar o programa do XXII governo constitucional, desde logo o mais longo em gente, o mais lesto em partidarite e possivelmente o mais lento em decisões credíveis e aceitáveis para todos e não somente para a fatia do funcionalismo estatal.
Vejamos alguns dos enunciados do programa de governo (extraído da introdução do texto publicado):
* Desafios estratégicos: combater as alterações climáticas; responder ao desafio demográfico; construir a sociedade digital; reduzir as desigualdades.
* Regas de boa governação: contas certas para a convergência com a União Europeia; melhorar a qualidade da democracia; investir na qualidade dos serviços públicos; valorizar as funções de soberania.
Se atendermos ao sumário do dito programa pouco ou nada faz olhar com a devida atenção para o papel da iniciativa privada, antes pelo contrário, se exclui qualquer privatização e se acentua ‘nacionalização’ de tudo quanto possa acontecer, como por exemplo na área da saúde.
É notório o papel do Estado-patrão, onde quem não estiver tutelado por ele ou atrelado a ele não consegue atingir os fins de uma sociedade marcada pelo ferrete anti-privado.
Será que as conquistas tão altissonantes de ‘recuperação dos rendimentos e da confiança da economia e do emprego’ se fizeram só à custa das contas certas e não de alguma austeridade suportada por impostos nem sempre claros e justos? Será que o autoapelidado ‘ciclo de consolidação da recuperação da economia’ se fez (ou não fará) pela habilidade dos governantes ou não foi, sobretudo, fruto da conjuntura internacional favorável? Não será que o almejado ‘ciclo de sustentabilidade a longo prazo’ não estará em causa, quando se descobrir que a distribuição de proventos e de benesses foi enganadora e iludiu o povo mais do que o educou para a verdade daquilo que são as nossas frágeis possibilidades? 
= Certamente que já todos nos questionamos onde vai buscar – o termo tem alguma conotação com a caça – o governo fonte de financiamento para ter proventos capazes para as obras públicas, as diversas áreas de intervenção do Estado, para salários, ordenados e pensões e até para, desde quando em vez, dar uns trocos de garantia aos seus servidores, que são os mais de oitocentos mil funcionários públicos. Claramente a resposta é: aos impostos, lançados, cobrados ou exigidos às pessoas e empresas. Como estas são entidades privadas e não podem fugir ao fisco, sob o risco de serem multadas, penhoradas ou fechadas, vemos que a grande fonte de receita do Estado-patrão está situada naquilo que o governo – e as ditas forças de esquerda – não aprecia, não ajuda e muito menos considera parceiro do desenvolvimento social, económico ou empresarial.
Não podemos esquecer ainda as subvenções da UE como fonte de muitos dos fundos governamentais…
A queda do desemprego – referido no documento do governo como tendo atingido mais de 350 mil novos empregos – à fasquia mais baixa do tempo da (apelidada) democracia…é título de glorificação. Até a subida do ‘ordenado mínimo’ foi arte e obra do governo passado e vai continuar, galopantemente, neste.
Há questões que, por serem da área da iniciativa privada, não são tocadas nem ao de leve. Poderão todas as empresas – ditas pequenas, médias ou da economia social – suportar tais subidas? Certas forças ditas ‘patrióticas e de esquerda’ – tão defensoras das pequenas e médias empresas – são das que propõem que o tal salário mínimo mais suba, não cuidando se há ou não meios de o conseguir. 
= Nenhum país cresceu, cresce ou crescerá sem uma harmoniosa articulação entre o que compete ao Estado e a iniciativa privada. O mal, neste momento, no nosso país, é a acentuada reversão em considerar a iniciativa privada, com o conjunto dos partidos em maioria, para que o Estado seja dono e senhor de toda capacidade de promoção, de apoio e o menos possível de subsidiação. Para alguns que sempre viveram sob a proteção do Estado não lhes faz confusão o que acontece, mas quem teve de se fazer por si, custa ver-se relegado para plano secundário, particularmente se não se quer viver de sopas alheias…    

António Sílvio Couto

domingo, 27 de outubro de 2019

Entre a vida e a governança





No mesmo dia e em horas desencontradas, decorreram na cidade de Lisboa, a 26 de outubro, dois acontecimentos paradigmáticos: a tomada de posse do XXII governo constitucional, no palácio da Ajuda, e a ‘marcha pela vida’ (na sua 9.ª edição), entre o largo Camões e o Parlamento, em Lisboa… e em mais cinco cidades: Porto, Braga, Aveiro e Viseu. 
= O acontecimento do governo ocupou todas as luzes e o resto sobre si, enquanto a ‘marcha pela vida’ teve umas fugazes imagens de um quase desdém e ao arrepio da mentalidade reinante.
Depois do limbo noticioso a propósito do governo…desde as eleições de 6 de outubro, vamos estar em grande frenesi nos próximos dias, vendo e mostrando as novas/velhas figuras, justificando os gastos acrescidos e as causas de diversão para que se não olhem os problemas de frente nem se tenha de tomar medidas contra a violência nas escolas, as inconcebíveis condições de viagem nos transportes públicos ou mesmo as incontornáveis mazelas da justiça… Tudo está bem, quando o governo diz que nada acontece ou não quer aceitar ver! 
= À semelhança de outros anos a ‘marcha pela vida’, mesmo de modo transversal, trouxe à colação problemas na área da saúde, onde dizem os responsáveis estatais, parece estar quase tudo sob controlo, não fossem a falta de pediatras para manter urgências abertas, as longas listas de espera para consultas e cirurgias, as convulsões dos serviços, tanto com os enfermeiros como com os médicos…
Tudo isto é tanto mais simbólico, quando no primeiro dia da nova AR, um partido trotskista – que julga ganhar, mas que afinal perdeu mais de cinquenta mil votos só nas últimas eleições – colocou uma iniciativa para legalizar a eutanásia. Esta gente é daquele tipo de carraça que só larga quando mata o animal de aluguer… Foi assim no aborto, insistiram no tema até terem um vislumbre de vitória sem glória – o resultado do referendo não atingiu os votos previamente programados para ser válido – e, agora, voltarão à carga até vencerem pela exaustão quem os pretenda enfrentar…
É público e notório que a campanha do aborto como meio de controlo da natalidade está a dar frutos: querem ter filhos nas escolas, mas mataram-nos legalmente pelo aborto…desde 2007 e estamos a colher os frutos; querem ter a sobrevivência da segurança social, mas enjaularam os critérios nas consultas de planeamento gizado nos critérios abortistas mais baratos e simplistas; reclamam de que o país está velho, mas mataram as fontes de vida pelo aborto e por outros interesses hedonistas à la carte…
 = Não deixa de ser patético que o governo queira rejuvenescer a população com artifícios de má conduta, isto é, lança as premissas para estar a favor da vida, mas continua a servir-se de dislates anti-vida, desde os mais primários até aos mais complexos. Quem seja a favor do cuidado dos mais desfavorecidos – como dependentes, sem mobilidade ou incapacitados de autonomia – não consegue vislumbrar algo que, na lei e nos impostos, os proteja e/ou os ajude. Há momentos em que o estado/governo se comporta como ditatorial, pois só os ‘seus’ modelos (materialistas, sincopados pela aparência ou aureolados de boa imagem) valem e quem não for da cor do partido (ou afins) está, à partida, relegado para fora das ajudas, comparticipações ou benesses.
Por analogia com a trama no ‘Triunfo dos porcos’ de George Orwell, na quinta todos os animais são iguais, mas há uns que são mais iguais do que outros! Apesar da distância no tempo (1945) e da filosofia subjacente (comunismo soviético), vemos como pululam tantos tiques dessa época naqueles que assumem, agora, o mando por cá. Creio que ser-lhes-ia muito útil ler e meditar sobre aquele tempo para que não se cometam neste tempo erros que deviam estar há muito ultrapassados…
Ao vermos a tomada de posse do XXII governo constitucional, o ‘triunfo dos porcos’ deixou um certo amargo de confusão entre o ‘napoleão’ da estória e os intervenientes desta memória…mesmo que negociando novos moinhos de vento em vez das centrais a carvão…dentro de quatro anos! A vida tem mais encanto quando se gasta tempo na reflexão daquilo que somos e não naquilo que queremos impingir…

António Sílvio Couto

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Entre o ‘anti’ e o ‘pró’… (h)aja bom-senso


Os prefixos ‘anti’ e ‘pró’, por vezes, surgem como contraditórios…embora possam ser interpretados como complementares, pois, quem se diz ‘anti’ parece querer pronunciar-se ‘pró’ e vice-versa. Também na grafia deste título queremos exprimir duas conceções: ‘haja bom-senso’, isto é, que exista esse tal senso comum em qualidade suficiente e capaz e que ‘aja bom-senso’ significa que se atue com ponderação e sem extremismos, que o ‘anti’ ou o ‘pró’ podem conter…por antagonismo.
Nos mais diversos campos de atividade vemos que aparecem figuras que são ‘anti’ qualquer coisa pela quase necessidade de que isso possa fazer ser/estar ‘pró’ ou a favor de outro algo, possivelmente nas antípodas do que se combate.
Vejamos breves exemplos de possibilidade:
- Se tivermos em conta o campo político/ideológico conseguimos encontrar muitos exemplos de ordem provocatória: do antifascista ao pró-comunista/marxista; do anti populismo na referência de direita ao pró-populismo na consonância do extremo à esquerda; quem se tente afirmar anti tudo e pró pouco… 
- Outro setor/vetor deste confronto ‘anti’ – ‘pró’ situa-se nas questões da vida e nalguns aspetos de índole moral, pois ser pró-aborto exclui ser pró-vida e, quando se coloca a questão da eutanásia parece que ser pró-eutanásia é mesmo escolher estar anti-vida… Há, por vezes, antagonismos que se criam, difundem e defendem que têm muita de carga em ignorância e onde estar ‘anti’ ou ‘pró’ significa muito mais do que aceitar ou rejeitar uma posição diferente da minha. 
- Nos tempos mais recentes é, no campo do ambientalismo, que temos visto, limos e ouvido posições mais acirradas nesta dialética ‘anti’ – ‘pró’, tornando-se certas visões, suficientemente, fundamentalistas e quase irracionais. Há situações em que uma posição é benéfica ou não, atendendo a quem diz – de direita ou de esquerda, progressista ou conservadora, interessante ou desprezível – e não tendo em conta o que é dito e com que fundamentação. Mesmo no quadro dos partidos com assento parlamentar na AR reaberta podemos ver diversos interessantes, que se têm vindo a acusar de mais ecologistas, ambientalistas ou mesmo defensores da natureza, tenha esta o significado que cada um lhe quiser dar. Deste modo podemos ver uns que são ‘pró’, mas que os outros consideram ‘anti’ e que, do outro lado da barricada, podem ser ‘anti’, mas vestem a capa do ‘pró’! 
- Até no campo das igrejas – incluindo a católica, em particular – há quem se posicione no ‘anti’, mas o que faz é para iludir os outros, pois, está a favor (‘pró’), mesmo que o faça de forma capciosa. Quantos deambulam pelos corredores do poder, sem autoridade, mas que exigem aos outros aquilo que não cumprem, minimamente. Em certos casos é maior a vergonha em não denunciar do que a desvergonha em incumprir. Certos corifeus da moralidade escondem-se sob a capa que lhes convém, até que se descubra que há incongruência entre o dizer e o fazer. A melhor forma de se ser verdadeiro é poder parecer que se é ‘anti’, mas na prática se está ‘pró’… ou vice-versa, desde que aja em consequência daquilo que se faz com o que se haja…E, se de repente, alguém quisesse mudar, isso não incomodava ninguém! 
- Mais do que mediania, que nada muda nem muito menos incomoda, através do bom-senso poderemos corrigir erros de extremismo e, sobretudo, dando a quem o tenha uma capacidade de ser e de estar tentando descobrir em cada pessoa o que há de positivo e não estando na retranca da sua maledicência ou má intenção. Embora não esteja à venda nem em saldo, o bom-senso é sempre útil e benfazejo…para estar ‘anti’ ou ‘pró’!

António Sílvio Couto

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Qual o significado de um governo tão extenso?


Dezanove ministros e cinquenta secretários de estado, fazem do XXII governo constitucional o mais extenso de todos na era (dita) democrática.
Várias pessoas já se interrogam sobre esta inflação de gente levada para o governo, cerca de sete dezenas. Será isto forma de dar emprego a certos boys e a umas tantas girls do partido, conjugando distritais, concelhias e locais? Não se estará a esbanjar tão rapidamente o que foi amealhado com esforço e sacrifício? Dizem uns tantos mais exagerados, que se dividiu em excesso e que se virá a decidir no mínimo…tais serão as sobreposições de tarefas e até de competências.
Tal como se pode constatar o governo português é, na UE, dos que mais elementos coloca na área da governação, talvez fazendo jus a essa tendência quasi-terceiro-mundista de querermos aparecer alguns (bastantes, diversos e aos molhos) para pensarem que somos muitos…e talvez bons! De facto, a eficiência não se mede pela quantidade, mas, de verdade, pela qualidade. Ora, esta não parece abundar no elenco do vigésimo segundo governo. Com efeito, nota-se a repetência, que não rima como eficiência, provinda do elenco anterior, de 14 ministros e de 23 secretários de estado, trocados, mesmo assim alguns, de pastas…num total global de 19 ministros (11 homens e oito mulheres) e de 50 secretários de estado (33 homens e 18 mulheres), em percentagem global de 37,1% de mulheres e de 62,9% de homens.
A fazer fé – coisa que não se percebe na panóplia dos intervenientes – nas boas intenções do ‘chefe’, este elenco governativo pretende combater a desertificação do interior, tentar maior descentralização e a gestão dos recursos humanos do aparelho de estado… Todos começam assim, mas bem depressa caem nas tentações do ‘terreiro do paço’ e comportam-se como anjos caídos à semelhança do morgado de Fafe em Lisboa e tantos outros bem-intencionados… Leiam-se textos da literatura do final do século XIX e veremos os mesmos erros, tiques e promessas…Hoje como ontem! 
= Há dias recebi um email, com indicação de ‘formação para…’, mas não vinha nada nos anexos, ao que respondi, em jeito de sarcasmo: página em branco – sinal ou profecia?
Mutatis mutandis, direi com tanta gente num só governo, vai funcionar ou vão-se atrapalhar? Darão conta do recado ou esbanjarão sem nexo? Teremos um tempo de governo ou de governança?
Uma nota algo preocupante em vários setores da nossa vida pública é vermos que a incompetência compensa e quem antes fez mal pode chegar a lugares de topo e/ou de governo. Esta sensação perpassa muitos dos campos da intervenção na nossa sociedade e este elenco governativo não está isento desta pecha. Quando foi preciso reduzir a pó os estabelecimentos de ensino não-estatal, lá esteve alguém que agora vai assumir a tarefa da modernização e de administração pública… talvez reduzindo a iniciativa privada a um montão de escombros para reciclar… Por entre tanta incompetência em gerir os fogos mortais dos anos recentes, vemos que o posto de comando foi colocado na mesma mão… Observadas divergências para com a televisão estatal, vemos tutelar quem antes se incompatibilizou, sabe-se lá se de forma real ou fictícia… 
= Por entre o nevoeiro do futuro não se vislumbram mais do que sombras nem sempre de bom agoiro, pois a tendência de boa economia e que gerou ‘contas certas’ talvez não se possa prolongar por muito mais tempo. A versão favorável vinda do exterior não parece querer dar continuidade a quem vai geri-la…até porque caiu uns pontos na hierarquia do comando…político. Será isto prenúncio de menos boa prestação ou poderá servir de desculpa, quando se verificarem as primeiras infiltrações?
Setores tão importantes como a saúde, a educação, a segurança (social e pública) continuam com os mesmos titulares, não havendo adiamento para decidir o que urge e não continuar a desgovernar o que resta. Setores primários como a agricultura e os recursos marinhos estão na cauda do elenco, dando como que a entender que nos bastará receber o que venha de fora, pois produzir não compensa… Isso de dar boa impressão de que se vai atender ao interior desertificado e sem meios de sobrevivência bem depressa se tornará uma fraude intelectual e moral… Não basta trocar de boys ou de girls, se o pensamento está inquinado, mesmo na vertente do ambiente. Parece uma coisa grande, mas veremos se será (e fará) uma grande coisa!   

António Sílvio Couto

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Aprendizagens (normais ou bizarras) para idosos


Volta e meia lemos, ouvimos ou vemos que um grupo de idosos foi fazer uma nova ‘experiência’ de aprendizagem…de hóquei em campo, de dança, de música, de teatro…indo ao encontro das suas memórias, recordando tempos passados…explorando novos campos em imitação dos mais novos…
Certamente que é importante e fundamental que os mais velhos – custa a ver que se substitua a palavra ‘velho/a’ por outra pretensamente similar – estejam ocupados em atividades que os satisfaçam e não que os possam como que ridicularizar. Isso cabe à programação de gerontologia…educativa, social, psicológica… nos ‘determinantes genético-biológicos e socioculturais’.
Tentemos encontrar uma básica referência aos termos que podem envolver os mais velhos. Diz-se na wikipédia quando se fala das diversas vertentes do envelhecimento e da gerontologia: O envelhecimento representa a dinâmica de passagem do tempo e a velhice inclui como a sociedade define as pessoas idosas. A biologia do envelhecimento estuda o impacto da passagem do tempo nos processos fisiológicos ao longo do curso de vida e na velhice. A psicologia do envelhecimento, por sua vez, se concentra nos aspectos cognitivos, afetivos e emocionais relacionados à idade e ao envelhecimento, com ênfase no processo de desenvolvimento humano. A sociologia baseia-se em períodos específicos do ciclo de vida e concentra-se nas circunstâncias sócio-culturais que afetam o envelhecimento e as pessoas idosas. 
= Estamos a falar de ‘velho/a’, mas, desde quando, é que uma pessoa entra nesta fase ou estádio de vida? Haverá um marco fixo ou andaremos ainda à procura de uma data mais ideal? Com a evolução da média de idade em termos de falecimento, ser velho em que idade se situa?
Poder-se-á considerar que ‘velho/a’ se pode enquadrar por volta do sessenta e cinco anos – numa aproximação à dita ‘idade da reforma’ (se esta aumentar, aumentará a outra?) – tendo, no entanto, em conta a condições de vida de cada sociedade, país ou mesmo cultura…
Segundo dados publicados recentemente, em Portugal, por cada 100 jovens há 153 velhos. Se atendermos a dados anteriores poderemos ver que em 1960 havia 27 velhos por cada cem jovens… o que nos dá a noção bem clara do envelhecimento progressivo da nosso país, prevendo-se ainda que, em 2050, quase metade da população portuguesa tenham mais de cinquenta e cinco anos. 
= Perante este rápido e (quase) superficial diagnóstico que vemos ser implementado para os mais velhos? Por vezes vem-nos à lembrança o recurso aos lares – agora pomposamente designados de ‘estrutura residencial para idosos’ – atendendo a que as famílias não conseguem nem têm meios para cuidar dos seus mais velhos, sejam pais ou outros: desde os mais simples e baratos – o que não quer significar desleixados ou sujos – até aos mais elaborados e com taxas exorbitantes, vemos de tudo num mercado onde o estado/governo não investe, embora vá subsidiando, apoiando ou mais ou menos ajudando… Bastaria aqui trazer à colação o que o estado/governo gasta com cada preso: cerca de cinquenta euros por dia, enquanto dispõe de pouco mais de dez euros diários de comparticipação para os lares devidamente certificados, acompanhados e visitados (fiscalizados) pela segurança social…
Iniciativas como a ‘universidade sénior’, atividades de ocupação do tempo (onde se podem incluir, de forma organizada, os centros de dias), locais de encontro e de convívio…umas vezes organizadas por associações e entidades ligadas à área, noutras vezes assumindo as autarquias esse papel, sobretudo em maré de eleições ou como atividades de promoção de quase entretenimento com segundo sentido.
Há, no entanto, situações que seriam dispensáveis, quando usam os mais velhos – em especial por ocasião de festividades como o natal ou o carnaval – em algo que não os dignifica, antes como que os ridiculariza. Não gosto de ver mais velhos a fazerem figuras tristes, vestidos com roupas que os infantilizam ou pior os fazem algo de chacota local ou mais alargadas, pois algumas dessas atividades não há quase pejo de divulgar pelo buraco da fechadura em que se tornaram certas (ditas) redes sociais… Sinceramente: não gostava de ver o meu pai ou a minha mãe a fazerem certos papéis, que considero menos dignos de pessoas com história de vida e de dignidade a preservar… Aprender a ser velho/a e a lidar com eles, precisa-se!               

António Sílvio Couto

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Populismo tem cor, rótulo ou fragância?


O que é o populismo? Qual a cor (ideológica) preferencial do populismo? Será um qualificativo ou um epíteto de mau gosto e de pior agoiro? Estaremos, de verdade, numa época propícia a populismos?
Vejamos o que nos diz a enciclopédia wikipedia sobre o assunto: «Populismo é um conjunto de práticas políticas que se justificam num apelo ao “povo”, geralmente contrapondo este grupo a uma “elite”. Não existe uma única definição do termo, que surgiu no século XIX e tem obtido diferentes significados desde então. Poucos atores políticos descrevem a si mesmos como “populistas”, e no discurso político o termo geralmente é aplicado a outros pejorativamente. Em filosofia política e nas ciências sociais, diferentes definições de populismo têm sido usadas. O termo também é usado de forma variada entre países e contextos políticos diferentes. Alguns autores simplesmente rejeitam o uso do termo como excessivamente vago».
Ora, sinal dos tempos que decorrem de um modo algo atribulado, é esse de vemos prelados católicos pronunciarem-se sobre ‘populismos’, advertindo que pode haver uns mais perigosos do que outros… numa quase tentativa de branqueamento perante certas forças mais ou menos influentes.
Esta onda de tal perigosidade vai lançando com subtileza as garras àquilo que, múltiplas figuras pensantes e adjacentes, convencionaram apelidar de ‘populismo de extrema-direita’, enquanto uma outra corrente, que defende temas na extremidade inversa, a da ‘esquerda’, combate, menospreza e achincalha, assuntos como a vida, a defesa do nascituro e do velho/doente em ponto extremo, da família e de outros valores quase fundacionais da nossa cultura judeo-cristã. Com efeito, quem defende e exerce o direito e a prática do aborto e da eutanásia, propaga e vive segundo a ideologia de género e tudo o resto que faça da família algo de insignificante…não é rotulado de ‘populismo’, mas recebe a catalogação bem contrária da classificação de ter ideias progressistas, antissistema e aceitáveis…popularmente. 
= Exatamente é para denunciar esta incongruência pública e também privada, que me proponho gastar algum do esforço nesta reflexão.
Desde logo há que acertar: populismo nunca é bom, tenha ela a cor que tiver e venha travestido da roupagem que lhe quiserem enfiar…mesmo que com alguma fragância dos urais ou da muralha chinesa…
Sem qualquer remoque de sarcasmo, ouso citar um diálogo entre um cego e um coxo; diz aquele a este: como vais…responde o outro: como vês!
Efetivamente esta temática do populismo é uma espécie de remake desta conversa, pois, uns veem que os outros não conseguem andar, enquanto uns tantos tentam andar o que os outros não conseguem, minimamente, ver.
Parece que, no nosso tempo marcado pela velocidade e por alguma superficialidade que lhe pode estar adstrita, se ergue uma tendência maioritária a considerar que não podemos defender algo que possa destoar de uma pretensa conjugação entre os anti-valores, preferencialmente fora do quadro judeo-cristão, e um acentuado neopaganismo, senão explicito ao menos tácito. Certas correntes ecologistas – num afunilar ecológico/vegan – endeusam a natureza e matam os humanos, protegem os animais e sacrificam as pessoas, encrespam-se perante os desvios de milímetros e toleram abusos de quilómetros…Nunca como agora pretender ser (ou fazer-se passar) ecologista se foi tornando campo de camuflagem e um terreno minado para vários interesses a gosto e sob promoção barata…em final de feira! De facto, os vendedores de material contrafeito, perante estes fazedores de ecologismo/populista, quase parecem fiscais em rusga avisada. 
= Temos de assumir: não há populismo um bom e outro que pode ser mau, sobretudo, se fizerem de tal distinção um campo preconceituoso ou, pelo menos, mal-intencionado. É digno da maior repulsa que pretendam impingir que o populismo é de direita, quando vemos o de esquerda a ser tanto ou mais repugnante do que aquele que catalogaram com a conivência de forças que de democráticas têm pouco, agora e no passado recente. O regime da Venezuela e da Correia do Norte não é populista? Ou será que só o do Brasil e dos EUA é que merecem tão qualificação?
Populismo (de direita ou de esquerda), não, obrigado! Não será que o populismo em Portugal está no poder?          

António Sílvio Couto