Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sábado, 11 de março de 2023

Tempo da Igreja e tempo da comunicação social

 


Na pressa de querer influenciar – contido na informação, no comentário e nalgumas posições das forças da comunicação social – temos visto uma solene e gritante discrepância na contagem do tempo, tanto para esta força de poder como naquilo que para a Igreja católica significa e representa no hoje da história. São duas formas quase-contraditórias de entender o tempo, pois, se na comunicação social fala-se sem pensar, tal é a pressa em noticiar, superficialmente, na Igreja, por método, pensa-se aturadamente o que pode parecer que se está a adiar ou a ganhar tempo.

Nos tempos mais recentes a Igreja católica foi-se aferindo àquilo que boa parte da comunicação pretende: dizer atempadamente aquilo que se pode, deve e é preciso, não deixando para amanhã aquilo que devia ter sido dito anteontem.

1. Os entendidos da comunicação no espaço da Igreja precisam de esclarecer os seus parceiros de tarefa o que está a ser feito é um grande esforço de aferição aos ritmos da própria Igreja, habituada a ponderar, a falar pela certa, a não entrar em conjeturas e tão pouco a queimar etapas na sua comunicação para dentro e para fora. As críticas que têm sido proferidas para com os bispos sofre desta pecha, pois muitos deles, mesmo tendo gabinetes de comunicação nas dioceses, ainda vão gerindo o processo à moda antiga.

2. Neste capítulo dos ‘abusos sexuais’ há duas vertentes que precisam de ser tidas na devida conta: algumas redações têm uma agenda encriptada para desautorizar – a palavra deveria ser outra, mas um espaço destes não nos permite usar temos do calão – os bispos e, por outros lado, boa parte dos intervenientes nas questões veiculadas desconhece – umas vezes por ignorância e outras por transferência para a esfera da Igreja das leituras e argumentos que usam nos assuntos políticos – partidários ou de teor autárquico... A autonomia das dioceses dá autoridade a cada bispo de tratar das questões como achar mais corretas e não à maneira de todos alinharem num pensamento mais ou menos de rebanho... Certos comentadores fariam um bom serviço a si mesmos se ficassem calados: o seu silêncio seria uma intervenção solene, não deixando escapar opiniões sobre aquilo que não sabem, tornando-se, de alguma forma, ignorantes encartados.

3. No tempo em que tínhamos homens da Igreja que sabiam dizer – mesmo sem as técnicas dos cursos de jornalismo – vimos bispos cuidarem da comunicação, não andando a falar a toda a hora e momento, numa verborreia sem contéudo, mas não com muita aparição... como hoje vemos alguns dos prelados. Quem ensinou Jesus a contar histórias e através delas fazer a comunicação duma mensagem intemporal? Onde aprendeu Paulo e com isso deu-me formas de estar que ainda estão atuais? Costuma ser uma arte essa de promover certas figuras, enquanto interessam, mas que depois são chutadas para longe da ribalta, dado que fizeram o papel que lhe foi acometido. Urge saber quem manda em quem. Quem manipula quem ou o que serve de disfarce para se estatelar, pois em breve já não tem uso nem interesse? Certas simpatias e cordialidades podem esconder outros interesses e servidores...

4. A qualidade da comunicação social está ao nível dos temas com que se entretém e faz dos tempos das noticias espetáculos, no mínimo, degradantes, só comparáveis aos tutores morais que os engendram, promovem e divulgam. Já não basta dizer o que foi dito ou mostrado, é preciso acrescentar onde ou por quem foi dito ou apresentado.

Se a Igreja tem de aprender a comunicar segundo as regras dos nossos dias, também os comunicadores deverão entrar na lógica comunicacional da Igreja ao longo dos séculos: desconhecerem-se poderá ser fatal para todos, mas sobretudo para os cristãos, cuja missão neste mundo é e sempre será paradoxal. Quando todos nos entenderem, será de questionar senão baixamos a guarda ou se o mal não assaltou a nossa Igreja...manifestamente.



António Sílvio Couto

sexta-feira, 10 de março de 2023

Anulação do batismo

 

Os tempos que correm parecem ser propícios para as maiores barbaridades e tomadas de posição a roçar o esquisito. Perante o ambiente que atinge a Igreja católica – com os casos de alegados abusos sexuais – têm sido muitas as vozes e os ditos, uns mais sensatos e outros mais exuberantes. Começam a surgir casos de pessoas – por sinal da região norte do país – que pediram para anular o seu batismo. A este procedimento chama-se apostatar da fé, isto é, o repúdio total da fé cristã.

Mutatis mutandis: a alguém passará pela cabeça, em perfeito juízo, dizer que quer ver anulado o seu registo de nascimento, até porque – no nosso caso – nasceu português e desejava ter outra nacionalidade...mais sonante ou com tiques de maior importância social? Por certo que há coisas do nosso passado pessoal, familiar ou social que não podem ser desmarcadas, como por exemplo os pais que tivemos, o lugar do nascimento ou até a condição económico-social. Está nos nossos genes... Será um tanto difícil de ultrapassá-los.

1. Deixemos por momentos a presunção de não quer ser mais cristão. Será que isso obriga a desfazer algo para o qual não fizemos nada, se éramos crianças, mas que podemos consciencializar mais tarde ou mais cedo. Esta atitude apostasia – sobretudo quando divulgada – pode encobrir algo mais do que uma posição ou modo de ser e de querer estar. Com efeito, não é por não participar nos atos cívicos adstritos à minha condição de cidadão, que irei desarriscar-me do cartão de cidadão, como contribuinte, enquanto beneficiário do serviço de saúde ou de poder usufruir da prestação da segurança social. A anulação do registo do batismo – pois o ato ninguém mo poderá tirar nem à força – pode querer dizer mais do que uma posição contra a Igreja ou mesmo contra Deus. A admiração está em que tais notícias surjam – outros se poderão seguir – num ambiente algo tenso e de manifesta controvérsia quanto a temas de teor ético-morais...no contexto da Igreja católica.

2. Estes episódios poderão ajudar-nos a refletir sobre o significado do batismo nas suas diversas vertentes. Será que a maioria das pessoas entende o batismo como um sacramento – sinal da graça de Deus – ou como oportunidade de festa? Estamos já fora da avalanche de batizados das décadas de cinquenta a noventa do século passado: eram às centenas, agora poderão chegar às dezenas. A mentalidade para a receção do batismo mudou radicalmente: antes eram celebrados nos primeiros meses, agora estão colocados nos primeiros anos. Tem vindo a desenvolver-se a prática de fazer mais do que batizado, mesmo da mesma família, quanto de familiares afins. Com a volatilidade das relações das pessoas e das famílias, muitos dos batizados solicitados como que funcionam para fazer festa – incluindo dezenas de convidados – já que o casameno de índole católica está condicionado ou mesmo sem possibilidades de acontecer. Mesmo na condição de serem crianças (até à idade dos seis anos) estas, por vezes, correm o risco de serem ‘exploradas’ naquela celebração mais ou menos social...

3. Reporto-me à situação na diocese de Setúbal e na fórmula mais simples de encarar o ‘como e a quem batizar’, neste contexto. Acima de tudo devemos ter em conta quem pretende ser batizado e, em particular, na área das crianças. Quem peça o batismo, nas devidas condições humanas e cristãs, será sempre atendido. Não se pode recusar a graça e o dom de Deus. Sobretudo no caso das crianças, estas não tem culpa dos pais que lhes tocaram em sorte. E nem a exigência para com os padrinhos poderá ser obstáculo. Alguns deixariam bastante a desejar, se fossem incluídos como figurantes da celebração. O Código de Direito Canónico diz que ‘tenha ao menos um padrinho ou uma madrinha’ (cânone 872)... Poderei ter dúvidas da real efetivação de outros sacramentos, como o matrimónio, mas, no caso do batismo, ao invocar da Santíssima Trindade sobre o batizando, isso acontece verdadeiramente. Aquele batizado torna-se morada de Deus e isso deverá ser cuidado pelos pais e padrinhos, assim eles entendam a missão que lhes é confiada.

Se o batismo fosse levado a sério por todos, seríamos mais conscientes daquilo que nos faz Igreja...



António Sílvio Couto

quarta-feira, 8 de março de 2023

Ministério da ‘educação ou do ‘ensino’?


Pelo que temos visto e ouvido, há longo tempo e mais recentemente, parece que são precisas mudanças de designação: onde se diz ‘ministério da educação’ devia passar a designar-se por ‘ministério do ensino’, pois, de educação vemos que aqueles que são pagos – bem ou mal não está em causa – parecem não serem bons professores de educação, a avaliar pelas atitudes que mostram nas ruas, por ocasião dos protestos… tão inflamados.

Qual será a autoridade de algum dos professores vistos nos protestos, se tiverem de corrigir atitudes menos bem-educadas dos seus alunos? Estes não poderão ripostar com as mesmas palavras (por vezes quase palavrões) e gestos de menor respeito? Será, então, a escola um espaço onde se aprende a educação ou onde meramente se captam conteúdos de saber? Não andaremos desfocados do essencial, derramando-nos em pormenores desconexos? Por que se torna tão difícil resolver um problema com tanta duração?

1. A já longa batalha dos professores, pelas condições que almejam, tem-se arrastado por décadas. Nalgumas circunstâncias o que conhecemos de certos ‘professores’ é vê-los na contestação e não nas salas de aulas. Talvez alguns tenham estado mais a estudar como protestar do que como ensinar. Certas figuras parecem emergir do lodo como tortulhos de mau-consumo. O panorama é sombrio e não se prevê que possa melhorar, antes pelo contrário…

2. O setor da educação – escolas, alunos, professores, pessoal discente, famílias – anda a ser maltratado, tanto na forma como no conteúdo, atendendo aos intervenientes profissionais e aos representantes estatais desta área específica de governação. Se nos detivermos sobre os números veremos que, na última década, os alunos decresceram (menos trezentos mil), o corpo docente foi minguando (cerca de trinta mil, no ensino público, em quinze anos, num total de cento e trinta e dois mil) e até os estabelecimentos de ensino, para além da diminuição (desapareceram quase nove mil, desde o início do século), estão, cada vez, mais degradados. Diga-se: uma forte crise perpassa por este vetor essencial para o futuro do nosso país.

3. Com tantos e tão diversos problemas, quem deseja ainda ser professor? Quem optará pelo ensino para dedicar a sua vida e com isso sobreviver em dignidade? Não correremos o risco de hipotecar a nossa conduta coletiva sem professores com o mínimo de qualidade? Atendendo à média de idade – setenta por cento são mulheres e com mais de cinquenta anos – que nos reserva esperar a curto e a médio prazo? Mesmo que sejam atendidas as reivindicações publicitadas, não cairemos num fosso quase sem recuperação?

4. Na recente crise – ainda em curso – foi posta a manifesto uma desarticulação entre a escola e as famílias, entre quem tem a tarefa de ensinar e aqueles aos quais está acometida a função de educar. Embora se tenha pretendido lançar essa responsabilidade para as escolas, estas demonstraram com facilidade que não têm condições para o fazer, até pelo que vimos de alvoroçado por partes de muitos professores, que mais pareciam adolescentes pré-universitários do que homens e mulheres formados para formar os mais novos. Ora, tudo isto é grave demais e pode deixar consequências no tecido social, algo fragilizado e como que preso por arames…

5. Se atendermos aos slogans exibidos – por escrito ou gritados – nas manifestações dos professores poderemos encontrar não só o reflexo do presente como se advertirão os passos futuros. Eis alguns exemplos: respeito, em defesa da escola pública, em união por amor à educação, educação não é mercadoria, a lutar também estamos a educar…

De entre os vários aspetos dá a impressão que algo pode ter-se voltado contra os promotores e/ou participantes: a dita/pretensa ‘escola pública’ dá segurança na aprendizagem e prepara para o futuro? Com o prolongamento de tudo isto não se estará a desviar a ‘matéria-prima’ (os alunos) para as opções contrárias às desejadas? Mexeram com algo que pode rebentar nas mãos de quem o desencadeou… O futuro o confirmará!



António Sílvio Couto

terça-feira, 7 de março de 2023

Simão e Pedro

 

«Simão Pedro oferece-nos a imagem do ministério desta tensão salutar. O Senhor educa-o e, gradualmente, forma-o e exercita-o para permanecer assim: Simão e Pedro. O homem comum, com as suas contradições e fraquezas, e o homem que é Pedra, o que tem as chaves, o que guia os outros. Quando André o leva a Cristo assim como está, vestido de pescador, o Senhor dá-lhe o nome de Pedra. Acabara apenas de elogiar a sua confissão de fé, que vem do Pai, e já o repreende duramente porque tentado a escutar a voz do espírito maligno quando diz a Jesus para pôr de lado a cruz. Convidá-lo-á a caminhar sobre as águas e deixá-lo-á começar a afundar no seu próprio medo, para de imediato lhe estender a mão; logo que se confessa pecador, dar-lhe-á a missão de ser pescador de homens; interrogá-lo-á repetidamente sobre o seu amor, fazendo-lhe sentir pesar e vergonha pela sua deslealdade e covardia, mas também três vezes lhe confiará o pastoreio das suas ovelhas. Sempre estes dois polos»…

Esta reflexão foi feita pelo Papa Francisco, em junho de 2016, no decorrer de uma meditação dum retiro para padres, na Basílica de São João de Latrão, Roma.
Decorridos quase sete anos, esta citação poderá servir-nos para enquadrar tantas das intervenções por ocasião das ‘leituras’ do relatório da ‘comissão independente para o estudo dos abusos sexuais na Igreja católica’, em Portugal, (13 de fevereiro) e ainda das ‘interpretações’ da conferência de imprensa da ‘conferência episcopal portuguesa’ (3 de março)...
De facto, de dentro e de fora do circuito da Igreja católica temos visto e ouvido posições que mais parecem posições de contra-ataque do que tomadas de posição sensatas e sérias, com conteúdo e sem alarde individualista; de quem se conhece e de quem reconhece nos outros os seus próprios erros; de quem defende a vida dos inocentes e não de quem prefere a morte dos pecadores; de quem quer aprender com a história e não de quem se entretém com estórias; de quem sabe que vive em condição terrena e não de quem tenta inventar ‘céus’ para si e ‘infernos’ para os outros; de quem tenta ler os sinais de Deus nas coisas simples e não de quem aligeira o fardo quando é posto em causa...

- Não está em causa ilibar ninguém, se cometeu erros. Não podemos tentar varrer para debaixo do tapete qualquer ato de ninguém que possa ter prevaricado. Não está posta, de forma alguma, a possibilidade de querer inocentar quem possa ser doente nem que tenha cometido qualquer crime.

- Precisamos, sim, de saber distinguir os atos da pessoa da função da mesma. Ora, isso necessitará de reflexão serena e não tão apaixonada como certas figuras tentam imiscuir-se nas coisas da Igreja, dando a entender que pretendem, sobretudo, destruir a função com a condenação de quem tais coisas praticou. Considero que parece haver um propósito - tácito ou consertado - de atingir os ‘ministros’ da Igreja e as funções espirituais que desempenham…senão todas, algumas. Desde logo tudo quanto possa estar ligado ao sacramento da penitência - acolhimento, confissão ou acompanhamento espiritual - bem como às intervenções de âmbito religioso nas missas, especialmente no que refere àquilo que se diz - a verdade, na pregação - e aquilo que se faz - a desconexão, na vida - dentro ou fora do âmbito clerical.

- Nitidamente todos estão sob suspeita, seja quem o for (alegado) prevaricador. Isto parece ser benéfico para forças com alto teor ético - políticos, jornalistas, pensadores - republicano, pois, embora reconhecendo a separação dos poderes comportam-se agora como os mentores de uma ‘nova’ moral, onde não tem lugar a compaixão, mas a justiça feita-a-ferro-e-fogo: já está condenado quem ainda não sabe se é ou de que é acusado. Em tudo isto aquela que costumava ser a ‘voz de Deus’, que a ‘vox populi’ (voz do povo) tornou-se o mais implacável dos juízes e a quem recorrem os que pretendem fazer crer que são todos iguais...

- Claramente: Simão é pecador e, potencialmente, prevaricador, mas Pedro está investido de funções divinas. Não se troquem os papéis para nivelar tudo pelos pés. Voltando a citar a reflexão do Papa Francisco no retiro de padres, deixamos a sua interpretação. «O sinal de Pedro crucificado de cabeça para baixo é talvez o mais eloquente deste recetáculo duma cabeça dura que, para ser «misericordiada», se vira para baixo mesmo quando está a dar o testemunho supremo de amor ao seu Senhor. Pedro não quer terminar a sua vida dizendo «eu já aprendi a lição», mas sim: «Dado que a minha cabeça nunca vai aprender, viro-a para baixo». E acima de tudo, os pés que lavou o Senhor. Estes pés são, para Pedro, o recetáculo através do qual recebe a misericórdia do seu Amigo e Senhor».



António Sílvio Couto

segunda-feira, 6 de março de 2023

Jesus salvou-nos por amor e não pelo sacrifício

 


Estamos a viver, na Igreja católica, o tempo da quaresma, essa oportunidade pessoal e comunitária de conversão a Deus, aos outros e de si mesmo.

Sobretudo no contexto da Europa latina vemos, por esta ocasião, diversos momentos e propostas de religiosidade (mais ou menos) popular apelativas a manifestações que podem – ou não – ajudar a todos e cada um a referenciar mais e melhor a vida à mensagem do Evangelho.

Talvez seja oportuno enquadrar o título desta partilha, na medida em que – mesmo nas atividades quaresmais sugeridas – corre-se o risco de ollhar mais para o sacrifício (até) de Cristo e menos para a sua entrega por amor, onde o sacrifício foi meio e não finalidade.

1. Na sua mensagem para a Quaresma deste ano, o Papa Francisco como que adverte alguns desses perigos. «Não se refugiar numa religiosidade feita de acontecimentos extraordinários, de sugestivas experiências, levados pelo medo de encarar a realidade com as suas fadigas diárias, as suas durezas e contradições. A luz que Jesus mostra aos seus discípulos é uma antecipação da glória pascal, e é rumo a esta que se torna necessário caminhar seguindo ‘apenas Jesus e mais ninguém’».

Precisamos de desmontar certos ritos e umas tantas tradições, que já foram interessantes noutros tempos, mas que agora quase soam a oco e cheiram a mofo. O gongorismo de alguns sermões podem alimentar a emoção, mas será que motivam a conversão? O desfile de bandeiras e de opas servirão a fé ou enfeitam a vaidade? A assistência deixa-se tocar pela mensagem ou queda-se pela imagem mais ou menos lúgubre?

2. Enquadrando-nos na fase complexa que estamos a viver na Igreja católica, em Portugal, poderá ser útil deter-nos sobre alguns aspetos, por vezes, aduzidos por quem não nada tem a ver com a Igreja, embora a queira julgar como sociedade meramente humana e mundana.

Depois da purga da pandemia, estamos a experimentar a purificação pela exposição das fragilidades, erros, pecados e desamandos de alguns dos membros da Igreja, sobretudo desses de quem se esperava consonância entre a palavra e os gestos. Alguns mais fundamentalistas – atendendo aos outros e não a si mesmos – invectivam contra a desarmonia entre a proclamação da verdade e a possivel não-vivência da mesma. De chicote em riste querem matar o pecador, mesmo que ainda não tenha passado de alegado prevaricador. Outros cobardemente tentam desviar a atenção dos espaços em que se movimentam – associações, partidos, agremiações desportivas, entidades militares, etc. – exigindo muito para além do razoável daquilo que a Igreja católica se expôs e colocou a nu. Dá a impressão que uma parte dos que mais endurecem as exigências tentam desviar a atenção do seu passado... algo obscuro e talvez tenebroso.

3. Que têm em comum as críticas às questões da Igreja católica feitas pelos seus fiéis e as dos membros de partidos trotskistas? Que têm em comum as procissões pelas ruas das cidades, vilas e aldeias e as manifestações de grupos socioeconómicos ou de contestação sindical? O que serve de pano-de-fundo aos feriados religiosos, mesmo que não usados para os fins que lhes deram origem?

As estas questões poderemos responder com uma expressão que fez furor e marcou muitas gerações: cristandade, isto é, a coincidência entre sociedade civil e função religiosa... ainda nos nossos dias. Ora, a cristandade, desde meados do século vinte, faliu e com ela muitas das regalias da religião católica. Os membros da Igreja católica, em Portugal, sociologicamente estão em minoria e a própria Igreja precisa de reaprender a saber estar, bem como todos aqueles que ainda a veem como força social e não como entidade agregadora espiritual. Muitas das críticas – procedentes de espaços fora da Igreja – não passam de intromissão na esfera daquilo que não está mais sob a alçada de quantos, não fazendo parte dela, têm de cuidar da sua autonomia...

Parece claro para muitos dos nossos concidadãos: a Igreja católica continua a fazer temer. Por quê?



António Sílvio Couto

sexta-feira, 3 de março de 2023

Bitaites das margens

 

Graal, Nós somos Igreja, Ação católica dos meios sociais independentes, Metanoia – movimento católico de profissionais, Comunidade da capela do rato (foco ecológico) e Grupo sinodal nós entre nós… são seis dos grupos de onde proveem os subscritores (dizem que são os mesmos da carta de novembro de 2021) da nova missiva – de 1 de março – endereçada aos bispos da Conferência Episcopal Portuguesa, preconizando medidas para com os ‘abusadores que estejam atualmente ao serviço da Igreja’.

Mais uma vez o libelo surgiu numa publicação – aqui na lista dos mentores são só seis, quem ficou à margem para completar a perfeição? – que tem feito do assunto dos abusos sexuais na Igreja uma nítida cruzada contra tudo e sem deixar rasto que não seja de justicialismo a todo o custo. Nesta ocasião foram 219 subscritores…

1. Lemos na publicação mentalizadora:

«A carta aos bispos sugere medidas imediatas, a adotar nos próximos 30 dias, como as referidas acima, e outras a adotar ao longo dos próximos dois meses. Entre estas, os autores da iniciativa propõem que a atual rede de comissões diocesanas relativas aos abusos se recentrem na prevenção primária e na formação; que os bispos encobridores, a existirem, se retirem de funções; e que se tomem medidas relativamente a “todos os abusadores que estejam atualmente ao serviço da Igreja” (“suspensão com carácter preventivo sempre que haja indícios minimamente credíveis sobre abusos e, quando considerados culpados à luz da moral cristã, independentemente de eventual processo judicial, sejam dispensados de funções e, no caso de clérigos, passando ao estado laical”).
Num horizonte de seis meses, os bispos portugueses são ainda convidados a: promover e incentivar o acesso e estudo do relatório da CI e suas conclusões entre os agentes de pastoral, “prevenindo a tentação negacionista ou de relativização do fenómeno criminal”; elaborar “um manual de boas práticas que ajude os agentes pastorais a prevenir situações de risco e a identificar indícios de casos de abusos, bem como a acolher e encaminhar vítimas”; encetar “uma reflexão de fundo sobre o impacto negativo que a perceção distorcida sobre a sexualidade humana tem vindo a causar em toda a Igreja, com a ajuda de especialistas externos”; proporcionar “um acompanhamento aos abusadores que necessariamente inclua tratamento psiquiátrico e psicológico”».

2. Não deixa de ser simbólico que, por estes dias, num canal televisivo com coisas do passado, esteja a ser exibida uma série sobre o tempo de um seminário no interior do país, na década de quarenta do século passado. Daquilo que tenho visto, recordo os meus quatro anos de camarata no seminário menor: os ritmos, os tempos de estudo, o trato algo rude de alguns superiores, esse ‘tempo de tropa’ na adolescência… Ali naquela filmagem não se veem nenhumas das atrocidades por agora aduzidas aos tempos dos seminários naquela época. Por mim o digo: nada vi nem ouvi e éramos mais quinhentos nesse seminário de Braga em meados da década de setenta…quando ocorreu a revolução de 25A…

3. Confesso com humildade e escândalo: muitos dos que se apregoam acusadores de certos abusos – condenem-se, claramente, os culpados – parecem treinadores de bancada, que nunca jogaram nem estiveram no espaço de provação: querem dar lições, mas nunca souberam apreciar aquilo que a Igreja fez por tantos que receberam meios (humanos, de formação e de afirmação) de serem pessoas dignas nos bancos dos seminários, com superiores que os souberam conduzir até ser homens-de-corpo-inteiro, alguns sendo padres e tantos outros bons cidadãos e ínclitos cristãos…

Certas lições soam a pregadores-papagaios, que, se não fosse a Igreja (e o dizerem mal dela), andariam a mendigar para sobreviverem no espetro jornalístico e profissional.

4. Nesta Igreja que amo e sirvo não há só vândalos, como, por vezes, nos querem impingir. Não se confunda a árvore com a floresta nem se deite fora a criança com a água do banho!



António Sílvio Couto

quinta-feira, 2 de março de 2023

Desculpa: força ou fragilidade?

 


Embora o Papa Francisco tenha introduzido o significado da conjugação de três expressões – com licença, obrigado e desculpa – talvez possa haver algo de menos assertivo no uso, na abrangência e na conjugação, sobretudo, de ‘desculpa’... Deixamos as outras palavras para futuros momentos.

Vejamos o alcance (mais ou menos plausível) ou os sinónimos de ‘desculpa’: perdão de culpa ou ofensa; alegação atenuante ou justificativa de culpa, ofensa, descuido; escusa, pretexto. Perdoar uma falta cometida; explicar uma falta ou um erro. indulto, indulgência, perdão, absolvição, vênia, clemência. Arrependimento: contrição, arrependimento, lamentação, pesar.

1. A avaliar pelos efeitos, a desculpa não atinge o que é essencial, pois toca as franjas da pessoa e não a sua essência. Em muitos casos a desculpa olha para o que se vê e não para aquilo que se pode (e deve) considerar a ofensa dada e recebida. Num tempo algo marcado pela superficialidade, a desculpa não atinge totalmente o que, de facto, criou matéria de rutura e que precisa de ser recomposto. Na paleta das emoções, a desculpa não passará de um ténue pincel, que deve ser usado com a subtileza do mestre pintor, em ordem a tecer a recuperação dos desavindos e que é muito mais do que uma fraseologia rebuscada...

2. Na linguagem popular costuma ser referido: as desculpas não se pedem, evitam-se! Embora se ande por aí a lançar desculpas por tudo e quase nada, precisamos de ir mais fundo a este assunto, sobretudo, se nos inserirmos numa tonalidade cristã. Com efeito, para um cristão a desculpa poderá ser a antecâmara de algo bem mais sublime, que é o perdão. Este ultrapassa as fronteiras mais ou menos vulgares da dita desculpa: mexe com a profundidade e não se limita a ficar nas franjas das questões, dos problemas ou mesmo das pessoas. Embora quem recorra à desculpa já possa estar a ensaiar para a atenção para com o outro, no perdão isso acontece muito para além da dimensão meramente humanista ou em visão horizontalista.

3. Recorrendo às Sagradas Escrituras podemos encontrar a palavra ‘perdão’ quarenta e cinco vezes no Antigo Testamento. No Novo Testamento, tendo Jesus como critério e mestre, ‘perdoar’ aparece cento e quarenta e cinco vezes. Se tivermos em conta que o perdão envolve dois aspetos – o humano, pessoal e o divino, sobrenatural – poderemos considerar que, quando alguém perdoa a outrém, está a deixar funcionar a dimensão divina, sobrenaural, da sua condição humana.

Perdoar vem do latim ‘perdonar’ – dar/doar com.... Assim, ao perdoar estou a dar o meu esquecimento sobre aquilo que alguém me fez. Faço isso muito para além da minha capacidade humana, enquanto cristão como sinal e presença de Cristo, que sempre perdoou, até ao momento extremo da sua vida em condição terrena: Pai, perdoai-lhes!

4. São muitos e variados os casos de pessoas doentes – de forma circunstancial ou de modo mais prolongado – que o são devido a não viverem (ou não conseguirem) o perdão. Com efeito, o perdão dado e recebido e vice-versa poderia resolver muitos dos conflitos humanos – pessoais, familiares, sociais, políticos, religiosos ou outros – que vemos proliferar em nós e à nossa volta. De facto, não é com meras desculpas que se ultrapassam muitos dos problemas e erros do passado. Esses poderão ser avisos para que é necessário algo mais profundo do que simples palavras de circunstância.

Neste momento há campos humanos e sociais que precisam de entrar num processo de perdão, onde se possa ver que os intervenientes acreditam em si mesmos e também darem crédito aos sinais dos outros. Mesmo que os prevaricadores sejam julgados e castigados, a dimensão do perdão não poderá ser esquecida ou menosprezada.

5. Desculpas leva-as o vento. O perdão toca mais profundamente, quem perdoa e quem é perdoado.Assim consigamos construir uma sociedade alicerçada no verdadeiro perdão...



António Sílvio Couto