Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Segurança versus liberdade? – Nova confrontação

 

O equilíbrio entre estas duas forças, ideais ou valores – segurança e liberdade – torna-se, por vezes, de difícil conjugação até porque uma e outra quase se têm tornado antíteses político-ideológicas: a segurança conotada com as forças (ditas) de direita e a liberdade mais aplaudida pela (rotulada) esquerda. No entanto, de forma regular são colocadas em confronto como se uma tenha de ter precedência sobre a outra e não sejam conciliáveis no seu antagonismo subliminar.

1. Quando é realizado algum serviço mais musculado para afirmar a segurança logo emergem os defensores da liberdade para que esta não possa ser ofendida na sua ínclita demonstração ética, sobretudo se for republicana. Com efeito, os mesmos paladinos da exaltação da liberdade tornam-se beneficiários da segurança para que a liberdade não seja ofendida nem beliscada. Pior é quando esses intrépidos mentores da liberdade se esquecem que foram alguns dos maiores securitários do Estado que suspenderam a liberdade para prosseguirem os seus intentos ditatoriais… Será sempre de trazer à memória os acontecimentos dos regimes alicerçados na ideologia marxista-leninista-trotskista, como no ex-bloco de leste europeu (até 1989), nalguns países latino-americanos (ainda em vigor) ou mesmo em certos regimes do extremo oriente: a liberdade foi subjugada pela segurança estatal…



2. Efetivamente a liberdade é uma das marcas essenciais da condição humana, tão preciosa que corre o risco de ser mais apreciada quando dela somos privados, tanto pessoal como coletivamente. No entanto, este valor não pode – como tantas vezes acontece – ser absolutizado e tornado como um critério individualista. De facto, temos assistido a uma exaltação quase doentia da liberdade, onde parece que cada um se torna ‘rei’ do seu mundo, fazendo vassalos os que gravitam à sua volta, quais borboletas em volta da luz incandescente.



3. Nota-se, em situações mais do que seria desejável, que as pessoas se consideram intocáveis nos seus direitos e pouco atentas ou quase negligentes quanto aos seus deveres para com os outros. Um exemplo meramente factual é o respeito (ou não) pelo silêncio na convivência de moradores/vizinhos: de uma forma quase rural há quem se ache no direito de impor as suas músicas e gostos, sem cuidar em ter atenção àqueles que vivem a seu lado… Certos conflitos de vizinhança poder-se-iam evitar se cada um tivesse para com os que ocupam os espaços contíguos à sua residência. Casos há que a própria ‘habitação social’ precisaria de melhor processo de integração de quantos, sem disso terem culpa nem o pedirem passaram, a viver sob o mesmo teto, isto é, no mesmo prédio…



4. De pouco valerá a liberdade usufruída se não houver segurança, se vivermos na incerteza em não podermos estar sem preocupações para com quem nos cruzamos e com quem temos de fazer as nossas tarefas quotidianas ou excecionais. Aquilo que se considera como a segurança de pessoas e bens é um valor também e deve ser vivida e sentida numa sociedade bem organizada ou estruturada. Perante riscos e perigos precisamos de ter a certeza de que somos respeitados todos, sem exceção. Por isso, cheira a populismo barato e demagógico defender uma liberdade sem segurança e uma segurança sem liberdade: uma e outra são o equilíbrio de sociedades alicerçadas na sã convivência e correta harmonia entre todos.



5. «A liberdade é um tesouro que só é verdadeiramente apreciado quando o perdemos. Para muitos de nós, habituados a viver em liberdade, muitas vezes parece mais um direito adquirido do que um dom e uma herança a ser preservada. Quantos desentendimentos em torno do tema da liberdade, e quantas visões diferentes se confrontaram ao longo dos séculos! (…) Para sermos verdadeiramente livres, precisamos não só de nos conhecer a nós mesmos, a nível psicológico, mas sobretudo de sermos nós mesmos verdade, a um nível mais profundo… A liberdade deve inquietar-nos, deve continuamente fazer-nos perguntas, para que possamos ir cada vez mais a fundo no que realmente somos» (Papa Francisco, ‘Audiência geral’, 6 de outubro de 2021). Seremos seguramente livres?



António Sílvio Couto

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Família: interesses em disputa ou em contradição?

 

De há uns tempos a esta parte vemos que inúmeras intervenções trouxeram o tema da família para a discussão: desde partidos políticos, passando por agremiações mais ou menos culturais, sem esquecermos lóbis de teor ético-moral e outras expressões de pensamento quase avesso à ideia tradicional de família.

Creio que será útil fazer uma pesquisa sobre o que o dizem os partidos políticos sobre o tema nos seus programas.

* Partido Socialista

O PS preconiza um Estado que na sua relação com a família, se paute pelo respeito e salvaguarda da sua autonomia, intimidade e privacidade. Este partido, através do seu programa, reconhece a subsidariedade da intervenção do Estado na família, ao mesmo tempo que insiste, na defesa e proteção dos indivíduos e da família da intromissão abusiva e excessiva do Estado. Este partido insiste, preferencialmente, nos grupos sociais das crianças, dos jovens, das mulheres e dos idosos, e não tanto na família. E, os tipos de famílias que prendem mais a atenção do PS são, precisamente, aquelas que podem ser alvo de maiores carências sócio-económicas (como por exemplo, famílias numerosas, famílias com fracos recursos financeiros, famílias monoparentais, famílias com filhos deficientes), com vista à realização dos valores da igualdade e fraternidade e, mais concretamente, à extensão da ideia democrática a todas as áreas da vida social e, neste caso específico, às famílias socialmente mais desprotegidas.

* Partido comunista

O PCP, no seu programa, não trata a família como objeto em si, mas apenas se refere a ela, de uma forma indireta e dispersa por certas medidas sectoriais. Foi, o que sucedeu a propósito do «direito à habitação dos cidadãos e das famílias», do reconhecimento da importância do associativismo familiar, e a propósito dos emigrantes e dos deficientes. Não é tanto a família em si que é alvo de uma atenção e tratamento específico, mas alguns dos seus membros, e neste caso, os emigrantes e os deficientes.

* Partido Social-democrata

Para o PSD a família é o primeiro e natural espaço de realização e desenvolvimento da pessoa humana, a primeira experiência de vida relacional e afetiva, de transmissão de valores éticos, sociais e culturais. Por isso a considera a célula essencial da sociedade, o repositório dos seus valores e tradições e a primeira escola da solidariedade entre gerações. O PSD reafirma a necessidade do Estado reconhecer e salvaguardar a função primordial da família na sociedade, garantindo-se a efetividade do exercício dos seus direitos.

* Chega

O Chega coloca a família no âmago da sua conceção de sociedade. É a célula base que garante a preservação, renovação e socialização da ordem moral e da cultura cívica, daí ser a família que prepara a estabilidade social e política, assim como a realização e prosperidade individual e coletiva.

O Chega propõe a criação do Ministério da Família. Constitui função indeclinável do Estado recolocar a família, e o seu papel na educação dos filhos, no lugar central que é o seu.

O Chega respeita outros modelos diferentes de partilha de vida comum, porém considera a família natural, baseada na relação íntima entre uma mulher e um homem, uma realidade psicossociológica e socioeconómica anterior ao Estado, historicamente estável e humanamente insubstituível. Nela é transmitida a vida e todo um conjunto de equilíbrios afetivos, emotivos e comportamentais, assim como de saberes, tradições e património que sustentam a dignidade e prosperidade dos indivíduos e dos povos.

Prima inter pares das instituições, a família deve ter na autoridade dos pais sobre os filhos um referencial de disciplina, naturalmente conjugado com o sistema de valores e direitos fundamentais da sociedade.

O Chega procurará convergir com os países europeus no que reporta a prestações familiares, direitos laborais e demais benefícios e incentivos que promovam o aumento da natalidade, nos casos em que ambos os pais tenham naturalidade e nacionalidade portuguesas e sejam oficialmente residentes em Portugal.

* Iniciativa Liberal

As escolhas e acontecimentos da vida levam a caminhos diferentes e a resultados também diferentes. O que cada indivíduo constrói ao longo da sua vida, para si e para os seus, é único e irrepetível. Pessoas livres não são iguais e pessoas iguais não são livres.

A Iniciativa Liberal entende que a liberdade está intrinsecamente associada a responsabilidade. A autonomia política dos indivíduos, necessária numa sociedade livre, exige que as pessoas livres sejam responsáveis, e responsabilizadas, pelos seus atos.

A Iniciativa Liberal deseja uma sociedade capaz de atender às necessidades mais básicas da comunidade, como a segurança, a justiça e a boa administração pública, garantindo aos cidadãos o acesso a uma rede de proteção social e a sistemas de saúde e de educação de qualidade, em que todos, sem exceção, possam escolher livremente aqueles em quem confiam para prestar, a si e às suas famílias, esses serviços.

= Estas visões partidárias deixam a manifesto que para muitos a família não é algo essencial como constituição do núcleo da sociedade. Alguns combatem mesmo a noção judaico-cristã do conceito de família, como célula da sociedade e alicerçada no conceito da união estável entre um homem e uma mulher. Bastará recordar dois livros editados este ano – por sinal pela mesma chancela – sobre o tema: “Identidade e Família – Entre a consistência da tradição e as exigências da modernidade” (publicado em março) e “Reflexões Sobre a Liberdade – Identidades e Famílias”: uma visão múltipla do futuro do país (saído em setembro). Pena é que uns não respeitem os outros, mesmo que apresentando e defendendo propostas diferentes – e porque não – díspares ou mesmo disparatadas!
= A família não pode ser usada segundo os interesses nem tão pouco querendo pensar como se vive e não se viva como se pensa!



António Sílvio Couto

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

‘Como é que te sentes, hoje?’

 

Nos dias prévios ao Natal surgiu mais uma daquelas frases-feitas, que tanto podem ser algo revelador do vazio, como, se quisermos, dar-lhe conteúdo, no nosso caso cristão. Depois de dizer o nome a quem se dirige, pergunta-se: ‘como te sentes, hoje? – Neste Natal oferece uma pergunta sincera a alguém’…

De facto, como vivência do Natal e também como desafio para o novo ano (2025 – jubilar cristão), esta pergunta e a consequente resposta pode transmitir-nos uma mensagem para além de banalidades e de chavões ao ritmo das redes sociais… teoricamente pode conter, em embrião, projetos e expetativas, que devemos gerir com alegria, sinceridade e confiança.

1. ‘Como te sentes’ por viver este Natal – de coração aberto à mensagem de Jesus ou ocupado com milhentas coisas, atafulhado de preocupações materialistas? Preparado para dar ou mais na ânsia de receber? De braços abertos, como a normal representação da imagem do Menino Jesus, ou de braços cruzados, levando a pensar que estás sem disponibilidade para acolher?

De facto, esta singela pergunta – ‘Como é que te sentes, hoje’ poderá ser um bom motivo para iniciar uma conversa com alguém conhecido ou sem grande proximidade. Efetivamente por entre as várias consequências da recente pandemia fomos constatando que as pessoas se foram fechando aos outros e particularmente ao desconhecido.

O medo como que suplantou muita da normalidade das relações das pessoas de umas com as outras. Isso mesmo quis deixar na proposta de leitura, de interpelação e de interrogação ao tempo da covid-19, no livro – ‘Tempo de reajustar a rota da vida’, acabado de ser dado à estampa. Em mais de trezentas páginas coligi cerca de cem crónicas, escritas entre março de 2020 e maio de 2023. Mais do que uma razoável oferta de presente neste Natal poderá servir-nos a todos de matéria de exame de consciência quanto às mudanças (quase) inconscientes que se deram nas nossas vida, tanto pessoais como familiares e sociais/eclesiais.

2. Por outro lado, tendo em vista o novo ano que se aproxima, esta pergunta – ‘Como te sentes’ – pode servir para questionarmos como queremos celebrar e viver o Novo Ano. De entre tantas questões ouso colocar algumas: tens esperança ou andas desanimado e triste, mesmo que possa haver festejos estridentes e calorosos? O novo ano tem a marca da esperança, podendo nortear a nossa vida – pessoal, familiar e social/eclesial? Estamos capazes de darmos (explícita e claramente) as razões da nossa esperança, a começar pelos que nos são mais próximos? Não haverá ao pé de nós quem necessite de escutar aquela pergunta – ‘como te sentes, hoje’ – prestando interesse àqueles com quem convivemos?

De facto, o ano jubilar está orientado para centrarmos a nossa atenção no tema da esperança, tanto como virtude teologal (vinda de Deus) como enquanto virtude, traduzindo na vida esse sinal divino de sermos proposta de entusiasmo – veja-se o sentido original do termo: em Deus – e na confiança, por entre ‘as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje’ – como lemos na abertura da constituição pastoral ‘Gaudium et spes’ a Igreja no mundo atual.

Efetivamente seria uma boa forma de retomar as linhas-força do Concílio Vaticano II, quase sessenta anos decorridos, servindo-nos dos temas (abrangentes, incisivos e necessários) então apresentados, discutidos e aprovados.

3. Retomando os desafios da pergunta – ‘Como te sentes, hoje’ – poderemos enfrentar com mais sinodalidade a dinâmica – do Espírito de Deus e que conduz a vida da Igreja – de sermos investidos na difusão da civilização da esperança, alicerçada em Jesus, o nosso Salvador: Ele trouxe esperança ao mundo e nós somos os seus promotores na simplicidade de vida e pelo testemunho sincero. De facto, a frase que complementa a tal pergunta personalizada diz: ‘neste Natal oferece uma pergunta sincera a alguém’. Os de cultura anglo-saxónica ao saudarem alguém (conhecido ou não) dizem: how are you? (como estás?)… isso implica interesse pelo outro e pode desencadear conversa com ou sem interesse… Sigamos os exemplos e atendamos as respostas!



António Sílvio Couto

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Rever a história (pessoal, familiar e social) à luz da genealogia de Jesus

No primeiro dia da ‘novena do Natal’ (17 de dezembro) a liturgia da palavra na missa propõe-nos a leitura do evangelho segundo São Mateus da genealogia de Jesus (Mt 1,1-17), numa interpretação de toda a história do povo de Israel. Por seu turno, nós podemos encontrar nesta genealogia algumas das etapas da nossa própria caminhada pessoal, familiar e social…

1. Citamos uma análise do Papa Bento XVI sobre esta passagem da genealogia de Jesus: «A genealogia, em Mateus, é uma genealogia dos varões; nela, porém, antes de Maria – com que termina a genealogia – mencionam-se quatro mulheres: Tamar, Raab, Rute e a mulher de Urias... As quatro mulheres teriam sido pecadoras (...) A genealogia termina com uma mulher - Maria - que, na realidade, constitui um novo início e relativiza a genealogia inteira (...) A genealogia mantém a sua importância: José é juridicamente o pai de Jesus. Por meio dele, Jesus pertence segundo a Lei, ‘legalmente’, à tribo de David» – Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré - a infância de Jesus, Cascais, Principia, 2012, pp. 13-14. Quando seríamos tentados – na nossa visão moralista – a considerar que os evangelistas fariam uma leitura edificante dos antecedentes de Jesus, vemos que de entre eles há quem não seja tão ‘santo’ assim ou, pelo contrário, manifestam as marcas do pecado – Tamar – nora de Jacob que enganou o filho deste; Raab era prostituta; Rute – moabita (logo fora do povo de Israel) e David que cometeu adultério com a tal mulher de Urias. Temos que certas manchas morais na genealogia de Jesus fariam questionar aqueles/aquelas de quem é descendente segundo a condição humana.

2. Aqui pode e deve entrar a nossa – a de cada um e segundo a sua sensibilidade religiosa e espiritual – leitura e interpretação da história da minha família… Creio não ser exagerado considerar que não há nenhuma família que seja (ou foi) sempre tão certinha que nunca houve qualquer desvio moral, sentimental ou de confusão: quem disser que nada aconteceu na sua família que possa manchar a ‘sua’ história, correrá o risco de ser considerado mentiroso ou de faltar no mínimo à verdade. Todos temos pequenas ou grandes lacunas, que, afinal, fazem com que sejamos aquilo que somos hoje. Certamente que certos ‘erros’ contribuíram para que sejamos aquilo que somos, hoje. Depreciar o nosso passado será como que renegar a nossa identidade, mesmo que isso seja de complicada gestão ou mesmo digestão.

3. Diante de tudo isto se impõe a assunção de todo um processo psicológico e mesmo espiritual de enquadramento assumido para que possa haver harmonia na nossa identidade. Mesmo que tal nos possa ser complicado, será aí que poderemos perceber quem somos, de onde vimos e para onde vamos. Com efeito, a nossa história é muito mais do que idílica, pois, de um modo simples e humilde, compreenderemos também os outros e tudo quanto lhes possa ter acontecido. Quantas vezes são os possíveis percalços dos nossos antepassados que ajudam a explicar quem somos e o modo como nos comportamos. Não são só as heranças económicas que os nossos antepassados nos transmitem, mas também tanta outra coisa que nos é dada pela confluência sanguínea, psicológica e mesmo moral/espiritual.

4. Quantos dos genes mais recônditos nos podem ser comunicados e nem sempre os conhecemos, reconhecemos e até aceitamos. A designada ‘herança genética’ é bem mais funda do que as semelhanças físicas, mas compreende um todo de código genético que nem sempre explicamos, mesmo nas situações mais complexas. Embora possa haver mutações resultantes das condições ambientais mais ou menos adversas versus concordantes, a nossa hereditariedade ultrapassa as barreiras que os nossos conceitos pretensamente culturais potenciam ou valorizam.

5. Se na genealogia de Jesus não foi limpo o que era considerado menos agradável quem somos nós para rejeitar a nossa história familiar, com as implicações sociais inerentes? Neste ano jubilar da condição cristã/católica precisamos de purificar a memória para sermos quem somos sem medos nem altivez…



António Sílvio Couto

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Bênção dos bambinelli

“Um coração de Luz” é o tema deste ano do tradicional evento da bênção dos bambinelli (‘meninos’ Jesus), que será realizado no domingo, 22 de dezembro, e envolverá crianças e jovens de oratórios e paróquias de Roma. Os grupos, juntamente com os animadores do Centro 'Oratori Romani', participarão primeiro da celebração presidida pelo cardeal Gambetti na Basílica Vaticana e depois reunir-se-ão na Praça São Pedro para o Angelus com a bênção do Papa.

O encontro para oratórios, grupos de jovens, paróquias e famílias de Roma representa uma tradição de longa data que remonta a 1969, quando Paulo VI concedeu pela primeira vez a bênção solene às estatuetas trazidas pelas crianças no dia 21 de dezembro.

A Bênção dos bambinelli é promovida e organizada pelo Centro Oratori Romani, uma associação de fiéis fundada para a divulgação e promoção do trabalho pastoral oratoriano em Roma. Essa tradição se difundiu amplamente nos últimos anos na Itália e no exterior (Estados Unidos, Filipinas, Inglaterra, Irlanda, América do Sul e muitos outros), envolvendo centenas de comunidades e dioceses onde bispos e sacerdotes optaram por dedicar um domingo do Advento ao encontro com as ‘imagens’ do Menino Jesus e ao acolhimento das famílias, animadores e religiosos da Igreja local. “Este ano a expectativa se multiplicou, o convite é para estarmos ainda mais vigilantes e prontos para acolher um Natal 'especial'”, realçou o presidente do Centro dos oratórios de Roma.

= Contraste ou confronto?

Neste tempo consumista em que se converteu o Natal e quanto a ele se refere – onde pontifica a figura bizarra do ‘pai natal’ – aceitar este desafio da bênção dos ‘bambinelli’ é, antes de tudo, um compromisso em não deixar esquecer, senão mesmo morrer, a referência ao festejado no Natal.

Algo vai mal no processo educativo em geral e específico para com as crianças mais novas, pois, muitas das crianças não sabem nem conhecem a história do Natal e já nem na família isso é transmitido. Com que habilidade foi banida a referência a Jesus e como os nossos mais novos estão longe da linguagem e do comportamento em função de Jesus, o festejado no Natal.

As festinhas (não é termo depreciativo) da catequese ainda poderão lançar algumas sementes para que Jesus tenha centralidade no Natal, mas o grosso das crianças está longe daquilo que é o Natal cristão.

Precisamos de lançar mão de todos os recursos disponíveis para que o espírito do Natal continue a ser espalhado, vivido e sentido por todos e por cada um de nós.



António Sílvio Couto

Porque não votarei no almirante

 


Estamos a cerca de catorze meses das eleições presidenciais e já vão sendo lançados para a fogueira inquisitorial diversos candidatos ao sufrágio. Ainda nenhum se assumiu como tal e os que são propostos deixam muito a desejar – sobretudo pela falta de conhecimento que temos deles sobre os assuntos que envolvem o desempenho do mais alto cargo da Nação –, criando-se um longo e fastidioso vazio de reflexão e de tomada de posição até à escolha definitiva. De entre eles se vem a destacar o almirante das vacinas…

1. É verdade que lhe devemos muito pelo trabalho desenvolvido nas horas de maior aflição por ocasião da covid-19. De resto as suas tarefas têm sido no âmbito castrense e concretamente no ramo da marinha. Nos tempos mais recentes assumiu o comando geral desta área das forças armadas. Eivado da disciplina militar têm tentado seduzir o público em geral com o transpor para o resto da sociedade a competência até agora exercida. Prestes a terminar o seu tempo de missão colocaram-no – nas tendenciosas sondagens, ditas de independentes – como o melhor no ranking de putativos candidatos à candidatura…

2. Depois de quatro presidentes civis o que significaria voltarmos ao recurso a um militar para termos novo inquilino de Belém? Seria falência das capacidades civis ou uma reprogramação mais de meio século decorrido sobre a revolução de abril? Onde andam os paladinos da liberdade para que se tenha de recorrer a alguém de farda – não cultivo nem abjuro tais indumentárias – em ordem a sermos guiados nos nossos destinos coletivos? Não está na hora de termos uma mulher na presidência? Com tantas quotas e outras tantas cotas, não poderemos ter alguém que olhe o cargo de PR com outra visão e novo dinamismo?

3. Embora possam surgir pequenos entertainers dos vários campos ideológicos falta quem queira fazer do alto serviço na Presidência da República um espaço salutar de cidadania e não um areópago de vaidades como foram os mandatos do atual inquilino. Quem muito fala, pouco acerta – diz o adágio popular. Foi isso que presenciamos nestes anos complicados para o país e no mundo. Não precisamos de munias ambulantes nem de papagaios irritantes, mas de alguém que saiba o que diz e que diga só aquilo de que sabe…

4. Eis algumas das razões pelas quais não gostaria que o almirante seja candidato e se o for não terá o meu voto (só é um e nada mais): mais do que uma figura de representatividade precisamos de alguém que ajude a crescer na cidadania com valores morais e éticos assumidos e sem disfarce; mais do que uma figura que se distinguiu pelo passado (com farda e em atitude militar) precisamos de alguém que nos traga propostas para além do circuito da capital; mais do que uma figura que se faça respeitar pela farda que enverga (ou despiu) que nos una na prossecução da coesão do todo nacional e não só nas festas e romarias de ocasião; mais do que uma figura que nos vê de cima para baixo precisamos de alguém que caminhe com ponderação e humildade entre os seus concidadãos…

5. Porque acredito que ainda surgirão candidatos e propostas que abram horizontes e linhas de reconciliação de todos os portugueses, não espero votar no almirante, mas num civil (homem ou mulher) de formação política sensata, audaz e com perspectivas de futuro… Os sondados (incluídos nas sondagens) parece que são para queimar!



António Sílvio Couto

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Éramos felizes e não sabíamos!

 

Por estes dias ouvimos esta expressão – ‘éramos felizes e não sabíamos’ – do mais alto dignitário da Nação, numa abordagem, como tantas outras, sobre uma situação que teve de explicitar, na medida em que se referiria a um primeiro ministro já fora de funções e de quem aceitou a demissão há cerca de um ano atrás... Tais palavras soaram mais a exame de consciência do que a avaliação da governança e seus tentáculos.

1. Tentemos discernir o significado desta expressão a partir do contexto sócio-político atual, atendendo aos personagens que então eram os atores. Com efeito, o chefe de Estado referia-se ao tempo em que coabitou com António Costa, agora presidente do Conselho Europeu. Nas palavras do Presidente-comentador: ‘dizia muitas vezes a um governante com o qual partilhei quase oito anos de experiência inesquecível: um dia [se] reconhecerá que éramos felizes e não sabíamos... Era tudo relativo, era uma felicidade relativa, mas, comparando com o que vinha por aí, era uma felicidade’.

2. Não dá a impressão que o termo ‘felicidade’ está aqui usado num sentido tão lato, que quase se confunde com uma certa tolerância e bonomia simplista? Até onde irá o conceito de ‘felicidade’, se aquilo que vimos e sentimos, à época, pareceu mais uma espécie de passa-culpas, onde ninguém assumiu nada? Não será que nem tudo dito nem feito para que a crise posterior àqueles acontecimentos tenha sido mais forjada do que real? Sem conjeturar sobre as afirmações mais recentes do PR, nem tudo vai bem no reino-do-faz-de-conta...

3. Esta questão de relacionamento político-afetivo daqueles que nos governam tem de ser cada vez mais um ponto de referência para todos. Com efeito, certas quezílias e intrigas nos espaços de discussão parecem não passar de um certo teatro – com atores de classe pouco recomendável, na forma e pelo conteúdo – e quase dando a entender que as palavras usadas fazem parte de um guião escrito por outros que não aqueles que as proferem. De facto, só quem não meça as palavras acreditará que aquilo que alguns ‘políticos’ dizem não soa a coisa sem sentido e sem nexo, pois a luta ideológica não pode fazer das pessoas um quê de irracional sem coração nem sentimentos básicos.

4. Por ocasião do centenário de nascimento de um dos considerados ‘pais’ da democracia (Mário Soares), ficou bem visível como nos falta qualidade e têmpera na luta por ideais. Hoje – fruto das múltiplas circunstâncias – podemos constatar a ínfima qualidade dos que fazem a vida pública – política, económica, cultural, religiosa e mesmo ética. Recordando certas noções básicas teremos mais chefes do que líderes, na medida em que aquele manda e este cativa para com outros fazer. Onde estão os que se norteiam por ideais e não por meras ideias sem horizonte nem desafio de subir mais alto, mais longe e mais fundo?

5. Vai mal a conexão de conceitos e a prossecução dos objetivos, na medida em que tantos do que surgem na vida pública o que pretendem é salvaguardar a sua vidinha mais ou menos barata nos custos mas cara nas consequências. Faltam-nos homens e mulheres com perfil de serviço desinteressado aos outros, com as mãos voltadas para dar e com preocupações centradas fora de si mesmos, sem tirarem proveito nem benefício daqueles que servem. Pior ainda quando vemos protegerem os seus, sejam os da família, sejam os do partido ou até aqueles a quem já devem favores. Este jogo de compadrios manifesta-se nas pequenas como nas grandes instâncias, da freguesia ao concelho, do país aos lóbis... sem esquecermos que hoje muitos destes são transversais, transnacionais e até transgénicos.

6. Coitada da felicidade que pauta as suas regras pelo contentamento circunstancial e enquanto não há problemas, pois estes são, muitas vezes, o melhor critério para aferirmos de quem vive o desinteresse das suas mazelas e cuida dos mais desprotegidos e necessitados... Qual o meu ideal de felicidade, hoje?



António Sílvio Couto