Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Em busca do nexo de certas coisas


Quem não se terá já interrogado sobre o nexo entre coisas que parecem sem ligação? Quem não terá já tentado descobrir o que une aspetos que parecem desligados? Quem não terá feito perguntas que incomodaram quem as escutou? Quem não teve já de travar a resposta, pois se apercebeu que a pergunta trazia algo de insinuante, fosse qual fosse o respondido?

De facto, é preciso ser capaz de ter mais informações para silenciar uma possível resposta a algo muito simples, senão na forma ao menos no conteúdo.

Por vezes, sobretudo tendo em conta a proximidade das pessoas e das situações, é preciso estar bem informado para responder a questões do âmbito autárquico e/ou mesmo paroquial. Se bem que este termo ‘paroquial’ seja, nalguns casos, usado para qualificar, ironicamente, questões quase de ‘lana-caprina’ (isto é, sem grande interesse nem importância, mas à qual alguém confere a sua relevância), há, no entanto, no âmbito das paróquias coisas bem mais essenciais do que inutilidades…

Será, então, no círculo de maior proximidade que se torna relevante alguma sagacidade para saber distinguir – em termos cristãos, discernir – entre aquilo a que se dá importância e aquilo que a tem de verdade.

– Numa espécie de hierarquia de fatores, o do conhecimento das pessoas que intervêm é essencial, pois muito daquilo que é dito ou reportado tem a ver com a idoneidade das pessoas intervenientes: não é a mesma coisa, algo ser dito ou feito, programado ou executado, por quem tem para nós credibilidade ou por um/a outro/a que se apresenta como credibilizado, mas só no seu conceito… As provas dadas são o melhor critério de boa ou de má reputação!

– Outro aspeto relevante é o das consequências daquilo que se fez ou pretendeu fazer, pois há pessoas que aparecem com ‘boas intenções’ ou (sei lá) ideias, mas que nem com um dedo querem participar na execução daquilo que disseram que fariam…Estes/as idealistas são úteis para gerar confusão, dado que não participam na prossecução do que é pretendido. Fazem lembrar aqueles militares que usam a expressão: preparemos e marchai…ficando de fora como os bonecos dos ‘marretas’ no alpendre a dizer mal de tudo e de todos, quando eles é que estão (mesmo) mal…

– Na procura do nexo das coisas é de grande importância quem faz e aquilo que fez, tendo em vista o bem comum ou a autopromoção, beneficiando-se a si mesmo ou em função dos outros. Isto faz a conexão entre a credibilidade dos autores e a legitimidade da obra. Com efeito, no quadro de proximidade – tenhamos em conta os dois campos supra citados – não é muito difícil perceber quem usa os outros para seu benefício ou quem trabalha (mesmo sem pagamento) em atenção aos demais e àquilo que pretendem atingir. Quanta simpatia por aí espalhada, que não passa de disfarce (mal amanhado) para atingir os seus fins mais ou menos subtis. Quanto ‘culto da personalidade’, mesmo que encapotado, anda por aí difuso, por vezes, dando a entender que se é imprescindível, mas que depressa será descartado, quando deixar de estar no posto…

– Por último é (ou pode ser) de relevância um tanto creditante se aquilo que é promovido valoriza as pessoas, dando-lhes ferramentas para saberem conduzir-se e não tanto tendo-as presas a quem se reclama de autor. Com efeito, muitas vezes encontramos mais lacaios do que discípulos. Estes, como diz o aforisma popular, serão a crédito do mestre, na medida em que sejam capazes de voar com as próprias asas e sem peias de papagaio-de-papel…

Tentemos descobrir/discernir o nexo de tantas coisas e situações, nem sempre fáceis de entender!          

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Em sistema de ‘start-stop’…tecnológico e/ou humano


Certamente já reparamos que, quando estamos parados nalgum semáforo, há carros que estão desligados ou se desligam e, quando muda o sinal, logo são postos em funcionamento, voltando a estarem capazes de arrancar e seguir viagem…

A este processo – recentemente introduzido no sistema de fabricação de certos veículos automóveis – chamam-lhe: start-stop. Quais as razões para ser implementado este artefacto nos veículos automóveis? Haverá benefícios para o meio ambiente com a introdução e difusão deste novo modo de construção dos carros? De que modo iremos ver este sistema tecnológico mais vulgarizado em breve? Será que o start-stop prejudica, mesmo que de forma indireta, o desempenho dos carros? Haverá algum dos elementos dos veículos que é mais prejudicado pelo start-stop?´

= Definição descritiva do start-stop: é um sistema que desativa o propulsor dos carros nos pequenos momentos de paragem (em filas ou em semáforos), mantendo, no entanto, o sistema do veículo em estado de espera, religando-o ao tirar o pé do travão ou ao pisar a embraiagem, conforme o tipo de transmissão.

Poder-se-á considerar que, com a implementação do start-stop, se pretende conciliar o rendimento energético e as emissões de poluentes… Segundo alguns com o start-stop há um desgaste maior de certos componentes do veículo, como a bateria – aliás a bateria onde está este sistema introduzido é muito mais cara do que as habituais – e ainda outros aspetos do motor…

Com certos benefícios o start-stop poderá atenuar a emissão de poluentes até oito por cento menos e ainda uma redução dos gastos de combustível…até quinze por cento, em circuito urbano!  

= Atendendo a este ‘avanço’ tecnológico na área automóvel, poderemos inferir algumas questões para a vertente humana, social, política e quase cultural. Com efeito, em muitas destas situações já estamos numa espécie de passagem em ‘devagar-devagarinho-parado-em ponto morto’, isto é, em que nada parece influenciar a progressão seja daquilo que for, dando mais a impressão de que há gente interessada em que nada seja tocado nem modificado…Como que vivemos num start-stop de não-ignição tanto do pensamento como da emotividade.

Vejamos alguns exemplos:

– Os festivais musicais, sobretudo de verão, não serão já uma espécie de start-stop de certas mentes – poderemos dizer até de mentalidades – quando são combatidos os incêndios em meio rural? Uns param por inação, lazer e diversão e outros estão a carburar em lume demasiado aceso…

– Certas medidas antifogos-de-artifício não sofrerão de tiques de start-stop político sem efeito na prevenção de incêndios, mas antes se quedam pelo show sem público e com prejuízo dos que vivem daquele negócio? Algumas regras são mesmo de gente de gabinete e no arrefecido do ar-condicionado…

– Ao vermos uns tantos rituais religiosos – onde o folclore se sobrepõe à fé – não passarão de start-stop de quem se entretém com tradições, mas não se interessa com o significado daquilo que celebra? Já não há aspetos profanos nem religiosos nas festas que se fazem à custa dos santos, aqueles infiltraram-se tantos nestes que os profanaram sem apelo nem agravo…

– Depois da dita ‘silly season’ de outros tempos, não estaremos em start-stop dos políticos que preferem comandar à distância sem se sujar com as fagulhas queimadas? De gravata e no remanso lisboeta torna-se mais fácil controlar os incêndios, tanto no norte, como no sul e até nas ilhas… 

= Neste país em start-stop de conveniência torna-se urgente não ter medo de dizer a verdade. É de bradar aos céus que continuem no posto pessoas que demonstraram serem incompetentes na gestão de momentos de crise, seja qual for a razão, pois quem governa tem de assumir que falha e que erra…não se fiando na complacência de que foram causas exteriores que criaram os problemas… Basta de show-off, neste estado de start-stop em que quiseram tornar o país e têm vindo a viver do sarcasmo para com a inteligência dos seus concidadãos. Comecem a governar a sério e com responsabilidade cívica, ética e criminal!   

           

António Sílvio Couto


terça-feira, 7 de agosto de 2018

Calor: situação, fenómeno ou desafio?


A canícula que assolou o nosso país nos últimos dias deixou a descoberto algo que não seria muito desejável: a onda calor com mais de 45 graus, na maior parte dos distritos, revelou que não estamos preparados para condições tão extremas e complexas de temperatura.

Os parcos dados fornecidos pela (dita) ‘proteção civil’ só dizem o que não devemos fazer e não nos apontam para aprendermos a lidar com fenómenos cada vez mais agressivos de oscilação térmica. A maior parte das casas – particulares ou de âmbito mais público – não estão capazes de salvaguardarem o bem-estar da população. Certos indícios de climatização não fazem parte dum plano articulado com a construção da quase totalidade dos espaços de habitação… Pior: se se tivesse isto verificado em tempo letivo, veríamos as escolas colapsar à luz da situação de grande calor.

Apesar de tudo estas oscilações térmicas são, em grande parte, resultantes da interferência humana na natureza, criando condições para que se possam verificar mudanças abruptas no clima e dando azo a que todos paguemos as consequências duns tantos que não olham a meios para atingirem os seus fins. Por isso, é urgente que assumamos, todos e cada um, que as alterações climatéricas – as vagas de frio ou de calor – são resultado duma certa deseducação relativamente à natureza, enquanto rosto, presença e sinal de Deus.  

= Talvez nos vamos habituando em excesso a consideração que verão e tempo quente possam ser quase significado de risco de incêndios. Com efeito, estes acontecem em razão de haver pontos de ignição de fogo, mas este nem sempre é desencadeado só porque há calor. Temos, cada vez mais de estar atentos aos múltiplos interesses que estão associados aos incêndios. Nem sempre será necessário explicitar esses desejos mais subtis, pois correremos o risco de confundir causas com consequências, podendo levar estas a misturarem-se com aquelas.  

= O lóbi dos fogos florestais é essa espécie de hidra em que detetada umas das razões, logo emergem duas ou três outras, numa subtileza que nem a mitologia era capaz de inventar. Cada ano podemos ver que os ‘sábios’ sobre a matéria não conseguem prevenir mais outros fatores de risco, seja ele médio ou menor. Dá a impressão que, da mesma forma que há a época balnear com todos os apetrechos que lhe estão inerentes, assim a ‘maré de incêndios’ tem já montada uma panóplia de recursos que é preciso serem desencadeados, pois há muitos recursos envolvidos.

Mutatis mutandis: no inverno é preciso que chova para que possam ser vendidos os guarda-chuvas, assim no verão (com o espaço de preparação e de avaliação) os incêndios mobilizam muitas forças mais ou menos necessitadas desses acontecimentos infaustos… 

= Sobretudo este tempo de calor mais agressivo veio colocar-nos mais uma vez a necessidade duma reflexão mais séria, serena e sensata sobre a ecologia, essa ciência que nos deve ocupar sempre e não só quando há perigo ou em tempos de crise. Enquanto cristãos temos de viver em contínua formação para que possa haver harmonia entre os humanos e a natureza. Tal como nos diz o Papa Francisco, na carta encíclica ‘Laudato si’, de 24 de maio de 2015: «A educação ambiental tem vindo a ampliar os seus objectivos. Se, no começo, estava muito centrada na informação científica e na consciencialização e prevenção dos riscos ambientais, agora tende a incluir uma crítica dos «mitos» da modernidade baseados na razão instrumental (individualismo, progresso ilimitado, concorrência, consumismo, mercado sem regras) e tende também a recuperar os distintos níveis de equilíbrio ecológico: o interior consigo mesmo, o solidário com os outros, o natural com todos os seres vivos, o espiritual com Deus. A educação ambiental deveria predispor-nos para dar este salto para o Mistério, do qual uma ética ecológica recebe o seu sentido mais profundo. Além disso, há educadores capazes de reordenar os itinerários pedagógicos duma ética ecológica, de modo que ajudem efectivamente a crescer na solidariedade, na responsabilidade e no cuidado assente na compaixão» (n.º 210).   

Cristãmente temos doutrina. Será que a conhecemos e, sobretudo, que vivemos em consonância com ela?

 

António Sílvio Couto  

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

‘Deus, pátria e família’…


Quem ler ou escutar este tríptico poderá como que ser levado a pensar nessa promoção sócio/política do período anterior à revolução de abril/74.

Foi, em 1938 (há oitenta anos), que, surgiu este cartaz da ‘trilogia da educação nacional’, promovida pelo Estado Novo, sob o regime de António Salazar. Deste modo se pretendia exaltar a boa harmonia do novo regime vigente, em confronto com os distúrbios da primeira república – 1910-1926 – de tão nefastas consequências sociais, económicas e mesmo culturais.     

Oito décadas decorridas quantas mudanças na configuração europeia e mundial; quantas diabruras surgiram no mundo da política; quantas tropelias foram idealizadas e realizadas no âmbito nacional, internacional e transnacional; quantas mudanças rápidas ou lentas, revolucionárias ou ideológicas, ético/morais e quase metafísicas…

Se quisemos atender a algum daqueles itens aduzidos, o que ainda vai escapando mais ou menos é o da família, se bem que mesmo aqui ‘família’ tem múltiplos e imprevisíveis resultados, quase dependendo de quem fala para ser encontrar um projeto de família a gosto, a pedido ou à la carte.  

= Aquele tríptico – ‘Deus, pátria e família’ – estará tão desatualizado assim ou foram outras infiltrações que o fizeram torna-se, na visão e no comportamento de alguns, em algo de quase jurássico ‘cultural’ e como que um produto assaz antiquado? Não andaremos, antes, ao ritmo, dum regresso de adolescência – da sociedade em geral e de muitas pessoas em particular – a viver sob clichés manipuladores e tendencialmente anarquistas?  

Ao tempo em que ofender era tentar rotular de ‘fascista’, de direita, conservador, reacionário…agora diz-se, preferencialmente, ‘populista’, xenófobo, racista, homofóbico…numa tentativa em colocar fora da discussão quem possa ser obstáculo aos objetivos mais ou menos pretendidos, camuflados ou insinuados… Por vezes é tanto mais grave quando uma posição tomada por alguém esquerdista é classificada de progressista e ousada, enquanto a mesma atitude tida por alguém que não tenha essa conotação ideológica pode ser considerada de conservadora, antiquada e, sub-repticiamente, fundamentalista! 

= Talvez haja razões de mentalidade para termos chegado a esta sociedade onde ‘Deus’ se tornou uma espécie de arquétipo mítico/ancestral…sem memória nem história. Deus foi banido das questões da maioria das pessoas, que vivem como se Ele não existisse nem tenha mínimo lugar nas suas conjeturas. A perspetiva nietzscheriana: ‘Deus morreu, eu matei-o, mas não me sinto lá muito bem’…é cada vez mais um recurso cultural que povoa muitas mentes e vidas dos nossos contemporâneos. Ao vermos as atitudes e os comportamentos de tanta gente fica-nos a nítida sensação dum largo, profundo e altíssimo fosso onde muitos mergulham sem saída e sem nexo. Por isso, colocar Deus na esfera dos valores da maioria dos nossos coetâneos é como que usar uma linguagem sem compreensão nem suficiente valorização.

Por outro lado, não fossem as conquistas dos nossos futebóis e quase ninguém sentiria os eflúvios de nacionalismo – nalguns casos a roçar o bacoco bairrista e a lamechice inconsequente – ao escutarmos, a propósito e a despropósito, o hino nacional, numa tentativa de criar espírito de pátria e de comportamento de nação. Aí vemos, nem que seja por momentos de alienação coletiva, emergirem laivos dum povo que luta, esbraceja e, por vezes, conquista. Efetivamente os três sinais máximos de representação do nosso país – hino, bandeira e presidente – vão-se conjugando para remar para o mesmo lado da barricada, mesmo que esta possa estar empestada de lacaios, oportunistas e cobardes, hoje como ontem…

Não podemos deixar de continuar a refletir sobre esse outro aspeto que resta do tríptico citado: ‘família’. Mais do que um conceito sociológico em mutação, a célula básica da sociedade, sobretudo na linha da tradição judaico-cristã, precisa de ser analisada com olhos de futuro e não com nostalgia nem derrotismo. A família é e será sempre esse espaço de nascimento, de aprendizagem e de consolidação de cada pessoa, tendo em conta os valores, os critérios e os desafios permanentes a que está submetida. Com efeito, Deus cuida, a pátria alimenta e a família envia cada pessoa, em cada momento e numa contínua história de estórias…

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Tiques aburguesados…de revolucionários, ontem como hoje!


É um ponto de denominação mais ou menos comum, vermos alguns dos mais significativos revolucionários – seja qual for a área, a época ou mesmo qual tenha sido a capacidade de deixarem consequências – serem filhos da burguesia e/ou da (dita) ‘classe média’ e que, tendo passado algum tempo das suas façanhas/ousadias, ainda deixaram a transparecer tiques dessa outra proposta/vida, por entre as tentativas de se revelarem fora da consonância, que contestam…tácita ou declaradamente.

Vejamos alguns testemunhos do passado… para tentarmos entender as posições desses outros do presente:

- Francisco de Assis (1182-1226) era filho dum burguês e ele mesmo servidor da categoria burguesa até à descoberta, mudança e consolidação do ‘seu’ projeto de vida…em pobreza radical: confrontou-se com a aparência para se demonstrar na verdade!

- De onde era procedente Inácio de Loiola (1491-1556) para entender a ‘vulgaridade’ de vida em que andava? Duma expressão social ‘superiorizada’ que o fez desmontar aquilo que dele pretendiam e, duma perna partida, fez a descoberta que o tornou um servidor de Deus e da Igreja, cativando tantos outros para a sua companhia…ao longo dos séculos!  

- Karl Marx (1818-1883), de ascendência judia, era resultado duma mistura entre a classe média do pai e da aristocracia da mãe, tentando propor visões, leituras e políticas onde os mais desfavorecidos poderiam ascender a um patamar superior, tal como apresentaria pela luta de classes…Deambulou pelas franjas burguesas para concretizar as suas ideias revolucionárias…Muitos deles apreenderam na espuma aquilo que o fez mergulhar na filosofia dialética… Deixou vulgares sequazes e uns tantos idílicos continuadores nem sempre tão perspicazes, mas antes mais oportunistas no revisionismo da filosofia da história! 

- Lenine (1870-1924) também era procedente duma classe média alta, judeu mesmo pela parte materna, adquiriu formação universitária em direito. De personalidade prática conjeturou contra as autoridades, criando ele mesmo uma nova idealização política: marxismo-leninismo, que tantas vítimas ceifou dentro e fora da Rússia…no seu tempo e pelos decénios seguintes. Embora haja quem o contradiga, Lenine aceitou a culto da personalidade, até como forma de unir o (dito) movimento comunista. Difundiu a ditadura do proletariado (isto é, da prole), embora não tenha tido filhos…

- Outros ‘românticos’ ou não tanto – porque sanguinários e democratas ditadores – seguiram as pisadas desta figura marcante do século XX: Mao Tsé-Tung (1893-1976), Fidel Castro (1926-2016), Ernesto ‘Che’ Guevarra (1928-1967) … à mistura com ‘heróis e santos’, dentro e fora do contexto católico, que procuraram concretizar na vida as fés que os motivavam…tais como Martin Luther King (1929-1968), Madre Teresa de Calcutá (1910-1997), Edith Stein/Santa Teresa Benedita da Cruz (1891-1942), João Paulo II (1920-2005)…  

= É diante deste largo espetro de figuras – cada um a seu modo e dentro da luz que tiveram – sabendo passar do seu ‘lugar de conforto’, por vezes, apelidado de aburguesamento, para o espaço de incómodo pessoal e de luta por ideais, que hoje sentimos uma enorme falência de projetos humanos, espirituais e mesmo na dimensão cristã…também ela a viver esta crise de valores, de critérios e de desafios que tenham por horizonte algo mais do que a reduzida dimensão do próprio perímetro.  

- Quem não se reveja nas incongruências dos políticos que dizem e não fazem o mínimo daquilo que propõem…sem nexo de causa a efeito,

- Quem continue a considerar como exequível o ideal de vida do Evangelho e se aconchegue à acomodação do pensar pelo agir,

- Quem ainda acredite que algo de diferente pode ser construído porque se crê na bondade das pessoas mais do que na sua maledicência ou na desconfiança,

- Quem não quer desistir só porque uns tantos preferem a simulação ao compromisso…simples e sincero.

Então, dizemos que vale a pena ainda ter esperança, mesmo que possa haver falhas, erros e pecados, pois a mudança não depende dos outros, mas de cada um de nós, por mais fácil que pareça, embora não se tenha ainda descoberto…Que nunca nos conformemos por facilidade, mas sempre e só por dinâmica de aceitação da vontade de Deus, hoje e sempre!

           

António Sílvio Couto

sexta-feira, 27 de julho de 2018

‘Bom padre’…à sua maneira!


Foi desta forma um tanto paradoxal que me veio à congeminação o modo de ‘definir’ um certo padre de quem ocorre uma data festiva de jubileu.

Num segundo momento perguntei-me: será isto um elogio ou uma crítica? Servirá esta frase para dizer bem da pessoa ou para considerar algo mais que só benevolência e compreensão? Esconderá esta frase algo que poderia ser dito de todos nós ou comporta algo do mistério do nosso ser sacerdotal? Não teremos todos nós algo que se parece com bom e não é, à mistura com algo que disfarça o que nem sempre somos capazes ser para além da impressão – boa, suficiente, medíocre ou má – que deixamos, inconscientemente, transparecer?

Noutra perspetiva deixei a mente deambular e dei comigo a fazer uma leitura bem mais séria da vida e do ministério… das alegrias e das tribulações… das marcas e das falhas… dos sonhos e das deceções… de tantos padres de ontem, de hoje e (sem risco de errar em excesso) de amanhã. 

= Não teremos todos – mais velhos ou mais novos, esses (ditos) de meia-idade ou outros principiantes, sem esquecer os acomodados, os desiludidos, os vencidos, os resignados e, sobretudo, os que cumpriram a sua missão em condições difíceis e complexas – um espaço em que vivemos à ‘nossa maneira’, criando cada qual o seu ‘status’ de realização ministerial em conformidade com a Igreja, amando-a e servindo-a como fomos capazes? Em tantas das situações de vida houve circunstâncias em que o padre só foi ‘bom’ porque soube entender-se a si mesmo e à sua configuração humana, social, religiosa e cultural. Quando isso não aconteceu houve desencontro entre o ser e o viver, sendo este mais árduo do que a adequação ao ambiente – geográfico, antropológico, socio/económico, político ou espiritual – circundante. Há tempos e momentos em que isso é duma atrocidade enorme: os momentos de mudança, de paróquia, de tarefa, de serviço ou mesmo de diocese. 

= Aquela frase inicial talvez possa, numa primeira abordagem, aparentemente, colidir com a mais correta e ortodoxa leitura teológico/eclesial da expressão: ‘sacerdos in persona Christi’, sacerdote na pessoa de Cristo. Com efeito, ser ‘sacerdote na pessoa de Cristo’ não é tornar-se uma reprodução de Cristo em pessoa, isso seria além de impossível algo de inatingível. Por outro lado, ser ‘sacerdote na pessoa de Cristo’ é deixar-se configurar – como a linguagem das tecnologias mais recentes permite entender esta palavra – à pessoa de Cristo, fazendo como Ele os atos de Deus entre os homens. Deste modo, ser ‘bom padre…à sua maneira’ tanto pode ser um desafio de toda uma vida como uma contínua prossecução de ser como Cristo o rosto de Deus entre os homens. Ora este rosto não se fotocopia nem é clonável, antes se personaliza em cada um que aceita deixar ser ministro desse Cristo, o ministro (servidor e sinal) por excelência do Pai…  

= Aproximando-se a celebração litúrgica de São João Maria Baptista Vianney, ‘o cura de Ars’, no dia 4 de agosto, patrono de todos os párocos do mundo, deixamos algumas das suas frases efervescentes sobre o ministério sacerdotal, tendo em conta o contexto do seu tempo, pós-revolução francesa, e o nosso tempo duma espécie de eclipse do ministério do padre à mistura com certos exageros de alguns dos eclesiásticos mais ou menos novos…senão na idade ao menos na maturidade:

- Se a Igreja não tivesse o sacramento da ordem, não teríamos entre nós Jesus Cristo.

- Quem coloca Jesus no sacrário? O padre. Quem acolheu nossa alma na entrada da vida? O padre. Quem alimenta nossa vida na peregrinação terrestre? O padre. Quem prepara nossa alma para comparecer diante de Deus? O padre. É o padre quem dá continuidade a obra da redenção na terra.

- O padre deve estar sempre pronto para responder às necessidades das almas.

- No lugar onde não há mais o padre não há mais o sacrifício da missa.

- Deixai uma paróquia sem padre por vinte anos e aí se adorarão os animais.

- Quando alguém quer destruir a religião, sempre se começa por atacar e destruir o padre. 

= Será que ser ‘bom padre…à sua maneira’ é um defeito ou um desafio? Como poderemos ter bons padres, se as famílias e as paróquias falharem como espaços de vida cristã sem medos nem falsas modéstias? 

     

António Sílvio Couto  

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Gastos médios de férias


Segundo dados duma entidade de observação de comportamentos, em média, os portugueses tencionam gastar 667 euros em férias, compreendo os meses de julhos a setembro…deste ano

Comparativamente aos anos anteriores nota-se um abaixamento significativo. Eis os dados disponíveis dos gastos projetados dos portugueses em férias do verão: 2017 – 950 euros; 2016 – 884 euros; 2015 – 706 euros; 2014 – 767 euros…

Desde logo poderemos e devermos questionar qual o significado mais profundo desta quebra de valores gastos com férias. Será um reflexo de que nem tudo vai tão bem como nos dizem os governantes? Será uma maior consciencialização de que é precisa moderação nos gastos, pois há outras prioridades? Já aprendemos a moderar-nos nos gastos ou ainda estamos a criar hábitos de sensatez e bom senso?                                                        

= Diante destes dados simples e talvez nem tão significativos de imediato, teremos de aprende a conviver com a bolha do turismo com que nos têm vindo a seduzir. O ‘boom’ de procura do nosso país poderá tornar-se um bluff se outras condicionantes forem introduzidas no sistema vigente de economia. Os vários tentáculos com que o fenómeno do turismo tem sido servido poderão revelar-se insuficientes para suportar os enganos com que certos dirigentes – políticos, económicos, sociais e culturais – se vão exibindo por agora. Com efeito, uma sociedade suportada por uma economia da diversão não irá longe e com facilidade entrará em crise se alguns fatores – segurança, confiança, hospitalidade, educação cívica – forem introduzidos com maior ou menor vulnerabilidade. Torna-se perigoso ‘colocar todos ovos no mesmo cesto’ – diz-se em certas circunstâncias. Ora, isto mesmo poderemos dizer sobre esta questão do turismo, pois a opção de quase tudo canalizar – investimentos, obras, iniciativas económicas e culturais – para o turismo é cada vez mais perigoso, desde o âmbito humano até às razões ambientais. Dá a impressão que se quis fazer do turismo um espaço fácil e rápido de ganhar dinheiro, mesmo que à custa dalguma descaraterização do nosso ser identitário mais profundo… 

= À mentalidade do período de férias – quase obrigatório e sagrado – temos vindo a assistir também a uma espécie de endeusamento desse tempo que devia ser de descanso, como se isso fosse algo que ‘dá estatuto’ à pessoa pelo local onde – ou donde se mostra…na vivência faceboquiana – alguém vai de férias. Locais de grande procura têm vindo a tornar-se alvo de excessivo movimento, onde de descanso pouco ou nada fica. Com certa frequência se quer dar ‘boa’ impressão na vizinhança, segundo o (pretenso) lugar de férias…até pela thirt exibida querendo dizer por onde se andou…real ou virtualmente. Quantas vezes imagens, posts e outras informações, através do facebook, fazem das férias um estendal de falta de senso, levando as pessoas a cometerem erros que podem ser fatais para a segurança das próprias casas nesse período de tempo. Quantas vezes seria bem mais benéfico que se cultivasse a discrição e não tanto a ostentação, garantindo às pessoas que sejam vistas mais pelo que são do que por aquilo que pretendem dar impressão que têm ou querem mostrar. 

= Mesmo que forma simplista os números aduzidos aos gastos em férias projetados para este ano, significam mais do que o ‘ordenado mínimo nacional’ estipulado por lei. Estes dados nivelam todos os que pretensamente façam ou não férias, mas, quantos outros, gastarão muito para além daqueles números, tendo ainda em conta quem não chega àquela bitola. Assim o quadro de qualidade da nossa sociedade tem ainda de evoluir mais para a justiça, onde cada qual possa usufruir dos seus direitos, mas sem ofender iguais condições de outros concidadãos. Efetivamente é neste ponto que temos muito a caminhar mais pela igualdade que não tenha as mãos voltadas para dentro, mas que esteja capaz de viver em solidariedade com respeito e sensatez… Esta como qualidade humana, infelizmente, nem sempre é tida na devida conta, parecendo, em muitos casos, que tem estado em saldos…ao longo de todo o ano.

A quem possa ter (ou estar) férias, boas férias. A quem as ainda não teve (ou não terá), que o trabalho não subjugue a liberdade pessoal e familiar.            

 

António Sílvio Couto