Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Caríssimas IPSS’s


Tem sido notícia nos últimos dias um caso para investigação, envolvendo os responsáveis da ‘Raríssimas – associação nacional de deficiências mentais e raras’, que tem um dos edifícios emblemáticos – ‘a casa dos marcos’ – na Moita.

Dado que estive algumas vezes – em momentos festivos e noutros mais normais – neste espaço e me foi dado conhecer alguns dos responsáveis, sinto que há algo que não está bem em tudo quanto foi dito e tornado público. Deixo a mensagem que enviei à responsável, quando estava mais sob fogo da comunicação social e do público – «Ao cuidado da sr.a Dr.a Paula Brito e Costa. Saudações. Independentemente das causas e das consequências do que tem sido noticiado desejo exprimir a minha solidariedade pessoal pela obra que tem vindo a conduzir, tendo a Moita como lugar de referência. Espero e estimo que nesta hora de tribulação possa haver verdade e bom senso. Subscrevo-me atenciosamente, asc, pároco da Moita».

Nesta mensagem, enviada na manhã de 11 de dezembro, não quis nem pretendi fazer mais do que dar uma palavra a uma pessoa quando nem tudo corre bem ou quando, por vezes, se pode ser alvo daquilo que não foi o melhor… Quando se está por baixo, os ‘amigos’ rareiam! 

= Este caso fez como que fez emergir, na sociedade portuguesa, várias correntes e linhas de leitura, de pensamento, de posicionamento e mesmo de capacidade política… extrapolando duma situação factual para questões similares. 

- Quem trouxe a denúncia à luz do dia (ou da noite) foi uma estação televisiva, através daquilo que alguns reputam de ‘jornalismo de investigação’. Sim fez o seu papel, mas não se pode confundir informação com manipulação dos dados e tão pouco com discursos/reportagens encomendados.

- Houve quem não falou e devia tê-lo feito, criando com tal atitude um vazio de suspeita e alvo de suspeição.

- Vimos aparecerem movimentações nas redes sociais que mais não são do que invetivas de censura e linchamentos de personalidade. A pretensa ‘petição para a demissão da responsável da raríssimas’ chegou a atingir em poucas horas mais de quinze mil peticionários.

- Certos políticos profissionais denunciaram que deviam ter mais memória e coragem, pois uns caíram sem honra e outros não apresentaram honradez para saírem pelo seu próprio pé.

- Em tudo isto vimos que há, na nossa sociedade, algo que faz com que o dinheiro mova as pretensões das pessoas, umas de forma honesta e séria, outras vão enrolando a teia até que se descubra pelas piores razões…   

= Mais o mais grave – digo enquanto colocado, por inerência de funções, também à frente duma IPSS – é que se nota que estamos perante uma espécie de campanha mais ou menos bem urdida com outros objetivos nem sempre claros e ainda sob a efervescência da emotividade. Com efeito, uns tantos mais ortodoxos da teoria do Estado-patrão foram deixando sair pelas entrelinhas que o setor terciário pode estar envolvido em conjeturas tecidas à sombra dum estado menos atento e rigoroso na avaliação das ajudas que dá a milhares de IPSS’s. Uns tantos à pressa foram consultar dados para terem opinião, mas o que captaram foram algumas informações nem sempre credíveis e tão pouco atualizadas. Certos opinadores tentaram meter no mesmo saco – por ignorância ou por nesciência – algo que não é comparável, lançando com isso um manto de suspeição sobre tudo e contra todos, isto é, as instituições cumpridoras ou faltosas, bem como sobre os órgãos de gestão voluntários e os incompetentes…

Tenho ainda no ouvido a intervenção verrinosa dum elemento do setor mais trotskista, que apoia o governo em funções, logo no início da presente legislatura, a invetivar as IPSS’s como uma espécie de antro de lavagem de dinheiro menos claro na nossa sociedade. Quem assim se dirigiu e classificou milhares de pessoas que se dedicam aos outros de forma voluntária e solidária, não deixará escapar esta ou outras situações/casos para fazer alarde social e político, pois, para muitos destes estatizantes, os particulares – isto é, os que não comem, por opção, do prato do Estado-providência – são considerados inimigos e, por isso, a serem combatidos, esmagados ou inutilizados…embora sejam os que pagam os impostos que os sustentam nos lugares de comando. Haja coerência e bom senso!   

 

António Sílvio Couto  



terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Do ‘cristianismo sociológico’ ao ‘cristianismo da escolha’


Há poucos dias foi nomeado o novo arcebispo de Paris, Mons. Michel Aupetit, em substituição do cardeal André Vingt-Trois, que esteve à testa da igreja parisiense nos últimos doze anos. A terminar o seu múnus episcopal, este apresentou ao recém-nomeado os grandes desafios que terá de enfrentar – ele que já foi bispo auxiliar da capital francesa e agora regressa de Auxerre – a saber: a passagem dum cristianismo sociológico para um cristianismo de escolha, arriscando ‘consagrar o essencial das forças da Igreja a fortalecer aqueles que escolheram’ deixar de esquecer os outros… assegurando a transmissão da fé num contexto de secularização generalizada.

Segundo dados do jornal católico francês, Paris tem quinhentos padres para cento e seis paróquias, com mais de oitenta seminaristas, num modo de formação muito específico: em pequenas casas…

Filho da grande diocese parisiense, tal como os seus dois predecessores, Mons. Michel Aupetit conhece a diocese com mais de dois milhões e duzentos mil de habitantes, num quadro de um milhão e meio de praticantes, isto é, de 70% de frequentadores habituais, mas onde os problemas de perda da fé tem vindo a marcar distância num mundo crescentemente secularizado e bastante laicizado. 

= Lucidez para ‘ver-julgar-agir’?

Quem conheça, minimamente, o pensamento francês saberá que eles pensam razoavelmente bem, isto é, com lógica progressiva e com tendência clara, mas nem sempre são capazes de serem bons executantes daquilo que engendram, fazendo com que outros o levem à prática simples, normal e exequível.

Parece ser razoável perceber ainda que a cultura francófona tem vindo a perder estatuto e visibilidade no contexto mundial e europeu. Hoje falar francês é menos fluente do que há décadas (senão séculos) atrás. Com efeito, a cultura anglo-saxónica têm-se imposto com maior agressividade e referência, isto é, a língua de comunicação entre os povos é sobretudo o inglês, mesmo que tenha algum acento americanizado.

Também no pensamento eclesial, o francês tem passado a um campo secundário, onde até a literatura escrita é um tanto residual, seja na quantidade, seja mesmo na qualidade. A outrora ‘França católica’ tem dado espaço a manifestações mais de índole muçulmana do que com incidência cristã. Lembro-me de ter lido, em tempos não muito recuados, que para se falar da ‘quaresma’ naquele país como tempo religioso de expressão católica de jejum e de oração, alguém teve de se socorrer da comparação com o ramadão islâmico ou os ouvintes não captariam o que se pretendia dizer…  

= Cristianismo de rotina ou de rutura?

Deste modo a observação que motiva esta reflexão/partilha sobre a passagem do ‘cristianismo sociológico’ para um ‘cristianismo de escolha’ atinge alguns dos fundamentos da nossa condição de cristãos neste tempo, nesta cultura e mesmo nesta condicionante da história. Efetivamente há sinais que nos devem fazer refletir sobre o modo como chegamos à progressiva laicização da sociedade, senão mesmo da Igreja – não reduzimos a sua expressão à dimensão católica – sobretudo na cultura ocidental, mais de consumo do que de compromisso. Com efeito, os valores e critérios deste tempo andam mais pela área da satisfação material do que da exigência moral/ética. As questões de âmbito espiritual como que têm sido reduzidas ao foro intimista, relegando as expressões de fé para a conduta do privado. Ora, isto faz parte dum plano de amorfismo mais ou menos consentâneo com uma espécie de sacralização do Estado e da sua ética (na maior parte dos casos) republicana, laica e tendencialmente agnóstica. Nesta caminhada parece que convém que se exaltem certos ritos tradicionais, com outras vivências exotéricas à mistura, desde que não entrem em confronto com ‘tradições’ ocas e de verniz social. Como não ver ainda em certos momentos de ‘sacramentos (pretensamente) sociais’, onde se dá atenção mais à forma do que ao conteúdo? Como não sentir ainda que certos batizados e casamentos – tendo por cenário a igreja – não passam de momentos sociológicos sem implicações na vida e na conduta social cristã?

É urgente, também no nosso país, que se faça essa passagem do cristianismo sociológico e de verniz carunchoso para a opção de fé esclarecida, celebrativa e comprometedora da vida no espaço do mundo!     

 

António Sílvio Couto


sábado, 9 de dezembro de 2017

Ao estado (deplorável) a que chegamos…


Por entre os mais recentes assuntos da ‘nossa’ vida política, económica, social e até religiosa, veio-me à lembrança uma observação que ouvi a um dos escolhidos para uma tarefa de âmbito comunitário/coletivo: vejam lá a que estado chegou a minha… (encubro a entidade) para me escolherem a mim! Parece que não tinham melhor!

De facto, ao vermos a eleição do ministro das finanças de cá como o escolhido para mandar – será que o presente não é um engulho encapotado? – na Europa…fica-nos a sensação que teve o lugar, sobretudo, tendo em conta a coloração ideológica e pouco menos.

– Ao vermos surgirem como solução pessoas que, noutras épocas não seriam tidas nem achadas para qualquer caso, mais parecem ser problema, dada a sua complexidade e falta de qualificação…podendo, muito em breve, passarem a ser, de facto, complicações sérias.  

– Quando vemos serem entregues tarefas de responsabilidade mais a quem se insinua do que a quem reúne as condições para o exercício das missões em perspetiva e/ou em execução… dizemos isto envolvendo mesmo serviços de âmbito religioso/católico.

– Quando vemos ser nivelado pelos pés aquilo que deveria ser apreciado pela melhor e mais alta prossecução de objetivos e de desafios… incluindo movimentações no setor desportivo/clubístico mais assanhado.

– Quando vemos que quem defende a atual tendências da economia da geringonça, mas já adverte de que ‘vamo-nos aproximando de um novo colapso financeiro’…por que não havemos de acreditar nesta prevenção e não nas ilusões que, diariamente, nos vendem.

– É notório que a maior parte da comunicação social tem um (quase) ódio de estimação pelo atual presidente americano, bastando um leve aceno contra uma tal corrente instalada e logo surgem atos e factos que deixam o homem num estado deplorável… Será que a mais recente luta – contra a simples e significativa mudança de embaixada para Jerusalém – merece tal tratamento noticioso e opinativo? Não andaremos a servir outros interesses bem mais perigosos e mortíferos? Temo quase sempre essa leitura de carneirada sobre certos assuntos e para com determinadas pessoas… pois a tendência dialética formatou muita gente! 

Esta meia dúzia de ‘episódios’ aduzidos – a lista poderia estender-se por dezenas – traz-me à memória a necessidade que temos de saber quem somos, qual a nossa missão ou tarefa a desenvolver e, sobretudo, essa questão simbólica: depois da minha passagem pelo espaço disto a que chamamos Terra, qual o rasto que vou deixar: será meramente de lixo ou desejo, posso e quero semear algo que deixe o mundo mais humano e, por isso, mais cristão?

Porque somos todos muito mais do que um amontoado de átomos ou um conglomerado de células. Porque temos todos a marca divina, mesmo quem nem sempre a assumamos ou cultivemos. Porque não há ninguém que não tenha nada a dar e muito menos a receber. Porque vivemos numa interdependência contínua e crescente. Porque só poderemos crescer – humana, intelectual/emocional e culturalmente – quando nos abrimos aos outros, pela diferença e a complementaridade.

Será preciso que não nos deixemos adormecer pelos embalos subtis de quem nos comanda, seja lá a ‘autoridade’ que for, pois nunca poderão matar em nós a dimensão mais humana da nossa condição vivente: a da espiritualidade, particularmente tendo em conta a nossa memória pessoal, familiar e comunitária. Ora é isso que celebramos no Natal: a fundamentação da nossa fraternidade universal, pois um Deus fez-se homem e pela sua encarnação nos veio divinizar. Tudo o resto que se possa apensar ao Natal não acrescenta nada de significativo. Este mistério dum Deus-humanado deve fazer-nos mais humildes e verdadeiros, mais simples e sinceros, mais capazes de olharmos os outros de frente, pois neles nos revemos e aprofundamos, colhendo as lições de sabermos aprender com os nossos erros e com os sucessos alheios…  

Vinte e um séculos depois do nascimento de Cristo parece que estamos ainda a começar. Agora a caminhada tem outras dificuldades, na medida em que alguns, que vivem como se Deus não-existisse, nem sempre respeitam com idêntica atitude tal como gostam de ser respeitados. Nesta cultura ocidental, particularmente europeia, há quem usufrua dum certo espírito de cristandade, mas satirize o que lhe dá origem… Assim, não!

 

António Sílvio Couto  



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Bisbilhotice – terrorismo em marcha


‘Alguns podem criticar-me, porque sou repetitivo nisto, mas para mim é fundamental: o inimigo da harmonia numa comunidade religiosa é o espírito de maledicência’ – disse o Papa Francisco numa das suas últimas intervenções por ocasião da visita apostólica ao Bangladesh.

O Papa considerou mesmo que bisbilhotar e falar mal dos outros é como fazer terrorismo, exemplificando: aquele que ‘vai falar mal dos outros não o diz publicamente, tal como o terrorista não o diz publicamente. Aquele que vai falar dos outros fá-lo às escondidas. Atira a bomba e vai-se embora e a bomba destrói tudo e ele vai tranquilamente colocar outras’.

Quem assim fala conhece muito de perto a realidade das nossas ‘comunidades’ (grupos, movimentos, paróquias, dioceses… espaços de convívio social, lugares de trabalho…situações da política ou da comunicação social) e, certamente, sentiu-o no contacto com os outros, senão mesmo terá participado nesse ‘terrorismo’, que é muito mais do que verbal, mas denota essa praga social da má-língua, maledicência, murmuração, calhandrice e tudo o resto que faz com que nos ‘entretenhamos’ substancialmente a falar dos outros…de preferência mal!

Em tempos recuados ouvi, aduzido dum padre numa localidade rural, que dizia nas suas homilias, quando se estava a referir a algum assunto mais delicado (ou não): ‘e eu estou a vê-los’… Isso mesmo se pode agora reportar ao que o Papa Francisco – em vésperas de começarmos o Advento – disse lá no longínquo Oriente. Com efeito, quando se vai conhecendo um lugar onde vivemos e onde podemos ir conhecendo as pessoas e o seu modo de ser, poderemos referir, sem medo de errar, que estamos a ver quem, falando mal dos outros, pratica terrorismo e que não é nem mais ou menos só verbal, pois de muito do que se diz vemos o mau ambiente que cria e como que se difunde, qual veneno infernal em tantos dos nossos espaços… De pouco adianta andarmos a colocar cataplasmas sobre feridas mal curadas, pois a bisbilhotice emerge de pessoas mal resolvidas na sua personalidade e que infetam o ambiente em que se encontram, pois, se estou de mal comigo mesmo, terei a tendência em criar mal-estar à minha volta, espargindo críticas a tudo e a todos, do alto desse meu pedestal julgador e não-julgado.

Quantas vezes se apanha mais depressa uma conversa de maledicência do que uma oportunidade em nos edificarmos falando de algo positivo dos outros, pois de nós mesmos estamos (quase) sempre a fazer verificar que temos razão, mesmo que sejamos os culpados desse terrorismo tão comum e não disfarçado. Será muito útil e benéfico que, neste tempo de preparação para o Natal, sejamos daqueles que estão vigilantes sobre as suas palavras, cuidando em não entramos na má-língua e tão pouco em sermos os iniciadores das conversas que irão dar tais frutos.

Temos de fazer o nosso diagnóstico sincero e exigente, considerando-nos potenciais terroristas, senão no ativo, ao menos na cobardia em contribuirmos para o mau-ambiente de tantos dos nossos espaços de vida, a começar pela família. Com efeito, talvez seja aqui que aprendemos as lições mais básicas, pois, se, na nossa casa, se ‘enterram vivos e desenterram mortos, como não seremos bons aprendizes de maledicência e da confusão de valores sobre a idoneidade alheia… e nem será preciso afirmar, bastará insinuar. Não será preciso ser-se grande especialista em educação para percebermos que as crianças são quem melhor denuncia o ambiente familiar. Com relativa facilidade poderemos penetrar nos meandros da vida familiar se virmos uma criança negativa, distorcendo as palavras que são ditas ou mesmo dando sentido diverso àquilo que foi falado… Isto é muito mais percetível do que parece!

Inverter este clima de terrorismo – como o Papa denunciou – é tarefa de todos, a começar pelos educadores, pais/avós e todos quantos têm a missão de contribuir para que seja criado um mundo mais leal e sincero, mais verdadeiro e honesto, mais respeitador dos outros e de si mesmo…

A fabricação das bombas deste terrorismo pode ser atalhada com atitudes e gestos, palavras e sinais mais simples do que o complexo combate ao terrorismo fundamentalista com que nos temos vindo a entreter. Bastará colocar uma vigia na boca de cada um de nós, numa nova ética onde ‘quando se fale dos outros seja para dizer bem’ ou, então, estar calado…Vamos começar, já?   

 

António Sílvio Couto


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Para uma ‘carta de motivação’


Já passou o tempo em que alguém conseguia um trabalho de forma tão direta – sem intermediários nem artifícios e tão pouco influências diretas ou indiretas – que bastaria a palavra do candidato e o acordo com o empregador para que o tão desejado lugar lhe fosse dado rapidamente. Na concorrência aos mais disputados lugares tem vindo a ser preciso submeter os pretendentes a alguma triagem, sob a apresentação do curriculum (há milhentas sugestões na internet), a uma possível entrevista mais personalizada e ainda esperar pela seleção definitiva…fazendo este percurso em tantas quantas as tentativas para arranjar/conseguir emprego!

Confesso a minha ignorância, que nunca tinha ouvido – até à apresentação de candidatura pública do ministro das finanças ao cargo de chefe do euro-grupo – numa tal ‘carta de motivação’. Socorrido da consulta internetana sobre o assunto encontrei os seguintes elementos:

* O que é? Uma ‘carta de motivação’ é considerado um documento que é enviado em conjunto com o curriculum, quando alguém se candidata a um emprego, apresentando a motivação do requerente a quem vai analisar o pretendido…

* Regras para escrever uma carta de motivação:

– quanto à forma não deve ter mais do que quinhentas palavras (cerca duma folha A4), com três curtos parágrafos, redigida em computador e não manualmente, sem erros ortográficos;

– sobre o conteúdo deve usar uma linguagem simples e direta, com os dados pessoais do candidato colocados no topo da página do lado direito, dirigida a uma pessoa e não ao geral da empresa, explicitando qual a vaga a que se candidata com os motivos convincentes para esse lugar, colocando os seus motivos positivos para corresponder ao anúncio de emprego…

* Elementos recomendáveis a apresentar – terá de saber apresentar os seus pontos positivos de candidato, seja a experiência profissional, se a tiver, ou percurso académico, se é recém-formado. Dever-se-á valorizar o candidato naquilo que o destaca do resto doutros possíveis candidatos, tais como o seu perfil de voluntariado, de pai ou mãe bem realizado ou de caraterísticas mais pessoais. Deverá saber o candidato dar razões para que possa ser uma mais-valia para quem o contrate…

Ficamo-nos por elencar alguns elementos da dita ‘carta de motivação’. Há erros a evitar. Há modelos sugeridos. Há dicas para tentar convencer… e tudo o mais que se pode encontrar em consulta na internet.

Por breves momentos vamos tentar fixar-nos no objeto da ‘carta de motivação’, pois dá a impressão que andamos muito distraídos destas coisas mínimas e nem sempre nos centramos no essencial.

– Além do valor da pessoa, apresentada no curriculum vitae, temos de saber quais as suas motivações. Pretender revelar-se aos outros é uma tarefa de assaz complexidade, dado que pode tentar fazer passar-se por alguém que ainda não prestou provas daquilo que diz ser ou ter, sobretudo se estivermos diante duma pessoa acabada de formar ou sem experiência de emprego, ou, pior ainda, se vem saltitando de emprego em emprego sem conseguir estabilidade… Fazer crer que é o mais competente para o cargo será tarefa nem sempre fácil de desempenhar, se for demasiado novo ou o historial de empregos ultrapassar a competência de trabalho… Quantos querem emprego e não trabalho!

– Atendendo ao emaranhado de relações em que vivemos e nos confrontamos cada dia, será sempre importante sabermos mais da personalidade de cada pessoa do que até dos conhecimentos adquiridos – tendo em conta a escola/faculdade onde foi formada mais do que o grau conseguido – na medida em que também os outros são pessoas que devem ser respeitadas no seu percurso humano, cultural e social. Não vale tudo para atingir os seus fins, pois os meios não são todos aceitáveis nem toleráveis.

 

= Numa nota final gostaria de deixar uma sugestão para aqueles que têm a responsabilidade de colocar, no contexto da Igreja católica, os padres nos seus lugares de serviço: seria muito útil que cada padre escrevesse a sua ‘carta de motivação’, dando as razões do seu préstimo pastoral. Talvez isso facilitasse a tarefa aos responsáveis e ajudasse a conhecer quem presta serviços. Não seria ainda de descuidar a necessidade de incluir na tal ‘carta de motivação’ a capacidade de saber integrar-se no dito presbitério, isto é, o conjunto dos outros e com outros padres da mesma diocese…Talvez tivéssemos muitas novidades e surpresas!       

 

António Sílvio Couto



terça-feira, 28 de novembro de 2017

Que expetativa para o próximo Natal?


De 3 a 24 de dezembro decorre o tempo litúrgico do Advento, isto é, a preparação mais próxima para o Natal. Neste celebramos – no hemisfério norte em contexto de inverno – o nascimento de Jesus Cristo, há mais de vinte e um séculos.

Ora, este tempo do Advento inclui quatro domingos e, na maior parte das vezes, o ritmo doutras tantas semanas. Não é isso que temos este ano, pois o quarto domingo celebra-se a 24 de dezembro e, nessa mesma noite, já temos a designada ‘missa do galo’; por isso, será muito curto o espaço e a oportunidade de vivermos condignamente essa tal ‘semana’, que não passa dumas breves horas…

Tanto quanto é percetível o Natal ainda apresenta alguns resquícios de cristandade, isto é, daquele ambiente em que todos – ou uma grande parte – era cristã, senão no conteúdo ao menos na forma e se ia (vai) usufruindo dos benefícios gerais (feriados, festas, prendas/presentes, convívios, augúrios, etc.), embora sem compromisso no particular… Mas será que, no ritmo deste ciclo da vida, ainda pode haver mais do que rotina e tradição – essa que pode até esconder ignorância e má-fé – na preparação e na vivência do Natal deste ano? Teremos de repetir algo de nostálgico ou de fazer algo sem sabor ou novidade?

Porque o Natal deste ano pode ser o último da nossa vida – alguém pode afiançar que não é? – talvez devamos pessoal, familiar, social e eclesialmente vivê-lo com outra, nova e única intensidade. Poderá acontecer que nos venham à memória os que, da nossa família humana, psicológica ou da fé, já não vivem o Natal de forma visível. Talvez esses dias possam ser mais duros e sensíveis… Enquanto isso poderemos ver tantos para quem essa data não passa disso mesmo, uma data onde O festejado é esquecido e as honrarias são mais interesseiras e humanas do que seria desejável.

Há condimentos da nossa cultura cristã que nos podem ajudar a viver com expetativa este Advento. Temos vindo a perceber que no sul da Europa – mais dinamizado pela primavera e a Páscoa – têm estado a ser introduzidos aspetos muito realçados nos países do norte do continente: enfeites alusivos à natureza, velas e luzes, ‘coroa do Advento’… e tantos outros aspetos de quem privilegia a preparação e vivência do Natal em contexto mais fechado em casa e não tanto na rua, como nos países latinos… Tanto quanto é percetível, as imitações não nos têm (aos latinos) tornado mais trabalhadores, tão pouco mais fraternos e ainda mais cristãos…pelo contrário!

 

= Uma sugestão de itinerário: ‘família, santuário da vida em Jesus’

 

Atendendo à necessidade de configurar a nossa vivência do Advento à volta dum tema, na paróquia da Moita, diocese de Setúbal, propusemos um itinerário, tendo em conta o biénio diocesano da família, onde a palavra ‘vida’ está em destaque, numa proposta progressiva em cada semana. A partir de ‘vida’ enquadramos um ritmo…em que cada letra da palavra nos aponta um aspeto concreto e simples: vamos irmãos dar alegria… Isso desdobra-se em subtemas: vigiar sobre a vida (1.ª semana); conduzidos na vida (2.ª semana); acolhendo a vida (3.ª semana); celebrar a Vida (4.º domingo)…chamando a participar em cada domingo para setores diferentes da família, respetivamente, avós, pais, mães (bênção das grávidas) e filhos/irmãos.

A assunção da ‘coroa de Advento’ em família poderá proporcionar um tempo de oração – mesmo (ou sobretudo) à volta da mesa – da família em cada domingo, sendo sugerida uma breve oração de bênção dessa vela que há de estar presente cada vez que a família se reúne ao redor do mesmo pão…

Se bem que as diversas editoras católicas nos vão seduzindo com as suas propostas, torna-se mais apropriado que cada diocese ou paróquia – tudo dependerá do âmbito onde nos possamos inserir/comprometer – faça a sua sugestão de caminhada, sem nos deixarmos enlear por algum ‘fast food’ religioso um tanto envernizado por laivos de ‘new age’, isto é, lindos e atraentes, cativantes e perfumados, de muito teor social, dum tanto registo light e de algo anódino quanto baste…sem Cristo, claramente!

Em jeito de rodapé: o que mais custa ver e até aceitar é o razoável número de cristãos (ditos) praticantes que, nesta época de Natal, se comporta com critérios neopagãos, ficando mais nas coisas materiais do que na vivência d’Aquele que festejamos… Isto para além da ausência das celebrações comunitárias mais básicas!

 

António Sílvio Couto



domingo, 26 de novembro de 2017

Tentáculos da ‘black friday’…


As ramificações da sexta-feira negra (‘black friday’) na nossa vida social, económica, política e cultural são mais do que muitas. Algumas são um tanto percetíveis, outras nem por isso e muitas ainda de complicada compreensão.

Qual a origem e o significado da ‘6.ª feira negra’? No conceito social e económico a ‘black friday’ é uma expressão quem vem sendo usada para designar a quarta sexta-feira de novembro, ou seja, um dia depois do ‘dia [americano] de ação de graças’, que acontece na quarta quinta-feira do mesmo mês. Explicando: a sexta-feira negra seria como que uma espécie de ponte entre o feriado nacional americano e o fim-de-semana seguinte, com que muitos funcionários seriam agraciados. Isso permitiria uma boa oportunidade para os comerciantes criarem um dia de liquidações, atraindo consumidores e dando ainda abertura ao início de compras de natal e de fim-de-ano…

Como bons ‘imitadores’ das façanhas dos americanos – mesmo que contestatários do espírito capitalista que lhe está subjacente – bem depressa entramos na lógica do consumismo… com grande gáudio de marxistas, trotskistas, socialistas e afins. Uma coisa é o que (pretensamente) se pensa e outra bem distinta aquela que se faz e como se vive! Incongruência a quanto obrigas!...

Este ano a ‘sexta-feira negra’ teve preparação e prolongamento, isto é, foi tendo espaço desde o princípio da semana e até quase ao final do mês.

Ora, o governo deste país – qual ariete representativo do espírito de ‘black friday’, isto é, aumenta os preços para fazer de conta que os reduziu na hora de colocar à venda as benesses em maré de saldos – também entrou na lógica desta época. Quis fazer o balanço de dois anos de governança. Entregou a tarefa a uma empresa de comunicação e imagem – Aximage… que tão bons resultados tem ‘vendido’ nas sondagens para a área governativa, agora e no passado recente. Escolheu uma universidade e montou o cenário. Dizem que pagaram umas centenas de euros aos ‘selecionados’ para participarem no estudo… mas o pagamento era fornecido em cupões de produtos em cadeias comerciais… O coordenador do dito estudo parece estar na linha de quem já enterrou o discurso da austeridade, sabe-se lá a que preço e com que futuro!

 

= Atendendo aos acontecimentos dos últimos meses – desde meados de junho – que há para comemorar? As vidas colhidas pelos fogos – 64 em junho e 50 em outubro – não mereciam mais respeito e contenção nos festejos? Os prejuízos das pessoas não podiam fazer com que os governantes, ao menos este ano, fizessem algo comedido e sensato? Ou será que o sofrimento alheio não desmotiva quem manda?

Dá a impressão que se está a voltar a um espírito de ‘dejà vu’ na condução das políticas: resolver com festanças os ‘sucessos’ sem esperar que se consolidem os resultados. Isso mesmo deu origem à recente intervenção exterior em matéria de finanças públicas. Parecemos alguém que conseguiu sair, um poucochinho do vício e logo vai celebrar as pequenas vitórias com exageros iguais aos problemas…

O país não pode viver nos solavancos de gente inconsistente e temerária, que cultiva a vivência do ‘chapa ganha-chapa gasta’, pois isso só nos tem trazido dissabores e mais e mais problemas pessoais, familiares e sociais de incontinência económica, associada à verborreia duns tantos mais habilidosos e espertos, mas que farão os incautos pagar as consequências a curto e a médio prazo.  

= O problema de muita dessa gente que se deslumbra e deixa aliciar pelo espírito da ‘black friday’ nunca soube o que era passar dificuldades nem pessoais e tão pouco familiares. Dá a impressão que sempre tiveram tudo o que desejavam, desde a mais tenra idade, sem lhes ser coartada qualquer pretensão, por mais ousada ou cara que fosse. Talvez não tenham de ir com o dinheiro contado às compras, pois o ‘cartão’ tudo suporta e faz de conta que tem cobertura. Ora, ser governado por pessoas deste jaez só serve para criar rezingões e reivindicativos e pessoas pouco colaborantes no destino comum e com sensibilidade aos mais frágeis e, por vezes, marginalizados. Não será dando cobertura à minoria da função pública, espremendo com impostos os privados, que este país sairá do fosso para onde está, nitidamente, a regressar. O tempo confirmará que estamos mais perto disso do que julgamos…

 

António Sílvio Couto