Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Dos vícios da política … às ‘bem-aventuranças do político’


‘A par das virtudes, não faltam infelizmente os vícios, mesmo na política, devidos quer à inépcia pessoal quer às distorções no meio ambiente e nas instituições’ - diz o Papa Francisco na sua mensagem para o 52.º dia mundial da paz.
Tendo como tema: «a boa política ao serviço da paz», o sumo Pontífice traça alguns dos vícios da política, segundo o qual, ‘tiram credibilidade aos sistemas dentro dos quais ela se realiza, bem como à autoridade, às decisões e à ação das pessoas que se lhe dedicam’, na medida em que ‘enfraquecem o ideal duma vida democrática autêntica, são a vergonha da vida pública e colocam em perigo a paz social’
Eis os doze vícios elencados pelo Papa: ‘a corrupção – nas suas múltiplas formas de apropriação indevida dos bens públicos ou de instrumentalização das pessoas –, a negação do direito, a falta de respeito pelas regras comunitárias, o enriquecimento ilegal, a justificação do poder pela força ou com o pretexto arbitrário da «razão de Estado», a tendência a perpetuar-se no poder, a xenofobia e o racismo, a recusa a cuidar da Terra, a exploração ilimitada dos recursos naturais em razão do lucro imediato, o desprezo daqueles que foram forçados ao exílio’.
Citando o cardeal vietnamita Van Thuan, falecido em 2002, o Papa Francisco apresenta, por seu turno, aquilo que designa pelas bem-aventuranças do político:
Bem-aventurado o político que tem uma alta noção e uma profunda consciência do seu papel.
Bem-aventurado o político de cuja pessoa irradia a credibilidade.
Bem-aventurado o político que trabalha para o bem comum e não para os próprios interesses.
Bem-aventurado o político que permanece fielmente coerente.
Bem-aventurado o político que realiza a unidade.
Bem-aventurado o político que está comprometido na realização duma mudança radical.
Bem-aventurado o político que sabe escutar.
Bem-aventurado o político que não tem medo
’.


= Confronto salutar... pela paz a vários níveis interligados

Num tempo em que, tanto pelos exemplos como pelas deformações exploradas, vemos colocar em causa quem está na vida política, precisamos de ter em conta que quem exerce a função política é fruto do seu tempo, do lugar onde está e mesmo das raízes mais fundadas dos seus valores, critérios, propostas e fatores mesmo ideológicos.
Atendendo a que o Papa Francisco insere estas observações no contexto da sua mensagem para o ‘dia munidal da paz’ de 2019, precisamos de saber ler e interpretar as suas referências não só para com os políticos profissionais, mas também para com todos os outros cidadãos, que escolhem, validam, criticam ou ignoram quem os governa...mal ou bem.
Dado que é da paz que estamos a falar, o Papa considera que ‘a paz é fruto dum grande projeto político, que se baseia na responsabilidade mútua e na interdependência dos seres humanos. Mas é também um desafio que requer ser abraçado dia após dia. A paz é uma conversão do coração e da alma’ ... consigo mesmo, oferecendo um pouco de doçura a si mesmo e aos demais, com o outro, seja ele quem for (familiar, amigo, estrangeiro, pobre, atribulado) e com a criação, como dom de Deus.

Será que a nossa política consegue estes objetivos para a paz? A nossa participação na política constrói a paz? Os politicos, que temos, não exercem mais os vícios do que as bem-aventuranças, aqui enunciadas? Cristãmente teremos sido fomentadores de bons politicos ou limitamo-nos a criticá-los sem lhes darmos ajuda e suporte na fé? 
Não podemos exigir aos outros – políticos em particular – aquilo que não somos capazes de fazer! Em razão da nossa fé cristã temos de ajudar a surgir uma nova geração de políticos que se guiem mais pela Bíblia (sem fundamentalismos) do que pelo ‘Capital’ (odiento)…

 

António Sílvio Couto


terça-feira, 18 de dezembro de 2018

A palavra do ano… está em votação


Como vem sendo habitual, por esta ocasião do ano civil, surgem as propostas/candidatas à ‘palavra do ano’ de 2018. Na lista encontramos (por ordem alfabética, que não de graduação votada): assédio, enfermeiro, especulação, extremismo, paiol, populismo, privacidade, professor, sexismo e toupeira…

Pela minha parte já votei na palavra de 2018: populismo.

Reportando-nos a um certo arquivo podemos encontrar como ‘palavra do ano’ de 2009 – esmiuçar; de 2010 – vuvuzela; de 2011 – austeridade; de 2012 – entroikado; de 2013 – bombeiro; de 2014 – corrupção; de 2015 – refugiado; de 2016 – geringonça; 2017 – incêndios!

Ora, diante deste projeto de escolha da ‘palavra do ano’, podemos como que fazer uma sucinta aferição ao que foi a principal preocupação dos anos transatos. Esta iniciativa que já vai na sua 10.ª edição em Portugal pode-nos ajudar a captar o que de mais importante vivemos nos anos mais recentes, fazendo com isso memória e, possivelmente, criando história. 

= Há, de facto, ao longo de todo um ano uma multiplicidade de acontecimentos, de figuras, de ocasiões ou mesmo de oportunidades que nos fazem viver numa espécie de ritmo mais ou menos frenético, que, só ao final do ano, nos apercebemos que muita coisa aconteceu e que foi marcante na vida das pessoas, das instituições e da sociedade.

Segundo dados tornados públicos estão como mais votadas para ‘palavra do ano’ de 2018: professor, enfermeiro e toupeira… revelando-se, desde logo, os contextos sociais, profissionais ou desportivos em que cada um destes termos estão inseridos. Os mais de cento e quarenta mil votos validados revelam, deste modo, que os cidadãos participam neste processo de escolha, que tem tanto de indicativo, quanto de simbólico. 

= Numa sociedade que devia ser mais de cidadãos do que de números – sejam os da nossa identificação, sejam os da matemática economicista – este processo da escolha da ‘palavra do ano’ reveste-se de alguma configuração cívica, pois precisamos, urgentemente, de sair do nosso casulo de conforto para sentirmos os outros com quem vivemos e as formas de interligação necessárias, mais do que meramente toleradas.

Muitos dos nossos coevos vivem mais colhendo do fruto do que fazem os outros do que participando nas sinergias e nas múltiplas interdependências. Ora é neste aspeto tão simples que conflitua muito do nosso presente e do futuro. Na medida em que podemos compreender que não nos é permitido viver nessa atitude sanguessuga de nada fazer e de tentar usufruir dos benefícios sem se sujar no combate. Intolerância e radicalismo podem ser alguns dos inimigos mais imediatos que devemos combater e exorcizar do nosso ambiente… Outra tendência manifesta mais recentemente é a forma anónima com que se pretende revelar o protesto – os ditos ‘coletes amarelos’ são a ponta dum tal icebergue – mais pela destruição do que pela apresentação objetiva de razões e motivos para a mudança.

Não deixa de ser inquietante que a indumentária do capuz sobre a cabeça permite, hoje, criar alguma desconfiança entre as pessoas e abrigar quem não dá a cara pelo que diz e/ou pelo que faz. Com relativa vulgaridade há quem se esconda sob a capa de perfil falso ou pela denúncia anónima para lançar a suspeita sobre muitos ou quase todos. Ninguém está a salvo de ser difamado só porque alguém lança um comentário sem rosto…Não pode a justiça ir por esse caminho, pois, em breve, estaremos a lutar contra a própria sombra, sem nos darmos conta de que algo vai mal em nós e à nossa volta… 

= Precisamos de acreditar mais uns nos outros, sem entrarmos na bonomia do tendencialmente bom, mas procurando acreditar que o espírito que nos foi infundido no Natal de Jesus possa ser vivido para além das parcas horas da nostalgia ou das memórias infantis. No entanto, se continuarmos a mergulhar no crescente consumismo materialista bem depressa nos tornaremos inimigos de estimação em maré de saldos ou em feira de produtos (ditos) biológicos sem rótulo.

Será que a nossa vida está ao serviço da paz? À luz da mensagem do Papa para o 52.º dia mundial da paz que sejamos dignos de participarmos na sua construção com humildade e confiança…uns nos outros! 

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Que presépio para os nossos dias?


Para muitos dos cristãos, sobretudo introduzidos na vivência da fé desde crianças, a palavra ‘presépio’ poderá ser natural ao falarmos destas questões em tempo de Natal. Mas que significa ‘presépio’? Quem introduziu esta tradição na cultura religiosa cristã? Não será chocante para a nossa mentalidade aveludada a linguagem e figuração do presépio?
Etimologicamente ‘presépio’ quer dizer estábulo, estrebaria…onde estão os animais.
Embora esteja presente a sua discrição nos evangelhos (Lc 2,1-20) , só no século XIII (1223), São Francisco de Assis quis levar à letra aquelas palavras da Sagrada Escritura e reproduziu no espaço da sua cidade uma figuração com as principais personagens. São Francisco quis recriar, dentro da linha de espiritualidade da sua ordem, a significação para quem não entendia ou estava fora da lógica do evangelho...
Enquadrado num estábulo vejamos quem são as principais figuras do presépio:
* Menino Jesus - O filho de Deus, o Salvador,
* Maria - A mãe de Jesus,
* São José - Esposo de Maria e pai adotivo de Jesus,
* Animais (vaca, burro, ovelhas) - os animais aqueceram o menino que tinha nascido num estábulo,
* Anjo é o mensageiro de Deus. Foi ele quem anunciou o nascimento de Jesus aos pastores que tomavam conta dos seus rebanhos,
* Magos - Os três convencionados magos eram sábios que foram guiados por uma estrela e levaram ouro, incenso e mirra ao Menino Jesus.
= Por vezes encontramos pessoas, com maior ou menor cultura (humana e cristã), que se entretêm a fazer coleção de presépios. Será isto apropriado à mensagem evangélica da rudeza do presépio? Sabendo que em muitos dos ‘presépios’ comercializados se pode estar fora da linguagem e da pobreza real do dito sinal, não será um insulto que haja quem gasta dinheiro sem conta para manter essa espécie de bizantinice? Não andaremos a subverter o espírito do Natal/presépio com algumas fantochadas travestidas de religião… nitidamente não cristã? Ainda teremos coragem para fazer do Natal um acontecimento sem presépio e à margem da sua originalidade? 

= Estas e outras perguntas se nos podem colocar, até para nos confrontarmos com tantas subtilezas que obstaculizam a vivência do espírito do presépio, que é muito mais do que a mentalidade natalícia. Esta está hoje intoxicada de muito consumismo, mesmo que, nos intervalos, se vá dando a entender que se pensa – ao menos nesta época – nos mais desfavorecidos, marginalizados e empobrecidos…

Certamente as nossas celebrações religiosas de âmbito cristão/católico precisam de ser questionadas e renovadas, de serem revistas e não tradicionalizadas, de estarem numa continua descoberta da forma como devemos ser cristãos, neste tempo de linguagem e de comportamento light, onde a frieza do presépio é provocante e provocadora da nossa mentalidade de veludo a propósito de quase tudo e, neste caso, da rudeza do presépio. 

= Esperamos que as mais díspares transferências da linguagem do presépio do templo para a rua possam incomodar quem se comporta como ateu prático, mesmo sem a dialética materialista mais básica. Enquanto é tempo façamos do presépio o melhor evento do Natal, pois neste é Jesus quem nos interpela, pelo silêncio e pela forma de estar a nu…Que possa haver – em cada pessoa, nas famílias, na Igreja e na soceidade – advento rumo ao presépio de Jesus, hoje e sempre. 

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

A trela do cão…em consumismo



Uma associação internacional – de seu nome, em sigla, peta – ‘povo pelo tratamento ético dos animais’ – veio a terreiro reclamar de expressões ofensivas para com os seus protegidos (animais) exigindo que seja corrigida a linguagem de muitos dos ditados populares, pois estariam a constranger os ditos…

Cá pela nossa área de influência logo surgiu uma agremiação partidária a reclamar idêntica projeção nas suas intenções e reclamações de tantos dos cantos infantis, das músicas quasi-ancestrais e mesmo do comportamento ofensivo e ofensor para com os animais, seus e nossos amigos, ou não tanto. 

* Se levássemos a sério as sugestões da ‘peta’ ou do partido nacional à sua expressão, teríamos de reescrever uma boa parte da nossa literatura, ter-se-ia de andar com um espírito inquisitorial para muito do nosso anedótico ou ainda teríamos de conviver com uma censura nunca antes vista, pois alguém poderia entender como ofensivo aquilo que não passou duma figura de estilo, literária ou não. Se tal correção fosse possível, qual seria a data de começo da sua vigência?   

* Deve-se reconhecer que está a emergir – sabe-se lá comandada por quem ou de onde – uma nova cultura, onde os humanos têm de se submeter à sensibilidade dos animais, fazendo aqueles servidores destes e não mais o seu contrário. Esta onda roça o fundamentalismo e insere-se numa espécie de aculturação urbana que não conhece nem nunca contactou com o mundo rural, mas para o qual dita leis e sentenças de laboratório… As crianças já não se sabem sujar e tão pouco defender de vírus, bactérias e fungos!   

* Este fenómeno tem vindo a difundir-se com grande rapidez, podendo ser uma das formas de populismo mais imediato a arregimentar simpatizantes, militantes e votantes. Há, no entanto, indícios de que algo vai mal no reino animal, pois se tem vindo a fazer dos animais entidades com direitos inatacáveis, mas se vai tolerando alguns mecanismos de subjugação aos humanos. Exemplo disso é a trela dos cãezinhos, passeados pelas ruas e nem sempre recolhidos os dejetos respetivos. Se é para que os animais sejam titulares de direitos inalienáveis, então deixem-nos andar livres na rua, não os prendam – seria ofensa dizer acorrentem? – mas também não os obriguem a estar em espaços nem sem adequados à sua condição e natureza. De facto, vemos certos ‘animais de companhia’ serem mais criaturas de estimação do que seres sensíveis num aprisionamento forçado.  

* Que sociedade é esta que tem mais espaços de venda, em supermercados e outras superfícies comerciais, dedicados a alimentação para os animais do que colocados nos escaparates artigos direcionados às crianças? Sim, algo vai mal e pela disposição na carruagem o futuro não se avizinha senão sombrio. Parece muito preocupante a dedicação substitutiva das crianças pelos animais. Repare-se mesmo nos nomes dados aos ditos ‘animais de companhia’, muitos deles têm mais marca humana do que os nomes dos humanos com nome. Não andará algo invertido nestes tempos mais recentes? Não andaremos a ser manipulados nas discussões sobre estas matérias, enquanto sociedades e culturas são aniquiladas pela insensibilidade de uns para com os outros?  

* «É contrário à dignidade humana fazer sofrer inutilmente os animais e desprezar as suas vidas. É igualmente indigno gastar com eles somas que deveriam, prioritariamente, aliviar a miséria dos homens. Pode-se amar os animais, mas não seria razoável desviar para eles o afeto só devido às pessoas» – Catecismo da Igreja Católica, n.º 2418.

Talvez nos falte equilíbrio e das inconstâncias dos humanos vemos que os animais também sofrem, se bem que estes tenham, nalguns casos, sensibilidade mais refinada do que muitos dos humanos, que se vão tornando mais materialistas à medida em que se consideram sabedores de algo que lhes escapa: a comunhão entre toda a natureza como rosto da beleza de Deus.

Não será o cãozinho pela trela um dos símbolos do consumismo desumanizado…mais recorrente?     

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Significado da ‘novena do Natal’


Digamos que a única ‘novena’ oficial na liturgia da Igreja é a do Natal, decorrendo entre 17 e 24 de dezembro. Embora haja quem tente colocar o tempo entre a Ascensão e o Pentecostes como novena, a do Natal é a única que é assumida pelos textos e orações na liturgia oficial da Igreja católica.
Desde logo a palavra ‘novena’ comporta um certo significado: nove é três ao quadrado. Se três é um número simbólico para falar das Pessoas da SS.ma Trindade, e, por isso, com uma significação de plenitude, então três vezes três quererá envolver a plenitude da plenitude.
Nos dias da ‘novena’ do Natal temos por suporte as antífonas do magnificat das vésperas, que começam pela interjeição: ‘ó’, sendo expressões de admiração e de contemplação dos crentes perante o mistério de Deus, revelado em Jesus pelo Natal.
Eis as antífonas do ‘Ó’ (de 17 a 24 de dezembro):
* 17 - Ó Sabedoria do Altíssimo, que tudo governais com firmeza e suavidade: vinde ensinar-nos o caminho da salvação,
* 18 - Ó Chefe da casa de Israel, que no Sinai destes a Lei a Moisés: vinde resgatar-nos com o poder do vosso braço,
* 19 - Ó Rebento da raiz de Jessé, sinal erguido diante dos povos: vinde libertar-nos, não tardeis mais,
* 20 - Ó Chave da Casa de David, que abris e ninguém pode fechar, fechais e ninguém pode abrir: vinde libertar os que vivem nas trevas e nas sombras da morte,
* 21 - Ó Sol nascente, esplendor da luz eterna e sol de justiça: vinde iluminar os que vivem nas trevas e nas sombras da morte,
* 22 - Ó Rei das nações e Pedra angular da Igreja: vinde salvar o homem que formastes do pó da terra,
* 23 - Ó Emanuel, nosso rei e legislador, esperança das nações e salvador do mundo: vinde salvar-nos, Senhor nosso Deus.

Segundo o ‘Diretório sobre a piedade popular’ «a novena do Natal surgiu para comunicar aos fiéis as riquezas de uma liturgia à qual não tinham fácil acesso. O papel que a novena natalícia desempenhou foi realmente valioso e pode continuar a sê-lo. Todavia nos nossos dias, como se facilitou a participação do povo nas celebrações litúrgicas, seria  desejável que nos dias 17 a 23 de dezembro se solenizasse a celebração das vésperas com as antífonas maiores e se convidasse os fiéis a participar. Esta celebração, antes oudepois da qual poderiam ter lugar  alguns dos gests particularmente apreciados pela piedade popular, seria uma excelente ‘novena do Natal’, plenamente litúrgica e atenta às exigências da piedade popular. Na celebração das vésperas podem incluir-se alguns elementos previstos (homilia, uso de incenso, adaptação das preces)».

É ainda de referir que se pode acompanhar este tempo de ‘novena’ com a colocação no presépio das figuras mais próximas à simbologia de Jesus que há de ‘nascer’ em tempo de Natal…

De alguns aspetos temos uma advertência que se poderá incluir: não será conveniente ritualizar nem rotinar certas ações de preparação para o Natal, pois cada ano é uma vivência diferente e terá de ter a sua consonância com a vida das pessoas, das comunidades e da Igreja em geral…não se dispensando as tradições, que não poderão ser nem herméticas ou mesmo anacrónicas…e tão pouco saudosistas!

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

‘O ninho’: 40 anos de memória, de vida e de história (*)


 
A seção de infância do Centro Paroquial de Acção Social da Moita, ‘O ninho’, sita na Rua Bartolomeu Dias, 11-13, celebrou, no dia 4 de dezembro, 40 anos de serviço à Moita, dentro ou fora do espaço da Igreja.

Esta seção de infância é composta por jardim-de-infância, centro de atividade de tempos livres, creche e berçário.

O programa incluiu eucaristia de ação de graças e de sufrágio, presidida pelo Bispo da Diocese, D. José Ornelas e uma sessão solene no espaço de atividade d’ O ninho. De salientar a presença, na missa, do presidente-fundador (pároco) d’O ninho.

A esta efeméride também se associaram as autoridades autárquicas, representantes da diocese de Setúbal, bem como membros dos corpos sociais, antigos e atuais funcionários, antigos alunos (em bom número) e muitos paroquianos da Moita.

Se tivermos em conta os passados quarenta anos d’ O ninho terão frequentado este projeto pedagógico/educativo mais de quatro mil crianças e adolescentes.

O Centro Paroquial de Acção Social da Moita, que foi fundado em 1952, tem respostas sociais ligadas à infância e aos mais velhos, envolvendo quase sete dezenas de funcionários. 

Diz uma passagem bíblica: um é o que semeia, outro o que cuida e outro o que colhe (cf. 1 Cor 3,6-9).

É isso mesmo o que poderá caraterizar esta obra nascida há 40 anos. ‘O ninho’ foi berço para muitos dos adultos desta terra. ‘O ninho’ foi cuidado para milhares de crianças e de adolescentes nesta terra. ‘O ninho’ foi e é espaço de educação para centenas e centenas de famílias que nele tiveram e têm uma forte ajuda no processo educativo de seus filhos e filhas.

Tentemos interpretar esta obra d’O ninho pela perspetiva mais dos substantivos e menos pelos adjetivos, usando três palavras de referência:  

* Memória

A efeméride deste dia quer tão-somente olhar para o trabalho desenvolvido por dezenas de equipas – de direção, pedagógicas, de voluntários, de funcionários, de empresas e de serviços – que foram fazendo d’O ninho um espaço de trabalho, de iniciativa, de educação, de evangelização, numa palavra: de cultura. Não haverá dúvida, na Moita e fora dela, de que ‘O ninho’ foi fomentador, à sua medida, de cultura com matiz cristã… Talvez devesse sê-lo mais, mas no contexto foi fazendo o seu melhor…em cada tempo.

Aquilo entram os intérpretes – responsáveis da paróquia: P.e Fernando de 1978 a 1999, Dr. João Carlos de 1999 a 2010 e Sílvio desde 2010… os que serviram, por inerência de serem párocos, nas direções, os que educaram e os que foram educados, as famílias e tantos outros colaboradores – e muitos outros que viveram, sentiram e se entregaram pela causa deste serviço às crianças e aos adolescentes na Moita…e não só.

Nestes 40 anos, certamente, houve alegrias e tristezas, dúvidas e certezas, dívidas e saldos positivos. Só quem nunca esteve no barco e que não conhecerá as tormentas que nele são sentidas.  

* Vida

Não há melhor termo para definir esta instituição do que a palavra que dá sentido ao nosso existir: vida. Somos discípulos e servos do Senhor da vida e por esta podemos jogar os nossos ideais e concretizar as nossas mais ou menos belas ou ténues ideias.

O ninho’ é fruto da conjugação da palavra vida em todos os tempos e formas verbais, nas mais diversas aceções da palavra, desde que viva e faça viver com sentido e compromisso.

Como é sublime e encantador ver as crianças a deixarem singelos contributos para outros viverem a sua vida de forma mais digna, mais humana e mais fraterna… Há gestos que valem milhões de palavras!  

* História

Queira Deus que sejamos capazes de dar continuidade àquilo que, nas quatro décadas de história, aqui foi vivido, concretizado e servido. O melhor galardão que nos podem atribuir é que somos continuadores duma vivência que honra os seus antepassados e que sabe defender a prossecução dos seus objetivos no futuro. Desejamos, no entanto, chamar a atenção para quem pode e deve ajudar-nos nessa tarefa nem sempre compreendida pelas entidades públicas – do Estado e das autarquias, sem esquecer até a diocese – pois se todos soubermos colaborar os nossos filhos e netos terão futuro com sabedoria, com dignidade e com graça…

- Não podemos continuar a permitir que os pais, que aqui colocam os seus filhos, sejam duplamente tributados nos seus impostos, pois pagam para os serviços estatais e têm de pagar também para a escolha educativa de seus filhos. Esta injustiça tem de ser exorcizada.

- Não podemos, enquanto instituição que presta serviços educativos, que sejamos vítimas de maiores exigências do que outros e tão pouco menosprezados por sermos da Igreja católica. Isto não é nada sério!

- Não poderemos ser – por surreal que possa parecer – obstaculizados nos projetos apresentados à apreciação das entidades decisórias por manifestarmos o que pensamos e aquilo que queremos ser. Isto tem tiques de ditadura, mesmo que com alguma capa de formalmente…democrático.

 

A quem fez esta história de vida e por quem fazemos, hoje, memória: obrigado. Que Deus a todos abençoe por fazermos o melhor que sabíamos fazer…mesmo com erros, falhas e pecados.

Viva ‘O ninho’ e quem o tem servido. Votos de continuação e de fidelidade a Deus no serviço a todos.

 

(*) Texto da sessão solene dos 40 anos d’O Ninho, no dia 4 de dezembro de 2018.

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Porque é padroeira de Portugal, a Senhora da Conceição?


A celebração de Nossa Senhora da Conceição – ou melhor da Imaculada conceição de Nossa Senhora – é considerada uma das vivências mais essenciais, desde tempos muito recuados, da fé católica em Portugal. Nossa Senhora da Conceição é considerada mesmo a padroeira principal do nosso país.

Vejamos, então, etapas desta caminhada ao longo da nossa afirmação de nacionalidade.
Em vários momentos e com diversos intervenientes a devoção Nossa Senhora foi marcante dos nossos reis: desde D. Afonso Henriques, que teve por Santa Maria de Braga uma especial devoção; D. Nuno Álvares Pereira e D. João I manifestaram particular a Nossa Senhora pela vitória conseguida em Aljubarrota, mas foi efetiva e afetivamente com D. Nuno, Condestável do Reino, muito devoto da Virgem Santa Maria, que, segundo ele, respondeu às suas preces em Valverde, Atoleiros e Aljubarrota, deu-se algo que teve a ver com a incrementação da devoção a Nossa Senhora da Conceição, foi ele quem mandou construir a Igreja de N. ª Sr. ª da Conceição de Vila Viçosa e encomendou, para o efeito, em Inglaterra, a imagem de Nossa Senhora da Conceição. A S. Nuno se deve a renovação de uma antiga Confraria de Vila Viçosa, existente pelo menos desde 1349 e por si consagrada a Nossa Senhora da Conceição, que ainda hoje subsiste, a “Régia Confraria de Nossa Senhora da Conceição”.
Ora, nos séculos XVI e XVII, a doutrina da Imaculada Conceição obteve maravilhoso desenvolvimento, pois universidades, ordens religiosas, clero e outros fiéis lançaram-se ardorosamente na defesa desta prerrogativa mariana.
Foi, sobretudo, após a Restauração de 1640, com D. João IV, que se verifica um grande impulso na devoção à Senhora da Conceição, por todo o país. Por provisão de 25 de Março de 1646, D. João IV, “proclamou solenemente “tomar por padroeira de nossos Reinos e Senhorios a Santíssima Virgem Nossa Senhora da Conceição… confessando defender que Mãe de Deus foi concebida sem pecado original”. Por esta proclamação a Virgem Imaculada era constituída e declarada, por todos os poderes da Nação, Senhora e Rainha de Portugal, a verdadeira soberana do país…Desde que Nossa Senhora da Conceição é Padroeira de Portugal, os nossos monarcas, nunca mais colocaram a coroa na cabeça (pois isso equivaleria a usurpar um direito que pertence a Nossa Senhora) e apenas em ocasiões solenes, a coroa era posta sobre uma almofada, ao seu lado direito.
Desde o ano de 1654 o reitor, lentes, doutores e mestres da Universidade de Coimbra passaram a usar a fórmula do juramento, que começava pela declaração de «defender sempre e em toda a parte que a Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, [que] foi concebida sem a mancha do pecado original». E até 1910 o cumprimento de tal juramento era condição para se obter qualquer grau universitário… 

A doutrina católica sobre a Imaculada Conceição 

A 8 de dezembro de 1854 o Papa Pio IX declarava dogma de fé a doutrina que ensinava ter sido a Mãe de Deus concebida sem mancha por um especial privilégio divino. Na Bula “Ineffabilis Deus”, o Papa diz: «Nós declaramos, decretamos e definimos que a doutrina segundo a qual, por uma graça e um especial privilégio de Deus Todo Poderoso e em virtude dos méritos de Jesus Cristo, salvador do género humano, a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada de toda a mancha do pecado original no primeiro instante de sua conceição, foi revelada por Deus e deve, por conseguinte, ser acreditada firme e constantemente por todos os fiéis».

Recordemos, em síntese, a oração coleta da solenidade da Imaculada Conceição:’Senhor nosso Deus, que, pela Imaculada Conceição da Virgem Maria, preparaste para o Vosso Filho uma digna morada e, em atenção aos méritos futuros da morte de Cristo, a preservastes da toda a mancha, concedei-nos, por sua intercessão, a graça de chegarmos purificados junto de Vós’.

A solenidade da Imaculada Conceição é uma celebração das origens…assim a vivamos de forma única e original.

 

António Sílvio Couto