Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



terça-feira, 20 de agosto de 2019

Como fazer das procissões manifestações de fé cristã?


«Nas suas formas genuínas, as procissões são manifestações da fé do povo e têm frequentemente conotações culturais capazes de despertar o sentimento religioso dos fiéis. Porém, do ponto de vista da fé cristã, as ‘procissões votivas dos santos’ [levando processionalmente as relíquias ou uma estátua ou uma efígie dos santos pelas ruas da cidade], tal como outros exercícios de piedade, estão expostas a alguns riscos e perigos» – Diretório sobre a piedade popular e a liturgia, n.º 246.

Desde já uma declaração de interesse: sou defensor das procissões, sempre as vi e as vivi como manifestações de fé e considera-as ainda como oportunidades (aproveitadas ou perdidas) de evangelização mais do que de catequese.

Tal como se diz no documento da Congregação para o culto divino e a disciplina dos sacramentos há riscos e perigos. Neste texto gostaríamos de centrar a atenção nestes sinais nem sempre positivos ou talvez mais reveladores de algum paganismo infiltrado nas ‘nossas procissões’.

Escrevo depois de uma experiência recente menos boa ou mesmo desagradável de duas procissões na mesma tarde, no contexto da mesma paróquia, mas sob a alçada de povoações rivais, controversas e um tanto complexas…

Sem exagero encontro nas ‘nossas’ procissões os riscos seguintes:

– termos pessoas que participam, levando os andores ou outros sinais, que não têm um mínimo de prática religiosa e nalguns casos nem formação humana e de educação;

– não haver uma preparação suficiente para desempenhar essa tarefa, pois não basta ter boa vontade, é necessário que tenhamos compostura, asseio e bom senso;

– podermos, até sem disso nos darmos conta, mais exaltar a vaidade do que o serviço, o bairrismo mais do que a comunhão, a discórdia mais do que a união;

– perdermos a oportunidade de apontar para Deus, que os santos e Nossa Senhora quiseram glorificar, para realçarmos facetas mais humanas e, por vezes, um tanto pagãs ou paganizadas;

– deixarmos de rédea solta quem não sabe nem quer saber do significado das procissões e da sua relação com o divino, mais do que na convulsão do humano;

– podermos confundir estas manifestações de fé com outros momentos sociais, sindicais ou políticos, misturando ou deixando que possa haver aproveitamentos menos dignos de alguns. 

= Esta meia dúzia de riscos e/ou perigos serão tanto mais potenciados quanto os intervenientes se deixam guiar por intuitos que não servem a boa-fé nem a fé boa. Com efeito, certos bairrismos onde se quer suplantar os vizinhos pelo foguetório – antes, durante ou depois – será isso digno de sentimento religioso, que deve estar presente nas procissões? Quando os adereços de (ditos) artistas de renome – às vezes não passam de embrulho e de pacotes de agência – servem para que se meça o valor da festa, será isso dimensão cultural mínima e suficiente? Quando se pretende fazer de uma festa ou de uma procissão em particular uma tentativa de afirmação social, económica ou de grupo, não estaremos a desvirtuar a genuinidade da fé que fez surgiu tais manifestações dos crentes? 

= É neste quadro de ser manifestação de fé – simples ou esclarecida, enraizada ou adventícia, mais pessoal ou popular – que devemos fazer com que as procissões não se desviem do seu sentido original, pois isso seria ofender aqueles a quem pretendemos honrar, fazendo que os imitemos na forma como se deixaram fazer santos/as. Levar para a rua essas imagens – maiores ou mais pequenas, mais bonitas ou mais rudimentares, mais singelas ou mais ricas – é sempre um compromisso em sermos dignos de quantos nos precederam na fé e devemos transmitir aos vindouros não só uma certa tradição, mas um testemunho de vida, alicerçado nos valores do Evangelho e no seguimento atualizado de Jesus, o nosso mestre e senhor.

Pelas procissões, sim, mas que tenham beleza, organização e cristianismo… Tudo o resto pode ser rapidamente exorcizado de tantas influências malignas, tendenciosas e paganizadas…

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

8 anos depois…726 artigos


Foi a 19 de agosto de 2011 que emergiu este blogue com a simples intenção de fazer ‘partilha de perspetivas…tanto quanto (possível) atualizadas’.

À hora em que escrevo foram 133.265 os visitantes e talvez muitos deles leitores/as.

Neste tempo decorrido fui tentando ler com olhos cristãos – nunca por nunca esqueço os valores que me guiam – os acontecimentos variados do mundo, no âmbito da Igreja e mesmo na incidência local. Mais do que lições tem sido minha intenção veicular a perspetiva cristã daquilo que me é dado ver, ler ou ouvir.

Um tanto com admiração negativa foram muito poucos os comentários expressos aos textos escritos. Houve, deste modo, uma comunicação quase-unívoca, embora saiba que alguns escritos deixaram opinião em que os leu e até comentou em círculo mais restrito.

Esta breve nota pretende só assinalar a data e esperar que Deus me possa dar sabedoria, tempo e oportunidade de servi-Lo na Igreja com os possíveis dons que Ele me concedeu.
A todos: obrigado. Espero continuar ajudando e sendo ajudado.

António Sílvio Couto





sexta-feira, 16 de agosto de 2019

A força do poder ou o poder da força?


O ambiente social em que temos estado a viver neste verão coloca-nos exatamente esta questão que é muito mais do que um trocadilho: perante um problema social – de segurança ou de boa convivência – não estaremos a ser induzidos a aceitar a força do poder, simbolizado em medidas de natureza excecional elevadas à categoria de normalidade ou, pelo contrário, o poder não tem estado a usar de mecanismos de força para se fazer afirmar, respeitar e governar…mesmo que isso implique serem cometidas tropelias para com direitos (pretensamente, noutros casos) constitucionais?

O silêncio de certas forças, que (ainda) se dizem defensoras dos trabalhadores, do povo e da classe operária é atroz: há um ruído de fundo que não deixa escutar quem nada diz e tão pouco nos permite perceber se a experiência de terem estado nas franjas do poder lhes calcinou os protestos… Numa linguagem um tanto saloia como que diria: bastará acenar com uns tantos tachos na governação que os protestos se calam, mais por conveniência do que por convicção. Assim, quando saírem a reivindicar já saberemos que é mais por vontade de protagonismo do que por quererem mudar – para bem do que pelo bem – seja o que for… Há chavões ideológicos que foram metidos na gaveta do sindicalismo em exercício. 

= Nesta balbúrdia de interesses, em conluio misturado à la carte, há questões que emergem, numa tentativa de entender o cenário, de compreender os atores e de decifrar a mensagem.

Em tempo já de campanha para as próximas eleições legislativas, este conflito socio-sindical tem aparecido como uma razoável oportunidade de fazer sobressair o partido que governa, havendo quem protagonize que pode ser uma rampa de lançamento para uma vitória maioritária, que até agora não se refletia nas recentes sondagens. Por outro lado, a posição displicente do resto dos partidos – tanto os da geringonça como os da putativa oposição – meteram férias, deixando campo aberto a que, quem manda, se torne ‘rei e senhor’ de tudo e do resto. Estamos perante um gritante abuso de poder, sem olhar a meios para atingir os fins…sejam lá quais forem os pretendidos!

De facto, as pretensões dos agora grevistas surgiram de forma nebulosa, pois não se entendeu logo se queriam parar o país ou se desejavam que olhássemos para eles como trabalhadores mal pagos, embora sem conhecermos, verdadeiramente, as contas pelas quais se regem, ganham e são remunerados. Por seu turno, os empregadores – pulverizados numa associação que envolve múltiplas funções e diversas marcas de corporativismo – sentem que não devem entregar, de forma tão simples e rápida, a garantia de aumentos para vários anos de exploração laboral. Eles sabem que nesse intervalo poderá surgir uma nova crise económica – daqui a dois anos (2021) – e os aumentos pretendidos serão inexequíveis…  

= Se atendermos aos sinais que nos foram dados por estes dias como que podemos começar a conjeturar: se o governo ainda não tem maioria e já se comporta desta forma minimamente despótica, o que será se atingir a maioria absoluta: irá tratar os contestatários – sindicalistas ou outros – do modo mais cilindrado que lhes for possível; reduzirá à utopia a ‘consagrada’ lei da greve; será implacável para com quem se lhe oponha, usando requisições civis ou serviços mínimos com fartura…

Efetivamente a máquina de propaganda – na sua maioria servida por uma razoável comunicação social seguidista – está a trabalhar com todo o empenho para que sejamos reduzidos à portugalândia mais etérea, pois não ser, mesmo que camufladamente, por quem governa soará quase a traição aos ideais sempre anunciados, mas ainda não atingidos…

Resta-nos esperar que por cá aconteça o mesmo fenómeno que percorreu o resto da Europa (e não só) da falência das teias de índole socialista/trotskista/comunista… Desde 1989 foram caindo como peças dum espetáculo mais ou menos insonso…nos mais diversos países onde mandaram e foram peias no poder. Por cá – como sempre atrasados duas décadas – ainda vigoram com teorias sociais, projetos económicos e tentativas financeiras. De verdade a força do poder quase sempre se esboroa quando se pretende impor como poder pela força. Oxalá o povo tenha memória no espaço mais curto possível!     

 

António Sílvio Couto

Qual a conexão entre Assunção e ser padre?


A lista de padres ordenados em 15 de agosto é significativa. Talvez seja a data em que se verificam – desde há longos anos – mais aniversários de ordenação de padres e até de alguns que agora são bispos (6). O número global é de 241… na sua maioria das dioceses de Braga, Viana do Castelo, Coimbra, Porto, Leiria-Fátima e Lisboa…à mistura com alguns de Lamego e de Santarém. Neste ano nota-se a ocorrência de diversas efemérides de jubileu, sobretudo de ‘bodas de ouro’ sacerdotais.

Apesar de esta data ter sido escolhida, sobretudo, na década de 60 do século passado – na maioria dos casos por ocasião do Concílio Vaticano II – haverá alguma simbologia na preferência e no seu significado? Como se pode fazer a correlação entre o mistério celebrado e o ministério exercido? Como poderemos articular as diversas incidências entre a dimensão mariana e a expressão de sacerdócio ministerial?

Deixo aqui a reprodução de um texto medieval sobre o ministério sacerdotal, encontrado em Estrasburgo, França, tentando colocar as linhas essenciais sobre aquilo que, envolto em consonância, poder-nos-á aferir à mais profunda conexão teológica, espiritual e cultural…entre a Assunção de Nossa Senhora e o ser padre.

«Ser padre é ser grande e pequeno

Nobre de espírito como sangue real,

Simples e natural como de húmus camponês.

Um herói na conquista de si,

Um homem que se bateu com Deus,

Uma fonte de santificação,

Um pecador perdoado,

Um homem mestre dos seus desejos,

Um servidor para os tímidos e os fracos,

Que não se humilha diante dos poderosos

Mas se curva diante dos pobres».

Respiguemos, agora, aspetos contidos em mensagem neste texto.

Desde logo o grande mistério de um ser humano ter sido chamado a exercer funções de incidência divina. Com efeito, ser padre é uma graça, um chamamento e uma vocação… onde o mistério divino como que suplanta todas as condicionantes humanas, muitas delas bem mais profundas do que é percetível à compreensão natural. Quantas vezes Deus chama alguém que até nem é o mais dotado – humana, intelectual ou economicamente – e, ao lado, fica outro (ou outros) que teria mais condições de ser isso que se pensava poder preencher os requisitos de tal tarefa… Quantas vezes uma família acolhe esse dom de um filho chamado ao seminário com tantos e heroicos sacrifícios, enquanto outros mais abonados até ao nível financeiro se retraem coartando uma possibilidade de discernimento vocacional a longo prazo… Quantas situações vi, conheci e senti de rapazes bons para poder vir a ser padres e foram ficando pelo caminho, embora fazendo, hoje, em muitas localidades, as referências humanas e culturais…

Efetiva e afetivamente a conexão entre a celebração da Assunção de Nossa Senhora e o ministério sacerdotal faz-se nessa imensa visão de estarmos de olhar voltado para o Além, numa tentativa de sermos nesta condição terrena as sentinelas divinas e os mensageiros da profecia de Jesus Cristo.

O cântico do Magnificat (Lc 1,46-55) resume tanto a vivência de Maria, na sua expressão máxima pela solenidade da Assunção, como é (ou pode ser) projeto de vida para qualquer padre ao longo do exercício do seu ministério. Assim o consigamos entender, viver e testemunhar!    

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

O que é a ‘ideologia de género’?


Desde há uns tempos a esta parte – ocidental e, sobretudo, europeia – que temos vindo a assistir à substituição da referência ao sexo (masculino ou feminino) pela palavra ‘género’, parecendo com isso estarmos a falar de algo diferente/igual, misturando-se conceitos, terminologias e vivências com algo mais abrangente e, talvez, menos concreto porque um tanto irreverente.

Para abordarmos este tema vamos servimo-nos de um documento (carta pastoral) da Conferência Episcopal Portuguesa sobre o assunto, com data de 14 de novembro de 2013, intitulado: ‘A propósito da ideologia de género’.

«Difunde-se cada vez mais a chamada ideologia do género ou gender. Porém, nem todas as pessoas disso se apercebem e muitos desconhecem o seu alcance social e cultural, que já foi qualificado como verdadeira revolução antropológica. Não se trata apenas de uma simples moda intelectual. Diz respeito antes a um movimento cultural com reflexos na compreensão da família, na esfera política e legislativa, no ensino, na comunicação social e na própria linguagem corrente (...) Opõe-se radicalmente à visão bíblica e cristã da pessoa e da sexualidade humanas (...) Trata-se da defesa de um modelo de sexualidade e de família que a sabedoria e a história, não obstante as mutações culturais, nos diferentes contextos sociais e geográficos, consideram apto para exprimir a natureza humana».
* O que é, essencialmente, a pessoa humana?
Perante certos interesses de grupo – comummente chamados de lóbis – como que precisamos de ir ao essencial. O documento da CEP refere «porque a pessoa humana é a totalidade unificada do corpo e da alma, existe necessariamente, como homem ou mulher. Por conseguinte, a dimensão sexuada, a masculinidade ou feminilidade, é constitutiva da pessoa, é o seu modo de ser, não um simples atributo. É a própria pessoa que se exprime através da sexualidade. A pessoa é, assim, chamada ao amor e à comunhão como homem ou como mulher. E a diferença sexual tem um significado no plano da criação: exprime uma abertura recíproca à alteridade e à diferença, as quais, na sua complementaridade, se tornam enriquecedoras e fecundas».
Os tais grupos de interesses, muitos deles bem estruturados no âmbito mesmo transnacional, «afirmam que o ser masculino ou feminino não passa de uma construção mental, mais ou menos interessada e artificial, que, agora, importaria desconstruir. Por conseguinte, rejeitam tudo o que tenha a ver com os dados biológicos para se fixarem na dimensão cultural, entendida como mentalidade pessoal e social
».
A carta pastoral da CEP, resume deste modo aquilo de que consta a ideologia de género: «como uma antropologia alternativa, quer à judaicocristã, quer à das culturas tradicionais não ocidentais. Nega que a diferença sexual inscrita no corpo possa ser identificativa da pessoa; recusa a complementaridade natural entre os sexos; dissocia a sexualidade da procriação; sobrepõe a filiação intencional à biológica; pretende desconstruir a matriz heterossexual da sociedade (a família assente na união entre um homem e uma mulher deixa de ser o modelo de referência e passa a ser um entre vários)».
* Quais os pressupostos da ideologia de género?
Nesse desejo de desconstruir os conceitos, a sociedade e os compromissos alicerçados na cultura judaicocristã, a ideologia de género – no resumo da carta pastoral da CEP – apresenta os pressupostos seguintes:
– parte da distinção entre sexo e género, forçando a oposição entre natureza e cultura. O sexo assinala a condição natural e biológica da diferença física entre homem e mulher;
– o género deve sobrepor-se ao sexo e a cultura deve impor-se à natureza;
 o género não tem de corresponder ao sexo, mas pertence a uma escolha subjetiva, ditada por instintos, impulsos, preferências e interesses, o que vai para além dos dados naturais e objetivos;
– se é indiferente a escolha do género a nível individual, podendo escolher-se ser homem ou mulher independentemente dos dados naturais, também é indiferente a escolha de se ligar a pessoas de outro ou do mesmo sexo... com a equiparação entre uniões heterossexuais e homossexuais;
– deixa de se falar em família e passa a falar-se em famílias... não se fala em paternidade e maternidade e passa-se a falar, exclusivamente, em parentalidade, criando um conceito abstrato, pois desligado da geração biológica.
* Implicações sociais, políticas e culturais
Para ser dado corpo a estes pressupostos foi-se gerando uma mentalidade mais ou menos aceite - a discordância logo faz surgir a rotulagem homofóbico ou conservador - e traduzida em leis que favorecem este ambiente de ideologia de género.
Outro âmbito de difusão da ideologia do género é o do ensino, nomeadamente na educação sexual que pretendem ministrar em meio escolar, confundindo, por vezes de forma acintosa, os conteúdos naquilo que se refere à sexualidade e ao (tal) género. 

A ideologia de género tem tentado impor – mais pela força de alguma comunicação social da sua tendência do que pela convicção de uma grande parte da população – uma certa revolução antropológica, onde o relativismo moral se faz regra de cada um, impondo-se ao geral.

A mudança está em curso. Será que o cristianismo será capaz de não ser vencido como no dealbar da sua implantação sobre a corrupta sociedade romana? O sal não pode perder a capacidade de continuar a salgar, hoje como ontem!

 

António Sílvio Couto

 

domingo, 11 de agosto de 2019

Pardais com garras de abutre…



Lê-se numa passagem bíblica:
«Foram uma vez as árvores a ungir para si um rei, e disseram à oliveira: reina tu sobre nós. Porém, a oliveira disse-lhes: deixaria eu a minha gordura, que Deus e os homens em mim prezam, e iria pairar sobre as árvores?
Então, disseram as árvores à figueira: vem tu, e reina sobre nós. Porém, a figueira disse-lhes: deixaria eu a minha doçura, o meu bom fruto, e iria pairar sobre as árvores?
Então, disseram as árvores à videira: vem tu, e reina sobre nós. Porém, a videira disse-lhes: Deixaria eu o meu mosto, que alegra a Deus e aos homens, e iria pairar sobre as árvores?
Então, todas as árvores disseram ao espinheiro: vem tu, e reina sobre nós.
E disse o espinheiro às árvores: se, na verdade, me ungis para rei sobre vós, vinde, e confiai-vos debaixo da minha sombra; mas, se não, saia fogo do espinheiro que consuma os cedros do Líbano
» (Jz 9,8-15).
Esta caraterização, procedente de uma leitura religiosa das coisas sociais e políticas, no contexto judaico, como que pode servir de enquadramento de certas figuras que vêm emergindo no nosso tecido político-sindical. Com efeito, se quisermos abordar algumas questões poderemos ver que algumas das ‘aves’ de serviço, que sobrevoam os nossos espaços, nem sempre o fazem com as intenções mais sinceras, honestas e leais… e não interessa o porte da espécie!
A conjuntura deste tempo de férias fez aparecer uma outra confluência de exclusão para com certas reivindicações, porventura mais aceitáveis noutra época do ano. Muitos dos usufruidores das férias consideraram uma espécie de provocação as reivindicações de alguns transportadores de recursos comerciais – matérias combustíveis, artigos de alimentação, trocas e vendas, etc. – que não souberam escolher o timing de protesto, mesmo que isso até possa ser aceitável e correto.
As forças (ditas) trabalhadoras no atual protesto foram como que encurraladas pelos patrões e por quem governa o país. A menos de dois meses de eleições tais desarranjos não vem nada a favorecer  essa tal ‘paz social’, apelidada mas não segura por quem manda... Esta intromissão na engrenagem de sucesso poderá ter efeitos nem sempre previsíveis e tão pouco favorecedores da onda pré-anunciada de vitória.  

= Nesta pasmaceira coletiva de ‘sealy season’ os acontecimentos mais recentes veiculados pela comunicação social fizeram com que deixemos de considerar que tudo é boa gente e que não há exposições públicas de certos figurões das quais não se possa tirar proveito mais ou menos político…Mas seremos todos tão broncos para não percebermos o aproveitamento de certos habilidosos de outras lutas, espraiando-se sobre a miséria alheia? Até onde irá a faltar de memória coletiva para que, por um molho de espinafres murchos, se queira servir com sucesso a refeição inteira? Merecerá confiança mínima quem usa os outros para se promover à custa das suas necessidades? 

= Voltemos à parábola das árvores que foram convidadas para reinarem umas sobre as outras. Algumas recusaram aceitar o título de ‘rei’, pois não queriam prescindir do seu fruto; somente um espinheiro aceitou ser ‘rei’ das árvores, traçando logo com aspereza como ia exercer essa pretensão para a qual foi solicitado.

Olhando as coisas da vida, mesmo pela perspetiva desta parábola, poderemos tentar compreender a jocosidade da vida, onde nem sempre quem reina é o mais eficiente ou mesmo o suficiente…

Agora que se perfilam nas listas os concorrentes para o parlamento, teremos de saber qual o seu valor e não bastará serem figuras na comunicação social, pois já vimos noutras situações desilusões, oportunistas e tantos outros que molestaram quem neles votou… Talvez tenha chegado a hora de renovar as caras e os intervenientes – muitos/as presentes há décadas e sem qualquer capacidade de fazer melhor, antes pelo contrário – bem como de surgirem novas ideias dentro dos velhos partidos. De pouco valerá pulverizar de grupelhos candidatos, se não passarem de egos interesseiros, oportunistas e quase ressabiados…

A vida política – que não só a partidária – precisa mais do que de aves de arribação! Urge seriedade.

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Porque querem excluir a Igreja da vida política?


Foi parangona de jornal de razoável tiragem: ‘portugueses querem a Igreja afastada de questões políticas’… Embora o tema seja, no texto do artigo, secundado, ele pode servir de chamariz para quem possa ver os títulos e por eles se deixar cativar.

Eis a citação do referido texto: «a interferência da Igreja em assuntos mundanos desagrada. Para metade das pessoas, deve limitar-se a temas religiosos e, para um décimo, pode pronunciar-se sobre tudo, menos política».

Dada a importância do tema – sobretudo pela proximidade às eleições legislativas de outubro – talvez isto possa parecer uma ameaça aos membros da Igreja – é abusivo dizer no sentido lato, pois hoje há muitas Igrejas em serviço e com propostas – tanto do clero como dos leigos ou ainda quem viva integrado nalgum dos partidos concorrentes.

Fazendo parte de uma sondagem – os portugueses e a religião – as considerações de natureza opinativa deixam um tanto a desejar, mas pelo preconceito do que pela leitura dos diferentes itens em análise. Com efeito, meter no mesmo âmbito a frequência dos sacramentos com a ritualidade, o leque de praticantes com as instruções morais à mistura com leituras exógenas da frequência dos santuários… pode servir para denegrir a vivência religiosa, mas não afiança da qualidade anticristã com que muita da comunicação social olha, observa e rotula a Igreja, digamos, católica, sem pretensão de defesa nem de favorecimento social. 

= Dos dados apresentados decorrentes da tal sondagem podemos respigar: 17% dos portugueses vão à missa todas as semanas; 36% vão, pelo menos, uma vez por mês; os sacramentos – de conotação mais social: batismo, casamento e funeral – fazem com que 34% dos portugueses vão à igreja com regularidade…

Diante destes números de prática religiosa (87%) será ainda mais inquietante aquela observação supra citada de que não querem que a Igreja tenha intervenção na vida política. Será porque os milhões de praticantes podem influenciar os resultados, quando certos valores vão fascinando os mais incautos? Será porque do anódino de tantos se poderá continuar a explorar a ignorância do resto? Será porque os votos dos devotos podem sacudir a consciência de mistura, de conveniência e de confusão entre a vida e a fé? Porque querem condicionar a intervenção da Igreja na vida política, será por medo ou por incapacidade de continuar a manipulação de alguma comunicação social e duns tantos interesses ideológicos subjacentes? 

= A intervenção da Igreja católica na política – enquanto designação da vida em público sem a conotação redutiva de natureza partidária – é decorrente do compromisso dos cristãos na sociedade. Restringir, condicionar ou obstaculizar essa intervenção é coartar uma das facetas de identidade da missão dos cristãos no mundo. A ‘polis’ (cidade) é a organização da vida de todos, tendo em conta os outros e conjugando-se todos no bem comum.

O Catecismo da Igreja católica diz-nos:

«A Igreja, que em razão de seu múnus e de sua competência, não se confunde de modo algum com a comunidade política, é ao mesmo tempo sinal e salvaguarda do caráter transcendente da pessoa humana. ‘A Igreja respeita e promove a liberdade política e a responsabilidade dos cidadãos’» - n.º 2245.
«Faz parte da missão da Igreja “emitir juízo moral também sobre as realidades que dizem respeito à ordem política, quando o exijam os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas, empregando todos os recursos - e somente estes - que estão de acordo com o Evangelho e com o bem de todos, conforme a diversidade dos tempos e das situações» - n.º 2246.

É diante do Evangelho que temos de aquilatar da nossa intervenção política, seja qual for a vocação ou a missão de um cristão. O resto poderá ser considerado deserção, medo ou cobardia…agora e no futuro.

Não queiram amordaçar a mensagem do Evangelho. A mim não atemorizam, pois tenho tanto direito de me pronunciar sobre um assunto qualquer, quanto um outro cidadão, pois tenho os impostos em dia e todos os outros encargos de cidadania, votando sempre, de forma consciente, clara e pensando nos outros. A política –já dizia Aristóteles – é a mais sublime das artes…

 

António Sílvio Couto