Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 16 de outubro de 2017

‘Pai-nosso’ muda...em França


A partir do próximo primeiro domingo do Advento, 3 de dezembro, as palavras do Pai-nosso mudam em França. Assim em vez de «Ne nous soumets pas à la tentation» (não nos submetais à tentação) passará a rezar-se: «Ne nous laisse pas entrer en tentation» (não nos deixeis entrar/cair em tentação).
Esta decisão da conferência dos bispos franceses foi tomada em março passado, após aturado processo de diálogo – mais de dezassete anos de trabalho – com a Congregação para o culto divino em Roma.
Será uma questão de palavras ou estará subjacente outra leitura teológica e religiosa nesta mudança das palavras da 6.ª petição do ‘Pai-nosso’ em francês?
Ora, na tradução litúrgica portuguesa já seguimos a linha de pensamento e de oração agora avalizada para França, colocando o acento em ‘não cairmos na tentação’ e rejeitando a leitura de sermos submetidos, por Deus, à tentação.
Em latim a sexta-feira petição do Pai-nosso, extraído do texto de Mt 6,9-13 diz: «et ne nos inducas in tentationem». Se atendermos ao verbo grego que está em causa nesta etapa da oração - ‘eisphèrô’ (levar a, fazer entrar) poderíamos traduzir por: ‘não nos induzas ou leves à tentação’ ou ainda ‘não nos faças entrar em tentação’... Ora a tradução usada, em França desde 1966, - ‘não nos submetas à tentação’, parecia-nos fazer supor uma certa responsabilidade de Deus na tentação que levaria ao pecado, como se Ele pudesse ser o autor do mal... Os protestantes franceses (luteranos e reformadores) já tinham modificado, em 2016, a sua tradução sobre esta petição do Pai-nosso.
= Atendendo a todo o processo que levou a Igreja católica em França a fazer esta mudança na 6.ª petição do Pai-nosso, podemos e devemos sugerir que se faça uma reflexão sobre este assunto: a quem compete atribuir a vivência/experiência da tentação? Como podemos incluir Deus nesta atribuição, se é Ele quem, pela força do seu Espírito em nós, desde o batismo, nos concede as graças necessárias e suficientes para resistirmos e vencermos a tentação?
Mesmo sem ainda fazermos ligação à 7.ª petição - ‘mas livrai-nos do mal’ - poderemos já questionar quem é essa ‘força’ que nos cria enredos, em nós e à nossa volta, para cairmos na tentação. O próprio termo ‘satanás’ – cujo significado etimológico quer dizer: adversário, opositor, tentador – pode e deve ser incluído nesta experiência de tentação em que somos, tantas vezes, colocados pelas forças do mal… de forma explícita ou camuflada.
Ao pedirmos para ‘não cairmos na tentação’ estamos a reconhecer que há alguém mais forte do que as forças humanas que nos faz reconhecer que precisamos de ajuda para vencer a tentação...essa contínua condição em que vivemos enquanto estivermos na contingência terrena de fragilidade e até mesmo de fragilização.
= Talvez o percurso que fez a Igreja francesa nos possa servir de alerta em ordem a adequarmos as fórmulas litúrgicas e de oração comunitária às condições de vida, sabendo que a oração emerge da vida e a vida se repercute na oração.
Passados mais de cinquenta anos sobre  Concílio Vaticano II continuamos a precisar de ir à fontes que nos fizeram rever, aprofundar e acertar o nosso modelo de Igreja – ‘santa dos pecadores’ – onde cada um faz a descoberta da riqueza que nos une, nessa adequação a cada tempo da mensagem do Evangelho.
Do muito já feito, precisamos de mergulhar na graça, em ordem a sermos, verdadeiramente, um povo messiânico e com critérios de renovação em que cada circunstância. Parar será andar para traz e, desgraçadamente, temos muito a recuperar em tantos dos fiéis, sejam clérigos ou leigos e até religiosos! 

= Aprender a rezar, consciente e atentamente, o Pai-nosso faz com que vivamos numa atitude de humildade para connosco mesmos e para com os outros, pois estes ajudam-nos a estarmos sempre mais abertos aos outros, deixando-nos ajudar a rezar o Pai-nosso como oração da família de Deus, sendo todos filhos do mesmo Pai e irmãos uns para com os outros…

 

António Sílvio Couto

sábado, 14 de outubro de 2017

Orçamento ‘amigo’ de que famílias?


Tem vindo a tornar-se uma espécie de chavão, entre o vazio e o quase nada, a frase: este é um orçamento ‘amigo das famílias’. Ora, um comentador replicava: será das famílias ou dos eleitores?

Num contexto social, cultural e político que tanto tem combatido a noção de família – alicerçada no conceito judaico-cristão da união entre um homem e uma mulher…o mais possível de forma comprometida e estável – será essencial responder a que famílias é que o orçamento da geringonça quer satisfazer?

Sim, é de satisfazer que se trata, pois ‘satisfazer’ significa, antes de tudo, ‘fazer o suficiente’… e esse ‘suficiente’ tem tanto de subjetivo, quanto de irmos apurando o que se quer fazer de bastante e suficiente… para com quem se quer contentar ou agradar…seja ele grupo, lóbi ou simpatizante.

Diante ainda da complexa virtualidade que a igualdade de género tem vindo a propor será como que obrigatório definir qual o tipo de família que se pretende atingir e se, ao ser usado o termo ‘família’, não estaremos a confundir os narizes com outros apetrechos…num relativismo de termos, de intenções e de provocações. 

= Se há componente que o dito Orçamento de Estado (OE) pode relevar é a de ser elaborado a dar contento a quem se destina, neste caso em particular aos eleitores – quem governa tenta apelidá-los de ‘famílias’ – a quem pretende satisfazer, incluindo exigências e reclamações, anseios e pretensões daqueles que votaram em quem agora governa…mesmo que isso implique desgovernar, isto é, não fazer o que é preciso, mas distribuir por agora benesses e prebendas a gosto, sem atender à possível hipoteca do futuro a curto e a médio prazo.

As tais ‘famílias’ de quem o OE é amigo são as designadas pelo incremento do consumo, lançando as bases para um endividamento crescente e que trará consequências nefastas brevemente. 

= Coincidência ou não, a elaboração deste tal OE ‘amigo das famílias’ é conhecido quando um outro governante – com tudo quanto ele e a sua ‘entourage’ representam na nossa história sofrida – da mesma área ideológica é acusado de uma trintena de crimes… particularmente os de tráfico de influências e corrupção!

O processo é moroso e complexo… mas, pessoalmente, deixou-me arrepiado uma nota dessa acusação: uma empresa ganhou cerca de duzentos milhões de euros sem ter gasto um cêntimo… na questão comboio de alta velocidade.

E, se dentro de breves anos, viermos a descobrir que o foguetório deste OE ‘amigo das famílias’ não passa duma ilusão travestida de sucesso e num descalabro sem retorno? Quem pagará a fatura, a sério?  

= Quem tanto combate o conceito de família e a sua estabilidade, como pode vir arrogar-se defensor daquilo em que não acredita? Quem despreza o que as famílias fazem de bem pela vida e pela natalidade, como pode, agora, apresentar-se como sua defesa, quando já programou o seu enterro?

Naquele saco de gatos – ou será, antes, de ratos, na hora da verdade – que é a governação em ato, como há ainda quem se pretenda defensor da família, quando lançou as bases para a sua estatização/estalinização? Quando tudo fizeram para nacionalizar os filhos, querem agora aliciar ainda mais os pais? Enquanto vão tolerando os velhos, como pretendem manipular os mais novos?  

= Dá a impressão que é próprio de quem não conhece o povo português: quando lhe pretendem vender ilusões e depois todos colhemos tempestades. Pode-se enganar – mesmo usando a máscara da mentira – durante algum tempo, mas isso não durará todo o tempo. Assim foi no passado, assim será no futuro. Dinheiro barato sempre nos saiu muito caro, senão de forma direta, ao menos nos vindouros.

Quando não se incentiva a poupar, mas a gastar sem olhar às posses, bem depressa se cairá no fosso, donde só se sairá com muito sacrifício, rigor e boa economia…

Se não sabem governar a própria casa – muitos vivem de aluguer em aluguer até irem para a rua, quando despejados da governança – como saberão governar o país? A sanha contra o bom senso é atroz… em muitos daqueles/as que barafustam no parlamento e nas ruas. Basta o ‘chapa-ganha’ e o ‘chapa-gasta’!

 

António Sílvio Couto


quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Tropelias dos perdedores…


Numa atitude que vem sendo recorrente, vemos surgirem, mais uma vez, na discussão política temas fraturantes, eivados de inovação, mas que não passam de manobras de diversão, quais tropelias infantis dos perdedores das últimas eleições autárquicas…

As ideologias mais esquerdistas do nosso espetro eleitoral ainda não engoliram a perda de lugares ou a não-eleição a que tanto aspiravam, por isso, agora trazem para a liça temas que nitidamente dividem e manifestações que azedam... Não conseguiram conquistar câmaras municipais, juntas de freguesia ou vereadores…Também não perceberam que a sua expressão votada ficou muito aquém do que julgavam valer… E, agora, tentam ganhar na rua e na contestação – nem que seja pela destabilização social e moral – o que não valem pelos votos. Se são tão democratas – como se dizem – aceitem as lições que o povo lhes deu. 

= Sobre uma das matérias trazidas à discussão por algumas fações da (dita) esquerda – agora mais acirrada pela desventura eleitoral recente – é a da mudança de sexo… de menores de idade mesmo contra a opinião dos pais. ‘O conselho permanente [da Conferência episcopal portuguesa] mostrou preocupação em relação à proposta legislativa sobre mudança de sexo a partir dos 16 anos, sem autorização dos pais’.

Os bispos portugueses lamentam o ‘modo como se está a tratar assunto tão importante sem debate sério na sociedade’. Com efeito, o tema foi levado ao parlamento em setembro passado, mas desceu a uma comissão sem votação… e, sabe-se lá quando, voltará a emergir do crematório populista.

Já em novembro de 2013, a Conferência episcopal portuguesa fez publicar uma carta pastoral, intitulada: ‘A propósito da ideologia do género’, onde são apresentados os principais aspetos cristãos sobre a matéria.

Diz-se na abertura desse documento:

«Difunde-se cada vez mais a chamada ideologia do género ou gender. Porém, nem todas as pessoas disso se apercebem e muitos desconhecem o seu alcance social e cultural, que já foi qualificado como verdadeira revolução antropológica. Não se trata apenas de uma simples moda intelectual. Diz respeito antes a um movimento cultural com reflexos na compreensão da família, na esfera política e legislativa, no ensino, na comunicação social e na própria linguagem corrente.

Mas a ideologia do género contrasta frontalmente com o acervo civilizacional já adquirido. Como tal, opõe-se radicalmente à visão bíblica e cristã da pessoa e da sexualidade humanas. Com o intuito de esclarecer as diferenças entre estas duas visões surge este documento. Move-nos o desejo de apresentar a visão mais sólida e mais fundante da pessoa, milenarmente descoberta, valorizada e seguida, e para a qual o humanismo cristão muito contribuiu. Acreditamos que este mesmo humanismo, atualmente, é chamado a dar contributo válido na redescoberta da profundidade e beleza de uma sexualidade humana corretamente entendida.

Trata-se da defesa de um modelo de sexualidade e de família que a sabedoria e a história, não obstante as mutações culturais, nos diferentes contextos sociais e geográficos, consideram apto para exprimir a natureza humana». 

= Deixo breves questões sobre o assunto, que devem fazer-nos refletir não só sobre a matéria, mas também sobre a sua (in)oportunidade:

* Será preciso colocar neste folclore noticioso algo que, sendo sério, merece respeito e serenidade?

* Será mesmo sério querer confundir tendências com orientações ou ainda fazer crer que tudo tem o mesmo valor e igual sensatez?  

* Porque desejam fazer descer a idade de tomada de posição sobre matéria tão importante e fulcral que não meramente de moda ideológica transversal ou de flutuação cultural hedonista?

* Não revelará a discussão sobre este assunto da ‘ideologia de género’ uma vacuidade mental e até uma falsidade cultural, mesmo que haja intelectuais (não-independentes) envolvidos?

* Diante deste, como de outros assuntos, não se tratará mais duma falácia civilizacional e dum vazio que se entretém com coisas que revelam que estamos no fim da linha dum tempo e duma visão da pessoa humana?     

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Incêndios de outono precisam de interpretação


J
á vamos com quase um mês de outono e vemos, novamente, notícias – nalguns casos preocupantes e dramáticas – de incêndios, sobretudo, na região norte e centro do país: milhares de operacionais em combate, meios aéreos e terrestres às centenas, hectares e hectares ardidos, queixas e queixumes… até um autarca foi agredido em direto na televisão… tudo devido às temperaturas elevadamente anormais para a época, à mistura com negligências – ouviram-se acusações de criminoso fogo posto – e de falta de meios…porque já fora duma pretensa declarada etapa não-abrangida pela prevenção e o combate a esta ‘guerra civil’ disseminada por todo o país, desde que haja onde arder e algo para arder… 

= Com o ‘circo’ montado outra vez, os incêndios estão à disposição dos abutres noticiosos, criando a sensação de que estamos a saque, onde o país rural – que é real e que não se limita a ser olhado de forma complacente por quem vive na cidade – fica cada vez mais exposto ao abandono, tanto das populações como de quem dirige o resto do país.

Se tentarmos interpretar o significado dos resultados das recentes eleições autárquicas poderemos questionar por que é que a ‘onda rosa’ invadiu esse país rural, particularmente no interior – segundo dizem – despovoado e envelhecido. Os que ainda restam deixaram-se seduzir pelas promessas de vida melhorada, que nos têm vindo a vender nos últimos dois anos? No caso das autarquias onde quase tudo ardeu no verão, os dinheiros das campanhas de solidariedade – ainda não se apurou a totalidade! – não foram usados como arma para cativar votos e ganhar câmaras e juntas? Apesar de talvez não termos tantos dados como seria desejável – numa transparência que urge semear e cultivar – não deixa de ser mais do que coincidência a mudança e a colagem aos vencedores… 

= Com esta nova vaga de incêndios como que se avivam as tragédias que perpassaram o país no verão passado. Dá a impressão de que as pessoas estão confinadas à sua sorte: as perdas humanas e materiais, os prejuízos e as confusões, as desculpas e os erros, as falhas e as acusações… continuam como que a ser regra nesta área do nosso ‘eu coletivo’, onde se nota que somos um país a várias velocidades, onde os ‘citadinos’ olham com algum desdém os ‘rurais’  e estes se sentem preteridos por quem governa, pois não passam de material combustível seja qual for a época ou a localização.

Depois de tantos cenários de cobertura noticiosa, onde está o apuramento – cível, criminal, político e moral – das responsabilidades? Por onde param os inquéritos prometidos? Até quando teremos de aguentar tanta incompetência? Talvez não se possa apurar a verdade, se alguns dos possíveis culpados foram premiados com vitórias eleitorais! Talvez seja este o país que uns tantos querem que seja construído, com a conivência de certas forças (ditas) populares, mas que não passam de populistas, não-assumidos! 

= Embora já tenha abordado esta questão no pico dos incêndios estivais, não será totalmente desconexo voltar a uma das causas desta nova vaga de incêndios: a falta de água, isto é, de chuva, que tem vindo a agravar, de forma mais agressiva e impiedosa, as condições para estes incêndios de outono.

Precisamos de implementar uma mentalidade de súplica para que haja chuva, não só para atenuar este ambiente de seca, propício para os incêndios, como para termos os recursos hídricos suficientes para a vida normal das populações. Aos responsáveis das Igrejas se pode e deve solicitar que criem condições para que os outros fiéis supliquem a Deus que nos dê a tão desejada chuva. A quem conduz os espaços de celebração da fé se deve um imperativo moral de tentar interpretar a falta de chuva como uma provação de Deus… era deste modo que os israelitas viam a chuva (dada ou ausente)… e nós, cristãos, seguimos esta salutar tradição religiosa e de vida.

De facto, não bastará só a visão cientifista para explicar as mudanças de clima e as interferências humanas na natureza, mas quem seja crente precisa de ‘meter de Deus’ nestes aspetos aparentemente simples, embora não simplistas…Os incêndios de outono são mais do que somas de parcelas onde os humanos têm alguma culpa. Estes atuais incêndios podem e devem ser um chamamento à nossa conversão e correção de vida…  

 

António Sílvio Couto



sexta-feira, 6 de outubro de 2017

‘Coração, cabeça e estômago’… em versão autárquica


Este é o título dum romance de Camilo Castelo Branco, publicado em 1862 – há cento e cinquenta e cinco anos – no qual se referem etapas/épocas da vida do personagem principal até à morte... A fase do coração narra os amores enganadores e desfeitos de Silvestre Silva, vividos numa Lisboa libertina. A fase em que a cabeça se sobrepõe ao coração, retrata essa etapa em que o protagonista faz uma aproximação às herdeiras ricas do Porto. Por último, a vertente do estômago refere-se ao Silvestre cansado das solicitações citadinas e que procura refúgio em Soutelo, terra dos seus antepassados.

As mais de duas centenas de páginas do romance camiliano poderiam ser agora apropriadas às múltiplas leituras dos resultados eleitorais das recentes autárquicas...sobretudo se tivermos em conta as multiformes facetas dos vencedores: figurados que foram já pelo coração, depois aturdidos por alguma dor de cabeça – de que todos viemos a pagar as consequências! – e, nos tempos mais próximos (antes e depois), intencionados a darem conforto aos apetites mais ou menos insaciáveis do estômago...

A correta concatenação destas várias dimensões – coração, cabeça e estômago – ajudar-nos-iam a ter opções mais acertadas e bem discernidas não só para deixarmos emergir o que nos interessa, mas essencialmente para que se possa manifestar aquilo que nos deve guiar, incentivar e impulsionar nas escolhas e no desenvolvimento do bem comum. 

= Partamos, então, das palavras supra enunciadas...para tentarmos elucidar alguns aspetos mais subtis, que poderemos encontrar dissiminados nas eleições autárquicas, tendo em conta o antes de (tempos de campanha), o durante (votação) e o depois (duração do mandato):

* Coração – com que habilidade se podem manipular os diversos intentos emocionais/afetivos, podendo levar os mais incautos eleitores a darem voto de confiança a quem os possa ludibriar... desde que se coloque um pouco de emoção. Com efeito, as promessas de campanha são feitas mais ao jeito da emotividade do que da racionalidade...mesmo que haja uma razoável desconfiança, envolvida nas fímbrias mais ténues do coração... À boa maneira do Silvestre do romance de Camilo, assim muita leviandade da capital – lugar e posicionamento – pode fazer enganar os intuitos mais simples, tornando-os algo vulneráveis pela manipulação de arranjos e de desejos de ocasião!  

* Inteligência – esta fundamental faculdade da pessoa humana pode ser, com alguma subtileza, quase revertida da sua função de pensar, se for considerada no contexto de ser reduzida àquilo que queremos que seja feito: por mais vezes do que seria desejável vemos ser usada a inteligência confundida com esperteza, numa espécie de antecipação aos outros daquilo que eles irão descobrir se pensarem um pouco mais. Em quantas situações se deixa que a inteligência seja ofuscada pelo oportunismo e até a inconveniência. À semelhança do protagonista do romance camiliano, vemos uns tantos pretenderem suplantar os outros na habilidade em se acercarem das riquezas alheias...mesmo que à socapa!  

* Estômago – este simbolismo de sucesso – desejado, concretizado ou pretendido – conquista muitos votos e os ardilosos em os conseguirem exercer com habilidade. Talvez tenha sido pela satisfação das pretensões do estômago – ter que comer, que beber e uns cobres para passear – que foram ganhas as últimas eleições. Aconchegados os estômagos, cabeça e coração como que se desligam das reivindicações... mesmo as mais ideológicas e significativas. Com mais dinheiro agora, pode-se afrouxar a exigência, pois já se tem o necessário e suficiente para viver desafogado... Talvez se esteja a pensar com horizontes muito redutivos e quem governa sabe como isso conquista votos e faz ganhar eleições... Amanhã poderemos voltar à exigência, mas, desde que nos convençam que a austeridade já ‘acabou’ há que gozar sem atender ao futuro...mais incerto, rigoroso e sombrio.

 

As eleições autárquicas de 2017 foram ganhas pelo estômago. A cabeça precisa de voltar a pensar... o futuro. O coração tem pressa em sentir...as razões do passado. O presente é muito curto e breve!       

 

António Sílvio Couto



terça-feira, 3 de outubro de 2017

Indefecáveis do sistema



Nos tempos pós-eleitorais surgem – sobretudo nas hostes vencidas – uns tantos salvadores das derrotas indesejadas: há os que surgem por conveniência dos dados; outros aparecem nessa atitude de abutre à portuguesa de regozijar-se com as derrotas alheias; alguns são atirados para fazerem (se soubessem!) melhor; mais uns tantos emergem das longas penumbras obscuras de pretensões não-aceites; numa razoável lista de candidatos poderemos ver muita parra e pouca uva…agora que estamos no lavar-dos-cestos das vindimas, isto é, de colher os frutos sem termos tratados das etapas necessárias anteriores…

Bem sei que o termo ‘indefecável’ não é reconhecido pelo dicionário. Mas, se fizermos a decomposição da palavra encontramos como termo central – ‘defecar’ – que qualquer mortal conhecerá duma certa terminologia um tanto erudita referente a uma necessidade fisiológica mínima e essencial…ao equilíbrio somático-psicológico. O prefixo ‘in’ como que nos leva a considerar uma espécie de movimento e de inclusão de quem participa na ação apresentada… Por seu turno, o sufixo ‘ável’ leva-nos a considerar algo/alguém que participa na ação suscitada e com a possibilidade de praticar ou de sofrer a dita ação… (perdoando a redundância) ativamente.

Numa palavra: ‘indefecável’ será alguém que faz parte da ação de expelir os resíduos do organismo, fazendo-o de forma regular e em consonância com os atributos do sistema onde se encontra inserido… talvez ele mesmo num enquadramento de matéria inorgânica dispensável. 

= Pela leitura que fazemos dos acontecimentos mais recentes da nossa vida social e política, fomos vendo muitos exemplares de indefecáveis, gerados, geridos e geradores do sistema partidário em cujo quadro nos inserimos, vemos e vivemos. Uns já saíram de circulação; outros esbracejam para flutuarem antes do afundamento previsível; uns quantos tentam posicionarem-se para sobreviver um pouco mais; diversos aspiram a entrar no sistema, que, mesmo podendo ser pouco recomendável, ainda será salvo-conduto para mais uns tempos de emprego às custas do dinheiro estatal…  

= Quem tenha um mínimo de memória saberá que dos derrotados não reza a história, exceto se estes se souberem reinterpretar nas horas menos afortunadas. Será, no entanto, nos momentos de vitória que se conhece o estofo de quem ganha, pois os eflúvios vitoriosos podem ofuscar a racionalidade, levando a cometer erros que mais tarde serão pagos com juros bastante altos.

Nalgumas situações vemos que as pessoas se tornam irrazoáveis sobre o modo como conseguiram conquistar os seus feitos…vencedores. Há casos onde o amesquinhamento alheio é, desde logo, uma espécie de certidão de óbito para novas batalhas. Se há coisa que a história nos ensina é, como diz o povo, ‘não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe’! Pena é que que os atores se esqueçam do enredo do passado…

Disto e de muito mais – sobretudo no apadrinhamento de ‘falsas notícias’ – temos visto a serem entretecidos muitos dos episódios criados, explorados e noticiados por uma certa comunicação social, onde uns quantos ‘jornalistas/comentadores’ se vão tornando os maiores paladinos dos indefecáveis em vigor ou a serem promovidos a curto e a médio prazo. Alguns são os mesmos de serviço há décadas. Outros como que se tornam ventríloquos dum espetáculo de circo em maré de digressão. Outros ainda teremos de duvidar sobre quem lhes paga para fazerem o papel ora de entrevistador/a, ora de comentador/a… dependendo da hora e do programa…senão mesmo do local. Haja vergonha! 

= Quando tantos se vangloriam dos seus feitos e efeitos, torna-se urgente e essencial não nos esquecermos que tanto estamos (ou podemos estar) na vanguarda, como bem depressa poderemos encontrar-nos na retaguarda… Somos, enquanto humanos, muito mais vulneráveis do que julgamos. Assim o desempenho dos outros – sucessos e derrotas – nos possam servir de aprendizagem em cada circunstância da nossa ténue vida. Que não nos deixemos ludibriar com os elogios nem atemorizar com as críticas… tudo faz parte da vida. Assim o entendemos correta, inteligente e humildemente.        

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 2 de outubro de 2017

‘Falsas notícias’ e construção da paz pela verdade


O tema do 52.º dia mundial das comunicações é: ‘A verdade vos tornará livres (Jo 8,2). Notícias falas e jornalismo de paz.

Este tema tem algo de atual e deve merecer a nossa atenção – particularmente no rescaldo das eleições autárquicas – e exige-nos um esclarecimento muito preciso e precioso.

Desde logo o que são as ‘falsas notícias’ (‘fake news’) e como as poderemos detetar na conjuntura noticiosa em que nos encontramos? A quem interessa difundir as ‘falsas notícias’? Os difusores de ‘fake news’ poderão ser chamados à responsabilidade ou bastará a denúncia pela deteção dos factos? Por onde mais circulam as ‘fake news’? Poderemos – mesmo sem disso termos total consciência – ser difusores de ‘falsas notícias’?

Desde logo as ‘fake news’ situam-se, culturalmente, no âmbito social do boato, esse veículo de conversa com que tanta gente – mesmo nas nossas localidades mais simples e ruralistas – falava da vida alheia, bisbilhotando questões e situações, difundindo defeitos e misturando conjeturas, reportando-se a problemas dos outros e divulgando mais o que é negativo do que o que é correto e verdadeiro.

Numa abordagem de descrição de ‘fake news’ conseguimos encontrar esta espécie de ‘definição’: o termo [notícias falsas] diz respeito a sites e blogs que publicam intencionalmente notícias falsas, imprecisas ou simplesmente manipuladas, com a intenção de ajudar ou combater algum alvo, normalmente político. Eles também copiam notícias verdadeiras de outros veículos, mas mudam as manchetes, alterando o sentido ou colocando algo sensacionalista para atrair leitores… 

= Ao apresentar o tema do próximo dia mundial das comunicações sociais, a secretaria para a comunicação do Vaticano justificou a escolha do tema com as seguintes palavras: ‘num contexto em que as empresas de referência da social web e o mundo das instituições e da política começaram a enfrentar este fenómeno, também a Igreja quer oferecer um contributo, propondo uma reflexão sobre as causas, as lógicas e as consequências da desinformação nos media’.

Quando vivemos mais numa cultura da opinião e menos da notícia. Quando fazemos valer mais o poder dos gabinetes de comunicação das autarquias e menos o processo da feitura das notícias pelos órgãos de comunicação…’independentes’. Quando vemos crescer uma busca do sensacional e menos da objetividade. Quando vemos avançar o culto da personalidade e menos a difusão do conteúdo programático. Quando se nota que há agentes – políticos e económicos, sociais e ideológicos – que manipulam quem difunde as imagens, as declarações e os projetos… Não estaremos a cultivar mais as ‘falas notícias’ e menos uma comunicação social ao serviço da verdade e da paz? 

= Torna-se urgente detetar e denunciar o modo como vêm a ser servidos certos conteúdos noticiosos. Há quem se venha a afirmar pelas boas notícias, que, no fundo mais profundo, não passam de ‘falsas notícias’. Como o processo está nas mãos de quem vende tais ilusões, as ‘falsas notícias’ são servidas com habilidade esperta e sorvidas com avidez suficiente de quem, sendo envenenado a conta-gotas, não se adverte ainda dos perigos e falácias. Com os anos de democracia – se tal for real e não-virtual – que achamos que temos, seria já advertido que idênticas condições deram consequências muito nefastas para todos e não só para os proponentes e executores… Todos pagamos – e pagaremos – a fatura!

Há uns tantos que já provaram, nos resultados das autárquicas, do veneno que têm vindo a semear: da tentativa de vitória conseguiram amealhar derrotas muito amargas. Os parceiros da geringonça vão sendo tragados pela sofreguidão vencedora. Os palpites deixados noutras circunstâncias deviam ser lidos e refletidos com muita atenção e quase como estertor de sobrevivência…

Agora que podemos questionar as ‘falsas notícias’ haverá ousadia para afrontar quem se acha dono disto tudo? Atendendo à morbidez dos factos recentes temos muito a recear pelo nosso futuro coletivo… Aos fazedores vendidos e vendedores de tantas notícias falsas precisamos de lembrar o velho refrão: Roma não paga a traidores… Por isso, acordem e não se deixem manipular como tem estado a acontecer!    

 

António Sílvio