Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Ignorantes e oportunistas


Vindo de quem vem, dito como foi, explicado à sua maneira, a afirmação – ‘no que toca ao desporto, as nossas autoridades são ignorantes e oportunistas’ – é do responsável máximo do clube mais representativo da segunda cidade do país.

Contrastando a situação da maior parte das modalidades desportivas, incluindo o futebol, o tal dirigente insurgiu-se contra outras situações – de tauromaquia, concertos musical e espetáculos com comediantes, bem como eventos políticos e até religiosos – onde já há público a assistir, enquanto isso está vedado aos estádios e espaços desportivos.

Explicou ainda as razões para os dois adjetivos: Ignorantes porque não sabem reconhecer a importância social e económica de atividades que envolvem milhões de pessoas, como espectadores e como praticantes, que pagam muitos milhões de euros em impostos e que contribuem para o prestígio do país. E são oportunistas porque há certos momentos em que nunca faltam. Seja nas finais da Taça, nos jogos da seleção ou nas alturas em que se assinala algum feito relevante de um desportista português, lá estão sempre os políticos prontos para aparecer e para se colarem ao sucesso que a maior parte das vezes não ajudaram a construir”.

 

= Reconhecendo o verbo fácil daquele dirigente associativo, será que tem razão naquilo que diz e dos cognomes que coloca às autoridades – sanitárias, políticas e sociais? Efetivamente não haverá algo assaz fundamentalista na exigência sanitária quanto às modalidades desportivas? Será à falta da força da razão terá de ser usada a razão da força? Estas palavras do dirigente desportivo não soarão mais a mentira do que a denúncia em verdade, pois, noutras ocasiões também ele não procurou usar os tais ‘ignorantes’, através da sua artimanha mais ou menos oportunista? Como se poderá limpar esta espécie de conluio mais ou menos tácito entre dirigismo desportivo e responsáveis políticos, sejam autárquicos ou do governo central? Não andarão a usar-se mutuamente, admirando-se que não sejam adulados quando mais precisam? Não será este mais um habilidoso mecanismo de pressão que quer influenciar a mudança de atitude dos responsáveis que podem decidir no sentido pretendido?

 

= A fazer fé naquilo que se conta de outras paragens (ditas) desportivas, o aproveitamento de uns (dirigentes) e de outros (políticos) é algo que só escandaliza quem for de cor – clubística ou partidária – diferente daquele que está em causa, pois, parafraseando uma frase bíblica, ‘quem não tiver pecado, atire a primeira pedra’!

Haja, por isso, contenção verbal, pois as televisões e jornais têm uma coisa que se chama arquivo e com muita facilidade se pode perceber a incongruência e a falta de concordância entre o se diz/escreve hoje e o que já aconteceu num passado mais ou menos recente.

O desporto em geral e o futebol em particular têm funcionado como arma de arremesso, de conquista e de afirmação da maior parte dos regimes políticos e dos de pendor ditatorial em especial. Isso não é coisa do passado, continua hoje, só que de uma forma mais dissimulada e sob alguma forma económica. Não será isso que revela a compra de clubes por magnatas do petróleo e de outros impérios? Alguns investimentos não são uma capciosa forma de lavar dinheiro?

 

= Enquanto vivermos a fazer-de-conta que esta ‘santa aliança: política-futebol’ não existe verdadeiramente, iremos andar com dificuldade em ter palavras que não sejam de desculpa ou que mais pareçam pundonores agravados e não uma leitura atenta dos factos, das razões e das consequências. Não basta haver ‘códigos de conduta’, se os primeiros infratores forem os autores das propostas, pois saberão tornear aquilo que queriam combater…nos outros.

Importa encontrar quem são os oportunistas, onde, quando e como se manifestam…o resto será ignorância invencivelmente errónea…

Os ignorantes reinam, os oportunistas governam-se, ontem como hoje!

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Sessão de foto-de-artifício…gravada


Eis que se escutam estrondos à maneira de foguetes. No ar não se via nada, mas de um grande camião eram emitidos sons a imitar o ribombar de foguetório…como noutros anos. Isto aconteceu no cais da Moita do Ribatejo, por ocasião da procissão-automóvel alusiva a Nossa Senhora da Boa Viagem…por estes dias.

O facto nunca me pareceu plausível, tenho dificuldade em compreender o seu recurso e, sobretudo, qual o significado do culto aos foguetes nesta parcela do povo a sul do Tejo. Com efeito, parece que se pode dispensar muita outra coisa – corridas e largadas de toiros, espetáculos musicais, arranjos florais, lugares de diversão, eventos sociais e culturais – mas este adereço dos foguetes continua como se fosse uma espécie de fetiche social, suficientemente enraizado num tecido mais profundo do que noutros locais.

Efetivamente foram vários minutos a escutar aquela cena, onde nem faltaram fumos à mistura, numa montagem que se queria cuidada para que o espetáculo tivesse os ingredientes o mais parecido com a realidade de ocasiões anteriores.

É digno de registo que a proibição de lançar foguetes decorria do estado de alerta vermelho para fogos florestais e que abrangia a região…tal como boa parte do país!

 

= Não pretendo questionar o que cada pessoa considera essencial para si e que pode não o ser para outros. Não consigo penetrar neste mistério de culto aos foguetes, naquilo que podem ter/manifestar de artístico ou de festivo. Não atinjo o alcance mais profundo de quase fazer depender as ‘festas’ da manifestação com foguetes e o barulho que lhe está adstrito. Não alcanço a subtileza da presença inquestionável dos foguetes para que haja festa…

Estas minhas dúvidas possivelmente não terão explicação. Mesmo assim deixo-as na minha ignorância para que possa questionar tantas coisas que posso dar por adquiridas, mas que outros razoavelmente podem colocar em causa. Com efeito, muitas das nossas ‘certezas’ podem não passar de dúvidas para outros e muitas das nossas questões não o são para outros/as.

Se bem que me tenha feito confusão o modo como foi torneada a dificuldade em que houvesse foguetes no lugar do costume e na forma considerada mais adequada, isso obriga-me a colocar no lugar do outro que pensa de forma diferente de mim e que age do modo que considera mais em conformidade com a sua visão ou segundo os seus propósitos mais subtis.

O pior que nos podia acontecer é que se atuasse ao sabor da onda – agora dita de populismo – ou sem nexo de valores. Isso seria termos pessoas que andariam à deriva, esbracejando contra o vento (de forma quixotesca) ou inventando opositores para terem com que se entreter. Infelizmente temos mais atores do que seria desejável neste episódio do palco da vida. Sem nos darmos conta cresce este setor mais abjeto, onde os que pensam de forma diferente se tornam inimigos e quem não alinha com quem manda com facilidade será relegado para espaços de pouca relevância, senão perseguidos…mesmo que tenham (ou tivessem) mais méritos do que aqueles que agora chefiam…

 

= Deixo mais uma vez esta estória: Certo pai convidou o filho de tenra idade para um passeio pelo campo logo pela manhã. O objetivo era escutar os pássaros, educando o petiz para a escuta, ajudando-o a diferenciar os vários cantos e até os ruídos envolventes.

Já tinham passado alguns minutos e ambos tinham apreciado as cores matinais bem como os sons da passarada, quando o pai disse ao filho:

- Ouves algum barulho diferente do canto dos pássaros?

Ao que a criança respondeu:

- Sim. Parece-me ouvir o barulho de uma carroça a descer aquele caminho além.

- É isso. E sabes que a carroça está vazia!

- Como sabe que aquela carroça está vazia?

- É que as carroças vazias fazem mais barulho do que as que estão cheias!

Porquê, então, tanto barulho?   

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Certo, quando parado!



Diz-se eufemisticamente que um relógio parado (ou avariado) está certo duas vezes por dia…quando marca as horas por ele assinaladas.

É esta a leitura mais lídima que ousamos fazer do nosso radiante e radioso país, exultante dos feitos em maré de ‘avante’ (ou será de arrecuas?), regido pela batuta do nosso PM, que faz recomendações de produção aos privados e quer taxar os que mais produzem para satisfazer os intentos dos parceiros sanguessugas da passada e hipotética futura geringonça.

De entre tantas e altissonantes intervenções político-lúdicas – onde as candidaturas às ‘presidenciais’ mexem – já começamos a ser matraqueados com tiradas de poesia que seriam ainda mais ínclitas se os/as figuras continuassem em silêncio. Como se refere de muitos dos nossos cantadores (para além dos da música) fora e no palco: são tão bons poetas, quando estão calados! Sim, nas entrelinhas dos seus silêncios podemos perceber que nunca erram; que nas estrofes tão cuidadas de nada escreverem, falam com uma força sem ser preciso corrigir; que no versejar sem rimas podemos entender as ideias que não têm…nem em sonhos; que nos comentários não-emitidos poderemos descortinar as suas posições…Ó país de Camões, cuida, ampara e diverte-te com os teus ‘poetas’ sem reportório!

 

= Este é mesmo um país parado, muito para além das (pretensas) exigências disciplinares decorrentes do ‘covid-19’. Efetivamente, os ‘inteligentes’ – não é mero eufemismo de corrida de toiros – não querem que a economia pare, mas continuam a proteger os que vivem e se alimentam do manancial do setor ‘estado’ – esta referência com letra pequena ao grande patrão quer significar que muitos (ditos) grandes se vão minusculizando para sobreviverem – que se esgotará muito em breve. As migalhas centenistas vão acabar-se clara e rapidamente. Os favores ‘costitas’ estiolarão sem apelo-nem-agravo. As manigâncias trotskistas sobre as ‘fortunas’ dos ricos não perduram sem duração… E de um país parado, entraremos num país e num povo paralisado, sem nexo nem rumo!

 

= Sem menosprezo por tanto do esforço com que pessoas, famílias, associações/coletividades e de tantas outras organizações para vencerem a luta de cada dia contra este vírus maldito, soa a messianismo barato que nos venham tentar impingir ‘lutas’ contra o medo, quando eles são os semeadores militantes da amedrontação, senão declarada ao menos sub-reptícia. Deixem de promover-se com balelas e declarações só ouvidas porque uma parte dos comunicadores estão vendidos a quem nada diz, mas faz-de-conta que fala, rosnando.

Deixo uma breve do nosso rico anedótico. Como se consegue meter um burro num barco, se ele vir água? Não entra, nem à força de azorrague – coisa não recomendável pela defesa dos animais – enfinca as patas e não entra… Mas se o voltarmos, às arrecuas, porque não vê a água, lá irá entrando…fazendo a vontade contrariada.

Há por aí tanta gente que até vai entrando – para onde a queiram levar/manipular – desde que não veja o perigo…

 

= Porque será que o ‘acordai’ tem uma leitura unívoca, à mistura com essa outra tão equívoca?         

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 8 de setembro de 2020

‘Cidadania’…tendencialmente homofílica?

 


Agora que vão ser retomadas as aulas, num novo ano letivo, há questões que continuam a ocupar os responsáveis da educação dos alunos, que são (ou devem ser) os pais.

Circulam na internet dois ‘manifestos’ sobre a disciplina de ‘Cidadania e desenvolvimento’ a favor ou contra o direito de objeção de consciência sobre o assunto.

- De consta o problema? Os pais de dois alunos de uma escola de VN Famalicão, alegando objeção de consciência, não permitiram que esses alunos frequentassem, nos dois últimos anos letivos, as aulas da disciplina de ‘Cidadania e desenvolvimento’, alegando que as matérias ministradas na dita são da competência e responsabilidade dos pais e não da escola. Faltaram a essas aulas e o sacrossanto e todo-poderoso ministério da (dita) educação fez reprovar os alunos, recuando dois anos atrás, quando o conselho de turma os tinha deixado transitar de ano… Os pais recorreram ao tribunal e o assunto vai-se arrastando.

- Quais os temas ali ensinados? Os temas incluem os direitos humanos (civis e políticos, económicos, sociais e culturais e de solidariedade), desenvolvimento sustentável, educação, ambiente, saúde, interculturalidade, media, igualdade de género, sexualidade, entre outros...

- Linhas do manifesto ‘em defesa das liberdades da educação’: as políticas de educação devem respeitar o direito dos pais “escolherem o género de educação a dar aos seus filhos”, em especial a objeção de consciência quanto à frequência da disciplina Cidadania e Desenvolvimento, “cujos conteúdos, aliás de facto muito densificados do ponto de vista das liberdades de educação em matéria cívica e moral, não podem ser impostos à liberdade de consciência”.

- Razões do manifesto ‘a cidadania não é uma opção’: «consideramos que a disciplina Cidadania e Desenvolvimento deve continuar a fazer parte integrante do currículo, formando jovens conhecedores da importância da participação política através do voto. Reafirmamos que a aprendizagem dos Direitos Humanos e da Cidadania não é um conteúdo ideológico. É uma disciplina que permite que todos conheçam os seus direitos, respeitem os direitos das outras pessoas e conheçam quais os deveres que coletivamente têm para construir uma sociedade que a todos respeite».  

 

= Posto isto temos um bom pano de fundo para a discussão ideológica e de campanha para as próximas eleições presidenciais…até porque alguns dos candidatos – reais ou putativos – já estão de um dos lados da barricada… e vai dar, pela certa, barracada!

Pelo que se vai percebendo das tomadas infladas de posição de ambos os lados, o tema é mesmo ideológico e precisa de luta para que não caia no esquecimento. Compreende-se que, quando o manifesto pela objeção apresenta cem subscritores, o outro logo surgiu com oitocentos, cinco mil e mais… As figuras e figurões, que se perfilam de um e do outro lado, já parecem munias desenterradas de outros combates, com argumentos a roçar o fundamentalismo, numa linguagem que faz rir quem tenha ainda alguma racionalidade e bom senso… coisa que vai rareando no nosso rincão pátrio!

 

= Atendendo à programação da disciplina ‘Cidadania e desenvolvimento’ – curricular desde o primeiro ciclo de aprendizagem escolar – na sua multidisciplinaridade torna-se essencial saber quem ministra o quê, pois muitos dos temas podem ser ideologicamente influenciados ou até manipulados. Só quem andar muito distraído não se terá apercebido de que há uma ‘doutrina’ a veicular, fazendo frente à possibilidade dessa outra disciplina de ‘educação moral e religiosa católicas’. Com efeito, esta foi perdendo – segundo dizem – alguma qualidade e talvez interesse, até pela diminuição do número de alunos. Por isso, o confronto dos dois ‘manifestos’ é mais do que circunstancial e, ficar na espuma do problema, é fugir de saber onde estamos e para onde caminhamos…

A ver pelos indícios vislumbrados, este género de assunto parece uma hidra com bastantes cabeças… cortada uma, outras surgirão. Tendo ainda em conta o ambiente materialista em que nos vamos desenvolvendo, outras questões vão emergir para entreter o povo, enquanto os chefes se vão esgueirar por entre os fumos que lançaram em distração… Vigilantes, o mais possível!   

 

 António Sílvio Couto

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

De focinheira armada


Contaram-lhe por estes dias. Alguém ia entrar numa área de serviço e ter-se-á esquecido de colocar a máscara, ao que o vigilante recomendou: ‘alembre-se de colocar a focinheira’… isto em sotaque alentejano, que foi onde o caso se passou, tem outro sabor e até a sua graça.
De facto, este novo e imprescindível adereço da nossa vida coletiva, a máscara, tem aqui uma boa significação: resguarda e defende, evita e cria (possível) segurança, põe de sobreaviso e, possivelmente, torna-nos mais atentos uns aos outros…
Na designação descritiva de ‘focinheira’ vemos que é um acessório que visa impedir que um animal, geralmente um cão de grande poste, morda alguma pessoa ou outro animal enquanto é tratado, treinado ou quando realiza algum passeio em lugar público.
Não é isto mesmo que a máscara nos faz fazer esta figura? Não terá sido fácil colocar o tal açaime (focinheira) no animal potencialmente agressivo, como também não tem sido de boa vontade que colocamos a máscara, aquando do contacto com os outros.
Agora que nos taparam a boca e condicionaram o nariz, torna-se necessário aprender a viver neste novo normal, pois já se verificam alguns defeitos no trato social. Julgando que os outros ouvem menos bem – talvez se considerem a bitola na audição – há pessoas que falam ainda mais alto do que anteriormente, dando a entender que a máscara atrofia o ouvido, enquanto resguarda a boca. Escusando a maquilhagem vemos surgirem as mais bizarras mascarilhas, numa tentativa de disfarçar alguma da vaidade contida em muitos rostos nem sempre adequadamente pintalgados. Dizem com sarcasmo que a máscara favoreceu certas caras, pois no encobrimento se dilui o que tantos/as pagam de tributo â pouca-beleza.
 
= Atendendo à palavra que usamos no título deste texto – ‘focinheira’ – podemos encontrar, sem grande necessidade de procura, alguns exemplos do trabalho de fuçar com ou sem o artefacto colocado. Com efeito, anda por aí muita gente a fuçar em busca de mais subsídios a conceder à população, mas sem ver se tais propostas são capazes de passar do papel ou do discurso ilíquido sem conteúdo. Depois do ‘RSI’ – rendimento social de reinserção – pode vir a ser acrescentado ou substituído pelo ‘rendimento social de cidadania’ (bloquistas), sugerindo outros o aumento inusitado (embora queiram que seja o correto para uma maioria de não-privados) do salário mínimo e ainda a sugestão de um ‘rendimento básico de emergência’ (pelos seguidores/adeptos dos animais)…numa ansia de querer trazer para a vida política questões tentaculares do espaço partidário. Para já parece que vão fuçando onde se pode encontrar algo que alimente tais pretensões, mas em breve se verá que não passam de miragens, pois a distribuição pode ser benéfica, mas sem a criação efetiva de riqueza não seremos capazes de fugir a novos resgates e a golpes de garote dos (ditos) capitalistas…
 
= É isso: estamos de focinheira armada, não se sabendo para não mordermos ou para não sermos mordidos. De um dos lados estaremos nem que seja a contragosto. Agora que ainda palitamos os dentes das sobras procedentes da União Europeia, preparemo-nos para os sacrifícios que se advinham atrozes e por mais tempo do que no passado recente.
Temos de mudar de hábitos e até de fraseologia. Um exemplo bizarro. Após a celebração de um batizado, os participantes perfilaram-se para a foto geral. O fotógrafo de serviço, usando a linguagem de há uns meses atrás, salientou: ponham um sorriso para a fotografia… mas como podiam fazê-lo, de modo que se visse, se estavam todos de máscara.
Basta de enganos: estamos todos de focinheira e não sabemos até quando durará a situação. Digam-nos a verdade, senhores governantes. Não se escondam nem façam propostas a pensar no ontem, mas atendendo, responsavelmente, ao amanhã… O hoje é curto e passa depressa! 
 
António Sílvio Couto

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

‘Novos leprosos’ expostos em aplicação...suspeita


Lemos nas sagradas letras: «O Senhor disse a Moisés e Aarão: «Quando alguém tiver na pele uma inflamação, um furúnculo ou qualquer mancha que produza suspeita de lepra, será levado diante do sacerdote Aarão ou de um dos seus filhos sacerdotes. O sacerdote examinará a parte afectada. Se no lugar doente o pêlo se tornou branco e a doença ficou mais profunda na pele, é caso de lepra. Depois de o examinar, o sacerdote declará-lo-á impuro (...) Quem for declarado leproso deverá andar com as roupas rasgadas e despenteado, com a barba coberta e gritar: "Impuro! Impuro!" Ficará impuro enquanto durar a sua doença. Viverá separado e morará fora do acampamento» (Lv 13,1-3.45-46).
Era este o tratamento preconizado para com os leprosos no ambiente cultural do Antigo Testamento.
Por seu turno, nos Evangelhos vemos Jesus numa contínua demanda em integrar os proscritos leprosos, curando muitos deles - Mt 8,2-4; Lc 5, 12-14; Mc 1,40-44. De entre os textos alusivos à cura dos leprosos destaca-se aquele em Jesus curou dez, mas só um foi agradecer-Lhe - Lc 17,11-19. 

= Temos que a lepra era uma visão e uma vivência que deixava marcas nas pessoas, na família e na sociedade. Por isso, quando alguém era curado era reintegrado, sendo isso motivo de grande alegria pessoal e social.

Vistas as coisas nestes termos, questionemos com mais rigor o que temos andado a fazer para com milhares de pessoas infetadas, contaminadas e doentes de ‘covid-19’. Elas são os ‘novos leprosos’ não meramente no sentido religioso-social da compreensão, mas na atitude mais ou menos declarada do tratamento higiene-sanitário. Agora a declaração de ‘lepra’ tem outros ‘sacerdotes’ com conhecimentos mais científicos, embora nem sempre acertadamente humanitários… Agora a exclusão de contato com os demais é apelidada exageradamente de ‘quarentena’, reduzida convencionalmente a catorze dias com tendência para encolher, por razões dúbias, para dez… Agora vive-se num afã economicista que tem vindo a fazer da (dita) necessidade de produção um foco para apressar o desconfinamento, a descontaminação, a recuperação dos índices de trabalho…o querer mostrar serviço mais depressa do que seria desejável. 

= Por estes dias foi apresentada com parangonas de sucesso ainda mal-amanhado uma aplicação para tlm. Os gurus do artefacto garantem que tudo está controlado… Citamos a informação veiculada pela ‘sacrossanta’ DGS: «Como funciona a app StayAway Covid? O funcionamento é simples: cada utilizador que tenha testado positivo poderá inserir o código do teste na app. Depois da validação da Direção-Geral da Saúde (DGS), a aplicação irá alertar outros utilizadores que tenham estado próximos do utilizador infetado – durante 15 minutos ou mais -, sempre sem revelar a sua identidade, os seus contactos ou os de outros utilizadores.
Quando não há registo de contactos de proximidade com elevado risco de contágio, a página inicial da app apresenta uma cor verde que mudará para o estado amarelo sempre que o utilizador tenha estado próximo de alguém a quem foi diagnosticada Covid-19
». 

= Num tempo que já era de suspeição, isto não introduz ainda mais desconfiança? Numa época onde temos tido uns para com os outros atitudes de progressivo fechamento e de crescente isolamento, isto não criará ainda mais crispação para com o desconhecido?

Esta ‘aplicação’ não poderá ir nessa onda de subverter os direitos pessoais com interesses coletivos – numa neo-coletivação assaz subtil – expondo as pessoas sem pejo, desde se possa cumprir o objetivo de mostrar que controlamos tudo e todos, à custa da invasão da privacidade e dos direitos mais fundamentais, como a reserva e a confidencialidade da própria doença?

Deixo, a título de exemplo, um caso de que tive conhecimento. Um padre que foi infetado, esteve internado e está declarado ‘curado’, pretendia ser acolhido numa casa sacerdotal, mas foi-lhe negado o acesso, pois podia ser um perigo para os outros residentes…

Se fosse estória seria grave, mas como aconteceu, será o quê?

     

António Sílvio Couto

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Da chantagem…ao confronto


Com breves horas de permeio vimos duas das mais altas figuras da nossa vida política a protagonizarem as duas palavras deste título: o chefe de governo a disparar sobre os seus parceiros de geringonça: se não houver acordo/aprovação do OE2021 haverá uma crise política… Por seu turno, o chefe de estado foi confrontado por uma cidadã – ainda não se sabe a coloração – na feira do livro do Porto sobre a não-concretização de ações daqueles que deviam, em seu entendimento, fazê-lo…

Sobre a atitude do PM poderemos considerar que terá esticado a corda da viola para a festa dos seus interlocutores do passado e que ele bem desejaria que continuassem a sê-lo no futuro próximo. Só que nem todos estarão pelos ajustes de serem figurantes da farsa como anteriormente. Houve quem considera-se que não seria com ameaças que se fariam acordos… enquanto outros se vão entretendo com as tricas da ‘sua’ festa e uns tantos adereços à la carte.

Quanto ao episódio do PR poderemos considerar que, por entre milhares de selfies de simpatia, emergiu esta agridoce, que poderá colocar em maior atenção a segurança, não vá tornar-se moda de reclamação quem se pretenda pronunciar em tempos de contestação, de mal-estar e de vozearia da populaça…  

= Será legítimo e correto que se pretenda criar uma crise política, isto é, em que caia o governo a curto prazo? Qual a data limite para convocação de eleições legislativas nos próximos tempos? Em caso de cair o governo, até novas eleições, como seríamos governados? Estaremos diante de algum truque do dito ‘habilidoso’, a quem falhou o tempo mais exato de insurreição? Terá estalado o verniz da incongruência a poucos dias de decidir quem manda no quê? Quem precisa de quem para sobreviver antes que entremos no pântano? Será natural tanto azedume – nas entrevistas, nas declarações e nos tempos de intervenção pública – em tempo de pós-férias? O silêncio de tantos dos intervenientes não soa a cumplicidade ou a ‘deixar ver até onde vai’ o estendal de afundamento? 

= Vejamos dados das regras gerais da nossa República.

O atual PR termina o mandato legal a 9 de março de 2021, devendo haver eleições para o cargo talvez a 10 de janeiro de 2021, em conformidade com o artigo 125.º da Constituição da República Portuguesa (CRP).
Segundo o artigo 172.º da mesma CRP, depois de 9 de setembro deste ano – no último semestre do mandato do PR atual – já não pode ser dissolvida a Assembleia da República. 
   

= Atendendo a estes dados, por vezes surripiados à informação do público em geral, não deixa de ser um tanto inquietante esse tal ambiente criado pelos responsáveis governamentais, sabendo que, na maior parte dos casos, terão de continuar em regime de gestação até às próximas eleições, que nunca poderão acontecer antes de junho de 2021… Isto é, durante a presidência da União Europeia e com as crises – sanitária, económica/financeira, social – multiplicadas a gerir…

Nota-se algum frenesi em certas hostes partidárias, mais pela apatia gerada nos últimos anos do que pela capacidade em fazer crescer a reflexão do projeto comum para o país. Com facilidade vemos surgirem mais fantasmas do que soluções para os problemas gerados pela pandemia. Com relativa conformidade se procura arranjar mais quem iluda do que quem traga empenho em resolver as confusões sem rosto – nada tem a ver com o uso da máscara – e mesmo sem identidade.

Desgraçadamente são mais os profetas da desgraça do que os da esperança, os pregadores do infortúnio do que da vitória, os vencedores vencidos do que os conquistadores da unidade para a paz.

Sem querer pisar na tecla do mesmo, creio que a chantagem – usada pelo PM agora e já noutras ocasiões – é uma boa arma dos ditadores, quando aflitos e sem capacidade de empenharem outros nas suas lutas.  

Vamos ter mesmo de sofrer mais sacrifícios, todos. Dizer o contrário é mentir e os mentirosos só merecem um lugar: fora do espaço de serviço aos outros…o mais depressa possível. No passado isso custou-nos vários resgates… sempre com a mesma coloração e sem-responsabilidade.

 

António Sílvio Couto