Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Quando uma mãe abandona o filho


Desde o final da tarde do dia cinco de novembro que uma criança, encontrada por um sem-abrigo, num ecoponto do lixo, tem sido noticia constantemente. Soube-se depois que uma mãe, também ela a viver na rua, tinha dado à luz e, posteriormente, deixado o recém-nascido naquele local…
Os momentos de socorro dados à criança tornaram-se quase façanhas heroicas à mistura com alguma estupefação (condenação, questionamento e compreensão) quanto à mãe e às razões de tal ato.
Encontrada a autora do ato foi colocada em prisão preventiva – deixou de estar na rua, passando a ter um teto e condições de habitabilidade – alertou que falaria sobre as razões que a levaram a tal, quando for oportuno perante a justiça…
Não deixa de ser sintomático que este episódio da criança abandonada tenha ocorrido quando não muito longe – a distância entre a estação de Santa Apolónia e o Parque das Nações, em Lisboa – acontecia uma dita ‘web summit’ de novas tecnologias, com perfumes e laivos de riqueza… Deste acontecimento passou a falar-se menos, quando emergiu um facto humano tão básico, simples e trágico.
Poder-se-á dizer que somos um país a várias velocidades: num canto da sala uma cimeira para uns tantos instruídos na arte intergaláxica, nos fundos da divisão de arrumos algo tão triste quão ignóbil, nefasto e dramático… pelo meio certos fantasmas movem-se como autómatos ou como beneficiados nas notícias, sob os holofotes de uma certa comunicação social ávida de escândalos e de casos sensacionalistas. 
= Múltiplas perguntas se colocam perante a atitude desesperada daquela mãe… dada a conhecer como uma imigrante cabo-verdiana ilegal, com cerca de vinte e dois anos, a viver na rua e (talvez) sobrevivendo com expedientes menos lícitos, sem ligação com a família também a viver por cá…está ainda a ser investigada acerca de poder ter outros filhos no país de origem…
* Qual terá sido o desespero de uma mãe para abandonar daquele modo o filho? Fê-lo por debilidade (psicológica ou social) ou para chamar a atenção alheia? Como poderemos explicar este episódio num tempo onde se podem encontrar tantas soluções mais humanas e familiares?
* Aquela criança não ficará afetada para toda a sua vida? Atendendo a que nem foi acompanhada durante a gravidez, que sequelas ficarão? Sobrevirá à falta de colo, esta criança marcada desde o nascimento (e mesmo a sua gestação), pelo frio exterior e humano? Como se podem equilibrar os direitos da criança com os deveres da mãe?
* Socialmente estaremos capazes de saber responder a estes desafios com justiça e caridade? As posições sobre o caso têm valores um pouco mais do que materialistas? Como se pode conjugar cuidar com proteger, dar ambiente familiar e responsabilizar? Por que é que quase nunca vemos pronunciamentos de teor espiritual em casos desta natureza? Será por negligência ou por ausência de respostas no terreno? 
= Esta mãe precisa de ajuda, não a que lhe queremos dar ou consideramos que necessitará, mas a que ela precisa correta, digna e humanamente. Esta criança precisa de uma família e não de ser institucionalizada, já.            

António Sílvio Couto

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Teremos 2.631.559 emigrantes


Segundo dados da ONU era este o número de portugueses a residir fora do espaço territorial do nosso país, em 2019. O observatório da emigração deste organismo internacional considera ainda que 57% dos portugueses emigrados vive no espaço europeu, 40% no continente americano e 3% em África, Ásia e Oceânia.
Atendendo a dados anteriores, nota-se que está a cresce a emigração lusa no continente americano e a decrescer na Europa e na África.
Sempre fomos um país que teve ‘fronteiras’ muito para além dos limites territoriais visíveis. Quase sempre se encontra um português espalhado pelo mundo. Muitas vezes nos lugares mais inesperados vemos reminiscências da passagem ou da presença lusitana.
As razões da ‘nossa’ emigração são tão variadas quão imprevisíveis, isto desde tempos quase imemoriais. A aventura dos portugueses no mundo está quase ligada à sua natureza mais profunda de povo pequeno no tamanho, mas não nas aspirações. Os motivos e as motivações para emigrar foram sendo aferidos às épocas históricas (sociais, económicas e culturais), às condições de vida e até àquilo que se aspirava a concretizar mais depressa ou com tempo alargado.    
Se houve quem tenha atendido àquilo que os emigrantes desejavam, nos tempos mais recentes temos visto ser negligenciado o apreço, a atenção e o cuidado para com os emigrantes, nessa falácia de que temos vindo a tornar-nos um país de imigrados. Ora, os números supra apresentados configuram uma total mentira e um perfeito engano por parte de quem nos tem governado. Efetivamente, continuam a sair do país mais pessoas do que aquelas que pretensamente nos têm procurado. A continuarmos nesta sangria social teremos em breve uma espécie de risco em querermos acolher quem chega, mas desprezando quem parte, mesmo que estes tenham mais qualidade humana, de instrução e até profissional.
Há ainda um perigo mais subtil: se, em tempos, os emigrantes iam com a ânsia de um dia voltar, dá a impressão que hoje partem com menos boa intenção de regressarem. Se, anteriormente, as remessas económicas dos emigrantes eram uma fonte de financiamento e de investimento por cá, com as tropelias do setor bancário, vemos que muitos dos emigrantes já não fazem reverter as suas economias na nossa economia mais geral.
Muita coisa mudou no panorama da emigração. Agora, decorridas duas ou três gerações sobre a partida, os filhos e netos dos migrantes tornaram-se cidadãos dos países onde estão e multiplicam-se os laços – familiares, sociais, culturais e empresariais – de ligação aos locais de vivência e já não aos espaços de seus antepassados.
Hoje é comum vermos filhos e netos de portugueses casados – de facto ou só de conveniência – com turcos, com muçulmanos, com pessoas do antigo leste europeu, com hindus ou do país do sol nascente…numa panóplia de relacionamentos que fazem dos emigrantes criadores de novas culturas e de uma mescla de religiosidades que trarão, certamente, confusões, atritos e problemas a curto e a médio prazo.
Se ainda há pouco tempo era, para alguns, aceitável a multiculturalidade, agora surgem extremistas (políticos ou de raças) que veem com maus olhos essa diversidade, vivência e oportunidade. Talvez seja essencial não darmos por adquirido o clima de convivência entre tantas experiências nem de parecer que todos aceitam que continue a haver tal concordância. Emergem pequenos focos de conflito. Aparecem mentores de nacionalismos. Surgem organizações que excluem e não fomentam a sã convivência. Circulam no subterrâneo do tecido social sinais de que nem tudo é como se vê nem se mostra ou parece.
Torna-se preocupante que só se dê importância ao populismo (dito) de direita e não se consiga percecionar os tenáculos dessoutro populismo de (uma tal) esquerda, que usa as pessoas para que sirvam aos seus objetivos de fomentar racismo, xenofobia, discriminação (do pretenso género ou de conveniência)…na medida em que se dizem defensores contra esses perigos, mas são antes fomentadores sem rosto disso que mais não é do que aquilo de que rotulam os outros. Como têm uma boa parte da comunicação social do seu lado facilmente difundem os seus ideais de forma capciosa, insidiosa e venenosa quanto baste.
É tempo de acordar!   

António Sílvio Couto

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Encantamento de subdesenvolvidos


Mais uma edição da ‘web summit’ – a 4.ª em Portugal – tornou-se uma espécie de encantamento por algo que só os pequenos – ou serão mais os pequeninos de mente e de cultura? – conseguem ver-se com tanto fascínio. Os números desta cimeira como que seduzem os portugueses – ou será antes uma certa comunicação social ávida de notícias e de palco – desde as presenças (sobretudo estrangeiras) até às quantias avultadas em gastos, passando pelas ‘novidades’ desse mundo tecnológico mais ou menos exotérico, encriptado e fascinante para uns tantos/as…
Logo desde o início desta edição ficamos com a sensação de que nem tudo é objetivo e tão pouco independente, pois o primeiro ‘orador’ veio das estepes dos Urais, lançando farpas contra algum ocidente e particularmente esses que ele atraiçoou… De facto e mais uma vez a rebeldia parecer compensar, tendo à mistura quem o faça de modo a contentar outros interesses nem sempre subterrâneos.
À semelhança de outros acontecimentos centrados em Lisboa, também a ‘web summit’ dá projeção aos tentáculos da capital, tornando o governo central e os autarcas locais os que se acham donos e senhores das façanhas, embora seja todo o país a pagar os investimentos para que o evento tenha lugar num espaço privilegiado, com condições excecionais e sob regalias capitalistas…eles mentores de um certo socialismo nem sempre capaz de perceber o que é só deles e aquilo que é de todos.
À boa maneira de outros eventos, os seus organizadores tecem loas a quem recebe, mas com dificuldade explicam o que ganham e quais são as vertentes envolvidas e nesciamente explicitadas. 
= O encantamento de subdesenvolvidos manifesta-se em muitos outros aspetos, nem sempre detetáveis a olho nu, pois muitos dos programas que Lisboa ganhou nos tempos mais recentes – incluído as JMJ2022 – mais parecem fogo de vistas do que projetos com alguma finalidade. Ora, quem vive na dita ‘área metropolitana de Lisboa’ pode perceber um tanto mais proximamente como a macrocefalia alfacinha se sobrepõe a tudo e a todos. Os confrontantes com a capital – aquém ou além Tejo – vão servindo de suporte para os episódios de festança, mas pouco mais fazem do que aplaudir o que eles preparam e impingem, o que eles programam e executam, o que eles toleram que outros estejam, mas com dificuldade deixam que sejam mínimos intérpretes… E nas coisas da Igreja católica não se nota a mais singela diferença! 
= Se as autoestradas foram o símbolo do cavaquismo, os subsídios a pataco do guterrismo, as obras faraónicas não-executadas do socratismo, a austeridade troiquista do passismo, a melancolia tecnológica – onde a web summit’ é como que o expoente máximo – sê-lo-á do costismo… Isto é, muitas iniciativas de ricos, mas com bolsa de pobres; diversos capítulos de sucesso, mas com enganos a detetar e, sobretudo, fazendo-nos crer que somos um país desenvolvido, mas que não passa de ocupar o fundo da tabela da União Europeia em matéria de trabalho, de qualidade económica e de produção de riqueza… Afinal, muita parra e pouca uva, tendo ainda em conta que a produzida é de deficiente qualidade! 
= Na mesma pantalha onde se exibem oradores e participantes da ‘web summit’ aparecem reportagens de escolas em reivindicação por falta de auxiliares e com condições menos aceitáveis, hospitais que não conseguem ter as urgências abertas por deficiência de médicos e até o presidente da República, nas ruas da capital, a reclamar mais atenção para os milhares de sem-abrigo…
É isto um país de sucesso? Será isto uma sociedade de conquistas tecnológicas? Onde andam os que se dizem porta-vozes dos desfavorecidos? Hibernaram antes do tempo ou estão a contar as armas de combate sindicalista? Será que dura sempre a capacidade de ludibriar?  
Parece que o discurso, por estes dias, está entaramelado à semelhança da gaguez de certos intervenientes, mesmo que se apelidem de livres, de esquerda e talvez democratas…   

António Sílvio Couto

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Mudaram as perguntas


‘Agora que sabia as respostas, mudaram as perguntas’. Esta frase parece ser atribuída a uma das principais figuras de uma série de banda desenhada com largos anos de existência e de razoável sucesso entre as crianças e onde essa tal figura contesta a ‘repentina’ mudança, que lhe baralhou as ideias e, sobretudo, as respostas.
Ora, esta visão continua a manter-se atualizada, pois muita gente arquitetou respostas para perguntas do passado e esqueceu-se de que novas questões são colocadas e as ditas respostas já não colhem nem têm aceitação… Pior ainda é quando queremos responder a questionamentos que não nos foram feitos, manipulando as respostas…e talvez invetivando os perguntadores, que, manifestamente, mudaram. 
= Há tantas associações/coletividades, que foram pioneiras na hora do dealbar, mas que se encontram quase decrépitas na atualidade. Muitas vezes fixaram-se em causas que rapidamente mudaram e os objetivos se foram tornando subjetivos à mistura mais com os adjetivos do que com os substantivos. Noutras situações foram os intérpretes que não conseguiram aferir-se à mudança, anquilosando-se nas suas certezas e deixando de corresponder às necessidades para que foram criadas. Quantas vezes foi possível constatar a mesquinhez de certos dirigentes mais interessados em promoverem-se através dessas instituições do que em continuarem o espírito original… 
= Vamos encontrando, entretanto, outras instituições que, devido ao seu peso e longa história, vão sobrevivendo à luz de uma certa memória preservada e atualizada através de gestos, palavras e sinais. Por vezes há setores – dentro e fora – que colocam a Igreja católica entre a lista de instituições que apresentam respostas a questões não ditas ou que querem continuar a responder com uma linguagem que nem todos compreendem. Talvez isto não aconteça em toda a extensão da Igreja católica, mas haverá locais e regiões onde isso pode ocorrer, embora seja notório o esforço por adequar as respostas às perguntas e por não usar de subterfúgios para não se pronunciar. 
= Vivemos num tempo que tem as suas especificidades, onde a velocidade requerida para a resposta não se compadece com a elaboração das perguntas, pois muitas destas andam mais ao sabor das emoções do que da componente intelectual. A argumentação não parece ser mais dedutiva, mas quase emerge da vivência indutiva, colocando pressão em apresentar soluções, quando estas precisariam de ser mais elaboradas, se quiserem ser consistentes e até mesmo satisfatórias.
Por outro lado, a quase emergência do ‘sempre-contatável’ faz com que se viva nessa permanente franja da superficialidade, pois os acontecimentos sobrepõem-se uns aos outros, destronando o que antes parecia ser importante para ser suplantado por outro mais recente, podendo nem ser o mais essencial. Quantas vezes vemos a sofreguidão de perguntas a alguém que tem de saber dosear a sustentabilidade das respostas, de modo a que não se contradiga mesmo sem disso se dar conta.
Se a isto acrescentarmos a inexorável ditadura da imagem, então poderemos estar a cozinhar um cocktail de emoções, onde as respostas parecem mais perguntas e estas pequenas teias – nalguns casos poderão ser peias – de uma comunicação líquida e assaz incongruente. 
= A noção de tudo está certo e correto, desde quem pergunta até quem responde, sabendo o que perguntar e aquilo que se deve responder, está continuamente em causa neste tempo de comunicação rápida, estereotipada e, nalguns casos, manifestamente inconsequente. Saber quais são as perguntas que nos são feitas e dar-lhes as respostas mais adequadas é uma tarefa de contínua aprendizagem e humilde colaboração. Precisamos de pessoas bem formadas na arte de estar com os outros para que não caiámos num certo desânimo que só nos trará mais constrangimentos e dificuldades em saber discernir os mistérios de Deus na história (atual) dos humanos. De nada adianta entrarmos numa fase de malquerença, pois, se não soubermos interpretar o tempo que vivemos, não seremos dignos das oportunidades que nos são concedidas!         

António Sílvio Couto

sábado, 2 de novembro de 2019

Como conciliar natalidade com aborto?


No programa do XXII governo constitucional faz-se larga referência à questão da demografia, mais em vista de colheita económica do que com mentalidade pela vida.
A partir da página 100 e até à página 103, o dito programa dedica algumas considerações e propostas.
Respigamos da abertura dessa secção:
«Sendo a diminuição da natalidade e da fecundidade um traço comum dos países desenvolvidos, Portugal encontra-se entre os casos em que os níveis de fecundidade mais desceram ao longo das últimas décadas e onde têm sido, nos últimos anos, extraordinariamente baixos. Os impactos desta tendência, a longo prazo, pioram as perspetivas demográficas do país, mas, acima de tudo, significam que as condições para as pessoas desenvolverem os seus projetos de vida, designadamente para terem e criarem filhos em Portugal, sofrem bloqueios significativos.
O objetivo das políticas públicas nesta matéria é, por isso, criar condições para que as famílias possam ter os filhos que desejam ter, permitindo-lhes desenvolver projetos de vida com maior qualidade, segurança e melhor conciliação entre trabalho, vida familiar e pessoal. Trata-se não apenas de uma política de melhoria das perspetivas demográficas do país mas de uma verdadeira política de família, visando a promoção do bem-estar numa sociedade mais consentânea com as aspirações e projetos das pessoas
».  
Posteriormente apresentam-se aos itens: ‘facilitar a opção pelo segundo e terceiro filho’, ‘reforçar o acesso a serviços e equipamentos de apoio à família’, ‘melhorar o regime de licenças como instrumento de promoção da parentalidade e de conciliação entre trabalho e vida familiar’, ‘promover um melhor acesso à procriação medicamente assistida e aos cuidados materno-infantis’.
Será que a família tem o significado que todos entendem do mesmo modo? Os filhos serão fruto ou resultado? A defesa da natalidade é objetiva ou sofre de subjetividade capciosa interesseira? Porque nunca se aflora nada quanto à participação da iniciativa privada nas questões familiares? Os filhos são propriedade do Estado ou projeto de vida familiar? Porque há medo de assumir que ‘as últimas décadas’ de diminuição da natalidade coincidem com a vigência do aborto despenalizado?

= De facto, em tudo isto não lemos nada que se refira ao erro histórico de ter feito do aborto – eufemisticamente dito de ‘interrupção voluntária da gravidez’, porque nem é voluntária nem interrompe, antes mata – uma das mais recorrentes facetas de planeamento familiar e como recurso em ter sido usado este método para dizimar milhões de vida, que, agora, fazem falta para que haja equilíbrio geracional e até renovação social.
Os números circulam na comunicação social: desde 2007 – data do segundo referendo ao aborto em Portugal – e até 2016 houve cerca de cento e sessenta mil abortos ditos ‘legais’, nalguns casos com repetições…
Quem tenha já ouvido pessoas, que recorreram ao aborto, continuam com essa ferida aberta na consciência e não será preciso invocar alguma razão religiosa, bastará a dimensão humana, que é bem mais forte que toda e qualquer faceta religiosa por muito ou pouco exigente que possa manifestar-se. Efetivamente é diante de pessoas mais velhas – e não se pense que são só senhoras – que fico comovido e estupefato pelas dores que manifestam…passadas décadas sobre os ‘desmanchos’.   
= Não deixa de ser irónico, para não lhe chamar minimamente hipócrita, que se venha agora clamar por mais condições para a natalidade, quando se optou antes pelo falhanço cultural de fazer do aborto um nível de reduzir a vida ao meramente material. Criaram-se condições para que a opção pela vida pareça algo de menos digno do que luta pela carreira profissional.
Enquanto as forças que desencadearam o projeto do aborto despenalizado não reconhecerem, além do erro, a má-fé de todo o processo, considero que iniciativas em favor da natalidade não passam de patranhas de mau gosto e de duvidosa eficiência, pois estaremos a laborar numa falsidade de valores e numa mentira ética sem rosto nem responsáveis. O ‘inverno demográfico’ tornou-se, assim, um inferno sociológico, onde uma boa parte se desculpa, não assume os seus erros e, normalmente, foge de forma cobarde.

António Sílvio Couto

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Do homem-da-saia… à saia do homem


Um tanto pateticamente vimos, no dia de início da nova AR, um pretenso homem vestido, nos passos perdidos, de saia. Tudo parecia ainda mais inopinado se, ao lermos as ‘razões’, tal atitude possa roçar o exotérico, pois só ele e uns tantos mais (da sua linha ideológica-panfletária) perceberem a lição que pretendiam dar ao resto da população.
Aquela manobra de folclórica não terá sido uma forma de distração para os mais incautos da gaguez da deputada ao lado dele, no espaço parlamentar, que o tal assessor – soube-se depois que era essa a função em exercício – queria suportar? Será algo de paradigmático que, noutros assuntos, iremos ver manobras dessa distração para que os objetivos sejam atingidos com ironia suficiente e superficialidade quanto baste? Se a moda pega – não a da saia, mas a dos fait-divers – a dita ‘casa da democracia’ tornar-se-á ainda mais casa do jocoso e antecâmara do circo social e não-artístico? 
= Por muito (ou pouco) que o episódio possa revelar da liberdade de expressão, ele deverá ser mais do que motivo de distração, pois, como se viu posteriormente, o tal ‘homem-da-saia’ é mais do que um homem vestido com saia, mesmo que a moda em uso seja suscetível de críticas…mesmo do estilo e de gosto. Veja-se que logo vieram vozes – entre as quais a do próprio – a defender a alta cotação intelectual do dito. Mas não será que o ridículo e a falta de senso não andam muitas vezes associados à liberdade de fazer o que se quer, mesmo quando com isso se pretende que esteja longe da normalidade da regra? Certas (ditas) passagens de modelos, em acontecimentos que preenchem páginas e resmas de revistas cor-de-rosa, não andam na franja do bom senso e, quantas vezes, do sem-senso? Como se poderá compreender que haja na comunicação social um departamento de ‘crítica social’, que mais não faz do que colocar à mostra aquilo que a moda, a roupa ou a falta dela, quiseram despertar com outros seguidores, adeptos e sequazes? 
= Aquela imagem do ‘homem-da-saia’ nos passos perdidos da AR, trouxe à liça querer compreender um tanto melhor não o uso da saia, mas o seu recurso pelo sexo masculino… Se a coisa for colocada na instância de ‘género’, o assunto pode mudar ainda mais de figura e talvez mesmo de horizonte.
Nada nem ninguém tem autoridade para contestar que um homem se vista de saia. O traje eclesiástico da batina é o quê? O hábito dos religiosos não tem uma configuração um tanto idêntica à da saia, ao menos na formulação posterior do corpo? A tradição do kilt de certas culturas anglo-saxónicas não parte de idêntica e mais elaborada apresentação? 
= Talvez o que aconteceu na data de abertura da 14.ª legislatura, no passado dia 25 de outubro, pode tornar-se como que num não-assunto, onde as manobras de distração poderão andar de mão dada com iniciativas que intentem subverter a nossa cultura judeo-cristã, dando azo a que uns tantos possam aproveitar-se das fragilidades de outros para imporem – mesmo de forma bizarra e algo desleal – as suas ideias e não para criarem, como seria desejável, consensos sobre o que de melhor possa ser para todos e não só para os seus apaniguados.
A saia do homem-assessor não pode converter-se no ensaio do homem-da-saia… meramente provocador ou talvez não!

António Sílvio Couto

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Estado distribui o que os privados ganham?


A tendência em menorizar a iniciativa privada por contraste com a capacidade de distribuição de regalias pelo Estado tem vindo a acentuar-se, tanto na mentalidade como no comportamento de uma boa parte dos governantes – e afins – no nosso país.

Disso mesmo podemos dar conta ao consultar o programa do XXII governo constitucional, desde logo o mais longo em gente, o mais lesto em partidarite e possivelmente o mais lento em decisões credíveis e aceitáveis para todos e não somente para a fatia do funcionalismo estatal.
Vejamos alguns dos enunciados do programa de governo (extraído da introdução do texto publicado):
* Desafios estratégicos: combater as alterações climáticas; responder ao desafio demográfico; construir a sociedade digital; reduzir as desigualdades.
* Regas de boa governação: contas certas para a convergência com a União Europeia; melhorar a qualidade da democracia; investir na qualidade dos serviços públicos; valorizar as funções de soberania.
Se atendermos ao sumário do dito programa pouco ou nada faz olhar com a devida atenção para o papel da iniciativa privada, antes pelo contrário, se exclui qualquer privatização e se acentua ‘nacionalização’ de tudo quanto possa acontecer, como por exemplo na área da saúde.
É notório o papel do Estado-patrão, onde quem não estiver tutelado por ele ou atrelado a ele não consegue atingir os fins de uma sociedade marcada pelo ferrete anti-privado.
Será que as conquistas tão altissonantes de ‘recuperação dos rendimentos e da confiança da economia e do emprego’ se fizeram só à custa das contas certas e não de alguma austeridade suportada por impostos nem sempre claros e justos? Será que o autoapelidado ‘ciclo de consolidação da recuperação da economia’ se fez (ou não fará) pela habilidade dos governantes ou não foi, sobretudo, fruto da conjuntura internacional favorável? Não será que o almejado ‘ciclo de sustentabilidade a longo prazo’ não estará em causa, quando se descobrir que a distribuição de proventos e de benesses foi enganadora e iludiu o povo mais do que o educou para a verdade daquilo que são as nossas frágeis possibilidades? 
= Certamente que já todos nos questionamos onde vai buscar – o termo tem alguma conotação com a caça – o governo fonte de financiamento para ter proventos capazes para as obras públicas, as diversas áreas de intervenção do Estado, para salários, ordenados e pensões e até para, desde quando em vez, dar uns trocos de garantia aos seus servidores, que são os mais de oitocentos mil funcionários públicos. Claramente a resposta é: aos impostos, lançados, cobrados ou exigidos às pessoas e empresas. Como estas são entidades privadas e não podem fugir ao fisco, sob o risco de serem multadas, penhoradas ou fechadas, vemos que a grande fonte de receita do Estado-patrão está situada naquilo que o governo – e as ditas forças de esquerda – não aprecia, não ajuda e muito menos considera parceiro do desenvolvimento social, económico ou empresarial.
Não podemos esquecer ainda as subvenções da UE como fonte de muitos dos fundos governamentais…
A queda do desemprego – referido no documento do governo como tendo atingido mais de 350 mil novos empregos – à fasquia mais baixa do tempo da (apelidada) democracia…é título de glorificação. Até a subida do ‘ordenado mínimo’ foi arte e obra do governo passado e vai continuar, galopantemente, neste.
Há questões que, por serem da área da iniciativa privada, não são tocadas nem ao de leve. Poderão todas as empresas – ditas pequenas, médias ou da economia social – suportar tais subidas? Certas forças ditas ‘patrióticas e de esquerda’ – tão defensoras das pequenas e médias empresas – são das que propõem que o tal salário mínimo mais suba, não cuidando se há ou não meios de o conseguir. 
= Nenhum país cresceu, cresce ou crescerá sem uma harmoniosa articulação entre o que compete ao Estado e a iniciativa privada. O mal, neste momento, no nosso país, é a acentuada reversão em considerar a iniciativa privada, com o conjunto dos partidos em maioria, para que o Estado seja dono e senhor de toda capacidade de promoção, de apoio e o menos possível de subsidiação. Para alguns que sempre viveram sob a proteção do Estado não lhes faz confusão o que acontece, mas quem teve de se fazer por si, custa ver-se relegado para plano secundário, particularmente se não se quer viver de sopas alheias…    

António Sílvio Couto