Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



domingo, 27 de setembro de 2020

Breve testemunho sobre o Padre Manuel Soares


Quando recebi a notícia do falecimento, no dia 26 deste mês, do Padre Manuel Soares, veio-me uma vontade quase-irreprimível de escrever breves palavras sobre este Padre da nossa diocese.

Conheci-o há cerca de vinte e três anos – dentro de dias fará esta soma o tempo em que estou na diocese de Setúbal.

Talvez pelas suas tarefas entre os emigrantes, tendo o arcebispo de Braga por responsável, o Padre Manuel meteu conversa. Como vinha recomendado por D. Eurico Nogueira para que não interviesse em público naquela que deveria ter sido uma breve estada de um ano, acedi a conversar com o Padre Manuel Soares. Desde então e sempre que nos encontrávamos ele fazia recordar os padres daquela diocese que conheceu nos tempos da emigração.

Porque nunca trabalhámos na mesma vigararia, falávamos sobretudo por ocasião das reuniões com todo o clero da diocese ou em ações de formação, onde o Padre Manuel era frequentador habitual…muito mais do que outros mais novos e com menor experiência de vida.

Recordo as intervenções frequentes do Padre Manuel Soares. Para alguns pareciam soar a ‘inocentes’ e desarticuladas dos seus saberes de recém-formados. Para outros mais ‘ilustrados’ como que versaria a provocação de gente vinda do meio laboral. Uns tantos davam por perdida a intervenção – pergunta, objeção, contraposição, correção – trazida à liça pelo Padre Manuel Soares. Outros ainda ferviam em lume brando com aquilo que o Padre Manuel perguntava, mas que os deixava na dúvida sobre a sua inteligência…

Habituei-me a escutar as suas intervenções – mesmo naquilo que escrevia e fê-lo por longo tempo no jornal diocesano – com coração atento, mente preocupada e vontade desperta. Sob o seu ar descontraído estava um homem de Deus, que serviu a Igreja e soube ser simples sem se manchar com o rótulo do simplório.

Ainda no seu tempo de doença falamos algumas vezes, por mensagem e ao telefone. Agora que ele partiu sinto saudade de um padre que o era por convicção, mesmo que nem sempre entendido por todos. Mas teremos de o ser?

Obrigado, Padre Manuel Soares. Reze, agora, por nós, que ainda vivemos neste tempo de pandemia.

 

António Sílvio Couto

sábado, 26 de setembro de 2020

Poliedricidade – uma outra visão de Igreja em Igreja


«Esta realidade [dos cenários culturais contemporâneos], tão heterogénea e mutável, tanto do ponto de vista sociocultural como religioso, precisa de ser lida de modo que seja percetível a sua poliedricidade e que cada aspeto mantenha a sua validade e peculiaridade mesmo na relação variada com a totalidade. Esta abordagem interpretativa permite que se leia os fenómenos de pontos de vista diferentes, mas colocando-os em relação entre si. É importante que a Igreja, que quer oferecer a beleza da fé a todos e a cada um, esteja consciente desta complexidade e amadureça um olhar mais profundo e sábio em relação à realidade. Uma condição destas obriga ainda mais a assumir a perspetiva sinodal como metodologia coerente com o percurso que a comunidade é chamada a realizar. É um caminho comum no qual confluem presenças e papéis diversos, de modo que a evangelização se realize de modo mais participado».

Lemos no n.º 312 do ‘Diretório para a catequese’, do Pontifício conselho para a promoção da nova evangelização, promulgado em finais de junho deste ano.

Como resultado de um aturado processo de maturação daquilo que deve ser o processo de catequese, neste texto se insere um termo que procuraremos aprofundar nesta reflexão: ‘poliedricidade’.

* Já na exortação apostólica ‘Evangelium gaudium’ (a alegria do Evangelho), de 2013, o Papa Francisco tinha aflorado este termo. Diz-se no n.º 236: «O modelo não é a esfera, que não é superior às partes, onde cada ponto é equidistante do centro e não há diferenças entre um ponto e o outro. O modelo é o poliedro, que reflete a confluência de todas as partes que nele mantêm a sua originalidade. Tanto a ação pastoral como a ação política procuram reunir nesse poliedro o melhor de cada um. Ali entram os pobres com a sua cultura, os seus projetos e as suas próprias potencialidades. Até mesmo as pessoas que possam ser criticadas pelos seus erros têm algo a oferecer que não se deve perder. É a união dos povos, que, na ordem universal, conservam a sua própria peculiaridade; é a totalidade das pessoas numa sociedade que procura um bem comum que verdadeiramente incorpore a todos».

* Na mensagem que dirigiu ao 3.º festival da doutrina social da Igreja, que decorreu, em Verona (Itália), de 21 a 24 de novembro de 2013, o Papa Francisco usou a imagem do poliedro, por contraste com a esfera para explicitar a sua interpretação do tema daquele encontro internacional. Dizia o Papa: «’Menos desigualdades, mais diferenças’ é um título que evidencia a riqueza plural das pessoas como expressão dos talentos pessoais e distancia-se da homologação que mortifica e, paradoxalmente, aumenta as desigualdades. Gostaria de traduzir o título numa imagem: a esfera e o poliedro. A esfera pode representar a homologação, como uma espécie de globalização: é lisa, sem lapidações, igual em todas as partes. O poliedro tem uma forma semelhante à esfera, mas é composta por muitas faces. Gosto de imaginar a humanidade como um poliedro, no qual as multíplices formas, exprimindo-se, constituem os elementos que compõem, na pluralidade, a única família humana. Esta é a verdadeira globalização. A outra globalização – a da esfera – é uma homologação».

* Posteriormente, o mesmo Papa referiu-se à mesma distinção entre a esfera e o poliedro ao dirigir-se aos membros do Renovamento Carismático católico, na praça de São Pedro, a 3 de julho de 2015, dizendo: «No ano passado no estádio falei também da unidade na diversidade. Dei o exemplo da orquestra. Na Evangelii gaudium falei da esfera e do poliedro. Não é suficiente falar de unidade, não é uma unidade qualquer. Não é uniformidade. Dito deste modo pode ser compreendida como a unidade de uma esfera na qual cada ponto é equidistante do centro e não há diferenças entre um ponto e outro. O modelo é o poliedro, que reflete a confluência de todas as partes que nele mantêm a sua originalidade e estes são os carismas, na unidade mantendo a própria diversidade. Unidade na diversidade. A distinção é importante porque estamos a falar da obra do Espírito Santo, não da nossa. Unidade na diversidade de expressão de realidades, tantas quantas o Espírito Santo quis suscitar. É necessário recordar também que o todo, ou seja, esta unidade, é maior do que a parte, e a parte não pode pretender ser o todo».

* Ainda na exortação apostólica pós-sinodal, ‘Christus vivit’, de 2019, n.º 207, refere o mesmo Papa, quanto aos jovens: «aprendendo uns com os outros, podemos refletir melhor aquele maravilhoso poliedro que deve ser a Igreja de Jesus Cristo. Esta pode atrair os jovens, precisamente porque não é uma unidade monolítica, mas uma trama de variados dons que o Espírito derrama incessantemente nela, fazendo-a sempre nova apesar das suas misérias».

 

= Feita a abordagem aos textos do magistério sobre esta temática da poliedricidade talvez seja importante tentei ver essa ‘nova/outra’ visão de Igreja que nos é proposta, onde estamos inseridos como ‘facetas’ da perspetiva que damos aos outros e que os outros podem perceber…

Efetivamente depois de uma amostragem de Igreja mais em modelo de ‘esfera’ reduzindo-se a uma homologação global, através do poliedro cada um conta, mas não se reduzindo a ser número de uma contagem em massa anónima. Com efeito, o grande teólogo do século passado, Karl Rahner, cunhou a expressão´: ‘cristãos anónimos’ para se referir àqueles/as que podem vir a fazer parte da Igreja e na mesma linha de falava o Concílio Vaticano II, as ‘sementes do Verbo’ (cf. Ad gentes, 11) estão disseminadas muito para além daquilo que conseguimos perceber totalmente…

Os aspetos enunciados nos documentos supracitados podem-nos dar pistas para refletirmos sobre esta ‘outra’ visão de Igreja em que devemos ensaiar a nossa participação: pela perspetiva sinodal, nas potencialidades culturais, na pluralidade da família humana, pela unidade na diversidade dos carismas, numa Igreja sempre nova apesar das suas misérias…

Voltaremos, em breve, para esmiuçar estes vários itens.

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Em vista da remanescência nacional


Fala-se por aí de um tal ‘plano de recuperação e resiliência’, cujo principal objetivo parece apontar para um investimento de 12,9 mil milhões de euros, nos próximos seis anos, sobretudo com dinheiro proveniente da União Europeia.

As áreas de intervenção – logo de gasto de dinheiro…muito dinheiro – apresentam-se em três aspetos: resiliência, transição climática e transição digital.

Vejamos os campos específicos de cada uma destas áreas e os dinheiros envolvidos:

* Resiliência: envolve vulnerabilidades sociais, potencial produtivo, competitividade e coesão territorial... num total de sete mil milhões de euros, com as seguintes verbas previstas – 3,200 milhões para serviço nacional de saúde, habitação e respostas sociais; 2.500 milhões de euros em investimento e inovação com qualificações profissionais; 1.500 milhões para competividade e coesão territorial.
* Transição climática: envolve mobilidade sustentável, descarbonização, eficiência energética e energias renováveis... num total de 2.700 milhões de euros com os investimentos seguintes: transportes – 975 milhões; descarbonização – 925 milhões; eficiência energética de edifícios, estratégia para o hidrogénio e gases renováveis – 800 milhões.
* Transição digital: envolve digitalização das escolas e equipamentos infraestruturas e recursos humanos e educativos, além do apoio à transição digital das empresas... num total de três mil milhões de euros.
Este ‘plano de recuperação  e resiliência’ vai ser apresentado a 14 de outubro no parlamento português e no dia seguinte à Comissão Europeia.
Este ‘plano’ enquadra-se no Plano de Recuperação Europeu, que pretende mitigar os efeitos da pandemia da covid-19.

 

= Mais uma vez estamos confrontados com uma enorme quantidade de dinheiro que nos vem da Europa. Atendendo às experiências anteriores precisamos de não deixar que sejam sempre os mesmos a beneficiar desta torrente de milhões de euros por dia…

Agora que os responsáveis governamentais estavam a olhar para os dedos sem terem que distribuir, eis que surge este PRR, de onde brotarão largas maquias para continuarem a iludir o país, senão com atos ao menos com verborreia… e estórias do ‘sem-nunca’!

Diante desta abundância toda veio-me à imaginação a imagem de um ‘avô rico’ lá para as bandas da Bélgica, que nos deixou uma fortuna (dita) incalculável para gastar. Nunca vimos nem escutamos o tal avô, pois ele é muito chato com as recomendações que faz aos netos mais travessos… Sobre uns tios rezingões mais aplicados, que nos dizem que devemos saber governar as nossas economias, deixadas em herança, ainda mandamos umas bocas, pois parece que nos querem fazer poupar, quando o que desejamos é gastar à tripa-forra, trabalhar o menos possível, vivermos a nossa vidinha, sem nos interrogarmos de onde vem tanto dinheiro… desde que não tenhamos de prestar contas aos tios mais forretas.

E se fecham a torneira do ‘avô rico’? Teremos capacidade de sobrevivermos nos hábitos já adquiridos, sem o dinheiro fácil e abundante? Os mais rebeldes poderão prometer mundos-e-fundos aos seus descendentes, sem olhar ao futuro? Conseguirão dar tudo e o resto, quando as contas bancárias forem canceladas e já não houver nada para distribuir? Com este aglomerado de familiares tão díspares continuaremos a viver nesta aparente comunhão de bens não-adquiridos, mas facilmente esgotáveis?

Uns parentes da zona da Rússia também tinha uma quinta bem organizada, mas que faliu, há cerca de trinta anos… Foi o descalabro, deixados à solta os primos de Leste passaram por grandes dificuldades, muitos deles vieram trabalhar para nós, quando começamos a receber os primeiros trocos do ‘avô rico’… Em pouco tempo ninguém os distingue nem pela língua nem pela força de trabalho.

 

= À luz do ‘plano de recuperação e resiliência’ apetece-me trocar as palavras, embora a sigla possa ser a mesma: não será mais uma artimanha para vermos a ‘remanescência’ de um país que teima em continuar a ser autónomo, mas cada vez mais dependente de terceiros… psicológica e economicamente. Até quando?

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Riscos de estar/andar sozinho…


De repente ouvimos uma notícia sobre um despiste na autoestrada: alguém foi vítima e morreu…Diz-se que não seguia mais ninguém no veículo sinistrado…Horas mais tarde, aquele ‘anónimo’ passou a ter nome, é o bispo de Viana do Castelo, D. Anacleto Oliveira, de 74 anos.

Esta situação de um homem da Igreja trouxe-me à memória tantos outros que vivem e andam, nas lides sacerdotais sozinhos, mesmo já em idade avançada…quantos deles aguentando o peso da atividade pastoral, pondo em risco, quantas vezes, a própria vida.

Ora, por breves instantes, veio-me à lembrança uma quantidade de questões que, de alguma forma, tentarei aqui deixar escritas, mais como preocupação do que em acusação, tendo em conta tantas das vertentes da nossa educação e não do mero condicionamento de vida, possíveis interrogações sobre um sistema de conduta e nunca como recalcamento contra nada nem quanto a ninguém.

 

* Educação de responsabilidade pessoal – uma das dimensões mais acentuadas na nossa educação, desde tenra idade nos seminários, era a da personalidade acrisolada pela dificuldade, sem facilitismo nem cedências ao mais fácil…a conquista fazia-se pelo sacrifício. A partir daqui cada um tinha de aprender a ser ele e as suas circunstâncias, sabendo que os outros – eram às dezenas e centenas – estavam a viver idêntico processo. Isso em vez de poder fazer crescer o egoísmo, fazia-nos compreender que todos estávamos a ser testados, mesmo nos pequenos pormenores do dia-a-dia. Sem quase nunca ser dito, a verdade era servida em doses de sinceridade, de lealdade, de aprendizagem contra a mentira…

 

* Primeiro vive-se, depois explica-se – a cultura do testemunho era passada pelo crivo das palavras, pois estas só serviam para explicar, se fosse necessário, aquilo que se vivia. Desde muito cedo éramos mergulhados na vivência prática e não na mera verborreia. Se alguém se destacava nesta, quase era questionado se servia para vir a ser quem devia poder ser. Mesmo assim a palavra era sagrada, pois faltar-lhe seria ofender o que de mais sério havia: uma só palavra bastava para tudo ficar acertado.

 

* Respeitar os outros na diferença – os dons e as qualidades eram apreciados pelos superiores, que saberiam discernir o melhor aproveitamento em favor de todos…embora pudesse haver subtis favorecimentos, facilmente detetáveis e nem sempre bem aceites. Havendo muito por onde escolher, seriam os mais aptos a serem os promovidos. Com o passar dos anos nem sempre o critério dos melhores foi seguido…infelizmente.

 

* Excesso de caminhar para o individualismo – atendendo às tarefas futuras de assunção na condução de uma porção de pessoas no sentido restrito, foi-se gerando alguma prevenção para estar só, senão ao nível psicológico e espiritual, pelo menos no sentido físico e talvez emocional. Bem mais do que um certo ‘salve-se quem puder’ era incutido um saber estar só, sem ser solitário, embora nitidamente celibatário. Assim foi crescendo a visão interior e exterior de muitos dos servidores da Igreja, colocados sob a atenção de todos, mesmo que observados de forma nem sempre compreensiva, como seria desejável, aceitável e natural.

 

* Que riscos? Como os enfrentar? – Mais do que questões do foro sentimental este ‘estar sozinho’ tem riscos e comporta perigos, que precisam de ser apontados com simplicidade, caridade e compreensão. Se bem que possa haver uma estruturação para viver tendencialmente mais só, ninguém subsiste a estar solitário, seja qual for a idade em que se viva… A partilha de pontos de vista precisa de ser cultivada para que não possa haver uma espécie de fechamento sobre a exclusividade da sua perspetiva, talvez nem sempre a única, mas uma em confronto com outros…Não se pode cair na tentativa de introduzir substitutos compensatórios, pois com facilidade se podem tornar outros hábitos desejavelmente explicáveis e/ou tolerados… Na era das tecnologias eletrónicas podem ser imensas as seduções, sem esquecer as (ditas) redes sociais e tantos outros artefactos… Obrigado a tantos testemunhos de entrega no passado, no presente e para o futuro!   

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Ignorantes e oportunistas


Vindo de quem vem, dito como foi, explicado à sua maneira, a afirmação – ‘no que toca ao desporto, as nossas autoridades são ignorantes e oportunistas’ – é do responsável máximo do clube mais representativo da segunda cidade do país.

Contrastando a situação da maior parte das modalidades desportivas, incluindo o futebol, o tal dirigente insurgiu-se contra outras situações – de tauromaquia, concertos musical e espetáculos com comediantes, bem como eventos políticos e até religiosos – onde já há público a assistir, enquanto isso está vedado aos estádios e espaços desportivos.

Explicou ainda as razões para os dois adjetivos: Ignorantes porque não sabem reconhecer a importância social e económica de atividades que envolvem milhões de pessoas, como espectadores e como praticantes, que pagam muitos milhões de euros em impostos e que contribuem para o prestígio do país. E são oportunistas porque há certos momentos em que nunca faltam. Seja nas finais da Taça, nos jogos da seleção ou nas alturas em que se assinala algum feito relevante de um desportista português, lá estão sempre os políticos prontos para aparecer e para se colarem ao sucesso que a maior parte das vezes não ajudaram a construir”.

 

= Reconhecendo o verbo fácil daquele dirigente associativo, será que tem razão naquilo que diz e dos cognomes que coloca às autoridades – sanitárias, políticas e sociais? Efetivamente não haverá algo assaz fundamentalista na exigência sanitária quanto às modalidades desportivas? Será à falta da força da razão terá de ser usada a razão da força? Estas palavras do dirigente desportivo não soarão mais a mentira do que a denúncia em verdade, pois, noutras ocasiões também ele não procurou usar os tais ‘ignorantes’, através da sua artimanha mais ou menos oportunista? Como se poderá limpar esta espécie de conluio mais ou menos tácito entre dirigismo desportivo e responsáveis políticos, sejam autárquicos ou do governo central? Não andarão a usar-se mutuamente, admirando-se que não sejam adulados quando mais precisam? Não será este mais um habilidoso mecanismo de pressão que quer influenciar a mudança de atitude dos responsáveis que podem decidir no sentido pretendido?

 

= A fazer fé naquilo que se conta de outras paragens (ditas) desportivas, o aproveitamento de uns (dirigentes) e de outros (políticos) é algo que só escandaliza quem for de cor – clubística ou partidária – diferente daquele que está em causa, pois, parafraseando uma frase bíblica, ‘quem não tiver pecado, atire a primeira pedra’!

Haja, por isso, contenção verbal, pois as televisões e jornais têm uma coisa que se chama arquivo e com muita facilidade se pode perceber a incongruência e a falta de concordância entre o se diz/escreve hoje e o que já aconteceu num passado mais ou menos recente.

O desporto em geral e o futebol em particular têm funcionado como arma de arremesso, de conquista e de afirmação da maior parte dos regimes políticos e dos de pendor ditatorial em especial. Isso não é coisa do passado, continua hoje, só que de uma forma mais dissimulada e sob alguma forma económica. Não será isso que revela a compra de clubes por magnatas do petróleo e de outros impérios? Alguns investimentos não são uma capciosa forma de lavar dinheiro?

 

= Enquanto vivermos a fazer-de-conta que esta ‘santa aliança: política-futebol’ não existe verdadeiramente, iremos andar com dificuldade em ter palavras que não sejam de desculpa ou que mais pareçam pundonores agravados e não uma leitura atenta dos factos, das razões e das consequências. Não basta haver ‘códigos de conduta’, se os primeiros infratores forem os autores das propostas, pois saberão tornear aquilo que queriam combater…nos outros.

Importa encontrar quem são os oportunistas, onde, quando e como se manifestam…o resto será ignorância invencivelmente errónea…

Os ignorantes reinam, os oportunistas governam-se, ontem como hoje!

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Sessão de foto-de-artifício…gravada


Eis que se escutam estrondos à maneira de foguetes. No ar não se via nada, mas de um grande camião eram emitidos sons a imitar o ribombar de foguetório…como noutros anos. Isto aconteceu no cais da Moita do Ribatejo, por ocasião da procissão-automóvel alusiva a Nossa Senhora da Boa Viagem…por estes dias.

O facto nunca me pareceu plausível, tenho dificuldade em compreender o seu recurso e, sobretudo, qual o significado do culto aos foguetes nesta parcela do povo a sul do Tejo. Com efeito, parece que se pode dispensar muita outra coisa – corridas e largadas de toiros, espetáculos musicais, arranjos florais, lugares de diversão, eventos sociais e culturais – mas este adereço dos foguetes continua como se fosse uma espécie de fetiche social, suficientemente enraizado num tecido mais profundo do que noutros locais.

Efetivamente foram vários minutos a escutar aquela cena, onde nem faltaram fumos à mistura, numa montagem que se queria cuidada para que o espetáculo tivesse os ingredientes o mais parecido com a realidade de ocasiões anteriores.

É digno de registo que a proibição de lançar foguetes decorria do estado de alerta vermelho para fogos florestais e que abrangia a região…tal como boa parte do país!

 

= Não pretendo questionar o que cada pessoa considera essencial para si e que pode não o ser para outros. Não consigo penetrar neste mistério de culto aos foguetes, naquilo que podem ter/manifestar de artístico ou de festivo. Não atinjo o alcance mais profundo de quase fazer depender as ‘festas’ da manifestação com foguetes e o barulho que lhe está adstrito. Não alcanço a subtileza da presença inquestionável dos foguetes para que haja festa…

Estas minhas dúvidas possivelmente não terão explicação. Mesmo assim deixo-as na minha ignorância para que possa questionar tantas coisas que posso dar por adquiridas, mas que outros razoavelmente podem colocar em causa. Com efeito, muitas das nossas ‘certezas’ podem não passar de dúvidas para outros e muitas das nossas questões não o são para outros/as.

Se bem que me tenha feito confusão o modo como foi torneada a dificuldade em que houvesse foguetes no lugar do costume e na forma considerada mais adequada, isso obriga-me a colocar no lugar do outro que pensa de forma diferente de mim e que age do modo que considera mais em conformidade com a sua visão ou segundo os seus propósitos mais subtis.

O pior que nos podia acontecer é que se atuasse ao sabor da onda – agora dita de populismo – ou sem nexo de valores. Isso seria termos pessoas que andariam à deriva, esbracejando contra o vento (de forma quixotesca) ou inventando opositores para terem com que se entreter. Infelizmente temos mais atores do que seria desejável neste episódio do palco da vida. Sem nos darmos conta cresce este setor mais abjeto, onde os que pensam de forma diferente se tornam inimigos e quem não alinha com quem manda com facilidade será relegado para espaços de pouca relevância, senão perseguidos…mesmo que tenham (ou tivessem) mais méritos do que aqueles que agora chefiam…

 

= Deixo mais uma vez esta estória: Certo pai convidou o filho de tenra idade para um passeio pelo campo logo pela manhã. O objetivo era escutar os pássaros, educando o petiz para a escuta, ajudando-o a diferenciar os vários cantos e até os ruídos envolventes.

Já tinham passado alguns minutos e ambos tinham apreciado as cores matinais bem como os sons da passarada, quando o pai disse ao filho:

- Ouves algum barulho diferente do canto dos pássaros?

Ao que a criança respondeu:

- Sim. Parece-me ouvir o barulho de uma carroça a descer aquele caminho além.

- É isso. E sabes que a carroça está vazia!

- Como sabe que aquela carroça está vazia?

- É que as carroças vazias fazem mais barulho do que as que estão cheias!

Porquê, então, tanto barulho?   

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Certo, quando parado!



Diz-se eufemisticamente que um relógio parado (ou avariado) está certo duas vezes por dia…quando marca as horas por ele assinaladas.

É esta a leitura mais lídima que ousamos fazer do nosso radiante e radioso país, exultante dos feitos em maré de ‘avante’ (ou será de arrecuas?), regido pela batuta do nosso PM, que faz recomendações de produção aos privados e quer taxar os que mais produzem para satisfazer os intentos dos parceiros sanguessugas da passada e hipotética futura geringonça.

De entre tantas e altissonantes intervenções político-lúdicas – onde as candidaturas às ‘presidenciais’ mexem – já começamos a ser matraqueados com tiradas de poesia que seriam ainda mais ínclitas se os/as figuras continuassem em silêncio. Como se refere de muitos dos nossos cantadores (para além dos da música) fora e no palco: são tão bons poetas, quando estão calados! Sim, nas entrelinhas dos seus silêncios podemos perceber que nunca erram; que nas estrofes tão cuidadas de nada escreverem, falam com uma força sem ser preciso corrigir; que no versejar sem rimas podemos entender as ideias que não têm…nem em sonhos; que nos comentários não-emitidos poderemos descortinar as suas posições…Ó país de Camões, cuida, ampara e diverte-te com os teus ‘poetas’ sem reportório!

 

= Este é mesmo um país parado, muito para além das (pretensas) exigências disciplinares decorrentes do ‘covid-19’. Efetivamente, os ‘inteligentes’ – não é mero eufemismo de corrida de toiros – não querem que a economia pare, mas continuam a proteger os que vivem e se alimentam do manancial do setor ‘estado’ – esta referência com letra pequena ao grande patrão quer significar que muitos (ditos) grandes se vão minusculizando para sobreviverem – que se esgotará muito em breve. As migalhas centenistas vão acabar-se clara e rapidamente. Os favores ‘costitas’ estiolarão sem apelo-nem-agravo. As manigâncias trotskistas sobre as ‘fortunas’ dos ricos não perduram sem duração… E de um país parado, entraremos num país e num povo paralisado, sem nexo nem rumo!

 

= Sem menosprezo por tanto do esforço com que pessoas, famílias, associações/coletividades e de tantas outras organizações para vencerem a luta de cada dia contra este vírus maldito, soa a messianismo barato que nos venham tentar impingir ‘lutas’ contra o medo, quando eles são os semeadores militantes da amedrontação, senão declarada ao menos sub-reptícia. Deixem de promover-se com balelas e declarações só ouvidas porque uma parte dos comunicadores estão vendidos a quem nada diz, mas faz-de-conta que fala, rosnando.

Deixo uma breve do nosso rico anedótico. Como se consegue meter um burro num barco, se ele vir água? Não entra, nem à força de azorrague – coisa não recomendável pela defesa dos animais – enfinca as patas e não entra… Mas se o voltarmos, às arrecuas, porque não vê a água, lá irá entrando…fazendo a vontade contrariada.

Há por aí tanta gente que até vai entrando – para onde a queiram levar/manipular – desde que não veja o perigo…

 

= Porque será que o ‘acordai’ tem uma leitura unívoca, à mistura com essa outra tão equívoca?         

 

António Sílvio Couto