Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sábado, 20 de abril de 2019

Incêndio de Notre-Dame…cumpre profecias de La Salette?


 
Por ocasião do recente incêndio na catedral de Notre-Dame, em Paris, circulou na internet uma estampa, de 1956, em que era apresentada, ao estilo do tempo, uma pintura do Sagrado Coração de Jesus, tendo nos cantos superiores do mesmo a representação de algo parecido com a catedral de Paris e a catedral de São Pedro, no Vaticano, ambas em chamas…

Tal figuração seria alusiva às ‘profecias’ dadas pelos videntes Maximin e Mélanie, na manifestação de Nossa Senhora em La Salette…uma povoação nos alpes franceses. Com efeito, percorridas as ‘profecias’, do final do século dezanove, aí se referia que, um dia, Notre-Dame e o Vaticano seriam consumidas pelas chamas… Para além de alguns castigos de efeito mais ou menos imediato nos campos e na saúde das populações, as ‘profecias’ de La Salette são algo tenebrosas não só pelas consequências, mas em razão das causas. Pior: muitas destas continuam ativas e atuais, podendo ser remanso para extremistas tanto religiosos, como sociopolíticos… estenderem as suas garras, conjeturas e suposições.

Mas será que o incêndio da catedral de Notre-Dame pode ser lido como o cumprimento de alguma das ‘profecias’ de La Salette? Poderemos querer confirmação de algo que poderá ser mais do que um mero acidente? Até que ponto mais de cento e cinquenta depois poderemos ver, neste incêndio, o cumprimento de tais ‘profecias’? Será correto, histórica e sensatamente, atribuir algum nexo de causa-efeito, entre as ‘profecias’ de La Salette e o trágico incêndio de abril de 2019?

Se, porventura, dermos crédito a tais ‘profecias’ teremos de, agora, esperar que as chamas atinjam a catedral de São Pedro, no Vaticano, corroborando a interpretação de que o ‘mal’ tomara posse do governo da Igreja católica. Será isto sério, sensato e aceitável? Teremos de andar a escarafunchar os meandros da Santa Sé para confirmar tais teorias da conspiração? Será tudo isso justo, correto e honesto?

Dá a impressão de que, quanto mais caminhamos na senda de nos sentirmos participantes da história deste mundo, mais surgem uns certos ‘intelectuais’ e uns tantos ‘devocionistas’ a puxarem para trás, isto é, confundirem os outros, dado que eles mesmos estão confusos, baralhados e saudosistas em terem as pessoas presas pelo medo e não pela capacidade de lerem, interpretarem e viverem de forma livre, consciente e responsável… 

= Mutatis mutandis: a quem interessa continuar a insistir na ‘missa tradicional’ se vamos perdendo clientela na missa do Vaticano II? A quem interessam certas roupagens, para além do espavento de tempos idos e de ideias em paragem no cortejo da vida? Não se andará em excesso a encadernar gente, que precisava de sujar mais as mãos e não de as ter limpas de não fazerem nada?

De facto, o recrudescimento de muitas das devoções, nos nossos dias, manifesta uma crise profunda de identidade, tanto de quem as promove, como de tantos outros que nelas se refugiam, tentando salvar a sua ‘alminha’, mas pouco se importando com atanazar os demais com recursos de pouca valorização humana, emocional e espiritual.

Pior: muitas dessas devoções têm de ser alimentadas com proventos económicos nem sempre claros e tão-pouco aceitáveis. Há casos em que pessoas de parcos recursos passam mal só porque se acham na obrigação de corresponderem ao fluxo de ‘convites’, anúncios e produtos perfeitamente escusados para quem queira ser cristão normal e não deseje pertencer a qualquer grupo ou tendência mais ou menos exotérica… em uso. É um abuso e violência da consciência tanta coisa que faz por aí, explorando a ignorância das pessoas de boa fé ou em estado de debilidade não recomendável para não respeitar…condignamente.  

= A Páscoa tem de trazer novas formas de viver a fé, despindo-a de folclores que já não refletem a vivência que certos ritos pretendiam propor. Será numa Páscoa que celebra a Vida e que faz dessa celebração um nexo de compromisso que haveremos de deixar que o lume novo consuma o que de velho há em cada um de nós. Precisamos de nos deixarmos espantar com a novidade da Páscoa de Jesus, deixando os pingarelhos das nossas certezas no túmulo do sepultamento de Jesus. Precisamos de sair homens/mulheres novos pela dinâmica da Páscoa da Ressurreição…

  

António Sílvio Couto

quarta-feira, 17 de abril de 2019

‘Portugal é Lisboa… o resto é (mesmo) paisagem’


Há quem deduza esta frase duma obra de Eça de Queirós. No entanto, do lamento à realidade não estamos tão longe assim, seja lá qual for a área de intervenção, o campo de trabalho ou mesmo o setor de atividade… humana, económica, cultural ou mesmo espiritual/religiosa.

De que adianta os ‘rurais’ protestarem, se na capital se distribui o dinheiro, as promessas, as contas e as prebendas. De que adianta dizerem que isso está a mudar, se vemos que, numa singela decisão para repor os níveis de combustíveis acessíveis ao público, se privilegia Lisboa, a seguir vem o Porto e talvez mais tarde, se sobrar alguma coisinha, o resto da paisagem será contemplado…

Até já os estrangeiros concluíram desta (nossa) enfermidade e dizem que só dez por cento da despesa pública é gasta com a administração local. Podem as universidades da ‘paisagem’ apresentarem níveis de investigação, de qualidade de ensino, de boa relação instrução-emprego, que nada acontece sem o beneplácito lisboeta… agora mais alargado às fronteiras entre Setúbal e Vila Franca de Xira, no circuito de área metropolitana…

A macrocefalia da capital vai amedrontando a ‘paisagem’ e uma certa menorização de quem não faz parte dessa tal elite – política, económica, intelectual, religiosa, social e cultural – estende-se em aval de desconfiança e, por vezes, de subjugação para ainda conseguir recolher algumas migalhas que caiam da mesa dos ricos senhores, que nem sempre são senhores ricos.

Bastará sair desta bolha complexa – às vezes é mais complexada – da área metropolitana da capital para perceber que muitos, que vivem na ‘paisagem’, ainda não se aperceberam do ostracismo a que estão votados. Por estes dias vivi uma dessas experiências ao ter ido participar na celebração do centenário do jornal ‘Diário do Minho’ e não ter visto rastos de qualquer órgão de comunicação social de imagem, fazendo ignorar uma efeméride de realce para a região, a cidade e mesmo a Igreja católica. E não vi qualquer desconforto no ato, por parte dos responsáveis, não tendo sequer percebido se tal aconteceu por opção, por lacuna ou por mera coincidência ou já por hábito em se ver ignorado, sem voz/imagem e, por isso, fora das notícias…dado que aquilo que não se mostra não existiu! 

= Repare-se na ausência de figuras que surjam de fora de tal circuito – por vezes, queiram desculpar, mais parece um circo – onde quem se diverte como público-alvo faz parte do elenco de quem se exibe. Veja-se o campo da política, onde se vai fechando o leque das escolhas nas mesmas famílias – como a história se repete com tanta facilidade! – e se vai arregimentando do mesmo caldo quem há de depois favorecer os que agora governam. Que dizer ainda das opções para lugares de responsabilidade na Igreja católica. Uns promovem os outros para que (quase) tudo continue na mesma e não se façam ondas que destoem da mentalidade reinante. Porque será que algumas dioceses já há vários anos não têm escolhas reconhecidas por quem apresenta os candidatos? Será por inépcia dos responsáveis, por falta de qualidade dos possíveis servidores ou por incapacidade de os fazer valer nas instâncias de decisão? Neste campo em concreto algo vai mal para certos círculos de intervenção, enquanto outros – talvez mais sagazes e habilidosos – estão quase sempre na linha de chegada… Mesmo assim cresce o número dos despromovidos à escala do país e da intervenção reflexiva, teológica e pastoral.  

= Somos um país pequeno em dimensão territorial, mas apequenamo-nos ainda mais quando uns tantos se acham no direito de menosprezar quem não faça parte do seu âmbito de influência, privilegiando mais o clientelismo do que a qualidade, favorecendo mais a partidarite do que a competência, relegando para fora da corrida quem não alinhe na vulgaridade, na superficialidade e, mais recentemente, no nepotismo descarado. Caminhamos a passos largos para meio século da revolução abrilina e os tiques de ditadura só mudaram de cor, pois algumas autarquias estão em ditadura quase há mais tempo do que o regime anterior: todo o resto da população não evoluiu na mentalidade, quando as ideologias que tais suportavam já claudicaram há três décadas!

O mais grave é quando os que vieram da ‘paisagem’ se acomodam à capital e fazem pior do que antes!

 

António Sílvio Couto

Porque não se viu nenhuma TV?


Por ocasião da gala do centenário do jornal ‘Diário do Minho’, no passado dia 15, não vi nem vislumbrei nenhuma câmara de televisão, nem das habituais em atos de tal significado nem as mais pessoais e correntes… como agora se diz, do público fazedor de notícias. E questionei-me: foi esquecimento de quem organizou ou descuido de quem costuma estar presente ao mais pequeno sinal de notícia importante? Tal efeméride não será algo de tão relevante assim nem sequer para os meios de comunicação social da Igreja católica? Terá havido algo que desmereça ser noticiado ou não haverá algo mais neste falhanço, por sinal, transversal a tantos dos meios de comunicação?

Que o facto era considerado importante viu-se pela presença dum número significativo de autarcas dos distritos de Braga e de Viana do Castelo? Que o episódio foi considerado marcante viu-se no elevado número de presenças – ‘convidados’, diga-se – no ato solene e na refeição subsequente. Que não foi um episódio de somenos notou-se pela presença de tantos dos colaboradores (de trabalho e em opinião), onde humildemente me inclui.

Ainda no decorrer da festa/gala dei conta da estranheza aos responsáveis, tanto da arquidiocese como do jornal e ficou-me um amargo de desconsideração para com uma espécie de boicote por parte dos órgãos de comunicação social em massa. Não que se deva achar estranheza nos critérios de notícias em tantas das televisões, pois ali não havia um escândalo nem um acidente e tão pouco um desses filões que agora fazem ganhar leitores/ouvintes/anunciantes, mas tão-somente a comemoração de cem anos de um jornal feito com base na região Norte, no Minho mais precisamente, que procura veicular valores – como foi referido por alguns dos intervenientes – e de inspiração cristã. Será que é esta que se torna nó górdio da compreensão daquilo que não se compreende e, por isso, se contesta, ignorando, silenciando e censurando?

Seja lá qual tenha sido a razão de não ter estado nenhuma televisão a reportar o primeiro centenário do ‘Diário do Minho’, aqui fica a minha honesta, singela e despretensiosa observação, denúncia e quase protesto.

Com um redobrado sentimento de gratidão realço: parabéns, mais uma vez, pelo centenário deste jornal.

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 12 de abril de 2019

No faroeste da pseudomoralidade


Mais uma vez se está a cumprir o ritual: por ocasião da semana santa – Páscoa, surgem na comunicação social ‘factos’, insinuações, episódios, conjeturas, acusações, suspeitas sobre Jesus Cristo – a sua pessoa e o seu mistério – e sobre a Igreja…sobretudo na vertente católica, particularmente dos seus ministros, seja qual for a instância, serviço ou ministério.

Por outro lado, recorrentemente vemos aparecerem no espetro nacional (e não só), uns certos caçadores de prémios – qual faroeste da (dita) sociedade ocidental – a reclamarem prémios de terem descoberto prevaricadores duma tal moralidade que os denunciantes nem praticam. Por agora emergiu uma tal publicação on-line a farejar temas que possam dar-lhe protagonismo sem terem de investir na impressão das suas impressões – que, por vezes, mais parecem imprecisões – com larga difusão dos seus ímpetos pagos a bom preço. Os cartazes com ‘procura-se’ já não são afixados nas paredes dos cafés ou nos lugares de divulgação, mas surgem nas páginas da internet, nos rascunhos do facebook ou mesmo nas partilhas das redes sociais… Aí se pode ver e dizer de quase tudo, desde que o denunciante se esconda sob um anonimato cobarde ou camuflado de anti-herói sem caráter… Isto já para não falar das denúncias anónimas de ressabiados por não conseguirem atingir os patamares dos acusados, julgados e condenados na praça pública sem culpa formada nem qualquer julgamento…   

= Paremos aqui diante desta campanha de moralismo sem ética. Vejamos como funcionam os mecanismos de conquista e as delongas de insinuação. Comparemos atitudes de setores e, com verdade, cuidemos de analisar aquilo que faz correr tanta gente…em ziguezague para não ser atingida com as avaliações mais exigentes, atentas e sensatas.

Desde há alguns anos a esta parte a Igreja católica, na pessoa dos três últimos papas, tem vindo a reconhecer erros, lacunas e pecados, dos quais tem vindo a pedir perdão – quantas vezes o fez o Papa João, antes e depois do jubileu do ano 2000 – a reconhecer as suas falhas e faltas, denunciando, de forma ousada, os prevaricadores, e afastando mesmo os que podem ter feito escândalo…

Alguma instituição fez isto como a Igreja católica, tanto ao nível universal como em cada país. As forças armadas fizeram o seu ‘mea culpa’ por haver quem tenha cometido infrações nas suas fileiras? As polícias alguma vez se retratam das atrocidades praticadas, tanto contra indefesos como para com criminosos? Na política vimos alguém reconhecer os seus abusos e manipulações? Ou, pelo contrário, casos há em que ascenderam aos mais altos cargos da nação de forma promotoria da lavagem por conluios e favorecimentos ignóbeis? No setor do ensino não há nada a modificar? No âmbito da saúde – onde se jogam tantos interesses e lóbis – está tudo acalmado? Nas categorias dos vários desportos, nunca houve atrocidades nem incorreções?  

= Quem está posto em causa em tantos destes episódios colocados a preceito nas redes sociais e na comunicação social mais tradicional? A quem se pretende atingir de forma astuciosa e ardilosa?

Não tenhamos medo de falar do que se quer criticar, afundar e destruir: a família… é esta a entidade que incomoda tanta gente vendedeira duma certa ética mais ou menos republicana, agnóstica e, tendencialmente, anticristã. À família estão ligados tantos dos aspetos que querem combater, de forma mais ou menos assumida.

Se para atingir tais fins for preciso difamar e inventar, ridicularizar ou atraiçoar, subverter e ideologizar, manipular ou mentir…tudo servirá, desde que os feitos sejam sorvidos a conta-gotas para que o veneno seja assimilado tão rapidamente e não rejeitado. Os caçadores de prémios andam por aí e com facilidade podem acrescentar mais presas, desde que andemos em sonolência de boa vontade narcotizada pelas modas de cada tempo e nos mais diversos lugares. Sem entrarmos na caça-às-bruxas, temos de as denunciar, mais pelo que escondem do que pelos aspetos que apresentam. Urge fazer cair a máscara a tantos/as que se apresentam como moralizadores, mas que não passam de juízes em causa própria e beneficiados da conivência de outros, igualmente réus e fazedores de vítimas!

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 9 de abril de 2019

Como ‘ser a voz dos sem voz’, hoje?


Está prestes a completar cem anos de existência, o jornal ‘Diário do Minho’, com sede em Braga.

Para além de se dizer, no estatuto de editorial, que é um jornal de ‘informação geral, de expansão regional e de inspiração cristã’, apresenta-se como ‘a voz dos sem voz’, não privilegiando ‘interesses particulares’ nem ninguém, rejeitando os totalitarismos (de direita ou de esquerda), mas estando ‘ao serviço de todo o homem e do homem todo’, construindo ‘uma sociedade cada vez mais justa e mais fraterna’ e opondo-se, pelos seus princípios, a ‘tudo quanto se opõe à vida humana’.

As circunstâncias do seu surgimento, 1919, eram assaz conturbadas…tanto dentro como fora das fronteiras. Em Portugal recuperava-se do assassínio de Sidónio Pais, lutava-se contra a gripe pneumónica…que vitimou, nalgumas regiões, dez por cento da população, num total de 60 mil do nosso país. Na esfera internacional davam-se passos para a consolidação da paz, no final da primeira guerra mundial, com o ‘tratado de Versallhes’. Ao nível da Igreja católica era Papa, Bento XV, que, em novembro desse ano, escreveu, entre outros documentos, a carta apostólica ‘Maximum illud’ sobre a atividade desenvolvida pelos missionários no mundo. Ao tempo era arcebispo de Braga, D. Manuel Vieira de Matos, considerado um grande resistente à lei da separação na primeira república…e introdutor no escutismo no nosso país.

Feito este enquadramento histórico-social-eclesial talvez possa ser útil reporta-nos a algumas das linhas daquele diário de inspiração cristã.

* Rejeitando interesses particulares e totalitários

Este jornal sobreviveu a três repúblicas – a primeira em cujo contexto surgiu; a segunda sob a tutela salazarista; a terceira – pós revolucionária…em vias da pretensa democracia. Uma obra não se mede pela popularidade conseguida, mas pela atitude de caminhar rumo à meta, fazendo das etapas, isso mesmo, degraus que fazem crescer e não os meros lucros a que se deixa enfeudar sem saída… 

* Em defesa da vida

Neste aspeto o jornal define, no seu estatuto de editorial, quais são os campos em que se compromete a lutar pela vida: na sua expressão mais simples e direta – ‘homicídio, genocídio, pena de morte, aborto, eutanásia e suicídio voluntário’; naquilo que pode ser entendido como ofensa indireta – ‘tudo o que viola a integridade da pessoa humana, como as mutilações, os tormentos corporais e mentais e as tentativas para violentar as próprias consciências’; os aspetos atinentes à dignidade humana – ‘tudo quanto ofende a dignidade da pessoa, como as condições de vida infra-humanas, as prisões arbitrárias, as deportações, a escravidão, a prostituição, o tráfico de mulheres e jovens’; e ainda as vertentes sócio-laborais – ‘as condições degradantes de trabalho, em que os operários são tratados como meros instrumentos de lucro e não como pessoas livres e responsáveis’.

De quantas formas este diário tem denunciado, anunciado e proposto este valor inquestionável da vida humana. Em certos momentos – sobretudo na fase dita da democracia – houve tensões, provocações e momentos em que os valores cristãos foram atacados, ofendidos e menosprezados, mas o bom senso e a correção voltaram a fazer caminho… Uns exemplares a menos vendidos não valem a subversão do essencial!   

* Ser a voz dos sem voz

Parece-me que este aspeto continua a ser um dos mais relevantes da linha editorial, Com efeito, quando tantos se querem fazer ouvir, pelas mais díspares (nalguns casos disparatadas) formas, ser a ‘voz dos sem voz’ é (e continua a ser) um objetivo cada vez mais audaz, pertinente e urgente.

Nem todas as notícias dadas são as mais importantes, algumas ignoradas deviam ter espaço, comentário e análise. Quando tantos se acham no direito de fazerem parte das notícias, será essencial que os profissionais não se demitam nem usem de menos boa conduta, só porque uns tantos se colocam em bicos de pés sem outra intenção de serem figurantes de um episódio de classe inferior…até nas coisas da Igreja.

‘Os sem voz’ precisam de ser atendidos, acolhidos e apresentados na chamada à primeira página, pois eles são o reflexo dos anónimos, dos votantes, dos cidadãos, dos crentes…com dignidade de filhos de Deus!

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Haverá (ou não) riscos de islamização da Europa?


Talvez seja uma inquietação dos europeus: já não corrermos o risco de vir a ser criado o ‘grande califado’, como ameaçou o autodenominado ‘estado islâmico’? Com as nossas teorias de abertura e boa convivência, estamos a salvo de tais pretensões de muçulmanos mais exagerados ou fundamentalistas? Por quanto tempo poderemos usufruir da possibilidade de viver festas religiosas cristãs/católicas com a indiferença religiosa crescente deste mundo ocidental? Tanto quanto é percetível entender os ditos valores da democracia não correm perigo, se continuarmos a dormir e a amolecer na vigilância sociocultural?
Quem não se recorda dos tumultos, por vezes graves, que ocorreram após a intervenção do Papa Bento XVI, na universidade de Ratibona, em agosto de 2005? Quem esteve interessado em esticar as más interpretações daquilo que foi dito, de facto e não tirado do contexto do discurso? Até que ponto os muçulmanos são tão ‘intocáveis’ e fazem temer o (dito) ‘mundo ocidental’?
Entretanto, as mais recentes viagens do Papa Francisco a países de incidência muçulmana têm algum significado nesta abordagem à possível islamização da Europa? Como poderemos interpretar factos, palavras, sinais e atitudes do Papa nesta leitura sobre a (possível) islamização da Europa?
Na exortação apostólica ‘Evangelii gaudium’ (Alegria do Evangelho) sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual, o Papa Francisco refere-se ao diálogo dos católicos com o islão – n.os 250-254 – dos quais vamos respigar algumas ideias.
* Partindo de ‘uma abertura à verdade’ para que possa haver diálogo inter-religioso, o Papa considera que ‘este diálogo inter-religioso é uma condição necessária para a paz no mundo e, por conseguinte, é um dever para os cristãos e também para outras comunidades religiosas… Um diálogo, no qual se procurem a paz e a justiça social, é em si mesmo, para além do aspeto meramente pragmático, um compromisso ético que cria novas condições sociais’ (n.º 250).
* Uma condição essencial a ter em conta, nesta tarefa do diálogo inter-religioso, é cada um ser o que é e saber respeitar o outro na sua identidade. Segundo o Papa, ‘nunca se deve descuidar o vínculo essencial entre diálogo e anúncio, que leva a Igreja a manter e intensificar as relações com os não-cristãos… A verdadeira abertura implica conservar-se firme nas próprias convicções mais profundas, com uma identidade clara e feliz, mas «disponível para compreender as do outro» e «sabendo que o diálogo pode enriquecer a ambos»…Longe de se contraporem, a evangelização e o diálogo inter-religioso apoiam-se e alimentam-se reciprocamente’ (n.º 251).
* Fazendo um breve enquadramento da presença dos muçulmanos em muitos países de tradição cristã, onde eles têm liberdade de culto – coisa que os cristãos/católicos não têm nos países de cultura islâmica – e muitos deles estão integrados na sociedade, o Papa tenta encontrar pontos de convergência com a fé do islão (n.º 252), traçando depois linhas de condutas. De entre essas linhas, o Papa Francisco refere-se à ‘adequada formação dos interlocutores, não só para que estejam sólida e jubilosamente radicados na sua identidade, mas também para que sejam capazes de reconhecer os valores dos outros, compreender as preocupações que subjazem às suas reivindicações e fazer aparecer as convicções comuns’ (n.º 253). De entre os diversos riscos, o Papa salienta o do fundamentalismo violento, auspiciando que haja bom acolhimento aos cristãos nos países de expressão muçulmana.
Talvez precisemos de não confundir os contatos e as boas intenções dos responsáveis, mas na vertente popular nem sempre será tudo tão arejado como se apresenta quando a liberdade religiosa é (ou não) respeitada! Ainda falta uma purificação da memória de tantos séculos de acusações e de desconfianças! Será preciso respeitar o sangue de milhares (ou talvez de milhões) de mártires cristãos (católicos e/ou protestantes) ainda hoje feitos em tantos dos países muçulmanos!
Ao Ocidente insípido, anódino ou agnóstico isto diz alguma coisa ou provocará mais desdém pelo fenómeno religioso, tenha a expressão que tiver? Os nossos antepassados merecem mais respeito!

Em tempo de quase-semana santa poderá ser útil não esquecer os milhões de cristãos – das várias denominações e nos diversas latitudes, a começar pela Terra Santa – que não têm condições mínimas para celebrar com dignidade a sua fé em Cristo Jesus!

 

António Sílvio Couto

sábado, 6 de abril de 2019

Da ataraxia estoica…à paixão silenciosa de Cristo


Por estes dias ouvi alguém que, referindo-se ao seu estado de saúde, dizia que não estava habituado a queixar-se… até porque estamos em tempo de Quaresma.

A capacidade de não-inquietude dos estoicos deixou alguns resquícios na forma como nos foi transmitida uma certa dose de tranquilidade de ânimo ou a ausência de inquietude na paixão de Cristo através dos Evangelhos: o longo, profundo e interrogativo silêncio de Jesus em todo o processo a que foi submetido como foi apresentado aos seus discípulos para quando estivessem em maré de perseguição, de provação ou mesmo de confronto consigo mesmos e/ou com o exterior.  

= Sem querer abusar dos três sinais que caraterizam o nosso tempo – aspirina, micro-ondas e fraldas descartáveis – percebe-se como se torna difícil não reagir ao mais pequeno contratempo e ao constrangimento dos nossos prazeres. Com efeito, a ‘apatia’, que fundamentava o processo de ataraxia dos estoicos, está contraditado ao mais ínfimo pormenor pessoal, social e mesmo cultural. Nada nem ninguém pode afetar a nossa ‘felicidade’, muitas vezes feita de casmurrices se não mesmo de vícios e má-educação.

Quem ousa apresentar a fé cristã onde se contenha pinceladas de sacrifício? Quem tenta referir a dimensão sacrificial da missa, se sentir indícios de comichão no assento dos ouvintes/praticantes? Quem não tenta ‘inovar’ na via-sacra para que esta não nos confronte com os sofrimentos (físicos, psicológicos e morais) de Jesus? Quem não dará voltas à imaginação para que não afugente o resto dos praticantes, se lhes falarmos da entrega dos nossos sacrifícios em vez das reivindicações habituais?

Estas e outras questões se podem levantar quando nos aproximamos da vivência da ‘semana santa’, onde meditamos o mistério pascal da paixão-morte-ressurreição de Cristo. Ele, que tanto sofreu por nós e em cujas chagas fomos curados, continua a ser uma provocação ao nosso melaço de vida, onde nem os mínimos sacrifícios enquadramos nesse Seu mistério de entrega por nós e pela nossa salvação. 

= Escutemos a voz do magistério sobre o modo como devemos conduzir-nos neste tempo, que não é pior do que outros momentos do passado. Temos, sim, de saber compreender os sinais de Deus para connosco.

«É salutar recordar-se dos primeiros cri­stãos e de tantos irmãos ao longo da história que se mantiveram transbordantes de alegria, cheios de coragem, incansáveis no anúncio e capazes de uma grande resistência activa. Há quem se console, dizendo que hoje é mais difícil; temos, porém,de reconhecer que o contexto do Império Romano não era favorável ao anúncio do Evangelho, nem à luta pela justiça, nem à defesa da dignidade humana. Em cada momento da história, estão presentes a fraqueza humana, a busca doentia de si mesmo, a comodidade egoísta e, enfim, a concupiscência que nos ameaça a todos. Isto está sempre presente, sob uma roupagem ou outra; deriva mais da limitação humana que das circunstâncias. Por isso, não digamos que hoje é mais difícil; é diferente. Em vez disso, aprendamos com os Santos que nos precederam e enfrentaram as dificuldades próprias do seu tempo. Com esta finalidade, proponho-vos que nos detenhamos a recuperar algumas motivações que nos ajudem a imitá-los nos nossos dias» - Papa Francisco, ‘Alegria do Evangelho’, n.º 263.

À luz do silêncio de Jesus, na sua paixão, poderemos aprender também nós o modo como Ele nos conduz, verdadeiramente! Não haverá, por aí, muito desperdício de sofrimento que poderia ser redentor e salvador? Não teremos de viver esta continuada entrega de tudo e de quanto nos faz sofre para que haja abertura à graça divina de tantos que precisam de intercessão?

Olhemos a cruz vazia e ofereçamo-nos com Jesus. Adoremos o Senhor que jamais passará pela cruz. Contemplemos a irradiação do Céu, quando soletramos a jaculatória: ‘nós Vos adoramos e bendizemos, ó Jesus, que pela vossa santa cruz remistes o mundo’… ontem, hoje e por toda a eternidade!

A cruz não esmaga, pelo contrário, levanta e eleva! A quietude estoica paralisa e embaraça. A cruz é sinal de caminhada, os exoterismos estoicos fazem mergulhar no narcisismo…

Os estoicos serenam-se, os cristãos incomodam-se para que outros acolham a salvação trazida por Jesus. O resto poderá ser pietismo barato ou devocionismo de circunstância. Deixemos entrar Jesus, serenamente!

 

António Sílvio Couto