Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Distribuindo o livrinho…

 


Teve algum sinal de revivalismo vermos um candidato às eleições presidenciais andar a distribuir livrinhos – tão pequenos e de bolso, quanto desejável de larga mensagem e talvez de expansão – nas sessões de propaganda… De cartilha/catecismo alçado para não deixar fugir tanto daquilo que escapa ao mínimo denominador comum.

Quem não se lembrará de idêntica atitude de outros ‘educadores’ do povo: Mao Tsé-Tung, Che Guevara, Fidel Castro, Hugo Chavez… catequizadores de um livro só…por acaso todos mentores de ideologia ou de ‘religião’ social uniformizada.

O ‘nosso’ mentor/educador/ideólogo distribuía exemplares da Constituição da República Portuguesa, não se sabendo qual a versão, se a inicial de 1976 – ultra-ideologizada – se alguma das outras oito revisões ‘corrigidas’, simplificadas ou mais limpas do teor dialeto-marxista…que quem o apoia nunca aprovou!

Quem terá já lido – sem ser para prestar provas ou por necessidade de consulta ocasional – toda a dita Constituição? Nela podemos ver, encontrar e compreender diversas camadas de mentalização coletivista, que nela desejaram verter os mais ‘avançados’ projetos…porque se adiantaram aos menos politizados. Por isso, vir de Constituição em punho como que me soa a um novo processo revolucionário em curso recauchutado. Para esse peditório já demos há muito tempo…

= No contexto europeu e até do mundo ocidental o caso português é de digno de ser estudado. O que explica um certo recrudescimento de teorias marxistas – e até trotskistas – na nossa sociedade? Quando, em tantos países, as fações dialético-marxistas hibernaram, por cá pareceram reflorescer dumas cinzas alimentadas com luta e ignorância? Em certas culturas emergiram tentáculos com nova tonalidade, por cá renasceram conjunturas que fizeram questionar – na minha leitura e/ou confusão – alguma da nossa sanidade política. Não haverá, entre nós, uma certa sobranceria de algumas forças que gostam de ganhar na rua o que não conseguem nos votos? Repare-se nos resultados das eleições autárquicas – há casos de vitórias com maioria, onde não se pronunciou sequer um terço dos inscritos. Legitimidade têm, mas credibilidade apresentarão? Com tantas autarquias-empresa, não se verifica uma ditadura de quem prende os trabalhadores pela boca, isto é, porque te pago, votas em mim ou podes perder o emprego? A quem interessa manter este ‘status quo’, de reinar sobre as condicionantes dos mais frágeis da sociedade? Não seria preferível dar ferramentas para as pessoas pensarem e decidirem por si mesmas do que ‘obrigá-las’ a estarem caladas por medo de serem elas mesmas à custa da grandeza de uns tantos manipuladores (ditos) democratas? O melhor democracia não escolherem o que nós queremos, mas saber decidir pelo que é mais importante para todos… Muito pior do que os democratas de papel são os democratas de cordel!

 = Para quem já fez a cobertura de alguma campanha e de eleições presidenciais – fi-lo em 1986 entre Mário Soares e Freitas do Amaral…na maior crispação jamais verificada em Portugal – o tipo de refrega destes dias soa a quase-brincadeira de jardim-de-infância em maré de fim-de-ano…pois as ofensas só atingem quem delas se deixa melindrar e os ataques, na maior parte das vezes, servem para encobrir a falta de ideias e, sobretudo, os argumentos de quem, mais do que ganhar, deseja não-perder…por muitos.

Desgraçado país e tão enferma nação, que se deixa cativar por quão maus concorrentes e, particularmente, por representantes de baixa índole e mais infetada proposição para o nosso futuro.

- Não será de livrinho em punho que criaremos riqueza nem sequer competição, pois quem se cristalizou naquela fase da Constituição pouco terá a dar, hoje.

- Não será de livrinho em destaque que iremos convencer quem quer que seja para vir investir num país onde quem deseja ser empresário é combatido por forças que só desfazem e destroem…a iniciativa privada.

- Não será de livrinho em consulta que iremos fascinar os minimamente ousados em criar emprego, pois se podem tornar, na curva seguinte, inimigos da ‘classe trabalhadora’…    

    

António Sílvio Couto

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Densas sombras e ténues luzes

 


O paradoxal momento que estamos a viver desta pandemia pode – ou será que deve? – provocar em nós (pessoal, familiar ou socialmente) uma leitura de contrastes: densas e profundas sombras/trevas cobrem o nosso ‘eu’ coletivo, enquanto ténues e frágeis luzes parecem despontar…

Numa quase ousadia, cito um documento da Igreja católica de meados do século passado, mudando a tónica para a enquadrar nas emoções dos nossos dias: «as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao género humano e à sua história» (Vaticano II, Constituição pastoral ‘Gaudium et spes’ sobre a Igreja no mundo atual, n.º 1).

Retiramos no documento citado as referências às ‘alegrias e esperanças’ e deixamos dele a alusão às ‘tristezas e angústias’ deste tempo de provação que estamos a viver…com razoável intensidade. De facto, esta comunhão nas angústias e nas tristezas é, hoje, maior do que nunca. Vejamos, então, algumas sombras, tentando ainda descortinar possíveis luzes de esperança.

 * Sinais de densas trevas/sombras: temos no nosso país mais de dez mil infetados por dia de ‘covid-19’, centena e meia de mortos/média diária na última semana; somos o país do mundo com mais mortos por cem mil habitantes; temos o sistema de saúde em colapso… Os profissionais de saúde estão exaustos, os hospitais saturados…já não se pode estar doente (seja de que maleita for) nem ter qualquer acidente, a capacidade de absorção entrou em rutura… Nos lares de idosos rebentou a bolha – onde ela ainda existia – e utentes, funcionários e outros colaboradores estão infetados, em risco ou assintomáticos, criando um ambiente de suspeita, de medo ou mesmo de ansiedade… Pela segunda vez, desde março passado, o país foi colocado em ‘estado de confinamento’ – embora se notem bastante pouco os efeitos, as atitudes e nos comportamentos – social, económico e sanitário… As exceções – mais de cinquenta – permitem que uma boa parte da população tente tornear os constrangimentos, colocando, no entanto, tudo e todos em risco, senão mesmo em perigo crescente e descontrolado… À boleia da pretensa ‘atividade política’ – em tempo daquilo que desejavam que fosse a tal companha eleitoral – vemos as maiores tropelias, os erros agravados e até as insinuações sobre os outros, sem repararem antes nos seus…

Quando vamos parar para aceitarmos que caminhamos para o atoleiro sem regresso? Para quando vermos responsabilidade em cumprir e fazer respeitar os outros, sem andarmo-nos a ludibriar capciosamente?

Dizem e com razão: quem viveu na pele ou naqueles que lhe são próximos os efeitos deste fatídico vírus, que as pessoas mudam. Não poderemos aprender sem precisarmos de sentir as consequências das nossas más ou negligentes opções?

 * Ténues luzes de esperança – num tempo quase recorde surgiram diversas vacinas…depois de alguma incerteza sobre as etapas, as prioridades ou mesmo as quantidades disponíveis, já se começam a vislumbrar alguns efeitos da vacinação…com três semanas de processo dá a impressão que ténues luzes se acendem, no horizonte ou ao fundo do tal túnel. Os múltiplos cuidados recomendados deveriam ser mais bem aceites e/ou assumidos. Se em muitos casos tem havido excesso nas exigências, noutros é fundamental que as pessoas se não sintam tão invulneráveis, pois um leve sopro – o termo é literal – ou descuido poder-nos-á ser fatal.

Em todo isto – já decorreram dez longos e penosos meses – tenho sentido muito pouca referência a Deus. Noutras épocas sentir-se-ia isto como um castigo divino. Agora qual a razão para não colocarmos a dimensão divina, que nos veio (vem) corrigir e até unir na fragilização? Não será que a nossa prosápia humanista não nos deixa ver a humilhação humanitária? Não somos donos de nada, tão pouco de ninguém e nem de nós mesmos.

Rezamos neste domingo: ‘concedei a paz aos nossos dias’… Que paz? Dada por Quem? Em quantos dias?     

 

António Sílvio Couto

sábado, 16 de janeiro de 2021

Bâton vermelho…sob a máscara

 


Quando o uso da máscara uniformizava e favorecia tanta gente da nossa praça, eis que foi introduzido um tema algo esquizofrénico, tanto na forma como no conteúdo: o bâton vermelho.

Efetivamente o uso da máscara como que tornou tantas pessoas menos feias, pois as feições escondidas, de algum modo fizeram com que não se visse o que destoava, inclusive fez com que certos adornos – essencialmente – femininos não precisassem de ser cuidados, poupando tempo e dinheiro. Por isso, uma tirada – dizem que foi algo ofensiva – de um candidato presidencial sobre uma outra concorrente fez com que a máscara caísse e o tal bâton vermelho emergisse como fator de tema político-cultural.

 - As reações ao ‘caso’ tornou-se um fenómeno de e nas redes sociais e vimos tanta gente que devia ter juízo – tem idade, devia ter perfil, dado o lugar que ocupa e as pretensões que auferem – a sair do armário da inconveniência, tornando o episódio um facto político de relevo. Triste país que em enguiça com expressões inflamadas e inoportunas de campanha eleitoral… Quem as não tem? Pobre nação que se rege por estes mentores de segunda, que não passarão de figurantes da história em rodapé. Miserável estado que patrocina tais intervenientes…pois os votos que auferirem serão bastante bem pagos…se tiverem cinco por cento dos votos expressos!

 - Dirá alguém com o mínimo de senso: os dois intérpretes merecem-se. O pior de tudo isto são os alardes proferidos, as conjeturas pronunciadas e mesmo os ódios latentes espoletados.

Fique claro: do pronunciador não comungo da maior parte das ideias, tão pouco das invetivas da pronunciada, mas sobretudo fico preocupado com a baixeza – de nível e de categoria – intelectual da maioria dos contendores. Se é deste modo que querem um futuro saudável para o nosso país, então, mais vale fechar para saldos e venha construir quem seja capaz de saber mandar e de ser obedecido. Não será uma revelação de falta de ideias, este ‘fait divers’ de faz-de-conta à portuguesa? Ou será esta uma forma de recriarem, na rua, uma nova forma de revista comediante?

 - Que razão há para tais quezílias, se estamos num estado de pandemia catastrófico? Os milhares de mortos e de infetados, as centenas de internados e de confinados não merecem mais respeito e consideração? Quem cuida da nossa saúde merecerá ser exposto e explorado como alguns têm pretendido?

Por favor coloquem corretamente as máscaras e deixem-se de brincadeiras quase-infantis, pois o ‘show must go on’!

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Está a caducar!

 


Escutei, de repente, esta frase-chavão num diálogo de telenovela: está a caducar!... numa explicação sobre o interlocutor, que estaria a dizer coisas que não batiam bem com aquilo que era mais acertado, ao momento e muito menos à conveniência.

‘Caducar’ poderá ser uma forma verbal que nos vem do substantivo ‘caduco’ – ‘caducus’, ‘que cai’ – podendo significar ‘cair de velho e falho de forças’, ‘ir acabar, declinar’, ‘ser anulado’, ‘deixar de estar em vigor’, ‘prescrever’, ‘terminar o prazo de validade’, ‘tornar-se, mentalmente, perturbado por efeito do envelhecimento’…

Vejamos situações/sinais/resultados deste efeito tão visível, quão manifestável em consequências:

 * Está a caducar – é isso que me ocorre referir ao ouvir tantas das intervenções dos ‘nossos’ concorrentes às próximas eleições presidenciais. Refiro-me às ‘intervenções’ também de muitos dos (pretensos) apoiantes. Com efeito, certos argumentos – feitos de casos e casinhos, de episódios e façanhas, de tiradas e declarações – estão fora do tempo e, sobretudo, desarticulados no desenrolar da história: o guião foi um tanto mal escrito e a suscitada correção foi pior do que o original. Desenterrar ‘coisas’ do passado resolverá problemas do futuro? Não estará a caducar quem, contestando tanto a União Europeia, dela se serve – temos dois candidatos nas presidenciais – e aufere aí bons proveitos? Não será indício de pré-caducação esse de propor a ilegalização infetada de partidos, quando o que se deveria era combater as ideias, sem respaldo de constitucionalidades prévias?   

* Está a caducar – eis como interpreto o descalabro da nossa frágil e insignificante economia, feita mais de subsídios do que de investimentos. Não será caduco querer intentar soluções no século XXI que faliram já no século XIX? A ideologia dialético-marxista, que fez mergulhar na desgraça tantos povos e culturas, como poderá servir de aliciante na atualidade? A caduca ‘luta de classes’ não serviu para aprenderem que as ‘classes’ só servem para favorecer oportunistas e camuflados de democratas, hoje como ontem? Não será sintoma de quase-caducação esse desejo de querer acabar com os ricos em vez de combater, de facto, os pobres nas suas mais variadas, sensíveis e ignoradas manifestações?

 * Está a caducar – serve-me de ponto de referência para certas discussões verbais em temas desportivos, na medida em que se gasta tanto tempo a deslindar conjeturas, quando os participantes nunca foram árbitros de nada, nem dos seus fantasmas trazidos à luz da incompetência. O futebol falado é algo atroz na complexidade dos fenómenos sociais mais vulgares. Quantas horas em discussão e o problema foi resolvido com singelas palavras de conciliação! Certos figurões ainda não perceberam que, nos botões do comando televisivo, há um com que se faz zapping e deixámo-los, caducamente, a vociferar para o boneco…

 * Está a caducar – poderia ser uma razoável pista de leitura para justificar algumas das atitudes, das vivências e das desculpas na prática religiosa, tanto cristã/católica, como de outra qualquer expressão de fé. De facto, há trejeitos religiosos que não passam de artefactos de antanho – rituais, rotineiros ou quase-humanos – mas que deixam algo a desejar sobre as implicações da fé na vida e mesmo no compromisso sociopolítico. É fundamental e simples ver, crer e viver, dando testemunho em cada dia. Não podemos deixar que a nossa fé seja confinada aos desígnios humanos simplórios e fundamentalistas. Por onde anda, então, a ousadia da fé e a audácia da confiança? Bastará quedar-nos pelas exceções para nos empenharmos, efetiva e afetivamente, nas soluções?  

 * Está a caducar essa época onde os valores tinham significado e os princípios marcavam a vida de todos. Seremos, então, capazes de não deixar crescer a decrepitude, mesmo que os eflúvios do ‘covid-19’ possam turbar tantas mentes? Por onde têm andado os ‘intelectuais’ da nossa praça, quando os resultados da pandemia nos obrigam a entrar num novo confinamento, mais duro e complexo? Os sabedores da matéria, afinal, não parecerão mais charlatães do que peritos convictos, claros e convincentes? Estarei, afinal, a caducar?

 

António Sílvio Couto


terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Fado – fenómeno artístico de onde?


 Com o desaparecimento recente de mais um fadista de renome e a apresentação de peças de fado no concerto de abertura da presidência portuguesa semestral da UE, senti que poderia dar algum espaço à reflexão sobre o tema do fado.

Desde logo uma breve referência ao título deste texto: a palavra ‘fado’ explicitada no resto da frase, usando as palavras como iniciais do termo – fenómeno artístico de onde…com a interrogação. São estes vários itens que iremos tentar abordar.

Qual a origem da palavra ‘fado’? Há quem a considere como proveniente do latim – ‘fatum’, destino; outros consideram que poderá ainda ter origem na palavra escandinava ‘fata’, que significaria ‘vestir’ numa alusão ao termo francês ‘fatiste’, poeta… Diversas procedências para tentar falar de uma forma de – ‘fenómeno’ como se diz no título deste texto – exprimir algo com (possível) dimensão ‘artística’…segundo uma roupagem mais ou menos poética!

 = Numa espécie de historização do fado poder-se-á dizer que este teve início por volta de 1840, nas ruas de Lisboa, um tanto ligado às lides marítimas, sendo o ‘fado do marinheiro’ como que o protótipo de quantos vieram depois dele…sem esquecer o ambiente das tabernas e outros espaços de diversão, na maior parte dos casos, noturna. Associado a este ‘género’ musical – onde a guitarra se destaca – apareceram os fadistas com um traje e linguajar próprio…pouco convencional e um tanto quezilento. Foi, sobretudo na primeira metade do século vinte, que o fado foi adquirindo uma forma caraterística, com a rádio, o teatro e o cinema a fazerem dele promoção como cantiga para o grande público, surgindo a figura do fadista como artista. Das ruas e vielas, o fado passou a ter espaço em lugares apropriados – as casas de fado – com adereços que o farão algo mais reconhecido como canção muito típica da capital…estendendo a sua influência à volta. Os fadistas trajam de negro, como que se fossem reflexo do ambiente da noite, com temas de sabor assaz sentimental, à mistura com o sofrimento, a saudade, a desgraça…com críticas à sociedade e algum toque de melancolia… Não podemos esquecer o regime que vigorava no nosso país: os temas, as letras e tudo o resto estava sob a alçada da censura, ficando fora da temática o que falasse de problemas sociais ou políticos…

Não fazemos, propositadamente, uma lista de fadistas, mas poderemos, mesmo assim, destacar Amália Rodrigues, expoente no campo internacional do fado, tendo ela – e outros na sua senda – cantado letras de autores da nossa literatura e, desta forma, tentando subverter o controlo do regime. Em certos meios ‘artísticos’ – mais contestatários e politizados – isso terá contribuído para conotar um tanto fado com o regime então em vigor… Aliás o ‘fado’ teria feito como que parte do tríptico sustentador do regime – Fátima-futebol-fado…

Para além do fado com base em Lisboa – nos seus arredores há uma nítida veneração e imitação daquele estilo de cantar, de tocar e de interpretar – podemos encontrar o fado de Coimbra, mais ao jeito trovadoresco, continua a ser cantado e tocado só por homens e com o traje académico. Vivido nas ruas – repare-se no aspeto de serenata – tem os seus instrumentos ‘afinados’ pelas intenções da sua conceção e interpretação. Foi mais no seio do fado de Coimbra que apareceu alguma contestação ao regime anterior ao 25 de abril, tanto nas letras como nos seus cantores…

 = Será, então, o fado um nicho de arte mais lisboeta do que do resto do país? O reconhecimento do fado como ‘património imaterial da Humanidade’, em 2011, fez dele, de verdade, uma canção nacional? Não andará subentendido no resto do país que o fado tem sido uma colonização da capital a tudo e a todos? À semelhança das marchas-populares, não andaremos a imitar uma certa ‘cultura’ de regime exportado da capital? Perante outros fenómenos artísticos/musicais – veja-se o cante alentejano, os diversos folclores ou as bandas musicais – não será exagerado fazer do fado a expressão da música portuguesa com maior incidência popular? Mesmo que de forma incipiente e quase lateral, o fado não tem tido expressão musical na liturgia católica. Não seria de o ‘cristianizar’ mais clara e assumidamente, envolvendo-o nas expressões de fé, ao menos onde tem algum significado popular e ‘culto’?    

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Diretrizes para a proteção de menores e adultos vulneráveis

 


Com data de meados de novembro, mas tornada publica no dia um de janeiro, a Conferência Episcopal Portuguesa apresentou as diretrizes sobre a ‘Proteção de menores e adultos vulneráveis’.

O documento, num total de trinta pontos, tem: uma introdução (n. os 1 a 5); os princípios inspiradores (n. os 6 a 8); âmbito de aplicação (n. os 9 a 10); a formação dos candidatos ao ministério ordenado e à vida consagrada (n. os 11 a 12); agentes pastorais (n. os 13 a 15); atividades pastorais (n. os 16 a 22); comissões diocesanas (n. os 23 a 25); prevenção de casos de abuso (n. os 26 a 27); tratamento de casos de abuso sexual de menores e adultos vulneráveis (n. os 28 a 29); promulgação (n.º 30).

«Os Bispos portugueses desejam reiterar um renovado compromisso de fazer tudo o que esteja ao seu alcance para que os fiéis, a começar pelas crianças, adolescentes, jovens e pelos mais vulneráveis, possam encontrar na Igreja um ambiente sadio e seguro, onde o encontro com Deus, com a sua Palavra e com a sua presença viva e real na Eucaristia possam transmitir a sua graça e beleza sem quaisquer obstáculos» (n.º 3).

Traçado, de algum modo, o objetivo-geral deste documento da CEP podemos esmiuçar alguns aspetos nele contidos.

- Desde logo estas diretrizes «pretendem ser um instrumento à disposição da Igreja em Portugal para a aplicação das normas pastorais e jurídicas publicadas desde 2012» (n.º 4). Efetivamente a década decorrente entre 2010 e 2020 foram um trazer à luz do dia de tantos dos tristes casos de ‘abuso sexual de menores’. Isto foi de tal ordem que, de alguma forma, levou Bento XVI a resignar em 2013, alquebrado pelo peso de tantas situações em diversas partes do alcance católico!

- Quais os princípios inspiradores do combate a esta ‘chaga fétida’ na Igreja? Condenando a «abominável realidade do abuso sexual de menores e de adultos vulneráveis, e as terríveis consequências que esta realidade teve e continua a ter na vida das vítimas desses abusos» (n.º 6), faz-se um apelo ao testemunho de vida de quantos «exercem alguma função ou prestam a sua colaboração» na Igreja, por forma a serem promovidas «condutas que assegurem a todos um ambiente absolutamente seguro, transparente, alegre e cheio de esperança» (n.º 7). Alicerçando estas diretrizes no magistério pontifício mais recente há uma referência «à colaboração com as autoridades civis e recorrendo a especialistas qualificados de várias áreas disciplinares», propondo «a urgência de promover uma formação específica dirigida aos agentes pastorais», tendo ainda presente «a necessidade de tratar, com mecanismos eficazes... desde o momento da sua sinalização ou denúncia até à conclusão dos procedimentos canónicos, civis e pastorais previstos», sem nunca esquecer «a importância de dar prioridade à prevenção de abusos» (n.º 8), na sociedade e na Igreja.

- O âmbito de aplicação destas diretrizes são: «as dioceses, paróquias, pessoas jurídicas canónicas e demais instituições eclesiais, incluindo os institutos de vida consagrada e as sociedades de vida apostólica... Todos os clérigos, religiosos/as e leigos/as consagrados/as a exercer o seu ministério e a sua atividade pastoral em território português; os leigos/as, na medida em que participem no âmbito das iniciativas ou atividades promovidas pela Igreja Católica em Portugal» (n.º 9).  

- Dá-se uma nota específica sobre os candidatos ao ministério ordenado e à vida consagrada, referindo que «devem adotar-se os meios necessários para o conhecimento aprofundado das pessoas que se apresentam como candidatas ao sacerdócio e à vida consagrada no âmbito eclesial e ter-se um cuidado particular na sua admissão aos seminários e a outras casas de formação» (n.º 11). Estamos no âmbito da prevenção, tanto na seleção como no discernimento. Talvez seja preciso ser mais exigente!

- Dado que os ‘casos’ aconteceram na designada ‘vida pastoral’, o documento tenta definir quem são os agentes pastorais e aquilo que se entende por atividades pastorais. A escolha de agentes pastorais (clérigos ou leigos) deverá ter em conta «uma análise da idoneidade dos candidatos a interagirem com menores e adultos vulneráveis» (n.º 13), sem ser descartada a possibilidade de requerer atestados civis ou certidões de registo criminal, Os tais agentes devem receber formação em como prevenir ou identificar possíveis casos, «bem como promover um ambiente sadio dentro das atividades promovidas pela Igreja» (n.º 14). Quanto às atividades pastorais, «nas quais tomem parte menores e adultos vulneráveis, tutelar a sua segurança deve ser uma prioridade de todos» (n.º 16), tanto pela prudência no como trato ou pela informação e respeito entre todos.
Depois de elencar uma série de proibições na relação entre os agentes pastorais e os menores e os adultos vulneráveis – de não castigar (corporal ou psicologicamente), de não descrimnar ou até de fotografar/filmar sem consentimento explícito dos pais ou tutores (n.º 17) – refere-se que «as atividades pastorais devem ter lugar em locais adaptados às idades e à situação dos menores e adultos vulneráveis» (n.º 18)... à vista de tudo e de todos! É ainda recomendado que «todos estes mecanismos devem respeitar a normativa canónica e civil aplicáveis, nomeadamente no que se refere ao tratamento e proteção dos dados de todos os envolvidos» (n.º 22).
- Das comissões diocesanas...à prevenção (denúncia!) de casos – «cada Bispo dote a comissão diocesana de proteção de menores e adultos vulneráveis de pessoas verdadeiramente especialistas nas várias áreas que envolvem a prevenção, formação, acompanhamento e escuta, tanto dos menores e adultos vulneráveis como dos seus responsáveis» (n.º 23). Por seu turno, sobre a pretensa prevenção, diz o documento da CEP que «a Igreja, a nível local, procure estabelecer parcerias em colaboração com outras instituições, no âmbito da educação, da assistência social e da cultura de modo a fomentar, em toda a sociedade, uma consciencialização da necessidade de prevenir comportamentos de risco no que se refere à proteção de menores e adultos vulneráveis» (n.º 27).
- Como resolver/tratar os casos das vítimas de abusos? Diz-se: «todos os membros da Igreja, [devem estar] disponíveis para escutar, acompanhar e garantir uma adequada assistência médica, espiritual e social às vítimas dos abusos e aos seus familiares, no âmbito das atividades eclesiais» (n.º 28).

Temos as orientações. Assim as saibamos ler, interpretar e cumprir dentro da justiça cristã e da misericórdia divina!

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Décadas e contraciclos…na política portuguesa

 


Não será difícil de resumir a nossa vida política nacional – depois da revolução de 25 de abril – à configuração das décadas na Presidência da República e dos contraciclos governamentais na relação entre os ocupantes do Palácio de Belém e a residência de São Bento.

Em quase cinquenta anos de ‘democracia’ tivemos quatro presidentes eleitos, em dois mandatos cada um, e o quinto parece estar prestes a iniciar o segundo mandato, após reeleição. Tirado o primeiro dos eleitos que veio da via militar, os outros têm saído dos dois maiores partidos da nossa (dita) ‘democracia’: dez anos com dois procedentes da área socialista e depois outros dois conotados com a social-democracia…à nossa maneira.  

Numa análise mais ou menos objetiva poderemos considerar que o eleitorado português tem sabido conciliar um ditado basicamente correto: ‘não colocar os ovos todos no mesmo cesto’, isto é, a cor ideológica não ser a mesma na presidência e no governo…com breves exceções assim tem acontecido.

Vejamos o quadro, excluindo o tempo de presidência do militar (1976, eleição, 1980, reeleição), os dados indicam-nos (sobretudo tendo em conta o início do mandato):

* Mário Soares, eleito a primeira vez em 1986, era primeiro-ministro Cavaco Silva, que ocupava o posto também à data da reeleição, em 1991;

* Jorge Sampaio, escolhido a primeira vez em 1996, tinha, em São Bento, António Guterres, que continuava no lugar à data da reeleição, em 2001;

* Aníbal Cavaco Silva, eleito em 2006, era primeiro-ministro José Sócrates, que continuava em São Bento em 2011, na reeleição;

* Marcelo Rebelo de Sousa, eleito em 2016, encontrou como primeiro-ministro, António Costa e, se for reeleito no final deste mês de janeiro, continuará a tê-lo em São Bento.

Em resumo: à exceção do tempo de Jorge Sampaio-António Guterres, os presidentes eleitos tiveram como interlocutores no governo, à data das eleições, figuras de cor diversa da sua, se bem que, tanto Sampaio como Cavaco pouco tempo depois de chegarem a Belém tiveram mudanças: Sampaio com Durão Barroso, em 2002 e Cavaco com Passos Coelho, em 2011…mas sempre em tempo de segundo mandato.

 = Por entre tantas e tão díspares situações socioeconómicas, politico-financeiras, vivências culturais e históricas – neste tempo decorrido tivemos: a adesão à CEE, em 1986; a queda do muro de Berlim, em 1989; a independência de Timor-Leste, em 1999; a entrega de Macau à China, em 2001; o europeu de futebol, em Portugal, em 2004; a crise do sub-prime, em 2007 e vinda da troika para recuperar o país endividado, de 2011 a 2014; a solução da geringonça no governo, em 2015; a vitória no europeu de futebol, em 2016; os fogos florestais que mataram dezenas de pessoas, em 2017… e batemos de frente com a pandemia do ‘covid-19’, em 2020…

Seremos, como dizia o tal general romano sobre este povo nas franjas da Europa: um povo que não sabe nem se deixa governar? Não teremos sabido menos valorizar o que somos e mais o que de nos dizemos de mal? Depois das grandes figuras da política nacional – de que os Presidentes da República e os primeiros-ministros podem ser exemplo pela positiva – haverá, nas gerações mais jovens, quem deseje servir e não meramente servir-se da vida politica? A avaliarmos pelos cinco presidentes e os vinte e dois governos constitucionais, em democracia, não teremos vitalidade suficiente para termos futuro? Os derrotistas e os cobardes terão ainda lugar?

 = Deixo uma citação de um documento recente da Conferência Episcopal Portuguesa: «Sem a escuta atenta dos jovens, sem a sua visão da Igreja e do mundo, não haverá adequada renovação e conversão pastoral [acrescento: política]. O domínio do digital dá-lhes uma forma nova de ver a realidade. Além disso, são peritos na abertura à novidade, ao diferente, às pessoas e aos povos. Com eles a fraternidade é mais possível. Nasceram já numa cultura de grandes preocupações ambientais e defesa da natureza» – Desafios pastorais da pandemia à Igreja em Portugal, n.º 50.   

 

António Sílvio Couto