Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



domingo, 14 de outubro de 2018

Tabaco e combustíveis…fontes de rendimento imoral


Dizem os dados que vão sendo publicitados que o tabaco – isto é, o imposto a que está submetido – rende 3,3 milhões de euros por dia ao estado… o que, nos primeiros oitos meses deste ano, fez-lhe auferir quase oitocentos milhões de euros. Talvez estes números ajudem a perceber o recurso aos furtos de tabaco em muitos dos assaltos.

Por seu turno, os impostos sobre os combustíveis (ISP, IVA e outros) têm em cada litro a proporção de quase dois terços do valor pago pelos clientes – 63% na gasolina e 56% no gasóleo. Segundo dados disponíveis o preço médio dos combustíveis à saída da refinaria é de um quarto do preço final… Vemos, assim, que, quem nos governa, recebe choruda maquia por ocasião de cada abastecimento de combustível rodoviário.

Embora o tabaco possa ser opcional, o uso dos combustíveis é quase universal, daí resultarem custos acrescidos para muitas das transações entre pessoas, empresas e serviços.

Se bem que o tabaco tenha repercussão direta na saúde, a questão dos combustíveis pode e deve – podia e/ou devia! – ser mais democrática, isto é, deveria haver – como chegou a ser prometido – uma oscilação no preço final em razão do custo do petróleo. Ora, isso tem sido quase sempre ignorado por parte de quem governa, pois manter os impostos sempre dará para auferir uma almofada orçamental, sobretudo quando se pode ‘vender’ regalias à custa do sacrifício de quem precisa de se deslocar ou de quem faz da estrada, com o consumo de combustíveis, o seu espaço de trabalho… 

Atendendo a que há fatores da vida económica que podem condicionar o desenvolvimento da vida social, poderemos considerar que usar certos serviços essenciais – tendo em conta os vetores primários – como fonte de incremento para impor impostos, diretos ou indiretos, quase nos aparece como exploração e enriquecimento ilícito do estado sobre as pessoas, as famílias e as instituições. Efetivamente os preços das energias e dos fatores de produção, que muitas delas proporcionam, não deviam tornar-se reféns dos interesses de quem governa e tão pouco dos lóbis que lhes estão associados… Na linha dos princípios (ditos) democráticos, será abuso de poder e favorecimento da confiança que os prestadores dos serviços – e por mais excelência o estado – usem os meios de que dispõem, nalguns casos sob a forma de exclusividade, para subjugarem os que compram tais serviços, usando, normalmente, a precedência de conhecimentos em seu favor…
 Cada vez mais vemos crescer a manipulação dos números para iludir o povo de que estamos no caminho da prosperidade. Foi assim que, anteriormente, nos levaram ao terceiro resgate das forças económicas internacionais, em 2011, e, por muito que digam o contrário, não acredito no sucesso das contas públicas e muito menos de que, no futuro, nada será como já foi antes.

Não gosto que nos queiram fazer de papalvos, iludindo as incompetências com simulações mais ou menos artísticas e com a cobertura de forças que não sabem fazer outra coisa do que viverem dependuradas nas protuberâncias estatais…até que nestas já não haja nada que se possa espremer.

Sou avesso ao estaticismo da economia. Defendo o direito inquestionável da iniciativa privada. Acredito que os particulares têm maior capacidade do que o manifesto imobilismo estatal. Aqueles geram riqueza, estes gerem o que os outros produzem…

A doutrina social cristã é uma das melhores formas de conduzir, de reprogramar e de reformar tantas das geringonças economicistas…ontem como hoje. Talvez a ignorância sobre a doutrina da Igreja para as questões sociais possa explicar que uns tantos (ditos ou apelidados) cristãos se enfeudem em sistemas marxistas-trotskistas sem resposta ao bem comum, mas antes promotores de novos-ricos…os que comandam os sindicatos e agremiações afins.

O tabaco e os combustíveis são duas meras peças dum xadrez social, por agora. Outros tentáculos surgirão para dar visibilidade e ganhos a quem disso se quiser aproveitar!      

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Que nos dizem as eleições brasileiras?


Acabada a primeira volta das eleições presidenciais no Brasil – à mistura com outras competições ao nível político interno – podemos perceber que vai realizar-se, no próximo dia 28, a segunda volta, que por lá chamam de ‘turno’. Chegaram a esta nova fase dois concorrentes diametralmente opostos: Jair Bolsonaro, que recolheu 46,6% dos votos (isto é, cerca de 49 milhões de eleitores) e Fernando Haddad com 28,4%, que representa cerca de 13 milhões de votos. 

= Agora que decorreu esta fase do pleito podemos, um tanto mais criteriosamente, tentar perceber as lições das eleições no Brasil. Com efeito, dizem que o principal vencedor conseguiu apresentar as suas ideias à margem ou à revelia do controle da comunicação social tradicional, isto é, da imprensa, pela rádio e na televisão, usando – dizem com suficiente habilidade – a tais ‘redes sociais’, onde muito daquilo que se pode apresentar foge à censura dos jornalistas apelidados de ‘independentes’. Digam-me onde há algum ou alguma desses jornalistas com tal epíteto? O uso do critério (dogmático) de editorial, não deixa qualquer dúvida: para dizer isto e não aquilo; para colocar esta foto e preterir aquela; para realçar o que aquele disse e menosprezar o que outro proferiu…não há isenção, tem de haver critério e este exige um quadro de escolhas, que são (ou podem ser) discutíveis e censuráveis por outros…

Também se notou – tanto da parte de lá do Atlântico como desta parte – um razoável preconceito e/ou favorecimento de certos candidatos. Alguns cunharam rótulos para aqueles com quem se identificavam menos e – pasme-se agora com estes resultados de primeira volta – o povo brasileiro seria tão inconsciente que votou, em larga escala, em quem poria em causa a própria democracia… Isto só de mentes ditatoriais, que exigem que os outros concordem consigo e, quem pensar de forma diferente da sua, tem de ser abatido… tanto pela palavra como pela desonra, a difamação e a calúnia.

Outro aspeto ainda a ter em conta em vários dos comentadeiros/as de serviço: muitatis mutandis fazem olhar para aqueles que, nos diversos canais televisivos, não conseguem transmitir os jogos de futebol e depois se entretêm horas a fio a lamber os restos dos ossos, mesmo que partindo à força as barreiras que se lhes opõem. Assim, vimos certas figuras dum certo espetro sociopolítico aparecerem para analisar os resultados para a presidência da república no Brasil: criaram clichés de leitura no espaço europeu – saudosos da ‘cortina de ferro’ e das ‘amplas liberdades’ deles – para quererem agora esquartejar as escolhas dos brasileiros, como se eles fossem desprovidos de razão, de competências e de motivação. Basta de tanto paternalismo colonialista encapotado e ao retardador! 

= Que podem dizer-nos as eleições brasileiras…para nós europeus? Desde logo que a desilusão tem escolhas que nem sempre se entendem. De facto, o candidato agora melhor colocado, porque tão expressamente vencedor na primeira fase, catapultou a recusa de quem governou aquele país-continente nos últimos treze anos – a tal vaga antipetista. Estes prometeram muito e executaram bastante, mas os cofres faliram sem recursos para cumprir tantas promessas. Lá foi deste modo e cá como será, em breve? A nossa geringonça tem meios para concretizar todos os desejos e pretensões?

Por lá colheu – ao que parece com mediana aceitação – a tentativa de sacudir o medo, a violência, a criminalidade… aliadas a uma crescente tendência de amoralismo. Por cá ainda não nos apercebemos das consequências da onda de amoralidade que vem conquistando vários setores da nossa sociedade. Não valeria a pena abrir os olhos enquanto vamos a tempo de reverter certas opções anti-vida e sob a condução de quem quer impor aos outros a promiscuidade individual?

Ao que dizem uma das mais fortes batalhas encetadas no Brasil tem sido a luta contra a corrupção. Dizem que poucos tem as mãos limpas... Os mais recentes governantes estão sob a alçada da justiça. O castigo aos vencidos pareceu uma vitória contra essa doença por lá. Não teremos nada a colher para os nossos ‘políticos profissionais’? Quando teremos pessoas capazes de quererem servir os outros sem se servirem deles e dos lugares que ocupam? Não haverá tendência para fazer da corrupção um tabu, quando convém?

Numa palavra: será possível surgir, em Portugal, um Bolsonaro…sem grande história e que deixe memória?      

 

António Sílvio Couto

domingo, 7 de outubro de 2018

Exploração (preferencial) dos escândalos…sexuais


Já vai nalgumas horas o tempo dedicado pela comunicação social ao ‘caso’ que envolve o futebolista Cristiano Ronaldo num tal episódio há quase dez anos nos EUA.

Ainda não se sabe da veracidade do ‘caso’ e já foram gastos inúmeros recursos – certamente para ganhos de audiências – humanos e materiais, tentando desvendar o que há de certo ou de errado na situação.

Dá a impressão que caiu um mito e agora não há como saciar-se deglutindo os despojos de tal fenómeno.

Parece que aquilo que está em causa é o custo – moral, de imagem, de marca, de personalidade, etc. – sobre quem, tendo subido tão alto parece cair com grande estrondo e esfacelar-se na poeira da fama que já foi…

Dá a impressão que este é mais um ‘caso’ à americana: tudo quanto possa envolver escândalo de âmbito sexual é bem espremido para que dê bom dinheiro, tanto a advogados como às (pretensas) vítimas.

Outras situações têm tido idêntico desenvolvimento, havendo como que um guião subtil para tratar tais ‘casos’, que envolvam assuntos atinentes à sexualidade: casos de pedofilia com membros do clero católico, combates a pretendentes a lugares políticos, abusos no mundo do espetáculo… tenham o tempo que tiverem há que desenterrar os fantasmas pessoais e coletivos para apregoar uma certa moralidade, que soa a oco e onde os que ganham são os mais palradores e os que se mostrem mais ofendidos e molestados…mesmo que para a cena. 

= Que sociedade é aquela que tolera as armas, mas combate os mais pequenos deslizes (ditos) morais, sempre para o lado do sexo? Que paranoia coletiva leva a que se faça tão grande cruzada e se veja a amoralidade em cada canto ou viela? Este puritanismo à americana não trará escondido algo mais do que uma vigilância sórdida e inconsequente? Se não houvesse tanto dinheiro envolvido nestes casos, assistiríamos a isto que cheira a doentio?

Na sociedade ocidental – onde os americanos estão quando lhes convém – caminhamos para uma moral sem religião, criando clichés de boa reputação ao nível público, mas tolerando aberrações na vertente privada. O velho adágio – ‘virtudes públicas e pecados privados’ – tem neste campo uma aplicação mais do que razoável. De facto, há muita boa gente que vai tentando enganar com a imagem que tenta fazer passar, querendo parecer gente boa, mas que, na dimensão mais pessoal talvez não se coadune com aquilo que mostra.

Há, no entanto, nesta moral sem religião, uma espécie de ajuste de contas na linha da tão propagandeada ‘ética republicana’, onde cada um pretende ser senhor do seu destino, mas não se assume como falhando – às vezes poderá ser até de falhado – e propala esse refrão, tão comum quão ridículo, de ‘estar de consciência tranquila’. Não será que esta gente não se enxerga para ver o mal que fez/faz aos outros? Até onde poderá ir a incongruência entre o que se diz e aquilo que se faz?

A dimensão sexual da pessoa humana não é tudo nem é o todo da pessoa. Por isso, teremos de saber reeducar-nos na qualidade do nosso ser espiritual, que vive num corpo e que está sujeito às condicionantes do espaço e do tempo. Saber pedir perdão é muito mais do que ser absolvido num tribunal e submeter-se ao perdão divino e dos outros valerá muito mais do que milhões em indemnização…

Precisamos de tempo para deixar assentar a poeira e de sermos capazes de recuperar dos escândalos…mesmo do ex-melhor do mundo no campo do futebol! 

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Temas de eterna juventude


O sínodo dos bispos, que está a decorrer em Roma – será todo o mês de outubro – pretende analisar questões que preocupam os jovens dos nossos tempos. Sob o tema – ‘os jovens, a fé e o discernimento vocacional’ – a 15.ª assembleia ordinária do Sínodo dos Bispos poderá ser uma oportunidade – queira Deus que não seja perdida – para a Igreja entender os jovens hodiernos e para estes perceberem a Igreja católica…como dom de Deus e não como mera instituição humana…mesmo que mais ou menos humanizada.

Nesta assembleia sinodal encontramos 267 representantes dos bispos católicos de todo o mundo, 34 jovens (entre os 18 e os 29 anos), para além de especialistas na temática dos jovens, convidados e outros colaboradores.

De entre os vários temas recolhidos do inquérito realizado para preparar o sínodo chegaram ao espaço de reflexão e de questionamento na aula sinodal temas como: a afetividade, o papel da mulher, a sexualidade, a cultura digital, a vivência da liturgia…entre tantos outros, que poderão/deverão ser abordados com simplicidade, seriedade e sinceridade.

Ora, diante deste panorama temático, que há de diferente do tempo de jovens há trinta (década de 80 do século vinte) ou de há cinquenta anos (década de 60 do mesmo século)? Verifica-se, assim, uma tão grande mudança dos temas e das questões neste meio século de história? Temos, neste quadro de verificação, três gerações – avós, filhos e netos – e elas será, seriamente, tão diferentes na forma, no conteúdo e na práxis?

Se atendermos aos factos históricos mais marcantes daquelas décadas podemos encontrar afinidades bem mais normais do que possa parecer.

- Na década de 60 viveu-se sob a erupção do tempo da contestação hippy do ‘make love, not war’ transatlântico, associado ao ‘maio de 68’ e toda uma forma de viver a vida e, sobretudo, a sexualidade…Foi a época das revoluções populares e das transgressões dos padrões anteriores…Mesmo na Igreja católica se deu a mudança (aggiornamento) do Concílio Vaticano II. Um certo pacifismo permitia/incentivava a nada ser proibido!

- Na década de 80 viveu-se o desmoronamento político/social do quadro marxista, consubstanciado com a queda do muro de Berlim, em 1989. Os jovens que, anteriormente, tinham contestado, assumiam agora o poder, mais recauchutados do que renovados nas suas ideias e intenções. As ditaduras, tanto de direita como de esquerda, foram soçobrando e deixando confundidos muitos dos desiludidos com a fé, a religião, os modelos impostos e os regimes sem nexo. Os jovens desse tempo já não faziam a tropa nem iam à guerra, enquanto alguns suportes morais – como a família e os sistemas educativos – entravam em colapso…mais rápido do que seria previsível.

- Chegados quase ao final do primeiro quartel do século XXI, vemos que os temas, mutatis mutandis, continuam a andar à volta da afetividade/sexualidade, do específico do papel da mulher neste tempo (mais não seja em reação à má conduta anterior), às questões da liturgia (se virmos para dentro do espaço eclesial) e, num aspeto específico: a comunicação em tempo digital e em maré de internet… Outras questões de âmbito social, político, laboral… de incidência interpessoal e na dimensão comunitária ainda parecem andar fora das preocupações de muitos dos nossos jovens…cada vez mais retardados e ao retardador…Aos 30 anos já está mais do que na hora de assumir responsabilidades!  

= Sem menosprezar as visões dos jovens do nosso tempo, talvez seja de questionar a educação sexual/afetiva que a Igreja católica ministrou ao longo de séculos: de preferência repressiva e não propositiva, mais com condenações estoicas e menos com propostas de sabor epicurista/hedonista, mais pelo negativismo contra tudo e para com todos do que pela valorização da dimensão positiva da vida e das condições conquistadas… Agora que os ditames das religiões tradicionais – cristãs, judaicas, islamitas, budistas ou hinduístas – são contestados, vemos que uma porção significativa dos jovens vive ao sabor do ritmo dos ‘likes’ faceboquianos e pelas ‘amizades’ virtuais das redes (ditas) sociais, mas, cada vez mais, sós, marginalizados e abandonados. Será pela reconquista da dimensão personalista de cada pessoa que poderemos elencar, discernir e educar para os valores humanos e humanizantes. Acreditemos nos jovens, como gostamos que nos aceitassem…     

 

António Sílvio Couto  


terça-feira, 2 de outubro de 2018

Porque é que o Papa não disfarça?


Mais vezes do que seria normalmente desejável temos visto o rosto do Papa Francisco triste, cabisbaixo, pensativo, denotando algo que o preocupa, que lhe enturva a alma e isso se percebe exteriormente.

Muito honestamente será que o título deste texto deveria ter aquele ponto de interrogação? Não seria preferível deixar a frase como afirmação? Até que ponto podemos ou devemos questionar este posicionamento do Sumo Pontífice da Igreja católica? Que há de tão dramático, no interior da Igreja católica, que leva o Papa Francisco a apresentar aquele fácies?

Por outro lado, não haverá no círculo dos próximos ao Papa quem cuide da sua imagem, não deixando transparecer que algo vai mal (ou menos bem) nas lides do governo da ‘barca de Pedro’? Quem tem de aconselhar o Papa não conseguirá demovê-lo ou atenuar-lhe tanta dor e sofrimento espelhado no seu rosto, ultimamente? Será correto tentar emendar na visibilidade do Papa aquilo que lhe vem ao rosto, de sofredor e de sofrido?

 

= Estas e outras questões fazem-nos olhar para os últimos aparecimentos do Papa como algo que é preocupante, sobretudo para quem tem fé e está (ou procura estar) em comunhão com o Papa Francisco. Sujeito como qualquer outra pessoa humana às condicionantes da vida, temos vindo a descobrir algumas das causas daquilo que vemos retratado na presença do Papa e como feridas – ainda a sangrar – na Igreja católica.

Na ‘carta ao Povo de Deus’ de 20 de agosto passado, o Papa Francisco como que consubstanciou o que há de mais significativo do estado da Igreja e de cada um dos seus membros, a começar pelo seu responsável cimeiro. Os pecados e as ofensas dalguns dos membros da Igreja católica – o assento é colocado nos eclesiásticos, embora possam não ter sido só eles – fazem sofrer toda a Igreja, envergonhando tudo e todos, criando uma espécie de purga generalizada, senão mesmo uma condenação sem critério e, possivelmente, metendo em idêntica confusão muito para além das acusações apresentadas… 

= À boa maneira duma certa leitura dialética/marxista da história, dá a impressão que se pode estar a exorbitar a competência de denúncia para tantos dos crimes – não há que temer os epítetos, mesmo que envolvam gradas figuras – à mistura com a possibilidade de quase implicar alguma injustiça pela submissão mais à justiça mundana do que à misericórdia divina e eclesial. Algum justicialismo tem vindo a crescer nas artérias da Igreja, quando o que devia acontecer é bem mais sério, sereno e sensato: que haja nas veias da vida eclesial um movimento de conversão de todos pela aferição ao perdão de Deus e dos irmãos, tanto dado como recebido. 

= Nesta ‘santa igreja dos pecadores’, nota-se cada vez mais uma vaga de ataques endógenos e exógenos que colocam a autoridade do Papa em questão, mais sob os aspetos de moralidade e menos em matéria de doutrina, como se aquela fosse um certo critério – nalguns casos sob leituras extremistas – de maior credenciação da fé e de quem a serve, quantas vezes em grandes tribulações, provas e perseguições.

Ao vermos a figura do Papa tão triste e sem rede de boa apresentação, acredito que ele associa ao seu ministério as dores e as amarguras do próprio Cristo, tantas vezes confrontado com o desprezo para com as crianças e os mais fragilizados…ontem como hoje. 

= Decorre durante o mês de outubro (de 3 a 28), em Roma, o sínodo dos bispos sobre os jovens, subordinado ao tema: ‘os jovens e o discernimento vocacional’. Atendendo à urgência e importância do tema, espero que isso possa animar o Papa Francisco, naquilo que é a sua função e missão na Igreja e para o mundo. Que o largo abraço do Papa atinja uma expressão ainda mais significativa por entre tantas provações dos membros da Igreja católica!

António Sílvio Couto




 

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

A quem interessou a luta dos taxistas?


Durante oito dias – de 19 a 26 de setembro – vimos um número significativo de taxistas em reivindicação, sobretudo, nas ruas de Lisboa, Porto e Faro. Diziam que o objetivo era lutar contra as plataformas eletrónicas de transporte de passageiros, cuja lei, a entrar em vigor no início de novembro, prejudicará os taxistas…

Depois duma semana de paralisação, os responsáveis das associações do setor do táxi deixaram-se convencer com a promessa dum partido político – por sinal o principal que suporta o governo da geringonça – de que as câmaras municipais vão estabelecer quotas de prestação de serviço para os tais concorrentes do lóbi taxista… ‘apaziguando’ os contestatários com uma mão vazia de nada e um programa de coisa nenhuma.

Um tanto à guisa de avaliação deste mias recente protesto dos taxistas perguntamos:

- Para atingir estes resultados era preciso montar o circo que exibiram nas ruas e avenidas das principais cidades?

- Isso (isto é, o resultado obtido) não era negociável dentro de portas e foi preciso trazer para a praça pública a refrega de outras batalhas?

- Se queriam dar visibilidade e ostentar propaganda para com quem os tem enganado – diziam durante o protesto, mas não sei se o confirmaram no final – não teria sido melhor arranjar outra forma de estender o tapete às câmaras da cor do governo e quejandos?  

= Certas declarações dos dirigentes das associações de taxistas pareciam mais encomendadas em época de campanha eleitoral, pois, iam deixando transparecer que estes protestos não passaram dum estrebuchar de quem ainda não se apercebeu que a manipulação não convence o tempo todo e tão pouco todos ao mesmo tempo. De facto, o setor do táxi move-se entre um certo conservadorismo de clientelas e uma inadaptação às novas tecnologias.

- Não vimos nem ouvimos – e foi pena – reivindicar melhor formação e educação para os prestadores de serviço no setor do táxi.

- Não vimos nem ouvimos – e é lamentável agora e para o futuro – os taxistas quererem nivelar-se pela limpeza dos veículos, pelo civismo dos serviços e pela verdadeira honestidade para com os clientes/fregueses.

- Não vimos, não ouvimos nem conseguimos compreender que o setor do táxi tenha vindo reclamar maior capacidade de boa prestação do seu serviço pago em comparação com a (pretensa) qualidade dos seus oponentes…  

= Como referia alguém (bem cotado na arte de bem-pensar) será sempre de questionar quem teme a concorrência, pois pode estar a esconder algo de menos bom, pois, se fosse melhor, não temeria entrar em competição. Neste aspeto a luta dos taxistas deixou algo a desejar, na medida em que uma parte significativa dos reclamantes não tem sabido apetrechar-se das melhores ferramentas para que possa haver um serviço público de transporte de qualidade, tanto na prestação como na avaliação.

Já não basta o monopólio do passado, é preciso continuar a saber estar na praça com bons e os melhores serviços…sobretudo humanos, pois a frota de carros tem melhorado, mas só por fora!   

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Não olhar ‘só’ pelo retrovisor…


Há situações – mais do que aquelas que seria desejável – envolvendo pessoas e factos, muitos deles do passado e não tanto do presente, que fazem com que tenhamos a sensação de se estar mais a olhar pelo retrovisor do que pelo para-brisas… Sobretudo quando nesta atitude estão envolvidos cristãos, isso será, no mínimo, questionável, pois nós caminhamos de olhos postos na meta e não meramente tropeçados nas etapas, por mais gloriosas que elas tenham sido.

Por muito aceitável que se pretenda proporcionar recordações de antanho, nós, cristãos, temos no Evangelho ‘sentenças’ de grande alcance, que podem ser lema de vida e mesmo que catapultaram tantos homens e mulheres da nossa História – humana e de salvação – para viverem a entrega a Deus e aos outros ou dos outros em Deus. Em muitas dessas frases é referido o desprendimento sem pretender reconhecimento ou recompensa: depois de fazerdes tudo o que vos foi mandado, dizei: somos servos inúteis, só fizemos o que devíamos fazer… O servo não é mais do que o seu senhor… Se vos lavei os pés, sendo senhor e mestre, assim deveis fazer uns aos outros… Quantas vezes sinto alguma repulsa por excessivos agradecimentos, quando os intervenientes só fizeram o que lhes competia fazerem, em razão da sua fé e do necessário compromisso com Deus, na Igreja, para com os outros.

Num tempo de salutar anticlericalismo podemos e devemos refletir sobre que tipo de cristãos/católicos estamos a (re)produzir. Há demasiadas mentalidades eclesiásticas e laicais que ainda se não aperceberam das mudanças operadas dentro e fora dos círculos eclesiais. De diversas formas e outros tantos feitios temos vindo a assistir à recuperação de sinais exteriores de relevância eclesiástica que já não são descodificados pela maioria da sociedade secularizada. Por vezes pode-se correr o risco dalgum ridículo, acirrando contestações inúteis e quase despropositadas.

Trazemos à liça um caso onde se configuram estas vertentes enunciadas: uns padres, relativamente novos, acharam que deviam ir a uma corrida de toiros, vestidos com o ‘clergyman’ (colarinho romano ou cabeção)…Ora tal façanha desencadeou nas (ditas) redes sociais reações fundamentalistas, repudiando a presença de membros do clero em tais espetáculos e o que isso significa direta ou indiretamente… Os comentários foram entre o inverosímil e o escabroso, desancando nos ‘artistas’ e em quantos a eles possam estar associados, deixando, em resumo, os cristãos e a Igreja católica no lamaçal… Deste modo se pode perceber que bastará um inofensivo rastilho para desencadear um incêndio de proporções imprevistas…crepitante por parcas horas.

Talvez falte a estes como a outros intervenientes na tarefa da visibilidade da Igreja a consciência de que não basta olhar pelo retrovisor da aceitação nos tempos idos da cristandade em que tais sinais eram recorrentes e ainda tendo em conta alguma tolerância para com ‘pequenos’ incidentes na via pública e/ou privada… Hoje estamos todos sob escrutínio permanente, não nos sendo permitido o mais pequeno deslize, pois se uns até desculpam, outros são mais intransigentes em saltar a barreira da tolerância e despregam a ofender, a lançar suspeitas e a meter no mesmo saco bons e menos maus…só porque lhes parece tudo (e todos) o mesmo! 

= Por estes dias recordou-se a memória do falecimento do primeiro bispo de Setúbal. Notava-se, na assembleia de sufrágio, algo de tendencialmente a observar pelo retrovisor: uma boa parte dos leigos era do tempo de há mais de vinte anos… os clérigos presentes nem todos eram da época do pontificado do prelado desaparecido…nas raízes de fundamentação teológico-espiritual pareceu que nem todos estavam sintonizados para a frente…os tempos são outros e os intérpretes parecem menos ousados e comprometidos.

Nestas coisas da memória dos fastos ilustres corre-se o risco de entronizar faustos e de obnubilar as circunstâncias que fazem duns heróis e de outros figurantes na estória do tempo… Como referia um mestre na arte de interpretar as coisas humanas/teológicas, é preciso que passe suficiente tempo – dizia até dois anos – para nós e com os outros, sermos entendidos e que nos entendam, numa proporção de amadurecimento daquilo que somos e do que os outros entendem…

Efetivamente, o retrovisor nem sempre ajuda a discernir de forma correta e com visão de futuro!      

 

António Sílvio Couto