Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sábado, 25 de janeiro de 2020

…E se fosse numa ‘casa de alterne’?




Apareceu, por estes dias, num canal televisivo uma reportagem – rotulada de ‘investigação’ – em que um pai aduzida que a sua filha única estaria a ser vítima de abusos por parte das religiosas/monjas do mosteiro onde tem vivido.

Os ingredientes apresentados pela reportagem eram quase todos na linha da depreciação daquela agremiação religiosa católica: os testemunhos apresentados, os casos trazidos à colação e até a pretensa reconstituição com a ‘monja’ vítima se serviu de elementos pouco adequados à pretensão, pois era colocado o livro ‘missal romano’ como texto da consulta e de formação…

É compreensível que um pai, dito como médico (ao que parece psiquiatra) tente o melhor para a sua filha única, mas talvez não seja muito correto – certamente saberá do ofício que exerce – colocar fantasmas, recorrer a possíveis difamações e, sobretudo, pretender lançar um labéu de suspeita, acusação e maledicência sobre uma organização católica internacional, presente no nosso país há quase vinte anos, desde Sesimbra e agora no Couço, diocese de Évora.

Durante alguns, enquanto não tiveram capelão exclusivo, fui dos padres que celebrou missa para as monjas de Belém, no mosteiro em Calhariz, Sesimbra. Tinham a sua forma própria de liturgia e do padre somente desejavam a celebração da missa, sem homilia. Eram as regras, não há como não cumpri-las… Nunca me foi dado ver nem observar nada daquilo que apareceu na dita ‘investigação’, onde se notava mais um afã de denegrir do que de informar ou esclarecer. No ar ficou, com alguma subtileza que em certas organizações católicas nem tudo é tanto como se pretende perceber com mentalidade mundana… Como era dito por uma das monjas, o mistério da vocação à vida religiosa nem todos conseguirão compreendê-lo…dentro da linguagem de dedicação a Deus e não tanto na tendência social.   

= Uma pergunta me percorreu, como um lampejo, após constatar o ar sombrio e algo preocupado daquele pai: e se a sua filha em vez de ter ido para um mosteiro tivesse ido para uma ‘casa de alterne’, colocar-se-iam, da mesma forma, os problemas de abuso como era postos na situação de estar num mosteiro? Seriam menos incompatíveis tais recursos à submissão na ‘casa de alterne’ do que no mosteiro? A lógica do prazer do mundo fascina mais do que a sedução dos prazeres espirituais, no seguimento de Jesus Cristo? Não andará no ar uma espécie de perseguição encapotada de ‘liberdade religiosa’, desde que seja para atingir quem segue o mistério da vocação cristã? Não falta respeito, por parte de muitos setores da vida social e cultural, por quem não se deixa ir na onda de querer ser em de continuar na fase do parecer? Não serão as atitudes menos compreensíveis de alguns/algumas, chamados/as por Deus, que incomodam a instalação, o comodismo e até a incongruência de certos denunciantes? 

= Na reportagem de onde partimos para esta reflexão pareceu pouco credível a aportação de alguns ‘casos’ internacionais – importando um tal relatório francês – para fazer verificar que há mais situações anómalas, neste como noutros mosteiros, conventos ou casas religiosas. Mais uma vez: porque só são divulgadas situações que envolvem a vertente religiosa e não aparecem com idêntico azedume o que envolve as forças armadas e de seguranças, tantos colégios não-religiosos ou agremiações secretas?

É claro que Deus pode incomodar e será mais fácil atirar-se aos que andam na sua esfera, pois não reagirão – pensam alguns mentores – de forma tão rápida, irreverente e também ao ataque. Neste, como noutros casos, será preciso, para além da defesa correta e duma certa dose de perdão cristão, uma capacidade de não se deixa queimar em lume brando, pois Deus está por nós, mas pouco fará sem o nosso contributo atento, sagaz e inteligente.

Urge saber quem vai orquestrando estas ‘reportagens’ a pedido ou ainda quem se esconde para tentar lançar a confusão, mesmo que à custa da mentira, do sarcasmo e até da liberdade sem responsabilidade. Nem tudo está totalmente correto nas associações, coletividades ou congregações cristãs, mas será preciso ser coerente e não se deixar embarcar em pias intenções, quando estão carregadas de malícia, falsidade e mesmo de falta de verdade, ontem como hoje!     

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Possível conexão entre Davos e Albufeira…


Coincidiram no tempo duas iniciativas onde esteve subjacente o mesmo tema: a ecologia no complexo da economia… nos nossos tempos. Em Davos (Suíça) decorreu, de 21 a 24 deste mês, a 50.ª sessão deste meeting internacional de grandes capitalistas mundiais. Por seu turno, em Albufeira, realizaram-se, de 20 a 23 também deste mês, as jornadas de formação do clero das quatro dioceses ao sul do Tejo. Neste evento o tema andou em volta da ‘ecologia integral: o homem no centro da criação’, enquanto a cimeira internacional teve como referências também aspetos relacionados com a crise climatérica e questões de economia.
Cerca de dois mil quilómetros de distância geográfica fazem-se próximos pela afinidade temática, num tempo em que as questões ambientais devem ser inseridas numa visão de ‘desenvolvimento humano integral’, como referiu Niccola Riccardi, um professor franciscano, subsecretário do dicastério do Vaticano para o serviço integral para o desenvolvimento humano. Este académico italiano substituiu o cardeal Peter Turkson (perfeito do dicastério para o serviço do desenvolvimento humano integral), que foi representar a Santa Sé no meeting de Davos, onde proferiu uma intervenção do Papa Francisco nas bodas de ouro daquele convénio mundial dos ricos…Na sua mensagem o Papa realçou a dimensão ética na definição das relações internacionais, salientando que “somos todos membros de uma família humana. A obrigação moral de cuidarmos uns dos outros decorre desse facto, assim como do princípio relacionado de colocar a pessoa humana, e não a mera busca de poder ou lucro, no centro das políticas públicas”.

= Feita esta aproximação no tempo e na temática poderemos encontrar algumas vertentes apresentadas nas jornadas de atualização do clero das dioceses do Algarve, Beja, Évora e Setúbal, num total de quase cento e vinte participantes.

Fazemos um breve respigo dos diversos palestrantes:

* Cada europeu consome por ano uma média de dezasseis toneladas de materiais e cria seis toneladas de resíduos (Francisco Ferreira);

* É um erro ser reduzido o conceito de desenvolvimento ao de crescimento económico…Será crescimento de todos ou de uma parte e qual será o preço deste crescimento sobre o ambiente. A Igreja guarda um pensamento sobre o bem comum, onde bem-estar é muito mais do que estar bem. Precisamos de ter uma visão unitária do relacionamento com as pessoas e o mundo. Verifica-se ainda o erro de uma espiritualidade separada da história e da criação. Com efeito, na união entre a história e o exercido da ‘guarda do jardim’ se encontra a realização do desenvolvimento sustentável (Niccola Riccardi);

* Trazemos impresso em nós o selo de Deus. Através do ‘critério de dependência’ podemos perceber que ninguém deu a vida a si mesmo e ninguém é dono de si mesmo. Duas palavras resumem esta visão: silêncio e repouso – silêncio envolve o mistério da criação e da redenção; repouso – expressão que leva à alegria e à misericórdia (Rino Fisichella);

* Vivemos um novo paradigma mais relacional, num outro tipo de sociedade: comunicação interativa. Como podemos, então, entrar nesse paradigma relacional? Tendo o sacramento da reconciliação por referência podemos compreendê-lo nessa relação com Deus, com os outros e com a natureza. O pecado será transgressão à lei ou como dimensão relacional? Sou amado, logo existo! (Martin Carbajo);

* A beleza da criação permite o conhecimento de Deus. Conexão entre ecologia e ética, formação da consciência, crítica pelas formas de individualismo, exigindo e sendo consequência da conversão ecológica, em ordem à vivência de uma autêntica espiritualidade ecológica (Rino Fisichella);

* Prevalece o mais adaptado e o mais altruísta. Informar a curiosidade exige muitas escalas de tempo – dos 10 anos aos 100 mil anos. É preciso distinguir entre o destinado e o planeado. O futuro é um passado abrindo outra porta (F. Carvalho Rodrigues);

* Deve falar-se de normas de proteção dos animais mais do que de direitos dos animais, pois os direitos implicam capacidade de liberdade, deve-se, portanto, terem conta a dignidade sobre a qual se alicerçam so direitos humanos (Pedro Vaz Patto).

Apesar dos milhares de quilómetros e dos campos de intervenção o que se passou em Davos e em Albufeira foram breves pinceladas para a salvaguarda da nossa casa-comum. Deus merece, a natureza e os outros!

   

António Sílvio Couto



segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Será a violência o preço da liberdade?




É uma questão recorrente questionar e equilibrar ‘liberdade e segurança’, fazendo desta o enquadramento daquela ou a primeira o estímulo para viver a segunda. Como entender, então, que estejamos a viver num certo clima de crescente violência – física, verbal, psicológica e até moral – de forma preocupada na nossa cultura e no nosso país?

Será útil e necessário distinguir como as diversas formas de violência estão a cativar a liberdade e como ainda questionam constantemente a segurança de pessoas e de bens. Uma sociedade securitária poderá ser compatível com a liberdade nas suas mais díspares manifestações? Que é mais valioso – social, económica e culturalmente – a segurança ou a liberdade, isto é, poderemos dizer e fazer tudo e o resto ou estarmos seguros sob condições de melhor regime? O recurso à linguagem violenta não tem vindo a fazer um percurso cada vez mais pernicioso, dentro e fora dos laços familiares? Como poderá sobreviver uma sociedade, se é complacente para com erros capciosos de violência em gestos e palavras subtis, até de crianças em regime de má educação? Não haverá uma certa tolerância, que desistiu de fazer das virtudes humanas um critério de conduta, fazendo-se mais abstémio de princípios e glutão de valores humanos e até cristãos?  

* Perante certos clichés ideológicos podemos assistir à incongruência de alguma oligarquia (dita) de esquerda, segundo a qual a liberdade não poderá ser questionada se estiverem em causa uns tantos grupos de proteção, nem que para isso se inventem umas palavras terminadas em ‘fobia’ à custa de haver uma pretensa igualdade para todos os cidadãos… e, à sua maneira libidinosa, cidadãs…ou de género. Nota-se alguma dificuldade de gestão da matéria, quando os ‘protegidos’ da oligarquia governante veem em competição de etnias que desejava fora da barricada de conflito! Que maçada verem-se, sobretudo, negros e ciganos a serem protagonistas de violência, quando se queria vender que eram, no fundo, vítimas…dos nacionais, brancos e pseudocapitalistas!  

* Os múltiplos sinais de violência atraem mais as notícias do que atos de benemerência ou de solidariedade. Talvez, deste modo, estejamos a contribuir para o recrudescimento da violência, senão explícita ao menos tácita. Há, no entanto, novos fenómenos de violência que merecem atenção, dada a incidência em que se encontram e aquilo que podem revelar de mais profundo da nossa podre sociedade. Os episódios de violência nos recintos desportivos e, em especial, nos estádios de futebol. Isso será tanto mais grave quando difundido nas transmissões em direto, dando-se, assim, cobertura a atos de violência quase de espetáculo gratuito. Não há, no entanto, controlo e fiscalização à entrada dos estádios? Por que razão ainda subsistem tais anomalias: por incúria ou por concordância? As caras-tapadas e os encapuçados não querem significar que estamos perante delinquentes que não se assumem com direitos nem com obrigações? Como deverá o governo, verdadeiramente, lidar com esta situação, que tem tanto de complexa quanto de simples? A segurança pública – mesmo na incidência de perturbação social – não deveria merecer um pouco mais do que frases-feitas – e, nalguns casos, afirmações tontas – de quem tutela a área?  

* Muita da violência hodierna funciona como uma espécie de nova expressão da ‘luta de classes’ da famigerada dialética marxista, pois aí se podia introduzir algo que condicionava e faria uns tantos que lutariam para vingar os direitos mais básicos. Ora, o que vemos hoje é alguma efabulação de consequências perante umas míseras causas, isto é, uma tal sociedade/cultura pretensamente urbana deseja aniquilar os que podem ser de procedência mais ou menos rural, na medida em que estes estão situados num quadro de valores que as franjas urbanas já não valorizam nem consideram como essenciais. Os rurais guiam-se ainda por virtudes que os citadinos já esqueceram ou nas quais nunca foram educados. Esta discrepância nota-se em pequenos gestos no nosso país, mas que uma boa parte vai obnubilando de forma mais ou menos consciente e consequente… Repare-se no fenómeno dos fogos florestais…só começaram a ser levados a sério – na linha da violência até noticiosa – quando atingiram as fraldas das tais povoações suburbanas…

A violência pode matar. A liberdade exige responsabilidade. A segurança pode condicionar a liberdade!   

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Ditadura do sucesso num colapso dos valores?


Parecem ser cada vez mais os sinais de que algo anda confuso no reino da portugalândia (*). Podemos ver o sucesso e questionar os seus efeitos. Podemos descobrir as consequências sem termos de identificar as causas. Podemos sacudir a responsabilidade e culpar os outros, que, embora possam ser companheiros na desgraça, se diluirão como a mensagem do agente secreto em poucos segundos…

É nessa terra imaginária em que se tornou o nosso país que vamos centrar a nossa reflexão sobre aspetos que podem parecer reais, mas que não passam de virtuais e onde uma boa maioria vive em perfeita alienação… até um dia acordar da letargia geral.

= Vivemos numa Europa onde há paz – isto é, sem guerras entre os países na totalidade, embora tenhamos tido a guerra dos Balcãs ou mais recentemente os conflitos entre a Rússia e a Ucrânia – desde o final da ‘segunda guerra mundial’. Os portugueses ainda tiveram as guerras ultramarinas, terminadas em 1974. No geral a Europa tem vivido numa espécie de paz social, embora podre, mas minimamente aceitável. Com a queda do ‘muro de Berlim’, em 1989, distendeu-se a todo o continente a pretensa paz com os tentáculos do progresso, do consumo, da qualidade de vida e de tantas outras proclamações mais ou menos efabuladas dos regimes políticos e ideológicos. Até a construção da União Europeia tem contribuído para o sucesso da maior parte dos países e nações. A inclusão de certos povos procedentes da ex-cortina de ferro fez com que o sucesso ultrapassasse fronteiras e barreiras alfandegárias. A livre circulação – sem necessidade de passaporte – de pessoas e bens foi construindo a utopia de que teremos sucesso com mérito ou sem ele.

= Uma espécie de interregno eclodiu entre 2008 e 2015, tanto na Europa e no mundo ocidental, quanto em Portugal em particular. É dessa época o termo que usamos supra – ‘portugalândia’ – e com isso os seus autores quiseram alertar para a possibilidade de não ser aproveitada a circunstância de ‘crise, mas antes para nos continuarmos a iludir, usando os velhos truques de recurso a técnicas menos claras ou de pretendermos ser melhores jogadores do que os outros, numa palavra: acabe-se com o chico-espertismo e o desenrascanço, que tão simplesmente nos tipifica…como portugueses.

= Agora que atingimos o sucesso de superavit orçamental – ainda não consegui compreender com que artimanha – poderá ser útil reparar nalguns sinais de que a ditadura do sucesso talvez possa trazer à luz um certo colapso de valores considerados fundamentais. Cingimo-nos tão simplesmente ao setor da família. Esta deveria ser o reduto mais sagrado para cada pessoa, mas tem-se tornado uma espécie de campo de batalha entre os vários elementos, sem respeito nem consideração. Os tempos de presença de uns aos outros vão sendo encurtados ou mesmo suprimidos, de entre eles destaco as refeições. Estas, feitas em espaços exteriores à casa de família, esfriam o ambiente de partilha, de encontro e de comunhão. Como alguém referia em jeito de piada: antigamente as filhas cozinhavam como as mães, agora bebem como os pais. Com alguma mágoa e tristeza vemos que a família deixou de ser um espaço de convívio para se tornar mais um espaço de conflito. A desconstrução da família é hoje mais propagandeada do que a estabilidade afetivo-emocional. Com que velocidade foram cortados os laços de relacionamentos alicerçados no compromisso entre os mais velhos – avós, pais e outros – para viverem mais ao ritmo da oscilação e, quantas vezes, dos interesses pessoais e não familiares.

Não deixa de ser sintomático que, geralmente, a causa para que possa ser anulado um matrimónio seja aduzida a ‘imaturidade dos noivos’…ao tempo. Estamos até a falar de pessoas com mais de vinte anos e que se revelaram imaturas para assumir tal compromisso. Nota-se uma catadupa de razões para que se tente explicar o insucesso. Efetiva e afetivamente custa a perceber por onde caminha o presente e com apreensão olhamos o futuro, se a família for a principal vítima da ditadura do sucesso. Com efeito, construir a família (com tantas coisas) em consonância fará com que todos se sintam participantes do mesmo projeto…sempre.     

 

(*) Portugalândia é o nome do local onde a ação toma lugar, num jogo criado por quatro especialistas do Instituto Superior Técnico (IST), da Universidade Técnica de Lisboa, uma editora nascida em 2012, com o objetivo de criar jogos inteligentes e que promovam o convívio e o espírito entre os participantes. Este é um jogo de cartas que satiriza a realidade vivida nas sociedades democráticas, dos jogos de poder às pressões e influências obscuras. O nome é sugestivo - «Vem aí a Troika» -, num jogo que desafia os concorrentes a levar um país à bancarrota. Esta é uma nação em queda livre. Qualquer semelhança com factos, entidades ou pessoas, dizem eles, “é pura coincidência”.


António Sílvio Couto

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

‘Simili modo’ (do mesmo modo, igualmente)


Esta expressão –‘simili modo’ – aparece-nos em vários momentos bíblicos e litúrgicos, numa referência de comparação entre algo transcendente e a nossa condição terrena, bem como na tentativa de incluir em linguagem humana aquilo que os nossos limitados sentidos vão conseguindo atingir, observar e almejar.

Ora, nas múltiplas incidências da nossa vida poderemos tentar analisar diversas situações ‘simili modo’ como se fôssemos ou deixássemos de ser algo que nos possa ter empenhado na vida, sobretudo numa envolvência militante, apaixonada (muito para além do sentido meramente emotivo/sentimental) e, particularmente, como ideal de toda uma vida.

= Trazemos a esta reflexão duas questões um tanto sensíveis e aparentemente díspares, não só pela sua complexidade como sabendo que podem atingir situações mais próximas senão mesmo personalizadas. Refiro-me ao tema do celibato sacerdotal e à ‘conversão’ possível de certos (ou de todos?) os militantes marxistas. Sobre o celibato sacerdotal citamos algumas frases – porque expurgadas por outros serão em recurso alheio – do Papa emérito Bento XVI. Quanto à pretensa mudança ideológica dos citados lançarei breves perguntas de sugestão que são um tanto mais do que suposições…

* Num livro escrito em parceria com um cardeal (prefeito da congregação para o culto divino e disciplina dos sacramentos), Bento XVI (de seu nome teológico José Ratzinger) não deixa de se pronunciar – clara, distinta e simplesmente – sobre o celibato sacerdotal, dizendo: ‘acredito no celibato’ dos sacerdotes, pois este ‘tem um grande significado’ e ‘é indispensável para que o nosso [o dos padres, em primeiro lugar] caminho na direção de Deus permaneça o fundamento da nossa vida’. Em jeito de advertência e numa quase lição testamentária, Bento XVI refere que ‘é urgente e necessário que todos – bispos, padres e leigos – parem de se deixar intimidar pelos apelos mal direcionados, pelas produções teatrais, pelas mentiras diabólicas e pelos erros a moda que tentam derrubar o celibato sacerdotal’.

Num tempo em que muitos – a maioria segundo conceitos mais de sabor mundano do que com visão cristã esclarecida, amadurecida e comprometida eclesialmente – discutem o tema do celibato sem que isso lhes diga respeito, é essencial que nos fixemos naquilo que é importante e não deixemos que interesses mais ou menos maquiavélicos preencham a ignorância de uns tantos na Igreja. Nunca por nunca ordenar homens casados –como foi de forma excecional sugerido no sínodo sobre a Amazónia – suprirá a acentuada falta de padres na Igreja católica. Se isso fosse a solução muitas das igrejas protestantes e até ortodoxas não teriam a mesma (ou maior) crise de vocações ao ministério sacerdotal.

É uma questão de vocação e não de mera conveniência de serviço. Digo-o de forma convicta e sem pretender reclamar qualquer ‘compensação’, se alguma vez algo se puder modificar. Foi conscientemente assumido. Ora, sobre este tema já escrevi, por ocasião dos vinte e cinco anos de padre, uma reflexão que cito como exemplo: ‘Dom e carisma de ser padre’, Prior Velho, Paulinas, 2008, pp.136-142.

* Poderá um marxista – comunista, socialista ou trotskista – convicto mudar a sua posição – na maioria das vezes a sua pretensa opinião – sobre tantos dos temas identitários da sua luta? Os clichés – luta de classes, capital/capitalismo, exploração, mais-valias, povo, trabalho/trabalhador – em que se ancora terão ainda lugar na política atual? A incapacidade para passar à prática as ideias dialéticas não faz abrir os olhos para a inconsistência/falhanço das mesmas? O empobrecimento social e económico dos países e das populações não fez perceber que a ditadura popular não criou democracia? O regime que criou mais vítimas (milhões em todo o mundo e desterrados às miríades) no século passado ainda merece confiança, hoje? A violência e discriminação sobre os que não eram da ideologia, não fez perceber a injustiça das ideias e há quem as defenda e vote, na atualidade? Certas posições autárquicas não serão de um certo marxismo capitalista?

Eis algumas das perguntas que fizeram uns tantos libertar-se das peias do marxismo, deixando-o como regime e quase religião ateia. Muitos dos testemunhos interrogam porque levou tanto tempo a compreender a farsa em que viveram… Muitos/as dos recauchutados/as perderam anos ou ganharam novo sentido de vida?

= Do mesmo modo que para muitos dos nossos coevos é de difícil compreensão o ‘mistério’ do celibato sacerdotal, tal é a erotização da sociedade, assim tenho algum resquício de incompreensão para com regimes que tão nefastos frutos deram para com a história da Humanidade recente…sem arrependimento percetível.

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Haverá (total) serviço nas lides político-partidárias?


‘Tu és ainda militante? Pago-te as cotas e tu votas num determinado candidato’!

Esta breve conversa era feita por um dirigente concelhio, que não foi escolhido pelas chefias para integrar a lista às últimas eleições… Agora passou-se para as hostes de um outro candidato, que, certamente, lhe terá prometido o tal posto desejado…sobretudo se estiver em final de tempo de serviço autárquico!

Na noite de rescaldo das votações internas de um certo partido ouvimos, por diversas vezes – umas de forma explícita e outras de modo mais insinuado – um dos dois que vão disputar a liderança a proclamar que nele ninguém votara com a promessa de vir a ter um qualquer lugar que o votante/eleitor almejasse…Por ele e para ele todos devem estar ao serviço do país, através do partido, e nunca querendo servir-se dos postos para conseguirem outros objetivos…

Daquilo que vemos e pelos resultados obtidos, será mesmo assim tão grande o despojamento em quem anda nas lides partidárias? Não se sentirá, na maioria das agremiações partidárias, uma espécie de antecâmara para outros voos e melhores lugares? Não será tão habitual assim não vermos jovens a entrarem nas formações juvenis dos partidos para conseguirem, num futuro mais ou menos próximo, um melhor lugar de trabalho (ou de emprego), desde as autarquias até às fimbrias do poder nacional? Alguém acredita mesmo que, pelos tiques manifestados, não temos tantos/as na profissão, sem nunca exercerem outra de forma clara, correta e capacitada? Ao vermos a corrida aos partidos de acesso ao poder, não seremos tentados a considerar que as iniciativas se podem confundir com projetos de candidatura a empregos melhor remunerados? Não se confundirão, por vezes, os desempenhos com os princípios e valores que deveriam informar os projetos?

 

= A partir de uma perspetiva cristã podemos e devemos questionar-nos sobre a presença e participação dos cristãos – particularmente os leigos – na vida social e política. Desde logo é fundamental esclarecer que a presença/participação dos cristãos na política é muito mais do que a mera envolvência partidária, pois esta, pela própria configuração terminológica de ‘parte’, poderá significar uma das partes e não a totalidade…

Atendendo aos desafios dos evangelhos – ‘vós sois o sal da terra; vós sois a luz do mundo’ – e às proclamações do magistério da Igreja católica, podemos considerar que a participação dos cristãos na vida do mundo sempre foi não só incentivada como feita a marca dos cristãos na intervenção no seu meio, isto é, reduzir a vivência religiosa ao culto nem sempre se faz cultura.

Quem conhecer as múltiplas referências do magistério na vida política recordará o celebre texto da ‘epístola a Diogneto’ (século II) onde se faz o elogio da presença dos cristãos no mundo, como sua alma e mesmo salvaguarda, até aos momentos mais significativos dos últimos papas (João Paulo II, Bento XVI e Francisco) sem nunca esquecermos a visão prospetiva do Concílio Vaticano II, especialmente na constituição pastoral ‘Gaudim et spes’.

Eis um breve excerto deste documento conciliar: «todos os cristãos tenham consciência da sua vocação especial e própria na comunidade política; por ela são obrigados a dar exemplo de sentida responsabilidade e dedicação pelo bem comum, de maneira a mostrarem também com factos como se harmonizam a autoridade e a liberdade, a iniciativa pessoal e a solidariedade do inteiro corpo social, a oportuna unidade com a proveitosa diversidade. Reconheçam as legítimas opiniões, divergentes entre si, acerca da organização da ordem temporal, e respeitem os cidadãos e grupos que as defendem honestamente. Os partidos políticos devem promover o que julgam ser exigido pelo bem comum, sem que jamais seja lícito antepor o próprio interesse ao bem comum» (n.º 75).

Se todos soubéssemos ocupar o nosso lugar nos vários círculos de presença, de intervenção e de compromisso conseguiríamos construir uma sociedade mais participativa tanto no serviço quanto na diversidade, onde cada um respeita os outros e coloca ao seu dispor as qualidades/dons que possui.

Continuar a fazer a figura dos ‘marretas’ – série televisiva com mais de quatro décadas – onde dois velhos rezingões tudo criticavam e contestavam, desde o seu camarote, vendo, preferencialmente, os defeitos alheios…não deixará rasto de mudança. Queira Deus que sejamos mais interventivos do que intervencionistas, cada qual no seu âmbito mais simples e sincero…     

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Looks de penteados…para rejuvenescer ou não


Com o início do ‘novo ano’ vão aparecendo sugestões – umas mais clássicas, outras mais ousadas e algumas um tanto bizarras – sobre o modo como enfrentar o tempo deste ano. Neste contexto deu-me na observação aquelas que pretendem lançar referências aos penteados, sobretudo na qualificativa de darem a entender algo que possa rejuvenescer quem queira alinhar, tanto no âmbito feminino como na vertente masculina.
As sugestões apresentadas são algo ‘tentadoras’, na medida em que, a partir de uma certa forma de cortar o cabelo, poderão ser retirados anos na aparência de quem é observado. Isso poderá ser aliciante tanto quanto somos, hoje, confrontados com essa eterna sedução de querermos parecer mais novos, mesmo que à custa do disfarce, do engano ou mesmo da aliciação.
Dada a complexidade da terminologia bem como da arte que envolve a possibilidade de recorrer aos cortes de cabelo para que possam deixar o sujeito mais jovem, ficamo-nos pela abrangência com que se pretende fazer desta arte uma nova imagem a dar aos outros. Por vezes dá a impressão que se pretende retocar por fora – na cabeleira ou sua ausência – a falta de conteúdo daquilo que ela envolve…pretensamente! 
= Efetivamente vivemos numa acentuada ‘era da imagem’: a temos de nós mesmos e a que queremos que os outros tenham de nós; essa que desejamos que tenham de nós, com todos os artefactos que usamos para a produzir, sustentar e/ou manifestar; essa outra que desejaríamos que tivessem, embora nem sempre se coadune entre o pretendido e o realizado; essa que gostaríamos de modificar, mesmo que à custa de artimanhas (lícitas ou menos boas) de retoque e/ou de camuflagem; essa imagem de imitação – veja-se a produção de cortes de cabelo ou de recurso às vestimentas em moda – em que mais fazemos de conta do que somos aquilo que revelamos, de verdade.
Com razoável regularidade encontramos pessoas que conseguem ‘enganar’ a idade real, seja pela forma mais ou menos arejada como se apresentam, seja pelo modo como se cuidam, arregimentando alguns adereços de moda, de adorno ou de disfarce…de modo a parecerem mais juvenis. Nalgumas circunstâncias podemos até encontrar mães que quase parecem ter a idade das filhas – isto acontece mais no feminino do que no masculino – e com tal observação sentirem-se lisonjeadas, mais do que ofendidas.
De facto, é preciso aprender a saber ligar com a idade que se tem, mais do que com aquela que se desejava ter. Nalguns casos seria útil haurir o mínimo de memória sobre aquilo que se observava e que talvez se criticava naqueles/as que tinham a idade que nós agora temos. Isso far-nos-ia ser mais ponderados, tanto nas críticas, quanto nas possíveis considerações menos favoráveis para com os outros…que agora podem (ou devem) ter para connosco. 


= Mesmo que de forma sucinta vamos tentar abordar as diversas abordagens que citamos supra:


* a imagem que temos de nós mesmos – algo que se vai delineando ao longo da nossa existência, tendo em conta aquilo que fomos apreendendo da vida e das situações boas/agradáveis ou difíceis/negativas… Tudo isso é mais do que aquilo que vemos, cada manhã, narcisisticamente, ao espelho, aferindo-nos ao desenvolvimento das experiências pessoais e/ou confronto com os outros;


* a imagem que os outros têm de nós – por vezes podemos não ser corretamente entendidos ou talvez julgados…isso nos fará aprender com a lidar com o menos bom apreço daquilo que somos, sem nos deixarmos vencer pelas críticas alheias…mais ou menos aceitáveis;


* a imagem que podemos querer que tenham de nós mesmos – tendo em conta as influências dos outros sobre nós, podemos desejar algo que nos pode condicionar no nosso comportamento, dando mais ouvidos àquilo que dizem de nós do que àquilo que somos de verdade;


* a imagem de imitação dos outros – com que facilidade podemos ser forçados a viver à maneira de outros, mas não somos eles, e isso poderá colocar-nos em conflito connosco mesmos e com os outros.


É essencial refletirmos nesta frase do pensamento grego: ‘conhece-te a ti mesmo’ (Platão), num misto de descoberta e de contínuo caminho de humildade, cada um para consigo mesmo e para com os outros…      
 


António Sílvio Couto