Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sábado, 30 de maio de 2020

Seremos (mesmo) um povo que não se deixa governar?



A ver por alguns dos dados disponíveis estamos a confirmar essa observação de um general romano que dizia sobre um tal povo que vivia nos confins da Iberia: é um povo que não se governa nem se deixa governar!
Ora, passados tantos séculos, mantemos bastantes tiques desta caraterística nacional, pois somos capazes de razoáveis atos de tenacidade, mas com relativa facilidade nos deixamos descair para a vulgaridade. Vejamos episódios do nosso tempo coletivo mais recente: com que sacrifício vivemos as agruras das fases de confinamento no estado de emergência e na situação de calamidade e, tão rapidamente, nos resvalou o pé para a asneira, deitando quase tudo a perder, ao parecermos aliviar as restrições e logo dispararam os números de afetados (infetados, internados e até falecidos) pelo vírus fatal!


Há quem considere que a nossa extensão de luz solar nos faz um tanto mais distendidos nas razões de aceitarmos as restrições – foram muitas e duras…outras virão piores – mesmo que disso dependa o sucesso das medidas, das regras e mesmo das melhores intenções. Dá a impressão que ainda não interiorizamos de que o sucesso dos outros depende do compromisso de todos e que estes todos contêm cada um…mesmo nos seus pequenos interesses. É verdade que raramente tivemos de nos unir para reconstruir o país – como aconteceu na maior parte dos países da Europa há cerca de setenta anos – e fomos vivendo ao ritmo do mais fácil e no mero desenrascanço à portuguesa…Nem a pertença à Europa dos ricos nos fez conciliar a preguiça com o trabalho, pois aquela suplanta este, bastará um pequeno sinal de abrandamento no esforço… para voltarmos ao ponto de partida, a miséria nacional. 

= Esperando que não seja uma leitura abusiva dos factos, a vaga da epidemia veio do norte para o sul, encalhando, por agora, no pântano da (dita) área metropolitana de Lisboa, que inclui o espaço entre Vila Franca de Xira e Setúbal, passando por Cascais, Loures ou Sintra.

Os primeiros infetados com o vírus foram os industriais de calçado e têxteis da área metropolitana do Porto, que foram ‘apanhar o bicho’ nas feiras e exposições do norte de Itália…por isso, os números impressionantes nos primeiros dias do ‘covid-19’. Decorridos mais de dois meses com o ‘credo na boca’ e escutando as notícias diariamente graves, vemos que na coroa envolvente da capital emergem casos cada vez mais preocupantes e com tendências pouco animadoras.

Praias a abarrotar de povo, atitudes pouco respeitadoras do espaço sanitário, gestos de quem não se cuida nem atende aos perigos dos outros ou se acautela em ser perigo para os demais… temos visto nas ruas, mais naquelas que percorremos do que nas que nos vendem nas televisões. Com efeito, os meios de comunicação social, que foram tão importantes para a prevenção, estão agora a tornarem-se os maiores difusores da confusão e até da promiscuidade de comportamentos de pessoas, de grupos e de inúmeros abusos de uns espertos sobre o resto da população… 

= Quando se quer conduzir um povo fazendo-o acreditar que o consumo é a raiz de todo o sucesso, não poderemos ter outras consequências do que aquelas já estamos acolher. Efetivamente dá a impressão que não soubemos aprender com o que vivemos nos tempos mais recentes. Continua-se a insistir na opção restaurante em vez da vivência da família em casa. Despeja-se dinheiro sobre os problemas em vez de os diagnosticar e resolver com honestidade e lealdade. Opta-se por fingir que está tudo bem, quando o bem que se diz que está não passa de uma ilusão alicerçada no engano, na patranha e na mentira, tanto política como económica e mesmo social.

O melhor retrato desta pandemia da inconsciência coletiva reinante é terem lançado mais um programa televisivo ‘big brother’, onde as pessoas colocam a sua vida no estendal da desvergonha e com isso pensam ganhar notoriedade. Pior ainda é a subtileza dos preconceitos com que são apresentados certos problemas – ou serão fait-divers de nichos de interesses ou de lóbi? – quando não passam de modas de circunstância e que, por tanto insistirem, podem vir a tornar-se um outro modelo cultural.  

Se não somos capazes de nos governarmos como convém, queira Deus que nos deixemos governar como é melhor…sem preconceitos nem recorrendo a modelos que já faliram noutras latitudes!       

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Com máscara não seremos desmascarados?


Eis que, de repente, a máscara se tornou um dos adereços mais importante de todos e para todos. Uma simples tira de pano – com maior ou menor simplicidade ou com um ou outro toque artístico – é hoje algo que nos faz estar em comunhão na prevenção para que não haja tanta desgraça ou nos faça tornar a todos vigilantes da saúde própria e alheia.

Numa visão cultural clássica saber-se-á que a ‘máscara’ era usada no teatro grego e posteriormente no de cultura latina, funcionando, entre outras coisas, para amplificar a voz e até para criar novas personagens nas representações. Claro que a função era diferente e a própria máscara tinha outra configuração, deixando a descoberto os olhos e a boca, órgãos que agora são resguardados com a utilização da ‘nova’ máscara.

O recurso à máscara como disfarce vemo-lo (ou melhor, víamo-lo), bastante difundido, na época do carnaval, tanto naquilo que tem de sério – repare-se no ‘baile de máscaras’ veneziano – como de folclórico – atente-se aos caretos de certas regiões rurais – ou ainda à tendência bizarra de comediantes populares… Neste âmbito a máscara como que poderá servir para a assunção de outros papéis nem sempre aceitáveis por quem a ela quer recorrer num misto de ser e de parecer…sabe-se lá a que preço e com que intenção. 

= Que tem, então, de especial a máscara fomentada, difundida e usada nesta contenção de pandemia? Será que já nos apercebemos dos riscos que corremos se não usarmos a máscara – cirúrgica ou social – no contexto da vida com os outros? Já percebemos que temos de nos defender e de cuidar da proteção alheia? 

= Desde meados de março que temos vivido etapas para enfrentarmos as causas, debelando as consequências deste coronavírus ‘covid-19’: desde o estado de emergência – duas fases de 19 de março a 2 de maio – até à situação de calamidade – em vigor desde 4 de maio – passando por dias de confinamento bastante restritivo – por ocasião da páscoa e no início de maio – fomos aprendendo a lidar com ‘algo’ que tem tanto de perigoso quanto de inesperado e sem rosto.

As mais variadas atividades foram reduzidas ao essencial, senão mesmo algumas suspensas ou até anuladas. Esta pandemia viral tornou-se quase tanto mais psicológica do que de saúde físico-biológica. Foi crescendo a desconfiança das pessoas, emergiu o medo mais tétrico e quase floresceu o que seria impensável de macabro na nossa condição humana.

De algum modo faliram muitas das certezas em que andávamos entretidos, mesmo as de âmbito mais profundo e considerado inabalável. Os ritos cultuais entraram em colapso, veja-se o encerramento dos templos e a suspensão dos atos religiosos… desde 15 de março até 30 de maio – setenta e sete longos dias – em que ‘o povo de Deus’ esteve, normalmente, em grande jejum do alimento de Jesus-eucarístico. Foram surgindo múltiplas formas de fazer chegar a eucaristia – de domingo ou à semana – àqueles que estavam confinados à sua casa… a capacidade de resposta foi impressionante, mas os riscos podem continuar se não forem dados passos de resposta a um catolicismo que seja comunitário e não de mera solução dos ritos e do cumprimento de preceitos…. Tanto quanto me foi dado perceber e executar consegui celebrar – com transmissão via Net radio católica – em cerca de cinquenta daqueles dias de confinamento e afins, com especial incidência aos domingos e, neste espaço que decorreu na parte final da quaresma e todo o tempo pascal… daí o ressurgimento em domingo de Pentecostes. 

= Eis-nos chegados ao momento em que não podemos abrandar na vigilância, pois os dados continuam a dizer que o vírus não está dominado e tão pouco isso acontece por decreto-lei ou por publicação de qualquer portaria… A pressa em querer pôr a economia a render poderá deixar-nos à beira do precipício, pois desgraçado será um país que viva mobilizado pelo consumo e não pela produção, que tente enganar os incautos com dinheiro para gastar e não ensine a poupar ou ainda que julgue sobreviver com balões de subsídios na medida em que terá a fatura a pagar mais depressa do que pensa… Foi, assim, que entramos, por três vezes – sempre com a mesma cor governante – na bancarrota… Já é tempo de aprendermos com o passado e não nos deixarmos manipular pelo que parece sucesso (salário), sem trabalho!     

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 26 de maio de 2020

Proposta de ato penitencial no domingo de Pentecostes 2020 (celebração comunitária da penitência na missa)


Decorridos mais de dois meses sem presença comum na celebração da eucaristia, eis-nos re-unidos (não é erro ortográfico nem gralha de escrita): ‘voltados a unir’ para a vivência da eucaristia dominical, essa – como diziam os primeiros cristãos – que ‘não podemos viver sem ela’. Mas tantas e tantas vezes temo-la vivido – ou será melhor dizer: temos estado por rotina – de forma displicente e talvez menos atenta e atenciosa. Por isso, queremos fazer um ato penitencial comum de pedir perdão a Deus dos nossos pecados para com Ele, para connosco mesmos e para com os outros.
Servimo-nos dos quatro aspetos que rezamos na confissão na missa: por pensamentos e por palavras; por atos e por omissões.
* Por pensamentos:
- quantas vezes, Senhor, pensei mal de Ti, por ocasião desta pandemia, talvez até possa ter praguejado contra Ti, por nos dares e permitires estas coisas que consideramos más e perigosas;
- quantas vezes, Senhor, não Te vi e Te julguei fora de toda esta confusão, culpando-Te de tantas das coisas desagradáveis com que temos de nos confrontar;
- quantas vezes, Senhor, me poderei ter julgado a mim mesmo, por não conseguir entender os acontecimentos da vida e questionei a minha fé incapaz de perceber com Tu velas por nós, sem disso nos darmos conta;
- quantas vezes, Senhor, julguei os outros e poderei tê-los avaliado sem compaixão;
- quantas vezes, Senhor, poderei ter desejado mal aos outros, culpando-os do que está a acontecer e não vendo, pelo contrário, as minhas culpas.
Porque pecámos, dizemos: Senhor, tem piedade de nós.
* Por palavras
- de quantas formas posso ter dito palavras mais de maldição do que de bênção, escandalizando os outros;
- de quantos modos posso ter tido conversas de maledicência para com Deus, criando mau ambiente à minha volta;
- de quantas formas posso ter dito palavras de revolta contra quem possa ter originado esta pandemia e até desejando mal a todos esses;
- de quantos modos poderei não ter tido paciência, quando fui confrontado com filas de espera ou com momentos de contrariedade;
- de quantas formas poderei ter tido conversas de coisas mais negativas do que positivas, mesmo sobre questões de fé, de Igreja ou quanto ao estado geral dos problemas, gerando mais revolta do que esperança.
Porque pecámos e fizemos pecar os outros, dizemos: Cristo, tem piedade de nós.
* Por atos
- quantas vezes, Senhor, aquilo que fiz coisas que Vos desagradaram, na medida em que não fui cristão na vida, mas antes me envergonhei da minha fé, ofendendo a esperança e prejudicando a caridade;
- quantas vezes, Senhor, poderei ter vivido mais no açambarcamento (de coisas, de comida ou de outros bens) do que na confiança em Deus e na atenção aos outros;
- quantas vezes fui mais materialista nas minhas reações do que crente na Providência divina;
- quantas vezes vivi mais fechado aos que me rodeiam, centrado mais nos meus interesses, do que atento às necessidades dos outros;
- quantas vezes tentei impor-me aos outros, não os respeitando nem lhes dando as oportunidades que têm ou que precisam.
Porque pecámos contra os outros e para contigo, dizemos: Senhor, tem piedade de nós.
* Por omissões
- de quantas formas, Senhor, fui egoísta, desculpando-me para não atender aos outros e aos seus problemas;
- de quantos modos, Senhor, me fechei àquilo que via nas notícias, ficando à espera que outros façam aquilo que eu, na minha modesta condição, deveria fazer como cristão;
- de quantas formas me refugiei nalgum tipo de vingança, sem ver nesta pandemia um convite à conversão;
- de quantos modos permiti que se gerassem em mim sentimentos de má-vontade até para compreender as dores e os sofrimentos das vítimas do ‘covid-19’;
 - por todas as vezes que me envergonhei da minha fé nas coisas do dia-a-dia.
Porque pecámos e Vos ofendemos queremos dizer: Cristo, tem piedade de nós.

 

Aqui fica uma mera sugestão. Pela minha parte irei tentar propô-la com quem celebrar a eucaristia nesse dia de reabertura dos nossos espaços de celebração à comunhão presencial dos irmãos. Mais irmanados no pecado poderemos celebrar melhor os santos mistérios!

 

António Sílvio Couto

domingo, 24 de maio de 2020

Entre o Papa e o rapper




Neste tempo assaz complexo que temos estado a viver de confinamento originado pelo coronavírus ‘covid-19’ dá a impressão que estamos mais suscetíveis de refletir e mesmo de discernir os sinais dos tempos nas coisas desta época.

Tenho bem marcado na minha memória – poderá ser até o mais impressionante de tudo isto – a simbologia do Papa Francisco a caminhar só, ao cair daquela tarde de chuva, na Praça de São Pedro (Vaticano), no dia 27 de março, nesse momento marcante de oração de intercessão pela pandemia…com as palavras e sinais que daí decorreram. Muito mais do que um episódio pretensamente religioso, aquilo que o Papa fez envolve uma leitura que exige ser descodificada, tanto no conteúdo como na forma: no conteúdo pelas palavras ditas – estamos todos no mesmo barco ou pelo apelo à intervenção divina; pela forma por aquilo que nos quis referir sobre a fragilidade de todos, começando pelos responsáveis e envolvendo todos os outros, seja qual for a idade, a condição social ou mesmo a capacidade de leitura atual e para o futuro…

Por outro lado, tenho ficado muito apreensivo sobre a significação mais profunda das imagens algo exuberantes de um rapaz com menos de vinte anos, dito de ‘rapper’, onde se misturam palavras e expressões, sinais e impressões de alguém que vive (vivia) num mundo onde certos códigos comuns estarão um tanto fora da normalidade. Terá sido isso que se conjugou para que tenha sido morto, com laivos de atrocidade…à mistura com um certo exibicionismo de riqueza, não se sabendo se verdadeira, se inventada ou até manipulada.

Dizem que estes dois factos poderão ser contemporâneos nas datas, dado que o rapper foi dado como desaparecido em meados do mês de março. Seja como for este acontecimento funesto tem algo de misterioso deve-nos fazer ir um tanto mais ao fundo no seu significado mesmo social.

= Não queremos colocar as duas figuras em contraposição, mas antes como possíveis ‘guias’ de leitura dos contraditórios do nosso tempo, sem recorrermos ao juízo barato nem com quaisquer tendências morais. Com efeito, que lições podemos colher de um e de outro? A ‘solidão’ do Papa tem algo a ver com a paixão solitária de Jesus? A exuberância do rapper fala-nos dos objetivos de vida (e não só) dos nossos jovens? A caminhada titubeante do sumo pontífice exibe a Igreja na sua linguagem não-percetível pelo mundo? Os artefactos que o rapper ostentava revelam as intenções mais subtis da nossa juventude, crente ou agnóstica? A disponibilidade o Papa para assumir ser a voz tribunícia de todos consegue captar a atenção da maioria? A imitação do rapper colhe mais efeitos do que o possível desacordo de quem possa pensar de forma diferente dele? A linguagem de simplicidade do Papa não entrará em confronto de significação com a postura do rapper e seus seguidores?

= Estamos perante dois claros estilos de vida e isso não tem a ver só com a idade – o Papa tem mais de oitenta anos e rapper falecido menos de vinte – mas com os possíveis critérios e valores de conduta, atendendo ao processo educativo, as motivações e até à definição de objetivos ou mesmo analisando o substrato cultural.

Para muitos dos jovens da nossa sociedade parece que tudo é fácil, desde o dinheiro até ao conforto, passando ainda como dado adquirido, mas que, por ocasião desta pandemia, se viu estar em forte perigo, tal como a saúde, a segurança ou mesmo a sobrevivência económica nacional e internacional. Urge, por isso, comunicar a todos quantos fazem da contestação – social, política, sindical ou profissional – o critério de conduta que há muita outra gente que não tem o essencial e que eles podem estar a desperdiçar as oportunidades, pelas quais não tiveram de lutar o mínimo.

Certos setores da reivindicação têm de ser mais lógicos – dizemo-lo em relação às questões europeias e outras – pois se não querem o modelo de Europa que temos porque continuam a lançar candidatos para lugares que contestam. Não seria mais acertado não perderem o tempo com coisas que rejeitam em vez de indistintamente disso usufruírem?

Quem porá juízo na cabeça de tantas pessoas que continuam a pretender influenciar os outros com o ridículo da sua exibição de novo-riquismo? O rapper, dizem, foi vítima dessa ostentação. Aprendamos…     

  

António Sílvio Couto

terça-feira, 19 de maio de 2020

Confinamento: intervenientes…antes, durante e depois


Uma das vertentes mais singulares da complexa situação de confinamento que temos estado a viver, é a dos vários intervenientes…em todo este processo: pessoas singulares e coletivas, desde as autoridades (políticas e governativas, de saúde e de segurança, de vigilância e de observação/notícias, no sentido religioso ou na envolvência social, económica ou mesmo cultural) até aos cidadãos (os atingidos pela doença – infetados, internados, recuperados e falecidos – e o resto que viveu este confinamento), passando pelas diversas etapas psicológicas de perplexidade, de medo, de ansiedade, de angústia, de reflexão…até à tentativa de descompressão e de reaprendizagem em viver com ‘algo’ – dizem que é vírus com diversas mutações – que não conhecemos e nos faz humilhar nas nossas tão altivas convicções.

Embora este seja o enunciado de um texto que já foi publicado, vamos agora esmiuçar os diversos itens:

* Autoridades (políticas, governativas, de saúde, de segurança ou de vigilância) que tiveram de provar a qualidade, a competência e a maior ou a menor assertividade das decisões. Com efeito, o processo de comunicação de quem, atualmente, ocupa o poder teve um método um tanto errático, mas minimamente camuflado ou sob a cobertura dos inquisidores ditos externos, a comunicação social, pois, em muitas situações quase se notava que estava vendida a quem lhe fornecia os dados cozinhados, apresentados e mesmo mastigado e era só reproduzir o que vinha da agência governamental…sem espinhas nem ossos. O menu da ‘hora de almoço’ deste itinerário tinha um fidedigno do guião: se um dia era tomada uma decisão, ainda mal articulada, na manhã seguinte surgia um decreto-lei, que rapidamente era esclarecido ou contraditado por um diploma mais acertado e assertivo para a questão em presença…

Momentos houve em que a confusão era tal que o melhor foi retrair os intervenientes para que o espetáculo não fosse mais degradante. Quem teve de dar a cara diariamente no briffing da saúde, por volta do meio-dia, foi aprendendo que notícias graves e lutuosas não se apresentam com sorrisinhos baratos e que até podem ser entendidos como ofensivos da dor da perda… A arte de comunicação foi corrigindo defeitos de simpatia sem nexo nem articulação. Em tantos momentos tive a sensação de estar a ser enganado não só no conteúdo das comunicações como naquilo que de subterrâneo emergia. Uma estranha perceção de que muito daquilo que nos era comunicado era uma verdadeira ‘fake news’ (falsa notícia) e o tempo se encarregará de o confirmar!

A nota de leviandade – que é muito mais do que leveza – com que certas figuras se apresentavam diante dos outros cidadãos deixa muito a desejar na capacidade de conduzir os destinos da nação, pois esta mais parece um feudo de uns iluminados que a pátria de todos… Muitos dos atores deste cenário são artistas de classe secundária, bafejados pelas circunstâncias da incapacidade dos opositores.

* Do lado dos cidadãos, ficou a impressão de que nem sempre houve verdade nos números, sobre a avaliação do problema: quantos foram os atingidos pela doença – infetados, internados, recuperados e falecidos – sem esquecer o resto que viveu este confinamento? Pequenos grandes dados nos devem fazer refletir: a forma como foram vividos o ’25 de abril’ e o primeiro de maio’ são dignos de uma democracia que trata todos de forma igual ou há – como na linguagem orwelliana – porcos que são mais iguais do que os outros…embora, aparentemente, se sirvam do mesmo espaço de alimentação. Veja-se ainda a confusão de usar ou não máscara no trato com os outros, quanto mais a perplexidade em entender quem pode ou não ser transmissor do vírus, se os mais ricos ou se ele atingia, sobretudo, os pobres. Os meios técnicos e humanos envolvidos no combate à pandemia dá a impressão que ficaram aquém do que seria necessário, embora tenha parecido suficiente…na medida em que os avaliadores são os mesmos que os promotores!

Houve coisas sérias tratadas a brincar e outras mais ligeiras que foram empoladas como se fossem muito importantes. Repare-se no (dito) fenómeno do futebol, que balanceou entre retomar o campeonato principal e ser dado como acabado, enquanto outros de escalões inferiores foram encerrados à la carte!

Os últimos dias foram dignos de análise para compreendermos o nível cultural/educacional da população portuguesa: a invasão das praias, transgredindo regras e provocando as entidades fiscalizadoras. Mais uma vez se notou que uma boa parte não sabe viver em harmonia cívica… Pasme-se, agora: o governo, mais uma vez por diploma, fez a vontade aos transgressores e já deixa todos irem à praia. O sistema sanitário higienista aguentará as benesses populistas dos senhores da capital?

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Entre a quaresma e o ramadão…em confinamento


Grosso modo de 15 de março a 15 de maio, isto é, dois meses, vivemos em confinamento. Vivemos isso que tem sido a retração de contatos sociais e de cumprirmos a recomendação de #fiqueemcasa…com que fomos matraqueados, sem dó nem piedade.

Por outra perspetiva e se atendermos às datas e ao seu significado podemos ver, numa certa linguagem ‘religiosa’ de incidência quase social, que o (dito) estado de ‘emergência’ começou a meio da quaresma (os católicos deixaram de ter missa com assembleia no dia 15 de março, 3.º domingo quaresmal) e a (pretensa) situação de ‘calamidade’ quase termina no último dia do ramadão deste ano, a 23 de maio…

Tentemos, numa espécie de retrospetiva, rever alguns dos aspetos mais relevantes deste tempo de confinamento…até para sabermos colher lições em relação ao futuro próximo.

- Uma das vertentes mais singulares desta situação complexa poderemos colocá-la nos vários intervenientes…pessoas singulares e coletivas, desde as autoridades (políticas e governativas, de saúde e de segurança, de vigilância e de observação/notícias, no sentido religioso ou na envolvência social, económica ou mesmo cultural) até aos cidadãos (os atingidos pela doença – infetados, internados, recuperados e falecidos – e o resto que viveu este confinamento), passando pelas diversas etapas psicológicas de perplexidade, de medo, de ansiedade, de angústia, de reflexão…até à tentativa de descompressão e de reaprender a viver com ‘algo’ – dizem que é vírus com diversas mutações – que não conhecemos e nos faz humilhar nas nossas tão altivas convicções.

- Haverá, no desenrolar do espetro da História, um tempo que será dedicado a tentar interpretar tudo isto que temos estado a viver. Já foi assim noutras situações de epidemia, com perdas de vidas humanas, noutros casos inesperados e de alcance mais ou menos generalizado. Dizem os entendidos na matéria que há duas formas de equilibrar a demografia: pela guerra ou pela doença. Daquela temos estado livres, particularmente na Europa, de forma generalizada, desde há setenta anos. Por entre laivos de algum desenvolvimento temos conseguido suplantar etapas de doença – muitas delas provenientes como agora do Oriente – e, com muito esforço disso a que chamaram, desde o final da segunda guerra mundial, o ‘Estado social’, isto é, o estado/governo cuida das pessoas atendendo à saúde, à segurança e ao bem-estar coletivo… a baixo custo.

- Apanhados de surpresa, estamos a enfrentar novos desafios, colocados a um tempo marcado pelo consumismo. Para uma imensa maioria uma boa parte do sucesso, de tranquilidade ou de regalias não foi conquistado nem envolveu qualquer participação na luta, foi-lhe dado sem esforço e tão pouco desejado, mas antes fornecido como se fosse algo inquestionável e adquirido para sempre. Esta pandemia fez abalar tudo, desde os alicerces até aos frutos da ‘nossa’ vida pessoal ou coletiva, onde conta(va)m mais os direitos do que as obrigações, onde quase tudo se compra sem que tal tenha sido ganho com trabalho e o empenho correspondente. Quem conheça, minimamente, a História do passado perceberá que algo idêntico se viveu na cultura romana – bastará visitar cidades dessa época – onde o epicurismo se tornou forma de vida e o hedonismo critério moral… Temos estado a viver um reflorescimento dessas tendências na nossa cultura. Lá como agora, a dimensão espiritual é subordinada ao imediatismo, à superficialidade, à imposição do ‘eu’ sobre o ‘nós’, sem tempo para gastar com coisas que não sejam palpáveis, sensitivas e de prazer, não temendo atingir os fins sem olhar a meios…

- Preocupa-me seriamente qual deve ser o papel do cristianismo em tudo isto que estamos (ainda) a viver. No passado, o cristianismo foi suporte de uma nova cultura e construiu uma nova civilização…mesmo do pântano social vigente. Agora – a ver pelas reações e atitudes de muitos dos nossos cristãos, incluindo responsáveis eclesiásticos – temo que sejamos engolidos por esta maré apocalíptica e de onde possam surgir alguns messianismos mais integristas e conservadores, saudosistas da cristandade, enredados numa ‘liturgia’ gongórica sem mistério nem compromisso de evangelização. Um tanto significativamente não vimos grande alusão às grandes figuras de proteção em tempos de epidemias, como São Sebastião ou São Roque. Não foi tão claro quanto devia ter sido a envolvência no suporte de fé em Deus como seria expetável… Tirando a imagem impressionante do Papa Francisco na tarde de 27 de março, na Praça de São Pedro, pouco mais foi profético de forma questionadora de tudo e de todos!   

 

António Sílvio Couto

sábado, 16 de maio de 2020

Quem se destaca nas épocas de crise?


Embora estejamos sem saber em que etapa estamos desta crise da pandemia do ‘covid-19’ podemos, de algum modo, ir fazendo uma leitura de algumas coisas/situações/casos/figuras que fomos percebendo…

Se usarmos como critério de leitura outras vivências anteriores – possivelmente piores, mas não tão empoladas, dado que havia muito menos meios de comunicação – poderemos encontrar vítimas dessas pestes, de tais epidemias, de surtos ou de doenças fatais…onde se destacaram tantos e tantas pela sua forma como lidaram com os problemas, como os tentaram resolver, pagando, por vezes, com a vida a sua entrega em favor dos outros.

Dentro de um quadro socio-religioso cristão faz parte da referência à ‘ajuda’ – intercessão, intervenção milagrosa, suporte ou defesa – alguns daqueles que viveram momentos de provação e que foram, posteriormente, invocados por ocasião ‘da fome, da peste e da guerra’, como São Sebastião ou São Roque.

Vejamos a configuração destes dois grandes testemunhos em maré de peste e como são ainda hoje invocados.

* Sebastião nasceu em Narbonne (sudoeste de França), no final do século III, e desde muito cedo seus pais se mudaram para Milão, onde ele cresceu e foi educado. Atingindo a idade adulta, alistou-se como militar, nas legiões do Imperador Diocleciano, que ignorava que Sebastião era cristão, mas devido à sua valentia foi nomeado chefe da guarda pretoriana. Denunciado por um soldado devido à proteção que dava aos cristãos perseguidos, foi Sebastião condenado à morte e executado, uma primeira vez a que sobreviveu e uma segunda, torturado com setas, como se vez na sua imagem iconográfica. Sepultado com veneração, foram as suas relíquias trasladadas, no século VII, para uma basílica construída pelo imperador Constantino. Ora, nessa ocasião, grassava uma forte epidemia em Roma e, conforme iam passando as relíquias as pessoas ficavam melhores e a dita epidemia desapareceu. Desde, então, começou a ser invocado por ocasião da ‘fome, da peste e da guerra’, como aconteceu em Milão, em 1575, e em Lisboa, em 1599, que invocaram com sucesso, São Sebastião em momentos de epidemia...
Repare-se que, sobretudo nas povoações mais antigas, há algum testemunho de súplica a este santo, colocando essa referência (igreja, capela, nicho ou estátua) à entrada da povoação, como que em jeito de defesa e de proteção...
* Roque nasceu em Montpellier (sul de França), nos séculos XIII-XIV, filho de uma família abastada, ficou órfão muito novo e foi educado por um tio e estudou medicina. Ao atingiu a maioridade distribuiu os bens pelos pobres e partiu em peregrinação a Roma. Pelo caminho foi-se confrontando com várias cidades a viverem surtos de peste. Usando simplesmente um bisturi e uma cruz foi socorrendo as vítimas, que eram curadas. No regresso de Roma a Montpellier, São Roque foi ele próprio atacado pela peste, em Piacenza. Terá sobrevivido no isolamento que escolhera graças a um cão que lhe levava pão todos os dias. Curado milagrosamente, Roque regressou a Montpellier para doar o resto dos seus bens. Porém, com a cidade em guerra civil, foi confundido com um espião e preso. O governador da cidade, seu tio, não o reconheceu, nem ele se terá identificado. Roque permaneceu em esquecimento, preso durante anos, a viver a pão e água e em oração. Numa tentativa de confirmar se ele estava morto, o carcereiro, que era coxo, tocou-lhe com a perna menor e ficou curado. Identificado o morto perceberam que era Roque pelo sinal de uma cruz que tinha no peito desde a nascença. São Roque é invocado contra as pestes e epidemias, sobretudo na proteção do gado contra doenças contagiosas. É geralmente representado com uma ferida na perna, com um cão aos pés e com um bastão e uma vieira típica dos peregrinos... 

Estes dois protetores/defensores/intercessores – cristãos com dez séculos de diferença e originários da mesma região francesa – contra as doenças epidémicas não foram tão noticiados como seria previsível nesta vaga pandémica. Será que já não precisamos deles ou que eles foram invocados em fases menos ‘científicas’ da humanidade e até do cristianismo? Será que nos envergonhamos dos nossos heróis e santos…cristãos?

Voltaremos ao tema para apresentarmos outras figuras – santos ou não – que dedicaram a sua vida em maré de epidemias, de fome e de guerra…ontem como hoje.

 

António Sílvio Couto