Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 20 de maio de 2019

O futebol pode alavancar o país?


De entre as múltiplas declarações, por ocasião da recente conquista do campeonato nacional de futebol, destacaram-se as que foram proferidas pelo treinador vencedor, ao afirmar: ‘se vocês se unirem e tiverem a força e a exigência que têm com o futebol nos outros aspetos do nosso Portugal, da nossa economia, da nossa saúde, da nossa educação, vamos ser um país melhor’…

Eis uma altissonante declaração que devia ser colocada como pensamento nas diferentes intervenções de tantos que falam, mas não fazem; que verborreiam, mas sem conteúdo; que dizem o que não sabem e que sabem o que não dizem; que gostam de se (fazer) ouvir, mas não escutam o que não gostam; que juntam frases sem conteúdo e não dão conteúdo ao que podiam dizer nas frases… Numa palavra este ‘desconhecido’ do mundo da política pelo futebol deu lições – profundas, reais e sinceras – de política a propósito de querer falar de futebol!   

= Em tempos mais ou menos recuados – sobretudo na vigência do regime da segunda república – o futebol era como que um dos componentes do tripé nacional: Fátima, fado e futebol… Também nos tempos mais recentes os feitos do mundo do futebol de seleções e de clubes como que se tornaram tábua de salvação do marasmo nacional. Muito para além das quezílias com que somos continuamente matraqueados, temos de aproveitar momentos e declarações como as supra citadas para tentarmos perceber como podemos ser, na Europa da concorrência, algo mais do que laboratórios para ‘vender’ talentos nas habilidades da bola e para catalisarmos as energias recebidas em ordem a fazermos este país/nação mais forte, mais solidário e mais humano. 

= Independentemente da coloração clubística – bem mais profunda e transversal do que qualquer outra na nossa sociedade – pode(re)mos levar a sério o que foi dito por entre eflúvios de comemoração. É verdade: temos de ser tanto ou mais exigentes para com os outros setores da vida pública e social como somos para com o futebol nas suas paixões, gastos e discussões.

Economia, saúde e educação foram os campos que foram referidos pelo treinador vencedor. Sim, se houvesse um mínimo de intransigência nestes aspetos como quanto ao futebol, a nossa vida coletiva estaria muito mais garantida porque não permitiríamos que nos enganassem com promessas nem deixaríamos que nos fossem atirando desculpas quando as coisas não funcionam devidamente.  

= Diante do futebol-desporto temos de saber viver com essa dimensão da vida artística como se fosse uma escola de vida. De facto, o futebol como indústria tem vindo a cavar a sua autodestruição, pois é jogado mais fora do campo da prática, retirando à arte de bem-tratar a bola a componente mais lúdica e saudável. Quantos jovens são aliciados para virem a ser jogadores, como se isso fosse algo que se consegue sem trabalho, disciplina e dedicação. Talvez ainda vivamos no engano dos sucessos e não tenhamos aprendido com os erros e, sobretudo, com a aceitação das vitórias alheias. Estas fazem-nos crescer para que depois tenham respeito pelas nossas próprias conquistas.

Urge ser difundido todo o processo de construção das vitórias, particularmente, quando se alicerçam nas derrotas assumidas, honestas e construtivas. Precisamos de ser ajudados – por quem tem a experiência de conduzir outros – a sabermos distinguir entre as finalidades e os meios, pois, muitas vezes, estes subornam aquelas. No futebol como no resto da vida nem tudo vale para se ser vencedor…  

= É verdade: as lições do futebol podem alavancar o país. Eis breves conceitos que poderão ser transferidos de um para o outro: espírito de unidade ou de equipa, rumo a um objetivo comum; capacidade de escutar e de trabalhar com os outros; respeito pelos adversários para ser respeitado, tanto nas vitórias como nos insucessos; dinâmica de serviço, onde uns se ajudam aos outros e se deixam ajudar; intercomunhão e espírito de solidariedade no dia-a-dia, sobretudo quando se passa por dificuldades… Numa palavra: o país não é só futebol, mas o futebol pode moralizar, nos (seus) aspetos positivos, os meandros do país!

 

António Sílvio Couto

sábado, 18 de maio de 2019

Os outros são o nosso espelho!




Na sua sábia e apurada vivência da vida, os adágios populares podem servir-nos de alavanca de reflexão sobre aquilo que somos, o que desejamos ser ou aquilo que poderemos vir a ser.

Assim o ditado popular – ‘os outros são o nosso espelho’ ou ‘os outros são o espelho do que somos’ – como que nos poderá servir de motivo de análise para algumas das questões mais sensíveis…coletivas e pessoais. Com efeito, têm sido muitas e díspares (nalguns casos disparatadas) as reações degeneradas em catadupa sobre o modo como um tal ‘self-made man’ madeirense, que fez fortuna na África do Sul e encantou com os seus sucessos os governantes, os banqueiros e uma onda da moda nos espaços ligados à compra/venda de obras de arte de grande valor.

Uma boa parte dos reacionários – os que reagiram – ao tal senhor não conseguiram perceber que ele tipifica um tempo/época, um país/nação, um estilo/modo de estar de tantos/as portugueses/as. De facto, a forma (quase) meteórica como ele venceu cá pelas terras do continente tornou-se um caso de estudo, pois à sua sombra e à sua volta muitos subiram também… esses mesmos que se sentem incomodados por constarem das fotografias e dos vídeos com ele, atacando certos trejeitos do seu feitio como se fossem arrepios por se verem denunciados em idênticas lacunas…

Alguma comunicação social promove, incentiva e ataca o tal senhor, mas foi a mesma que o engrandeceu, beneficiou e se regalou com festas e vernissages de uma sociedade do faz-de-conta à mistura com resultados de outra dimensão não-assumida. Como é recorrente também aqui se passou de ‘bestial a besta’ num ápice, bastando, agora, que se arvorem em moralistas da chafurdice não lavada. Efetivamente, muita da comunicação social apadrinhada pelas redes sociais desempenha visivelmente a sua função de abutre banqueteando-se com os destroços ainda não incinerados…

Numa leitura ética/moral – pelo menos o que se sabe e/ou se vai dizendo – o que tem aparecido, esta figura tão malquista põe-nos a todos à radiografia do que somos ou que vamos disfarçando enquanto é possível. Eis alguns aspetos que considero poderem ser lidos e analisados:

- Sucesso antes de trabalho – esta leitura algo recorrente nos tempos mais próximos (para trás e para a frente) parece que cada português está fadado para ser uma reprodução do tal senhor de sucesso, sem grande esforço e, se possível, sem trabalho. Ora só no dicionário é que ‘sucesso’ aparece antes de ‘trabalho’…

- Reinar quanto baste – nos anseios de muitos de nós, portugueses, é preferível aproveitar o que dá enquanto dura, antes que se esgote a fonte do que prevenir, poupando, para quando possa vir a faltar. O consumismo tornou-se a nova e mais seguida religião…popular.

- Chama-lhe antes de que te chamem – como em certas discussões de bairro é preferível colocar em causa a honorabilidade dos outros, antes que reparem na nossa desfaçatez. O anátema lançado sobre o tal senhor como que parece exorcizar muitos dos nossos fantasmas de incongruência e de mentira encoberta…  

= Este senhor é uma espécie de bode expiatório de tantos dos erros de políticos, de jornalistas, de autarcas, de governantes, de fazedores de opinião, de homens/mulheres da rua, pois enquanto olham para ele e invetivam o seu comportamento poderão corrigir as manhas de tantas situações graves e gravosas. Não basta exigir justiça sobre um caso, quando tantos outros – mais culposos e culpáveis – parecem continuar impunes, senão no juízo ao menos no julgamento no lugar correto.

Ao espelho daquilo que podemos ver, exige-se-nos que aprendamos as lições daquilo em que podemos ter prevaricado. Quantos ‘berardos’ se pavoneiam nos carros de alta-cilindrada, se banqueteiam nos restaurantes caros, fazem compras nos espaços mais exotéricos, emitem comentários pelos posts mais efusivos ou se escondem até que os descubram envergonhados das façanhas menos recomendáveis!...

Deixamos um pensamento do Evangelho: cuidai de conseguir amigos com o vil dinheiro para que eles vos acolham na hora da dificuldade… Todos temos telhados de vidro bem mais quebráveis e esburacados…do que pensamos.   

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Iniciativa privada gera riqueza


‘É a iniciativa privada quem cria riqueza em Portugal. São os empresários privados os fatores de crescimento e de justiça social. São eles o fator decisivo do progresso do país, é assim e será sempre assim’.

Esta afirmação foi proferida pelo Presidente da República por ocasião da condecoração de uma associação empresarial a celebrar cento e setenta anos de trabalho e dedicação.

Vivendo numa Europa onde se tentam impor os interesses das várias nações, este rasgo do PR pode deixar amargos de consciência a tantos dos intervenientes na distribuição dos dividendos, que nem sempre são ou foram resultado do reconhecimento da iniciativa privada.  

= Bastará olhar para o ar sobranceiro e minimamente totalitário com que certas forças da governança – prestes a expirar, assim o queremos e desejamos – falam e atuam, amesquinhando tudo o que possa ser resultado da iniciativa privada. Campos como a saúde, a educação ou mesmo a cultura estão reféns das tomadas de posição anti-privados. A imposição dos tentáculos estatais percorrem muitos dos âmbitos de intervenção nas políticas atuais, pois a sanha persecutória dos trotskistas tem vindo a fazer as suas vítimas, já na linha do anti-particular da época do período revolucionário de 75.

- Para quando se fará a criminalização das forças que destruíram os milhares de postos de trabalho em terras conquistadas pelos símbolos marxistas e seus correligionários?

- Para quando se dará voz aos explorados pelas forças (ditas) defensoras das ‘classes operárias’, mas que as fizeram desaparecer sem rasto nem feitio?

- Para quando a libertação da ditadura das autarquias subjugadas pelas conveniências dos eleitos, mas sem capacidade de sobreviverem, se a torneira partidária for fechada?

- Quem são esses tais autoapelidados de ‘patriotas’, que se deixam vender por protagonismos baratos, em saldo e sem nexo, mesmo que servem mais a ideologia do que os interesses nacionais? 

= Pior do que a nacionalização dos ‘meios de produção’, para usarmos a linguagem de tantos do anti-privado, é a consonância negativa em torno de questões culturais, onde só vale quem se enquadra na bitola do regime, ao qual convencionaram chamar de democrático, mas que é mais autoritário do que qualquer outra ditadura e que faz do menor-denominador-comum o critério para ser bem ou mal aceite, popular ou rejeitado, de interesse ou mesmo manipulado… A comunicação social é de entre tantos artífices um dos melhores veículos para fazer proliferar a mediania, que é uma outra forma de dizer mediocridade!

Não tivesse proferida em direto a afirmação supracitada do PR e aquela frase, algo essencial neste tempo de reversões em favor das nacionalizações, teria ficado esquecida, como pensamento não expresso ou até como intenção de menor apreço pelo investimento da iniciativa privada… 

= Se atendermos aos números podemos ter outra perspetiva do problema da contraposição entre funcionários públicos e trabalhadores privados. Têm como emprego nas administrações públicas (central, regional, local e fundos de segurança): 683.459 pessoas, sendo que dois terços destes o fazem na administração central e em percentagem da população ativa ocupam 13,1%... Teremos, então, que 89,9% não é atingida, beneficiada nem reivindica o que uma imensa minoria aufere…

Pior quem suporta esta clique da nossa população são os privados com os seus impostos e nem sempre remunerados em razão da riqueza que criam, geram e fazem crescer. Por isso, ver certas intervenções faz com que pensemos, se os funcionários estatais são tão bons ‘trabalhadores’, porque andam ao sabor da corrente que lhes advém de quem faz com que os impostos sejam a fonte de rendimento de tantos dos beneficiados…

Quem tem esticado a corda para o lado dos funcionários públicos vai ter de se explicar, muito em breve, sobre a rutura de meios para que possam ser suportadas tantas benesses a quem não produz em conformidade com aquilo que recebe. De facto, os baixos salários servem para manter a penumbra da miséria, mas os que ultrapassam as possibilidades fazem crer que a crise vai voltar sem dó nem piedade…para todos!

  

António Sílvio Couto


terça-feira, 14 de maio de 2019

Quem ‘suporta’ quem?



Num destes dias, após acirrado debate parlamentar, disse um dos intervenientes: o partido ‘A’ não suporta o partido ’B’!

Por entre surpresa e ironia – ainda no ato – foram surgindo as reações…mais ou menos questionáveis e/ou aceitáveis. Que quer dizer ‘suportar’ num contexto destes? Será de exclusão e corte de relações ou de não-aceitação de acordos e concordância? Poderá ser ainda entendido ‘suportar’ como articulação entre os intervenientes ou pelo não-suporte ver nisso algo que rejeita colaboração e participação nas iniciativas alheias? 

= Se consultarmos os vários dicionários veremos como definição – nos diversos âmbitos e circunstâncias – de ‘suportar’: ter sobre si, aguentar, ser a base ou o suporte, suster o peso, permitir, tolerar, sofrer, estar à prova…resistir, ter capacidade, arcar com…

Misturando as diferentes vertentes poderemos encontrar em ‘suportar’ aspetos do foro físico, na dimensão psicológica e mesmo na referência moral e espiritual.

É diante desta multiplicidade de recursos da palavra ‘suportar’ que desejamos fazer esta breve reflexão. 

= Na convivência das pessoas umas com as outras – seja qual for o alcance ou mesmo o interesse – podemos ir descobrindo que nem sempre é fácil essa articulação, dado que muitos/as dos intervenientes atuam de forma preconceituosa, defeituosa ou mesmo insidiosa; explicando: quantas vezes as pessoas se toleram mais do que se aceitam como cada um é e não como se desejaria que fosse; quantas vezes corremos o risco de olhar, avaliar e julgar os outros a partir do nosso ‘eu’ marcado por experiências negativas e/ou traumatizantes…há mais ou menos tempo; quantas vezes nos podemos servir dos outros para deles tirarmos proveito, seja de promoção e de oportunismo, seja de alguma forma de egoísmo mais ou menos explícito…

Diante destes aspetos ‘suportar’ poderá parecer mais um jeito de enganar do que de conviver, de usar os outros do que com eles confraternizar, de torná-los mais descartáveis do que possíveis ‘amigos’… 

= Na caraterização dos nossos dias – que não são piores nem melhores do que os do passado – podemos ainda encontrar situações e circunstâncias, pessoas e associações que tentam servir de suporte aos mais fragilizados, não só cuidando deles como ajudando a que outros possam fazer esse serviço de cuidadores – quantas vezes sem reconhecimento merecido – nas oportunidades de fragilização. As pontas da vida humana – infância e velhice – são dos momentos mais necessitados de suporte, desde a família até às dificuldades mais ou menos percetíveis. Certas afetações – mesmo económicas – não conseguem colmatar as debilidades nem as agruras de tantos dos ‘nossos’ grandes-idosos carentes de atenção, de carinho e de presença… Isso é, positiva e ativamente, suportar, semeando hoje para poder vir a colher amanhã.  

= Por último, uma abordagem sucinta sobre alguns conceitos bíblicos onde o conceito ‘suportar’ e as atitudes dele decorrente estão presentes.

Na abordagem que São Paulo faz ao tema da caridade, na 1.ª carta aos Coríntios, capítulo 13, diz-se no versículo 7: ‘tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta’…numa profunda e simples declaração a que a caridade tudo suporta dos outros para consigo e de si para com os outros…sendo a referência com que todos podem contar, sem nunca se esquivar ao compromisso e à confiança.
Noutro texto Paulo, na linha de viver a unidade entre os discípulos de Jesus, refere: ‘exorto-vos a que procedais de um modo digno do chamamento que recebestes; com toda a humildade e mansidão, com paciência: suportai-vos uns aos outros no amor, esforçando-vos por manter a unidade do Espírito, mediante o vínculo da paz? (Ef 4, 1-3). Por seu turno, na carta aos Colossenses 3,13 diz-se: ‘suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se alguém tiver razão de queixa contra outro’.

Quer dizer, então, que ‘suportar’ implica amor, perdão e unidade para com os outros e mutuamente. De quantas e tão variadas formas poderemos suportar mais do que ser suportados…

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Chantagem – arma, recurso ou vitória?


Por estes dias vimos, cá pelas terras lusas, certos recursos ‘políticos’ dignos de outras paragens: partindo de suposições nas causas, houve quem criasse cenários de ‘crise’ política, em ordem a fazer valer outras motivações que estariam fora do alcance do público em geral.

De uma reunião à maneira de trabalho de grupos de adolescentes – tais foram as imagens veiculadas, dumas tantas deputadas (eles não figuravam) de quadrantes diversificados – surgiu um toque-a-rebate dos partidos, pois havia quem entrasse nas contas do governo e fosse baralhar o ‘bom’ desempenho orçamental… O que vimos foi um toldar generalizado sobre as consequências de vir a ser aprovada a pretensão de um setor profissional, os professores. Os números de gastos não tinham efeito imediato, mas o alarido foi assaz complexo e um pouco mal explicado.

A espada de Dâmocles da instabilidade pendeu sobre o país, agora que tudo parecia quase uma ‘arca-de-Noé’ em harmonia entre contrários. As interpretações foram, no mínimo, ideológicas entre os favorecidos nas reversões, desde 2015, e os ainda não contemplados, embora do lado da mesma fatia dos votantes e/ou correligionários.

Quando era posta a ter de decidir pela primeira vez, a governança entrou em curto-circuito de elevada rotação. Para quem contestou, há quatro anos atrás, que o responsável do partido tinha ganho por ‘poucochinho’, agora parece que andará no fio da vitória pírrica, pois poderá ganhar sem descolar dos opositores… A hipótese de engendrar uma certa chantagem tinha tentáculos para se mover – qual centopeia de interesses não disfarçados – e bastou um pequeno sinal para que o processo fosse desencadeado.

Ora os servidores oficiais – uma certa comunicação social próxima no espetro partidário e por outras encomendas desembrulhadas – encheram os espaços de comentário, de influência e mesmo de manipulação. Como de costume quem possa opinar de forma discordante dessa oficial já não tem tempo de antena e nem sequer pode exprimir o seu pensamento, perante os democratas de pensamento único, unificado e uniformizado… O recurso à chantagem apareceu sem peias nem rodeios.

Cada vez mais se pode perceber que o ‘delito de opinião’ é a nova forma de censura em tantos dos espaços noticiosos, nas redes (ditas) sociais e mesmo nas interpretações mais ou menos noticiosas. Quando se considerava que a chantagem podia ser uma vertente de vitória poderemos ser confrontados com novas formas de sindicalismo – mais de noventa por cento do mais recente já está fora dos espartilhos das centrais sindicais – e a contestação escapa aos circuitos conhecidos. Concomitantemente vemos que há setores com excesso de ‘representantes’ sindicais, nalguns casos, tirados os dirigentes, não há mais ninguém. Noutras circunstâncias vemos que certos bem-falantes já não exercem a profissão, que dizem representar, há dezenas de anos. Muitos outros – mesmo entre os mais recentes – porque se tornaram mais visíveis, veem escarafunchada a vida privada, numa tentativa de desacreditar aquilo que pretendam reivindicar…

Contrariamente àquilo que disseram alguns comentadeiros: não vale tudo a quem governa e tão pouco durará a mentira que tentam impingir aos eleitores e cidadãos. Quem usa de chantagem para tentar vencer, não merece a mínima consideração nem respeito. Quem usa a posição de privilégio nas informações de que dispõe, não merece qualquer confiança agora nem no futuro. Quem não respeita os opositores, não merece que seja tido como pessoa de bem, antes pode (e deve) ser tido como um energúmeno de mau caráter, má formação cívica e, no mínimo, de deficiente conduta democrática…

A chantagem costuma ser a arma dos ditadores, no terceiro-mundo como noutro lugar qualquer!    

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Igreja evangelizada ou sacramentada?


Em certos momentos da nossa condição de Igreja peregrina sobre esta terra ouve-se esta tentativa de distinção: Igreja evangelizada ou Igreja sacramentada, como se uma e outra se excluíssem ou fossem diametralmente opostas.
Por ‘Igreja sacramentada’ entende-se, descritivamente, algo que foi acontecendo em várias etapas da condução da Igreja, isto é, foi-se dando os sacramentos – sobretudo os da iniciação: batismo, confirmação e eucaristia – sem ter havido um processo de preparação mínimo. Ora, desta forma assim descomprometida pela negativa foi-se caindo na criação duma Igreja – paróquias, assembleias, grupos ou comunidades – menos bem preparada e consciente daquilo que se exigiria…suficientemente noutras ocasiões.
Por isso, se faz o contraste com ‘Igreja evangelizada’, isto é, aquela outra Igreja – nas suas diferentes formas de presença – onde foram dados os passos necessários, capazes e sequentes de preparação dos diversos sacramentos, fazendo destes etapas de caminhada e não tanto fatores de festa, mas vivências da fé, que se pretende amadurecida, esclarecida e comprometida em Igreja, como Igreja e para a Igreja.
À fase da ‘Igreja sacramentada’ houve quem a designasse como ‘cristandade’ numa espécie de sociedade cristã, senão nos conteúdos ao menos na forma. Por seu turno, na ‘Igreja evangelizada’ procura-se que haja (ou possa haver) sugestões de caminhada com elementos claros, sérios e sensatos para a progressão de cada pessoa na comunidade onde se insere, caminha e se compromete na vida e com vida.
Digamos que, na ‘Igreja evangelizada’ se pretende gerar e não gerir cristãos que participam e não que assistem, tantos aos ritos como às fases de vivência. Por outro lado, na ‘Igreja sacramentada’ valoriza-se mais o ritual, a tradição (no sentido negativo e meramente humano) e a (possível) rotina, onde os diversos sinais da fé nem sempre têm a expressão pessoal mais adequada e sincera.
No entanto, temos de ir convivendo com estas duas ‘Igrejas’, pois uma não exclui a outra, mas de uma – da meramente sacramentada – temos de ir passando à outra – a pretensamente evangelizada – criando condições para que a celebração dos sacramentos seja feita num espírito de comunhão e não dalguma ignorância sem nexo.
Em que fase acho que está a minha paróquia? Que devo fazer, eu primeiramente, para mudar e me converter? Não depende só dos outros, tem começar por mim, já…

De facto, nesta época do ano litúrgico vemos como que uma etapa de ‘finalização’ de alguns percursos na catequese – termo abusivo aplicado a crianças em idade escolar – de infância e de adolescência: são as primeiras comunhões, nalguns lugares a dita profissão de fé e mesmo o crisma. Ora nenhum destes momentos religiosos poderá ser considerado um momento de finalização, quanto muito etapas de um percurso em evolução.

Se continuarmos a fazer destes episódios de vida religiosa das crianças/adolescentes e das famílias aquilo que muitas vezes é ou se reveste, estaremos a dar continuidade a uma igreja sacramentada não-evangelizada. Restringir esses momentos só para quando estiverem todos bem preparados, isto é, instruídos mas talvez não-evangelizados, poderá ser um comprar de conflitos com uma boa maioria de católicos-praticantes um tanto ignorantes… Talvez se devam aproveitar esses momentos familiares, sociais, cultuais e mesmo culturais para lançar desafios sobre a necessidade de que os pais possam acompanhar os filhos na sua evolução religiosa, propondo àqueles oportunidades de se valorizarem cultural e cristãmente. Há projetos que já conferem alguns resultados, como o ‘curso Alpha’, a catequese familiar, as ‘células paroquiais de evangelização’ e tantas outras sugestões que fazem os adultos reaprenderem a saber estar em Igreja e não a usufruirem das coisas da igreja como se disso fossem dignos e consciencializados frequentadores.

Se em certas regiões já se deram conta do desfazamento entre o que se faz e aquilo que se sabe, noutras dá a impressão que se caminha sem sobressalto para o descalabro total, não se apercebendo dos riscos que correm só porque as igrejas (espaços litúrgicos e de festas) ainda têm bastante gente, embora desmotivada, tradicional e quase rotineira…

É tempo de acordar e de fazer escolhas…para que daqui a cinquenta anos ainda haja fé nas nossas terras e ela seja celebrada por mais velhos e por mais novos. Semeemos já!    

  

António Sílvio Couto

domingo, 5 de maio de 2019

Democratas de pensamento único


Por vezes as pessoas como que se atraiçoam na desconexão entre o que dizem e aquilo que fazem ou, pior, entre o que pensam e o modo como o executam. Isso é tanto mais palpável e, irremediavelmente, visível, quando se apregoam de ‘democratas’, mas, na prática, só aceitam aquilo que eles mesmos dizem ou o modo como os ‘seus’ pensam, fazem ou se comportam.

Não será preciso ser exaustivo para vermos nas lides do dia-a-dia tanta gente que se autodefine como ‘democrata’ – deveria sê-lo nas pequenas como nas grandes coisas – mas que depois se torna implacável para com quem pense, divirja ou não concorde com a sua visão das coisas, a perspetiva de entendimento ou mesmo a forma de execução de algo, que, sendo diverso, com dificuldade terá unanimidade de ser visto, olhado ou observado. 

= Tudo isto tem vindo a piorar nos diversos campos de intervenção das pessoas, manifestando-se em múltiplos indícios de que algo não foi bem resolvido, quando for preciso saber confrontar-se com opiniões, visões ou perspetivas diferentes, opostas ou divergentes. O nível de crispação com que certas pessoas falam com os outros denuncia que algo está mal, pois não se pode admitir que um confronto de ideias ou de opiniões se transforme numa verborreia tal que ninguém se entende, se ouve e tão pouco se escuta. Por vezes certos programas televisivos transformaram-se em autênticas algazarras e peixeiradas, em que a mais desconexa feira se parecerá, por comparação, um velório em maré de surpresa da morte do defunto… Isto tudo vem fazendo ‘escola’, sobretudo a partir do exemplo confrangedor do parlamento, onde as pessoas se querem fazer ouvir, mas não se sabem escutar; se querem impor aos outros, mas não se permitem sequer discordar com o mínimo de educação; pretendem sobrepor aos outros o que dizem, mas confundem, em muitas das situações, o falar com berrar ou ainda o discursar com ofender…mas quase nunca se conjuga o verbo dialogar em nenhum dos tempos verbais nem nas formas possíveis. 

= A descoberta mais ‘admirável’ tem sido a de que muitas das forças votadas nas eleições – tendo em conta sobretudo as que ascendem ao parlamento – usam estratégias absolutamente inexplicáveis nas lides com os outros e o resto da população: diante do arranjo conseguido para a governança de 2015 até agora, quem está a mandar, isto é, no poder, acha-se no direito de catalogar quem não faça parte do seu arco de influência, gerando reversões de medidas mais ou menos populares – fogem da escaldadiça designação de ‘populistas’, mas é isso que são, de verdade – e gerindo soluções em que tenham o máximo a ganhar e o mínimo a perder… Mas se a coisa não corre de feição escondem o brinquedo ou fazem birra porque o bonequinho lhes pode ser retirado…a curto ou a médio prazo.

Por exemplo: para fabricar a ‘geringonça’ o parlamento foi o palco – mesmo andando pelos subterrâneos – para celebrar a festança, mas se o parlamento se torna agora ringue de combate – sim a luta é de todas as artes e demais agressividades – já não tem a mesma credibilidade… pelo menos enquanto não for tão favorável como tem sido.

Estes democratas de pensamento único não gostam quase nada nem em coisa nenhuma de serem contrariados e tão pouco que usem para com eles alguns dos sortilégios que eles usaram contra os opositores… São democratas de memória curta e de comportamento cívico ainda mais encurtado! 

= Enquadrados pelas competições eleitorais que se avizinham – umas já fixadas e outras em possível antecipação – vamos ter de aprender a lidar com tantos pequenos ditadores que pululam em muitos desses democratas de pensamento único. De entre as caraterísticas menos apreciáveis nesses democratas de pensamento único destaca-se a incapacidade de se colocarem no lugar dos outros, sem perceberem que nada tem uma só visão e se esta exclusividade for acentuada torna-se uma espécie de radicalismo, que tão bem os qualifica. Seja qual for o que o futuro nos reserva, pelos sinais do passado e do presente, podemos, desde já, considerar que o nosso país está prenhe de ditadores, onde a valor da ideologia se sobrepõe ao respeito pelas pessoas. Assim, não, obrigado!  

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Meandros dum rótulo maldito


Tem vindo a crescer, duma forma concertada e um tanto silenciosa, mas suficientemente crescente para que não se veja, a designação de ‘extrema-direita’, aplicada ao mundo das ideias (políticas ou culturais), aduzindo-lhe ainda o epíteto de ‘populismo’ e um sem-número de adjetivos qualificativos na forma exagerada.

Mas o que é que pode caraterizar alguém para ser considerado de ‘extrema-direita’? Haverá uma definição/descritiva ou antes uma discrição definitória? Depois da falência dos regimes comunistas – com a queda do ‘muro de Berlim’, em 1989 – houve tempo para uma redefinição dos termos ou antes foram colocados outros por contraste e de forma acrítica? Não será que a apelidada ‘extrema-direita’ se pode compreender melhor se atendemos aos ‘ideais’ da considerada ‘extrema-esquerda’? Não será que, na maior parte dos casos, os extremos se tocam pelo contraste e fazem-se explicar pelo inverso das posições? Quando alguém se arroga contra a ‘extrema-direita’ não estará, porventura, a encobrir outros fatores que motivam ser de ‘extrema-esquerda’? Não haverá demasiada conciliação em apelidar de ‘extrema-direita’ quem não se assume em ser de ‘extrema-esquerda’? As pretensas armas de um lado e do outro não são demasiado iguais para que se possa usar algo de arremesso contra quem não faz parte da ‘nomenclatura’ social reinante? 

= Ora, ao consultarmos a wikipédia sobre o assunto podemos encontrar as linhas-gerais disso a que apelidam de ‘extrema-direita’: «A extrema-direita (também conhecida como ultra-direita ou direita radical) refere-se, dentro do conceito da existência de uma esquerda e direita, no espectro ideológico. A política de extrema direita envolve frequentemente um foco na tradição, real ou imaginada, em oposição às políticas e costumes que são considerados como reflexo do modernismo. Muitas ideologias de extrema-direita têm desprezo ou um desdém pelo igualitarismo, mesmo que nem sempre expressem apoio explícito à hierarquia social, elementos de conservadorismo social e oposição à maioria das formas de liberalismo e socialismo. Alguns grupos apoiam uma forte ou completa estratificação social e a supremacia de certos indivíduos ou grupos considerados naturalmente superiores». 

= Tentemos descortinar linhas-mestras sobre a possível ‘extrema-direita’: aceitação, difusão e vivência na linha da ideologia de género; defesa de uma sobreposição das iniciativas estatais aos princípios de iniciativa privada, tanto na economia, como na educação, na saúde e mesmo na visão cultural; colagem de comportamentos morais (vistos como moralizantes com sabor a religião) para com certos critérios éticos, sobretudo se a pessoa for valendo cada vez menos…na linha da produção; exaltação de tudo e o resto que possa parecer ecologista com a marca do holismo da ‘nova era’; escarafunchar (agora, antes e depois) aquilo que possa tornar mais vulnerável quem se oponha aos intentos de salvaguarda de conceitos e de vivências como país, nação ou cultura com valores que possam ainda cheirar a cristão…

Dá a impressão de que, quem falar de temas como a família (no sentido judaico-cristão), a pátria, a concórdia entre pessoas e povos ou possa ter uma opinião que destoe da maioria em regime de pensamento ‘progressista’, é candidato a ser rotulado de ‘extrema-direita’ ou apelidado de populista, com as consequências que advêm de estar sob a mira de certos polícias sociais de ‘moralidade’ a seu gosto… 

= De entre os difusores da mentalidade, que se apregoa de superior para submeter os demais pelo silêncio, o medo ou o constrangimento social, encontramos a comunicação social, que bem e depressa rotula uns tantos de ‘extrema-direita’, se não se enquadrarem na grelha com que veem, leem ou julgam a ‘sua’ sociedade’. Nalguns casos bastará que falhe um dos parâmetros com que apreciam os acontecimentos para fazerem dum simples episódio uma espécie de ‘facto’ de ‘extrema-direita’… Não isso que foi feito no Brasil, nas recentes eleições presidenciais? Não foi também essa a técnica para classificar algumas forças em Espanha? Não é esse o trejeito subtil, capcioso e incisivo com que agrupam os candidatos ao Parlamento Europeu?

O que me confunde é que se tentem limpar façanhas de certa ‘extrema-esquerda’ – na Europa e fora dela – em exercício ou no passado. Não há direito a ser faccioso nem a impor uma verdade tão mentirosa…

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Mãe – dom, tarefa ou mistério?


Quem não se lembra duns versinhos simples que diziam: ‘com três letras apenas se escreve a palavra mãe, mas é o maior nome que o mundo têm’.

Talvez não sejam palavras muito elaboradas e tão assaz poéticas, mas contêm um significado bem mais abrangente daquela que é a mais profunda das realidades deste mundo: mãe.

Ora, sobre este tema poder-se-á escrever muito elogioso e maldizente, à mistura com lições e outros tantos conselhos que já não pegam. Pela nossa parte vamos tentar abordar a questão em três aspetos: mãe como dom (maternidade), mãe como tarefa (muito mais do que doméstica), mas sobretudo mãe como mistério…de Deus para nós, connosco e em nós, no sentido divinizante desta condição que Deus concedeu, por excelência, à mulher.  

* Dom da maternidade

Segundo números mais especulativos do que confirmados haverá, em Portugal, 15% de casais inférteis, tendo em conta, especialmente, a parte feminina. Não entraremos em esmiuçar as causas e tão pouco a sua evolução crescente na população. Ficamo-nos pela perspetiva de que ‘ser mãe’ é um dom que nunca será totalmente compreendido por mais explicações que se pretendam apresentar. Dá a impressão que o nível de uma sociedade se pode medir pela forma como trata a maternidade, criando condições, cuidando da sua vivência e ajudando com meios (psicológicos, económico-financeiros, educacionais-culturais entre outros) a que a ninguém sejam colocados obstáculos à concretização desta faceta da mulher.

Por contrassenso temos visto o recurso ao aborto – sob o eufemismo de ‘interrupção voluntária da gravidez’, pois ao interromper não se retoma mais o que foi cortado! – como método de coação à maternidade da mulher. Isto é, por um lado há quem anseie ter filhos, concretizando o desejo da maternidade e por outro como que se incentiva a que não os tenham como forma de libertação de algo que só à mulher foi dado viver… Por favor escolham: pela vida ou contra ela! Não podemos lançar as pessoas no labirinto do ‘inverno demográfico’ e ter condições de sobrevivência de muitas das estruturas sociais que dependem do rejuvenescimento da população… 

* Ser mãe – tarefa nunca completa

Atendendo à evolução da inserção da mulher no mundo do trabalho, a tarefa em ser mãe foi sendo revista, colocando desafios a que a mãe possa estar mais próxima dos filhos/as, particularmente nos primeiros tempos de vida. 

Embora tenham surgido respostas sociais para a ausência da mãe em casa, esta continua a ser a referência da família naquilo que ao acompanhamento dos filhos tem precedência.

A mãe continua a ser uma sacrificada naquilo que às suas tarefas respeita, acumulando, na maior dos casos, o trabalho em casa com o emprego… De pouco adiantarão certas medidas envergonhadas, se não se tiver em conta o grande ‘trabalho’ – mesmo sem remuneração – que esse de ser mãe a duzentos por cento! 

* O mistério de ser mãe

Não há dúvida que Deus concedeu à mulher algo que só ela pode manifestar de Deus como mãe: a possibilidade de participar nesse mistério e, por conseguinte, de nos mostrar que Deus é pai e mãe de forma grandiosa, sublime e simples. Deste modo tudo quanto se faça – e muito tem sido feito nos tempos mais recentes – para ofender esta vertente da mulher será uma ofensa a Deus, ao seu poder e mesmo à sua manifestação entre os humanos.

Que não tentem matar no coração das mães a dádiva divina de ser mistério de Deus!

Que as mães sejam sempre e só santuários da vida!

Que sejamos dignos das mães que temos e de tantas que sofrem por sê-lo de verdade!

Que tenhamos mães físico/biológicas/psicológicas, mas sobretudo mães espirituais!

Obrigado a todas as mães, mesmo às que já partiram do nosso convívio humano visível!

  

António Sílvio Couto

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Ódios sub-reptícios do 25A


Por ocasião das comemorações dos quarenta e cinco anos do ’25 de abril’ escutamos – como nunca anteriormente – vozes a clamarem de resquícios de ódio que perpassaram esses longínquos dias e outros momentos de convulsão…nas hostes militares e não só.

Fuzilamentos e ajustes de contas entre quem fez a revolução e outros oponentes, à mistura com um certo branqueamento que nos foi passado de que na mudança de regime político não tinha havido mortos registados, quando, afinal, houve uma mão cheia de vítimas (quatro civis e um funcionário da polícia política), só mais tarde reconhecidas e lembradas…

Decorridas quatro décadas e meia, ainda foi possível captar nas imagens da (dita) manifestação popular, vozes reclamando da vida de outros que não têm nada a ver com o assunto dos fantasmas com que tantos/as se enfrentam na sua memória. Pretender encomendar a um santo a morte de um chefe de estado estrangeiro não deixa de ser além de esquisito um sinal mais do que evidente de que há pessoas que se reclamam ‘democratas’, mas isso só funciona em circuito fechado para os que são da sua cor, ideologia ou simpatia do lado da barricada. Ainda há gente que fareja as atrocidades de outras paragens e parece querer implantar por cá laivos desses regimes facínoras e praticantes de carnificinas sobre quem não pensa ou não concorda com a sua mentalidade, visão do mundo ou entendimento da pessoa humana.

Mais uma vez poderemos aduzir a estes casos o nosso adágio popular: se queres conhecer o vilão, coloca-lhe o pau (do mando) na mão! Isto é, certas pessoas quando chegam a postos de importância – o tal lugar do mando, seja a instância que for – revelam quem são, tratando os outros da forma que não deixa dúvidas de que por ali há tiques de ditadura, mesmo que sob a capa de ‘democracia’…mal-amanhada. 

= Para além da discriminação em não se viver numa das duas áreas metropolitanas – Lisboa, que vai de Setúbal a Vila Franca de Xira, passando por Cascais, Sintra e Amadora; e do Porto, que abrange concelhos desde a Póvoa de Varzim até Santa Maria da Feira, passando por Gondomar, Valongo e Santo Tirso – temos ainda de suportar alguma petulância de certas figuras que consideram os que não vivem nestes espaços como portugueses de segunda categoria. A AML tem quase três milhões de habitantes, a AMP com quase dois milhões de habitantes, perfazem, deste modo, mais de metade da população do país.

Se a isto acrescentarmos a concentração da maior parte das estruturas, infraestruturas e investimentos, poderemos considerar que bastará pacificar os vivem nestas áreas metropolitanas para manter o país em sossego e numa certa paz social. Veja-se o que aconteceu há duas semanas na ‘crise dos combustíveis’, privilegiando no reabastecimento estas regiões para que não houvesse alarme social… Os ganhos e custos destas áreas metropolitanas percebem nas campanhas publicitárias/políticas, nas apostas de reivindicação e mesmo no nítido favorecimento dos salários para aqueles que ali vivem.

O monstro está a engordar e parece que não há interesse algum em fazê-lo entrar em dieta, pois daí vêm os votos nas eleições e até os cartazes privilegiam quem por aqui mora, dado que podem decidir quem possa continuar a beneficiá-los. As franjas da capital – o Oeste ou a Estremadura, tendo em conta ainda o Alentejo – e do grande Porto – como os distritos de Braga e de Aveiro – continuam à espera que caiam as migalhas das mesas dos ricos, que, embora não produzindo, gerem os impostos que recolhem de espaços bem mais trabalhadores e produtores de riqueza do que as ditas áreas metropolitanas... 

= Neste momento histórico e cultural nota-se que falta horizontes a tantos/as que exercem o poder, nas suas várias formas: político, religioso, de comunicação social, desportivo e mesmo económico. Na maior parte dos casos quem decide olha para o seu umbigo e para a forma de capitalizar – mesmo que alguns se digam combatentes do capitalismo – em influência as decisões que tomam ou as posições em que se colocam… No entanto, esta vertente de ódio com que vemos certas situações serem geradas e geridas podem trazer dissabores ao país em geral e aos menosprezados ou até desprezados em particular.

Até quando haverá um leque de iluminados que se acha dono do ’25 de abril’? Até quando teremos de suportar incompetentes arvorados em chefes? São fracos para serem mandados, quanto mais mandarem!

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 26 de abril de 2019

’25 de abril’ dos sem-voz


Longe da prosápia da macrocefalia da capital – estendida à AML e acrescentada à língua marítima de norte a sul do território europeu – onde está o ’25 de abril’? Essa pretensão dos três ‘d’s’ – descolonização, democratização e desenvolvimento – já chegou aos que continuam a estar ‘sem-voz’, hoje como no passado do regime anterior?

Por muito que certas figuras do poder, nestes 45 anos de revolução abrilina, digam que já foram cumpridos os tais três ‘d’s’, ainda estamos muito longe de criar condições mínimas para que isso seja verdade para todos os portugueses, tanto do litoral como do interior.

Por constituir algo de simbolicamente bizarro vou reportar-me ao ritual da comemoração do 25 de abril na Moita – espaço onde vivo há oito anos, sete meses e vinte e oito dias – num misto de aprendizagem, de reconhecimento e mesmo de aferição…

Durante cerca de uma hora, na manhã de 25A, pode-se ver um certo desfile de forças em conglomeração, como se de pagamento de favores se possa tratar: um misto entre desfile carnavalesco e de procissão mal-amanhada percorre os espaços centrais da povoação. O ritual vai perdendo fogo e os sinais dos intervenientes podem considerar-se desconexos, pois se uns levam os estandartes alçados, outros levam-nos ao ombro – sabe-se lá se conhecem o significado de cada qual das posições – isto já para não falar em vermos outros roçar em terra com os símbolos das coletividades surgidas depois de quarenta anos de novo regime…

Que as forças da dita democracia se achem no direito de ostentarem as causas que as fazem correr, ainda se suporta, mas será, no mínimo, duvidoso que as autarquias – ou quem as suporta ideologicamente – considerem que os espaços públicos possam ser tratados à maneira do seu quintal individualista, onde cada um possa impor-se a quem não pensa nem vota como quem governa…isso, sim, há quase tanto tempo como reinou a terceira república… Terá a ditadura outro nome, se for votada sob manipulação democrática?
Os pagadores do recebimento de subsídios vão-se arrastando numa leitura mais ou menos vangloriosa, desde que passeando-se no veludo da boa harmonia e enquanto vai havendo proventos para flutuarem por mais algum tempo.

E, se, de repente, tudo mudasse de coloração: qual seria a reação – sim, essa que julgam terem exorcizado, mas que continua a reclamar – dos atuais ocupantes dos postos de mando? Talvez seja preciso algum entendimento para se colocar no lugar dos ‘sem-voz’, pois são ostracizados só porque não fazem parte da mentalidade reinante e reinadora…

Até onde irá a arrogância de quem se acha dono-e-senhor de algo que não lhe pertence, mas faz parte indistinta de todo o povo e não de fações, ideologias ou partidos?

Quem ensinará certos mentores ‘urbanos’ a respeitarem os ‘rurais’, silenciados à força ou condicionados por míngua de meios para se fazerem ouvir? 

= Se quiséssemos inventar outros três ‘d’s’, quarenta e cinco anos depois da revolução abrilina, teríamos de conjugar dinheiro-desvergonha-diversão para classificarmos algumas das atitudes atuais de menor denominador comum. Outra hipótese para os três ‘d’s’ poderia ser a de desilusão-disparate-dissonância, numa tentativa de encontrar quem se aproveitou das possibilidades propostas e as fez reverter para si e para os do seu grupo de interesses.

Se atendermos às mais recentes revelações dos episódios que fizeram a revolução abrilina vemos que muitos dos descendentes do seu incremento não conseguiram libertar-se dos assomos de vingança – em certos momentos reclamando fuzilamento dos opositores – e, para já em forma de verborreia, vão continuando o que antes foi tomado por reivindicação, felizmente, não-concretizada

Hoje continua a haver uma imensa multidão silenciosa e/ou silenciada que vai vivendo fora das categorias de vitoriosos, adiando a possibilidade em serem pessoas com iguais direitos, almejando passar da fase das obrigações. Basta de submissão aos protegidos das classes que têm acesso ao prato, onde a comida é servida com discrepâncias intoleráveis. Não serão denúncias das ‘políticas de casos’ e atoardas anti-cobardia que farão deste país um espaço democrático, tolerante e com futuro… Palavras leva-as o vento!          

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Liberdade com misericórdia


De entre os binómios possíveis de agrupar, numa leitura ‘humana/divina’, podemos conjugar e tentar viver este da ‘liberdade – misericórdia’. De facto, é um dos mais complexos nas possíveis leituras da nossa ténue vida, pois nem sempre este binómio se articula com respeito pela condição pessoal e a dimensão comunitária. Com efeito, poderá parecer que a liberdade nos concede como que viver de rédea solta e, por seu turno, a misericórdia nos confinaria a uma visão mais religiosa senão mesmo um tanto pietista. Não há nada de mais enganoso.

A liberdade é essa faculdade que nos capacita para assumirmos as nossas responsabilidades mais básicas, tanto pelo que pensamos, como pelo que decidimos e fazemos. Há gente que vem para a rua clamar pela liberdade, mas que não passa de marioneta em feira de ideologias e das vaidades de quem pouco faz, mas que pretende vender o produto de engano nos saldos da comiseração mal-assumida. Cartazes de liberdade, não, obrigado!

Por estes dias ocorre o 45.º aniversário da (dita) conquista da liberdade, mas quantos vivem ainda aferrados à complexidade da manipulação. Uns tantos ainda se armadilham com artefactos alusivos à reconquista da liberdade, mas por dentro estão aprisionados – desde a boca até à ação política – com grilhões sem cadeias…esses que prendem a consciência até à medula mais profunda.

Embora se tenha desenvolvido no quadro das intervenções católicas a terminologia da ‘misericórdia’, esta não poderá nunca reduzir-se a um sentimento mais ou menos religioso e que não tenha, minimamente, a ver com a vida do dia-a-dia. É aqui neste terreno que é posta à prova a nossa maior ou menor capacidade de nos deixarmos guiar, consolar e comprometer com a misericórdia, desde a mais simples até à mais complexa e sacramental.

Para usarmos uma certa linguagem futebolística, não podemos deixar que a liberdade marque golos na baliza da misericórdia, só porque esta se encolheu na defesa dos direitos dos mais fragilizados e não os lançou na conquista da vitória, se bem que esta possa não sair do terreno do empate, isto é pela complacência menos boa para com aqueles que mereciam ser aplaudidos pelas claques bem organizadas e com amor à camisola…

A capacidade de ser livre mostra-se na vivência em ser compassivo e misericordioso. Efetivamente será necessário fazer a experiência da misericórdia – a divina e mesmo a humana – para que possamos não ter nada a ter, portanto, em sermos livres e disponíveis para seguirmos o nada temer e tão pouco nada ter a esconder. 

Recordando as palavras da Sagrada Escritura: ‘conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres’ (Jo 8,32), será, então, pela libertação operada pelo Espírito da Verdade que seremos capazes de nos irmos libertando de tantas formas e feitios de aprisionamento. Será quando deixarmos que a misericórdia divina venha preencher as lacunas de tantas dimensões de nós mesmos que saberemos apreciar melhor como Deus ama cada um de nós e nos faz ser livres n’Ele. 

= Num tempo em que marcadamente contam mais os direitos do que os deveres, tratar o tema da liberdade será mais útil vê-lo na linha das perguntas do que no campo das afirmações, se bem que aquelas possam ser mais contundentes na subtileza do que estas.

* A liberdade é, para mim, um valor, um critério ou uma reivindicação?

* Aceito as opções de liberdade dos outros ou considero as suas opiniões menos boas só porque não são como as minhas?

* Na linha das escolhas partidárias/ideológicas respeito as escolhas alheias com toda a legitimidade como desejo que aceitem as minhas?

* Procuro esclarecer-me das tomadas de posição dos outros ou embarco com facilidade naquilo que uns certos ‘fazedores de opinião’ me impingem de forma acrítica e, tantas vezes, preconceituosa?

* Terei evoluído nas minhas opções, critérios e votações ou fixei-me em arquétipos de há décadas sem ter estudado as possíveis incongruências dos mentores de tais correntes?

Ser livre custa muita liberdade…interior e exterior.

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 23 de abril de 2019

Tradições pascais…em maré de laicismo


Com alguma facilidade e divulgação vemos, em certas regiões do país, aparecer a expressão ‘tradição pascal’ como forma de classificar algo que se faz por ocasião da Páscoa e é apresentado como habitual e próprio desta época. O leque de assuntos/temas é um tanto diversificado, abrangendo desde a gastronomia até às (apelidadas) atividades culturais, passando por aspetos regionais ou mais difusos e atingindo vertentes religiosas, mais ou menos tradicionais até à inclusão de ‘tradições’ de outros países ou culturas.

O que mais me intriga é que tudo isto parece ser vivido sob um (diáfano ou tenebroso) manto de laicismo, onde uma boa parte dos intervenientes/usufruidores parecem fazê-lo de forma acrítica mais pelo benefício do que pela consciencialização das coisas, do sentido das mesmas e das implicações que elas trazem, de verdade. O laicismo coloca a suas regras ou nem as tem para ser mais laico ainda?

Tomemos por exemplo alguns ingredientes da gastronomia das ‘tradições pascais’, onde se usa o borrego, cabrito, cordeiro; os doces, entre os quais as amêndoas, o pão de ló, a bola do folar ou os ovos pintados; momentos de convívios entre famílias, vizinhos, associações ou comunidades… muitas vezes à volta da mesa e por mais tempo do que é habitual nos outros dias do ano…

Mas será que todos sabem o significado do uso de tais ingredientes como ‘tradições pascais’? Se abordássemos muitos dos nossos contemporâneos ficaríamos admirados com a falta de resposta adequada, no entanto, continuam todos a usufruir das coisas como se elas lhe dissessem alguma coisa ou coisa alguma…

Desde logo a inclusão do ‘borrego/cabrito/cordeiro’ tem raízes na celebração judaica da páscoa, como lemos nas narrativas do livro do Êxodo, onde se relata a libertação do povo israelita do cativeiro do Egito e que tiveram de comer à pressa o cordeiro que prepararam, pois o anjo de Deus passava nessa noite – vide Êxodo 12. Inclusive ‘páscoa’ quer significar ‘passagem’, tanto de Deus que passa e liberta o seu povo, como do povo que é libertado e passa para uma nova etapa da sua história e identidade…

O uso de ovos – desde a sua existência mais simples até ao seu uso na confeção de doces e outras iguarias – tem a ver com um sinal da vida… Talvez muitas crianças sejam levadas a pensar que dos ovos nascem coelhos ou que os coelhos dão ovos. No ovo está contida, em semente, a vida e os coelhos simbolizam também eles a reprodução em vida, tornando-se ambos sinal da vida que renasce em tempo de primavera…ao menos no hemisfério norte…

Porque as pessoas, em tempos de vivência rigorosa da quaresma, não usavam os ovos na alimentação, podiam, em maré da páscoa, confecionar doces e outros sinais de festa que eram partilhados uns com os outros e dados, particularmente, aqueles sobre os quais tinham alguma responsabilidade…espiritual. Daqui advém o costume, nalgumas regiões, de os padrinhos darem o folar por ocasião da páscoa, onde os ovos tinham maior significado e presença como sinal de amizade e de reconciliação… 

= Até agora percorremos algumas ‘tradições pascais’ que valem para crentes e não crentes, com estes a darem a impressão que nem sempre se questionam com as razões mais profundas de tais costumes. Agora vejamos outras ‘tradições pascais’ com marca mais cristã como as limpezas das casas, a visita pascal ou o compasso, as flores em abundância, os sons de sinos e música, procissões festivas…onde tem realce o ‘aleluia’, que não foi cantado na liturgia durante a quaresma.

A limpeza das casas, nalgumas regiões por dentro e por fora, com a caiação das mesmas, refere a consonância entre a casa de habitação e a purificação dos pecados na pessoa pela reconciliação sacramental… tudo isso para que Jesus ressuscitado seja bem recebido por cada um.

A visita pascal ou o compasso é esse momento de anúncio às pessoas e às famílias da alegria de Jesus ressuscitado…Em tempos muito conotado com a visita do pároco/padre às famílias tem vindo a renovar-se pela inclusão de leigos/as nesta tarefa de Igreja católica… Quem já tenha vivido isso perceberá que é um tempo de festa muito intenso, interessante e vivido. Após a contenção penitencial da quaresma, as flores, que abundam em tempo de primavera, dão um ambiente festivo e alegre, sendo, nalguns casos associada a música, os cânticos e os ‘aleluias’. Às procissões penitenciais e de Passos são contrapostas, durante o tempo pascal, momentos de procissão com motivos de alegria no âmbito mais social e exterior…      

 

António Sílvio Couto

sábado, 20 de abril de 2019

Incêndio de Notre-Dame…cumpre profecias de La Salette?


 
Por ocasião do recente incêndio na catedral de Notre-Dame, em Paris, circulou na internet uma estampa, de 1956, em que era apresentada, ao estilo do tempo, uma pintura do Sagrado Coração de Jesus, tendo nos cantos superiores do mesmo a representação de algo parecido com a catedral de Paris e a catedral de São Pedro, no Vaticano, ambas em chamas…

Tal figuração seria alusiva às ‘profecias’ dadas pelos videntes Maximin e Mélanie, na manifestação de Nossa Senhora em La Salette…uma povoação nos alpes franceses. Com efeito, percorridas as ‘profecias’, do final do século dezanove, aí se referia que, um dia, Notre-Dame e o Vaticano seriam consumidas pelas chamas… Para além de alguns castigos de efeito mais ou menos imediato nos campos e na saúde das populações, as ‘profecias’ de La Salette são algo tenebrosas não só pelas consequências, mas em razão das causas. Pior: muitas destas continuam ativas e atuais, podendo ser remanso para extremistas tanto religiosos, como sociopolíticos… estenderem as suas garras, conjeturas e suposições.

Mas será que o incêndio da catedral de Notre-Dame pode ser lido como o cumprimento de alguma das ‘profecias’ de La Salette? Poderemos querer confirmação de algo que poderá ser mais do que um mero acidente? Até que ponto mais de cento e cinquenta depois poderemos ver, neste incêndio, o cumprimento de tais ‘profecias’? Será correto, histórica e sensatamente, atribuir algum nexo de causa-efeito, entre as ‘profecias’ de La Salette e o trágico incêndio de abril de 2019?

Se, porventura, dermos crédito a tais ‘profecias’ teremos de, agora, esperar que as chamas atinjam a catedral de São Pedro, no Vaticano, corroborando a interpretação de que o ‘mal’ tomara posse do governo da Igreja católica. Será isto sério, sensato e aceitável? Teremos de andar a escarafunchar os meandros da Santa Sé para confirmar tais teorias da conspiração? Será tudo isso justo, correto e honesto?

Dá a impressão de que, quanto mais caminhamos na senda de nos sentirmos participantes da história deste mundo, mais surgem uns certos ‘intelectuais’ e uns tantos ‘devocionistas’ a puxarem para trás, isto é, confundirem os outros, dado que eles mesmos estão confusos, baralhados e saudosistas em terem as pessoas presas pelo medo e não pela capacidade de lerem, interpretarem e viverem de forma livre, consciente e responsável… 

= Mutatis mutandis: a quem interessa continuar a insistir na ‘missa tradicional’ se vamos perdendo clientela na missa do Vaticano II? A quem interessam certas roupagens, para além do espavento de tempos idos e de ideias em paragem no cortejo da vida? Não se andará em excesso a encadernar gente, que precisava de sujar mais as mãos e não de as ter limpas de não fazerem nada?

De facto, o recrudescimento de muitas das devoções, nos nossos dias, manifesta uma crise profunda de identidade, tanto de quem as promove, como de tantos outros que nelas se refugiam, tentando salvar a sua ‘alminha’, mas pouco se importando com atanazar os demais com recursos de pouca valorização humana, emocional e espiritual.

Pior: muitas dessas devoções têm de ser alimentadas com proventos económicos nem sempre claros e tão-pouco aceitáveis. Há casos em que pessoas de parcos recursos passam mal só porque se acham na obrigação de corresponderem ao fluxo de ‘convites’, anúncios e produtos perfeitamente escusados para quem queira ser cristão normal e não deseje pertencer a qualquer grupo ou tendência mais ou menos exotérica… em uso. É um abuso e violência da consciência tanta coisa que faz por aí, explorando a ignorância das pessoas de boa fé ou em estado de debilidade não recomendável para não respeitar…condignamente.  

= A Páscoa tem de trazer novas formas de viver a fé, despindo-a de folclores que já não refletem a vivência que certos ritos pretendiam propor. Será numa Páscoa que celebra a Vida e que faz dessa celebração um nexo de compromisso que haveremos de deixar que o lume novo consuma o que de velho há em cada um de nós. Precisamos de nos deixarmos espantar com a novidade da Páscoa de Jesus, deixando os pingarelhos das nossas certezas no túmulo do sepultamento de Jesus. Precisamos de sair homens/mulheres novos pela dinâmica da Páscoa da Ressurreição…

  

António Sílvio Couto

quarta-feira, 17 de abril de 2019

‘Portugal é Lisboa… o resto é (mesmo) paisagem’


Há quem deduza esta frase duma obra de Eça de Queirós. No entanto, do lamento à realidade não estamos tão longe assim, seja lá qual for a área de intervenção, o campo de trabalho ou mesmo o setor de atividade… humana, económica, cultural ou mesmo espiritual/religiosa.

De que adianta os ‘rurais’ protestarem, se na capital se distribui o dinheiro, as promessas, as contas e as prebendas. De que adianta dizerem que isso está a mudar, se vemos que, numa singela decisão para repor os níveis de combustíveis acessíveis ao público, se privilegia Lisboa, a seguir vem o Porto e talvez mais tarde, se sobrar alguma coisinha, o resto da paisagem será contemplado…

Até já os estrangeiros concluíram desta (nossa) enfermidade e dizem que só dez por cento da despesa pública é gasta com a administração local. Podem as universidades da ‘paisagem’ apresentarem níveis de investigação, de qualidade de ensino, de boa relação instrução-emprego, que nada acontece sem o beneplácito lisboeta… agora mais alargado às fronteiras entre Setúbal e Vila Franca de Xira, no circuito de área metropolitana…

A macrocefalia da capital vai amedrontando a ‘paisagem’ e uma certa menorização de quem não faz parte dessa tal elite – política, económica, intelectual, religiosa, social e cultural – estende-se em aval de desconfiança e, por vezes, de subjugação para ainda conseguir recolher algumas migalhas que caiam da mesa dos ricos senhores, que nem sempre são senhores ricos.

Bastará sair desta bolha complexa – às vezes é mais complexada – da área metropolitana da capital para perceber que muitos, que vivem na ‘paisagem’, ainda não se aperceberam do ostracismo a que estão votados. Por estes dias vivi uma dessas experiências ao ter ido participar na celebração do centenário do jornal ‘Diário do Minho’ e não ter visto rastos de qualquer órgão de comunicação social de imagem, fazendo ignorar uma efeméride de realce para a região, a cidade e mesmo a Igreja católica. E não vi qualquer desconforto no ato, por parte dos responsáveis, não tendo sequer percebido se tal aconteceu por opção, por lacuna ou por mera coincidência ou já por hábito em se ver ignorado, sem voz/imagem e, por isso, fora das notícias…dado que aquilo que não se mostra não existiu! 

= Repare-se na ausência de figuras que surjam de fora de tal circuito – por vezes, queiram desculpar, mais parece um circo – onde quem se diverte como público-alvo faz parte do elenco de quem se exibe. Veja-se o campo da política, onde se vai fechando o leque das escolhas nas mesmas famílias – como a história se repete com tanta facilidade! – e se vai arregimentando do mesmo caldo quem há de depois favorecer os que agora governam. Que dizer ainda das opções para lugares de responsabilidade na Igreja católica. Uns promovem os outros para que (quase) tudo continue na mesma e não se façam ondas que destoem da mentalidade reinante. Porque será que algumas dioceses já há vários anos não têm escolhas reconhecidas por quem apresenta os candidatos? Será por inépcia dos responsáveis, por falta de qualidade dos possíveis servidores ou por incapacidade de os fazer valer nas instâncias de decisão? Neste campo em concreto algo vai mal para certos círculos de intervenção, enquanto outros – talvez mais sagazes e habilidosos – estão quase sempre na linha de chegada… Mesmo assim cresce o número dos despromovidos à escala do país e da intervenção reflexiva, teológica e pastoral.  

= Somos um país pequeno em dimensão territorial, mas apequenamo-nos ainda mais quando uns tantos se acham no direito de menosprezar quem não faça parte do seu âmbito de influência, privilegiando mais o clientelismo do que a qualidade, favorecendo mais a partidarite do que a competência, relegando para fora da corrida quem não alinhe na vulgaridade, na superficialidade e, mais recentemente, no nepotismo descarado. Caminhamos a passos largos para meio século da revolução abrilina e os tiques de ditadura só mudaram de cor, pois algumas autarquias estão em ditadura quase há mais tempo do que o regime anterior: todo o resto da população não evoluiu na mentalidade, quando as ideologias que tais suportavam já claudicaram há três décadas!

O mais grave é quando os que vieram da ‘paisagem’ se acomodam à capital e fazem pior do que antes!

 

António Sílvio Couto