Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Quando uma mãe abandona o filho


Desde o final da tarde do dia cinco de novembro que uma criança, encontrada por um sem-abrigo, num ecoponto do lixo, tem sido noticia constantemente. Soube-se depois que uma mãe, também ela a viver na rua, tinha dado à luz e, posteriormente, deixado o recém-nascido naquele local…
Os momentos de socorro dados à criança tornaram-se quase façanhas heroicas à mistura com alguma estupefação (condenação, questionamento e compreensão) quanto à mãe e às razões de tal ato.
Encontrada a autora do ato foi colocada em prisão preventiva – deixou de estar na rua, passando a ter um teto e condições de habitabilidade – alertou que falaria sobre as razões que a levaram a tal, quando for oportuno perante a justiça…
Não deixa de ser sintomático que este episódio da criança abandonada tenha ocorrido quando não muito longe – a distância entre a estação de Santa Apolónia e o Parque das Nações, em Lisboa – acontecia uma dita ‘web summit’ de novas tecnologias, com perfumes e laivos de riqueza… Deste acontecimento passou a falar-se menos, quando emergiu um facto humano tão básico, simples e trágico.
Poder-se-á dizer que somos um país a várias velocidades: num canto da sala uma cimeira para uns tantos instruídos na arte intergaláxica, nos fundos da divisão de arrumos algo tão triste quão ignóbil, nefasto e dramático… pelo meio certos fantasmas movem-se como autómatos ou como beneficiados nas notícias, sob os holofotes de uma certa comunicação social ávida de escândalos e de casos sensacionalistas. 
= Múltiplas perguntas se colocam perante a atitude desesperada daquela mãe… dada a conhecer como uma imigrante cabo-verdiana ilegal, com cerca de vinte e dois anos, a viver na rua e (talvez) sobrevivendo com expedientes menos lícitos, sem ligação com a família também a viver por cá…está ainda a ser investigada acerca de poder ter outros filhos no país de origem…
* Qual terá sido o desespero de uma mãe para abandonar daquele modo o filho? Fê-lo por debilidade (psicológica ou social) ou para chamar a atenção alheia? Como poderemos explicar este episódio num tempo onde se podem encontrar tantas soluções mais humanas e familiares?
* Aquela criança não ficará afetada para toda a sua vida? Atendendo a que nem foi acompanhada durante a gravidez, que sequelas ficarão? Sobrevirá à falta de colo, esta criança marcada desde o nascimento (e mesmo a sua gestação), pelo frio exterior e humano? Como se podem equilibrar os direitos da criança com os deveres da mãe?
* Socialmente estaremos capazes de saber responder a estes desafios com justiça e caridade? As posições sobre o caso têm valores um pouco mais do que materialistas? Como se pode conjugar cuidar com proteger, dar ambiente familiar e responsabilizar? Por que é que quase nunca vemos pronunciamentos de teor espiritual em casos desta natureza? Será por negligência ou por ausência de respostas no terreno? 
= Esta mãe precisa de ajuda, não a que lhe queremos dar ou consideramos que necessitará, mas a que ela precisa correta, digna e humanamente. Esta criança precisa de uma família e não de ser institucionalizada, já.            

António Sílvio Couto

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Teremos 2.631.559 emigrantes


Segundo dados da ONU era este o número de portugueses a residir fora do espaço territorial do nosso país, em 2019. O observatório da emigração deste organismo internacional considera ainda que 57% dos portugueses emigrados vive no espaço europeu, 40% no continente americano e 3% em África, Ásia e Oceânia.
Atendendo a dados anteriores, nota-se que está a cresce a emigração lusa no continente americano e a decrescer na Europa e na África.
Sempre fomos um país que teve ‘fronteiras’ muito para além dos limites territoriais visíveis. Quase sempre se encontra um português espalhado pelo mundo. Muitas vezes nos lugares mais inesperados vemos reminiscências da passagem ou da presença lusitana.
As razões da ‘nossa’ emigração são tão variadas quão imprevisíveis, isto desde tempos quase imemoriais. A aventura dos portugueses no mundo está quase ligada à sua natureza mais profunda de povo pequeno no tamanho, mas não nas aspirações. Os motivos e as motivações para emigrar foram sendo aferidos às épocas históricas (sociais, económicas e culturais), às condições de vida e até àquilo que se aspirava a concretizar mais depressa ou com tempo alargado.    
Se houve quem tenha atendido àquilo que os emigrantes desejavam, nos tempos mais recentes temos visto ser negligenciado o apreço, a atenção e o cuidado para com os emigrantes, nessa falácia de que temos vindo a tornar-nos um país de imigrados. Ora, os números supra apresentados configuram uma total mentira e um perfeito engano por parte de quem nos tem governado. Efetivamente, continuam a sair do país mais pessoas do que aquelas que pretensamente nos têm procurado. A continuarmos nesta sangria social teremos em breve uma espécie de risco em querermos acolher quem chega, mas desprezando quem parte, mesmo que estes tenham mais qualidade humana, de instrução e até profissional.
Há ainda um perigo mais subtil: se, em tempos, os emigrantes iam com a ânsia de um dia voltar, dá a impressão que hoje partem com menos boa intenção de regressarem. Se, anteriormente, as remessas económicas dos emigrantes eram uma fonte de financiamento e de investimento por cá, com as tropelias do setor bancário, vemos que muitos dos emigrantes já não fazem reverter as suas economias na nossa economia mais geral.
Muita coisa mudou no panorama da emigração. Agora, decorridas duas ou três gerações sobre a partida, os filhos e netos dos migrantes tornaram-se cidadãos dos países onde estão e multiplicam-se os laços – familiares, sociais, culturais e empresariais – de ligação aos locais de vivência e já não aos espaços de seus antepassados.
Hoje é comum vermos filhos e netos de portugueses casados – de facto ou só de conveniência – com turcos, com muçulmanos, com pessoas do antigo leste europeu, com hindus ou do país do sol nascente…numa panóplia de relacionamentos que fazem dos emigrantes criadores de novas culturas e de uma mescla de religiosidades que trarão, certamente, confusões, atritos e problemas a curto e a médio prazo.
Se ainda há pouco tempo era, para alguns, aceitável a multiculturalidade, agora surgem extremistas (políticos ou de raças) que veem com maus olhos essa diversidade, vivência e oportunidade. Talvez seja essencial não darmos por adquirido o clima de convivência entre tantas experiências nem de parecer que todos aceitam que continue a haver tal concordância. Emergem pequenos focos de conflito. Aparecem mentores de nacionalismos. Surgem organizações que excluem e não fomentam a sã convivência. Circulam no subterrâneo do tecido social sinais de que nem tudo é como se vê nem se mostra ou parece.
Torna-se preocupante que só se dê importância ao populismo (dito) de direita e não se consiga percecionar os tenáculos dessoutro populismo de (uma tal) esquerda, que usa as pessoas para que sirvam aos seus objetivos de fomentar racismo, xenofobia, discriminação (do pretenso género ou de conveniência)…na medida em que se dizem defensores contra esses perigos, mas são antes fomentadores sem rosto disso que mais não é do que aquilo de que rotulam os outros. Como têm uma boa parte da comunicação social do seu lado facilmente difundem os seus ideais de forma capciosa, insidiosa e venenosa quanto baste.
É tempo de acordar!   

António Sílvio Couto

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Encantamento de subdesenvolvidos


Mais uma edição da ‘web summit’ – a 4.ª em Portugal – tornou-se uma espécie de encantamento por algo que só os pequenos – ou serão mais os pequeninos de mente e de cultura? – conseguem ver-se com tanto fascínio. Os números desta cimeira como que seduzem os portugueses – ou será antes uma certa comunicação social ávida de notícias e de palco – desde as presenças (sobretudo estrangeiras) até às quantias avultadas em gastos, passando pelas ‘novidades’ desse mundo tecnológico mais ou menos exotérico, encriptado e fascinante para uns tantos/as…
Logo desde o início desta edição ficamos com a sensação de que nem tudo é objetivo e tão pouco independente, pois o primeiro ‘orador’ veio das estepes dos Urais, lançando farpas contra algum ocidente e particularmente esses que ele atraiçoou… De facto e mais uma vez a rebeldia parecer compensar, tendo à mistura quem o faça de modo a contentar outros interesses nem sempre subterrâneos.
À semelhança de outros acontecimentos centrados em Lisboa, também a ‘web summit’ dá projeção aos tentáculos da capital, tornando o governo central e os autarcas locais os que se acham donos e senhores das façanhas, embora seja todo o país a pagar os investimentos para que o evento tenha lugar num espaço privilegiado, com condições excecionais e sob regalias capitalistas…eles mentores de um certo socialismo nem sempre capaz de perceber o que é só deles e aquilo que é de todos.
À boa maneira de outros eventos, os seus organizadores tecem loas a quem recebe, mas com dificuldade explicam o que ganham e quais são as vertentes envolvidas e nesciamente explicitadas. 
= O encantamento de subdesenvolvidos manifesta-se em muitos outros aspetos, nem sempre detetáveis a olho nu, pois muitos dos programas que Lisboa ganhou nos tempos mais recentes – incluído as JMJ2022 – mais parecem fogo de vistas do que projetos com alguma finalidade. Ora, quem vive na dita ‘área metropolitana de Lisboa’ pode perceber um tanto mais proximamente como a macrocefalia alfacinha se sobrepõe a tudo e a todos. Os confrontantes com a capital – aquém ou além Tejo – vão servindo de suporte para os episódios de festança, mas pouco mais fazem do que aplaudir o que eles preparam e impingem, o que eles programam e executam, o que eles toleram que outros estejam, mas com dificuldade deixam que sejam mínimos intérpretes… E nas coisas da Igreja católica não se nota a mais singela diferença! 
= Se as autoestradas foram o símbolo do cavaquismo, os subsídios a pataco do guterrismo, as obras faraónicas não-executadas do socratismo, a austeridade troiquista do passismo, a melancolia tecnológica – onde a web summit’ é como que o expoente máximo – sê-lo-á do costismo… Isto é, muitas iniciativas de ricos, mas com bolsa de pobres; diversos capítulos de sucesso, mas com enganos a detetar e, sobretudo, fazendo-nos crer que somos um país desenvolvido, mas que não passa de ocupar o fundo da tabela da União Europeia em matéria de trabalho, de qualidade económica e de produção de riqueza… Afinal, muita parra e pouca uva, tendo ainda em conta que a produzida é de deficiente qualidade! 
= Na mesma pantalha onde se exibem oradores e participantes da ‘web summit’ aparecem reportagens de escolas em reivindicação por falta de auxiliares e com condições menos aceitáveis, hospitais que não conseguem ter as urgências abertas por deficiência de médicos e até o presidente da República, nas ruas da capital, a reclamar mais atenção para os milhares de sem-abrigo…
É isto um país de sucesso? Será isto uma sociedade de conquistas tecnológicas? Onde andam os que se dizem porta-vozes dos desfavorecidos? Hibernaram antes do tempo ou estão a contar as armas de combate sindicalista? Será que dura sempre a capacidade de ludibriar?  
Parece que o discurso, por estes dias, está entaramelado à semelhança da gaguez de certos intervenientes, mesmo que se apelidem de livres, de esquerda e talvez democratas…   

António Sílvio Couto

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Mudaram as perguntas


‘Agora que sabia as respostas, mudaram as perguntas’. Esta frase parece ser atribuída a uma das principais figuras de uma série de banda desenhada com largos anos de existência e de razoável sucesso entre as crianças e onde essa tal figura contesta a ‘repentina’ mudança, que lhe baralhou as ideias e, sobretudo, as respostas.
Ora, esta visão continua a manter-se atualizada, pois muita gente arquitetou respostas para perguntas do passado e esqueceu-se de que novas questões são colocadas e as ditas respostas já não colhem nem têm aceitação… Pior ainda é quando queremos responder a questionamentos que não nos foram feitos, manipulando as respostas…e talvez invetivando os perguntadores, que, manifestamente, mudaram. 
= Há tantas associações/coletividades, que foram pioneiras na hora do dealbar, mas que se encontram quase decrépitas na atualidade. Muitas vezes fixaram-se em causas que rapidamente mudaram e os objetivos se foram tornando subjetivos à mistura mais com os adjetivos do que com os substantivos. Noutras situações foram os intérpretes que não conseguiram aferir-se à mudança, anquilosando-se nas suas certezas e deixando de corresponder às necessidades para que foram criadas. Quantas vezes foi possível constatar a mesquinhez de certos dirigentes mais interessados em promoverem-se através dessas instituições do que em continuarem o espírito original… 
= Vamos encontrando, entretanto, outras instituições que, devido ao seu peso e longa história, vão sobrevivendo à luz de uma certa memória preservada e atualizada através de gestos, palavras e sinais. Por vezes há setores – dentro e fora – que colocam a Igreja católica entre a lista de instituições que apresentam respostas a questões não ditas ou que querem continuar a responder com uma linguagem que nem todos compreendem. Talvez isto não aconteça em toda a extensão da Igreja católica, mas haverá locais e regiões onde isso pode ocorrer, embora seja notório o esforço por adequar as respostas às perguntas e por não usar de subterfúgios para não se pronunciar. 
= Vivemos num tempo que tem as suas especificidades, onde a velocidade requerida para a resposta não se compadece com a elaboração das perguntas, pois muitas destas andam mais ao sabor das emoções do que da componente intelectual. A argumentação não parece ser mais dedutiva, mas quase emerge da vivência indutiva, colocando pressão em apresentar soluções, quando estas precisariam de ser mais elaboradas, se quiserem ser consistentes e até mesmo satisfatórias.
Por outro lado, a quase emergência do ‘sempre-contatável’ faz com que se viva nessa permanente franja da superficialidade, pois os acontecimentos sobrepõem-se uns aos outros, destronando o que antes parecia ser importante para ser suplantado por outro mais recente, podendo nem ser o mais essencial. Quantas vezes vemos a sofreguidão de perguntas a alguém que tem de saber dosear a sustentabilidade das respostas, de modo a que não se contradiga mesmo sem disso se dar conta.
Se a isto acrescentarmos a inexorável ditadura da imagem, então poderemos estar a cozinhar um cocktail de emoções, onde as respostas parecem mais perguntas e estas pequenas teias – nalguns casos poderão ser peias – de uma comunicação líquida e assaz incongruente. 
= A noção de tudo está certo e correto, desde quem pergunta até quem responde, sabendo o que perguntar e aquilo que se deve responder, está continuamente em causa neste tempo de comunicação rápida, estereotipada e, nalguns casos, manifestamente inconsequente. Saber quais são as perguntas que nos são feitas e dar-lhes as respostas mais adequadas é uma tarefa de contínua aprendizagem e humilde colaboração. Precisamos de pessoas bem formadas na arte de estar com os outros para que não caiámos num certo desânimo que só nos trará mais constrangimentos e dificuldades em saber discernir os mistérios de Deus na história (atual) dos humanos. De nada adianta entrarmos numa fase de malquerença, pois, se não soubermos interpretar o tempo que vivemos, não seremos dignos das oportunidades que nos são concedidas!         

António Sílvio Couto

sábado, 2 de novembro de 2019

Como conciliar natalidade com aborto?


No programa do XXII governo constitucional faz-se larga referência à questão da demografia, mais em vista de colheita económica do que com mentalidade pela vida.
A partir da página 100 e até à página 103, o dito programa dedica algumas considerações e propostas.
Respigamos da abertura dessa secção:
«Sendo a diminuição da natalidade e da fecundidade um traço comum dos países desenvolvidos, Portugal encontra-se entre os casos em que os níveis de fecundidade mais desceram ao longo das últimas décadas e onde têm sido, nos últimos anos, extraordinariamente baixos. Os impactos desta tendência, a longo prazo, pioram as perspetivas demográficas do país, mas, acima de tudo, significam que as condições para as pessoas desenvolverem os seus projetos de vida, designadamente para terem e criarem filhos em Portugal, sofrem bloqueios significativos.
O objetivo das políticas públicas nesta matéria é, por isso, criar condições para que as famílias possam ter os filhos que desejam ter, permitindo-lhes desenvolver projetos de vida com maior qualidade, segurança e melhor conciliação entre trabalho, vida familiar e pessoal. Trata-se não apenas de uma política de melhoria das perspetivas demográficas do país mas de uma verdadeira política de família, visando a promoção do bem-estar numa sociedade mais consentânea com as aspirações e projetos das pessoas
».  
Posteriormente apresentam-se aos itens: ‘facilitar a opção pelo segundo e terceiro filho’, ‘reforçar o acesso a serviços e equipamentos de apoio à família’, ‘melhorar o regime de licenças como instrumento de promoção da parentalidade e de conciliação entre trabalho e vida familiar’, ‘promover um melhor acesso à procriação medicamente assistida e aos cuidados materno-infantis’.
Será que a família tem o significado que todos entendem do mesmo modo? Os filhos serão fruto ou resultado? A defesa da natalidade é objetiva ou sofre de subjetividade capciosa interesseira? Porque nunca se aflora nada quanto à participação da iniciativa privada nas questões familiares? Os filhos são propriedade do Estado ou projeto de vida familiar? Porque há medo de assumir que ‘as últimas décadas’ de diminuição da natalidade coincidem com a vigência do aborto despenalizado?

= De facto, em tudo isto não lemos nada que se refira ao erro histórico de ter feito do aborto – eufemisticamente dito de ‘interrupção voluntária da gravidez’, porque nem é voluntária nem interrompe, antes mata – uma das mais recorrentes facetas de planeamento familiar e como recurso em ter sido usado este método para dizimar milhões de vida, que, agora, fazem falta para que haja equilíbrio geracional e até renovação social.
Os números circulam na comunicação social: desde 2007 – data do segundo referendo ao aborto em Portugal – e até 2016 houve cerca de cento e sessenta mil abortos ditos ‘legais’, nalguns casos com repetições…
Quem tenha já ouvido pessoas, que recorreram ao aborto, continuam com essa ferida aberta na consciência e não será preciso invocar alguma razão religiosa, bastará a dimensão humana, que é bem mais forte que toda e qualquer faceta religiosa por muito ou pouco exigente que possa manifestar-se. Efetivamente é diante de pessoas mais velhas – e não se pense que são só senhoras – que fico comovido e estupefato pelas dores que manifestam…passadas décadas sobre os ‘desmanchos’.   
= Não deixa de ser irónico, para não lhe chamar minimamente hipócrita, que se venha agora clamar por mais condições para a natalidade, quando se optou antes pelo falhanço cultural de fazer do aborto um nível de reduzir a vida ao meramente material. Criaram-se condições para que a opção pela vida pareça algo de menos digno do que luta pela carreira profissional.
Enquanto as forças que desencadearam o projeto do aborto despenalizado não reconhecerem, além do erro, a má-fé de todo o processo, considero que iniciativas em favor da natalidade não passam de patranhas de mau gosto e de duvidosa eficiência, pois estaremos a laborar numa falsidade de valores e numa mentira ética sem rosto nem responsáveis. O ‘inverno demográfico’ tornou-se, assim, um inferno sociológico, onde uma boa parte se desculpa, não assume os seus erros e, normalmente, foge de forma cobarde.

António Sílvio Couto

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Do homem-da-saia… à saia do homem


Um tanto pateticamente vimos, no dia de início da nova AR, um pretenso homem vestido, nos passos perdidos, de saia. Tudo parecia ainda mais inopinado se, ao lermos as ‘razões’, tal atitude possa roçar o exotérico, pois só ele e uns tantos mais (da sua linha ideológica-panfletária) perceberem a lição que pretendiam dar ao resto da população.
Aquela manobra de folclórica não terá sido uma forma de distração para os mais incautos da gaguez da deputada ao lado dele, no espaço parlamentar, que o tal assessor – soube-se depois que era essa a função em exercício – queria suportar? Será algo de paradigmático que, noutros assuntos, iremos ver manobras dessa distração para que os objetivos sejam atingidos com ironia suficiente e superficialidade quanto baste? Se a moda pega – não a da saia, mas a dos fait-divers – a dita ‘casa da democracia’ tornar-se-á ainda mais casa do jocoso e antecâmara do circo social e não-artístico? 
= Por muito (ou pouco) que o episódio possa revelar da liberdade de expressão, ele deverá ser mais do que motivo de distração, pois, como se viu posteriormente, o tal ‘homem-da-saia’ é mais do que um homem vestido com saia, mesmo que a moda em uso seja suscetível de críticas…mesmo do estilo e de gosto. Veja-se que logo vieram vozes – entre as quais a do próprio – a defender a alta cotação intelectual do dito. Mas não será que o ridículo e a falta de senso não andam muitas vezes associados à liberdade de fazer o que se quer, mesmo quando com isso se pretende que esteja longe da normalidade da regra? Certas (ditas) passagens de modelos, em acontecimentos que preenchem páginas e resmas de revistas cor-de-rosa, não andam na franja do bom senso e, quantas vezes, do sem-senso? Como se poderá compreender que haja na comunicação social um departamento de ‘crítica social’, que mais não faz do que colocar à mostra aquilo que a moda, a roupa ou a falta dela, quiseram despertar com outros seguidores, adeptos e sequazes? 
= Aquela imagem do ‘homem-da-saia’ nos passos perdidos da AR, trouxe à liça querer compreender um tanto melhor não o uso da saia, mas o seu recurso pelo sexo masculino… Se a coisa for colocada na instância de ‘género’, o assunto pode mudar ainda mais de figura e talvez mesmo de horizonte.
Nada nem ninguém tem autoridade para contestar que um homem se vista de saia. O traje eclesiástico da batina é o quê? O hábito dos religiosos não tem uma configuração um tanto idêntica à da saia, ao menos na formulação posterior do corpo? A tradição do kilt de certas culturas anglo-saxónicas não parte de idêntica e mais elaborada apresentação? 
= Talvez o que aconteceu na data de abertura da 14.ª legislatura, no passado dia 25 de outubro, pode tornar-se como que num não-assunto, onde as manobras de distração poderão andar de mão dada com iniciativas que intentem subverter a nossa cultura judeo-cristã, dando azo a que uns tantos possam aproveitar-se das fragilidades de outros para imporem – mesmo de forma bizarra e algo desleal – as suas ideias e não para criarem, como seria desejável, consensos sobre o que de melhor possa ser para todos e não só para os seus apaniguados.
A saia do homem-assessor não pode converter-se no ensaio do homem-da-saia… meramente provocador ou talvez não!

António Sílvio Couto

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Estado distribui o que os privados ganham?


A tendência em menorizar a iniciativa privada por contraste com a capacidade de distribuição de regalias pelo Estado tem vindo a acentuar-se, tanto na mentalidade como no comportamento de uma boa parte dos governantes – e afins – no nosso país.

Disso mesmo podemos dar conta ao consultar o programa do XXII governo constitucional, desde logo o mais longo em gente, o mais lesto em partidarite e possivelmente o mais lento em decisões credíveis e aceitáveis para todos e não somente para a fatia do funcionalismo estatal.
Vejamos alguns dos enunciados do programa de governo (extraído da introdução do texto publicado):
* Desafios estratégicos: combater as alterações climáticas; responder ao desafio demográfico; construir a sociedade digital; reduzir as desigualdades.
* Regas de boa governação: contas certas para a convergência com a União Europeia; melhorar a qualidade da democracia; investir na qualidade dos serviços públicos; valorizar as funções de soberania.
Se atendermos ao sumário do dito programa pouco ou nada faz olhar com a devida atenção para o papel da iniciativa privada, antes pelo contrário, se exclui qualquer privatização e se acentua ‘nacionalização’ de tudo quanto possa acontecer, como por exemplo na área da saúde.
É notório o papel do Estado-patrão, onde quem não estiver tutelado por ele ou atrelado a ele não consegue atingir os fins de uma sociedade marcada pelo ferrete anti-privado.
Será que as conquistas tão altissonantes de ‘recuperação dos rendimentos e da confiança da economia e do emprego’ se fizeram só à custa das contas certas e não de alguma austeridade suportada por impostos nem sempre claros e justos? Será que o autoapelidado ‘ciclo de consolidação da recuperação da economia’ se fez (ou não fará) pela habilidade dos governantes ou não foi, sobretudo, fruto da conjuntura internacional favorável? Não será que o almejado ‘ciclo de sustentabilidade a longo prazo’ não estará em causa, quando se descobrir que a distribuição de proventos e de benesses foi enganadora e iludiu o povo mais do que o educou para a verdade daquilo que são as nossas frágeis possibilidades? 
= Certamente que já todos nos questionamos onde vai buscar – o termo tem alguma conotação com a caça – o governo fonte de financiamento para ter proventos capazes para as obras públicas, as diversas áreas de intervenção do Estado, para salários, ordenados e pensões e até para, desde quando em vez, dar uns trocos de garantia aos seus servidores, que são os mais de oitocentos mil funcionários públicos. Claramente a resposta é: aos impostos, lançados, cobrados ou exigidos às pessoas e empresas. Como estas são entidades privadas e não podem fugir ao fisco, sob o risco de serem multadas, penhoradas ou fechadas, vemos que a grande fonte de receita do Estado-patrão está situada naquilo que o governo – e as ditas forças de esquerda – não aprecia, não ajuda e muito menos considera parceiro do desenvolvimento social, económico ou empresarial.
Não podemos esquecer ainda as subvenções da UE como fonte de muitos dos fundos governamentais…
A queda do desemprego – referido no documento do governo como tendo atingido mais de 350 mil novos empregos – à fasquia mais baixa do tempo da (apelidada) democracia…é título de glorificação. Até a subida do ‘ordenado mínimo’ foi arte e obra do governo passado e vai continuar, galopantemente, neste.
Há questões que, por serem da área da iniciativa privada, não são tocadas nem ao de leve. Poderão todas as empresas – ditas pequenas, médias ou da economia social – suportar tais subidas? Certas forças ditas ‘patrióticas e de esquerda’ – tão defensoras das pequenas e médias empresas – são das que propõem que o tal salário mínimo mais suba, não cuidando se há ou não meios de o conseguir. 
= Nenhum país cresceu, cresce ou crescerá sem uma harmoniosa articulação entre o que compete ao Estado e a iniciativa privada. O mal, neste momento, no nosso país, é a acentuada reversão em considerar a iniciativa privada, com o conjunto dos partidos em maioria, para que o Estado seja dono e senhor de toda capacidade de promoção, de apoio e o menos possível de subsidiação. Para alguns que sempre viveram sob a proteção do Estado não lhes faz confusão o que acontece, mas quem teve de se fazer por si, custa ver-se relegado para plano secundário, particularmente se não se quer viver de sopas alheias…    

António Sílvio Couto

domingo, 27 de outubro de 2019

Entre a vida e a governança





No mesmo dia e em horas desencontradas, decorreram na cidade de Lisboa, a 26 de outubro, dois acontecimentos paradigmáticos: a tomada de posse do XXII governo constitucional, no palácio da Ajuda, e a ‘marcha pela vida’ (na sua 9.ª edição), entre o largo Camões e o Parlamento, em Lisboa… e em mais cinco cidades: Porto, Braga, Aveiro e Viseu. 
= O acontecimento do governo ocupou todas as luzes e o resto sobre si, enquanto a ‘marcha pela vida’ teve umas fugazes imagens de um quase desdém e ao arrepio da mentalidade reinante.
Depois do limbo noticioso a propósito do governo…desde as eleições de 6 de outubro, vamos estar em grande frenesi nos próximos dias, vendo e mostrando as novas/velhas figuras, justificando os gastos acrescidos e as causas de diversão para que se não olhem os problemas de frente nem se tenha de tomar medidas contra a violência nas escolas, as inconcebíveis condições de viagem nos transportes públicos ou mesmo as incontornáveis mazelas da justiça… Tudo está bem, quando o governo diz que nada acontece ou não quer aceitar ver! 
= À semelhança de outros anos a ‘marcha pela vida’, mesmo de modo transversal, trouxe à colação problemas na área da saúde, onde dizem os responsáveis estatais, parece estar quase tudo sob controlo, não fossem a falta de pediatras para manter urgências abertas, as longas listas de espera para consultas e cirurgias, as convulsões dos serviços, tanto com os enfermeiros como com os médicos…
Tudo isto é tanto mais simbólico, quando no primeiro dia da nova AR, um partido trotskista – que julga ganhar, mas que afinal perdeu mais de cinquenta mil votos só nas últimas eleições – colocou uma iniciativa para legalizar a eutanásia. Esta gente é daquele tipo de carraça que só larga quando mata o animal de aluguer… Foi assim no aborto, insistiram no tema até terem um vislumbre de vitória sem glória – o resultado do referendo não atingiu os votos previamente programados para ser válido – e, agora, voltarão à carga até vencerem pela exaustão quem os pretenda enfrentar…
É público e notório que a campanha do aborto como meio de controlo da natalidade está a dar frutos: querem ter filhos nas escolas, mas mataram-nos legalmente pelo aborto…desde 2007 e estamos a colher os frutos; querem ter a sobrevivência da segurança social, mas enjaularam os critérios nas consultas de planeamento gizado nos critérios abortistas mais baratos e simplistas; reclamam de que o país está velho, mas mataram as fontes de vida pelo aborto e por outros interesses hedonistas à la carte…
 = Não deixa de ser patético que o governo queira rejuvenescer a população com artifícios de má conduta, isto é, lança as premissas para estar a favor da vida, mas continua a servir-se de dislates anti-vida, desde os mais primários até aos mais complexos. Quem seja a favor do cuidado dos mais desfavorecidos – como dependentes, sem mobilidade ou incapacitados de autonomia – não consegue vislumbrar algo que, na lei e nos impostos, os proteja e/ou os ajude. Há momentos em que o estado/governo se comporta como ditatorial, pois só os ‘seus’ modelos (materialistas, sincopados pela aparência ou aureolados de boa imagem) valem e quem não for da cor do partido (ou afins) está, à partida, relegado para fora das ajudas, comparticipações ou benesses.
Por analogia com a trama no ‘Triunfo dos porcos’ de George Orwell, na quinta todos os animais são iguais, mas há uns que são mais iguais do que outros! Apesar da distância no tempo (1945) e da filosofia subjacente (comunismo soviético), vemos como pululam tantos tiques dessa época naqueles que assumem, agora, o mando por cá. Creio que ser-lhes-ia muito útil ler e meditar sobre aquele tempo para que não se cometam neste tempo erros que deviam estar há muito ultrapassados…
Ao vermos a tomada de posse do XXII governo constitucional, o ‘triunfo dos porcos’ deixou um certo amargo de confusão entre o ‘napoleão’ da estória e os intervenientes desta memória…mesmo que negociando novos moinhos de vento em vez das centrais a carvão…dentro de quatro anos! A vida tem mais encanto quando se gasta tempo na reflexão daquilo que somos e não naquilo que queremos impingir…

António Sílvio Couto

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Entre o ‘anti’ e o ‘pró’… (h)aja bom-senso


Os prefixos ‘anti’ e ‘pró’, por vezes, surgem como contraditórios…embora possam ser interpretados como complementares, pois, quem se diz ‘anti’ parece querer pronunciar-se ‘pró’ e vice-versa. Também na grafia deste título queremos exprimir duas conceções: ‘haja bom-senso’, isto é, que exista esse tal senso comum em qualidade suficiente e capaz e que ‘aja bom-senso’ significa que se atue com ponderação e sem extremismos, que o ‘anti’ ou o ‘pró’ podem conter…por antagonismo.
Nos mais diversos campos de atividade vemos que aparecem figuras que são ‘anti’ qualquer coisa pela quase necessidade de que isso possa fazer ser/estar ‘pró’ ou a favor de outro algo, possivelmente nas antípodas do que se combate.
Vejamos breves exemplos de possibilidade:
- Se tivermos em conta o campo político/ideológico conseguimos encontrar muitos exemplos de ordem provocatória: do antifascista ao pró-comunista/marxista; do anti populismo na referência de direita ao pró-populismo na consonância do extremo à esquerda; quem se tente afirmar anti tudo e pró pouco… 
- Outro setor/vetor deste confronto ‘anti’ – ‘pró’ situa-se nas questões da vida e nalguns aspetos de índole moral, pois ser pró-aborto exclui ser pró-vida e, quando se coloca a questão da eutanásia parece que ser pró-eutanásia é mesmo escolher estar anti-vida… Há, por vezes, antagonismos que se criam, difundem e defendem que têm muita de carga em ignorância e onde estar ‘anti’ ou ‘pró’ significa muito mais do que aceitar ou rejeitar uma posição diferente da minha. 
- Nos tempos mais recentes é, no campo do ambientalismo, que temos visto, limos e ouvido posições mais acirradas nesta dialética ‘anti’ – ‘pró’, tornando-se certas visões, suficientemente, fundamentalistas e quase irracionais. Há situações em que uma posição é benéfica ou não, atendendo a quem diz – de direita ou de esquerda, progressista ou conservadora, interessante ou desprezível – e não tendo em conta o que é dito e com que fundamentação. Mesmo no quadro dos partidos com assento parlamentar na AR reaberta podemos ver diversos interessantes, que se têm vindo a acusar de mais ecologistas, ambientalistas ou mesmo defensores da natureza, tenha esta o significado que cada um lhe quiser dar. Deste modo podemos ver uns que são ‘pró’, mas que os outros consideram ‘anti’ e que, do outro lado da barricada, podem ser ‘anti’, mas vestem a capa do ‘pró’! 
- Até no campo das igrejas – incluindo a católica, em particular – há quem se posicione no ‘anti’, mas o que faz é para iludir os outros, pois, está a favor (‘pró’), mesmo que o faça de forma capciosa. Quantos deambulam pelos corredores do poder, sem autoridade, mas que exigem aos outros aquilo que não cumprem, minimamente. Em certos casos é maior a vergonha em não denunciar do que a desvergonha em incumprir. Certos corifeus da moralidade escondem-se sob a capa que lhes convém, até que se descubra que há incongruência entre o dizer e o fazer. A melhor forma de se ser verdadeiro é poder parecer que se é ‘anti’, mas na prática se está ‘pró’… ou vice-versa, desde que aja em consequência daquilo que se faz com o que se haja…E, se de repente, alguém quisesse mudar, isso não incomodava ninguém! 
- Mais do que mediania, que nada muda nem muito menos incomoda, através do bom-senso poderemos corrigir erros de extremismo e, sobretudo, dando a quem o tenha uma capacidade de ser e de estar tentando descobrir em cada pessoa o que há de positivo e não estando na retranca da sua maledicência ou má intenção. Embora não esteja à venda nem em saldo, o bom-senso é sempre útil e benfazejo…para estar ‘anti’ ou ‘pró’!

António Sílvio Couto

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Qual o significado de um governo tão extenso?


Dezanove ministros e cinquenta secretários de estado, fazem do XXII governo constitucional o mais extenso de todos na era (dita) democrática.
Várias pessoas já se interrogam sobre esta inflação de gente levada para o governo, cerca de sete dezenas. Será isto forma de dar emprego a certos boys e a umas tantas girls do partido, conjugando distritais, concelhias e locais? Não se estará a esbanjar tão rapidamente o que foi amealhado com esforço e sacrifício? Dizem uns tantos mais exagerados, que se dividiu em excesso e que se virá a decidir no mínimo…tais serão as sobreposições de tarefas e até de competências.
Tal como se pode constatar o governo português é, na UE, dos que mais elementos coloca na área da governação, talvez fazendo jus a essa tendência quasi-terceiro-mundista de querermos aparecer alguns (bastantes, diversos e aos molhos) para pensarem que somos muitos…e talvez bons! De facto, a eficiência não se mede pela quantidade, mas, de verdade, pela qualidade. Ora, esta não parece abundar no elenco do vigésimo segundo governo. Com efeito, nota-se a repetência, que não rima como eficiência, provinda do elenco anterior, de 14 ministros e de 23 secretários de estado, trocados, mesmo assim alguns, de pastas…num total global de 19 ministros (11 homens e oito mulheres) e de 50 secretários de estado (33 homens e 18 mulheres), em percentagem global de 37,1% de mulheres e de 62,9% de homens.
A fazer fé – coisa que não se percebe na panóplia dos intervenientes – nas boas intenções do ‘chefe’, este elenco governativo pretende combater a desertificação do interior, tentar maior descentralização e a gestão dos recursos humanos do aparelho de estado… Todos começam assim, mas bem depressa caem nas tentações do ‘terreiro do paço’ e comportam-se como anjos caídos à semelhança do morgado de Fafe em Lisboa e tantos outros bem-intencionados… Leiam-se textos da literatura do final do século XIX e veremos os mesmos erros, tiques e promessas…Hoje como ontem! 
= Há dias recebi um email, com indicação de ‘formação para…’, mas não vinha nada nos anexos, ao que respondi, em jeito de sarcasmo: página em branco – sinal ou profecia?
Mutatis mutandis, direi com tanta gente num só governo, vai funcionar ou vão-se atrapalhar? Darão conta do recado ou esbanjarão sem nexo? Teremos um tempo de governo ou de governança?
Uma nota algo preocupante em vários setores da nossa vida pública é vermos que a incompetência compensa e quem antes fez mal pode chegar a lugares de topo e/ou de governo. Esta sensação perpassa muitos dos campos da intervenção na nossa sociedade e este elenco governativo não está isento desta pecha. Quando foi preciso reduzir a pó os estabelecimentos de ensino não-estatal, lá esteve alguém que agora vai assumir a tarefa da modernização e de administração pública… talvez reduzindo a iniciativa privada a um montão de escombros para reciclar… Por entre tanta incompetência em gerir os fogos mortais dos anos recentes, vemos que o posto de comando foi colocado na mesma mão… Observadas divergências para com a televisão estatal, vemos tutelar quem antes se incompatibilizou, sabe-se lá se de forma real ou fictícia… 
= Por entre o nevoeiro do futuro não se vislumbram mais do que sombras nem sempre de bom agoiro, pois a tendência de boa economia e que gerou ‘contas certas’ talvez não se possa prolongar por muito mais tempo. A versão favorável vinda do exterior não parece querer dar continuidade a quem vai geri-la…até porque caiu uns pontos na hierarquia do comando…político. Será isto prenúncio de menos boa prestação ou poderá servir de desculpa, quando se verificarem as primeiras infiltrações?
Setores tão importantes como a saúde, a educação, a segurança (social e pública) continuam com os mesmos titulares, não havendo adiamento para decidir o que urge e não continuar a desgovernar o que resta. Setores primários como a agricultura e os recursos marinhos estão na cauda do elenco, dando como que a entender que nos bastará receber o que venha de fora, pois produzir não compensa… Isso de dar boa impressão de que se vai atender ao interior desertificado e sem meios de sobrevivência bem depressa se tornará uma fraude intelectual e moral… Não basta trocar de boys ou de girls, se o pensamento está inquinado, mesmo na vertente do ambiente. Parece uma coisa grande, mas veremos se será (e fará) uma grande coisa!   

António Sílvio Couto

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Aprendizagens (normais ou bizarras) para idosos


Volta e meia lemos, ouvimos ou vemos que um grupo de idosos foi fazer uma nova ‘experiência’ de aprendizagem…de hóquei em campo, de dança, de música, de teatro…indo ao encontro das suas memórias, recordando tempos passados…explorando novos campos em imitação dos mais novos…
Certamente que é importante e fundamental que os mais velhos – custa a ver que se substitua a palavra ‘velho/a’ por outra pretensamente similar – estejam ocupados em atividades que os satisfaçam e não que os possam como que ridicularizar. Isso cabe à programação de gerontologia…educativa, social, psicológica… nos ‘determinantes genético-biológicos e socioculturais’.
Tentemos encontrar uma básica referência aos termos que podem envolver os mais velhos. Diz-se na wikipédia quando se fala das diversas vertentes do envelhecimento e da gerontologia: O envelhecimento representa a dinâmica de passagem do tempo e a velhice inclui como a sociedade define as pessoas idosas. A biologia do envelhecimento estuda o impacto da passagem do tempo nos processos fisiológicos ao longo do curso de vida e na velhice. A psicologia do envelhecimento, por sua vez, se concentra nos aspectos cognitivos, afetivos e emocionais relacionados à idade e ao envelhecimento, com ênfase no processo de desenvolvimento humano. A sociologia baseia-se em períodos específicos do ciclo de vida e concentra-se nas circunstâncias sócio-culturais que afetam o envelhecimento e as pessoas idosas. 
= Estamos a falar de ‘velho/a’, mas, desde quando, é que uma pessoa entra nesta fase ou estádio de vida? Haverá um marco fixo ou andaremos ainda à procura de uma data mais ideal? Com a evolução da média de idade em termos de falecimento, ser velho em que idade se situa?
Poder-se-á considerar que ‘velho/a’ se pode enquadrar por volta do sessenta e cinco anos – numa aproximação à dita ‘idade da reforma’ (se esta aumentar, aumentará a outra?) – tendo, no entanto, em conta a condições de vida de cada sociedade, país ou mesmo cultura…
Segundo dados publicados recentemente, em Portugal, por cada 100 jovens há 153 velhos. Se atendermos a dados anteriores poderemos ver que em 1960 havia 27 velhos por cada cem jovens… o que nos dá a noção bem clara do envelhecimento progressivo da nosso país, prevendo-se ainda que, em 2050, quase metade da população portuguesa tenham mais de cinquenta e cinco anos. 
= Perante este rápido e (quase) superficial diagnóstico que vemos ser implementado para os mais velhos? Por vezes vem-nos à lembrança o recurso aos lares – agora pomposamente designados de ‘estrutura residencial para idosos’ – atendendo a que as famílias não conseguem nem têm meios para cuidar dos seus mais velhos, sejam pais ou outros: desde os mais simples e baratos – o que não quer significar desleixados ou sujos – até aos mais elaborados e com taxas exorbitantes, vemos de tudo num mercado onde o estado/governo não investe, embora vá subsidiando, apoiando ou mais ou menos ajudando… Bastaria aqui trazer à colação o que o estado/governo gasta com cada preso: cerca de cinquenta euros por dia, enquanto dispõe de pouco mais de dez euros diários de comparticipação para os lares devidamente certificados, acompanhados e visitados (fiscalizados) pela segurança social…
Iniciativas como a ‘universidade sénior’, atividades de ocupação do tempo (onde se podem incluir, de forma organizada, os centros de dias), locais de encontro e de convívio…umas vezes organizadas por associações e entidades ligadas à área, noutras vezes assumindo as autarquias esse papel, sobretudo em maré de eleições ou como atividades de promoção de quase entretenimento com segundo sentido.
Há, no entanto, situações que seriam dispensáveis, quando usam os mais velhos – em especial por ocasião de festividades como o natal ou o carnaval – em algo que não os dignifica, antes como que os ridiculariza. Não gosto de ver mais velhos a fazerem figuras tristes, vestidos com roupas que os infantilizam ou pior os fazem algo de chacota local ou mais alargadas, pois algumas dessas atividades não há quase pejo de divulgar pelo buraco da fechadura em que se tornaram certas (ditas) redes sociais… Sinceramente: não gostava de ver o meu pai ou a minha mãe a fazerem certos papéis, que considero menos dignos de pessoas com história de vida e de dignidade a preservar… Aprender a ser velho/a e a lidar com eles, precisa-se!               

António Sílvio Couto

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Populismo tem cor, rótulo ou fragância?


O que é o populismo? Qual a cor (ideológica) preferencial do populismo? Será um qualificativo ou um epíteto de mau gosto e de pior agoiro? Estaremos, de verdade, numa época propícia a populismos?
Vejamos o que nos diz a enciclopédia wikipedia sobre o assunto: «Populismo é um conjunto de práticas políticas que se justificam num apelo ao “povo”, geralmente contrapondo este grupo a uma “elite”. Não existe uma única definição do termo, que surgiu no século XIX e tem obtido diferentes significados desde então. Poucos atores políticos descrevem a si mesmos como “populistas”, e no discurso político o termo geralmente é aplicado a outros pejorativamente. Em filosofia política e nas ciências sociais, diferentes definições de populismo têm sido usadas. O termo também é usado de forma variada entre países e contextos políticos diferentes. Alguns autores simplesmente rejeitam o uso do termo como excessivamente vago».
Ora, sinal dos tempos que decorrem de um modo algo atribulado, é esse de vemos prelados católicos pronunciarem-se sobre ‘populismos’, advertindo que pode haver uns mais perigosos do que outros… numa quase tentativa de branqueamento perante certas forças mais ou menos influentes.
Esta onda de tal perigosidade vai lançando com subtileza as garras àquilo que, múltiplas figuras pensantes e adjacentes, convencionaram apelidar de ‘populismo de extrema-direita’, enquanto uma outra corrente, que defende temas na extremidade inversa, a da ‘esquerda’, combate, menospreza e achincalha, assuntos como a vida, a defesa do nascituro e do velho/doente em ponto extremo, da família e de outros valores quase fundacionais da nossa cultura judeo-cristã. Com efeito, quem defende e exerce o direito e a prática do aborto e da eutanásia, propaga e vive segundo a ideologia de género e tudo o resto que faça da família algo de insignificante…não é rotulado de ‘populismo’, mas recebe a catalogação bem contrária da classificação de ter ideias progressistas, antissistema e aceitáveis…popularmente. 
= Exatamente é para denunciar esta incongruência pública e também privada, que me proponho gastar algum do esforço nesta reflexão.
Desde logo há que acertar: populismo nunca é bom, tenha ela a cor que tiver e venha travestido da roupagem que lhe quiserem enfiar…mesmo que com alguma fragância dos urais ou da muralha chinesa…
Sem qualquer remoque de sarcasmo, ouso citar um diálogo entre um cego e um coxo; diz aquele a este: como vais…responde o outro: como vês!
Efetivamente esta temática do populismo é uma espécie de remake desta conversa, pois, uns veem que os outros não conseguem andar, enquanto uns tantos tentam andar o que os outros não conseguem, minimamente, ver.
Parece que, no nosso tempo marcado pela velocidade e por alguma superficialidade que lhe pode estar adstrita, se ergue uma tendência maioritária a considerar que não podemos defender algo que possa destoar de uma pretensa conjugação entre os anti-valores, preferencialmente fora do quadro judeo-cristão, e um acentuado neopaganismo, senão explicito ao menos tácito. Certas correntes ecologistas – num afunilar ecológico/vegan – endeusam a natureza e matam os humanos, protegem os animais e sacrificam as pessoas, encrespam-se perante os desvios de milímetros e toleram abusos de quilómetros…Nunca como agora pretender ser (ou fazer-se passar) ecologista se foi tornando campo de camuflagem e um terreno minado para vários interesses a gosto e sob promoção barata…em final de feira! De facto, os vendedores de material contrafeito, perante estes fazedores de ecologismo/populista, quase parecem fiscais em rusga avisada. 
= Temos de assumir: não há populismo um bom e outro que pode ser mau, sobretudo, se fizerem de tal distinção um campo preconceituoso ou, pelo menos, mal-intencionado. É digno da maior repulsa que pretendam impingir que o populismo é de direita, quando vemos o de esquerda a ser tanto ou mais repugnante do que aquele que catalogaram com a conivência de forças que de democráticas têm pouco, agora e no passado recente. O regime da Venezuela e da Correia do Norte não é populista? Ou será que só o do Brasil e dos EUA é que merecem tão qualificação?
Populismo (de direita ou de esquerda), não, obrigado! Não será que o populismo em Portugal está no poder?          

António Sílvio Couto

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Abstenção: como interpretar?


Mais uma vez cresceu a abstenção nas eleições legislativas do passado dia 6 de outubro: 45,5% num total numérico de não-votantes de quatro milhões e duzentos e cinquenta mil recenseados.
Sobretudo em tempo posterior ao ato eleitoral é fácil ouvir acusações para com os abstencionistas, só faltando acusá-los dos males decorrentes da não-vitória, da derrota ou até mesmo da deceção em não ter atingido os objetivos a que se propunham…
A cifra de 45,5% pode ser equivalente à soma média dos votos dos partidos da antiga geringonça – PS e BE: 46,2; PS e CDU: 43 – sem construir outros cenários mais ou menos credíveis ou plausíveis…
No entanto, a (possível) opção da abstenção é – ou deve ser – uma preocupação para quem se possa interessar pela intervenção na vida pública/política, onde nada acontece por acaso e por onde devem passar as leituras dos cidadãos para com as consequências dos seus atos. Constatar que a abstenção tem vindo a crescer desde as primeiras eleições legislativas de 1975 – 8,5% até hoje – 45,5%...isto se excluirmos episódios de maior expressão noutras eleições, como europeias (68,6 em maio passados) e, nalgumas situações, autárquicas localizadas…
Correndo o risco de deixar uma interpretação um tanto exagerada, a abstenção poderá ser lida como escândalo, desinteresse, cobardia ou mesmo ofensa aos outros.
Desde logo fique claro que considero a abstenção como um ‘pecado’, na medida em que, sendo uma obrigação moral, para um cristão, ao não participar na votação, torna-se uma falta grave ou mesmo ofensiva para com Deus e em relação aos outros.
* Abstenção – um escândalo na medida em que se entrega a outros, aquilo que é nossa obrigação, ofendendo a memória de quantos lutaram para que fosse restabelecido este direito. Agora que podemos exercer este dever cívico não podemos, por negligência na maior parte dos casos, permitir que outros decidam por nós ou até mesmo contra nós. Numa época em que devemos participar nas coisas de todos, será um escândalo arranjar desculpas para não votar, pois, nesse dia somos todos iguais, cada um só vale mesmo um voto!
* Abstenção manifesta desinteresse, colocando a democracia em risco e podendo ela mesma afundar-se se não soubermos encontrar formas e meios para extirpar este cancro da nossa sociedade…um tanto narcotizada pelas melodias dos mais incapazes, que desta forma não serão julgados nas votações… Há fortes indícios de que a abstenção favorece os incompetentes e os pequenos ditadores, pois se não criarem condições para serem avaliados podem perpetuar-se no poder por inação dos demais.
* Abstenção pode ser entendida como cobardia – talvez um termo demasiado agressivo – mas onde estão contidos muitos dos argumentos com que boa parte dos abstencionistas se desculpam, na hora de irem votar, mas que depois assumem o papel de críticos, quando não se pronunciaram na hora própria e devida. Com efeito, a sua legitimidade como que claudica, quando não se incomodaram com votar e, posteriormente, se acham no pseudodireito de reclamar.
* Abstenção é, por isso, uma ofensa para com os outros, na medida em que não fazendo a sua parte na construção equilibrada da sociedade e se arrogam no direito de se quererem equiparar para com quem procura fazer-se corresponsável nas iniciativas e decisões em favor do bem comum. 
= Diante destas breves observações sobre a abstenção, creio que é chegada a hora de introduzir alterações na participação pelo voto: fazendo obrigatório votar e penalizando (nas regalias sociais) quem não faça? Mudando as formas de angariar votantes, vinculando mais os eleitores aos eleitos? Escortinando quem se apresenta a eleição, por forma a que não haja tanta irresponsabilidade nas (ditas) propostas eleitorais?
Tem que se fazer algo contra a abstenção, pois, por este caminho, dificilmente um eleito se sentirá legitimado, quando a maioria não se pronuncia. Será que é isto que desejam que continue? Não basta lamentar, quando são apresentados os dados da abstenção e tudo se esquece porque se ganhou. Tenham vergonha, senhores/as eleitos/as! Façamos alguma coisa de proveitoso para a democracia, estimados eleitores!   

António Sílvio Couto

sábado, 12 de outubro de 2019

Numa certa cultura de laparotos


‘Laparoto’ é um adjetivo regionalista transmontano que significa: astucioso, manhoso, espertalhão…
Ora, não será este um bom atributo para nos referirmos a tudo (e o resto) quanto vai acontecendo no nosso tempo e numa razoável parte de quantos/as intervêm na vida pública? Certas artimanhas à portuguesa não passam de habilidade e de astúcia quanto baste para seduzir e tentar endrominar tantos/as e seus arredores? Não seremos todos filhos/as de uma cultura que se tem deixado nortear pela manha, a esperteza e alguma astúcia dissimulada ao longo da vida? 
= Fique, desde já, uma espécie de declaração prévia: o qualificativo de ‘laparoto’ não pretende atingir os outros – seja lá quem for – mas envolve-nos a todos, nessa nota cultural transversal ao comportamento e não como avaliação ético-moral. Seria de muito mau gosto ou poderia ser considerado ostracizante tentar chamar os outros como ‘laparotos’, sem nos incluirmos na leitura que os demais possam fazer de nós. Deste modo o termo ‘laparoto’ qualifica o nosso comportamento, pela envolvência que dele se pode fazer para que, cada um de nós, possa ver-se ao espelho daquilo que é e de quanto os outros o são como o nosso próprio espelho! 
= Em Portugal (quase) sempre tivemos ínclitas vozes de denúncia, tribunos que inflamam o público/povo com tiradas de combate, arautos da palavra e da promoção de tudo e do resto…desde que se não vá esmiuçar se há coerência entre aquilo que se diz e tanto do que se não faz. Quantas vezes os promotores da luta contra a pobreza o fazem, vestidos com roupa de marca (correta ou contrafeita). Quantas vezes ouvimos vozes altissonantes a propagandear igualdade para com todos, mas que não pagam o justo àqueles/as que os servem. Quantas vezes percebemos certas lutas até contra as alterações climáticas, mas que isso se verifica sob a ventilação de ar condicionado, que prejudica esse mesmo clima o qual dizem defender ou se transportam em veículos cómodos, que injetam no ar combustões bem mais prejudicais do que outras conjunturas.
Não estaremos a fazer dos outros uns tais laparotos sem reflexão ou desprovidos do mínimo de tino? Não estaremos a contar mais com a nossa esperteza sem atendermos, minimamente, à inteligência alheia? Não estaremos a guiar-nos mais pela autoadulação, sem nos apercebermos que já compreenderam a nossa incoerência e talvez esse outro oportunismo? 
= Como ‘laparotos’ quase nunca assumidos, mas suficientemente praticantes, precisamos de fazer um processo de autoanálise, de forma a sermos mais coerentes com aquilo que pensamos e a vivermos de acordo com o que pensamos e não a pensar de harmonia com aquilo que vivemos. Não haja dúvida que os princípios do cristianismo são de uma importância e ousadia impressionantes. O problema está na coerência de vida entre o que dizemos acreditar e tanto daquilo que não manifestamos, de verdade. Os valores do Evangelho comportam sinais de enorme desafio, mas será sempre muito importante deixarmo-nos guiar por eles, de modo a que não fiquemos nas boas intenções – já seria bom que as tivéssemos – sem tentarmos traduzir na prática aquilo em que dizemos crer…
Tenho para comigo que boa parte deste clima de laparotice – substantivo constituído a partir da palavra ‘laparoto’, que nos serve de tema para este escrito – se deve a que muitos dos que se dizem cristãos/católicos se envergonham da sua fé e se escondem por entre ramagens de pouca credibilidade, tanto no pensamento, como na vivência. Seguem alguns dos critérios do Evangelho, mas votam em opções que contradizem aquilo em que dizem crer. Vivem uma prática religiosa que mais parece um descargo de trejeitos exotéricos do que algo que lhes saia do coração. Misturam fés com crenças e fazem do tecido da vida uma espécie de ritual a roçar alguma superstição, senão mesmo algum paganismo recauchutado ou neopaganismo em moda.
Muito sinceramente: sinto-me, em muitas circunstâncias, um tanto laparoto neste quadro humano, social, cultural e espiritual com que nos vamos entretendo… até para entender e ajudar os outros a serem menos laparotos!          

António Sílvio Couto

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

‘Gente que não sabe (mesmo) estar’


Embora seja título de um programa televisivo – diga-se de passagem que não vejo nem aprecio o desempenho do ator/comediante – esta expressão resume, de uma forma assaz contundente, o modo como tanta gente – substantivo que mais parece adjetivo para tantos/as – se desenrola na vida pública e mesmo privada.
É neste espetáculo da vida que podemos e devemos saber estar mais do que como meros atores de nível secundário, mas antes como intérpretes de tudo quanto nos faz ser, viver, sentir e estar…que é muito para além do parecer, do disfarçar, do deixar boa impressão ou até de ficar mais ou menos bem no retrato… 
= Virada a página das eleições vemos algum corrupio entre as forças autoapelidadas de ‘esquerda’, em tentativas diversas para conseguirem refundar a geringonça, tenha ela os componentes que possa albergar…até à sua expressão em maioria parlamentar. É digno de registo que o vencedor queira ardilosamente colar a si – usando os estratagemas de coligação, de acordo ou de pacto – as mais díspares forças da tal esquerda, pois sabe que se ele se afundar levará de arrasto todos os outros, bem como poderá reclamar os louros da vitória, quando essa lhe for um tanto favorável, como vimos nos dias mais recentes. Por seu turno, as forças da não-de-esquerda poderão e deverão reconfigurarem-se por forma a serem alternativa – talvez bem mais depressa do que seria expetável – atendendo às nuvens que se erguem no horizonte avisado de outras paragens e demais sensibilidades económico-financeiras. 
= Nesta fase do nosso ‘eu coletivo’ vemos, cada vez mais aparecerem atitudes que questionam a taxa de educação/cidadania/civilidade de grande parte das pessoas (gente) que ocupam lugares de responsabilidade: pessoas (gente) que têm instrução, mas onde a educação deixa muito a desejar, sobretudo pelo respeito para com os outros; casos em que as pessoas (gente) podem ter adquirido essa instrução, mesmo de qualificação (dita) superior, mas que se nivelam pelo mais rasca, quando se encontram com os da sua tabela/nível de convivência; situações em que certos figurões (gente) do comando se comportam como ‘donos disto tudo’ sem olharem a meios para que (quase) todos se inclinem diante das suas pretensões, desejos, atitudes e decisões… parece que há uma espécie de ‘marquês de pombal’ em cada governante, seja qual for a época, o espaço ou a ideologia! 
= Há certas munias que, quando despertas, fazem logo estragos, pois, hibernaram na hora do compromisso, mas regateiam protagonismo quando está em disputa o espólio dos vencidos. Quantas vezes já assistimos a este ‘filme’ e não mais aprendemos! Quantas vezes se torna abjeto pretender ser herói nas derrotas, onde se foi cobarde! Quantas vezes a memória se afunila, porque não aprenderam com aquilo de que foram vítimas e agora se apresentam como fazedores de lições, que não colheram na sua hora de vencidos! 
= Numa dramática leitura do posicionamento da Igreja católica, tenho para comigo que é, de todas as instituições de âmbito não reduzido à lente das ideologias, aquela que mais se tornou quase insignificante nas posições que toma: não fala nem diz; não refere o que é preciso; não consegue acertar nas diretrizes em que devia ser mestra… Com efeito, onde está a sua voz profética? Por onde anda a sua sinalização sacerdotal? Onde deambula a sua marca de serviço na caridade?
É certo que a Igreja não patrocina nenhuma das forças em competição, mas que os seus fiéis não sejam visíveis no compromisso na vida política, torna-se atroz e incompreensível. Do tempo em que os vários candidatos – fossem quais fossem as forças – visitavam, ao menos em cortesia os prelados, até à total ignorância dos mesmos não passaram tantos anos assim. A realidade está cada vez mais arredada das questões da fé? Esta não tem expressão nos votos? Estes são algo sem núcleo de compromisso?
É verdade: há gente que não sabe estar na Igreja e tão pouco na política. Até quando?       

António Sílvio Couto