Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Do sorriso à alegria e vice-versa


Foi notícia por estes dias: uma cantora norte-americana, Miley Cyrus, de vinte e um anos, reconheceu que costuma deitar a língua de fora por não saber sorrir. Dizia: ‘fico tão envergonhada de as pessoas me tirarem fotos, que não sei como sorrir. Isso acaba por me deixar incomodada, pelo que deito a língua de fora, porque não me ocorre outra coisa’.

Ainda em contexto natalício, por entre tantas campanhas, havia uma intitulada: ‘missão sorriso’, onde se uniram uma cadeia de grande superfície comercial e uma entidade promotora de benemerência… em ordem a recolherem alimentos para famílias mais carenciadas… com transmissões televisivas de permeio… a sorrir!

= Por que é que se insiste tanto nesta dimensão do sorriso, será porque as pessoas parecem tão tristes? Será o sorriso uma qualidade humana ou ato do homem/mulher? Haverá verdade em muitos dos sorrisos com que nos cruzamos? Como se pode e se deve sorrir sem usar os outros? Podemos acreditar em todo o sorriso? Não haverá sorrisos falsos e falsos que se encobrem no sorriso? Não haverá algum cinismo em tantos dos sorrisos? Qual a raiz do verdadeiro e autêntico sorriso? Se atendermos ao contexto cristão/católico veremos alguma diferença? Serão os cristãos sinais diferentes ou tão iguais que (quase) nada dizem aos que não têm fé? Seremos anunciadores, pela vida e pelo testemunho, de uma mensagem alegre? O nosso rosto não será demasiado triste para que o sorriso não disfarce a falta de sorriso? 


= Dizem os entendidos que sorrir liberta muito mais do que se vivermos em atitude de tristeza. Para colocar uma fácies triste concorrem mais músculos em contração do que os que manifestam alegria em distensão … tornando as pessoas, com tendências de tristeza, um rosto mais pesado, agastado e mesmo envelhecido.
 

Como diz o Papa Francisco, na exortação Alegria do evangelho: «compreendo as pessoas que se vergam à tristeza por causa das graves dificuldades que têm que suportar, mas aos poucos é preciso permitir que a alegria da fé comece a despertar, como uma secreta mas firme confiança, mesmo no meio das piores angústias» (n.º 7).

Será que podemos criar uma nova cultura, onde a alegria seja marca e o sorriso uma distinção? Quais serão, então, os sinais necessários para que essa cultura se manifeste sem medo nem vã interpretação? Como poderemos ser mais alegres e não vivermos na desconfiança dos menos sorridentes?

Eis cinco breves propostas:

- Tornar a alegria dom e serviço aos outros, sobretudo, àqueles que não têm fé, pois, se pela alegria/sorriso, conseguirmos evangelizar, estaremos a tornar Jesus presente em tantas vidas que nos parecem vazias.

- Falar pela positiva e, por todas as formas, exorcizar os vendedores de tristezas e de maledicência… mesmo que isso implique denúncia profética.

- Criar círculos de boa influência, seja no espaço da família até no local de trabalho, bem como noutras instâncias de presença, tornando esses lugares (humanos, sociais e culturais) oportunidades de boa vontade e de boa harmonia entre todos e, onde os que pretendam ser más influências, sejam vencidos pela compreensão e pelo carinho fraterno.

- Propor e viver mais em conformidade com a credibilidade dos atos e não ao sabor das (boas) intenções… que facilmente se esboroam nos atritos de cada dia.

- Aprender a ter uma boa estória, anedota ou graça saudável, procurando fazer rir (ou ao menos sorrir) sem superficialidade, mas numa construção atenta ao bem alheio e não ao nosso interesse de protagonismo.

São só breves sugestões, que bem gostaria de poder viver como atitude de vida e não como ansiado projeto, pois da alegria (verdadeira) nos fala Jesus e nos ensina (sempre) o Espírito Santo…ontem como hoje!              

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Fraternidade – caminho para a paz


Na sua primeira mensagem para o próximo (47.º) dia mundial da paz, 1 de janeiro, o Papa Francisco faz uma longa dissertação sobre o tema: ‘Fraternidade, fundamento e caminho para a paz’.

Respigamos breves excertos e tentaremos colher algumas lições.

- A família é a fonte de toda a fraternidade.

- Num mundo caracterizado pela globalização da indiferença… lentamente nos faz habituar ao sofrimento alheio, fechando-nos em nós mesmos.

- A globalização torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos…[numa] ausência duma cultura de solidariedade.

- As novas ideologias, caracterizadas por generalizado individualismo, egocentrismo e consumismo materialista, debilitam os laços sociais, alimentando aquela mentalidade do descartável que induz ao desprezo e abandono dos mais fracos, daqueles que são considerados inúteis. Assim, a convivência humana assemelha-se sempre mais a um mero ‘do ut des’ [dou para que dês] pragmático e egoísta.

- A humanidade traz inscrita em si mesma uma vocação à fraternidade, mas também a possibilidade dramática da sua traição.

- A raiz da fraternidade está contida na paternidade de Deus.

- A fraternidade humana foi regenerada em e por Jesus Cristo, com a sua morte e ressurreição.

- Em Cristo, o outro é acolhido como filho ou filha de Deus, como irmão ou irmã e não como um estranho, menos ainda como um antagonista ou até um inimigo.

- A paz ou é bem de todos ou não o é de ninguém.

- Há uma forma de promover a fraternidade é o desapego vivido por quem escolhe estilos de vida sóbrios e essenciais, por quem, partilhando as suas riquezas, consegue assim experimentar a comunhão fraterna com os outros.

- As graves crises financeiras e económicas dos nossos dias impeliram muitas pessoas a buscar o bem-estar, a felicidade e a segurança no consumo e no lucro fora de toda a lógica duma economia saudável.

- As sucessivas crises económicas devem levar a repensar adequadamente os modelos de desenvolvimento económico e a mudar os estilos de vida.

- É precisa uma conversão do coração que permita a cada um reconhecer no outro um irmão do qual cuidar e com o qual trabalhar para, juntos, construírem uma vida em plenitude para todos.

- A fraternidade gera paz social, porque cria um equilíbrio entre liberdade e justiça, entre responsabilidade pessoal e solidariedade, entre bem dos indivíduos e bem comum.

- A natureza está à nossa disposição, mas somos chamados a administrá-la responsavelmente… De que modo usamos os recursos da terra?

- O serviço é a alma da fraternidade que edifica a paz.

= Tentativas de respostas às perguntas de sempre

Através desta mensagem o Papa Francisco, numa vertente típica do santo que fundamenta o seu nome – Francisco de Assis – aborda a temática da paz pela raiz da fraternidade, que nos faz a todos irmãos sem diferença de prerrogativas, mas antes idênticos na comunhão.

É mergulhando na essência da nossa pessoa humana – criada por Deus, em comunhão com a natureza, regenerada em Cristo e na vivência comunitária em Igreja – que a fraternidade se torna outro rosto da paz e ainda como compromisso político com os outros. Com efeito, muitos dos egoísmos e individualismos que nos tentam, acontecem pelo afastamento de Deus e do diálogo de uns para com os outros.

Por vezes tentamos encontrar desculpas para o nosso viver superficial, mas o que nos falta é a consciência de pertença à família humana e às suas mais diversas comunhões… mesmo que isso nos custe viver e testemunhar na verdade, na simplicidade e lealdade. A paz é possível, pois todos somos filhos de Deus e irmãos/as em Cristo!

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Para uma família ao ritmo de Jesus, Maria e José


Com a proximidade ao Natal surgem-nos momentos de reflexão – cultural, social e religiosa – onde se podem interpretar os vários intervenientes do quadro deste mistério cristão. Num primeiro momento apresentamos algumas reflexões sobre cada uma das personagens atuais da família e, posteriormente, deixamos uma breve proposta, em jeito de oração, diante das figuras da Sagrada Família de Nazaré. 

* Aprendizagem para hoje

Num tempo em que a temática da família é tão maltratada, torna-se urgente perceber como podemos e, sobretudo, como devemos, hoje, viver em conformidade com o projeto sumariado por Jesus, Maria e José.

= Jesus como filho torna os filhos mais agradecidos aos pais, na medida em que estes o cuidam, cultivam e acarinham. De fato, muitos dos filhos de hoje não têm o carinho nem o cuidado dos pais… tais são as preocupações em ganharem dinheiro para os sustentarem, que o tempo falta para o essencial…

Como se nota um certo abandono dos filhos, mesmo que se lhes dê coisas, se não se dá cuidado, eles sentir-se-ão joguetes ou armas de arremesso na hora da disputa e/ou do conflito. Reparemos em tantos filhos de pais separados. Olhemos com atenção para os filhos em circunstâncias de vulnerabilidade – os teus, os meus e os nossos! – e, tantas vezes, sem as mínimas referências de estabilidade emocional.

Jesus, o filho amado, cuide dos filhos em desamor e à deriva… mesmo anafados de bijuterias sentimentais!

= Maria na função de mãe como que exalta a ternura; na tarefa de esposa como que enaltece a vida; na dimensão de companheira como que nos faz entender a força na fraqueza; na vertente de filha e/avó como que nos situa na perspetiva de elo contínuo de gratidão e de longevidade… muito para além das raízes que se veem… naturalmente.

Maria, Mãe divina e intercessora nossa, ela nos ampara, cuidando de tantas mães que nem sempre exercem a sua função feminina, materna e maternal.

= José, na complexa visão da sua paternidade, simboliza o que de melhor se espera de um pai: trabalhador, atento, sereno e segurança da família… dando a cada um dos outros elementos familiares a certeza que ele está ali vigiando e sendo suporte da condição de todos com os olhos postos em Deus e em abertura aos outros.

Por José entregamos tantos progenitores que não são, verdadeiramente, pais, confiando-os à sua proteção e conselho. Por José queremos aprender, hoje, as lições da paternidade responsável e afetuosa, correta e terna, na medida em que os pais se tornem rostos da autêntica paternidade divina…em condição humana.

* Lições interpelativas

Quando celebramos a Sagrada Família de Nazaré, em contexto de Natal, podemos e devemos contemplar Jesus, Maria e José como modelo e protótipo do verdadeiro amor onde está presente o espírito de serviço para todas as famílias.
Olhamos e deixamo-nos contemplar por Jesus, Maria e José, naquilo que cada um viveu ou vive em família e nas lições que deles podemos recolher para cada um de nós neste tempo e segundo as nossas diversas circunstâncias:
- Em Jesus vemos o modelo de filho: obediente, amável, trabalhador, correto para com os pais, em sintonia com Deus...que ama e se deixa amar, tanto pelo pai como pela mãe!
- Com Maria podemos perceber o testemunho de presença da vida, de santuário da paz, de mestra na dedicação, de esposa atenta, de mãe terna, de companheira espiritual...amando e sendo amada! Maria é o modelo de serviço e de compreensão bem como de todas as virtudes humanas, disposta sempre a cumprir com toda a exatidão a vontade de Deus.
- Por José podemos ver o sinal de pai para todos os tempos: no serviço aos outros, na dedicação ao trabalho, na presença e proteção à mãe e ao filho, sobretudo nas horas de maior dificuldade.
- Sagrada Família de Nazaré intercedei, protegei, abençoai e conduzi as nossas famílias, particularmente as que possam estar em maior dificuldade, hoje.

 

  António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Humildade – lição essencial do Natal




Diante da azáfama das coisas do Natal, há (ou pode haver) algumas distrações que não se compaginam com a profundidade do mistério celebrado: o nascimento de Jesus.

Duma forma mais ou menos assumida vai-se interiorizando a necessidade de centrarmos no essencial estas coisas dos festejos natalícios: menos luzes (nas ruas e em casa), maior frugalidade nas despesas (de presentes/prendas, de comidas e bebidas, de brinquedos e afins, de deslocações e viagens, etc.)…numa tentativa de entender as razões daquilo que celebramos e, nós, cristãos, procuramos viver.

Para além das marcas sociais e económicas, o Natal tem marcas de índole psicológica e espiritual. Para além da festa da família, o Natal necessita de ser vivido com motivações mais do que meramente humanistas. Para além do aproveitamento das vertentes materialistas, o Natal deve criar condições pessoais e familiares onde o renascimento de Jesus se possa dar… tendo lugar na nossa casa, seja em mesmos, com os nossos, seja no ambiente em que habitamos, isto é, aquilo que fazemos e aqueloutro que me faz ser o que sou.

= Como será, então, viver a preparação e o próprio Natal em humildade?

Desde logo será conveniente dizer que não é humilde somente quem quer, mas a quem Deus concede essa graça… embora para se ser humilde tenha de haver esforço, pois esta faceta da nossa personalidade humana não é muito vendável, nos tempos que correm. Na preparação e na vivência do Natal temos alguém que vive, por excelência, a dinâmica da humildade: isso mesmo podemos ver tão belamente em Maria, nossa senhora. Ela é quem se faz – ou melhor, se deixa fazer – humilde para que Jesus tenha condições de nascimento, aconchegando-o em seu coração e depois afagando-o em seus braços e regaço.

Por outro lado, para se ser humilde e viver como tal só o conseguimos na medida em que aceitamos a profunda realidade do pecado, tanto em nós mesmos como à nossa volta. Aliás, este é o melhor caminho para nos reconhecermos como meros instrumentos nas mãos de Deus, isto é, numa humildade que nos torna agradecidos pelo perdão que Deus nos concede para celebrarmos condignamente Jesus, que renasce pelo perdão sacramental. Não deixa de ser revelador duma certa apatia a reduzida frequência do sacramento da penitência, no Advento, quando comparada com a participação no mesmo por ocasião da Quaresma. Ouvi, uma vez do recém-falecido D. António Marcelino, uma frase que atesta este aspeto: o Natal gera mais fraternidade do que conversão!

Ora, viver com humildade exige uma grande e profunda capacidade de despojamento, mesmo intelectual. E nem sempre é fácil ver como sabemos tão pouco, quer diante dos outros, quer na vivência à luz da sabedoria do Espírito Santo. Quantas vezes o nosso ‘orgulho intelectual’ nos impede que sejamos capazes de nos assumirmos na nossa ignorância, isto é, necessitados de aprender e, por conseguinte, aptos a fazermos, na humildade, um caminho de aprendizagem, seja no enriquecimento humano, seja na abertura aos outros e até no reconhecimento da nossa pequenez diante de Deus. Vejamos o percurso de humildade de São José, o servo sem palavras, mas rico de atitudes de seguimento da vontade de Deus. Não é uma mera casualidade que o Papa tenha proposto a invocação deste grande santo como patrono da Igreja: há de ser pela sua humildade que havemos de aprender a ser humildes, de verdade!

Numa palavra: estar disponível para fazer o caminho da humildade exige pureza de coração e simplicidade de vida. Com efeito, há sempre um longo caminho a percorrer… pois a humildade faz-nos mergulhar no húmus da nossa contingência mais profunda, aprendendo aceitar-nos para nos deixarmos converter cada vez mais radicalmente. Quem melhor do que Jesus viveu em caminho de abaixamento ao fazer-se homem e assim salvar-nos? Por isso, celebrar Jesus, no Natal, é fazer com Ele idêntico percurso na fé e no testemunho de vida, hoje.

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Carta aberta aos meus irmãos, padres!


Estimados irmãos,

Depois da mais recente exortação apostólica do Papa Francisco, A alegria do evangelho e perante a generalidade da nossa figura – visual, simbólica e humana – senti-me impulsionado a partilhar convosco algo que – progressiva, amadurecida e preocupantemente – me tem vindo a inquietar.

Para quem não me conheça, apresento-me: tenho quase cinquenta e cinco anos de idade e mais de trinta de ordenação sacerdotal; nasci na região do Minho, mas estou há mais de dezasseis anos em atividade pastoral na região de Setúbal; tenho uma certa tendência para escrever e, talvez, um hábito de pensar por escrito; gosto muito, no exercício, do ministério sacerdotal, da dimensão eucarística, numa dinâmica pneumatológica; encontrou-me numa descoberta da dimensão mariana…pessoal e eclesialmente.

Ora, no passado dia de Cristo Rei, participei no encerramento do ‘Ano da fé’, na diocese de Setúbal, que decorreu em Almada. Reparei que a maioria – senão mesmo a totalidade – dos rostos dos (nossos) padres denotavam alguma tristeza… talvez ansiedade, inquietação… e, sei lá: desânimo!

Diz o nosso povo, na sua sábia e acrisolada sabedoria, algo que aqui se pode citar: ‘o mal e o bem ao rosto vem!’ Ora, se aquilo que se vê é triste, como não será de tristeza a nossa difusão disso, mesmo a um tempo que se manifesta cada vez mais entristecido…

- Sabem, tão bem ou melhor do que eu, que os problemas das pessoas se repercutem em nós. As dificuldades das pessoas deixam marcas em nós. As dores dos nossos irmãos e irmãs deixam-nos em comunhão com os seus sofrimentos…por mais ou menos tempo!

- Nós falamos de ressurreição, mas nem sempre da forma mais alegre e entusiasmada. Nós falamos de esperança, mas parece que ela não nos envolve de verdade. Nós difundimos o amor – sobretudo na vertente mais divina e divinizante da caridade – e das suas manifestações, mas talvez nem sempre o testemunhemos afetiva e efetivamente…

- É certo que, por vezes, não temos a devida ressonância das nossas propostas nem das que a diocese nos coloca. Talvez os que nos acompanham e com quem caminhamos, sobretudo, nas paróquias não se empenham nem se comprometem como gostaríamos. De fato, esbarramos com alguma indiferença, apatia e desinteresse. Por vezes podemos ser tentados a nivelar as propostas pelo menor denominador comum, gerindo uma pregação light ou até propondo uma religião amolecida…

- Deixo, por isso, em jeito de propostas breves achegas para o tempo do Advento:

* Se o nascimento de Jesus é mensagem de alegria, temos de celebrá-lo com novo entusiasmo. Podemos não converter muitos, mas que consigamos pelo menos um novo cristão mais consciente e alegre.

* Se a celebração do Natal gera fraternidade, tentemos fraternizar o nosso ambiente, a começar pelos nossos vizinhos e familiares.

* Se não podemos recristianizar o Natal, tentemos ter dois ou três gestos que possam levar Jesus à vida daqueles que nos foram confiados pela Igreja como campo de evangelização e de missão.

 Queiram-me desculpar o que vos escrevi, mas tudo isto é primeiramente para mim. Se vos for útil aproveitem.

Com estima e amizade,

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Sinais de alegria… num tempo entristecido?


«A alegria do Evangelho enche o coração e toda a vida dos que se encontram com Jesus. Aqueles que se deixam salvar por Ele são libertos do pecado, da tristeza do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo nasce e renasce a alegria todos os dias. Nesta exortação [Evangelii gaudium] quero dirigir-me a todos os fiéis cristãos, convidando-os a uma nova etapa evangelizadora marcada por esta alegria e indicando caminhos da peregrinação da Igreja nos próximos anos».

É assim que se inicia a exortação apostólica A alegria do Evangelho, do Papa Francisco, publicada no passado dia de Cristo Rei, 24 de novembro, data de encerramento do ‘Ano da fé’.

Procurando lançar novas pistas para o anúncio do Evangelho no mundo atual, o Papa analisa, em quase trezentos números, divididos por cinco capítulos: a transformação missionária da Igreja; na crise do compromisso comunitário; o anúncio do Evangelho; a dimensão social da evangelização; evangelizadores com Espírito…

Se bem que tenhamos de ler, refletir, rezar e meditar este primeiro texto exclusivamente do magistério do Papa Francisco, queremos, nas atuais circunstâncias do nosso país colocar breves e urgentes considerações e questionamentos sobre a nossa identidade coletiva.

= A quem interessa incendiar o nosso povo?

Temos visto e ouvido pessoas – acreditávamos que eram gente de bem, mas pelo que fazem e dizem não o serão! – a tentar incendiar os (des)ânimos do nosso povo, criando quadros de guerrilha, lançando bocas desmioladas, com posições intempestivas e apelando à revolta (quase) anarquista… a curto e médio prazo.

Desculpando uma vivência pessoal recente: como se pode acreditar que há boa-fé em certas manifestações, quando vemos horas a fio trabalhadores autárquicos a vociferam contra tudo e contra todos – até atingindo, inclusive, os seus patrões eleitos – apelidando-os desde cobardes até ladrões, de corruptos, passando por incompetentes, apupando-os e ofendendo a dignidade pessoal, familiar e moral…Tudo isto aconteceu em tempo de trabalho, à porta de iniciativas de bem-fazer e atingindo quem nada tem a ver com tal espetáculo…

De fato, o povo anda azedo, os rostos das pessoas transmitem agressividade, as faces andam fechadas e os comportamentos, no mínimo, parecem esquisitos.

A dimensão assaz materialista de muitas pessoas deixa transparecer que o dinheiro não satisfaz e que a teoria da qualidade de vida alicerçada na experiência dos (meros) prazeres materiais pode dar gosto, mas não preenche a pessoa no seu mais elevado ideal humano, psicológico e espiritual.

Aos fomentadores da religião do consumismo estão a faltar (já) os tentáculos do engano com que foram iludindo os mais incautos e a fomentação da horizontalidade egoísta abre brechas nas muralhas da cultura ‘faz-de-conta’… É perigoso seduzir e depois não ser capaz de alimentar a provocação!

 = Desafios à autenticidade cristã

Dizia alguém com propriedade que a crise que temos estado a viver era uma oportunidade – que podia ser aproveitada ou desperdiçada! – para fazer refletir sobre o essencial da nossa condição terrena, podendo a proposta cristã responder ou não – melhor ou pior – com a audácia da pobreza evangélica… Esta será sempre um valor e não uma mera resignação e, muito menos, um convite à preguiça e à subsidiodependência.

Ora o que temos visto, nos tempos mais recentes, no nosso país, é uma tendência para nos irmos dependurando no ‘Estado-providência’, reclamando e pouco participando, exigindo e pouco trabalhando, confrontando e muito pouco servindo… E nem os clichés de ‘Estado social’, de ‘direitos adquiridos’ e muito menos a irreversibilidade das conquistas – laborais, de grupo ou mesmo de teor sindical – podem ofuscar a nossa responsabilidade na construção do bem comum e não – como é habitual – na submissão deste aos interesses particulares e quase neo-coletivistas… do século passado.

Está na hora de acordar deste marasmo hipocondríaco para onde nos têm atirado alguns dos mentores da facilitação. As vitórias não valem só quando os nossos adeptos vingam, pois a vingança é corrosiva, já!    

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Jesus terá lugar na minha casa?


A caminhada do Advento prepara-nos – ao nível pessoal, mas também familiar e mesmo eclesial – para celebrar o Natal, de Jesus, que é o celebrado em cada Natal... e não só as outras ocupações nem tão pouco a família, embora esta possa ajudar-nos a viver melhor o Natal.
Porque somos muitas vezes assediados com tantas solicitações a preenchermos a nossa vida com coisas e com isso nos satisfazermos na celebração do Natal, vimos propor, neste Advento um itinerário de aprendizagem para que Jesus possa ter espaço, lugar ou oportunidade neste Natal de 2013.
Se bem nos recordamos, na narrativa do evangelho de São Lucas, diz-se: «e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria» (Lc 2,7). Há dúvidas sobre a tradução de ‘hospedaria’, pois seria antes uma sala, um lugar de repouso ou até uma casa...e, só mais tarde, ganhou a referência a uma gruta ou espaço de recolha de animais...pela alusão à manjedoura, o lugar onde os animais comiam!
Tentemos, então, refletir sobre o significado da casa -- morada, família ou pessoa -- onde Jesus deve (re)nascer, neste Natal.
* A porta
Na 1.ª semana deste Advento meditemos sobre o significado da porta: por ela entramos, por ela passamos; nela damos início a um tempo de proximidade e espaço de partilha entre pessoas; com ela podemos entender Jesus, a porta, pelo Qual estabelecemos oportunidade de diálogo… com Deus e uns com os outros
Para entrarmos ou passarmos a porta precisamos de algo que revista e envolva os nossos pés, isto é, o calçado. Aquilo que calçamos pode servir de partilha para tantos outros que não têm o mínimo e suficiente. Poderíamos proporcionar, neste Natal, algo mais quente a quem precisa, partilhando com os outros não aqueles sapatos ou outro calçado que já não queremos (porque estão fora de moda ou gastos e velhos), mas aquilo que pode ser útil e benfazejo para quem precise! E, por que não, pormos de parte uma certa quantia em dinheiro que possa servir para que outros tenham uns sapatos novos neste Natal! Seria uma prenda diferente para os outros e não para nós!...
* A janela
Na 2.ª semana do Advento deste ano temos uma janela de grande alcance: Nossa Senhora de Quem celebramos, no dia 8 de dezembro, a sua Imaculada Conceição. Ela é a nossa janela de graça através da Qual podemos ver Deus e pela qual somos vistos por Deus na sempre Virgem e Mãe, Maria.
Tal como se diz na tradição católica, Maria é como que a vidraça por onde a Luz de Deus passou sem ser quebrada na sua integridade física, psicológica e moral.
Numa atitude de partilha poderemos dar lâmpadas, toalhas e até cobertores…para que outros tenham mais aconchego em sua casa, colocando a nossa fraternidade em ato de co-dividir com quem possa precisar mais do que nós...a começar pelos nossos vizinhos e até familiares.
* A mesa
Na 3.ª semana da caminhada do Advento pomos a mesa na nossa casa para que possa haver refeição, convívio, comida e bebida, conversa...onde se faz presença e geram momentos de vivência mesmo de fé. Estar à mesa com alguém é muito mais do que comer com -- ‘companheiro’ -- pois deve ser partilha com…
Ora para cozinhar os alimentos e ingeri-los precisamos de utensílios: panelas e tachos, colheres e garfos, pratos e copos... Talvez possamos gerar um ambiente de partilha destes artefactos com os quais podemos fazer da mesa esse lugar onde nos conhecemos e nos damos a conhecer... tal como fez João Baptista na sua vida e na sua missão.
* O espelho
Já próximos do Natal, no último domingo de Advento, poderemos apresentar o espelho como esse objeto diante do qual nos adornamos, pretendendo conhecer-nos melhor e darmos a revelar aos outros.
Digamos que na configuração da nossa casa, o espelho nos faz entrar nesse recanto mais íntimo da nossa identidade: aí nos permitimos ser sem disfarce e apresentar sem rótulos...fazendo o mesmo para com os outros e vendo também assim os demais... Aqui poderíamos incluir a partilha de alimentos ou de brinquedos na proximidade ao dia de Natal!
 
António Sílvio Couto

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Que desafios decorrentes do ‘Ano da fé’?


O «Ano da fé», que decorreu na Igreja católica, desde 11 de Outubro do ano passado e até 24 de novembro deste ano, foi um incomparável momento de graça, tanto para a Igreja como para o mundo. Com efeito, a Igreja tem vivido nos tempos mais recentes vários anos especiais de índole geral e mais específico: sacerdotal, paulino, eucarístico...
- E agora? - podemos perguntar: Que fé vamos viver e celebrar? Como podemos e devemos testemunhar, hoje, a nossa fé? Que sinais deve a minha fé emitir de autêntica conversão a Deus e aos outros?

À luz das propostas da Igreja universal como as das mais diferentes dioceses para este novo ano pastoral como que poderemos encontrar alguns aspetos em ordem a concretizar pequenos desafios de ordem eclesial, familiar e pessoal.
* Ao nível eclesial precisamos de recuperar a dinâmica comunitária, desde a descoberta da força da comunidade até à fé celebrada em comunidade. É diferente rezar só e com os outros. Será que nós acreditamos, de verdade, naquele desafio de Jesus: ‘onde dois ou três se reunirem em Meu nome, Eu estou no meio deles’?
Precisamos de unir as nossas forças comunitárias e o Senhor fará, hoje, na Sua Igreja os mesmos milagres do início do cristianismo. Porque será que, das nossas eucaristias, não saímos mais curados e fortalecidos? Porque, na maior parte das vezes, estamos divididos uns contra os outros!...em concorrência

Precisamos de vivermos mais voltados para os outros do que para os nossos ‘importantes’ interesses, mesmo que nos pareçam únicos e quase imprescindíveis. Quantas vezes a nossa fé celebrada seria mais eficiente se fosse mais simples e em comunhão pelas mãos uns dos outros. Se as nossas assembleias estivessem em maior sintonia, poderíamos ser testemunhas dos sinais do poder de Jesus, hoje como ontem.

Precisamos de criar sinergias entre todos os participantes nas coisas de fé, deixando cair as barreiras da indiferença, da mera simpatia para sermos todos e mais crentes celebrantes dos mistérios de Deus como fiéis, seja qual for o grau de vocação ou de ministério. Talvez devêssemos modificar a configuração dos nossos espaços celebrativos, deixando a assembleia/igreja funil para ser mais circular e concêntrica no essencial e não numa certa exaltação da dimensão piramidal com que ainda nos entretemos. Bastará reparar na forma como rezam os muçulmanos e muita coisa seria, em nós, diferente, por fora e, sobretudo, por dentro!

* Na dimensão familiar temos de criar ambiente de fé e de comunhão pela partilha e o perdão. Se as nossas famílias vivessem e rezassem unidas seriam, certamente, escolas de paz, de vida e de solidariedade. Com efeito, da conversão das famílias nascerá um mundo diferente e mais humano...mesmo politicamente.

Não basta dizer – mesmo no discurso da Igreja católica – que a família é essencial para a fé, se continuarmos a privilegiar propostas pastorais dissecadas, isto é, onde crianças e adolescentes estão longe dos velhos, onde os jovens desconheçam a problemática dos adultos, onde os setores profissionais como que se entrincheiram no dizer e no fazer, onde – como sói dizer-se – estamos reunidos, mas não estamos unidos!

Não basta considerar a família ‘igreja doméstica’ – como diz o Concílio Vaticano II – e depois não criámos condições, sobretudo pela vivência dos tempos litúrgicos mais importantes (Advento/Natal, Quaresma/Páscoa) dessa caminhada em família, na família e pela família… mais ou menos pequena ou alargada.

* Na vivência pessoal, a fé revela-se pelo contínuo processo de conversão a Deus e aos outros: a Deus pela aferição da vida à Palavra de Deus, aos outros pelo exercício da humildade na caridade. Quantas vezes parece que vemos mais o argueiro no olho do outros do que a trave que está no nosso! Será pela exigência connosco mesmos – muito mais do que para com os outros – que a nossa fé se irá tornar mais esclarecida, amadurecida e adulta, tanto na profundidade como no compromisso para com Deus e com os outros em Igreja. De facto, o mundo mudará quando cada um de nós se converter a Jesus por Maria, Nossa Senhora!

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Cegos guias de cegos!


«São cegos a conduzir outros cegos! Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão nalguma cova» (Mt 15,14). Esta citação da Sagrada Escritura tem-me andado a bailar na mente ao ver as atitudes de tantos dos nossos contemporâneos, sobretudo daqueles que, em lugares de poder, nem sempre sabem exercer a autoridade… com visão.

Desde já uma nota sobre os ‘cegos’, pois não nos referimos aos que têm esta limitação física, pois, muitos deles veem muito melhor dos que têm vista nem tão pouco pretendemos entrar numa linguagem eufemística da cegueira, mas antes queremos, tão somente, colocar alguns aspetos da (não) condução de quem nos devia conduzir, agora como no futuro, isto é, com visão e horizonte…

= Necessidade de preparação

Desgraça e infelizmente o nosso país não tem tido muitas figuras que preencham os requisitos para serem considerados ‘líderes’, seja qual for a instância de exercício desta tarefa, pois, como certamente sabemos, as qualidades de bons condutores de grupos, de povos e de gentes, não sendo totalmente inatas, precisam de ser descobertas, cultivadas e exercidas em função dos outros.

Vejamos o campo da política: quanta gente chega ao posto de mais poder por promoção dos parceiros e de múltiplos interesses do que pela boa capacidade de estar ao serviço dos outros. Como sói dizer-se: estão para se servir do que para servir!

Isto, em Portugal, é tanto mais grave quando já tivemos, nestes últimos quarenta anos de democracia, algumas personalidades com grande categoria de liderança – seja qual for a instância ideológica ou partidária – mas que não deixaram legado, antes, pelo contrário, como que secaram sucessores capazes de continuarem um bom rumo para o país. À eucaliptização dos solos seguiu-se idêntico processo nas mentes e nos comportamentos!

Nas duas últimas décadas temos tido gente mal preparada a exercer o poder. Figuras secundárias que ascenderam ao comando sem condições mínimas de lhes serem conferida a mínima autoridade, gastando o que se tem e hipotecando as gerações vindouras.

E o que vemos para o futuro próximo? Pessoas que continuam na senda deste descalabro, que até podem chegar ao poder por desgaste das incompetências no atual exercício, mas que sofrem de idêntica doença: falta de preparação, visão muito umbilical dos assuntos e das propostas… olhando mais pelo retrovisor da vida – que nos faz olhar para trás e em pequenino – do que pelo vidro panorâmico para a frente no veículo da vida!

= Precisamos de metas e de ganhadores

Veja-se como este país celebra algum feito de um dos ‘nossos’ em qualquer campo de intervenção no estrangeiro: sobretudo no desporto (particularmente no futebol), mas também nas artes e nos espetáculos… no entanto, nos temos capacidades de nos unirmos para construir um futuro mais humano e ainda mais fraterno. Por vezes, pequenos feitos poderiam capacitar-nos para sabermos compreender que será no sucesso comum que todos ganharemos e não nesta continua depreciação com que nos julgamos como que por natureza de vencidos.

Como podem ser levados a sério promotores da contestação, que mias se entretêm a protestar do que a trabalhar? Como vamos acreditar em quem levou dezenas de empresas à falência e agora se apresentam como defensores da classe operária? Como poderá alguém querer ter um futuro com direito a reforma se permitiu que se matassem os filhos, mesmo ainda não nascidos? Até onde irá este clima de fim de regime cultural, permitindo que a ‘família’ seja mais um antro de interesses do que uma escola de valores?

Se há quem se apresente com o direito a estar contra tudo e contra todos, também deve ser respeitado quem não quer tornar-se no coveiro desta Nação, que valeu sangue e lágrimas dos nossos antepassados!

Aos profissionais da maledicência – de que tanto gosta a comunicação social – precisamos de contrapor quem faz o bem em função dos outros e não dos seus interesses. Cegos sem visão, não obrigado!
 

António Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Da verdade à mentira… ao longo do dia

As pessoas tendem a ser mais verdadeiras pela manhã… e à tarde tornam-se mais propensas para mentir. Esta conclusão foi tirada de uma pesquisa de uma universidade americana, que averiguou que tal mudança ocorre porque o cansaço, gerado ao longo do dia, afeta o autocontrolo, que nos capacita para dizermos a verdade…

Certamente que esta conclusão universitária não terá nada de moral, mas antes poderá servir de equação de trabalho até podermos entender os comportamentos e as possíveis reações… nossas e dos outros. Há aqui, no entanto, algo que nos deverá levar a encontrar explicações para as atitudes das pessoas com quem contactamos e até para nos compreendermos a nós mesmos.

= Com a verdade ainda me enganas?

Cada um de nós, no seu dia-a-dia, contata com algumas (poucas ou muitas, segundo o caso) pessoas: umas de forma habitual, outras de modo ocasional; umas tendo um relacionamento superficial, outras tocando aspetos de vida mais pessoal; umas por razões profissionais, outras por motivos psicológico/espirituais; umas que nos enganam, outras que nos cativam; umas com quem simpatizamos, outras que, mesmo inconscientemente, quase repelimos; umas que se percebe que são sérias, outras de quem temos de estar mais na desconfiança… E esta lista quase dicotómica poderia continuar sem não abarcarmos as imensas diversidades e perspetivas…

Há, no entanto, um plano de denominador comum: todos e todas são pessoas que merecem o nosso respeito, mesmo que possam receber a nossa discordância nalguns dos aspetos de pensamento ou de ideologia, de opção política, de visão religiosa… ou ainda na dimensão cultural diversificada.


= Várias imagens que temos... de nós ou que apresentamos… aos outros

Poder-se-á dizer que as pessoas têm várias imagens de si mesmas e dos outros: desde aquela que cada um tem de si próprio até àquela que pretende fazer passar para os outros; da que é decorrente do papel social que exerce ou ocupa até àquela que se espera que possa ter nessa função; da que é mais normal até àquela que se pode tornar mais ou menos exotérica; desde a mais simples ou simplista até à mais elaborada ou rebuscada; da mais fácil de entender até à mais nebulosa; da imagem genuína e simples até à (dita) maquilhada e complexa (ou complexada), seja pelas influências alheias, seja pelos interesses mais pessoais…

Quantas vezes se nota um certo desfasamento entre o que nós pensamos de nós mesmos – a tal imagem que temos de nós – e aquilo que os outros veem – isto é, o modo como nos conhecem. De fato, o espelho a que tantas vezes nos vemos – mas nem sempre, infelizmente, nos observamos! – nos engana e faz com que até (quase) mintamos sem consciência.

Quantas vezes tropeçamos – pelas mais díspares circunstâncias – em pessoas que vivem para a imagem, muitas vezes falseada por valores, projetos e intenções nem sempre condizentes com uma cultura humanista… e muito menos com implicações cristãs. Talvez aí a mentira possa ser um modo de estar e de viver, muito para além de um desenrolar do dia-a-dia.

= Em vista de um novo rosto de pessoa… equilibrada

Com tantos afazeres e múltiplas preocupações as pessoas do nosso tempo têm, muitas vezes, um rosto demasiado dilacerado pelas amarguras, a ansiedade, a tensão, o medo… a falta de trabalho e de dinheiro, as dívidas e as dúvidas, as doenças e o desespero… Se tivermos tempo para observarmos os rostos daqueles/as com que nos cruzamos ou com que trabalhamos e vivemos, teremos descobertas de grande surpresa… Mas será que damos tempo para que tal se possa verificar? Ou andamos tão ocupados com coisas urgentes que nos esquecemos das mais necessárias?

Tentando recuperar a dignidade do rosto pessoal e dos outros, precisamos de aprender a viver na verdade de manhã, ao meio-dia, ao entardecer e pela noite dentro… tanto no sentido real como na dimensão mais poética e virtual, exorcizando as sementes de mentiras em nós e à nossa volta, já!

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Viciada em jogo… processa entidade promotora


Por estes dias foi notícia que uma mulher, viciada no jogo da ‘raspadinha’, vai processar a entidade promotora por publicidade enganosa, pois, segundo ela, dizem que se ganha sempre e ela, mesmo apostando um euro de cada vez, nunca lhe saiu o que era prometido.

O caso é ainda mais grave se atendermos a que a senhora em causa vive da prostituição e quando ganha algum dinheiro dessa atividade logo vai investir no dito jogo… sem resultado nenhum!

Mais do que um episódio a roçar um certo caricato esta situação é muito mais habitual do que parece, pois muita gente pretende ser rico sem trabalhar e ainda o recurso ao jogo poderá tornar-se um vício com dimensões quase incalculáveis.   

- Quando vemos agravarem-se as condições económicas do país e das pessoas, é comum proliferar a tentativa de esgravatar modos de sobrevivência. Repare-se nas apostas em frenesi, quando soa que há jackpot de algum dos jogos mais populares…

- Muitas vezes sob a capa de ajudar causas sociais, a entidade promotora – que até ostenta um nome de bem-fazer – procura ludibriar os mais aflitos, pois com pouco se tenta conseguir o muito de forma fácil, barata e sem trabalho… jogando, por vezes, os derradeiros recursos!

- Mais uma vez parece que somos levados a crer que o fascínio da riqueza – sobretudo se for rápida – seduz muito mais do que o correto esforço e o salutar merecimento pelo trabalho daquilo que se tem e do que se ambiciona ter.

- Em tempos de abaixamento moral vão surgindo salvadores com promessas de sucesso – de facto, só no dicionário é que ‘sucesso’ está antes de ‘trabalho’ – e de fortuna, criando novas ilusões sem que se faça o diagnóstico do que valemos, pois se pensa, ilusoriamente, que o dinheiro compra a felicidade em vez de, tantas vezes, a condicionar.

- Quantos expedientes de fuga se procuram engendrar para iludirmos a nossa incapacidade de nos aceitarmos com os dons e as capacidades, os erros e os insucessos, as vitórias e as conquistas, os conflitos e as reivindicações… Neste tempo que nos é dado viver não podemos continuar a ignorar quem nos tenta manipular ou nos quer comprar como novos escravos de uma nova etapa de consumismo.

= Sugestões para nova conduta

Perante estas incidências de busca de bem-estar com tonalidades de egoísmo ousamos propor breves sugestões ou desafios para a nossa conduta pessoal, de grupo, social ou coletiva:

. Cultivar a partilha fraterna – quando tantos tentam impor-se aos outros, mesmo que isso implique pisá-los sem olhar a meios, importa gerar critérios onde a partilha para com os outros os dignifique e os levante em vez de os maltratar com subtilezas mais ou menos materialistas.

. Promover a solidariedade – quando muitos se fecham às necessidades dos outros por defesa ou por desinteresse, urge criar sinergias de valores, desde a linguagem até aos gestos, por forma a estarmos atentos a quem vive ao pé de nós… sem nos fecharmos aos mais amplos desafios ao longe e ao largo.

. Desenvolver espaços de convívio – quando tantas e tão diversas iniciativas tentam fazer com que as pessoas saiam (ou procurem sair) de casa, não podemos desprezar quem queira desenvolver oportunidades de confraternização, seja nos espaços convencionais (associações, igrejas, cafés ou tertúlias), seja pensando noutros mais inovadores, como vivências de oração, de apoio a outros ainda mais necessitados ou até cultivando a mente e cuidando a cultura em ‘universidades seniores’ ou salas de animação… inter-geracional.

. Investir no património das pessoas – quando tantos investem na recuperação do património edificado – nesse espetáculo de degradação de muitos centros históricos de vilas e cidades! – é urgente lançar mão de todas as energias para que não sucumbam verdadeiras enciclopédias de vida, que são tantos dos nossos mais velhos, nem sejam enterrados aqueles/as que são a memória viva do nosso passado coletivo. Temos de recolher os seus depoimentos e de guardar o que nos possa ajudar a ter sentido de futuro… neste presente.

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A quem interessa espicaçar o (nosso) povo?


Num destes dias tive – em razão da função eclesial que exerço – de ir a uma festa de aniversário de uma associação de reformados, pensionistas e idosos, onde a maior parte das intervenções incluíram palavras como: luta e revolução, direitos e combate, crise e austeridade, manifestações e reivindicações… em discursos e linguagens tão repetitivos que mais pareciam cassetes, pois os cd’s precisariam de auto repetição!

O contexto sócio/político situa-se ao sul do rio Tejo e, por isso, tais expressões são muito comuns nesta zona, embora haja outras formas de pensamento e se usem também modelos ideológicos que não privilegiam tais acirramentos do povo para se fazerem notar. No entanto, dado o contexto social e económico em que vamos vivendo, parece-nos oportuno questionar quais serão os (reais ou virtuais) interesses em espicaçar deste modo sistemático o povo… simples, manipulado e, infelizmente, empobrecido.

= Perguntas e interrogações… no presente

Diante das manifestações – ditas (algumas) sindicais – será de perguntar: o número é de trabalhadores (atuais, reformados ou desempregados) ou será, antes, estratégia partidária? A ser esta não houve mais votos autárquicos do que participantes… na mais recente manifestação/desfile de autocarros?

Diante da linguagem inflamada de alguns – pretensos dirigentes – será de questionar: onde pensam encontrar dinheiro para continuarmos a viver sem sobressaltos? Vive-se hoje pior do que há quarenta anos ou somos nós que desequilibramos a balança com hábitos mal adequados à (não) nossa criação de riqueza?

Perante certas críticas – muitas daqueles que nos fizeram cair no fosso – será de perguntar: agora têm respostas, mas quando governaram só criaram problemas… sobretudo aos vindouros? Estes – de tão envelhecidos que estão – serão parte da solução ou vão agravar mais o problema?

Perante uma contestação sistemática – quase parece um sistema de ocupação do tempo de não trabalho – de certas forças e meios será de questionar: querem que o poder caia na rua ou querem que a rua seja o palco do poder? Este é de serviço ou antes de imposição… nem que seja pela exaustação ou será pela ambição desenfreada dos mais barulhentos?

 = Sugestões e propostas… para o futuro

Porque ainda acreditamos em que a democracia tem potencialidades de ser aprofundada, amadurecida e até, se preciso for, refundada, sugerimos breves propostas:

- Façam com que o voto seja obrigatório, deixando de haver que quem vota ou quem não vota tenha a mesma razão, mas nunca se comprometa na solução.

- Tornem os lugares de decisão espaços de educação, tanto pela forma, como pelo conteúdo, pois, no presente, a Assembleia da República mais parece uma arena de malcriadez do que a (dita) casa da democracia… pelo menos diante das câmaras televisivas.

- Obriguem a que só seja aceite na ‘sublime arte da política’ quem se preparou e não quem é empurrado pelas ideologias e/ou para pagarem favores de interesses de grupos e lóbis.

- Fomente-se a cultura da verdade e não se tente difundir o manto da mentira para que se crie o descrédito de tudo e de todos… menos do seus apaniguados.

- Faça-se com que os melhores (cultural, intelectual e humanamente) tenham gosto e honra em estarem ao serviço do bem comum e não com que, quem não presta, seja promovido, votado e empossado em lugares de responsabilidades… tanto na dimensão política como social e económica ou outras.

Nesta época de viragem não podemos continuar a usar as mesmas armas para enfrentar os atuais problemas, pois estes, além de criarem novos e urgentes desafios, trazem-nos a certeza de que os métodos anteriores – muitos deles totalitários – já faliram noutras paragens, por isso, será de precaver-se para com os mentores de coisas que perderam atualidade, tanto na forma como no conteúdo e até nos intérpretes. É preciso abrir os olhos e ser mais inteligente, descobrindo quem nos tenta enganar!

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Da cultura bimbo… ao ambiente digital


Não há muito tempo passava na publicidade televisionada uma referência a uma espécie de marca de pão, que tinha algumas caraterísticas idênticas às da (nossa) cultura mais hodierna: mole, saboroso e relativamente barato… Até havia uma razoável frota de veículos que rolavam pelas estradas, entupindo os mais apressados, que, exasperados, chamavam-lhe uma espécie de alcunha mais ou menos regionalista – ‘bimbo’ – a que um dos visados respondia: ‘com muito gosto!’…

Vem isto a propósito duma espécie de comportamento – até de muitos cristãos – que pretende que lhe forneçam – mesmo ao nível doutrinário – algo que não seja muito exigente, sem grande dificuldade e, sobretudo, apetecível a uma maioria com idênticas caraterísticas… Nalguns casos vemos responsáveis – mesmo no interior da Igreja católica – a alinhar nesta boa dose de fatias à bimbo!

= Na era do digital, como ser cristão?

Num tempo – designado por ‘era digital’ – em que se vive mais a interação do que a comunicação, torna-se difícil apresentar a doutrina cristã que não seja por uma vivência pessoal com Cristo, pois, muitas vezes, as pessoas se ficam pelas regras e não entendem as disposições, tanto as interiores, como as exteriores.

Com facilidade encontramos pessoas muito versadas em coisas da área da técnica e pouco no contato e no diálogo de uns com os outros. Há quem domine as mais atualizadas formas da linguagem e do ambiente da internet e se tornaram como que bichos uns para com os outros. Sabe-se muito do que está longe e capta-se pouco daquilo que está ao pé de nós… ou mesmo dentro da nossa própria casa!

Por muito que se pretenda dominar as ‘artes digitais’ bem como os espaços para interagir, isso nunca poderá invalidar a presença das pessoas umas às outras. Podem dar-se dicas para fazer bem essa interação, mas corremos o risco de cercear a ‘arte do acolhimento’ e da presença olhos-nos-olhos!

Apesar do que se tem feito na diversidade da mundividência ‘das redes digitais e /ou sociais’, não podemos esquecer que o calor dos outros em nós e para connosco é que faz a comunicação e não ‘essa’ mera experiência da tocabilidade num écran ou noutra forma do (dito) mundo virtual…

Embora haja quem pretenda reduzir a pessoa e a mensagem de Jesus ao quadro de leitura – na linguagem de Gutenberg dizia-se ‘gramática’ ou narrativa – do digital, mesmo que codificando ideias e propostas, nada nem ninguém será capaz de substituir o encontro pessoal com Cristo à mera suposição simplista de que tudo é fácil, imediato e sem consequências.

Nem São Paulo teve qualquer conta ou página no facebook e tão pouco Jesus participou nalgum arremedo de twitter…embora certos peritos queiram inovar em matéria de interpretação do tão rico material do Novo Testamento, onde muito do que lemos ainda não entendemos e daquilo que estudamos e escapa-nos o mais singular dessa comunicação: a dimensão comunitária denuncia o egoísmo de tantos dos projetos em análise, pois a força da Igreja não se reduz a devoções, mas à vivências com os outros na força do Espírito Santo…  

= Que cristãos queremos ser e viver?

Diante das imensas potencialidades da ‘era do digital’ queremos que haja cristãos bem formados e melhores executores da mensagem do Evangelho em todos os meios e ambientes.

Bem apetrechados das ferramentas do ambiente da internet queremos lançar mão de novos processos de comunicação onde Cristo e a sua mensagem sejam veiculados com verdade, simplicidade e ousadia.

Apreciando os mais diversos materiais em uso na ‘era do digital’ poderemos estar em rede de comunicação da mais sublime mensagem que ainda hoje é nova: a experiência da ressurreição de Jesus faz-se em ambiente comunitário de forma pessoal e amiga, fraterna e solidária, hoje como ontem e no futuro.

Inseridos num certo tempo do bimbo, queremos continuar a servir Deus e os outros com humildade e exigência, com simplicidade e carinho, em ternura e em compreensão… começando pelos que nos são mais próximos e em círculos alargados de diálogo e paz.

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Sínodo sobre a família


O Papa Francisco convocou o próximo extraordinário Sínodo dos Bispos, a realizar em Outubro de 2014, para debater «os desafios pastorais da família no contexto da evangelização».

Este anúncio, tornado público, no início desta semana, dá bem entender o que o Papa quer que sejam as respostas ‘a consultas reais, não formais’, foi referido pelos serviços de informação do Vaticano.

É com grande contentamento que escuto esta iniciativa papal, pois, sentia que era precisa da parte da Igreja católica – universal e diocesana – uma abordagem sobre um assunto que pode ser ainda a salvaguarda da nossa história humana e cultural… tais têm sido os ataques nos tempos mais recentes. Por vários modos, nas instâncias eclesiais onde posso intervir, tinha manifestado esta urgente necessidade. Por isso, agradeço a Deus que o Papa Francisco tenha tomado esta iniciativa… a médio prazo.
Pela complexidade do tema ouso apresentar algumas das vertentes – sem qualquer pretensão de hierarquizar as questões – que gostaria de ver respondidas na preparação, seja diocesana, seja paroquial e superiormente respondidas no Sínodo e, claro, na sua execução… colocando ainda perguntas mais ou menos simples.

1. A família é célula da sociedade. Como poderemos pensá-lo, senti-lo e vivê-lo, hoje?

2. A família constitui-se pela estabilidade de relação entre um homem e uma mulher. Como poderemos enquadrar outros sistemas com respeito e dignidade, mas com firmeza de valores?

3. A família é santuário da vida. Como pode ser vivida a opção em ter filhos quando o hedonismo e uma certa sexualidade desenfreada se sobrepõe ao amor responsável?

4. A família precisa de estabilidade. Como poderão ser educados os filhos num enquadramento onde nem sempre são valorizados como a melhor fortuna e herança, agora e no futuro?

5. A família é escola de fraternidade. Será possível gerar diálogo de gerações, quando não há tempo nem espaço para a partilha de vida séria, serena e saudável… nem para os mais velhos e frágeis?

6. A família é o espaço privilegiado da educação. Como se poderá coordenar esta tarefa com tantos outros intervenientes, tais como a escola, a Igreja e a sociedade em geral?

7. Na família se cuida e se é cuidado. Que estratégias terão de ser criadas para que todos sem sintam amados e capazes de amar atenta e gratuitamente?

8. Na família se transmitem valores, sobretudo de índole altruísta. Como se poderá valorizar a intercomunhão se as pessoas não fazem da casa senão uma espécie de hotel e/ou pensão?

9. Na família se aprende o valor do trabalho, do dinheiro e mesmo do bem comum. Como se poderá educar para a responsabilidade mesmo no tocante às coisas de natureza material e não na versão de consumo?

10. Na família se aprende a rezar e a colocar Deus na vida e nos critérios de conduta pessoal e moral. Teremos sabido transmitir a experiência de Deus e o conhecimento pessoal de Jesus Cristo na vida mais do que com lições mas com convicções?

Feita esta espécie de divagação, gostaríamos que o Sínodo sobre a família não fosse uma oportunidade perdida nem sequer uma ocasião para acusações, mas antes um momento de criar sinergias, onde todos queremos aprender e pouco ensinar, para além de interagir e de comunicar. Com efeito, a nossa marca de vivência em família será sempre o que mais (consciente ou inconscientemente) levaremos como código de toda a nossa vida… Há, no entanto, grandes linhas que ainda podem reger a nossa conduta pessoal, de grupo, de sensibilidade ou mesmo de dimensão espiritual. Porque acreditamos na família cristã – isto é, com raízes judaico-cristãs na história da nossa cultura – saudamos esta proposta do Papa e, queira Deus, que sejamos dignos da tarefa que nos é confiada.

Parafraseando, dizemos: cristãos de todo o mundo, uni-vos em defesa da família!

 

 António Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com