Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Entre ‘já’ e ‘ainda não’... vivendo ‘talvez’!


Se usarmos a linguagem teológica, decorrente da mentalidade expressa, de sobremaneira, no Concílio Vaticano II, saberemos que a conjugação das expressões ‘já’ e ‘ainda não’ se reportam à condição de contingêngia da presença da Igreja no mundo, na medida em que já vive a plenitude de Deus, mas ainda não a exprime de forma plena... Concretamente na constituição dogmática, Lumen gentium, sobre a Igreja (números 48 a 51) se fala na índole escatológica da Igreja peregrina e a sua união com a Igreja celeste, bem como na constituição pastoral, Gaudium et spes, sobre a Igreja no mundo actual (números 40 a 45) se refere a função da Igreja no mundo... pela cidadania cristã onde cada qual vive e aponta para mais Além...

1. Situação do ‘já’... presente e escatológico

Sem pretendermos entrar em lições de natureza teológica, poderemos interpretar o tempo em que vivemos – concretamente o futuro do novo ano – como a oportunidade que nos é concedida para percebermos o que ‘já’ aconteceu de real e vivenciado, tendo em conta a força radical em Jesus, Verbo encarnado e redentor: n’Ele, por Ele e com Ele o ‘já’ da história tem novo significado e a nossa condição terrena e temporal de crentes, sobretudo, em Cristo, ganha outra dimensão e actualização.

Num tempo bastante marcado pelo relativismo imediatista, onde, por vezes, cada pessoa faz de si mesma uma espécie de ‘absoluto’, que tenta aniquilar os outros relativos, como que se torna urgente encontrar as marcas divinas em cada um dos nossos companheiros de caminhada e/ou interlocutores: assinalados pela dimensão divina – onde pela força do baptismo será ainda mais notável e indelével da graça de Deus em nós! – somos chamados a viver no ‘já’ de relação com os outros, apresentando uma dignidade divinizante e divinizadora.

2. Condição do ‘ainda não’... em memória prospectiva

De facto, há vivências – sobretudo para os cristãos – que têm no desígnio divino a marca do presente escatológico em situação do ‘já’, embora em proposição do ‘ainda não’: estamos salvos, mas em contingência de pecadores; estamos glorificados, mas em condição de penitentes; estamos a viver o Reino de Deus, mas em condescendência de sementes... para a eternidade.

Quantas vezes sentimos e vivemos o ‘ainda não’ da vitória sobre a nossa condição pecadora. Quem não se escandaliza com as faltas – leves, graves ou mortais – de tantos dos cristãos, a começar pelos seus ministros! Quem não será susceptível à vaga de críticas aos erros da Igreja – sobretudo na dimensão católica – particularmente por ocasião das principais festas religiosas tradicionais, do Natal e da Páscoa! Com que furor – nalguns casos a roçar a fúria! – são expostas algumas das mazelas morais de membros do clero, desde que possam desviar a atenção de outros grupos e influentes sectores mais ou menos conhecidos... no âmbito da política contra a família, anti-vida e (até) no alcance da justiça... adiada!

3. Vivendo sob conjugação do ‘talvez’!

De verdade a ditadura do relativismo em que nos movemos como que pode condicionar a atitude de vida de muitos dos cristãos: vivemos numa certa era do descartável, onde pessoas e coisas se tornaram aparentemente importantes se delas nos aproveitamos mais ou menos com interesse... Depois duma moral rigorista – e quase estóica, senão no pensamento pelo menos na práxis! – agora vivemos num quase epicurismo popular e num hedonismo inteletual, procurando cada qual tirar proveito de si e dos outros como se fôssemos meros objetos de consumo... a curto prazo.

Nesta etapa do ‘talvez’ torna-se fundamental uma nova educação para os valores, tendo em conta os transcendentais – uno, bem, belo e verdade – e a sua aplicação à cultura de cada um. Com efeito, o ‘talvez’ poderá fazer a ponte entre o ‘já’ do ser e o ‘ainda não’ do existir, criando as condições mínimas e suficientes para que possamos viver nesta condição terrena de designados por Deus para sermos, neste mundo e neste tempo, os sinais divinos de Cristo e as centelhas do Espírito de Deus em cada lugar...

António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Para uma nova ética da paz


«A paz pressupõe um humanismo aberto à transcendência; é fruto do dom recíproco, de um mútuo enriquecimento, graças ao dom que provém de Deus e nos permite viver com os outros e para os outros. A ética da paz é uma ética de comunhão e partilha. Por isso, é indispensável que as várias culturas de hoje superem antropologias e éticas fundadas sobre motivos teorico-práticos meramente subjetivistas e pragmáticos, em virtude dos quais as relações da convivência se inspiram em critérios de poder ou de lucro, os meios tornam-se fins, e vice-versa, a cultura e a educação concentram-se apenas nos instrumentos, na técnica e na eficiência. Condição preliminar para a paz é o desmantelamento da ditadura do relativismo e da apologia duma moral totalmente autónoma, que impede o reconhecimento de quão imprescindível seja a lei moral natural inscrita por Deus na consciência de cada homem».

Na sua mensagem para o 46.º dia mundial da paz (1 de janeiro), o Papa Bento XVI centra a sua atenção na proclamação da bem-aventurança dos que fazem a paz.

Respigamos algumas das ideias que o Papa nos deixa como pistas de reflexão de conduta de vida... cristã neste tempo... colocando, por nossa parte, breves conclusões:

- Bem-aventurados os obreiros da paz – ‘as inúmeras obras de paz, de que é rico o mundo, testemunham a vocação natural da humanidade à paz. Em cada pessoa, o desejo de paz é uma aspiração essencial e coincide, de certo modo, com o anelo por uma vida humana plena, feliz e bem sucedida’.

- A bem-aventurança evangélica – ‘Jesus Cristo dá-nos a paz verdadeira, que nasce do encontro confiante do homem com Deus’.

- A paz: dom de Deus e obra do homem – ‘A paz envolve o ser humano na sua integridade (...) A realização da paz depende sobretudo do reconhecimento de que somos, em Deus, uma única família humana (...) A Igreja está convencida de que urge um novo anúncio de Jesus Cristo, primeiro e principal fator do desenvolvimento integral dos povos e também da paz’.

- Obreiros da paz são aqueles que amam, defendem e promovem a vida na sua integridade – ‘Caminho para a consecução do bem comum e da paz é, antes de mais nada, o respeito pela vida humana, considerada na multiplicidade dos seus aspetos, a começar da conceção, passando pelo seu desenvolvimento até ao fim natural. Assim, os verdadeiros obreiros da paz são aqueles que amam, defendem e promovem a vida humana em todas as suas dimensões: pessoal, comunitária e transcendente. A vida em plenitude é o ápice da paz. Quem deseja a paz não pode tolerar atentados e crimes contra a vida’.

- Construir o bem da paz através de um novo modelo de desenvolvimento e de economia – ‘Para sair da crise financeira e económica atual, que provoca um aumento das desigualdades, são necessárias pessoas, grupos, instituições que promovam a vida, favorecendo a criatividade humana para fazer da própria crise uma ocasião de discernimento e de um novo modelo económico’.

- Educação para uma cultura da paz: o papel da família e das instituições – ‘Ninguém pode ignorar ou subestimar o papel decisivo da família, célula básica da sociedade, dos pontos de vista demográfico, ético, pedagógico, económico e político. Ela possui uma vocação natural para promover a vida: acompanha as pessoas no seu crescimento e estimula-as a enriquecerem-se entre si através do cuidado recíproco’.

- Uma pedagogia do obreiro da paz – ‘Há necessidade de propor e promover uma pedagogia da paz. Esta requer uma vida interior rica, referências morais claras e válidas, atitudes e estilos de vida adequados (...). Pensamentos, palavras e gestos de paz criam uma mentalidade e uma cultura da paz, uma atmosfera de respeito, honestidade e cordialidade. Por isso, é necessário ensinar os homens a amarem-se e educarem-se para a paz, a viverem mais de benevolência que de mera tolerância (...). Isto requer a difusão duma pedagogia do perdão. (...) A pedagogia da paz implica serviço, compaixão, solidariedade, coragem e perseverança’.

= Perante estes desafios de Bento XVI como que podemos e devemos perscrutar os desígnios de Deus para nos comprometermos na construção da cultura da paz, pelo serviço à vida, tendo a família como espaço pedagógico e cultural, anunciando, em Igreja católica, de forma nova e ousada a Pessoa e a mensagem de Jesus, o Príncipe da Paz, ontem como hoje e por toda a eternidade!

 

António Sílvio Couto

(asilviocouto@gmail.com)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Desafios para aceitar e viver o Natal... deste ano!




A linguagem do Natal cristão é, por natureza, radicalidade e essência, de pobreza: Jesus nasceu num curral – daí a palavra ‘presépio’ – deitado numa manjedoura e tendo por companhia Maria e José, bem como alguns animais, certamente ovelhas e, possivelmente, a vaca e o burro (ou noutro registo o boi e o jumento)... 

Tentemos de forma simples e sincera colocar diante do presépio a inúmeras situações de pessoas que estão a passar dificuldades: os desempregados, os sem salário, os que têm a casa em risco por falta de pagamento da renda, aqueles a quem foi cortada a eletricidade e a água, os que não têm o essencial para dar de comer à família... os revoltados e os resignados, os que já desistiram e os que ainda lutam, os que acreditam em Deus e os que O rejeitam... os que estão bem na vida e os que esbanjam com futilidades, os que reivindicam e os que se azedam com os problemas, os que têm esperança e os que vivem em angústia... os que têm família e os abandonados, os que são marginalizados e os marginais, os que têm voz e os sós... as crianças e os velhos, os jovens e os adultos, os que compreendem a cultura do Natal e os que a rejeitam mas dela ususfruem consumisticamente... 

- Como poderemos viver, então, o espírito do Natal, se Deus não fizer parte dos critérios da nossa vida?

- Como poderemos desejar ‘bom Natal’, se esquecermos O festejado?

- Como poderemos gastam dinheiro em presentes – a maior parte das vezes são, antes, prendas! – se houver quem passe fome ao pé de nós?

- Como poderemos tentar iludir a nossa (pretensa) generosidade, se dermos, sobretudo, o que nos sobra?

- Como poderemos dizer que há Natal, se nos envergonharmos da raiz da sua celebração?

- Como poderemos disfarçar a celebração da vida, se os valores que vivemos – que é muito mais do que defendermos! – são materialistas e se inserem numa cultura anti-vida? 

= A força do Natal está, por isso, na vivência da partilha, seja de bens materiais, seja de bens psicológicos e espirituais... dos mais simples aos mais elaborados e complexos.

= A dimensão profunda do Natal exige-nos espírito de perdão e sinais de construção de concórdia e de paz... tanto na nossa casa, como nos locais de trabalho e até na vivência da fé, em Igreja.

= A contínua novidade do Natal estará em sabermos reconhecer os nossos erros e em termos compreensão – que é muito mais do que simples tolerância! – para com os outros, tentando discernir as suas razões em vez de estarmos, constantemente, a acusá-los ou até a julgá-los.

 Aproveitando a graça do mais recente livro do Papa Bento XVI, Jesus de Nazaré: a infância de Jesus, deixamos uma citação, que poder-nos-á ajudar a situar a celebração correta e atualizada do Natal deste ano:

«Aos pastores, o anjo tinha indicado como sinal que iriam encontrar um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura. Este é um sinal de reconhecimento, ou seja, uma descrição daquilo que se poderá constatar com os olhos; não é um ‘sinal’ no sentido de que a glória de Deus se teria tornado evidente, de modo a que se pudesse dizer com clareza: este é o verdadeiro Senhor do mundo. Nada disso! Neste sentido, o sinal é ao mesmo tempo também um não-sinal: a pobreza de Deus é o seu verdadeiro sinal. Mas, para os pastores que viram refulgir o esplendor de Deus sobre as suas pastagens, esse sinal é suficiente. Eles veem a partir de dentro, veem isto: o que o anjo disse é verdade. Assim, os pastores regressam cheios de alegria e glorificam e louvam a Deus por aquilo que viram e ouviram (cf. Lc 2,20)» (pp. 69-70). Queira Deus em nós darmos, neste Natal, este espírito de contemplação na vida!

 

António Sílvio Couto

(asilviocouto@gmail.com)

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Qualquer coincidência é pura realidade!


É costume colocar-se em atitude de prevenção ao ouvirmos: ‘qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência’... numa espécie de desculpabilização entre o que se pretende que é e a realidade que pode acontecer. Por isso, a titulagem do que pretendemos escrever: qualquer coincidência é pura realidade... numa denúncia de que há fatos que, paradoxalmente, desmentem a realidade e que, por seu turno, há vivências reais que ultrapassam a realidade, mesmo a mais inventiva, democrática e até utópica.

Numa análise de coincidências e de pretensas realidades – algumas parecem mais fenómenos do que fatos – poderemos interrogar-nos sobre situações ‘normais’ e de normalidades mais ou menos questionáveis. 
- Que dizer das (mais) recentes afirmações do Presidente da Caritas nacional, quando refere que, se o ‘estado social’ – escrevemo-lo com letras em minúsculo pois o respeito encolhe perante as atrocidades vividas e/ou preanunciadas! – for negligenciado, passaremos a ter mais de quarenta por cento – diz mesmo que será  43 em vez dos atuais 17,9! – de pobres, em Portugal? Isso será realidade coincidente, ou, pelo contrário, manifesta uma coincidência da realidade? A quem interessa difundir tais números: a quem exerce o poder ou à oposição? Será que temos oposição sem poder ou, pelo contrário, poder sem oposição? Até onde irá a exploração dos ‘pobrezinhos’ por benfeitores engravatados – bem comidos e melhor falantes! – que se encavalitam na miséria, quais tortulhos crescendo do esterco? Até onde irá a ousadia de fazerem dos pobres uma espécie de etiqueta de lapela mais do que em sujarem-se – aspirando os odores mal-cheirosos dos que não se lavam por deficiência económica! – nas vielas e nos hálitos da falta de dignificação?

Qualquer coincidência é pura realidade à nossa porta, na nossa terra e neste país de (pretensos) ricos e maus pagadores!
- Que dizer dos discursos ‘inflamados’ de políticos e autarcas, deputados e vereadores – vestidos com roupas de marca e com perfumes de ocasião solene! – em defesa dos mais pobres, mas que só atendem, preferencialmente, os seus apaniguados? Para quem vão os cabazes de Natal? Um maltrapilho poderá ainda entrar no role dos atendidos? Quem for de cor política diversa dos atendedores terá lugar na listagem a ser beneficiada? Será que a fome tem rótulo e preenche os requisitos dos mandantes?
Qualquer coincidência é pura realidade a começar à nossa porta, na nossa rua e neste país de (pretensos) ricos, maus pagadores e difusores de novos e incontáveis pobres!
- Será que os discursantes em comícios e em congressos – mesmo de partidos (ditos ou auto-apelidados) defensores da classe operária, dos trabalhadores e dos mais pobres – sabem o preço das coisas nos mercados e nas mercearias? Será que sabem quanto vale o café ou o pequeno-almoço tomado fora de casa em comparação com um simples litro de leite? Será que lhes têm oferecido oportunidades de conhecimento dos custos ou preferem fazer demagogia com os gastos?

Qualquer coincidência é pura realidade dentro dos nossos espaços de convívio, na nossa terra e neste país de (pretensos) ricos, maus pagadores, difusores de mais pobres e manipuladores de consciências fragilizadas! 

- Até onde irá a camuflagem em certos setores da Igreja católica para que não se afirmem e que se assumam como uma das forças mais representativas do combate à pobreza em Portugal? Quem tem medo de dizer a verdade: será que é por nós temermos que nos fechem a torneira dos subsídios e que venham a tornar as nossas instituições inviáveis? De pouco importa o que nos dão se nós não tivermos meios de sobrevivência: teremos de continuar mudos e cúmplices? Teremos de calar certas injustiças e (pretensas) manipulações?

A realidade é mais profunda do que uma simples coincidência, por isso, precisamos de criar uma corrente de fraternidade onde, quem faz algo pelos outros, não tenha de mendigar o que se lhe deve por justiça nem que nos calem pelo medo só porque o ‘estado social’ está em colapso e nós podemos cair a qualquer momento. A realidade faz da coincidência uma aspiração de mais alto, de mais além e de mais cristão... para além do Natal!

 

António Sílvio Couto

(asilviocouto@gmail.com)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Sinais de fé... popular ou a fé como sinal... de vida?

«Sucede não poucas vezes que os cristãos sintam maior preocupação com as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerando esta como um pressuposto óbvio da sua vida diária. Ora um tal pressuposto não só deixou de existir, mas frequentemente acaba até negado. Enquanto, no passado, era possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente compartilhado no seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ela inspirados, hoje parece que já não é assim em grandes sectores da sociedade devido a uma profunda crise de fé que atingiu muitas pessoas».  
Este excerto da ‘Porta da fé’ n.º 2 do Papa Bento XVI como que nos pode servir de temática de reflexão, em tempo de Advento, numa perspetiva de caminhada runo à celebração do Natal.
Com efeito, nalgumas situações de matiz popular – dentro ou fora do espaço da Igreja católica – como que parece que estamos mais interessados em atender às ‘consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé’. De fato, certos tiques de tradição parecem mais atender às questões sociais e culturais da manifestação duma certa fé do que à verdadeira fé. Efetivamente, corremos o risco de usar ingredientes mais ou menos ousados e/ou consensuais, mas distraímo-nos do verdadeiro celebrado no e pelo Natal, que é Jesus Cristo, o Verbo encarnado e redentor.

= Num tecido social de cristandade profana
Embora esta expressão ‘cristandade profana’ seja de meados do século passado – de Jacques Maritain, em 1950 – ela está – mais do que nunca no ativo do nosso comportamento pessoal, familiar, social, cultural religioso (atendendo às implicações católicas em particular) – com incidência em inúmeros campos da nossa atividade humana.
Continuamos, efetivamente, a usufruir de regalias de índole religiosa, mas como que abjuramos – inconscientemente – as causas, embora saboreando as consequências, como por exemplo no caso dos feriados de âmbito religioso e ainda as festas de teor cristão e até as implicações de sabor popular sem as raízes que lhes deram origem nem as sustentam, como são, por vezes, as festas regionais e os festejos na maior parte dos concelhos... onde a coberto do/a santo/a se faz o que apetece mesmo que não se respeitem os promotores das mesmas...
Vivemos numa espécie de cultura envernizada por tonalidades de religiosidade profana, mas cujo cerne está corroído pela traça do consumismo e onde o verme da imagem que se quer dar suga a possibilidade de questionar as razões daquilo que se faz e quanto menos ainda se interroga sobre a incoerência e o oportunismo... social, político ou intencional.

= Como testemunhar a fé cristã neste Natal?
Mesmo que, por entre lamúrias e impropérios, contra tudo e para com todos – sobretudo invetivando o falido Estado providência – por certo não deixaremos de idealizar a vivência nostálgica do Natal – da família, da tradição, das comidas e das bebidas, do já vivido e do ainda ansiado – onde muitos dos mitos e ritos pessoais e familiares, culturais e sociais, religiosos e quasi-pagãos como que se soltam das amarras do nosso «eu coletivo» e reclamam espaço e tempo, senão na vida pelo menos na memória...
Nas recordações de infância tem um largo campo de saudade  o presépio de onde emerge como que em reminiscência uma cultura que se pretendia cristã, senão no total conteúdo, pelo menos numa certa forma mais ou menos diluída de ver e talvez de querer viver...
Agora que estamos em contenção de gastos – uns assumidos, outros tolerados e outros ainda indesejados – pode ser a oportunidade de vivermos a comunhão com a radicalidade de Jesus nascido no curral de Belém por não haver lugar para Ele na hospedaria. Agora podemos dar espaço e tempo à escuta e à partilha. Agora podemos e devemos tentar esvaziar-nos de tantas inutilidades (ditas) necessárias com que nos entretemos. Agora podemos, devemos e necessitamos de viver a pobreza do Evangelho no discernimento do nosso dia a dia. Queira Deus que o vivamos e o testemunhemos com humildade e verdade, já!

António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Boi e jumento... no presépio?

«Na singular conexão entre Isaías 1,3; Habacuc 3,2; Êxodo 25,18-20 e a manjedoura, aparecem os dois animais como representação da humanidade, por si mesma desprovida de compreensão, que, diante do Menino, diante da aparição humilde de Deus no estábulo, chega ao conhecimento e, na pobreza de tal nascimento, recebe a epifania que agora a todos ensina a ver. Bem depressa a iconografia cristã individuou este motivo. Nenhuma representação do presépio prescindirá do boi e do jumento» – Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré: a infância de Jesus, Cascais, Principia, p.62.

Foi com alguma perplexidade e razoável estupefação que ouvi e, posteriorrmente, li a reação a estas palavras do último livro do Papa. Nota-se pelas declarações que a maioria não leu o que Bento XVI escreveu, limitando-se a reproduzir frases feitas, servindo-se de preconceitos mais ou menos ideológicos – senão na forma pelo menos no conteúdo – de quem está contra... mesmo que não saiba qual a razão!
Desde logo surgiram-me questões simples que parecem ter mais a ver com uma certa religiosidade cristã: será que a presença da ‘vaca e do burro’ são tão essenciais para a crença de certas pessoas? Tirar estes adereços mexe assim tanto com a valorização do presépio? Onde terão lido estes defensores da ‘vaca e do burro’ a sua presença nos textos bíblicos? Como podem fazê-los tão imprescindíveis se eles nem estão presentes na narrativa canónica? A quem interessa este ruído sobre questões de lana caprina?

Reparemos no texto do Papa citado e reportemo-nos também à narrativa lucana (Lc 2, 1-20) onde poderão incluir-se os ditos ‘boi e jumento’, traduzindo ainda por ‘vaca e burro’.   
‘Presépio’ significa: curral, estábulo... daí podermos incluir alguns animais nesse contexto. Qual a razão de vermos o boi ou a vaca nesse estábulo? Talvez seja mais uma projeção do tempo em que surgiu o difusão do presépio na cultura ocidental europeia com São Francisco de Assis, na Idade Média, ou ainda com a ruralidade em que se quis colocar ou se pode ver o contexto do nascimento de Jesus entre animais... possivelmente mais ovelhas do que outro gado.
Talvez o burro/jumento tenha sido o meio de locomoção de José e de Maria entre Nazaré e Belém, a cidade onde se foram recensear. Com efeito, as distâncias eram grandes e os recursos materiais e humanos não seriam mais do que esses de terem um burro para poderem viajar. Daí colocá-lo no contexto do presépio poderá ser tão natural quão difícil de harmonizar animais de diferente estirpe e razoável teimosia... Só quem não os conhece é que se admirará desta alusão à proximidade simples de antagónicos!
Não deixa ainda de ser significativo que o Papa diga no texto supra citado que aqueles animais – o boi e o jumento ou a vaca e o burro – são ‘representação da humanidade’. Será, então, que a nossa – humana, racional, psicológica e espiritual – simbologia está caraterizada por aqueles dois espécimes? Ou será que, recorrendo aos textos referidos na citação, se pretende fazer uma conjugação dos diferentes humanos, pois se até os animais se entendem e se relacionam em harmonia junto do Deus-Menino, quem somos nós, afinal, para não nós entendermos?

Bastará parar um pouco diante do presépio para vermos como são fúteis as nossas jactâncias de orgulho: ali está um Deus que Se humilhou e que teve por companhia animais amansados pela pobreza dum Menino que Se fez próximo desde dentro da nossa condição humana e em projeção humanizada.
Bastará perceber a força de despojamento de um Deus que nasce e é acolhido entre animais porque não havia lugar para Ele na estalagem das ocupações humanas... tais eram (e são) as pretensões de sermos importantes à custa dos direitos dos outros.
O boi/vaca e o jumento/burro continuarão a ter espaço e oportunidade nos nossos presépios, enquanto andarmos atarefados com inutilidades que nos fazem perder o sentido da vida e a qualidade da existência?
Que o burro e que a vaca exalem um hálito de ternura sobre este mundo, que rejeita Deus e esquece Jesus!  

António Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com)

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Novos caminhos e meios para ‘Apostolado do mar’


Realizou-se de 19 a 23 de Novembro, em Roma, na aula do Sínodo, Cidade do Vaticano, o XXIII  Congresso mundial do Apostolado do mar, subordinado ao tema: ‘A nova evangelização no mundo marítimo – novos meios e instrumentos para a proclamação da Boa nova’.

Participaram mais quatrocentas pessoas de setenta países, entre os quais Portugal, que esteve representado pelo Bispo promotor e pelo diretor nacional do Apostolado do mar. A presença de tantos participantes incluiu pessoas dos vários continentes: África (atlântica e índica), Ásia (desde Taiwan à Tailândia, passando pelo Japão e o Vietname), América (do norte, latina e central), Oceania (Austrália e Nova Zelândia), Europa (do norte, do sul, central e de leste), envolvendo bispos promotores e diretores nacionais, membros do Conselho Pontifício, delegados, clérigos e leigos, nas várias línguas, culturas e etnias, com expressões de fé, sobretudo, católica. Foram partilhadas várias experiências do ‘Apostolado do mar’, envolvendo a marinha mercante e a pesca, numa interligação de solidariedade (comites de bem-estar, de direitos humanos, de ações de pirataria, abandono de tripulações e aprezamento de barcos), com desafios para o futuro próximo... neste mundo do trabalho e das múltiplas expressões de fé... em dinâmica de nova evangelização.

 Do programa fizeram parte diversas vertentes do ‘Apostolado do mar’, desenrolando-se em cada dia um dos aspetos: a nova evangelização em geral, as relações eficazes com a indústria marítima, onde foi analisada a temática do ‘bem-estar como parte integrante da evangelização’. Um dos dias foi destinado à pesca. A questão da pirataria (com um testemunho muito vivencial) e a vertente dos navios de cruzeiro ocuparam também um dia. A encerrar o Congresso houve uma audiência com o Papa, tendo sido apresentada  uma mensagem de esperança e em confiança ao mundo marítimo.

= Ditos, fatos e números... ontem, hoje e para o futuro

Dada a riqueza de um congresso como este foi, deixamos breves referências a números que foram apresentados por vários dos oradores, citando ainda frases que nos ficaram a retinir nos ouvidos e no coração.

- Há, em todo o mundo, 36 milhões de pescadores e, em cada ano, 10% destes estão expostos a acidentes de trabalho.

- Em 2003, mais de três mil barcos foram sequestrados por piratas e, todos os dias, ainda hoje, cem mil marinheiros navegam em águas onde há piratas.

- ‘Temos de ser a voz profética dos que não têm voz’ (Bruno Ciceri, do Pontifício Conselho).

- 4 de Outubro de 2020: centenário da fundação do Apostolado do mar, em Glagow, Escócia.

- ‘A pesca sofre uma das maiores explorações... Estarão os pescadores defendidos?’ (Brandt Wagner, Genebra).

- ‘Fé que se exprime com a linguagem dos nomes dos barcos... Fé que se alimenta do terrível e do fascinante... Maria e os santos [são vistos] como guardas’... dos pescadores (Dirk Demaeght, Bélgica).

- Convenção Mundial do Trabalho (MLC 2006) entra em vigor a 20 de Agosto de 2013.

- Há 200 barcos de cruzeiro, ao nível mundial, que produzem 30 milhões de euros ao ano.

- ‘Cristo é maior do que a cultura [por vezes anti-cristã] e do que a Igreja’ (Hennie LaGrange, Grã-Bretanha).

- ‘A presença nos portos, as visitas quotidianas aos navios aí atracados e o acolhimento fraterno nas horas de pausa das tripulações, são o sinal visível da solicitude para com quem não pode dispor de um acompanhamento pastoral normal’ (Papa Bento XVI).

- ‘Sede o coração no mundo do mar... [apresentando] uma oportunidade de crescimento positivo’ (António Veglió, Conselho Pontifício).

Momentos como este do XXIII Congresso mundial do ‘Apostolado do mar’ fazem-nos perceber a catolicidade da Igreja e a dimensão específica desta entre cada povo e cultura... Novos caminhos se abrem!

 

António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Implosão do ‘Estado social’?


«Estado de bem-estar social – também conhecido como Estado-providência – é um tipo de organização política e económica que coloca o Estado como agente da promoção (protetor e defensor) social e organizador da economia. Nesta orientação, o Estado é o agente regulamentador de toda vida e saúde social, política e económica do país em parceria com sindicatos e empresas privadas, em níveis diferentes, de acordo com o país em questão. Cabe ao Estado do bem-estar social garantir serviços públicos e proteção à população».

Esta definição de ‘Estado social’ aparece-nos descrita na Wikipédia, que nós dá ainda um enquadramento dos principais vínculos com que ‘somos’ – cidadãos, contribuintes, eleitores, votantes, consumidores, fregueses, clientes, operários/trabalhadores/patrões/empresários, desempregados, preguiçosos, participantes ou desinteressados – mais ou menos conscientemente protegidos: «Pelos princípios do Estado de bem-estar social, todo o indivíduo teria o direito, desde seu nascimento até sua morte, a um conjunto de bens e serviços que deveriam ter seu fornecimento garantido seja diretamente através do Estado ou indiretamente, mediante seu poder de regulamentação sobre a sociedade civil. Esses direitos incluiriam a educação em todos os níveis, a assistência médica gratuita, o auxílio ao desempregado, a garantia de uma renda mínima, recursos adicionais para a criação dos filhos, etc.». 

Diante deste diagnóstico não deixa de ser fundamental refletir sobre a viabilidade do ‘Estado social’, em Portugal, tendo em conta vários fatores de mudança bem como a alteração aos critérios de produção de riqueza atual e em vias do futuro.

Não foram os regimes dialetico-marxistas – comunistas, trotekistas, socialistas e afins – que criaram nem que desenvolveram o ‘Estado social’, mas antes regimes de incidência social-democrata e democrata-cristãos – sobretudo no Norte da Europa – numa perspetiva de equilíbrio entre o trabalho realizado pela riqueza e a função do Estado, que supre as menos boas condições sociais dos cidadãos...

Quando, hoje, vemos certos paladinos da defesa do ‘Estado social’, em Portugal – particularmente nas franjas ideológicas daqueles que pouco ou nada têm feito pelo bem comum, antes têm degrado o tecido social, económico e financeiro – não gerando riqueza para depois a poderem distribuir, como que ficamos a pensar que ou não têm memória histórica ou só sabem distribuir o acumulado para o qual não contribuiram... seriam, deste modo, generosos com o sucesso alheio, e muito pouco contribuintes para o bem comum...

 - Quando a natalidade cai, poderemos ainda usufruir dos requisitos de saúde tendencialmente gratuita, de forma indistinta para todos?

- Quando se fomenta a instabilidade social, como poderemos ter garantidos subsídios de ajuda no desemprego, a curto e médio prazo?

- Quando as reivindicações sindicais não têm em atenção as possibilidades de pagamento, como poderemos sustentar regalias adquiridas, sabe lá a que preço e com que custo?

- Quando se faz a defesa do ‘Estado social’, como se ele fosse intocável, mas que está falido, como poderemos continuar a fornecer esquemas de educação onde se promove quem menos trabalha e tão pouco aproveita da possibilidade em cuidar dos estudos? 

Não deixa de ser sintomático que haja setores da nossa sociedade que contestem a ajuda da caridade, preferindo à (pretensa) solidariedade, mas que depois se enfeitem com ações que só são compreensíveis pela força da caridade vivida e partilhada na simplicidade do dia-a-dia. Há quem queira desfolhar as rosas sem se ter picado, minimamente, nos espinhos, pois estes deixam marcas, fazem doer, ensinando a viver!

Não demos aos outros por caridade o que lhe vemos por justiça! Mas também não iludamos as pessoas com gestos de ajuda em anzol, enganando-as pela boca e fazendo-as devedoras... sem critérios de escolha nem de valorização consciente... Saber pensar pela sua cabeça é a melhor promoção que podemos conseguir, já!

 

António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Quando presentes/prendas encolhem... no Natal

Embora a mês e meio da data do Natal – onde o celebrado, Jesus, fica embrulhado em milhentas minharias de ocasião – já se fazem contas aos gastos possíveis, desejados ou indispensáveis.

Segundo dados do ‘Observador celetem’, os portugueses tencionam gastar, em média, cento e vinte e seis euros em prendas, por ocasião do Natal deste ano... numa diminuição de trinta e cinco por cento em relação ao ano passado. Em média cada cada presente poderá custar cerca de vinte e cinco euros... sendo os habitantes da região Norte do país os que mais teem intenção de poupar... com uma larga fatia dos inquiridos (22%) a dizerem que o valor máximo dos presentes será de setenta e cinco euros na época natalícia. 

= Consumidos e consumidores... responsáveis ou compulsivos?

Não deixa de ser significativo a forma como reagiram alguns iluminados a propósito das declarações de Isabel Jonet (responsável nacional do Banco Alimentar contra a fome) sobre a necessidade de aprendermos a empobrecer, sabendo conjugar o necessário com o urgente, denunciando gastos desconexos: “Temos todos de empobrecer e muito. Empobrecimento na perspectiva de regressar ao que é mais básico. Não ter expectativas de que podemos viver com mais do que necessitamos, pois não há dinheiro para isso (...) A geração mais nova tem uma maneira diferente de viver. Deixou de se atribuir o valor real aos bens”

- De fato, há quem grite e reivindique, mas esbanje com inutilidades... mais ou menos legais e subtis. Veja-se a proliferação de gente – sobretudo nova, bem-falante, rota, mas rica – que se desloca para os (múltiplos) festivais de música, no verão, e talvez nem entendam, suficientemente, os sacrifícios que são pedidos – particularmente aos pais de quem ainda dependem – para recuperar o país pelo trabalho e o compromisso para com os outros. Somos uma triste terra que nunca teve de unir esforços para recuperar, concertadamente, de algum problema comum. O egoísmo luso é atroz pela mesquinhez de tudo e para com todos!

- Certas forças – pretensamente ‘cultas’ de uma (dita) esquerda caviar ou outra de protesto – talvez tenham invetivado as declarações da responsável do BA e até possam vir a boicotar a próxima recolha de alimentos, mas eles/as não sabem o que é passar fome (de verdade), pois antes rompem os fundilhos do assento em lugares de diversão ou andam (a coberto de máscaras e doutros disfarces) a incendiar manifestações anti-governo e contra um capitalismo de que beneficiam... mesmo que de forma capciosa.  Certos discursos da treta pela defesa dos mais pobres não passam de vagas intenções que não se sujam com os pobres... reais. 

= ‘Por que não te calas’?

Esta frase dita pelo rei de Espanha ao caudilho da Venezuela pode servir como refrão para com certas figuras sobre as intervenções mais recentes na vida pública... ou publicitada

- Por muito que nos custe aceitar, temos de assumir que Portugal não se consegue recuperar – económcica, social e politicamente – com balelas de benfalantes nem com discursos ideológicos em defesa dos ‘direitos adquiridos’, pois a (dita) Constituição da República apresenta erros históricos e falhas de lesa-pátria, consubstanciando em regalias de classe, benefícios de setores e atributos em proveito próprio... ontem e hoje.

Que dizer de certos figurões que dizem mal de tudo e de todos, mas não abdicam das benesses recebidas a troco de terem sido governantes ou noutros cargos políticos? Como poderemos compreender que tenham a capacidade de dizer tudo o que lhes apetece, desde que defendam os seus apaniguados? Até onde irá a desfaçatez mental para termos de nos calar sem dizermos o que pensamos, cívica, educada e cristamente?

- Por certo quem nos propõe um caminho de contenção – seja pela austeridade, seja pela partilha – não será totalmente estúpido – pois se o fosse teríamos de questionar a sua sanidade mental e psicológica – para fazer-nos viver um espartilho onde todos somos prejudicados, mesmo os proponentes... a menos que pensem fugir, entretanto, para Paris, Bruxelas ou Nova Iorque... como outros fizeram e não são chamados a responder criminalmente, pois o povo já os condenou nas eleições!

Só espanta que, certos donos da verdade, não consigam fazer vingar as suas teses e se arrastem pelos corredores da indigência com tiques de maus pagadores... Portugal merece melhor e todos somos precisos, já!

 
António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Desmistificando a (pretensa) classe média


É recorrente ouvirmos, em Portugal, que a sacrificada com as medidas de austeridade é a ‘classe média’, que está a ser esmagada com impostos, que está a ser atingida nas suas diversas vertentes, que está em risco, que está quase a desaparecer....

Mas, afinal, que é isso de ‘classe média’? Quais são os critérios e as componentes para a definirmos? Quem faz parte dessa ‘classe média’? Quem são os promotores e os (possíveis) detractores da dita ‘classe média’? Como se entra ou como se sai da (possível) ‘classe média’?

- O que é a classe média?

Na Wikipédia apresenta-se a seguinte definição de classe média: «é uma classe social presente no capitalismo moderno que se convencionou tratar como possuidora de um poder aquisitivo e de um padrão de vida e de consumo razoáveis, de forma a não apenas suprir suas necessidades de sobrevivência como também a permitir-se formas variadas de lazer e cultura, embora sem chegar aos padrões de consumo eventualmente considerados exagerados das classes superiores. A classe média surgiu como uma consequência da consolidação do capitalismo e não antes dele devido aos fatores de segmentação social em camadas, resultantes do desenvolvimento económico; é um fenómeno típico da industrialização».

- Quem faz parte da classe média portugesa?

Em Portugal é considerado pertencer à classe média quem, ao nível do agregado familiar, tenha dois mil euros mensais de rendimentos. Se atendermos à vertente individual poderá ser considerado da classe média quem – mesmo no setor privado – ganhe cerca de setecentos euros mensais... Isto parece significar cerca de metade da população nacional!

- Certos critérios de pertença... à classe média

Pode intuir-se que os critérios de pertença à classe média são, sobretudo, os de natureza económica, incluindo tanto o fruto do trabalho como os manifestos rendimentos. Com base na definição descritiva supra citada poderemos ainda perceber que a capacidade de consumo tem uma larga afetação para se ser incluído ou excluído da (dita) classe média.

Ora, como emanação do capitalismo – que nem o socialismo e tão pouco o comunismo conseguiram debelar, antes parece que cuidaram em acentuar para uma acentuada e complexa estratificação social – a classe média é vítima e culpada de si mesma, isto é, alimenta e é explorada por quem dela se apropria ou a promove... para atingir os seus fins nem sempre claros nem honestos...

- Para um nível cultural mais do que (só) económico

Atendendo às contínuas referências para com a classe média, onde os valores económicos se sobrepujam, na maior parte das vezes, aos valores culturais e éticos (morais, psicológicos e espirituais) será de questionar como poderá esta franja – tão envolvente quão anódina – da população portuguesa ser valorizada mais pelo que é do que por aquilo que possuiu ou ambiciona possuir.

Muitos dos filhos, cujos pais eram/são da classe média – do operariado e de serviços públicos – já estão mais escolarizados, anseiando outros espaços de trabalho profissional e, na maior parte dos casos, até se deslocaram do local de nascimento – rural ou semi-industrial – para espaços urbanos ou para metrópoles com maior capacidade reivindicativa... Cresceu a capacidade e/ou obrigação de saber a razão de ser das coisas.

Temos hoje novas ferramentas para evoluirmos na avaliação dos fatos e dos momentos de afirmação dos que foram crescendo com sangue, com suor e (até) com lágrimas. Cada vez mais precisamos de saber enquadrar o nosso passado, numa adequada linguagem do presente e em crescente abertura ao futuro!    

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Questões de identidade

Por estes dias ouvi: ‘o senhor é sempre assim ou só quando está de farda’! Parece claro que, de quem tal se dizia, talvez não seja suficientemente de bom trato, sobretudo se, através, do exercício da profissão exagera na ‘autoridade’... enfardada.
Neste nosso país vemos com frequência atitudes que revelam excessos, tanto na forma como no conteúdo, podendo nós questionarmos se não estaremos – todos e cada um – a viver uma espécie de crise de identidade, onde cada pessoa não se aceita como é, antes parece querer dar uma ‘certa imagem’, seja pelo que diz (ou cala), seja pelo que ostenta (ou ambiciona), seja ainda pela confusão que pode revelar entre o que é, foi e deseja vir a ser...
Vejamos alguns exemplos a merecer reflexão mais do que acusação:

- Estando nós a viver sob o signo do protesto e tendo em conta mais a superior defesa dos nossos interesses do que estamos, normalmente, a atender ao bem-estar dos outros, como que somos desafiados a perguntar: as greves – gerais, setoriais ou de classe – serão ainda um processo de protesto adequado aos nossos tempos? Não andaremos a ser manipulados e/ou prejudicados e sem qualquer proveito atual e no futuro? Os que são vítimas não são os mais os próprios em vez dos (pretensos) patrões... alguns de quem nem se lhes conhece o rosto? Até quando continuaremos a reproduzir processos de greve ultrapassados (na forma, no conteúdo e na organização) e sem resultados visíveis para o bem comum?

- Perante uma tendência cada vez mais acentuada para o egoísmo, fechando-nos à vida e às consequências de a sabermos servir, como que ousamos perguntar: as profissões no setor da educação – pois sem filhos não há alunos! – já vivem a consciência da falta de natalidade? Com certas teorias anti-natalidade ainda será viável a segurança social a curto prazo? Com a progaramação de certos projetos hedonistas teremos capacidade de cuidar das gerações franja – crianças e velhos – ou não estaremos condenados culturalmente ao colapso social, cultural e económico?

- Questionando-nos na vivência da fé, sobretudo de expressão cristã, onde muito se pode quedar pela exterioridade religiosa, como que sentimos a urgência em perguntar: não estaremos, no âmbito sócio-religioso, a regredir no espírito de fé e de consciência cristã? Com certas posições de teor rubricista e hierático não estaremos a afastar a expressão da fé comunitária celebrativa? Os intérpretes das celebrações terão, verdadeiramente, vida – espiritual e psicológica – que possa ser comunicada com simplicidade e alegria? A quem interessa uma certa posição de númia quando participamos nas celebrações católicas? Será denúncia da falta de vida ou defesa por exageros mal digeridos?

- Atendendo ao crescimento da apelidada ‘economia paralela’ – dizem que envolve um quarto do dinheiro em circulação, em Portugal – como que sentimos que não pode continuar a vingar – à boa maneira latina – a culpabilização dos outros e a auto-absolvição de nós mesmos, então perguntamos: até onde irá este país que se queixa do custo de vida, mas vive em grandes luxos e passeios, férias e devaneios de ricos empobrecidos? Quando se dará a assumpção coletiva, consciente e assumida, dos impostos pessoais e empresariais? Como poderemos recuperar a confiança uns nos outros se desconfiamos da própria sombra?

É urgente que sejamos capazes de viver a nossa identidade – pessoal e familiar, social e nacional – em ordem a sermos um povo com futuro, uma nação com esperança e um país com verdade... onde todos nos empenhamos em construir e nos deixamos envolver por causas comuns... de valor humanitário. Assim sejamos dignos de viver em conformidade com o que dizemos no ‘hino nacional’... onde a luta começa em cada um de nós contra o nosso mais profundo egoísmo!

 António Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com)

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Acrisolados pela austeridade... ontem e hoje


Queiram desculpar, neste texto, a referência a uma vivência pessoal muito próxima com aquilo que pode parecer um tanto indiscreto... embora o nosso intuito seja de partilha e de reflexão e não de lições.

Faleceu, por estes dias, uma tia materna. Tinha oitenta e cinco anos. São cinco irmãos, quatro raparigas e um rapaz... todos na ordem dos oitenta anos. Nascidos na região de Braga, foram para o concelho de Esposende, após o falecimento de um tio padre, que levara o irmão como companhia para a paróquia onde esteve. Nascidos da relação matrimonial do irmão do padre com uma senhora de uma casa importante da terra... a mãe gostava, afinal, de outro senhor. Logo, após a morte do padre, ela desapareceu, tendo o pai ‘viúvo’ regressado à terra natal com cinco filhos para criar... Estamos no tempo da segunda guerra mundial! A saga de austeridade – como agora se diz com arrepios e uma certa má vontade! – percorreu estas vidas, tendo cada qual passado a servir em casa de lavradores da época. Chegada a hora de casar cada um seguiu a sua vida... embora com a tristeza (talvez seja até trauma!) da ausência da mãe, só descoberta mais de trinta anos depois, na zona de Famalicão.

Esta tia, agora falecida, ficou viúva com a idade de trinta anos, tendo o marido sido trucidado por um comboio em Viana do Castelo. Os quatro filhos (dois e duas) viveram as agruras desse tempo, saindo, mais tarde, uns para a tropa e outras para trabalhos na região de Lisboa. Especialista na arte de cestaria, esta tia, agora falecida, foi vendo as outras irmãs ficarem viúvas também... passando também alguns dos filhos destas, naturalmente, dificuldades de natureza económica. Houve quem estudasse, valorizando-se e quem tenha sido até ministro deste país, enquanto, no meu caso, foi-me concedida a graça do sacerdócio ministerial... quase todos os filhos e filhas destas irmãs conseguiram vingar na vida, embora alguns tenham perecido muito cedo...

Quando ouvimos certas figuras – políticas, sindicais, partidárias ou até eclesiais – reclamarem das condições de vida atual, como que sentimos alguma repulsa, pois esses tais reclamantes talvez nunca tenham passado fome e privações, talvez nunca tenham andado de roupa consertada ou ido a pé e descalço para a escola, talvez não tenham chorado ou visto chorar por não haver mínimas condições de habitação, talvez não tenham sofrido por não poderem dar aos pais melhores momentos de alegria, talvez, numa palavra: não tenham aprendido a serem acrisolados na escola da austeridade, que não nos deixou – tanto quanto é possível ver! – azedos ou contestatários, mas gratos por tantos sacrifícios com que fomos educados! Queira Deus dar a recompensa a todas estas mães que tão varonilmentede de nós cuidaram!

= Desafios pessoais e virtudes sociais

Porque não queremos ficar na vertente meramente fechada do que vivemos, mas, antes, pretendemos alargar os horizontes, ousamos sugerir:

- Pais não deem aos vossos filhos aquilo que não tiveram na idade de serem como eles nem tentem suprir os laços de afeto com coisas não solicitadas;

- Filhos não exijam aos vossos pais aquilo que, nesta hora de dificuldade, não conseguem dar-vos, pois fazem-nos sofrer se vos virem tristes pelo seu menos bom desempenho para convosco;

- Fazedores da comunicação social não excitem as turbas com notícias de perturbação, mas tentem informar sem manipular, pois a técnica pode voltar-se, a curto prazo, contra vós mesmos;

- Promotores das modas – sejam elas de roupa ou de ideias, sejam de modelo de comportamento ou de propostas de reivindicação – ajudem os vossos alvos a tornarem-se conscientes da verdade e não façam da manipulação uma arma de vingança;

- Senhores do dinheiro – banqueiros ou capitalistas, negociadores ou chantagistas – tentem usar a vossa fama e poder de persuassão para dirimir conflitos e não para os agravarem, pois, um dia, pode ser que os vossos intentos revertam contra vós e o veneno que usastes será ainda mais mortífero.

Porque acreditamos na força dos valores do Evangelho, agradecemos a todos quantos no-los ensinaram e esperamos, hoje, sermos bons difusores dos mesmos pelo testemunho de vida! 

 

António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Até onde poderá ir a gritaria?


Nos últimos tempos, Portugal tornou-se uma espécie de reino da gritaria, onde quem mais alto fala – na maioria dos casos é só gritos e barulho ruidoso... mas, na maior parte dos casos, inconsequente! – pensa que ganha razão. Houve até quem dissesse que a participação em manifestações, gritando de forma ostensiva, era uma espécie de terapia socio-psicológica...

Numa tentativa de darmos alguma ajuda de reflexão sobre este clima crispado em que estamos a viver, servir-nos-emos de alguns adágios populares ou frases-chavão... para incluirmos breves referências a situações delicadas do nosso viver coletivo:

 - “Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”.

A austeridade trouxe à luz da consciência muitos problemas, que o recurso ao consumismo foi iludindo, pois enquanto se podia entreter o povo com coisas não se colocaram os verdadeiros problemas das pessoas... muitas delas vazias dos valores mais elementares. ‘Pão e jogos’ foram entretenimento para muitos, deixando a manifesto que não será com coisas meramente materialistas que conseguiremos enganar os mais incautos... por muito tempo. Construiram estádios de futebol, por ocasião do ‘euro 2004’, que agora estão às moscas, farejando o mau cheiro das dívidas... Enquanto houve dinheiro ensinaram-nos – manipulando-nos de forma contundente e sórdida – ter hábitos de gastar e incutindo-nos vícios de pequenos ricos sem cultura nem critérios...

Um fato: num trabalho que temos estado a desenvolver, na paróquia, temos visto imensas situações em que as pessoas trazem para partilhar dezenas e dezenas – não é exagero! – de peças de calçado e  de roupa de crianças que nunca foram usadas... tudo de marca e do melhor. Talvez se tenha verificado, agora, um qualquer arrebato de consciência para que outros possam receber doado o que, antes, foi comprado de forma descontrolada, compulsiva ou mesmo por concorrência para com outros, sejam eles vizinhos, familiares ou até companheiros de trabalho! Havia uma imagem a defender... e as consequências estão à vista!

Questões: Por que será que não nos educaram para saber comprar só o suficiente e necessário? Quando estamos a dar, hoje, a quem nos procura e que precisa de ajuda, temos aproveitado para que as pessoas saibam viver em espírito de pobreza, segundo o Evangelho? Ao atendermos os mais desfavorecidos – hoje eles, amanhã poderemos ser nós – procuramos descobrir as razões, que levaram àquela gravidade do problema ou continuamos a pôr cataplasma sobre as feridas, sem tratarmos as causas mais profundas?
Perante as dúvidas da geração atual como será para as próximas gerações?

- “O bem não faz barulho; o barulho não faz bem”.

É, hoje, recorrente, assistirmos – senão mesmo fazermos o mesmo! – a conversas, que bem depressa redundam em discussões, onde os contendores não se escutam, pois a meio da frase de um já se sobrepõe a conversa do outro... acontecendo, nalguns casos, várias conversas cruzadas e sem qualquer resultado: há muito barulho, mas pouca conversa. Bastará ver as sessões do Parlamento e pouco teremos a aprender, antes veremos o retrato da confusão a que chegamos... rapidamente! A doença tem-se espalhado como epidemia, pois, com normalidade, vemos as pessoas a ‘lançarem bocas’, quando outros falam... e nem o setor eclesiástico tem escapado à moda!

Nesta conjuntura adversa à aceitação da comunicação pela palavra, temos de saber fazer silêncio – mesmo que um telemóvel toque a despropósito! – para respeitarmos quem nos fala, para sermos respeitados quando falamos, pois na medida do que fizermos isso para com os outros talvez sejamos aceites (a bem ou à força) no que tentamos dizer, comunicar e fazer! Também, neste aspeto, se trata de uma questão educacional!

- “Nunca o invejoso medrou nem quem junto dele morou”.

Na medida em que o nosso ambiente é algo mais do aquilo que pretendemos, este ditado popular como que nos condiciona, mesmo que de forma inconsciente. O invejoso pode ser da família, alguém com quem nos cruzamos na escada do prédio ou na rua, na convivência profissional ou social, nos espaços de partilha, seja no convívio, seja até na expressão da fé... sobretudo em Igreja. De fato, a inveja – elevada à categoria mais malévola da ruindade – povoa o nosso mundo muito para além daquilo que somos capazes de dominar. Digamos que a situação calamitosa do nosso país retrata uma conjugação de várias invejas... onde os mais preguiçosos tentam reinar, invejando o trabalho leal, sério e aturado de tantos outros, que por sentirem animosidade alheia desinvestem em favor dos outros. Quantos sindicalistas nada mais fazem do que destruir por inveja camuflada e destruidora! Quantos contestários aos gritos nas ruas, mas que não mexem nem uma palha para minorar o o lixo à porta de casa! Quantos salvadores pelo insulto, cuja memória devia estar mais atenta a quem lhes deu a mão... mesmo nas horas de dificuldade.

A gritaria poderá vingar na contestação, na reivindicação e até  no insulto, mas não construirá laços de compromisso para a recuperação do nosso país a curto e a médio prazo. Ó serenidade, tenta dar-nos doses de sensatez, já! 

António Sílvio Couto

(asilviocouto@gmail.com)