Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



terça-feira, 1 de março de 2022

‘Big brother’ da guerra

Como seria expetável as imagens da ‘guerra na Ucrânia’ tornaram-se uma espécie de ‘big brother’ informativo. Sobre a designação de ‘big brother’ consideramos essa amostragem contínua de cenas com pessoas retidas numa casa, sob o desejo de ganhar um prémio mais ou menos chorudo e deixando ver (quase) tudo daquilo que fazem (farão) até de lá saírem.
Quanto à ‘guerra na Ucrânia’ tornou-se, por estes dias, o centro das notícias, com uns certos ingredientes medievalescos de conquista de um povo – os russos – sobre outro povo – os ucranianos – num tempo que se desejava de paz e de respeito dos povos entre si…

1. Nos mais diversos lugares surgiram, neste fim-de-semana, manifestações de comunhão com o povo da Ucrânia, ansiando a paz e abjurando tudo quanto possa dar continuidade àquela guerra e aos seus sinais. Também na Moita, no passado domingo, à noite se reuniram dezenas de pessoas ao pé do monumento público a Nossa Senhora da Boa Viagem para marcarem a solidariedade e sintonia com aqueles – ao longe ou mais perto – sofrem as agruras do momento presente. Mais do que uma ação religiosa ou de índole política, pretendeu-se que esta ocorrência fosse uma manifestação cívica, onde aquelas vertentes estivessem presentes, mas não fossem preponderantes. De entre os vários cidadãos contaram-se elementos dos órgãos autárquicos, das Igrejas, dos setores sociais e eclesiais e, sobretudo, contamos com a presença de um padre ucraniano (e outros concidadãos) que acompanha os imigrados desde há alguns anos…no nosso país. Foi um tempo simples e sereno, tentando emitir tais sentimentos para aqueles que a mais de quatro mil quilómetros não estão a viver tais fragâncias.

2. Há perguntas que se fazem, umas audíveis e outras mais interiores, sobre tudo quanto está a acontecer na Ucrânia. Com que direito o presidente da Rússia faz esta invasão de um país, querendo impor à força as suas ideias e os seus projetos? Onde está o respeito mínimo para com os outros, mesmo que possam ser menos bons vizinhos? A pretensão de reconstruir a ‘grande Rússia’ dos czares e do império bolchevique soviético justifica o desenvolvimento desta guerra? Todos os meios serão aceitáveis para conseguir os fins? Até onde irá a concretização das pretensões do chefe e a obediência dos subordinados? Neste tempo de cultivo de fazer tudo o que se possa para aparecer – simbolizado no tal ‘big brother’ – este episódio da guerra não fará parte da programação mais subtil e engenhosa? Nesta imposição da futilidade reinante não andaremos a ver mais os erros alheios do que atentarmos corrigir as nossas lacunas mais recônditas?

3. Este clima de confusão instalou-se no ambiente mundial. Por momentos parecemos todos presos pelas consequências de mais um desvario de alguém que denota perturbação mental mínima, pois não se percebe que um dirigente desequilibrado possa arrastar todos para a desgraça. Só que esse tal ‘louco’ não está só e, mesmo que nos custe, poderemos encontrar um tal de ‘putin’ – ditador, mau e intransigente – no interior de cada um de nós. Com efeito, nele podemos encontrar a representação mais funesta e quase macabra daquilo que pode emergir nas nossas atitudes, palavras, gestos e comportamentos de intolerância à diferença, de reação à menos boa aceitação e até de desagregação do meio em que vivemos, quando não aceitamos corretamente as advertências dos outros.

4. Numa última referência talvez devamos considerar, em tudo isto, um apelo à conversão pessoal e social que estes momentos de convulsão criados pela guerra nos podem proporcionar. Desde logo a alusão à conversão da Rússia como nos foi alertada em Fátima, pelas manifestações de Nossa Senhora. Os factos desse tempo eram outros, mas os perigos continuam hoje. Quem possa tornar-se sinal do mal não falta por aí e quem continue a viver mais no materialismo do que na dimensão espiritual é incontornável… Por isso, precisamos de parar e de escutar; de serenar e de refletir; de questionar-nos e não de nos desculparmos; de nos humanizarmos e não de nos enfurecermos, pois tudo mudará, quando eu começar a mudar…
O processo pode iniciar-se hoje!

António Sílvio Couto

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Qual é a pressa?


 Em tempos não muito recuados esta frase – qual é a pressa? – fez algum furor nos meios políticos.

Valerá a pena recordar o texto e o contexto, até para captarmos o que esta mesma frase pode significar nos nossos dias... e quais as implicações se não respeitarmos não o andar (mais) devagar, bem como a compreensão e a vivência que pode estar subjacente ao sem-pressa... que não é indiferença.

 1. Eis factos históricos sobre a procedência daquela frase.

No início de 2013, um ex-ministro do governo-Sócrates e ajudante privilegiado da estratégia de António Costa para substituir o então secretário-geral socialista lançou um desafio para a realização de um congresso extraordinário do partido com o objetivo de escolher um novo líder. Com serenidade António José Seguro – eleito secretário-geral em 2011 e reeleito em 2013 – repetiu várias vezes: qual é a pressa?
Entretanto, realizaram-se eleições para o Parlamento Europeu e o tal ex-ministro foi eleito. Essas eleições foram ganhas pelos socialistas, mas a facção opositora ao secretário-geral em funções considerou que foi ‘por poucochinho’... e, depois de várias peripécias, foram convocadas ‘eleições diretas’, em 2014, nos socialistas, tendo António Costa ganho a António José Seguro... Como consequência disso, e depois de um congresso, António Costa fez o seu caminho e desde 2015, numas eleições que perdeu (e não foi por poucochinho), mas que se fez governar através da geringonça, durante 2178 dias... até à mais recente vitória. Aquela pressa de 2013 deu nítidos resultados... 

 2. No rifoneiro popular encontramos: ‘depressa e bem, há pouco quem’! Com efeito, a pressa é, muitas vezes, inimiga da qualidade e, raramente, se consegue fazer bem e depressa. Não querendo sequer insinuar sobre os factos (ou fatores) políticos supra aduzidos, dá a impressão que a pressa favorece quem defende (ou mesmo atua) sob a condição de atingir os (seus) fins sem olhar a meios. De facto, quando os fins pressionam os meios com facilidade se dá prioridade à pressa e não à consistência e ao amadurecimento das causas para que surtam os verdadeiros efeitos. A paciência na espera é capaz de colidir com mecanismos mais ou menos atrozes de pressa. Dar tempo ao tempo, será outra faceta que a pressa não terá tempo de cuidar. Ser demasiado apressado talvez seja de mau conselho e de pior vivência...

 3. Ao nível das imagens bíblicas há uma que se adequa a esta reflexão anti-pressa: a construção da casa... e esta entendida em diversas vertentes, desde o edifício material até à casa de família, passando pela personalidade de cada pessoa e mesmo pelo amadurecimento humano, tanto psicológico como espiritual.

«Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as pratica é como um homem prudente que construiu a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela não caiu, porque tinha seus alicerces na rocha. Mas quem ouve estas minhas palavras e não as pratica é como um insensato que construiu a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela caiu. E foi grande a sua queda" (Mt 7, 24-27).

Eis a escolha, mesmo que nem sempre clara e efetiva: o alicerce diz muito do edifício, quanto mais alto se pretender fazer mais fundo deverá ser... Teremos ainda de ter em conta o terreno onde queremos erguer a ‘casa’. Nota-se que, ao nível humano, se vai negligenciando o fator cultural mínimo, mesmo no âmbito de compromisso de vida, como no casamento ou na vida sacerdotal...

 4. Não andaremos a construir – na maior partes das vezes – mais sobre a areia, sem alicerces mínimos e suficientes? Não seremos mais fatores de inconstância do que de serenidade, mesmo nas horas de provação? Nessa espécie de ‘querer mostrar serviço’ não andaremos mais ao sabor da (boa) impressão do que da real execução? Todos saberão, de verdade, aquilo com que tentam impressionar os outros?

Sem pressa haveremos de aprender a amadurecer os mais básicos princípios da nossa vida simples e leal. 

 

António Silvio Couto

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Transvazes político-partidários

 


É um novo fenómeno que perpassa pela nossa sociedade: decorridas as eleições autárquicas é bem de ver a flutuação de pessoas – do mesmo partido – para concelhos da mesma cor, mesmo que numa distância razoável, podendo parecer uma espécie de transvaze à semelhança da seca, que por agora grassa em todo o território continental… As mudanças nem sempre respeitam os que lutaram pela derrota dos anteriores e não veem agora recompensado o seu esforço…

 1. Esta política de transvazes era conhecida entre autarquias ligadas a uma tal esquerda – defensora dos ‘trabalhadores e do povo’ – onde um presidente era técnico superior (como quadro) noutro concelho e, quando não era eleito, por exemplo como vereador, logo era acolhido numa outra instância da mesma coloração e a curta distância… Assim já se via a dança de pessoas e de pelouros ao sabor do que mais convinha, desde que servisse para manter a superioridade (dita) sociológica, mesmo que não fosse mais eleitoral…A rotação das peças era gerida a contento e, nalguns casos, gerada em contentamento…pensavam eles!

 2. Este mecanismo de transvaze como que explica que vejamos pessoas como assessores numa autarquia e passados breves tempos surjam como candidatos ou chefes noutras ao lado…e, casos há, até já fora do mesmo partido. Cresce, então, a sensação de que há uma nomenclatura que governa, conduz e até alicia para que se pense ser tudo igual ou ao menos com aceitação tácita. Temos vivido neste ambiente nas últimas quatro décadas e com uma naturalidade tal que destoar parece ofensivo e/ou antidemocrático.

 3. Ao tomarmos conhecimento deste puzzle percebemos as expressões populares: são todos iguais; só mudam as moscas; é uma questão de chegar ao poder; se queres conhecer o vilão, põe-lhe o pau/mando na mão; não peças a quem pediu nem sirvas a quem serviu…Numa palavra: a diferença não está nas políticas, mas nas pessoas, pois são estas que executam aquelas. Com efeito, o nível e a qualidade tem vindo a decrescer a olhos vistos, dado que, cada vez menos, vemos pessoas a pensarem nos outros, mas antes a olharem para si e para os seus interesses. Se acontecer algo ou aparecer alguém que não seja deste modo, será de acolher, aceitar e de ajudar a ser isso que pretende: estar ao serviço e não a servir-se…

 4. Um exemplo de transvaze sociopolítico surgiu nas recentes eleições: por ‘acordo entre todos’, os partidos concorrentes aceitaram que os votos dos emigrantes – só no círculo da Europa – que não fossem acompanhados da respetiva identificação do eleitor poderiam ser aceites…e misturados com outros que tinham cumprido a lei. Descoberta a ilegalidade é preciso repetir o ato eleitoral.

Digamos que aqueles que fazem as leis, os deputados, são os primeiros a incumpri-la, estaremos na proporção dessa ideia de colocar a raposa de guarda à capoeira… A imagem não foi colocada ao acaso, mas poderemos, assim, compreender, que o local da discussão da democracia é isso mesmo: posto onde uns tantos se consideram galos e outros franganitos à mistura com galinhas e pintainhos mais cordatos e submissos… numa espécie de capoeira nem sempre alinhada com os interesses nacionais mínimos.

 5. Agora que foi anunciado o desagravamento da maior parte das medidas anti-covid, parecem emergir ideias de que tudo vai voltar a ser igual. Por certo isso não seria sério considerá-lo, pois, decorridos dois longos anos de sofrimento, temos de aprender a estar no trato – convívio, contato, confraternização, etc. – uns com os outros. Tendo em conta períodos anteriores desta pandemia como que soa a má organização, deficiente programação ou razoável manipulação quanto foi (mais uma vez) anunciado… Agora que têm maioria governativa falem mais verdade, não iludam com trejeitos de conveniência, pois quem engana facilmente perderá a ilusão quase-ditatorial. Façam o transvaze da liberdade, sem deixarem de não pensar que nunca se descobrirá as manigâncias mais subtis…

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Agressividade social em crescendo

 


Os sinais estão aí e são bastante perigosos: crianças vítimas de bulliyng nas escolas e não só; preparação (descoberta) de atentados numa universidade; assaltos a lojas e transeuntes em várias partes do país; distúrbios em jogos de futebol… com horas e horas a dissecar os casos, à procura de encontrar culpados e, sobretudo, a intoxicar o meio sociocultural.
Onde podemos encontrar os focos deste crescendo da agressividade social? Que podemos dizer das intervenções políticas dos ganhadores das últimas eleições? O que foi dito e propagandeado será fator dissuasivo ou antes promotor do pior que já vivemos e ainda poderá vir? Quem se arvora em ostracizar os adversários não andará a plantar, à sua volta, inimigos, reais, virtuais ou ficcionados?

1. Não sei se a minha leitura não será a de alguém que já vê o mundo com óculos de menos-boa aceitação, dada alguma idade, mas parece-me que a sociedade atual se manifesta mais agressiva – nas relações pessoais, grupais, familiares e sociais – do que em tempos não muito recuados. Uns dizem que isso manifesta reação ao confinamento destes dois últimos anos. Outros introduzem a componente reivindicativa mais exacerbada com os constrangimentos da pandemia. Mas porque será que uns reagem de uma forma e outros não seguem por essa condicionante? Qual o clique que faz a diferença para, hoje, vejamos pessoas que agridem mesmo sem agressão e outros não respondem dessa forma, quando confrontados com tais provocações?

2. Mesmo assim recordo, há três ou quatro décadas, como tempos agressivos, nalgumas partes da Europa e da América Latina com movimentos extremistas – ‘brigadas vermelhas’, ETA, IRA, Baader-meinhof… imensos grupos espalhados pelo mundo, muitos deles interligados ou correligionários. Foram tempos marcados e marcantes pelas contestações políticas e sociais, económicas e laborais, que pretendiam que fossem cívicas, mas tornavam-se mortíferas e quase desumanas. Desses tempos ficaram tiques, nalguns dos dirigentes em funções, sobretudo ligados a uma certa esquerda marxista-trotskista ressabiada…

3. Atendendo à acentuada influência da internet e das redes sociais, hoje, torna-se extremamente difícil perceber o que boa parte das pessoas faz, mesmo que pareça sossegada. Dizia, por estes, um especialista na arte de educar: muitos pais ficam contentes que os filhos estejam ocupados e talvez em casa, só que não sabem por onde eles andam, quando navegam na internet, isto é, sossego não significa ausência de perigo… Talvez seja necessário estarmos mais de atalaia para que não aconteçam surpresas ou mesmo atitudes indesejadas. A ocupação das crianças e adolescentes não pode ser feita à custa de ingredientes de intoxicação e, talvez sem disso nos darmos conta, de dependências e de desequilíbrios a curto e a médio prazo.

4. São preocupantes os sinais – verbais, de grupo ou de partidos, de fações – de intolerância na nossa vida coletiva. Aquilo que devia quedar-se pelo combate no campo das ideias, está em efervescência na luta política. Parece-me inadmissível que dirigentes e sequazes pretendam erguer barreiras sanitárias em volta de resultados eleitorais expressivos. O país parece tornar-se uma imensa barricada, onde as trincheiras ofendem e como que revelam os intentos de muitos democratas…no seu conceito.
Não precisamos de incendiários que criem mais fatores de desestabilização. Urge refazer a comunicação social, rejeitando quem se entretém com o escarafunchar das mazelas da sociedade, explorando quase até à exaustão fenómenos de agressividade e exacerbando mais o que divide do que aquilo que une. O comando do aparelho pode fazer cair as audiências e as publicidades!

5. A sabedoria popular considera: quem semeia ventos, colhe tempestades! Certas posições são de ventania, queira Deus que recebam a paga que merecem… Não vale tudo para atingir os fins em vista!

António Sílvio Couto

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Seca: maldição ou sinal?

 


Eis que, de repente, se passou a falar de algo, embora essencial, andou bastante esquecido: começa a faltar água. As barragens, na sua maioria, estão a cerca de 10% da sua capacidade. As imagens de terra seca e gretada deixam antever algo de muito grave, a curto e médio prazo. Os mais fundamentalistas do clima saem das suas tocas de convicção para reclamarem contra tudo e todos... Mas se não chover nos próximos dois meses muito será posto em causa, tanto na agricultura, como no meio ambiente e mesmo nos recursos hídricos básicos... de acesso à água.


1. No final de janeiro, mais de um terço do continente (34%) encontrava-se em seca severa, mais de metade (54%) em seca moderada, enquanto que 11% do território estava em seca extrema e só 1% em seca fraca.
Em Portugal continental, a seca meteorológica mais intensa desde o início do século foi registada em 2005. Comparando a situação atual com a de 2005, verifica-se que o grau de severidade da seca atual é ligeiramente inferior com a situação em final de janeiro de 2005. Com efeito em 2005, todo o território também se encontrava em seca meteorológica no final de janeiro, mas com maior percentagem nas classes de seca severa e extrema (22% em seca extrema, 53% em seca severa e 25% em seca moderada).

2. Perante esta situação tão complexa, onde está subjacente a presença da água ou a falta dela (seca), podem surgir algumas perguntas, umas mais de teor científico, outras na linha popular, outras ainda de âmbito religioso ou mesmo de cariz mítico-fatalista... A que se deve esta situação de seca? As alterações climáticas explicam tudo ou confundem as razões com as consequências? Já teremos uma boa aprendizagem para o uso e não para o desperdício da água? Como poderemos salvaguardar que haja água para todos, sem deixarmos de ser injustos e de corrermos riscos quanto ao futuro? Estaremos todos conscientes de que a água é um bem perecível? Quando se fará uma correta educação para termos água no futuro próximo? Já captamos a abrangência da expressão: ‘água é vida’? Será que podemos interpretar a seca como castigo divino? Que significado tem essa visão na linguagem bíblica?

3. Para ser desenvolvida uma ‘política do uso da água’ talvez possa ser útil considerar a água em quatro níveis: uso na alimentação e na higiene (pessoal e social), dimensão económica (energia elétrica, agricultura e jardinagem), nos desportos náuticos e ações de lazer tendo presente a água.
É (ou devia ser) diferente a água que usamos na alimentação (beber, cozinhar ou como recurso necessário para a atividade humana) com essa outra que poderíamos usar na higiene ou em trabalhos que não necessitem de água potável. Por vezes usamos desta para coisas que não o exigiriam. Falta, por exemplo, formas de reaproveitar as águas da higiene pessoal (banho ou lavar das mãos) para as descargas sanitárias, onde desaproveitamos tanta água potável...
Somos um país com uma frente de mar de milhares de quilómetros e, enquanto noutros países se recorre à dessanilização como meio de aproveitar a água que é preciso, por cá rara ou nunca se fala deste método do bom uso dos recursos hídricos. Talvez momentos de crise em seca - como este que estamos a vivenciar -  possam alertar-nos para aspetos que precisam de ser estudados por quem olha as coisas com futuro e não se limita a remendar com objetivos do passado.

4. Sem dramatismos podemos ainda considerar que, nalgumas circunstâncias bíblicas, a falta de água - sobretudo de forma prolongada, através da seca - foi considerado ‘castigo divino’ ou forma de correção quanto ao afastamento para com Deus, particularmente, na visão do Antigo Testamento. «Entre os ídolos inúteis das nações, existe algum que possa trazer chuva? Podem os céus, por si mesmos, produzir chuvas copiosas? Somente tu o podes, Senhor, nosso Deus! Portanto, a nossa esperança está em ti, pois tu fazes todas essas coisas» (Jr 14, 22).  Que sinal nos estará Deus a dar com mais este tempo de seca?

 

António Silvio Couto

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Assédio não-culpado?


 De forma quase acintosa têm surgido, grosso modo na última década, nas notícias sobre a Igreja católica, casos de abuso por parte de membros do clero – uns de cariz sexual e outros de tendência de ‘género’ – numa confusão quase intencional de desacreditação de todos, a partir das partes.

A onda tem varrido várias instâncias eclesiais e sociais. No contexto pontifício teve maior desenvolvimento com Bento XVI – sussurrando-se que foi esta ferida que o foi consumindo até à sua renúncia em fevereiro de 2013 – e tem percorrido o magistério de Francisco. Os países ‘mais’ católicos estiveram sob especial escrutínio deste flagelo – humano, psicológico, espiritual e social – de longa data. Esta nova-inquisição revolveu quase tudo, desde que cheirasse a escândalo…real ou presumido. Em países mais endinheirados, choveram processos de indemnizações suficientemente chorudas às vítimas; noutros – como em Portugal – parece que se pretende ficar pelo escândalo quanto baste, desde que o assunto percorra o caminho adestrado sabe-se lá por que forças… As comissões – diocesanas ou independentes – empossadas servirão para apurar a verdade séria? Mais do que os resultados será preciso compreender os efeitos…a curto e médio prazo.      

 1. Para publicitar os apanhados na teia foi usada – até agora – uma panóplia de meios, desde a denúncia até à acusação, passando pelos pormenores mais ou menos sórdidos, que, de tão detalhados, quase deixam a suspeita de poderem ser cozinhados a contento, hoje como ontem… sobretudo se for tida em conta a possibilidade de discrepância dos ‘acontecimentos’. Não se está, nem por sombras, a questionar as boas intenções de encontrar os prevaricadores – seja qual for o enquadramento jurídico-canónico – talvez possam ser – isso sim – objeto de análise os meios de prova…

Com que alarido foram noticiados alguns dos casos, deixando, inexoravelmente, um rasto de suspeita e de quase-anátema sobre os denunciados/acusados, mas com que acobardamento não foi referida a não-acusação e até a absolvição dos mesmos intervenientes… Vimo-lo – na última década – em mais do que um caso nalgumas dioceses, dentro e fora da Europa, e nem as autoridades eclesiásticas se diferenciaram no comportamento e nas notícias. Assim se pode inferir que nem todos querem a verdade, mas privilegiam, pelo contrário, ‘sua’ versão, desde que seja populista… por agora.

 2. Irremediavelmente temos de considerar que é grave toda e qualquer ofensa em abusos – sexuais, morais ou de consciência – aos mais novos ou as pessoas com outras debilidades. Quem tal praticou deverá ser responsabilizado, seja qual for a instância jurídica, canónica ou ética…   

 3. Ora, nesta amálgama de condições socioculturais, parece-me que tem faltado um item, que, na minha compreensão, não deveria não ser excluído: têm sido apresentados muitos eclesiásticos como os réus de situações sobre menores e fragilizados. É digno de registo tal intento. E as vezes em que aqueles ou outros eclesiásticos foram – tácita, insinuada ou explicitamente – assediados em funções ou fora delas, mas tendo em conta a sua pessoa e ministério, não deveriam constar nos parâmetros da equação? Por que não se ouve falar desta vertente do problema? Será que o ‘sigilo profissional’ dos padres tem de abafar os casos e problemas, quando os atinge na sua honorabilidade?

Dizia alguém com propriedade e sabedoria: vós, os padres, não penseis que vos ‘atacam’ por serdes, enquanto homens, com bom aspeto, mas por serdes padres! Efetivamente há casos em que os assédios se verificam com tal subtileza – tanto no feminino como no masculino – que será preciso estar muito atento às insídias e ciladas do mal. Até as crianças – consideradas sem maldade – podem tornar-se focos de insinuação mais ou menos explícita. Quem acreditará, hoje, que um simples aceno de uma criança para um padre não poderá conter alguma carga menos sincera ou simplória? Pior: e se isso é comandado por algum adulto – pessoa ou conjetura – tal gesto, aparentemente, infantil poderá, afinal, ser uma cilada…

 4. Temos um problema em curso e não parece ser fácil discernir quem nos quer bem, pois, hoje, tem uma leitura e daqui a dias (ou anos) não sabemos as implicações de tais gestos, palavras e sinais. Cuidado, já!  

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Elegia da ignorância

 

Etimologicamente ‘ignorância’ vem da palavra latina ‘ignorantia’ - ‘in’ (não) e ‘gnarius’ (sabedor) - isto é, ‘ignorância’ significa não-sabedor de uma determinada matéria ou assunto...falta de ciência ou de saber, incompetência.
Daqui se pode depreender que ‘ignorância’ reveste algum significado pejorativo, podendo distinguir-se ainda entre ‘agir por ignorância’ e ‘agir em ignorância’. Ora quem atua ‘por ignorância’ pode fazê-lo por falta de conhecimento e de modo involuntário, enquanto ‘quem age na ignorância’ atua de forma não-civilizada e voluntária.
Poder-se-á dizer também que uma pessoa ignorante vive e atua de acordo com a sua ignorância, podendo basear o seu comportamento em preconceitos, superstições e ideias sem razão...isto podê-lo-á condicionar a ver as suas limitações e a necessidade de aprender, de se educar e de se instruir...mais.
Atribui-se a Aristóteles este pensamento: ‘o ignorante afirma, o sábio dúvida e o sensato reflete’. Por isso, se alguém pensa – e como tal atua – que sabe tudo não terá motivação nem capacidade para querer aprender, pois crê que nada tem a estudar, a pensar ou a questionar.

1. Vamos servir-nos, em jeito de paráfrase, do texto bíblico que faz o elogio da caridade (cf. 1 Cor, 13,4-8), para abordarmos esta temática da ignorância...com as suas caraterísticas mais significativas:
A ignorância é impaciente, a ignorância é maldosa; tem inveja, é orgulhosa, é arrogante e escandalosa.
A ignorância procura o próprio interesse, irrita e irrita-se; guarda rancor, alegra-se com a injustiça, rejubila com a mentira.
A ignorância nada desculpa, em nada acredita, desespera e é insuportável. A ignorância nunca acabará?

2. Dá a impressão que se torna um tanto difícil distinguir quem atua e vive guiado pela ignorância ou quem ainda não se apercebeu do seu estado de ignorante e se considera uma espécie de sabichão do nada. Com efeito, não andará por aí muita gente que consegue disfarçar a sua ignorância com a prosápia de bem-falante? Não andaremos a adular ignorantes que nos iludem com trejeitos de vendedores de ilusões? Não cultivaremos ainda mais a ignorância, ao promovermos tantos/as que fazem da preguiça modo-de-vida e da fachada o comportamento habitual? Em tantas das nossas ações não pactuaremos mais com a ignorância do que com a necessidade de um saber contínuo e crescente?

3. Circula em certos meios eclesiásticos que a ignorância funciona como se fosse um ‘oitavo sacramento’ e com tal evidência que os outros sete quase se subjugam a ele. De facto, fomos confrontados com tantas situações de ignorância que se torna arrepiante ultrapassar a carapaça do interlocutor. Nalguns casos parece ser um ’agir em ignorância’, pela forma desadequada em colocar as questões, mas noutros momentos dá para compreender que é um ‘agir por ignorância’, tal a convicção com que os desejos religiosos são apresentados para serem resolvidos.
Sobretudo nos apelidados ‘sacramentos sociais’ – batismo e matrimónio – bem com nos atos religiosos de caraterísticas mais profanas – como certas etapas da catequese ou mesmo por ocasião de um funeral – vemos tantas pessoas manifestarem a sua ignorância que corremos o risco de aliviar as soluções para não termos problemas mais ou menos inconsequentes. Não será isto pactuar com a ignorância? Não será isto fugir para o lado menos correto da resolução dessa ignorância?

4. Fique claro: não devíamos confundir ignorância com nesciência, isto é, não é certo meter no mesmo saco quem não sabe e talvez não seja obrigado a saber, com que não sabe e deveria saber, que é o que significa a tal ‘nesciência’. Com efeito, o desconhecimento do ‘ignorante’ é muito diferente daquele que o ‘néscio’ manifesta, pois neste há algo que não desculpa as debilidades daquele. Por isso, deveríamos – na nossa conduta eclesial – tratar tantos dos problemas na linha da nesciência – deveria conhecer e estar apto a querer aprender – e não tanto no rótulo da ignorância. Dizem e com verdade: a ignorância é atrevida!

António Sílvio Couto