Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



domingo, 30 de maio de 2021

Homilia na celebração do matrimónio

 


Recordo, num misto de espanto e de interrogação, o que dizia um padre septuagenário numa reunião com outros padres: investi tanto em fazer tão bem os casamentos que tinha, e, afinal, dá a impressão que perdi o meu tempo… Ora, esse padre deveria ter, à época, mais de duas centenas de casamentos anuais… tal era procura da sua paróquia, nos diversos e aprazíveis lugares de culto.

Agora que tais eventos religioso-sociais vão rareando – e não é só por causa da pandemia – deu comigo a refletir sobre qual a função da homilia – esse momento de palavra, tanto humana como divina – na celebração do matrimónio, seja qual for a instância de vivência, pois, hoje, muitos dos matrimónios já são celebrados com o casamento (civil) feito ou ainda nalguns casos, de forma ‘natural’, os filhos estão presentes, com maior ou menor idade…

1. O que diz o ritual do matrimónio sobre o assunto em análise? Lemos nas rubricas: «Segue-se a liturgia da Palavra, segundo o modo habitual, tomando os textos propostos… escolha-se sempre pelo menos uma leitura que fale explicitamente do matrimónio. Em seguida o ministro fará a homilia, na qual, inspirando-se no texto sagrado, exporá o mistério do Matrimónio cristão, a dignidade do amor conjugal, a graça do sacramento e os deveres dos cônjuges, tendo em conta, porém, as diversas circunstâncias das pessoas» (Ritual Romano, ‘Celebração do matrimónio’, n. os 90-91). Uma ressalva: quando falamos da celebração do matrimónio refiro-me àquele que é realizado ‘sem missa’… pois esta têm outros requisitos nem sempre devidamente atendidos…pelo menos em certas regiões (ditas) tradicionais religiosas.

2. Será, por isso, de questionar: a quem se deve dirigir a homilia – aos noivos ou aos outros; a uns e a outros? Dada a subtileza de tantas situações, mesmo diante de noivos bem formados e conscientes, dever-se-á acentuar tanto a altíssima dignidade do matrimónio, se podem estar ali ‘traumatizados’ de experiências anteriores de casamento? Não será preferível deixar as exortações – mais diretas e personalizadas – aos noivos para momentos posteriores, cuidando das feridas de quantos – e por vezes são tantos/as e tão diversificados/as – ali podem estar sob reserva quanto ao matrimónio, por experiências de menos bons casamentos?  

3. O ministro/oficiante do sacramento pode estar presente em razão do múnus (no caso de ser pároco ou outra função pastoral equiparada), por amizade aos noivos ou por convite circunstancial. Já estive nas várias possibilidades… Ora, como deverá ser a postura do oficiante: de distância ou de proximidade, mais ou menos hierático, criando solenidade ou mais à-vontade? Por vezes, certas atitudes dos participantes podem condicionar a postura, mas sem fazer do ato algo tão fútil que possa parece um mero acontecimento humano e não um acontecimento com a marca e o selo do divino…

4. Ora, atendendo ao acentuado processo de desconhecimento (por ignorância ou por nesciência) do mistério do matrimónio, refere-se ainda no Ritual do matrimónio: «embora os pastores sejam ministros do Evangelho de Cristo para todos, contudo devem ter em atenção de modo particular aqueles que nunca ou raramente participam na celebração do matrimónio e da eucaristia, quer sejam católicos ou não. Esta norma pastoral vale antes de mais para os próprios esposos» (n.º 37). Quer isto dizer que na celebração do matrimónio católico se pode verificar um caldo de misturas com diversas vivências espirituais e religiosas, devendo ser respeitadas as dinâmicas e mesmo as influências de todos, mesmo dos não-crentes…

5. Sendo uma comunicação verbal, a homilia na celebração do matrimónio pode e deve ter em conta as caraterísticas culturais onde se insere… tão diversificadas quão influenciadas por critérios mais mundanos do que verdadeiramente cristãos. Por isso, a palavra dita e escutada nem sempre terão consonância entre o emissor e o recetor. Saber dizê-la tem arte e engenho. Saber escutá-la poderá ser um exercício de humildade, tentando apreender aquilo que é dito e não estando à espera que se confirme o que mais possa convir.

6. Como me dizia um velho padre com muita experiência de vida de contato com as pessoas: bastará reparar como se benzem (ou não) – logo no princípio da celebração – para ficarmos a saber com quem estamos. Palavras sábias e acrisoladas no tempo, ontem como hoje! 

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Todos juntos, agora!

 


‘All together now’ (todos juntos agora) é nome de um programa televisivo, que faz desfilar concorrentes perante cem jurados, votando estes em conformidade com o seu gosto, preferência ou influência…musical e cultural. Pretendido como algo pulverizador das atenções do público nas noites de sábado à noite, tornou-se uma espécie de fiasco do canal, colocando nitidamente à prova a fanfarronice da apresentadora.

Mas não é do tal programa que pretendemos falar. Tão-somente retiramos o título para sugerirmos algumas questões, situações e problemas que precisam de ser encarados com esse espírito de ‘todos juntos, agora’…

Vejamos as propostas:

* Todos juntos, agora poderemos vencer a pandemia, fazendo cada um de nós o que lhe compete, sem atirar para outros o que se deve à sua participação consciente, atenta e sincera…

* Todos juntos, agora enfrentaremos os estragos caídos destes meses de provação pessoal, familiar, social… estrutural, conjuntural ou alienatória…

* Todos juntos, agora temos maior capacidade para resistir às investidas do desânimo, que foi povoando os meses mais recentes, não deixando ninguém derrotado pelas feridas psicológicas, morais ou mesmo espirituais…

* Todos juntos, agora vamos cuidar mais atentamente dos mais frágeis e fragilizados, particularmente os mais velhos, os doentes, os marcados pelo vírus ou até as vítimas indiretas, como os familiares e as instituições que perderam os seus utentes… 

* Todos juntos, agora queremos dar as mãos aos que não conseguiram chorar condignamente os seus falecidos ou nem tiveram tempo de cumprir o seu luto com a serenidade necessária, aconselhável ou recomendável…

* Todos juntos, agora queremos unir esforços quanto aos dias carpidos sem a comunidade dos irmãos da mesma fé, pelo fechamento das igrejas (templos) ou pelo excesso de rigor colocado no cumprimento das regras higiene-sanitárias…

* Todos juntos, agora desejamos contribuir para a normalização do tempo e do espaço do trabalho, criando novos laços para enfrentarmos as questões económicas, sem reduzirmos a nossa vida ao mero economicismo, para voltarmos a construir o tecido da vida em comum, sem nos deixarmos confundir pelas visões imediatistas e algo suscetíveis de nos quedarmos só pelo que rende…em cifrões.

* Todos juntos, agora sentimos que ainda não aprendemos a lição tão simples da nossa vulnerabilidade, da nossa condição de estarmos – como tem sido dito – ‘todos no mesmo barco’, que pode adornar se for colocada a carga só de um dos lados, isto é, se não descobrirmos que somos muito mais do que matéria em decomposição…ou com prazo curto de validade.

* Todos juntos, agora temos uma missão a cumprir: não se consegue vencer nada nem em nenhuma circunstância sem união nem se faz uma sociedade mais humana onde nem todos se empenham em ajudar os outros num intercâmbio de emoções, de sentimentos e de corações…

* Todos juntos, agora queremos olhar o Céu sem esquecermos a Terra que pisamos fraternal e solidariamente…onde as lições não se dão, aprendem-se humilde e diariamente.

* Todos juntos, agora precisamos de voltar a reunir as assembleias de fé, sem medos nem temores, mas mais alicerçados na confiança uns nos outros e ancorando-nos todos em Deus…

* Todos juntos, agora queremos acreditar nos meios que são postos à nossa disposição – testagem, vacinação e múltiplos programas de saúde – sabendo que o bem alheio depende do nosso cuidado e que cada um beneficiará da atenção de todos…numa cadeia pública de verificações e de prestação de serviços mínimos e suficientes.

Todos junto, agora e mais conscientemente!


António Sílvio Couto

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Do linguajar às inconsequências

 Não basta saber o que foi dito, é preciso conhecer quem o disse. Não basta chamar ‘bandido’ (ou outro termo), é preciso reconhecer o sujeito e mesmo o predicado, dado que o complemento tanto pode ser direto como indireto…isto nas designações sintáticas de antanho…

Nota-se que certas forças têm um tratamento algo discricionário, ao menos por uma substancial parte da comunicação social, tendencialmente eivada de velhos tiques esquerdistas, senão mesmo de um substrato marxista ressabiado…sem atualização aos valores democráticos mínimos…isto é
, de aceitação da diferença dos outros…sufragados em eleições (ditas) em democracia.

Vamos a factos, com recurso à memória:

 1. Em consequência de umas declarações – diga-se infelizes – um deputado e, ao tempo, candidato presidencial, sobre altercações verificadas com a polícia, num bairro periférico e problemático da ‘margem sul’, em que apelidou de ‘bandidos’ uns tantos… foi condenado, por estes dias, a retratar-se publicamente, pedindo desculpa (escrita ou oral), ‘em razão das ofensas ao direito à honra e ao direito à imagem’ da família atingida…senão o fizer, após um mês de trânsito em julgado terá de pagar uma diária de quinhentos euros…Saídos da lura (buraco esconso, ignoto e subtil) das redes sociais muitos aplaudiram a condenação… Umas certas debutantes da música consideraram isso uma ‘boa noticia’, pairando a sensação que era uma espécie de caso do mês ou até do ano.

Fique claro: ofender não tem tez nem assume glória, seja para com quem for! Discordar não pode rimar com ofender, ultrajar ou vilipendiar.  

 2. Respiguemos, por outro lado, momentos (nem sempre fáceis de encontrar em arquivo) com que membros de um tal partido e de uma deputada em concreto têm dito palavras que não têm consequências, atendendo ao alcance subjacente: os negócios da máfia portuguesa, os gestores de um certo banco estão colocados sob suspeita, os capitais ofuscam as posições e estas aglutinam ataques mais ou menos intensos, constantes e indisfarçáveis a qualquer hora e em todo o tempo. O ar moralista insofismável quase colide com as palavras agressivas, azedas e provocatórias…

Quando celebrações religiosas tiveram espaços de metros, na convenção do tal partido da moralidade, vimos pouco mais do que centímetros a separar os fregueses. Já terão todos, imunidade de grupo? Pelo ar jovial de boa parte ainda não atingiram a idade! As exceções não se publicitam aos de casa!

 3. Vivemos num país onde quem não for – declarada ou tacitamente – de ‘esquerda’ (ou das esquerdas) está, quase sempre, sob suspeita, terá de provar que lhe assiste o direito a ter opinião ou a poder exprimir-se pelo voto. Para isso contribui uma sagaz comunicação social entretecida com saudosismos, critérios ou valores – creio eu – já ultrapassados, pelo menos noutros países e culturas. Com que facilidade se criam epítetos para quem não alinha com a manada de um certo pensamento uniforme e formatado para uma pretensa maioria votante, mas não realmente social. Com efeito, se somarmos a percentagem dos que não votam em formações partidárias (ditas) de esquerda – talvez trinta por cento dos recenseados – com aqueles que não votam (abstenção) – uns sessenta por cento, se nos ativermos às últimas eleições…embora se possam descontar os casos de falecidos e afins – onde está força dessa esquerda (ou esquerdas), que pretende impor-se tão radicalmente?

O país poderá ter uma tendência cultural de esquerda, mas sociologicamente a questão é de outro teor bem distinto…mesmo que de forma mais silenciosa.

 4. Urge criar, informar e formar pessoas que tenham opinião e que pensem pela própria cabeça. Mesmo no quadro dos partidos políticos fundadores da democracia temos de saber encontrar quem sente o país como seu ou se, pelo contrário, faz dele um antro propicio a que outros nos explorem. Enquadrados no eixo atlântico-áfrica-sul américa precisamos de fazer da nossa língua um veio cultural sem pejo nem rebuço…

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Coisas do reino da pascacilandia…

 


Conta-se de um eclesiástico fervoroso adepto do clube mais recentemente vencedor do ‘taça de Portugal’ em futebol masculino que ia para o velho estádio da cidade sempre rodeado de rapazes bastante novos, uns dizem que estes iam dependurados na sotaina e entravam para ver os jogos de graça, outros referem ainda que levava os bolsos da batina cheios de rebuçados, que ele dava aos miúdos sempre que o árbitro fazia alguma asneira em desfavor do seu clube, dizendo: chama-lhe tu (algum palavrão mais inapropriado), que eu não posso… e lá ia distribuindo os rebuçados ao longo do jogo…

Por outro lado, gostaria de trazer à liça essa figura algo ficcionada (ou não tanto) que nos aparece nos livros de Eça de Queirós: um tal pascácio – rótulo entre o emblemático e o bizarro – que servia na literatura queirosiana para caraterizar o ‘conde de Abranhos’…um habilidoso, que saído da província, foi fazendo furor na capital, sobrevivendo num misto de oportunismo e de faz-de-conta, já em meados do século dezanove, nos meios políticos do governo emergente da carta constitucional…

 1. Que têm estes ‘episódios’ quase antagónicos a ver com a nossa condição atual? Que ligação poderemos encontrar entre o clérigo nortenho e o pascácio lisboeta? Como poderemos identificar situações similares na nossa conduta sócio-política-desportiva? Isso da pascacilandia rege-se por algum regime subterrâneo…com ou sem avental e afins? Os miúdos a vociferarem palavrões foram instrumentalizados naquele tempo ou deambulam, hoje, em certos meios? Como poderemos ler/ver/interpretar certas reuniões (chamem-lhe convenção, congresso ou sei lá o quê…) onde se fala mais de ausentes do que daquilo que pretendem fazer os presentes? Será este um dos requisitos da pascacilandia? Não andaremos a ser enganados com chilreios de mau agouro?

 2. Composto por duas palavras – pascácio e lande – a pascacilandia seria, assim, um misto onde os pascácios – isto é, tontos, cretinos, idiotas ou imbecis – têm uma ‘lande’ – isto é, terra, espaço ou território…arenoso, inculto e pouco produtivo – sendo, deste modo a terra/espaço/situação onde proliferam os pascácios, onde habitam sobretudo pascácios, onde estes se sobrepõem ao resto dos outros…numa conjugação para que possamos ser tomados todos por igual categoria…

 3. Cada vez mais o nosso país se está tornar uma pascacilandia onde parece que somos tratados como pascácios, não já na classificação queirosiana, mas sob influência de quem julga que é capaz de subverter as regras mesmo da convivência mínima social. Com efeito, à semelhança do outro adepto de futebol que desejava invetivar os árbitros com palavrões – agora até se diz ‘linguagem vernácula’ – mas, devido ao estatuto social lhe ficava mal, então fazia dos miúdos à sua volta os porta-vozes do seu descontentamento, assim vemos serem gastas horas a fio a atiçar os ouvintes (militantes ou não) contra forças que consideram perigosas para eles, não respeitando quem pensa diferentemente deles. Com tantos submissos pascácios pensarão continuar a falar sem se responsabilizarem pelo que dizem nem a assumirem os riscos incendiários das ações que protagonizam…

 4. Espero que este espírito de pascacilandia não atinja a alma da nação, pois seria o nosso colapso total. Nota-se que há espalhados pelo nosso contexto nacional quem defenda mais os seus apaniguados partidário-ideológicos do que quem é da sua nacionalidade. Com que facilidade vemos que uns tantos deputados alinham posições mais com os da sua cor – até no Parlamento Europeu – do que com os portugueses. Com eleitos destes teremos de saber mais de quem se servem do que a quem servem.

 5. Nesta pascacilandia em que temos vindo a converter o nosso país, há profetas da desgraça que parecem conjugar, em vários tempos e diversas circunstâncias, o princípio do ‘quanto pior, melhor’, pois do pântano poderá emergir a sua vitória…

Há boa maneira de outros tempos mais utópicos dizemos: acordai!     

 

António Sílvio Couto

sábado, 22 de maio de 2021

Derrota da estatização do ensino?

 


Pela enésima vez o ranking das escolas pôs a nu uma realidade: as escolas do ensino não-público são melhores do que as autoapelidadas do ‘ensino público’… e nem a sanha persecutória de alguns membros do governo em funções conseguiu trazer outros resultados…

Vejamos alguns dos dados publicitados por estes dias: em 2020 realizaram-se 252.676 provas nas 640 escolas com ensino secundário; das 593 escolas em Portugal continental onde se realizaram exames, 479 são escolas públicas e 114 são privadas; há 43 escolas privadas e 7 públicas no top 50; os 274 concelhos do país com escolas secundárias tiveram média positiva, sendo a média mais baixa de 10,3 valores e a mais alta de 14,4 valores; há 20 anos que os rankings das escolas são publicados.

 

1. Depois de termos assistido à tentativa de liquidar as escolas privadas, pelo anterior elenco governativo, vemos que algo vai mal o reino dos pascácios. Recorde-se a figura emblemática e algo bizarra, do ‘pascácio’ dos textos de Eça de Queirós… numa obra da segunda metade do século dezanove, onde um tal alípio abranhos deambulava, na sua ignorância e petulância, na ordem política (constitucional) do tempo num misto de oportunismo e de faz-de-conta. Há quem considere que estamos a viver, nos nossos dias, numa espécie de ‘síndrome do conde de abranhos’… sobrevivendo-se num recolher de benesses públicas que a economia não pode pagar…por muito mais tempo, embora se tente usufruir ao máximo, enquanto der!

 

2. Se em muitos dos setores este ambiente de lançar grande quantidade de dinheiro pode fazer avançar a economia, na área da educação não funciona tão linearmente como essa teoria do máquina de refrigerante fresco, isto é, põe-se a moeda e logo sai o pretendido. Não, neste setor, que tem vivido mais ao ritmo das pretensões dos titulares e afins, vemos que custa a dar fruto o investimento feito. Fizeram proliferar escolas por tudo quanto era sítio e a qualidade regrediu. Lançaram cursos ao desbarato e agora uma boa parte fica sem concorrentes. Prometeram futuro a tantos estudantes e estes acabaram a emigrar, sobretudo os melhores…  

 

3. A estatização do ensino iludiu muita gente e alguns ainda vivem nesta nostalgia de que todos podem ser engenheiros e doutores, mas faltam-lhes alguma capacidade, um certo engenho e suficiente inteligência. O tal ‘processo de Bolonha’ (desde 1999) trouxe mudanças, na forma e mesmo no verdadeiro conteúdo… Se já anteriormente era preciso saber onde foi feito o curso, agora precisamos de ser elucidados sobre a data – antes ou já no processo de Bolonha – para que se não meta tudo no mesmo saco… Não está em causa a qualidade, mas tudo quanto possa ser feito para não embarcarmos em enganos de subtileza ao nivelarmos pelos pés e não potenciando mais e mais…

 

4. Seria utópico pretendermos ter uma escola somente pública e só dela fazermos irradiar a capacidade de escolarização uniforme. Tais pretensões soam a totalitarismo, tenha a coloração que lhe quisermos aduzir. Citamos dois textos programáticos de bons cidadãos e de cristãos – se a Constituição acentua o direito de ensino, o Catecismo realça a tónica da educação.

- «Todos têm o direito ao ensino com garantia do direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar. O ensino deve contribuir para superação de desigualdades económicas, sociais e culturais, habilitar os cidadãos a participar democraticamente numa sociedade livre e promover a compreensão mútua, a tolerância e o espírito de solidariedade» – Constituição da República Portuguesa, artigo 74.º.
- «Os pais são os primeiros responsáveis pela educação de seus filhos. Testemunham esta responsabilidade em primeiro lugar pela criação de um lar no qual a ternura, o perdão, o respeito, a fidelidade e o serviço desinteressado são a regra. O lar é um lugar apropriado para a educação das virtudes. Esta requer a aprendizagem da abnegação, de um reto juízo, do domínio de si, condições de toda liberdade verdadeira. Os pais ensinarão os filhos a subordinar ‘as dimensões físicas e instintivas às dimensões interiores e espirituais’. É uma grave responsabilidade para os pais darem bons testemunhos aos filhos. Sabendo reconhecer diante deles seus próprios defeitos, ser-lhes-á mais fácil guiá-los e corrigi-los» – Catecismo da Igreja Católica, n.º 2223.

Confundir direito com obrigação não estará a conduzir muitos dos nossos governantes? Não confundamos…     

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Imposição das mãos

 


É um gesto recorrente na ação da Igreja, tanto na liturgia, como na vida eclesial e mesmo com fundamentação bíblica assaz referida, como expressão evocativa do poder de Deus e também invocativa do Espírito Santo, a imposição das mãos.

Antes de mais poderá ser-nos útil fazer uma referência ao significado da mão ou das mãos no trato do nosso dia-a-dia. Citando um biblista: «A mão simboliza uma ação ou uma obra e encerra a magia do coração; por isso transmite os seus sentimentos. As mãos amam, falam (por gestos) e acariciam, tocam e deixam-se tocar; as mãos tranquilizam e agridem, desejam e repelem; comunicam amor e agressão, serviço e domínio sobre o outro. Por isso a nossa língua [o português] é rica em expressões acerca da mão.

No que se refere a Deus, a mão direita simboliza a proteção, o poder criador e providente, que liberta o seu povoe o acompanha pelo deserto, castigando os inimigos com a mão esquerda para o proteger. As mãos impostas sobre alguém transmitem poder ou o Espírito Santo. As mãos levantadas são símbolo de um coração suplicante que sobe até Deus. No mundo, Jesus tornou-se a mão de Deus Pai estendida a todos os pequeninos e pecadores. Com a sua mão Ele acaricia as crianças, consola os tristes, acolhe e cura os doentes, perdoa os pecadores» – Herculano Alves, ‘Símbolos na Bíblia’, Lisboa: Difusora Bíblica, 2011, p. 205.

Que dizer, então, da imposição das mãos: quantas vezes aparece a expressão na Bíblia? Tem o mesmo significado no Antigo como no Novo Testamento? No uso neotestamentário haverá algo que devíamos recuperar, hoje, na Igreja? Será lícito, correto e oportuno, os leigos recorrerem à imposição das mãos? Haverá ou poderá haver situações não-recomendáveis à imposição das mãos?

 1. No Antigo Testamento encontramos a referência à imposição das mãos em três vertentes essenciais: a transmissão de uma bênção espiritual ou de autoridade (Gn 48,14; Nm 8.10); a confirmação pública de uma bênção espiritual ou autoridade recebida de Deus (Nm 27,18-2-23); um compromisso para com Deus e para um ministério especial (Dt 34,9).  

 2. No Novo Testamento encontramos vinte e uma vezes esta expressão da ‘imposição das mãos’, podendo distinguir quando feita por Jesus (em nove situações) e, posteriormente, pelos discípulos, sendo sete vezes só nos Atos dos Apóstolos… Com efeito, no Novo Testamento encontramos quatro tipos de “imposição de mãos”:  o próprio Cristo manifesta autoridade ao orar e ao abençoar (Mt 19.15; Mc 10.16); na cura de doenças (Mc 16.18; At 28.8); na concessão de dons extraordinários do Espírito Santo  e em especial através do ‘batismo no Espírito Santo’ (At 8.14-20; 19. 1-6); e ainda na solene consagração de homens separados para o serviço na igreja (At 6.6; 13.3; 1 Tm 4.14).  

 3. Dimensão sacramental na imposição das mãos – em todos os sacramentos encontramos referência à imposição das mãos, como forma de comunicação do Espirito Santo, tanto sobre as pessoas, como sobre as coisas. É a designada epiclese. Nos sete sacramentos que temos na Igreja católica em todos encontramos a referência à invocação do Espírito Santo pela imposição das mãos, isto é, a comunicação do poder divino pelo ministério do ministro ordenado. De referir que a ‘ordenação’ do diácono, do padre e do bispo se dá, explicitamente, pela imposição das mãos em silêncio sobre o ordinando (cf. Catecismo da Igreja Católica, n.os 1558 e 1573).   

 4. Referências pastorais do passado e para o presente

Em 1 Tm 5,22, São Paulo faz uma advertência sobre o modo e em que condições se pode fazer a imposição das mãos: «não imponhas as mãos a ninguém precipitadamente, nem te tornes cúmplice de pecados alheios. Conserva-te puro». Esta prevenção pretendia acautelar quanto à possibilidade de ordenar ministerialmente alguém de forma indevida.

Mas não poderá esta mesma advertência ser útil para com algumas ‘quase-vulgarizações’ da imposição das mãos, em círculos onde este modo de proceder se tem vindo a tornar mais habitual? Será tolerável que, por tudo ou quase nada, se recorra à imposição das mãos como acontece em certos grupos eclesiais? Haverá condicionamentos relevantes à imposição das mãos? Terá esta o mesmo valor feita por um eclesiástico ou por um leigo/a, mesmo que dotado, reconhecidamente, de dons e de carismas? Haverá riscos e/ou perigos que devam ser atalhados antes que tenham de ser corrigidos?

De forma sucinta vamos tentar aflorar esta redescoberta de oração, pela imposição das mãos, nos tempos mais recentes, na Igreja católica. Com efeito, pelo acontecimento do novo Pentecostes, que temos estado a viver desde 1967 – data do ‘surgimento’ do Renovamento Carismático na Igreja católica – e como graça também do Concilio Vaticano II, tem – não gostaria de escrever num tempo verbal passado – vindo a crescer a consciencialização da presença, da ação e da condução do Espírito Santo… nas pessoas e nas comunidades, sendo estas renovadas pela conversão daquelas.

Terá de haver um suficiente bom senso – também dito de discernimento – por quem seja solicitado para que se possa impor as mãos, seja em modo de intercessão, seja em modelo de oração no ‘batismo no Espírito’, seja ainda em questões de âmbito espiritual ou mesmo em circunstâncias de índole comunitária e/ou de confiança em situações específicas.

Será sempre de avisada prudência que a imposição das mãos, em contexto católico e de Igreja, não se confunda com gestos nem palavras e tão pouco simulações pouco abonatórias da credibilidade do ato e até do equilíbrio dos diversos intervenientes… A confusão ou a mistura não será de Deus nem abençoada…

Uma breve sugestão, passível de ser critério sério, que haja sempre a presença da Palavra de Deus, pela leitura bíblica, de modo a que seja Deus a intervir e não os meros fatores humanos…a que podemos estar submetidos.

Rezemos uns pelos outros e confiemo-nos à oração mútua e comunitária…mesmo pela imposição das mãos,            

António Sílvio Couto

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Repórter-redator: da estenografia às vírgulas

 


Na recente celebração do ‘dia mundial das comunicações sociais’, o Papa Francisco, numa mensagem cheia de experiência de vida e acautelada pelo zelo de fazermos melhor, como que traçou as linhas de referência disso que, na feitura de um jornal ou de um noticiário radiofónico ou televisivo, poderá caraterizar as funções do repórter e do redator, tanto nas atividades desenvolvidas como no papel de relacionamento com o público – sujeito e/ou objeto – da comunicação.

Isto é tanto mais agravado com um episódio – certamente não será um facto recorrente – que envolveu um repórter sobre umas notas tiradas à velocidade de quem escuta… e que passaram desapercebidas na redação…Esquecidas terão ficado ainda vírgulas na redação de um texto legislativo, que, se tivessem sido incluídas, fariam toda a diferença para a interpretação do pretendido.

Lancemos os dados:

 1. Da mensagem do Papa: «Pensemos no grande tema da informação. Há já algum tempo que vozes atentas se queixam do risco dum nivelamento em «jornais fotocópia» ou em noticiários de televisão, rádio e websites que são substancialmente iguais, onde os géneros da entrevista e da reportagem perdem espaço e qualidade em troca duma informação pré-fabricada, «de palácio», autorreferencial, que cada vez menos consegue intercetar a verdade das coisas e a vida concreta das pessoas, e já não é capaz de individuar os fenómenos sociais mais graves nem as energias positivas que se libertam da base da sociedade. A crise editorial corre o risco de levar a uma informação construída nas redações, diante do computador, nos terminais das agências, nas redes sociais, sem nunca sair à rua, sem «gastar a sola dos sapatos», sem encontrar pessoas para procurar histórias ou verificar com os próprios olhos determinadas situações. Mas, se não nos abrimos ao encontro, permanecemos espectadores externos, apesar das inovações tecnológicas com a capacidade que têm de nos apresentar uma realidade engrandecida onde nos parece estar imersos. Todo o instrumento só é útil e válido, se nos impele a ir e ver coisas que de contrário não chegaríamos a saber, se coloca em rede conhecimentos que de contrário não circulariam, se consente encontro que de contrário não teriam lugar».

Bem observado, tanto mais que, quem anda na rua, vê, enquanto na redação se aveluda ou agrava, conforme até o interesse editorial… Talvez haja muita preguiça no meio da comunicação social, ‘trabalhando’ uns tantos por encomenda e outros usufruindo da repetição quase-acrítica…agora como no passado!  

 2. Em tempos não muito recuados a estenografia fazia parte da preparação de quem ia exercer a profissão de secretariado. A estenografia é uma técnica de escrita com abreviaturas, tendo a finalidade de ser tão rápida como se fala. Quem escreve tem de saber o código no qual se exprime, podendo não ser totalmente entendível por outrem.

Talvez tenha sido isso que aconteceu com uma ‘nota’ pretensamente racista de um jornalista de uma agência noticiosa nos apontamentos tomados sobre uma tal comissão parlamentar de revisão constitucional ao designar uma deputada segundo a coloração da sua tez… Não houve filtro da redação? Deixaram passar por distração ou propositadamente? Parece que o episodio veio mesmo a calhar para o partido da dita deputada, pois, dias antes, um secretário de estado tinha classificado de ‘estrume’ a comunicação de um outro órgão de informação… Por sinal ambos os atingidos de comunicação – agência e televisão – são do mesmo dono…o Estado, servidores, sobretudo, do governo!

 3. A questão da vírgula tem permitido ultrapassar ‘obrigações’ a alguns governantes. O decreto-lei 52/2019 de 31 de julho refere-se ao regime do exercício de funções por titulares de cargos políticos e altos cargos públicos. A questão da vírgula ou não, prende-se com a declaração quanto às contas à ordem… Mais uma subtileza da nossa legislação, propícia a recorrer a gabinetes de advocacia e entretendo-se com minudências, enquanto o povo paga a fatura de não ser habilidoso em matéria judicial.

Honestidade, precisa-se!     

 

António Sílvio Couto