Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

O calote…sempre a crescer

 


Parece fazer parte da nossa identidade nacional, colado à nossa pele, marcando o presente e condicionando o futuro: a dívida que vimos a acumular para com o exterior era, em 2020, de 137,2% do produto interno bruto, contabilizando cerca de 270 mil milhões de euros…

Se atendermos que, em finais de 2019, os números andariam pelos 250 mil milhões de euros, percebe-se que, só num ano, a dívida subiu vinte mil milhões de euros.

Se estes números impressionantes pela negativa juntarmos ainda a capacidade de produção de riqueza, no ano de 2020, poderemos constatar que as cifras são também desastrosas, isto é, passamos de 213 mil milhões de euros, em 2019, para 200 mil milhões no ano transato… e este panorama não inclui a dívida comercial, a dívida das empresas públicas e as dívidas das autarquias…

Estes dados foram fornecidos pelo organismo nacional que superintende estas matérias, o Instituto Nacional de Estatística.

 = Diante destes números cada um de nós poderá e deverá questionar-se sobre o nosso futuro coletivo. Frases como – ‘o país consome mais do que produz’, ‘Portugal está penhorado ao estrangeiro’, ‘cada português deve, ao estrangeiro, quase dezanove mil euros’, ‘para limparmos a dívida precisa, cada português, de trabalhar um ano e quarenta e dois dias’ – ouvem-se e leem-se. Mas seremos todos responsáveis por igual deste estado calamitoso, perigoso e quase-irreversível? A culpa não tem autores ou os custos têm de ser pagos todos por igual? Quem decidiu fazer que pensássemos que somos todos ricos, não terá mais culpa do que o povo simples e ignorante das consequências? Por que será que, quem nos dirige – governar é mais do que gerir e iludir – não ousa falar verdade? Será que os problemas se resolvem atirando dinheiro para cima ou camuflando as razões do descalabro social, económico e quase-cultural? Pela enésima vez estamos a caminho da ‘banca rota’ – e não é a rutura da banca – com os mesmos intervenientes. Quando vamos acordar e sairmos do fosso em que são especialistas em conduzir-nos? Por que será que uma certa ‘esquerda’ é boa a distribuir e nunca a amealhar?

 = É um facto incontestável: o Estado não gera riqueza, embora a tente gerir, mas para isso é preciso que haja produção, estabilidade e confiança entre todos. Ora, pelos anos mais recentes temos visto que, quem diz governar sofre de uma doença congénita: tudo o que não seja estatal é inimigo e deve ser combatido, trucidado e quase-desfeito… seja qual for o setor, mas particularmente aqueles que possam fazer parecer que fornecem regalias sem esforço e bem-estar sem condicionamentos.

Vemos, então, uma razoável maquia de dividendos a serem repartidos por cerca de quinze por cento da população, isto é, os funcionários públicos: temos mais de setecentos mil, disseminados pela administração central ou local, ensino, saúde, segurança (social e pública). O valor de remuneração médio mensal cifra-se em mil e quinhentos euros a que são acrescentados outros subsídios…

 = Em todo este processo de tentativa de compreensão do país, que somos e para onde caminhamos, sinto que há um aspeto que deveria ser melhor cuidado, tanto ao nível pessoal como familiar e até institucional, seja a qual for a instituição. Como fomos/somos educados na e para a poupança? Teremos espírito de esbanjamento ou de subsidiodependência? Já advertimos que o nosso futuro está em risco, se continuarmos a manter o mesmo estilo de vida e de ética?

Tive a felicidade de ser educado numa aprendizagem de saber poupar, dentro de um princípio básico, traduzido em pequenos flashes para o dia-a-dia: não tens não gastas; que não tem dinheiro, não tem vícios; não viver do emprestado; saber honrar os compromissos; não sabemos o dia de amanhã…

Claro que estas notas práticas foram-me comunicadas por quem viveu o racionamento da segunda guerra mundial, de quem sempre quis andar de cabeça levantada sem dever favores e, pior, de ter aprendido que o melhor do nosso património é ser honrado, mesmo que os bens materiais possam escassear. É verdade: o que há de mais salutar é poder pensar pela própria cabeça e de ter meios de valorização que não terminem com o mero prazer materialista…em consumo.

 

António Sílvio Couto

sábado, 30 de janeiro de 2021

Deputados anacrónicos ou mais servidores de ideologias?

 


Sem dramatismos, mas de forma clara e direta: o dia 29 de janeiro de 2021 há de constar nos anais do Parlamento português como uma data de vergonha, de falta de senso e, sobretudo, de luto pela decisão de aprovar a lei que, duma forma prática, legaliza a eutanásia, nem para isso lhe chame de ‘morte medicamente assistida’ ou de ‘antecipação do fim da vida, de forma digna’…

Reagindo de uma forma séria, serena e incisiva, menos duas horas após a façanha, a Conferência Episcopal Portuguesa escreveu e disse: «Os bispos portugueses exprimem a sua tristeza e indignação diante da aprovação parlamentar da lei que autoriza a eutanásia e o suicídio assistido.
Essa tristeza e indignação são acrescidas pelo facto de se legalizar uma forma de morte provocada no momento do maior agravamento de uma pandemia mortífera, em que todos queremos empenhar-nos em salvar o maior número de vidas, para tal aceitando restrições da liberdade e sacrifícios económicos sem paralelo. É um contrassenso legalizar a morte provocada neste contexto, recusando as lições que esta pandemia nos tem dado sobre o valor precioso da vida humana, que a comunidade em geral e nomeadamente os profissionais de saúde tentam salvar de modo sobrehumano
».

 – Se bem que o assunto tenha andado a ser cozinhado nos tempos mais recentes – em fevereiro do ano passado foram aprovados os vários projetos (cinco), em outubro último foi recusada uma petição que solicitava a consulta em referendo – agora foram fundidos os pedaços de arranjo num só, copulativamente dando a aberração legislativa agora saída daquele ninho de lacraus…

 – Se poderia haver uma circunstância mais agravante para não trazer este assunto à liça era esta – como referem os bispos: ‘no momento do maior agravamento de uma pandemia mortífera’ – deixando a perceber que, mais uma vez, o tema serve de fumo de palco para gerar engano aos perdedores da refrega das recentes eleições presidenciais, pois os proponentes dos projetos todos perderam nos seus candidatos… Isto será, minimamente, sério e credível? Ou deveria, antes, ser levado pelo jocoso, se não estivesse tanto em causa para o futuro!

 = De verdade temos de questionar, se os parlamentares são pessoas que sabem interpretar cada tempo ou se não andarão antes ao ritmo de uma tal agenda subterrânea, que emerge conforme lhes dá jeito. De facto, temas que envolvem as questões da vida – aborto, técnicas de reprodução e de consonância com alguma moralidade assente em valores cristãos, relacionamento entre pessoas, processos no final do existir – como que fazem, hoje, a barreira psicológico-emocional para distinguir – sem rotular – quem se fundamenta em critérios do Evangelho ou está contra ele, de forma tácita ou mais explícita.

Vejamos ainda duas citações do comunicado da CEP, sobre o ‘entendimento do sofrimento’ e a compreensão antropológica que configura estas decisões políticas sobre questões éticas: «Não podemos aceitar que a morte provocada seja resposta à doença e ao sofrimento (...) Para além da política legislativa lesiva da dignidade de toda a vida humana, somos confrontados com um retrocesso cultural sem precedentes, caraterizado pela absolutização da autonomia e autodeterminação da pessoa».

Daqui podemos deduzir algumas perguntas, primeiramente para os crentes e, se oportuno, para os demais:  

* Teremos sabido falar do sofrimento e da doença, hoje, com critérios evangélicos ou antes andámos ao sabor da compreensão hedonista-epicurista reinante?

* Uma certa repulsa pela resignação não nos colocou na banalidade das provações, em vez de nos conferir uma leitura daquilo que Deus quer purificar em nós?

* Onde está a espiritualidade do sacrifício – mesmo na eucaristia – que informou tantos dos nossos santos e que deveria fazer-nos celebrá-la, hoje, unindo os nossos sofrimentos à paixão de Cristo?

* Mesmo por entre toda esta pandemia, ainda não nos apercebemos que não somos donos da vida, mas meros administradores?

Desgraçado país que tem, em boa parte, tão inúteis deputados e interesseiros políticos de tão baixa ética!

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Os totalitarismos não serão todos execráveis?

 


«Também este século, que caminha para o seu ocaso, conheceu numerosíssimos mártires, sobretudo por causa do nazismo, do comunismo e das lutas raciais ou tribais. Sofreram pela sua fé pessoas das diversas condições sociais, pagando com o sangue a sua adesão a Cristo e à Igreja ou enfrentando corajosamente infindáveis anos de prisão e de privações de todo o género, para não cederem a uma ideologia que se transformou num regime de cruel ditadura». 

Assim proclamava, em 1998, o Papa João Paulo II, na Bula de proclamação, ‘Incarnations mysterium’ do grande jubileu do ano 2000.
Vem isto a propósito de um incidente ocorrido num programa televisivo, no qual um dos concorrentes, por ocasião de uma ‘prova’ que incluía cantar e representar, teve a infeliz ideia de associar ao ato um gesto conotado com a (apelidada) ‘saudação nazi’
(1)… Segundo ele referiu não sabia o significado nem o alcance histórico daquele gesto, que lhe foi reportado pelos puristas antitotalitários, colhendo, de seguida o fruto de ser expulso, com todas as invetivas de comentadores…para já só televisivos.
E se, em vez daquela referência ao nazismo com o gesto que lhe está associado, fosse usado o ‘punho fechado’
(2), tipificado pelas forças mais de cariz marxista, haveria idêntica sublevação, tanto no programa como nas hostes televisivas? Será que há totalitarismos péssimos, menos maus ou até considerados bons? Já percebemos que os extremos serão sempre fatores de divisão e nunca espaços de concordância?
Uma nota de sensibilidade: terá sido inocente que o caso do concorrente tivesse ocorrido, por ocasião do ‘dia internacional da lembrança do holocausto’, que se comemora a 27 de janeiro?
= Voltamos a usar dados com incidência na área da Igreja católica, citando uma intervenção do Papa Bento XVI, em abril de 2008, por ocasião da visita ao ‘memorial dos mártires do nosso tempo’, na cidade de Roma.”Ouvimos o eloquente testemunho dos que, não só no século XX, mas desde o início da Igreja, ofereceram no martírio a sua vida a Cristo, vivendo no amor…Também este século XXI se abriu sob o signo do martírio”. De seguida o Papa recordou os cristãos “mortos sob a violência totalitária do comunismo, do nazismo, dos mortos na América, na Ásia e Oceania, na Espanha e México”.
Não andaremos a ser manipulados por fautores do totalitarismo, seja qual for a ideologia ou a coloração? A quem interessa branquear os atos de uns e trucidar os gestos de outros? Não haverá muita incongruência intelectual em fazer de alguns vítimas e de outros heróis? Será que a morte tem adjetivos benéficos, se praticada por quem for da nossa simpatia mental e/ou ideológica?
Mesmo que forma sucinta deixamos números que nos devem fazer refletir, envergonhar e, sobretudo, não sermos faciosos ou servidores da mentira quando convém.
Eis situações de vítimas: do nazismo (desde 1932 e em especial na segunda guerra, 1939-1945) – 20 milhões, envolvendo judeus, soviéticos, polacos, ciganos, deficientes, testemunhas de jeová, homossexuais, etc; do estalinismo (1922-1953) – 20 milhões, através de expurgações, extermínios, campos de trabalhos forçados (gulags); de Mao Tsé-tung (1945-1976) – de 50 a 70 milhões, através de expurgos políticos e execuções em massa; outros pequenos ‘ditadores’ foram adotando algumas destas formas ideológicas e para vingarem foram fazendo as suas vítimas, descobertas quando derrubados os sistemas que lhes davam cobertura… Por exemplo: Coreia do Norte, Cuba, Albânia, Venezuela…

Num tempo onde ainda pontificam forças do ‘reviralhado’ parece ser difícil que, quem não alinha pelo seu diapasão, seja aceite como minimamente democrata. Não será isto totalitarismo?
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1. ‘Saudação nazi’ - é uma variação da saudação romana, adotada pelo partido nazista como um sinal da lealdade e de culto da personalidade de Adolf Hitler. Ganhou popularidade concomitantemente com a ascensão de Hitler. Consiste em esticar o braço direito no ar com a palma estendida para baixo. A ‘saudação romana’ é uma saudação em que o braço é levantado para a frente, com a palma da mão para baixo. O braço pode ficar paralelo ao chão ou não – por vezes com o braço mais ou menos erguido. Apesar do nome do gesto, desconhece-se se os romanos o usavam como cortesia militar.
2. ‘O punho erguido/cerrado’ é um símbolo de solidariedade e apoio. Também é utilizado como uma saudação para expressar unidade, força, desafio ou resistência. A saudação parece remontar à antiga Assíria como um símbolo de resistência em face da violência. É usado principalmente pelas forças de ‘esquerda’, marxistas e comunistas…

António Sílvio Couto

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

‘Ficar em casa’, espiolhando a vida alheia?

 


Estamos a viver mais um tempo de confinamento obrigatório. As causas prendem-se com os números astronómicos de infetados e de mortos, pelo ‘covi-19’, no nosso país, respetivamente, mais de quinze mil e quase trezentos… Números que nos colocam na vanguarda negativa da Europa e do mundo.

Diz-se que ‘morre um português em cada cinco minutos’ devido a este maldito vírus, que, entretanto, tem tomado várias mutações, sendo cada uma mais fatal do que outra.

Tem sido complicado convencer uma boa parte da população a conseguir ficar em casa, mesmo que seja essa a forma de controlar com mais eficácia a propagação do vírus, bem como um meio de tentar suster a iminente rutura dos hospitais.

– Quedando-nos pelo cumprimento das normas de confinamento, surge uma questão algo complexa: que fazer em casa, se não há hábitos de controlo sobre as saídas ou se, usando os meios de comunicação (televisão, internet ou telefone), não foi adquirida a contenção nos gastos ou mesmo na moderação do manuseamento?

De muitas e variadas formas os programas televisivos – sobretudo nos ditos canais abertos – da manhã ou da tarde, diariamente ou ao fim-de-semana, vão seduzindo os telespetadores a entrarem nos ‘concursos’ ou auspiciando conquistar prémios. As operadoras de telecomunicações engordam com tais iniciativas e, pé-ante-pé, as pessoas ‘investem’ aquilo que gastariam nos jogos-de-sorte-e-de-azar… na rua. Isto já para não falar nos casinos virtuais e até noutras roletas bem mais viciadoras.

 – Desde há duas décadas que vimos a assistir, muitas vezes de forma quase-acrítica, a programas pretensamente de entretenimento, onde se vai espiolhando a vida dos outros. Sobretudo os dois canais comerciais têm andado em disputa de qual é a reprodução por cá do que mais baixo se importa – qual enlatado de má qualidade – para durante meses ‘prenderem’ os seus espetadores, os anunciantes e, numa palavra, um público sem critérios nem valores… que não sejam os dislates dos concorrentes, as tropelias dos incautos ou mesmo a baixeza moral dos (pretensos) mais ousados.

Entretanto, foi-se apurando isso que, em tempos e com termos mais ruralistas, se chamava ‘espreitar pelo buraco da fechadura’. Agora são as designadas ‘redes sociais’ que fazem esse indiscreto papel. Com maior ou menor regularidade e/ou conhecimento as pessoas tentam saber da vida alheia.

Em círculos mais pequenos sempre houver a intromissão e a maledicência de uns para com os outros. Espaços havia onde era propício e quase-fatídico falar ou ser falado: o lavadouro da aldeia; a soleira da porta, em especial ao sol ou à sombra, conforme a época; a taberna, a tasca ou o café; o adro da igreja ou mesmo certos espaços acrescentados… onde, quantas vezes, se desenterravam mortos e se sepultavam vivos, numa cultura de proximidade, que antes era de conflitualidade…latente ou explícita.

 – Se há quem pretenda ser discreto e passar o mais possível desapercebido, outros como que cultivam o seu contrário, dando tudo o que podem – por vezes é bastante pouco e irrisório – para serem falados, nem que seja pelas piores razões. Admira-me que ainda haja pessoas que submetem àqueles concursos-de-vida-a-descoberto, denunciando-se e sendo denunciados mais pelas fraquezas, banalidades e lacunas do que pela coisas boas, aceitáveis e de bom senso.

Embora cada pessoa procure vivenciar o que lhe faz estar bem enquadrado no meio em que vive, torna-se essencial saber o que se deve dizer ou calar, mostrar ou encobrir, dar a conhecer ou fazer mistério. Deixo neste sentido uma citação bíblica: «tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de edificar; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de se lamentar e tempo de dançar; tempo de atirar pedras e tempo de as ajuntar; tempo de abraçar e tempo de afastar o abraço; tempo de procurar e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora; tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar; tempo de amar e tempo de odiar; tempo para  guerra e tempo para a paz» (Ql 3,1-8). Aprendamos a viver o nosso tempo!

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Sabemos para onde vamos?


 Recordo com vivo interesse um ensinamento apresentado por um norte-americano, há cerca de duas décadas, que dizia: tal como John Wayne, nos seus filmes do far west, de mão em riste, apontado em frente, dizia ‘let’s go’ (vamos), assim João Paulo II, por ocasião do ‘jubileu do ano 2000’ e com a ‘nova evangelização’ estava a dizer à Igreja católica: vamos, em frente, rumo à meta…

Vem isto a propósito – mais por ausência ou falência do que por realidade – daquilo que podemos perceber a falta de quem nos aponte o caminho a trilhar, bem como de uma mensagem mobilizadora de todos.

Nesta partilha – algo inquieta, mas não-ansiosa – vou percorrer alguns campos de intervenção, sem perder de vista, essencialmente, o âmbito eclesial.  

 = Leitura algo preocupada dos resultados das eleições presidenciais

Sendo este ato eletivo mais pessoal do que partidário, vimos figuras um tanto desarticuladas do significado de propaganda, servindo-se da máquina de outras ocasiões; invetivando mais a faceta da ideologia, no sentido governativo do que na consonância da presidência; mais ataques de combate à pessoa, numa espécie de assassínio de personalidade, do que às ideias; recurso a clichés já abandonados no resto da Europa, mas fomentadores de conflitualidade social em arquivo de memória; exaltação mais daquilo que divide do que o que une e congrega…

A maioria dos candidatos teve a resposta que merecia: mínima, insuficiente, nalguns casos ridícula…mesmo que tendo pessoas em volta, não passavam de figuras solitárias e mesmo isoladas. Ficará na memória destas eleições presidenciais, o vencedor a deambular sozinho nas ruas da capital, fazendo tempo e ouvindo os discursos dos vencidos. Mas teremos reconhecido nele um guia das hostes lusitanas para os próximos tempos? Sendo agora ‘presidente’ sê-lo-á ‘para todos’, dado que nem todos nele votaram? Como poderá o reeleito presidente continuar a ser fiel aos seus valores, critérios e propostas, sem esquecer a fé católica que sempre assumiu? Continuará a dar cobertura às tropelias governativas, mesmo as mais esconsas e atentatórias da dignidade das pessoas, sobretudo das que têm iniciativa não-estatais nem estatizantes?

Gostaria de lembrar, no registo da História, estes anos duros de pandemia como tempos de aferição aos valores humanos mais elementares e essenciais!

 = Como servir os homens de hoje, levando-lhes Deus?

Esta é uma preocupação que me parece fundamental para entender o papel, a missão e o compromisso da Igreja católica, particularmente no nosso país. A submissão às diretrizes governamentais, em matéria de gestão da pandemia, quase fez dos cristãos/católicos uns cordeirinhos servidores dos intentos seculares. Em certos momentos fomos mais seguidistas das orientações das autoridades de saúde do que das normas eclesiais: a dispensa da missa dominical, o fechamento (é mais do que encerramento) das atividades pastorais, a suspensão da maioria dos sacramentos, a exclusão de alguns setores sociais das propostas de evangelização… e tantas outras subtilezas cumpridoras das ordens mundanas. Tudo isto se pagará por largo tempo: a ausência das crianças e adolescentes, a acomodação às missas on-line, a desabituação da componente comunitária na prática religiosa… a rutura das finanças das paróquias e dioceses, o excesso de virtualidade das coisas da fé…’à la carte’.

Estaremos a saber servir a mensagem do Evangelho no seu confronto com os problemas que temos e os que nos são colocados? Não teremos descaído na ousadia do anúncio e até esmorecido na dinâmica profética? Não nos inquieta que destes tempos fique um razoável silêncio do nada, como se fosse um vazio? Já começamos a discernir aquilo que Deus nos diz, por entre os seus sinais algo difíceis de compreender?

 = A vida será só economia e finanças?

As medidas propostas, as decisões apresentadas, as regras e os métodos têm privilegiado a ‘economia’, como se ela fosse a resposta para todos os problemas. Desgraçada cultura que se configura pelo material, o materialismo e consumismo. De facto, Deus conta pouco ou quase nada…até para os ditos cristãos!

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

… E o povo falou

 


Acabado que foi o espetáculo – nalguns casos mais triste do que alegre – das ‘eleições presidenciais 2021’ há que recolher as lições, expressadas de variadas formas, com diversos sentidos e, sobretudo, com múltiplas implicações no presente e para o futuro.

Desde já uma nota: mesmo que sufragado com maioria, o presidente não é ‘de todos’ os portugueses, pois uma boa parte – dizem as cifras um tanto erróneas com mais de sessenta por cento – nem votou, e os que se dignaram pronunciar-se, cerca de quarenta por cento, escolheram outros pretendentes. O presidente tem de ser, sim, ‘para todos’ os portugueses, tenham-no ou não plebiscitado…este termo quer ainda dizer que o reeleito foi avaliado sobre os cinco anteriores anos de mandato, logo bem acolhido, aceite e com condições para continuar mais outros cinco anos, assim tenha vida e saúde.

Dos resultados da noite de 24 de janeiro, em que o sábio povo português falou, podemos/devemos tirar as seguintes lições:

* A maioria dos eleitores não se considera extremista nem de esquerda e tão pouco de direita… sejam estes antagónicos aquilo que deles quisermos atribuir-lhes;

* Alguns dos competidores – com largos orçamentos – porque não atingiram cinco por cento dos votos expressos, não recebem comparticipação nos gastos, tendo-os de suportar a expensas próprias ou do partido;

* O chip ideológico parece estar a mudar nalgumas regiões, particularmente no Alentejo, considerado, abusivamente, reduto de certas forças, pois os conotados com a barreira contrária, foram os segundos em todos os distritos…para confusão de certos analistas sócio culturais do sistema;

* Alguém acredita que há, em Portugal, quase meio milhão de xenófobos, de racistas, de populistas ou de extremistas da (dita) direita? De facto, parece ser mais fácil rotular do que combater as ideias; parece mais cómodo ilegalizar do que reconhecer os erros; parece dar jeito ser mais rápido em ver os efeitos do que em encontrar as causas desse fenómeno, que pode ter tanto de emergente quanto de inconsequente;

* Mais do que arietes de regime (republicano, laico e rotulado com fés de antanho), os candidatos deveriam ter sido proponentes de ideias, de valores e de critérios na conduta da política. Com efeito, foi pensoso e quase-desagradável ver um ‘vencedor’ andar às voltas solitário, nas ruas de Lisboa, podendo isso retratar o que não temos visto noutras horas de vitória, onde uns tantos se colam a quem ganha ou se esgueiram quando os seus apaniguados perdem…

= Os próximos tempos – dias, meses e anos – são de uma grande incerteza, dada a configuração da pandemia. Por isso, não podemos descrer da nossa capacidade pessoal e comunitária. As sombrias nuvens que pairam sobre as nossas cabeças precisam de ser aliviadas com serenidade, determinação e unidade. Aos ‘velhos do restelo’ – e são tantos e tão espalhados por aí – talvez lhes reste ficarem nas bordas da praia a lamentarem-se sobre os sucessos alheios. Cuidemos de que possa haver mais justiça com verdade, honestidade com trabalho, competência sem resignação.

À boa maneira do cowboy do far-west do nosso imaginário infantil, que haja um John Wayne – civil, político, religioso ou eclesial – que nos aponte o caminho e diga: ‘let’s go’! Vamos, para a frente é que o caminho!...       

 

António Sílvio Couto

domingo, 24 de janeiro de 2021

Alugar cães para desconfinar

 


A notícia foi dada pelo autarca de Barcelos, que deu nota de que havia naquela cidade quem alugasse cães para permitirem que os ‘donos’ possam sair de casa, por ocasião do confinamento mais recente.

O edil deu ainda referência a que alguns dos animais davam a entender, pelo cansaço manifestado, que seriam obrigados a irem à rua mais do que uma vez por dia…

Numa avaliação desta esperteza – costuma apelidar-se de ‘saloia’, mas aqui foi praticada por minhotos – daqueles concidadãos, o autarca não deixou de estranhar a habilidade, condenando mesmo tais expedientes.

 = Aquando do confinamento do ano passado escrevi (28 de março de 2020):

«De entre as exceções à condição de emergência, em que estamos a viver, sobressai a possibilidade de levar a passear o cãozinho (ou canzarrão) à rua. Essa poderá ser uma razão ou até uma desculpa para infringir o dever de recolhimento para muitas pessoas e uma boa parte de insatisfeitos com aquilo que se está a vivenciar.

Que dizer, então, da confluência de arejamento, quando duas ou três ‘vizinhas’ (ou vizinhos) se encontram à esquina da rua e, colocando os ‘lulus’ (de estima, de companhia ou de substituição) à distância de segurança (pelo menos dois metros), se colocam na conversa – a tal treta – sustida pela trela dos seus argumentos para saírem de casa? Será esta mais uma das habilidades, à portuguesa, para tornear as regras e fazer-de-conta que está tudo normal? Quantas vezes e por quanto tempo se pode usufruir (usar ou abusar) deste regime de exceção por dia? Não andaremos a explorar os animais com os ‘nossos’ descuidos e subterfúgios de ocasião?».

 = Efetivamente somos suficientemente ‘inventivos’ para levarmos a bom termo os nossos intentos, desde os básicos até aos mais complexos, procurando qualquer nesga da regra (lei ou normativa) para por aí exprimirmos a nossa habilidade mais subtil. Isto será uma forma de estar e/ou de desenrascar-se? Será o modo de ser ou uma forma de estar?

Por muito ou pouco cumpridores que nos consideremos, parece que há um quê de rebeldia em cada um de nós…português/portuguesa: subverter a lei emerge com muita facilidade ou com mais regularidade do que seria desejável. É de razoável riqueza o nosso léxico, manifestando este património imaterial da cultura popular. Vejamos algumas dessas expressões mais significativas: esperteza saloia, chico-espertismo, desenrascanço, espírito de improviso, saber safar-se, viver de expedientes…realçando mais as nossas capacidades encobertas do que as possibilidades explícitas dos outros, sejam simples cidadãos ou mesmo autoridades.

Qual o alcance de cada uma destas ‘expressões’ ou palavras? Que revelam elas da nossa identidade pessoal ou nacional? Que manifesta isto da nossa esperteza individual sem menosprezar a inteligência alheia? Até que ponto sabemos tornear as questões sem deixar (quase) nada que nos possa comprometer?

– ‘Esperteza saloia’ tem a ver com a necessidade de defesa de uns tantos, os saloios – cultivadores da terra e sem grande instrução – perante os outros (‘alfacinhas’) ; aqueles usavam de esperteza para vencer a argúcia destes…antecipando-se por habilidade, isto é, enganando antes de virem a ser enganados. O pior é quando os ‘saloios’ (no sentido pejorativo) se multiplicam noutras latitudes…  

– ‘Chico-espertismo’ configura idêntica capacidade de não deixar a descoberto as suas (naturais) debilidades, enfatizando mais aquilo que lhe dá proveito do que é (possível) prejuízo… Segundo alguns momentos de dificuldade, o chico-esperto tenta subverter o que outros aceitam como regra, que ele faz exceção para ser a ‘sua’ regra…até que se venha a descobrir.

 – Desenrascanço/improviso/safar-se – coisas em que o português médio é mais ou menos perito, sobrevoando sobre a concorrência e saindo-se bem sem para isso estar preparado. Dizem que somos bons a safar-nos e nem sempre quando temos de prestar contas, isto é, se as coisas estão mais programadas… Isso era! Também temos capacidade de desenvolver ações previstas, mas temos, por excelência, uma habilidade que suplanta outros povos e até culturas… Até quando?     

 

António Sílvio Couto