Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



domingo, 10 de abril de 2022

Centurião: reconhecer, adorando

 


Este oficial romano reconhece Jesus como Filho de Deus. Mais do que uma formalidade temos uma confissão de que Jesus continua a interpelar todos, mesmo as autoridades...

«Ao ver o que se passava, o centurião deu glória a Deus, dizendo: «Verdadeiramente, este homem era justo!» (Lc 23, 47); «O centurião e os que com ele guardavam Jesus, vendo o tremor de terra e o que estava a acontecer, ficaram apavorados e disseram: «Este era verdadeiramente o Filho de Deus!» (Mt 27,54); «O centurião que estava em frente dele, ao vê-lo expirar daquela maneira, disse: «Verdadeiramente este homem era Filho de Deus!» (Mc 15,39).

Esta confissão do centurião romano só nos aparece nos evangelhos sinóticos.

Os evangelhos sinóticos caraterizam a morte de Jesus na cruz como um acontecimento cósmico e litúrgico: o sol escurece (1), o véu do templo rasgou-se (2), a terra estremece e os mortos ressuscitam (3)
Mas, mais importante do que o sinal cósmico é um processo de fé, que se desenvolve diante e em consonância com tudo isso: o centurião – comandante do pelotão romano da execução da morte de Jesus – abalado com tudo isso reconhece que Jesus é o Filho de Deus (4). Junto da cruz de Jesus, a partir daquela morte tão especial e interpelativa, tem início a Igreja dos pagãos, isto é, espargindo da cruz de Jesus, o Senhor reúne os homens para a nova comunidade da Igreja universal (5)…O centurião romano convertido torna-se presença e sinal de tantos outros ‘pagãos’ e ‘gentios’, que abrirão o cristianismo à universalidade de todos os tempos e lugares.
Que lições de vida – simples e concreta, humana e cultural, aberta e fecunda – podemos colher desta revelação ao centurião e deste ao mundo de hoje? Depois das provações da pandemia, qual é o Deus que vemos e que reconhecemos? De verdade, não vai ficar tudo igual.

Eis um excerto de uma audiência do Papa Francisco, quando ainda estávamos a tatear sobre o entendimento da recente pandemia.
«O povo, depois de ter acolhido Jesus triunfantemente em Jerusalém, perguntou-se se ele finalmente o libertaria dos seus inimigos (cf. Lc 24, 21). Esperavam um Messias poderoso, triunfante, com uma espada. Em vez disso, chega um manso e humilde de coração, convidando à conversão e à misericórdia. E foi a precisamente multidão que o tinha aclamado quem bradou: «Seja crucificado!» (Mt 27, 23). Aqueles que o seguiam, confusos e assustados, abandonaram-no. Eles pensaram: se este é o destino de Jesus, não é Ele o Messias, porque Deus é forte, Deus é invencível.
(...) Quando Jesus morre, o centurião romano que não era crente, não era judeu, mas pagão, que o tinha visto sofrer na cruz, o tinha ouvido perdoar a todos, que tinha constatado o seu amor sem medida, confessa: «Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus» (Mc 15, 39). Ele diz exatamente o oposto dos outros. Ele diz que Deus está ali, que é verdadeiramente Deus.
Hoje podemos perguntar-nos: qual é a verdadeira face de Deus? Normalmente projetamos n’ Ele aquilo que somos, até ao limite do nosso poder: o nosso sucesso, o nosso sentido de justiça e até a nossa indignação. Mas o Evangelho diz-nos que Deus não é assim. Ele é diferente e nós não O podíamos conhecer com as nossas próprias forças. Foi por isso que ele se aproximou de nós, veio ao nosso encontro e precisamente na Páscoa se revelou completamente. E onde é que ele se revelou completamente? Na cruz. Nela aprendemos os traços do rosto de Deus. Não esqueçamos, irmãos e irmãs, que a cruz é a cátedra de Deus» (6).

1. Sol eclipsado, expressão da linguagem apocalíptica (Is 13,10). Outro sinal da importância da morte de Jesus na História da Salvação foi o rasgar do véu do templo, que separava o Santo dos Santos do resto do santuário (Ex 26,33.36-37); era presságio do fim do templo e anúncio da entrada dos pagãos na salvação (1,95). Vide nota a Lc 23,41, na Bíblia Sagrada dos capuchinhos.
2. O véu do templo rasgou-se. O Santo dos Santos era a parte mais recôndita do templo e morada de Deus. O rasgar da cortina que resguardava este lugar significa que a Aliança antiga cede lugar à nova, de livre e fácil acesso à divindade, mediante Jesus Cristo que é, ao mesmo tempo, o rosto humano de Deus e o companheiro amigo das pessoas (Mt 27,51-53; Lc 23,45). Vide nota a Mc 15,38 na Bíblia Sagrada dos capuchinhos.
3. Se por véu do templo se entende a cortina que separava o pátio do templo propriamente dito, quer dizer que a morte de Jesus permite o acesso dos pagãos à presença de Deus; se se entende a cortina que separava o lugar sagrado do Santo dos Santos, então a morte de Jesus significa o fim do sacerdócio da Antiga Aliança (Ex 26,31-375. Jr 31,31-37; Ez 16,59-60. Os elementos descritivos dos v.51-53 faziam parte das profecias tradicionais que anunciavam o dia do julgamento final (9,37; 24,28). Vide Nota a Mt 27, 51-53, na Bíblia Sagrada dos capuchinhos.
4. O título de Filho de Deus, atribuído a Jesus no começo do Evangelho (1,1), é significativamente proclamado pelo centurião no momento supremo da morte; esta aparece como selo de garantia, prova certa de que Jesus de Nazaré é verdadeiramente o Messias anunciado. Nesta declaração do militar romano, se não é claro que ele afirme a filiação divina, é, pelo menos, inegável que reconhece o carácter sobre-humano de Jesus. Com o centurião, representante dos não judeus, cumpre-se a palavra de Jesus: o Reino de Deus será dado aos gentios, a um novo povo (12,9; Mt 21,43). Vide nota a Mc 15,9, na Bíblia Sagrada dos capuchinhos.
5. Cf. Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré – da entrada em Jerusalém até à Ressurreição, p. 183.
6 Cf. Papa Francisco, ‘Audiência geral’, Palácio apostólico, 8 de abril de 2020.



António Sílvio Couto

sábado, 9 de abril de 2022

Ladrões (‘bom’ e ‘mau’) crucificados: arrependimento ou revolta?

 


Um diálogo difícil e tenso entre dois condenados à mesma crucifixão…com Jesus. Em qual dos condenados me revejo mais: no revoltado ou no que se arrependeu?

«39 Ora, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-o, dizendo: «Não és Tu o Messias? Salva-te a ti mesmo e a nós também.» 40 Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: «Nem sequer temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? 41 Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo que as nossas ações mereciam; mas Ele nada praticou de condenável.» 42 E acrescentou: «Jesus, lembra-te de mim, quando estiveres no teu Reino.» 43 Ele respondeu-lhe: «Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso» (Lc 23, 39-43).

Neste diálogo aparece mais uma das ‘sete palavras de Jesus na Cruz’, sendo um texto específico do evangelho de São Lucas. Contemplando este quadro da paixão de Jesus podemos entrar mais humilde e verdadeiramente no nosso processo de conversão, que nunca estará acabado, como podemos ver pelo percurso deste ‘ladrão arrependido’, que consegue ser o primeiro santo a ser canonizado, pelo próprio Jesus, no mesmo dia em que morreu (1).
Reparemos, por momentos, para as atitudes dos ‘dois supliciados’, que enquadram Jesus na crucifixão: um revolta-se, reivindica, insulta: «Não és Tu o Messias? Salva-te a ti mesmo e a nós também» (v. 39). Como que pretende que Jesus subverta a sua missão, salvando a si mesmo e não sendo o salvador dos outros, como diz o seu nome – Jesus: ‘Deus salva’. Estamos num contexto idêntico aos da tentações no deserto, onde Jesus foi provocado a fazer algo em seu favor e não a atender ao bem dos outros…
O outro supliciado toma a atitude contrária: para além de reconhecer o mal que fez, pedindo perdão, coloca Jesus no seu patamar humano, sem pretender igualar-se a Ele, pelo contrário, reconhece que Ele é de uma instância superior, suplicando-lhe que o aceite no seu reino. A este comummente chamamos de ‘ladrão arrependido’
«A segunda palavra de Jesus na Cruz, citada por são Lucas, é de esperança, é a resposta ao pedido de um dos dois homens crucificados com Ele. Diante de Jesus, o bom ladrão toma consciência de si mesmo e arrepende-se, compreende que está diante do Filho de Deus, que torna visível a Face do próprio Deus, e pede-lhe: «Jesus, lembra-te de mim quando estiveres no teu reino» (v. 42). A resposta do Senhor a este pedido vai muito além da súplica; com efeito, Ele diz: «Em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso» (v. 43). Jesus está consciente de entrar diretamente em comunhão com o Pai e de reabrir ao homem o caminho para o Paraíso de Deus. Assim mediante esta resposta dá a esperança firme de que a bondade de Deus pode tocar-nos até no último instante da vida, e a prece sincera, mesmo após uma vida errada, encontra os braços abertos do Pai bom, que espera a vinda do filho» (2).

1. O episódio, próprio de Lc, mostra o interesse do Evangelista pelas cenas de conversão (7,36-50; 19,1-10; At 9,1-25; 10; 16,14-15.29-34). Dignidade real com que Jesus aparecerá revestido, como fruto do seu mistério pascal (24,26). Lc põe na boca do malfeitor arrependido uma oração de verdadeiro discípulo. Para os judeus, o ‘paraíso’ tratava-se do lugar onde os justos aguardavam a ressurreição (16,22-31.22). Nota a Lc 23, 40-43, na Bíblia Sagrada dos capuchinhos.
2. Cf. Bento XVI, ‘Audiência geral’, 15 de fevereiro de 2012.


António Sílvio Couto

sexta-feira, 8 de abril de 2022

Tumulação ou sepultamento…nunca enterro


 Há expressões recorrentes, nalguma linguagem religiosa, mesmo em contexto católico de semana santa, que não estão adequadas à realidade teológica e espiritual. Uma dessas expressões é: ‘enterro do Senhor’, que poderá caraterizar uma certa devoção, na sexta-feira santa, ao fazer uma procissão como se fosse o enterrar de Jesus, numa alegoria à sua sepultura.

Pessoalmente deixa-me um amargo psicológico ver pessoas que vão ao ‘enterro do senhor’, mas ignoraram todas as outras celebrações anteriores, como a ‘adoração da cruz’ ou mesmo iniciativas de índole pessoal ou comunitária, como a via-sacra ou momentos litúrgicos relevantes da paixão-morte do Senhor.

Pior ainda quando vejo participantes em conversa pegada ao longo da dita ‘procissão do enterro’, isto para não repudiar os tocantes da banda, que quando não executam as ‘peças’ musicais se entretém perturbando com barulho menos adequado…

1. Em passagem alguma dos textos bíblicos se diz que Jesus foi enterrado – colocado na terra – mas antes colocado num túmulo – daí tumulação – ou sepultado – decorrendo sepultamento – de Jesus após a sua trágica morte de crucificado. Pior ainda: os enterros a que vamos são irreversíveis, isto é, o morto não sairá de lá, muito menos com vida. Ora Jesus foi colocado no túmulo (cf. Lc 23,53) na esperança da ressurreição, confirmada pelo túmulo vazio e as manifestações d’O ressuscitado. Continuar a usar uma linguagem incorreta pode induzir em erro e, sobretudo, num faz-de-conta que não se passou com Jesus…

 2. Embora possa ser (infelizmente) atrativo de algum ‘folclore’ religioso, seria de razoável proporção – além de explicar que a expressão está fora do espírito católico de fé celebrada e vivida – ir banindo das ‘cerimónias’ populares algo que contradiz a nossa fé mais básica e essencial. Precisamos de encontrar – usando os meios atuais de comunicação – novas formas de ocupar esse espaço de expetativa entre a adoração da cruz e a celebração da vigília pascal, com as suas quatro liturgias – da luz, da palavra, batismal e eucarística. Por que não ler e meditar, refletir e interiorizar os textos do sepultamento em condições que nos permitam rezar, mais do que desfilar pelas ruas em caminhada de entretenimento… como vi nalguns momentos da (dita) procissão do ‘enterro do senhor’? Por que não darmos mais espaço à interioridade do que às coisas tradicionais mais ou menos anódinas, repetitivas e insossas de fé e de compromisso?

 3. Para quem ainda promove as ‘cerimónias da semana santa’ – seja lá onde for e com que objetivos – talvez seja chegada a hora de questionar quem a elas vai ou mesmo quem nelas participa. Onde estão os jovens? Não foram para as ‘viagens de finalistas’, deixando a descoberto o lugar nas assembleias de domingo a que ainda vão, às vezes? Por que sairão tantos portugueses para as tais ‘férias de páscoa’, trocando os locais celebrativos por espaços de veraneio? Não andaremos a engordar a religião, depreciando os sinais centrais do cristianismo? Agora que a pandemia parece dar indícios de menor incidência, como poderemos criar condições para fazer melhor e mais conscientemente o que devíamos já ter feito?

 4. Sacudidos pela indiferença fortemente promovida, alimentada ou quase-incentivada pela pandemia precisamos de encontrar novas formas de celebrar os mistérios pascais, limpando teias de comodidade ou mesmo rituais sociais gastronómicos, pois que significará ‘comer o cabrito (ou o cordeiro)’, se ele não representa mais do que uma iguaria desta época? Qual o alcance da doçaria – profusa e simbólica – se ela não significar a terra prometida dada a um povo que passou das trevas para a luz? Haja verdade e não aproveitamento consumista!

 5. Afinal, a Páscoa não se reduz à visão castrante de ‘ovos-e-coelhos’ de chocolate (ou em papel pintado), mas antes vida nova em Deus, celebrada na comunhão da Igreja! A Páscoa é, acima de tudo, a festa da vida, não da rastejante e sem saída, mas da verdadeira porque fundada sobre a vitória de Jesus sobre a morte e o pecado…para sempre!     

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Das imagens de guerra à guerra das imagens

 Desgraçadamente somos a toda-a-hora-e-momento metralhados com imagens de guerra, tanto da invasão russa à Ucrânia como de outros conflitos exibidos nas televisões e noutros meios de difusão noticiosa…nessa espécie de guerra de audiências, com a cativação de espetadores e, sobretudo, numa manipulação dos públicos. Deste modo a imagens de guerra tem-se tornado também guerra de imagens, onde nem sempre se saberá o que é verdadeiro ou aquilo que nos querem impingir por estratégia de comunicação…

 1. Decorridos quase quarenta dias do conflito ucraniano-russo começamos a ver imagens inconcebíveis: mortos às centenas, destruição irremediável, prejuízos irreparáveis…pessoas em fuga, combatentes em estado de confronto, situações ignóbeis a toda a classificação. De facto, o homem é lobo do homem, deixando emergir, em força e sem controlo, o que há de mais animalesco, primário ou selvático. Aquelas imagens de guerra são a pior amostra do ‘caim’ que há em cada ser humano… As vidas ceifadas clamam por justiça diante de Deus!

 2. Os órgãos de comunicação como que se deleitam com o espetáculo com que se entretém a difundir. Dizem que as imagens são violentas, suscetíveis de melindrar os mais vulneráveis, mas mesmo assim gastam horas e horas em emissão. Se dúvidas houvesse de que a comunicação social é servidora do mal, os tempos mais
recentes se encarregam de confirmar o estado doentio da nossa sociedade. Com tantos abutres a farejar a morte podemos perceber que este tabu foi destronado, mas não foi ultrapassado…Não se justifica que as televisões portuguesas tenham enviado repórteres especiais à Ucrânia. Não se justifica que se gastem tantos meios e recursos para dar cobertura a coisas tão nefastas e sem nexo…para pessoas equilibradas, sensatas e humanamente respeitadoras da dor alheia.

 3. Foi um corrupio aquele que vimos desenvolver-se para acudir – nos primeiros dias – aos milhões de deslocados/refugiados procedentes da Ucrânia. Meios e campanhas de socorro apareceram em vários pontos do país, num vai-e-vem de levar coisas e de trazer pessoas. Se aquelas foram sendo distribuídas, estas (as pessoas, sobretudo, mulheres e crianças) chegaram aos milhares – dizem que mais de quinze mil. Muitos foram para casas de familiares, já por cá residentes e uns tantos vieram mais à deriva.

Passado um primeiro impacto de simpatia, torna-se essencial dar passos de boa organização, criando as condições suficientes para que se cuide de quem nos procura, muito para além das prestações materiais, sem nunca esquecer que estas pessoas deslocadas merecem respeito na sua integridade psicológica e espiritual. Podem não saber a (nossa) língua, mas entendem a linguagem, essa universal da boa-fé, da sinceridade e mesmo da simpatia bem manifestada.

Certas iniciativas de algumas entidades ‘oficiais’ – de autarquias e do governo central/centralista – mais parecem tendências para aparecer nalguma foto de propaganda do que para serem projetos em ordem a dinamizar, seja quem for, os de lá ou de cá!...

4. Neste como noutros momentos de acutilância humana e de fragilização das pessoas aparece pouco, de forma clara, a referência a Deus. Veja-se a forma algo sobranceira como foi tratado o momento de consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria, que ocorreu no passado dia 25 de março. Para alguns parecer situar-se o assunto na esfera de menos interessante, senão mesmo lateral. Como se a paz não fosse um dom divino! Até um largo setor católico primou pela ausência e pela indiferença pessoal e comunitária. Não tivesse o Presidente da República trazido o assunto para a luz da memória, pela sua presença no ato decorrido no santuário de Fátima, e nem numa nota de rodapé mereceria…

 5. Se o Presidente-comediante, Zelensky se tem comportado como um herói, os cidadãos do Ocidente mais parecem palhaços de feira em maré de saldos, tal a inoperância e a falta de bom senso ético e cultural! Se os ucranianos merecem respeito e admiração, muitos outros povos deixaram a nu a falta de sentido de nação!        

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 5 de abril de 2022

Critérios de discernimento, ontem como hoje


 «E, agora, digo-vos: não vos metais com esses homens, deixai-os. Se o seu empreendimento é dos homens, esta obra acabará por si própria; mas, se vem de Deus, não conseguireis destruí-los, sem correrdes o risco de entrardes em guerra contra Deus» (At 5, 38-39). Esta citação coloca-nos perante uma observação do fariseu, doutor da Lei, Gamaliel, a propósito da ‘nova religião’, que estava a emergir entre o povo judeu e que viria a ser designado de ‘cristianismo’. Este eminente membro do sinédrio dava aos seus pares um conselho, que, ainda hoje, está atual como critério de conduta, tanto ao nível comunitário como pessoal.

1. Quem é Gamaliel?
O nome ‘Gamaliel’ significa ‘Deus me fez bem’, é um fariseu, doutor da Lei e apresentado como mestre de Paulo (cf, At 22,3), que o terá educado e instruído, sendo ainda apresentado como um seguidor de uma linha menos rigorista da Lei...

2. Linhas da sua intervenção:
* Advertências sobre situações do passado sobre dois revolucionários, anteriores a Jesus:  Teudas chegou a ter cerca de quatrocentos seguidores, prometendo, como Josué, fazer passar o Jordão a pé enxuto; foi liquidado e todos os seus partidários foram destroçados e reduzidos a nada; Judas, o galileu, nos dias do recenseamento (esse que levou Jesus a nascer em Belém, Lc 2,1-2), arrastou o povo atrás dele, morreu, igualmente, e todos os seus adeptos foram dispersos.
* Proposta preventiva: «não vos metais com esses homens, deixai-os. Se o seu empreendimento é dos homens, esta obra acabará por si própria; mas, se vem de Deus, não conseguireis destruí-los, sem correrdes o risco de entrardes em guerra contra Deus» (vv. 38-39).
* Consequências: foi atenuado o castigo aos discípulos, que, embora açoitados por causa do Nome de Jesus, isso lhes provocou motivo de grande alegria por serem dignos de sofrerem por Ele.

3. Qual o alcance daquela proposta de Gamaliel? Que lições podemos colher para nós, como Igreja e pessoalmente? Teremos vivido suficientemente à luz desta sugestão - diga-se inspirada - nas nossas coisas do dia-a-dia e com maior significado na nossa vida?
Gamaliel deixou-nos um sublime critério de avaliação daquilo em que nos metemos: se é de Deus ou não. Não percamos ainda de vista que os apóstolos, depois de terem sido mais uma vez aprisionados, tinham dito ao Sinédrio: «importa mais obedecer a Deus do que aos homens» (At 5, 29). Por isso, Gamaliel faz-se eco dessa leitura mais profunda das coisas humanas: quem conduz - Deus ou os interesses mundanos?
Este critério de Gamaliel pode ser chave de leitura de tantas questões ao longo da História da Igreja. Com efeito, pensemos em tantos projetos políticos, em grandes impérios, nas ditaduras do século vinte (nazismo, comunismos, socialismos ou maoísmo), que pensaram que iriam dominar o mundo e caíram. Pensemos nos impérios de hoje, também eles cairão, se Deus não estiver presente, porque a força humana não é duradoura...
«Pensemos na história dos cristãos, também na história da Igreja, com tantos pecados, com tantos escândalos, tantas coisas ruins nesses dois milénios. E por que não caiu? Porque Deus está nela. Somos pecadores e também tantas vezes causamos escândalos. Mas Deus está connosco. E Deus nos salva primeiro, e depois a eles; mas o Senhor sempre salva. A força é “Deus connosco”. Gamaliel demonstra, citando alguns personagens que haviam se apresentado como Messias, que todo projeto humano pode primeiro ter êxito e depois naufragar. Portanto, Gamaliel conclui que, se os discípulos de Jesus de Nazaré acreditavam em um impostor, eles estavam destinados a desaparecer no nada, mas eles seguiam alguém que vem de Deus, é melhor desistir de combatê-los e adverte: “para que não aconteça de serdes também achados combatendo contra Deus ” (At 5,39). Ele nos ensina a fazer esse discernimento» (Papa Francisco, ‘Audiência geral’, Praça de S. Pedro, 18 de setembro de 2019).

Não deixemos que a sedução do efémero nos fascine, pois seremos vencidos como tantos outros...

 

António Silvio Couto

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Soldados romanos: rudeza desculpável?


Os soldados um tanto insensíveis a Jesus como que se divertem com as provocações que lhe fazem... Quantas vezes Jesus é menosprezado por ignorantes sobre a sua identidade e a sua divindade.

«36 Os soldados também troçavam dele. Aproximando-se para lhe oferecerem vinagre, 37 diziam: «Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!» 38 E por cima dele havia uma inscrição: «Este é o rei dos judeus» (Lc 23, 36-38).

Depois da sensibilidade humana, espiritual e cultural das mulheres como que somos confrontados com outras atitudes bem mais agrestes e quase-insensíveis, por parte dos soldados e não só.
Aqui entra um aspeto nem sempre incluído de forma clara no processo da paixão de Jesus: os momentos de troça, em que Jesus é escarnecido ou mesmo agredido (física, psicológica e espiritualmente)…em diversas circunstâncias, por vários intervenientes e com diferentes significados. Jesus é troçado ou escarnecido pelos trocistas que passavam, quando foi crucificado e O provocavam a descer da cruz – cf. Mc 15, 29-30; pelos membros do sinédrio, ‘salvou os outros e não pode salvar-se a si mesmo’ – cf. Mt 27, 42-43; por um dos salteadores, crucificado com Ele – cf. Lc 23, 39 (1).
Fixemos a nossa atenção nos soldados romanos e, para além da troça com que maltrataram Jesus, os textos dos evangelhos incluem um elemento que pode acrescentar ainda mais à rudeza para com Jesus. Como recordo neste ponto uma observação de um professor de cristologia, há mais de quatro décadas, quando falávamos da sensibilidade ultra-fina de Jesus, dada a sua divindade, que nos referia que qualquer pequena ofensa ou indelicadeza teria em Jesus um agravo ainda maior, tal era a sua delicadeza humana, tanto psicológica como espiritual!
Dizem os textos que, para atenuar as agruras do sofrimento, lhe ofereceram: ‘vinagre’ (Lc 23, 36b); ‘vinho misturado com fel’ (Mt 27, 34); ‘vinho misturado com mirra’ (Mc 15, 23); ‘ensopando o vinagre na esponja fixada num ramo de hissopo, levaram-lha à boca’ (Jo 19, 29) (2). Ora, a complementar este gesto de alguma ‘compaixão’ para com aquele condenado, aparece esse outro de razoável rudeza que é o despojamento e as sortes deitadas sobre as suas vestes. A divisão das roupas por parte dos soldados parecia ser algo corrente quase como um direito dos carrascos (cf. Jo 19, 23-24), mas a túnica foi sorteada e não dividida…
Neste contexto onde estão inseridos os soldados romanos encontramos várias das palavras de Jesus na Cruz: ‘Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem’ (Lc 23,34);
‘Meu Deus, meu Deus porque me abandonaste?’ (Mt 27, 46; Mc 15, 34);
‘Tenho sede’ (Jo 19, 28);
‘Tudo está consumado’ (Jo 19, 30)…
«Quando chegou a Hora em que cumpriu o desígnio de amor do Pai, Jesus deixa entrever a profundidade insondável da sua oração filial, não só antes de livremente Se entregar («Abbá... não se faça a minha vontade, mas a tua»: Lc 23, 42), mas até nas suas últimas palavras já na cruz, onde orar e dar-Se coincidem: «Perdoa-lhes, ó Pai, pois não sabem o que fazem» (Lc 23, 34); «em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso» (Lc 23, 43); «Mulher, eis aí o teu filho» [...] «eis aí a tua mãe» (Jo 19, 26-27); «tenho sede!» (Jo 19, 28); «meu Deus, por que Me abandonaste?» (Mc 15, 34) (56); «tudo está consumado» (Jo 19, 30); «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lc 23, 46), até ao «grande brado» com que expira, entregando o espírito» (3).

1. Cf. Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré – da entrada em Jerusalém até à Ressurreição, pp. 172-174.
2. Ao ser apresentada aos condenados uma bebida inebriante, a junção de fel tornava-a intragável. Mt põe em evidência a consciência e liberdade de Jesus (Sl 69,22) - Nota a Mt 27,34 na Bíblia Sagrada (dos capuchinhos). Vide Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré – da entrada em Jerusalém até à Ressurreição, pp. 178-179.
3. Cf. Catecismo da Igreja Católica, 2605.


António Sílvio Couto

sábado, 2 de abril de 2022

Mulheres no caminho do Calvário: compaixão para a conversão

 


A compaixão move a estarmos em comunhão com o sofrimento dos outros... ao perto ou ao longe. Verónica e Maria, mãe de Jesus, estariam, certamente, entre estas mulheres no caminho do Calvário. Neste novo quadro da via-sacra somos confrontados com a sensibilidade feminina. Ainda a sentiremos, hoje? Não estará em crise ou em decréscimo, para não dizer, em descrédito?  


«27 Seguiam Jesus uma grande multidão de povo e umas mulheres que batiam no peito e se lamentavam por Ele. 28 Jesus voltou-se para elas e disse-lhes: «Filhas de Jerusalém, não choreis por mim, chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos; 29 pois virão dias em que se dirá: ‘Felizes as estéreis, os ventres que não geraram e os peitos que não amamentaram.’ 30 Hão de, então, dizer aos montes: ‘Caí sobre nós!’ E às colinas: ‘Cobri-nos!’ 31 Porque, se tratam assim a árvore verde, o que não acontecerá à seca?» 32 E levavam também dois malfeitores, para serem executados com Ele» (Lc 23, 27-32).

Este é um texto próprio e específico do evangelho de São Lucas, evocando Zc 12,10-14: «Mas derramarei sobre a casa de David e sobre os habitantes de Jerusalém um espírito de benevolência e de súplica. Eles contemplarão aquele a quem transpassaram; chorarão por ele como se chora um filho único e lamentá-lo-ão como se lamenta um primogénito».
Como é possível que alguém, em extremo sofrimento – como esse que Jesus estava a viver há mais quinze horas ininterruptas e quase física e psicologicamente exausto – ainda consegue citar textos da palavra das Escrituras? Algo de muito forte O percorria e Lhe dava tal força e capacidade de leitura de tudo em ver em Deus!
Nas palavras que dirige às mulheres de Jerusalém, que O lamentam e por Ele se compadecem, Jesus cita Os 10, 8: «3Hão de, então, dizer aos montes: ‘Caí sobre nós!’ E às colinas: ‘Cobri-nos!’», dando o evangelista uma interpretação daquele momento trágico que era vivido.
Segundo a tradição há – no desenrolar da via-sacra – a intervenção específica de duas mulheres – para além ou inseridas neste conjunto de ‘mulheres piedosas de Jerusalém’ – Maria, mãe de Jesus e Verónica: quer uma quer outra exemplificam, o mais corretamente possível, as atitudes de compaixão registadas pelas mulheres de Jerusalém. Se bem que o evangelista São João (1) coloque Maria e outras mulheres junto da cruz de Jesus (cf. Jo 19, 25-29), não vemos referência alguma à sua presença, claramente, no caminho do Calvário. Será esquecimento ou temos de encontrar algo mais profundo no modo com que João nos querer falar? Seria possível incluir Maria na via dolorosa sem nos desviarmos do essencial? Atendendo a que dos discípulos não temos referência alguma – todos fugiram, à exceção de João – não deixa de importante que vejamos a presença de algumas mulheres no caminho do Calvário.

Antes de mais: Maria, a mãe de Jesus, terá estado presente naquele momento trágico do caminho do Calvário (4.ª estação). De que forma, não saberemos, mas podemos supor na medida em que conheceremos o coração de uma mãe.
Deixamos, numa espécie de interpretação maternal, aquilo que o Papa emérito Bento XVI nos deixou através de orações alusivas ao caminho da cruz:
«Na Via-Sacra de Jesus, aparece também Maria, sua Mãe. Durante a sua vida pública, teve de ficar de lado para dar lugar ao nascimento da nova família de Jesus, a família dos seus discípulos. Teve também de ouvir estas palavras: «Quem é a minha Mãe e quem são os meus irmãos? (…) Todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe» (Mt 12, 48.50). Pode-se agora constatar que Ela é a Mãe de Jesus não só no corpo, mas também no coração. Ainda antes de O ter concebido no corpo, pela sua obediência concebera-O no coração. Fora-Lhe dito: «Hás de conceber no teu seio e dar à luz um filho (…) Será grande (…) O Senhor Deus dar-Lhe-á o trono de seu pai David» (Lc 1, 31-32). Mas algum tempo depois ouvira da boca do velho Simeão uma palavra diferente: «Uma espada Te há de trespassar a alma» (Lc 2, 35). Deste modo ter-Se-á lembrado de certas palavras pronunciadas pelos profetas, tais como: «Foi maltratado e resignou-se, não abriu a boca, como cordeiro levado ao matadouro» (Is 53, 7). Agora tudo isto se torna realidade. No coração, tinha sempre conservado as palavras que o anjo Lhe dissera quando tudo começou: «Não tenhas receio, Maria» (Lc 1, 30). Os discípulos fugiram; Ela não foge. Ela está ali, com a coragem de mãe, com a fidelidade de mãe, com a bondade de mãe, e com a sua fé, que resiste na escuridão: «Feliz daquela que acreditou» (Lc 1, 45). «Mas, quando o Filho do Homem voltar, encontrará fé sobre a terra?» (Lc 18, 8). Sim, agora Ele sabe-o: encontrará fé. E esta é, naquela hora, a sua grande consolação.
- Santa Maria, Mãe do Senhor, permanecestes fiel quando os discípulos fugiram. Tal como acreditastes quando o anjo Vos anunciou o que era incrível – que haverias de ser Mãe do Altíssimo – assim também acreditastes na hora da sua maior humilhação. E foi assim que, na hora da cruz, na hora da noite mais escura do mundo, Vos tornastes Mãe dos crentes, Mãe da Igreja. Nós Vos pedimos: ensinai-nos a acreditar e ajudai-nos para que a fé se torne coragem de servir e gesto de um amor que socorre e sabe partilhar o sofrimento» (2).

Outra figura, digamos da piedade popular, é Verónica – ‘vera icone’, isto é, verdadeiro rosto – surge na longa tradição do cristianismo como aquela que rompeu por entre a multidão e os soldados para ir limpar o rosto ensanguentado e a cabeça coroada de espinhos de Jesus. Em reconhecimento desta ousadia – diz a tradição – ficou impresso no lenço o verdadeiro rosto de Jesus. Em contraste – alguma brutalidade – com aquilo que veremos dos soldados, podemos observar a delicadeza (feminina, humana e espiritual) dessa mulher que ficou registada para sempre na memória do cristianismo.
Deixamos uma interpretação do Papa João Paulo II sobre esta figura da Verónica (5.ª estação), tanto sobre o passado, como para o presente e na dinâmica do futuro.
«A tradição fala-nos da Verónica. Talvez aquela complete a história do Cireneu. Na verdade, embora - mulher que era - não tenha levado fisicamente a Cruz nem a isso tenha sido forçada, o certo é que esta Cruz com Jesus, ela a levou: levou-a como podia, como lhe era possível fazer naquele momento e como lho ditava o coração, isto é, enxugando o seu Rosto.
A explicação deste facto, referido pela tradição, parece fácil também: no lenço com que ela Lhe enxugou o Rosto, ficaram gravadas as feições de Cristo. Precisamente porque estava todo ensanguentado e soado, podia deixar traços e lineamentos.
Mas, o sentido deste acontecimento pode ser interpretado também doutra maneira, se o analisarmos à luz do discurso escatológico de Cristo. Serão muitos, sem dúvida, aqueles que vão perguntar: “Senhor, quando é que fizemos isto?”. E Jesus responderá: “Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes” (cf. Mt 25, 37-40). De facto, o Salvador imprime a sua imagem em cada ato de caridade, como o fez no lenço de Verónica» (3). Valerá a pena recordar essa voz lancinante das procissões de Passos, que colocava nos lamentos de Verónica esse desafio: ó vós todos que passais, olhai e vede, se há dor semelhante à minha dor…
Não podemos esquecer as palavras com que Jesus adverte as mulheres de Jerusalém: «não choreis por mim, chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos» (v. 28). Com efeito, para além de um mero sentimentalismo, é preciso conversão, na vida e com sinais de aferição a Jesus, à sua palavra/mensagem de acolhimento de Deus e uns dos outros…

1. Cf. Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré – da entrada em Jerusalém até à Ressurreição, pp. 180-182.
2. Cf. Bento XVI/Cardeal Ratzinger, ‘Via-sacra - meditações e orações’, 9 de março de 2019 (4.ª estação).
3. Cf. João Paulo II, ‘Via-sacra no Coliseu’. Sexta-feira santa do ano de 2003 (6.ª estação).


António Sílvio Couto