Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Bodes expiatórios... à la carte

 

A situação sócio-política nacional está deveras confusa, quantos aos casos, em relação às situações, atendendo às pessoas, considerando as oportunidades, tendo em conta o presente e tentando interpretar o futuro. Desde o dia 7 de novembro entramos em descalabro. A demissão do chefe do governo lançou nuvens de suspeitas. A marcação das eleições baralhou. A aferição dos partidos à contenda denota que a qualidade está em nítida rutura. Emergem acusações. Trepida tudo e todos em convulsões. O país está a afundar-se e poucos se obrigam a impedi-lo...

1. ‘Bodes expiatórios’
Há expressões usadas na linguagem habitual que, por vezes, precisam de ser enquadradas e explicadas. ‘Bode expiatório’ é uma delas. Vejamos a sua origem.
Em Lv 16,1-22 encontramos a narrativa da festa da expiação’ ou do grande perdão - em hebraico Yom kippur - em que o sumo-sacerdote tomava dois bodes, juntamente com um novilho, ao lugar de sacrifício, como parte dos sacrifícios do Templo de Jerusalém. No templo os sacerdotes sorteavam um dos bodes. Um era oferecido em holocausto no altar de sacrifício com o novilho. O segundo tornava-se o bode expiatório, pois o sacerdote impunha as mãos sobre a cabeça do animal e confessava os pecados de todo o povo de Israel. Posteriormente, o bode era deixado ir para o deserto, levando sobre si os pecados de todo o povo, para ser reclamado pelo anjo caído Azazel.
Em sentido figurado, um ‘bode expiatório’ é alguém que é escolhido arbitrariamente para levar (sozinho) a culpa de uma calamidade, crime ou de qualquer evento negativo (embora não o tenha cometido). A busca do ‘bode expiatório’ é um ato irracional de determinar que uma pessoa ou um grupo de pessoas, ou até mesmo algo, seja responsável de um ou mais problemas sem a constatação real dos fatos.

2. No contexto sócio-político que estamos a viver convulsivamente vermos surgirem – à la carte (como é conveniente) – acusações diversas sem que os verdadeiros culpados assumam as consequências dos seus atos. À negligência governativa apontam a justiça como a culpada, sem que se tenham esquecido que foram os legisladores quem deram poder para que se cumpram as leis feitas... Ao colapso das estruturas (ditas) democráticas foram os diversos governos e governantes que se desautorizaram com negociatas por debaixo da mesa... Das reclamações de incompetência de vários intervenientes podemos perceber que já só a pescar-no-aquário conseguiram encontrar quem quisesse aceitar que não os menos maus para os postos de governação... Aos fazedores da comunicação social convém fabricar uns tantos peões-de-brega, pois assim podem distrair e escarafunchar outras situações pestilentas, que não as suas vidas de ocasião...

3. Quem não se apercebeu já que certos fazedores de opinião usam de habilidades e rebuscadas manhas para branquearem os seus preferidos? Com que destreza ainda encontram ideias novas nos recauchutados discursos de antanho. Falta-nos liberdade de não querermos impor quem nos seja mais simpático ou de proximidade ideológica. As guerras de sucessão deixarão vir à tona tantos lacraus que morderão mesmo que sejam ajudados a safarem-se do pântano para onde empurram o país. Sente-se no ar um certo cheiro a conspiração e onde mais uma vez teremos de escolher entre o mau e o pior.

4. Temas como a saúde, a educação, a justiça, a segurança (social e individual), trabalho e salários, a habitação e tantos outros temas urgentes e necessários não podem ser escondidos por tricas e debates de baixa qualidade nem poderemos ficar reduzidos aos ataques de mediocra moralidade, pois todos tem culpas na situação a que chegamos. Não atirem pedras uns aos outros, pois podem fazer ricochete e causarem mais estragos do que pensam.

5. Portugal merece melhor!



António Sílvio Couto

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Aprender a ‘dar espaço’... à luz do presépio

 


Neste ano ocorrem 800 anos sobre a ´feitura’ do primeiro presépio ao tempo de São Francisco de Assis. Sobre o tema o Papa Francisco tornou público um livro, intitulado – ‘O meu presépio’ – onde faz uma explicação-interpretação da sua forma de ver esta manifestação cristã, das figuras que o compõem e mesmo do modo de construir o presépio. Já, em 2019, o mesmo Papa tinha tornado pública uma carta apostólica – ‘Admirabile signum’ – sobre o significado e valor do presépio.

Lanço, então, algumas sugestões sobre a necessidade de ‘dar espaço’ à meditação perante as várias figuras do presépio...neste Natal.

1. Citamos do texto que se conhece:
«São dois os sinais que, no Natal, nos guiam para reconhecer Jesus. Um é o céu cheio de estrelas. São tantas, infinitas, mas entre todas brilha uma especial, que impele os Magos a deixar as suas casas e a iniciar uma viagem, um caminho que não sabem aonde os vai levar. Acontece o mesmo na nossa vida: em certo momento, uma ‘estrela’ especial convida-nos a tomar uma decisão, a fazer uma escolha, a iniciar um caminho. Devemos pedir a Deus com força que nos mostre essa estrela que nos impele para além dos nossos hábitos, porque essa estrela levar-nos-á a contemplar Jesus, aquele Menino nascido em Belém que quer a nossa felicidade plena.
Naquela noite que se tornou santa pelo nascimento do Salvador encontramos um outro sinal poderoso: a pequenez de Deus. Os anjos mostram aos pastores um menino nascido numa manjedoura. Não um sinal de poder, de autossuficiência ou de soberba. Não. O Deus eterno reduz-Se a Si próprio a um ser humano indefeso, pobre, humilde. Deus rebaixou-Se para que nós possamos caminhar com Ele e para que Ele possa pôr-Se ao nosso lado; Deus não quer pôr-Se acima ou longe de nós.
Espanto e maravilha são os dois sentimentos que emocionam todos, pequenos e grandes, perante o presépio, que é como um Evangelho vivo que transborda das páginas da Sagrada Escritura. Não interessa como se arranja o presépio, se é sempre igual ou diferente todos os anos; o que importa é que ele fale à nossa vida».

2. Quantas vezes ouvimos dizer que ‘é preciso dar espaço’ para que possa ser colocada outra coisa, retirando algo que estava a ocupar esse tal espaço. A noção de ‘espaço’ pode ser variável, tanto mais quanto esse possa ser subjetivo. Com efeito, dizem os entendidos em matéria de assuntos psicológicos que a descoberta de ‘espaço’ e de ‘tempo’ carateriza a nossa perceção de lugar e história, isto é, quem somos e onde estamos... num determinado lugar e em relação a quê e a quem.
Neste tempo de consumismo é habitual vermos – em nós e à nossa volta – que se dá um preenchimento do espaço (interior e exterior) das pessoas com coisas, numa quase insaciável vontade de ter mais do que, porventura, de ser, verdadeiramente. Se há época do ano em que isso parece estar mais ativo é no tempo de Natal: a sociedade de consumo fascina as pessoas com o desejo de ter mais, de ter muito e de ter melhor.

3. É com espanto e maravilha – nas palavras do texto citado do Papa – que podemos e devemos colocar-nos diante do presépio: nele somos desafiados a ‘dar espaço’, isto é, a que tenhamos espaço em nós mesmos (no mais íntimo do nosso ser), que demos espaço aos outros (nos lugares onde nos encontramos com eles - na família, no trabalho, na sociedade ou na Igreja) e que consigamos, acima de tudo, que Deus tenha o seu espaço condigno e necessário.

4. Uma sugestão simples: habitualmente colocamos na manjedoura do presépio uma imagem de Jesus-Menino, que está de braços abertos. Por momentos paremos e perguntemos-lhe o que Ele deseja receber de cada um nós, mais do que qualquer pedido a que Ele nos dê o que mais desejamos...



António Sílvio Couto

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Da mão aberta ao punho cerrado

 
A mão comporta uma forte e significativa linguagem de comunicação, pois através das mãos nós nos damos a conhecer e conhecemos os outros. Por vezes há pessoas que falam com as mãos, mesmo sem ser em linguagem gestual - essa específica para pessoas não-ouvintes. Se a mão é tão importante na nossa comunicação, ela configura estilos e modos nas diversas áreas do relacionamento humano. Vamos tentar refletir sobre duas das imensas forma de liguagem das mãos: a mão aberta e o punho cerrado...sobretudo agora que nos preparamos para viver um período de confronto político mais aceso.

1. Quem não terá já reparado que ideologicamente as mãos abertas – seja qual for a postura dos dedos – aparecem-nos mais conotadas com as (apelidadas) forças de direita e que, por seu turno, o punho cerrado como que simboliza as (ditas) ideias de esquerda. Haverá nisto algum fundo de verdade? Que raízes histórico-ideológicas podem ser aferidas a estas possíveis interpretações? Será que os ‘nossos’ políticos e afins compreendem esta distinção? Já se terão apercebido que qualquer destes gestos não é anódino,antes envolve linguagens atinentes? Como explicar, de forma simples e clara, a significação de tais comunicações de massas? Numa época de simbologias não será conveniente para todos conhecermos e sabermos o significado das coisas e dos gestos?

2. Nós falamos com mãos e as mãos falam daquilo que nós somos, isto é, a nossa forma de expressão oral é complementada com a expressão gestual. A mão simboliza uma acção ou uma obra e encerra a magia do coração; por isso transmite os seus sentimentos. As mãos amam, falam (por gestos) e acariciam, tocam e deixam-se tocar; as mãos tranquilizam e agridem, desejam e repelem; comunicam amor e agressão, serviço e domínio sobre o outro. Por isso a nossa língua é rica em expressões acerca da mão.
Na comunicação pelas mãos podemos percecionar a mensagem que nós queremos dizer e o que os outros nos pretendem transmitir. As mãos são arma e utensílio mesmo na linguagem política e ideológica...

3. O punho cerrado ou punho erguido é símbolo de solidariedade e de apoio a causas relacionadas com conflitos sociais como racismo, xenofobia, sexismo, entre outras mazelas que fragilizam as relações humanas. Também tem sido utilizado o punho cerrado como saudação para expressar unidade, força, desafio ou orgulho de pertencer a um grupo social e politicamente minoritário. A saudação remonta a antiga Assíria como um símbolo de resistência em face da violência.
No século XIX, o punho fechado como símbolo de enfrentamento esteve presente durante o episódio da comuna de Paris (1871), dos mártires de Chicago (1886) e na revolta dos Boxers (1899-1901). No século XX, o símbolo da mão foi largamente utilizado na revolução russa (1917-1921), como saudação vermelha, na guerra civil espanhola (1936-1939), como saudação anti-fascista, e também na Alemanha, como saudação nazista. Foi sinal usado ainda pelas lutas nacionalistas e de descolonização na América, África e Ásia, do movimento feminista e do movimento negro, chegando ainda às insurreições da atualidade...

4. Agora que estamos a entrar na refrega eleitoral em vias das próximas eleições antecipadas precisamos de estar atentos aos gestos – talvez mais contundentes dos que as palavras – daqueles que nos querem impingir a sedução ao voto. Felizmente nestas lides da democracia cada um só tem um voto, embora haja quem queira parecer que o seu é de qualidade e que intente fazer valer mais do que o dos outros.
De uma coisa estou certo: o punho cerrado pode refletir união e combate, mas não dá nada a não ser revolta, reivindicação e esmagamento, ao invés da mão aberta que pode receber e dar, por muito pouco que seja...hoje como ontem!
Não sigo nem voto nos proponentes e seguidores do punho cerrado. Nunca!



António Sílvio Couto

terça-feira, 21 de novembro de 2023

250 mil abortos (legais)… desde 2007

 

Os dados estão publicados. As fontes são minimamente credíveis: desde 2007 foram praticados, em Portugal, mais de 250 mil abortos de forma legal, isto é, cumprindo as regras higieno-sanitárias, as etapas da lei e em locais devidamente autorizados.

A Federação Portuguesa pela Vida (FPV) divulgou os resultados de um estudo sobre “A realidade do aborto em Portugal”, que apontam para 256 070 abortos realizados por opção da mulher, desde 2007. A notícia foi lançada, no dia 18 de novembro, pela Agência Ecclesia, ligada à Igreja católica.

1. Das hostes eclesiais não vimos qualquer comentário e/ou reação sobre o assunto, nem dos bispos e tão pouco pelos leigos e famílias. Os dados da FPV apontam para que, em 2021, houve 79.582 nascimentos, enquanto 195 mil mulheres abortaram desde que esta lei entrou em vigor, em 2007. Os números são duros e quase dramáticos, mas não podemos calá-los ou escondê-los ao sabor do (pretenso) politicamente correto.

2. Sem pretendermos pintar a situação com cores ainda mais escuras e tenebrosas, se acrescentarmos a estes dados os abortos ilegais, não será difícl de chegarmos à cifra simbólica de mais de meio milhão de abortos no nosso país, naquela (nesta) época? Apesar de se tentar branquear a questão por alguns mentores e difusores dos números do aborto, nada faz crer que a não-penalização – nessa tão eufemística quão enganosa designação de despenalização da interrupção voluntária da gravidez – tenha feito desaparecer o fenómeno do aborto clandestino e das vítimas que continua a deixar...direta e indiretamente.

3. Haverá alguma relação entre o ‘inverno demográfico’ na Europa e a difusão (vulgarização) do aborto? Os milhares de crianças mortas antes de nascer não teriam contribuído para o rejuvenescimento da população portuguesa e europeia? Por que não se faz – ideológica e acintosamente – uma correlação entre os dois fenómenos e como que se aceita como facto-feito o risco de perdermos a identidade pela não-opção em ter filhos? Não estará subjacente à recorrência ao aborto – há situações agravadas a partir do segundo filho – uma espécie de planeamento familiar de recurso?

4. Os mentores e continuadores desta matança não gostam que se lhes apresentem os números e com razoável habilidade escondem que os hospitais objetores da prática do aborto crescem, de norte a sul, pela consciência de que os médicos e outros servidores da saúde não se sentem vocacionados para matar, mas para defender e salvar a vida. Nas entrelinhas tais defensores do aborto deixam sair o queixume de que algumas equipas pró-aborto estão envelhecidas e cansadas, não será antes que estão mais conscientes e despertas para o valor da vida?

5. Este tema, desde a sua origem, sempre foi e será uma questão cultural, mais do que uma circunstância de saúde ou de conduta das mulheres. Não esqueçamos que a difusão do cristianismo na sociedade/cultura romana se deu na medida em que os cristãos eram contra a prática da matança das crianças – dito infanticídio – e pelo respeito pela vida na família. O choque, nessa época, foi grande e marcante, assim como o deve ser hoje, nesta sociedade hedonista e cultivadora do descartável, tanto na primeira como na derradeira etapa da existência.

6. A compreensão para com que praticou o aborto – já encontrei pessoas que carregaram esse fardo por mais de setenta anos – não pode deixar-nos indiferentes às mazelas que esta ferida social, psicológica e espiritual deixa em tantas pessoas. Muitas vezes foram as circunstâncias que fizeram caminhar para tal beco, mas hoje devemos apostar na educação sexual pela responsabilidade. Mais do que seria desejável continua a pulular a ignorância em tantos/as daqueles/as que ainda usam as coisas da Igreja. Sem medo nem preconceito é preciso dizer claramente: o aborto mata!



António Sílvio Couto

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Mensagem para os ‘nossos’ políticos (*)

 


Se usarmos os clássicos 5W – who (quem), what (o quê), where (onde), when (quando) e why (porquê) – poderemos encontrar pistas para esta ‘mensagem’, que tem tanto de despretenciosa quanto de preocupada para com as inquietações e as leituras em saber para onde poderá ir a nossa (portuguesa e europeia) ‘vida política’ a curto e a médio prazo.

Excentíssimos senhores,
considero como qualidades necessárias para o exercício desta ‘arte da política’ – como lhe chamava Aristóteles – certas potencialidades humanas – em linguagem cristã, diz-se virtudes ou dons – básicas: a educação cívica, o respeito pela diferença, o serviço da verdade (por palavras e ações), a lealdade para com eleitos e eleitores, a lisura de trato com as coisas económicas (públicas e/ou privadas), a honestidade de caráter com todos (incluindo simpatizantes e opositores), a assunção das responsabilidades (antes, durante e depois do exercício de alguma faceta do poder), a aceitação das vitórias e das derrotas com transparência e serenidade...

Excelentíssimos senhores e senhoras,
agradeço a vossa disponibilidade para estarem ao serviço das coisas públicas, sobretudo neste tempo em que parece estar tudo e todos sob suspeita. De facto, é quase ignóbil que seja vilipendiada a privacidade de que está ao serviço dos outros. Mais do que o efémero da fama será sempre de defender o bom nome, a honra e a tranquilidade da família, quantas vezes prejudicada pelo tempo que não lhes dedicaram. Os incómodos inerentes ao exercício da vossa função pública nem sempre é devidamente pago (económica e civicamente) e isso poderá explicar certos ‘casos’ que, desgraçadamente, são extrapolados para todos. Merecem que seja distinguido o ‘trigo do joio’, no sentido geral e nas formas particulares. Embora a verdade se manifesta, esta nem sempre consegue deixar rastos de menos-boa-crença quando algo surge a manchar uns poucos...

Senhores e senhoras que ainda querem estar (ou continuar) na vida da política,
- Pelo vosso comportamento ajudem a criar uma boa onda de credibilidade da vossa presença e ação.
- Procurem excluir das vossas listas os oportunistas e fazedores do descrédito até agora reinante.
- Cuidem de que sejam mais vistos pela competência do que pela conivência com o antes e o ‘dejá vu’.
- Sejam exigentes na elaboração - seja qual for o partido ou ideologia - das listas dos que serão submetidos à votação.
- Mais do que atenderem à satisfação dos interesses de grupos (económicos, lóbis ou ideológicos) que saibam promover o bem comum na forma e no conteúdo.
- Auguro que, pela qualidade dos executantes, sejam exorcizados os interesseiros, os bajuladores, os trapaceiros e quantos se servirem da política para enriquecer sem freio nem moral...

Queiram desculpar esta missiva, mas só a escrevi porque acredito que ainda haverá homens e mulheres que sabem e querem estar na vida política com sentido e cuidado dos outros. Que sejam mais e melhores!



(*) Membros/simpatizantes/beneficiários dos partidos políticos, autarcas, deputados (em exercício ou candidatos), governantes, assessores...juvenis ou retirados.



António Sílvio Couto

sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Dar espaço


Por vezes ouvimos dizer que ‘é preciso dar espaço’ para que possa ser colocada outra coisa, retirando algo que estava a ocupar esse tal espaço. A noção de ‘espaço’ pode ser variável, tanto mais quanto esse possa ser subjetivo. Com efeito, dizem os entendidos em matéria de assuntos psicológicos que a descoberta de ‘espaço’ e de ‘tempo’ carateriza a nossa perceção de lugar e história, isto é, quem somos e onde estamos... num determinado lugar e em relação a quê e a quem.

Neste tempo de consumismo é habitual vermos - e nós e à nossa volta - que se dá um preeenchimento do espaço (interior e exterior) das pessoas com coisas, numa quase insaciável vontade de ter mais do que, porventura, de ser. Se há época do ano em que isso parece estar mais ativo é no tempo de Natal: a sociedade de consumo fascina as pessoas com o desejo de ter mais, ter muito e ter melhor.
Atendendo a estas questões sugerimos para a preparação do Natal deste ano a expressão: ‘dar espaço’, naquilo que implica ou que possa exigir que tenhamos espaço em cada um de nós (no mais íntimo do nosso ser), que demos espaço aos outros (nos lugares onde nos encontramos com eles - na família, no trabalho, na sociedade ou na Igreja) e que consigamos, acima de tudo, que Deus tenha o seu espaço condigno e necessário.

= Etapas da caminhada

As propostas de caminhada do Advento deste ano podem ser faseadas, isto é, a partir da Palavra de Deus de cada domingo em que acolhemos e deixamo-nos interpelar ainda por algumas (mais simbólicas) ‘figuras’ do presépio.

Como linguagem de suporte podemos servir-nos da ‘estrela-do-mar’ na sua figuração.
Em cada semana (apontamos o domingo) ligando a alguma das figuras mais representativas de preparação para o Natal..e, se quisermos incluir uma outra dinâmica, as velas da ‘coroa do Advento’ com uma coloração diferente por semana
- 1.ª semana (dia 3) - ovelhas como sinais de simplicidade; na ‘coroa’ acendemos uma vela de cor verde;
- 2.ª semana (dia 10) - vaca e burro como sinais de aconchego animal; na ‘coroa’ acendemos uma vela de cor vermelha;
- 3.ª semana (dia 17) - Maria como expressão de maternidade; na ‘coroa’ acendemos uma vela de cor de rosa (em consonância com o domingo gaudete);
- 4.º domingo (dia 24) - José como significação da paternidade; na ‘coroa’ acendemos uma vela de cor azul.
No centro da ‘estrela-do-mar’ poderemos colocar uma pequena imagem do Menino Jesus, proporcional à dimensão da mesma estrela. Seria um bom presente a oferecermos a quem considerarmos que gostaríamos de fazer presença neste Natal.



António Sílvio Couto



quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Identidade e questionamento

 

“Je suis ce que je suis

et si je suis ce que je suis
qu’est-ce que je suis?»
(Sou o que sou e se sou o que sou, o que é que eu sou?)
Esta frase - no original em francês e traduzida - pode conter algo suscetível de fazer-nos refletir sobre diversos aspetos da nossa vida pessoal, familiar e coletiva/social/eclesial. Efetivamente urge conhecer-se na verdadeira identidade, sem subterfúgios ou compensações, sem duplicidades ou mecanismos de substituição, antes enfretando-se a si mesmo e aceitando os outros como eles são, verdadeiramente.

1. É bem mais habitual do que se julga encontrarmos pessoas que se guiam pela aparência do social, desde os critérios de conduta, passando pela indumentária (carros, roupagens, festas e amigos) que usam ou até mesmo que pertença a algum grupo das redes (ditas) sociais... valem pelo que mostram e não pelo que são. Em certas ocasiões ostentam os títulos académicos (se os têm) mais como forma de impressionar os outros do que pela valorização que eles significam. Recordo o episódio de um senhor que ostentava um anel de formatura de um curso considerado de relevo social, mas cuja forma de falar, deturpando as palavras e a conjugação das frases, não condizia com tal graduação académica. Depois de alguns dias de convivência abordei-o, questionando qual era o curso simbolozado por aquele anel, ao que ele respondeu, comprei-o numa ourivesaria... e assim tentava impressionar os frequentadores do café famoso que geria...numa cidade de renome.

2. Com relativa facilidade podemos ainda encontrar pessoas que, de alguma forma, renegam as suas origens e as da sua família, tentando com isso dar a impressão de que se colocam numa fasquia social acima – na maior parte das vezes é fora – ofendendo os antecessores e podendo deseducar os sucessores. Infelizmente os exemplos são muitos e em quase todos como que nos percorre a sensação de que sob a máscara de certas figuras se encobre um quê de complexidade no equilíbrio emocional e psicológico de tantos em excesso.

3. A avaliar por alguns comportamentos de pessoas com quem convivemos habitualmente – de forma direta ou indireta – precisamos de ter uma chave de leitura bem mais apertada do que seria desejável, se tudo decorre-se em conformidade com critérios ‘normais’ entre todos. Vivemos num contexto social onde as pessoas se relacionam e criam redes de proximidade: umas vezes dão-se a conhecer, noutras tentam impressionar e, na maior parte das situações, procuram tirar proveito daqueles que consideram ‘amigos’ – no conceito mais vasto ou restrito – seja via redes sociais ou no contacto direto. É calamitoso que haja pessoas com milhares de ‘amigos’ no faceboock, mas solitários (sós, tristes e abandonados) na hora da verdade.

4. Cada vez mais e melhor precisamos de aprender a conjugar a multiplicidade de ‘imagens’ que temos de nós mesmos, que damos aos outros, que os outros têm de nós e que eles possivelmente nos querem apresentar.

Qual é a imagem que eu tenho de mim mesmo? Está alicerçada na verdade ou vivo na aparência do que quero que os outros vejam ou pensem de mim? Aceito-me como sou ou tento encobrir, pelo disfarce, aquilo que não gosto ou não aceito em mim mesmo? Qual o grau de autoestima que cultivo? Não será exagerado e pouco verdadeiro?
No trato com os outros aceito-os como eles são? Distorço as suas qualidades e/ou defeitos? Vejo neles o que não são? Critico-os ou adulo-os? As suas qualidades fazem-me sombra? Sou moderado nas apreciações que faço dos outros, sobretudo daqueles que penso conhecer melhor? Tento aproveitar-me dos ‘amigos’ que digo ter?

Numa palavra: amo e estimo os outros porque me amo – com qualidades e defeitos, virtudes e falhas/pecados – a mim mesmo?



António Sílvio Couto