Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quinta-feira, 14 de maio de 2020

Numa certa cultura homofílica?


Pé-ante-pé vemos sair do armário algo que, depois de motivo de exclusão, se tem vindo a revelar razão de promoção, desde o nível individual até ao mais social e mesmo cultural.

Nada nem ninguém acentua algo que possa ser referido como passível de ser visto, julgado ou interpretado em tempo algum de menos boa aceitação de alguém que se assuma como homossexual. Nunca o fiz nem espero ter de sinalizar. Por isso, aquilo que motiva esta sucinta reflexão é, tão simplesmente, a contestação a um certo ambiente assaz favorecedor dessa cultura homofílica, que é muito mais do que ser avesso a alguma visão, comportamento ou vinculação anti-homofóbica. 

Deixo duas situações veiculadas pela comunicação social…antagonicamente interpretadas:

- Uma de quase exaltação de um responsável banqueiro que referiu ter sido escolhido como chefe máximo europeu por ser gay, dizendo: ’se não fosse gay provavelmente não seria CEO do banco’. Claro que omito a entidade bancária envolvida, mas registo a ousadia – será isso ou tem algo de subterrâneo? – de trazer para a vida pública e empresarial as opções/tendências mais reservadas e/ou pessoais. Será desta forma acintosa que pretendem fazer ambiente para vulgarizar tudo e o que mais desejam impor? Este folclore poderá servir para épocas de crise – como aquela que estamos a viver – mas será revertida em tempos bem mais racionais!

- Um outro caso de sinalização contrária percorre as reações a um programa televisivo – continuam a insistir no formato com duas décadas – onde um concorrente ousou declarar que preferia ‘ser mulherengo do que ser gay’…naquilo que interpretaram – no programa e fora dele, mesmo na estação televisiva – ser uma declaração machista e homofóbica… Já está: começou o espetáculo na tentativa de angariar audiências para um programa de tão baixo teor mental, social e de rasca conteúdo cultural. É, assim, que querem que o povo se esqueça das agruras do confinamento pandémico? Usem outros truques e melhores habilidades! 

= Depois de termos vividos tempos de alguma intolerância para com quem manifestava opções/tendências/vivências fora do comum tolerado, moral, social ou culturalmente, eis que parece ter chegado um outro tempo em que do excluído se quer fazer promovido em exclusividade. Nalguns casos quase dá a impressão de que é preciso pedir desculpa por não entrarmos na onda da ‘ideologia de género’ com que alguns setores querem varrer os que pensam de forma diferente ou não-concordante com essa (nova) maioria.

Mal vai uma sociedade que precisa de desvalorizar – às vezes reveste até a faceta de perseguir de forma tácita e capciosa – uma tendência para equilibrar qualquer outra. Nalguns momentos a dimensão heterossexual está a ser colocada no armário, onde antes estavam os que – segundo dizem – de lá saíram. Sem prejuízo de outros entendimentos – científicos, artificiais e muito caros – como se renovará, de forma natural, a população, se ‘todos’ recorressem à fórmula de vida homossexual? Como seriam realizados os sonhos de paternidade/maternidade se fôssemos confinados à opção homossexual nos desejos de ter crianças e a quem se dedicar afetuosamente? Será que a exaltação do cuidado dos animais funciona como mecanismo de substituição/compensação desses desejos mais profundos de cada ser humano?

Fique claro: qualquer pessoa bem formada – segundo os valores humanos de civismo, de critérios morais/éticos cristãos ou de respeito elementar pelos outros – saberá aceitar cada pessoa como ela é, sem atender àquilo que divide, antes ao que une. Embora a sexualidade seja um valor intrínseco a cada ser humano, as opções de a revelar, de a assumir ou mesmo de a exercitar deverá ser respeitada acima de qualquer diferença ou processo de educação.

 

= Há gente que terá de recolher a pedra acusatória que pretende atirar a outros, quando pode ter nalgum momento, mesmo anedótico, veiculado intenções, proferido palavras ou tido comportamentos menos respeitadores da diferença para com os outros. Sim: todos diferentes, todos diferentes…para sermos, de verdade, todos e mais iguais!  

   

António Sílvio Couto

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Fátima: vazio, não deserto!


«Mesmo estando em nossas casas viveremos esse momento em espírito de peregrinação. O recinto do santuário estará vazio, mas não deserto. Ainda que separados fisicamente, estaremos todos aqui espiritualmente unidos como Igreja com Maria, de modo intenso, com o coração cheio de fé».

Foi deste modo simples, direto e sincero que D. António Marto, cardeal-bispo da Diocese de Leiria-Fátima, caraterizou a vivência da noite de vigília do dia 12 de maio passado.

Efetivamente o largo recinto do santuário de Fátima estava quase às escuras, sem pessoas – como não é costume nas noites e dias de peregrinação aniversaria – com representantes das vinte e uma dioceses, alguns elementos eclesiásticos dos serviços, os bispos metropolitas…e ainda com milhares de velas – representando os peregrinos vivos e defuntos – que iluminavam o corredor central daquilo a que alguns designam de recinto, por contraste com as basílicas e a capelinha.

Associando-se a esta ‘peregrinação do coração’ houve também milhares de velas nas janelas de muitos dos portugueses espalhados por todo o mundo, numa vivência que teve tanto de inédita quanto de simbólica e necessariamente de profética.

Em tudo isto ganhou importância e foco a comunicação social, pois se não fossem as transmissões não teríamos acesso às celebrações. Embora se não deva meter todos no mesmo saco, houve ‘comunicadores’ que manifestaram mais interesse pelos pormenores do que pelo essencial. Ver comentar uma homilia depois de ouvirmos as primeiras frases – sobrepondo-se à comunicação – só porque já tinham acesso ao texto, não sei se é sério eticamente… Fixar-se no ‘espetáculo’ – é deste modo que alguns se referem à procissão das velas – sem atingir o seu significado, talvez seja abordar as coisas pela superficialidade…Servir uma transmissão sem enquadramento histórico-espiritual pode não ser bom serviço nem ajudar quem não entenda o que vê e escuta, embora se possa dirigir a emissão mais para ‘praticantes’ à distância… 

= À luz daquilo que vimos, sentimos e rezamos podemos colocar algumas questões mais para o futuro do que fixando-nos no presente atribulado ou lendo o passado com o mínimo de nostalgia.

Que Fátima (local, mensagem e testemunho) vamos ter a partir de agora? Quem vai alimentar o projeto económico, que por ali vemos ainda em desenvolvimento? Como educar um sentido comunitário à luz das ‘promessas’ individuais vistas, sentidas e permitidas em Fátima? As devoções que deambulam por aquele espaço podem ser exportadas sem adaptação adequada para o resto do país e do mundo? Como um dos fatores identitários dos portugueses no mundo, não teremos de voltar à genuína mensagem de Fátima para prosseguirmos, como povo eleito, para difundir a manifestação da Senhora?       

= Há frases e pensamentos que podem ser considerados chavões de mais de um século de história e de vida religiosa a partir de Fátima. ‘Não foi a Igreja que impos Fátima, foi Fátima que se impos à Igreja’. Vista como ‘altar do mundo’ para ali peregrinaram quatro dos cinco últimos Papas, dando-nos a entender que a mensagem é universal e não de teor nacional, que mais do que a diversidade das línguas nas celebrações tem de ser acolhedoras das linguagens católicas. À provocação – ‘Fátima nunca mais ou nunca menos?’ – temos de saber responder com sinais teológicos que não cultivem meramente o tradicionalismo nem acoitem o que sobra das dioceses. Como lugar de graça, a Cova da Iria – nome do local da aparição da Senhor – é chamada e ser isso mesmo: ‘berço da paz’, por entre dúvidas e ignorâncias disfarçadas de velinhas (queimadas ou a oferecer)…mais de devoção do que como fé esclarecida, celebrada e comprometida. 

= Se a celebração do centenário, em 2017, trouxe novas oportunidades de aprofundamento da mensagem de Fátima – muito mais do que o nome de um movimento – nas mais diversas vertentes de vida social, eclesial, teológica e cultural, o que aconteceu na peregrinação aniversaria de maio de 2020, sob o espetro da pandemia do ‘covid-19’, exige que tenhamos humildade para interpretar os sinais audíveis, os silêncios percetíveis e as mensagens que devemos decifrar à luz de um tempo novo porque nunca antes vivido por ninguém e onde todos ajudamos e somos ajudados a discernir o que Deus nos quer dizer… Assim o percebamos!  

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 11 de maio de 2020

‘A fragilidade humaniza a vida’


É este o tema da 27.ª ‘semana da vida’, que decorre, em Portugal, de 10 a 17 de maio.

Certamente que temos por substrato a vivência mais recente da pandemia e que o ‘dia internacional da família’ (15 de maio), aliado à celebração aniversaria das ‘aparições’ em Fátima (dia 13), fazem desta semana algo de grande intensidade, simplicidade e humildade. 

Da mensagem apresentada no guião para a ‘semana da vida 2020’ da Comissão Episcopal do Laicado e Família – Departamento nacional da pastoral familiar, respigamos alguns aspetos, aos quais acrescentamos algumas outras considerações.

«Reconhecer e aceitar a própria fragilidade e cuidar das fragilidades em que ela se manifesta torna a pessoa mais humana, é condição indispensável de humanização pessoal» - diz-se na abertura daquele guião.

Idêntica atitude se deve ter para com os outros, na medida em que «conhecer e aceitar a fragilidade do outro, suportar, acolher e perdoar as suas consequências e cuidar das fragilidades em que ela se manifesta, ajuda o outro a ser mais humano e humaniza as relações, que se tornam fonte de humanização». Nas indicações da CELF é salientado que esta sensibilidade «é particularmente relevante para a vida das famílias».
Por seu turno, «cuidar dos mais frágeis humaniza-os, humaniza aquele que cuida e humaniza a sociedade.
A qualidade humana de uma sociedade avalia-se na qualidade dos dinamismos de solicitude e estratégias de cuidado dos seus membros mais frágeis
». Efetivamente, considera a CELF que «só é verdadeiramente humana uma sociedade compassiva, capaz de promover a justiça social e os mecanismos da solidariedade que a reequilibrem quando as consequências da fragilidade humana partilhada por todos se abatem sobre alguns».

À luz destas observações, poderemos perguntar: temos aprendido a ser mais humanos porque mais sensíveis às fragilidades pessoais e dos outros? Não teremos andado mais a camuflar, maquilhar ou iludir as nossas fragilidades, desviando as atenções alheias para os nossos disfarces e travessuras quase infantis? Certo pietismo – mesmo religioso com verniz cristão – não enferma de alguma imaturidade, de suficiente negligência e mesmo de razoável mentira? As famílias serão, de facto, escolas de humanismo e cordialidade ou mais antros de maledicência e de chacota dos defeitos alheios?

Aquele bacoco slogan – ‘vai ficar tudo bem’ – é bastante revelador da confusão em que temos andado a viver e em que parece que pretendemos ludibriar os outros…incautos como nós! 

Como orientações para esta 27.ª semana da vida, o Departamento nacional da pastoral familiar sugere, em conexão com a vivência da Igreja católica quanto ao sofrimento, as seguintes diretrizes a cultivar e a propor: «uma saudável espiritualidade do sofrimento; uma nova e transversal pastoral da fragilidade e do cuidado; a promoção das condições para uma competente participação evangélica e evangelizadora nos debates em curso na cultura e na sociedade contemporâneas: o debate antropológico sobre a fragilidade humana, o debate ético sobre a vulnerabilidade e o cuidado, os debates nos ‘fora’ de definição das consequentes opções político-económico-sociais».

Não teremos andado a tentar dourar o sofrimento com pinceladas de autodomínio e salamaleques de religiões orientais? Teremos sabido apresentar Cristo como Aquele que não disfarçou, mas assumiu a sua fragilidade sem medo nem adiamentos? Depois de uma tal ataraxia estoica – com tantas influências nas resignações católicas – conseguiremos ainda dar sentido ao sofrimento/dor cristão? Não faltará à formação espiritual de muitos dos nossos praticantes – mesmo na eucaristia – uma salutar vivência dos sacrifícios, dores e privações tal como os vivenciaram os pastorinhos de Fátima?

De referir que a ‘semana da vida’, celebrada na terceira semana de maio, foi instituída, em Portugal, na sequência do ‘ano internacional da família’, em 1994, dando ainda cumprimento a um desejo expresso pelo Papa João Paulo II no encerramento do sínodo da Europa, em 1991, e corroborado pela encíclica ‘Evangelho da vida’ (n.º 85) de 1995.

Mais do que viver sob o regime de pandemia, em medo e temor, importa viver a vida na sua fragilidade…

   

António Sílvio Couto

domingo, 10 de maio de 2020

Mudanças ou adaptações…com o vírus?


Vimos confirmando a perceção desde a primeira hora: não, não vai ficar tudo bem! Com efeito, este slogan bem depressa deu para perceber que era um bluff senão pessoal ao menos social e até cultural.

Reafirmo ainda que foi de mau gosto e de pior sentido de oportunidade ter associado àquele estribilho o símbolo do ‘arco-íris’, usado como bandeira de interesses (morais, civilizacionais e culturais) menos claros e de motivações (atingidas só por iniciados nesse exoterismo) que beneficiam quem sob a sua coloração se esconde, refugia ou atua…

Bastará ver a longa lista de recomendações que os vários organismos, entidades ou serviços nos apresentam para ‘voltarmos’ ao novo normal: desde as de higienização até ao convívio social, passando pelas áreas ligadas à saúde e mesmo à prática religiosa…  

= Desde logo poderemos colocar certas questões sobre esta temática…em contexto de vírus:

- Vamos viver um tempo de adaptação – como já foi noutras crises mais ou menos recentes – ou isto terá repercussões na mudança de comportamento, de atitude ou de convivência?

- As aprendizagens não deverão ser mais lentas para serem mais consistentes e duradouras?

- Como irão ser corrigidos certos exageros, desde o excesso de cumprimentos sociais – beijocava-se por tudo e por nada! – até a uma espécie de abuso nas refeições extrafamiliares?  

- Não teremos de corrigir alguns dos rituais de convivialidade por sinais que sejam significativos, tanto no conteúdo como na forma?

- Mesmo no sentido económico das questões não teremos de reaprender a enfrentar os problemas – de trabalho, de família, de sindicalismo ou de compromisso politico – com mais inteligência e não de andarmos a adiar com paliativos de circunstância as soluções que tardam em acontecer?

- Não será chegada a hora de querermos mudar de sistema e não de iludirmo-nos em modificar o regime?

- Quem estará disponível para dar o contributo em ensinar a ‘governar a casa’ e não de continuarmos a fornecer coisas, que adiam a solução dos problemas?

 

= Mesmo que de forma sucinta vou centrar a atenção nas orientações emanadas – são 79 e destas 32 referem-se à eucaristia – da Conferência Episcopal em ordem a voltarmos ao ‘novo normal’ da prática religiosa…simbolicamente delineada para a celebração do Pentecostes – 30/31 de maio – onde se inclui também a festa da visitação de Nossa Senhora e data celebrativa da ‘padroeira’ das Misericórdias. Já lemos a simbologia? Vejamos os vários itens só no tocante à celebração da eucaristia (incluímos a numeração das ‘nomas’ da CEP de 8 de maio):

a) antes da missa
- As comunidades cristãs deverão organizar equipas de acolhimento e ordem que auxiliem os fiéis no cumprimento das normas de proteção (5);
- É obrigatório o uso de máscara, a qual só deverá ser retirada no momento da receção da Comunhão eucarística (9);
- O acesso dos fiéis às Missas dominicais, às celebrações da Palavra e a outros atos de culto será limitado no número de participantes, de acordo com a dimensão da igreja (10);
- Deve respeitar-se a distância mínima de segurança entre participantes de modo que cada fiel disponha, só para si, de um espaço mínimo de 4m2 (11);
b) durante a missa
- Os fiéis ocupam os lugares previstos, mantendo as distâncias estabelecidas, sob a supervisão das pessoas a quem a comunidade cristã confia esta tarefa (15)
- Os leitores e cantores desinfetarão as mãos antes e depois de tocarem no ambão ou nos livros (18);
- Os recipientes para recolher a coleta não se passarão no momento do ofertório, mas serão apresentados à saída da igreja pela equipa de ordem e acolhimento, seguindo os critérios de segurança apontados (19);
- O sacerdote desinfetará as mãos antes da apresentação dos dons (21);
- O diálogo individual da Comunhão («Corpo de Cristo». – «Amen.») pronunciar-se-á de forma coletiva depois da resposta «Senhor, eu não sou digno…», distribuindo-se a Eucaristia em silêncio (25);
- Continua a não se ministrar a comunhão na boca e pelo cálice (27);
c) depois da missa
- Após a Missa, proceda-se ao arejamento da igreja durante pelo menos 30 minutos, e os pontos de contacto (vasos sagrados, livros litúrgicos, objetos, bancos, puxadores e maçanetas das portas, instalações sanitárias) devem ser cuidadosamente desinfetados (32). 
  

= Eis algumas questões teológico-pastorais, umas que deveriam ser incrementadas com mais regularidade depois desta circunstância social e outras que não podem subverter a dimensão católica por ocasião destas ‘normas’ higienistas.

* O serviço de acolhimento/ordem deveria ser um investimento em todas as paróquias e não só por mero controlo sanitário. Talvez seja bom não confundir higiene com limpeza, pois a partir desta se poderá ver o estado da cada paróquia…na igreja.

* Não se deverá misturar a desinfeção das mãos do padre com o rito de ablução após a apresentação dos dons… Repare-se na oração que ele diz em silêncio: ‘lavai-me, Senhor, da minha iniquidade e purificai-me do meu pecado’… É algo de espiritual e não de limpeza meramente corporal.

* O recipiente para recolha da coleta/ofertas deveria ser colocado no princípio da missa, à entrada do espaço celebrativo e não no final, pois neste momento parecerá mais ‘pagamento’ do serviço recebido, enquanto se for colocado no início e levado ao altar na hora do ofertório poderá ter outro significado e envolvência de toda a assembleia…e da semana vivida.

* A resposta, no momento da receção da comunhão eucarística, poderá continuar a ser o ‘Ámen’ habitual pessoal e não o genérico, como é apresentado na norma 25… Um gesto de adoração também pode conter essa resposta pessoal.

Estamos a aprender. Seria bom que ficasse algo de novo de toda esta crise: maior fé e vivência comunitária.

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Entre a ‘bolha’ e o preconceito…quanto aos ciganos


Desgraçadamente vivemos num tempo onde se diz que temos liberdade, mas não respeitamos a dita no trato com os outros; onde uns tantos se acham donos da verdade (a sua) e anatematizam a opinião alheia; onde uns tais setores sociais se incluem numa bolha, conjeturando em preconceito contra quem não diz o que eles falam…mesmo sem o assumirem que pensam.

- Uma advertência de princípio: não tenho, nunca tive nem espero ter algum desaguisado com ciganos. Não os obstaculizo nem os patrocino e tão pouco os considero de menor ‘qualidade’ social, cultural ou mesmo económica. Das poucas vezes que lidei com eles tentei tratá-los o mais possível nos direitos e deveres, mesmo que eles não cultivem estes e enfatizem (ostensivamente) aqueles…

- Uma segunda nota de esclarecimento: não aprecio minimamente a esperteza de uma boa parte dos ciganos, quando tentam usufruir de todas regalias possíveis e imaginárias para andarem a enganar o fisco, a segurança social, os serviços de saúde, as entidades autárquicas nem as associações de caridade/solidariedade católicas ou não só.

- Terceira salvaguarda: custa-me ver a ostentação, por vezes, a roçar algum escândalo – o termo deveria ser ‘pornográfico’ – com que certos grupos de ciganos se exibem com ouros e lantejoulas, brincos e relógios, anéis e bijuterias… numa prosápia de ‘novos-ricos’ – onde um tal manipulador da bola se tornou o expoente máximo de um tal ridículo e da inconsequência fiscal – deambulando inter-pars ou sugestionando incautos…bimbos.

- Quarta observação: em maré de crise surgem uns tantos profetas da desgraça que tentam vislumbrar culpados por entre as sombras, mesmo a própria. O extremismo nem sempre é bom conselheiro, criando, na maior parte dos casos, fantasmas, alguns deles míticos e tantos outros dispensáveis.

= Este tema dos ciganos tem algo de complexo, tanto na sua origem, história e desenvolvimento, como no modo como que eles são vistos, entendidos e tratados. Segundo dados, os ciganos são a maior minoria da Europa com cerca de onze milhões de pessoas…e, em Portugal, haverá cerca de trinta e sete mil – 0,5% da população – espalhados por várias regiões do país. Na sua maioria trabalham, embora se possa tratar de um trabalho informal, sem contrato nem salário. Dizem que metade dos ciganos sobrevive com o rendimento social de inserção. Uma boa parte dos ciganos portugueses têm baixo nível de escolaridade (muitos não sabem ler nem escrever ou têm o ensino básico ou primeiro ciclo incompleto) e casam cedo.  

= A ‘bolha’ a que nos referimos no título deste texto tanto vale para os ciganos – na medida em que se consideram alguém à parte com as suas regras, comportamentos e (quase) leis específicas – como para quantos deles se dizem defensores ou detratores, pois se pretendem imiscuir numa questão que é mais do que meramente social, sendo antes do nível cultural. Por isso, criar lutas contra ou a favor não faz diluir o problema antes o acirra e/ou complica.

Pelas caraterísticas apresentadas, o povo cigano precisa de ser respeitado, mas também não pode querer usufruir de benesses para as quais não colaborou, antes só se faz beneficiário e não contribuinte, desde os encargos de segurança até aos proventos do trabalho.

Por outro lado, o preconceito com que muitas vezes os ciganos são julgados podem não ser tão justos quanto seria aceitável, dado que, sentindo-se acossados, têm tendência a fecharem-se e, possivelmente, de forma gregária a atacarem. Não será pela hostilidade que se fará diálogo, mas também não será pela esperteza pouco inteligente, que se criarão pontes, antes surgirão muros, senão físicos ao menos psicológicos… = Não chega (!) dizer mal nem encurralar os ciganos, é preciso fazê-los participar na vida cívica de todo o país, dando-lhes condições para que sejam cidadãos de participação inteira. Não interessa criar blocos (!) de defesa, quando se poderá estar a esconder pessoas sem cultura cívica mínima e suficiente…tanto ao nível pessoal como de grupo. A quem interessa fazer-de-conta que tudo corre bem, quando há problemas com a autoridade, com a justiça, com a vizinhança e mesmo com quem possa contrariar os ciganos. Eles têm de saber estar em sociedade, respeitando e sendo respeitados nos direitos e nos deveres…seus e alheios!    

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Amargura do luto não-feito…ainda


Decorriam os primeiros dias desta sequência ligada ao ‘covid-19’, quando alguém, ligado à área da assistência em saúde, referia: o pior de tudo isto vai ser o que se refere ao luto não-feito, pois muita gente nem vai ter tempo de se despedir dos seus defuntos e tão pouco será possível ter um funeral a condizer, onde o tempo de luto possa ser vivido convenientemente.

De facto, nestes dois meses de confinamento, de estado de emergência ou de calamidade, temos visto certos sinais que denotam algo de preocupante e que trarão, num futuro muito próximo, consequências consideradas imprevisíveis.

Ao jeito de ilustrar aquilo que desejo trazer à colação para aqui refletir, deixo duas situações, por sinal ocorridas em Braga: a morte e sepultamento de um professor universitário e a ocorrência na reabertura do cemitério municipal… um e outro caso podem ser paradigmáticos de toda a envolvência em que nos encontramos, mesmo sem disso nos darmos, totalmente, conta.

Sobre a ‘oportunidade’ do falecimento há cerca de duas semanas do dito padre-professor de matemática talvez tenha sido como que por ele ‘escolhida’, tal a discrição do mesmo e a subtileza em que nem déssemos conta da sua partida. Amigos dele não puderam participar nas exéquias, pois o estado de emergência a isso obrigava. Daquilo que eu dele conhecia – pelo menos há anos atrás – foi como que um esgueirar-se de mansinho sem déssemos por tal…Quantos tantos outros falecidos nestes tempos obrigaram ao afastamento da presença nos derradeiros momentos terrenos! Quantos, mesmo sem terem nada a ver com a doença em curso, foram levados na onda de irem sem despedida humana e psicológica! Quantos foram anonimizados e reduzidos quase ao esquecimento!

Sobre aquilo que aconteceu, por estes dias, no acesso ao cemitério de Braga podemos ver nesse caso algo que revela muito mais do que uma mentalidade ou uma mera coincidência. O congestionamento de pessoas teve a ver muito mais do que uma menos boa (ou exagerada) organização no acesso às entradas. Teve a ver muito para além da confusão de muitas pessoas ao mesmo tempo. Teve a ver com algo mais do que um recuperar o tempo perdido em não poderem honrar os seus falecidos…muitos deles sepultados segundo os condicionamentos deste tempo. Efetivamente a enchente na reabertura do cemitério bracarense revela algo que trará à memória de quantos viveram a não-despedida dos seus falecidos, pois a rutura em relação à morte é algo que tem de ser assimilado no enquadramento psicológico da separação, fazê-lo de forma abrupta custará a ser digerido e, sobretudo, a ser enquadrado no nosso – é de todos e não só dos crentes – processo de luto, de choro e até mesmo de alguma religiosidade. 

= Podemos, agora, colocar algumas questões sobre todo o processo em que temos estado, de uma forma ou de outra, envolvidos, na medida em que esta pandemia viral veio por a nu tantos dos fantasmas e quantos dos mitos que nos envolvem, mesmo sem disso nos apercebermos. Onde está a segurança tão adulada nas nossas questões vitais? Não seremos mais vulneráveis do que aceitamos, de verdade, ser? Como podemos ser afetuosos em tempo de perigo de contágio viral? Como poderemos exprimir de forma simples, serena e sóbria os sentimentos de dor, de amargura e de saudade pela partida dos nossos falecidos? Até onde irá a nossa capacidade de conter as lágrimas ao vermos separarem-se de nós aqueles a quem não conseguimos exprimir o nosso afeto, visual ou táctil, nos derradeiros momentos sob condição terrena? Como nos poderemos cristã e afetivamente ajudar a fazer o luto de entes não-vistos em processo de falecimento? Será que o recurso às memórias fotográficas pode ser melhor aproveitado nesse processo de luto atropelado e, talvez, demasiado rápido? 

= Mesmo que em jeito de sugestão e sem exploração sentimental de nada nem de ninguém talvez devamos, nos momentos de oração comunitária, introduzir um pouco mais a memória daqueles que partiram pelo recurso às fotos e outras recordações, tentando atenuar as agruras da despedida feita ou não-concretizada. Não pretendemos prolongar sem nexo estados de ansiedade menos bem vividos, mas podemos, segundo critérios cristãos saudáveis, ajudar a separação daqueles/as que amávamos e de quem temos memória grata.        

 

António Sílvio Couto

domingo, 3 de maio de 2020

’13 de maio’ como o ‘primeiro’ - (Igreja católica vale menos do que a CGTP?)


À luz daquilo que aconteceu na manifestação do ‘1.º de maio’ da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP) poderemos questionar tantas outras iniciativas de caráter público, seja qual for o promotor ou os participantes. Isto é, o modo de disposição no terreno dos presentes poderá ditar que algumas propostas com presença de pessoas possam ter idêntica configuração: colocadas em filas, com distanciamento considerado de segurança – dizem que com dois metros de separação – e com espaço ainda entre as filas…até à ocupação total do terreno.

Perguntado à ministra da saúde se, deste modo, poderão acontecer as celebrações religiosas do dia 13 de maio, em Fátima, ela não descartou a possibilidade, senão na prática, ao menos teórica, dizendo: ‘é uma possibilidade… desde que sejam respeitadas as regras sanitárias’! 

= Efetivamente a manifestação do ‘1.º de maio’ da CGTP, em Lisboa, apresentou um role de atropelos à lei em estado de emergência: pessoas acotoveladas umas às outras, nos passeios e em muitas das imagens televisionadas; pessoas procedentes de fora do concelho lisboeta (viram-se autocarros de várias localidades da ‘margem sul’), quando era proibido sair do concelho de residência; a presença de elementos maiores de setenta anos, quando são considerados, genericamente, em idade de risco; figuras sem máscara a dar ordens ao telemóvel, quando esta já era obrigatória na presença de mais pessoas em volta…

As filas armadas no terreno não são novidade, pois nos desfiles já é costume irem daquele modo, só que os cartazes colocados estrategicamente encobrem mesmo a ausência de pessoas. Ali não era possível disfarçar. Com efeito, um oficial da polícia deixou escapar esta frase: ‘aquilo é uma máquina bem oleada’… Sim, só que desta vez se tornaram mais evidentes as lacunas, noutros anos ofuscadas… 

= Tendo em conta os ardis da CGTP não será oportuno intentar que as celebrações do ‘dia 13 de maio’ possam realizarem-se, este ano, ainda em Fátima? A organização não deveria reconsiderar a sua posição, mesmo que trazendo à liça as razões de exceção aduzidas para a CGTP? Ou será que teremos – como é costume na arte de comunicação da governança – dentro de dias uma portaria a condicionar o decreto-lei que rege o ‘estado de calamidade’? Não terá chegado a hora de nos (os católicos, cidadãos, eleitores e contribuintes) colocarmos mais em confronto do que estarmos tão submissos ao poder, que, afinal, sabe proteger quem o vota, o elege e o suporta? Teremos ainda cristãos que não se atemorizam e defendem a sua fé, mesmo que pareçam menos cordatos do que os responsáveis episcopais? Até onde irá a nossa falsa resignação, acomodação ou cobardia, quando era preciso ser destemido, audaz e lutador? Não foi, por sinal Fátima quem desmentiu o político que prognosticou o fim da fé no espaço de duas gerações em Portugal? Se fosse hoje – e os indícios estão à vista – a ‘profecia’ não seria facilmente cumprida, tal o amorfismo generalizado em que vivemos….a começar pelas cabeças? A máquina católica – dioceses, paróquias, movimentos, associações, fiéis (bispos, padres, religiosos/as e leigos) – não terá capacidade de se mobilizar ainda para as celebrações do ‘dia 13’? Mesmo que os ‘peregrinos a pé’ tenham sido desmotivados, não há muitos outros recursos que poderiam dar uma resposta superior à máquina sindicalista? 

= Não há qualquer interesse em colocar-nos em confronto ou de entrarmos em comparações, mas não podemos permitir que sejamos tratados como cidadãos de segunda ou de terceira perante as regalias de uns tantos bem-pensantes, maldizentes ou provocadores. Como cristãos/católicos somos e devemos ser cidadãos que se regem pelas leis do estado, mas não podemos permitir que este seja o primeiro a criar estratos sociais, que foram abolidos e nunca deveriam ter existido. Confesso: não gosto de ser privilegiado por ser cristão (católico ou padre), mas também não aceito ser depreciado ou discriminado por sê-lo…

Basta de conluios entre a ‘espada e o altar’, onde este parece mais servir aquele do que em ser parceiro com igualdade de direitos, de obrigações e respeitando-se, mutuamente, nas suas funções. Foi assim que calaram tantas vozes proféticas, não pelo combate, mas pela adulação!    

 

António Sílvio Couto