Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

A quem interessa empolar um tal ‘racismo’?


Uns tantos – políticos, jornaleiros (os que escrevinham ideologicamente nalguma comunicação social), comentadores, dirigentes associativos e/ou desportivos e quejandos) – andavam ansiosos porque fosse incendiado o rastilho do ‘racismo’.

As manifestações de alguns adeptos – sócios ou não – num jogo de futebol, no domingo dia 16 de fevereiro, foi a pedra de toque para que se gastem horas a discutir uma coisa que em Portugal não tem expressão como eles desejavam. Podem dizer o que quiserem, os portugueses não são nem nunca foram racistas e tão pouco xenófobos. Somos, pelo contrário, um povo aberto – talvez em excesso e desmesuradamente condescendentes – a todas as raças e cores, mesmo em nosso prejuízo. Somos um povo que sempre criou laços de fraternidade e de harmonia entre os povos e as culturas, muitas delas bem menos respeitosas para com a nossa liberalidade. Somos, por natureza, bem mais solidários do que nos julgamos, pois ainda somos capazes de tirar do nosso essencial para partilhar o que falta a tantos, embora estes nem sempre se mostrem convenientemente agradecidos senão nos atos ao menos nas atitudes. 

= Muitos e variados setores tentam cavalgar sobre pequenos indícios desse tal ‘racismo’, mas bem depressa se esboroam as suas pretensões e, nem mesmo, a intoxicação ideológica de uns tantos consegue criar algo que tenha consistência ou significado. Vivendo numa área onde moram tantos cidadãos procedentes de outros continentes e culturas será muito fácil desmentir que o racismo tenha algo a ver com isso que pretendem dizer que existe. Com que facilidade se dilui a cor da tez ou a forma de se exprimir, percebendo somente que estamos perante pessoas e não em confronto com alguém que nos incomoda.

Foi nitidamente ignóbil, na intenção e nos resultados, essa publicidade – ‘todos diferentes, todos iguais’, pois pretendeu nivelar o racismo pela diferença acintosa e não combatê-lo pela dignificação das pessoas. Estas não se distinguem, mas convivem. Cada cidadão não pode ser reduzido à mera expressão numérica, mas acolhido na diferença daquilo que é e merece ser.

De entre todas as formas de convivência pela dignidade e não pela distinção, o cristianismo foi, na maior parte dos casos, aquele que melhor o idealizou, o pensou e o executou. Falamos do cristianismo na sua génese e nos atos de fraternidade que sempre cuidou. Deixamos de fora quantos usaram a expressão de fé cristã para escravizar, manipular, torturar ou até matar. Outras designações religiosas têm feito também uma razoável evolução e abertura à diferença que não só para com os da sua cultura…

Só uma acentuada ignorância histórica continuará a relevar mais aquilo que foi mau do que tanto do que a civilização foi conduzindo na aproximação dos povos, das nações e mesmo na formação dos países. Talvez seja preciso lavar os preconceitos de certas ideologias para vermos tanto que foi desenvolvido nos dois últimos séculos…

Certa virulência antirracista – sobretudo protagonizada por setores aderentes ao marxismo-leninismo-trotskismo – como que denota alguma tentativa de desviar a atenção dos crimes étnicos, rácicos e xenófobos praticados pelos seus mentores ideológicos, sobretudo, no último século…em várias latitudes e com milhões de vítimas.  

= O pior racismo que se pode difundir ou cultivar é o da indiferença, na medida em que as pessoas deixam de ser consideradas como tal para se tornarem meras coisas ou objetos.

Diante de certos episódios como que se torna lamentável o empolamento de ‘casos’ de racismo, pois só mentes diminuídas podem considerar algum ascendente de supremacia sobre pessoas que tenham a cor da pele distinta da dominante no meio. Na dimensão humana somos todos cidadãos de direitos e com deveres iguais, embora diferentes no modo de os vivermos e de nos fazermos ser comportamento social, político e cultural.  Através de uma educação para a diferença poderemos saber estar com quem não pensa como nós, não escolhe como nós e não sente como nós.

O racismo ainda é uma fase muito primária da evolução da história da humanidade. O racismo é a negação da cultura, seja qual for a instância, o nível de instrução ou o estádio de liberdade. Racismo, nunca!

  

António Sílvio Couto

Eutanásia: individualismo coletivista


Pasme-se: quem mais defende a despenalização da eutanásia são os que perfilam, preferencialmente, ideias de teor coletivista, isto é, os promotores da eutanásia consideram que a escolha individual se sobrepõe à dimensão comunitária da pessoa.

Efetivamente o que está a ser proclamado pela despenalização da ‘morte medicamente assistida’ é um direito de âmbito individual usando os meios técnicos, humanos e recursos daqueles que clamam a absorção (impostos, taxas e cobranças) pelo Estado das economias das pessoas.

Aos que contestam a iniciativa privada e tudo quanto ela significa, reclamam agora que os meios estatais (e não só) possam servir o individualismo elevado à sua maior potência.

Situações há em que aos valores estatais para prosseguir os intentos da eutanásia são associados os de caráter particular, fazendo com que os ‘perigosos’ privados tenham de participar na feitura dos atos médicos em favor da eutanásia. Isto é, para cuidar da saúde são considerados abjetos, mas para concretizar a matança já podem constar da solução… 

= Com a evolução tremenda da medicina não seria expetável que houvesse melhores condições para cuidar da vida, sobretudo em situação de sofrimento e de dor? Não faltará, em muitas das discussões (vistas e ouvidas) sobre a eutanásia, uma noção mais apropriada da dor e do sofrimento nos nossos dias? Não andaremos ainda a discutir estes assuntos enfermando de preconceitos, de estereótipos e de razões pensadas, ditas e decididas em circuito fechado…de alguma bolha pseudocientífica? Por que haverá tanta arrogância por parte de alguns setores mais exaltados – tanto pró como contra a eutanásia – em vez de vermos humildade na escuta das razões alheias? A experiência pessoal da fragilidade, na doença, não nos fará (faria) mais humanos e sinceros, sem peias de pedantismo e/ou de falsa intelectualidade? Não será que querem esconder, sob a capa de ‘medicamente assistida’, a intenção de liquidar quem possa ocupar espaços considerados necessários no (dito) serviço nacional de saúde? 

= Com toda a frontalidade é preciso proclamar: a vida não se referenda nem pode andar ao sabor dos humores – muitas vezes mais negros (no sentido de fúnebres) do que coloridos – da maioria dos políticos ou dos devotos. A dignidade da pessoa humana não pode estar sujeita às conjunturas circunstanciais de certas forças, que não a cuidam devidamente durante a vida e querem reclamar essa dignificação na hora de matar. Com que facilidade vemos surgirem do esgoto – noticioso, social, político e mesmo cultural – certas figuras secundárias, que, como no caso do aborto, vieram trazer à liça os argumentos materialistas mais primários e onde a dimensão psicológico-espiritual não tem grande conceito de reflexão nem de aceitação vivencial.  

Não deixa de ser sintomático que a maioria dos órgãos de comunicação social – televisiva, radiofónica, impressa e até no âmbito da internet – ouça com mais regularidade – e talvez com maior apreço – quem defende a eutanásia como recurso de serviço de saúde e, de forma muito menos clara e habitual, quem apresente argumentos contra a onda da eutanásia...

Os dados apresentados em favor da ‘morte medicamente assistida’ surgem como uma tendência mais ou menos aceitável, embora não sejam ditos os números nem as categorias em que se enquadram. Os promotores da facilitação da eutanásia vão conquistando um certo ascendente não confirmado, mas aduzido pelos dados induzidos. Como tantas outras iniciativas não-claras, também esta sofre do perigo da manipulação duns entendidos sem rosto nem credibilidade. 

= É notório que hoje se discute tudo e o resto mais na base dos direitos individuais do que das relações e dos deveres interpessoais, onde cada um se considera (quase) o centro do mundo ou do ‘seu’ mundinho egoísta, egolátrico e fechado. Com que facilidade vemos tanta gente a reclamar para si aquilo para o qual não contribuiu minimamente. Nesta temática da eutanásia precisamos de não nos deixarmos resvalar para alguma emotividade, mas o assunto deve continuar na área da racionalidade, procurando cada um refletir sobre o sentido da sua vida, ontem, hoje e no futuro. Assim sejamos dignos daquilo que o porvir nos reserva!       

   

António Sílvio Couto

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Discussões numa sociedade envelhecida e podre


Há dias conversava com um padre africano e chegamos à triste conclusão que muitos dos nossos problemas, na Europa e por especial incidência em Portugal, são próprios e típicos de uma sociedade velha e envelhecida, podre embora pretensamente rica, vazia de valores à mistura com questões de quem se entretém com o secundário em vez de atender ao essencial.

A questão da eutanásia como que consubstancia estas diversas ramificações e os tentáculos mais complexos…deixando pouco espaço para percebermos que somos guiados por outros interesses que não sejam ideológicos e quase maquiavélicos.  

Enquanto noutras partes do mundo se tomam medidas para controlar a natalidade – nalguns casos através da laqueação não autorizada ou da vasectomia invasiva – aqui entretemo-nos a discutir quando se pode retirar a vida com ou sem consentimento da família. Quando em tantos lugares da Terra se tenta salvar vidas, correndo os maiores riscos daqueles que intervém, por cá fazem-se discussões e projetam-se leis para permitir matar a pedido ou sem autorização. Quando se tenta sobrepor o individual ao mais correto da convivência interpessoal, não estaremos a entrar em colapso cultural, escavando a sepultura de todos? Quando vemos a interferência da legislação no campo da consciência e da ética, não estaremos a estatizar tudo e todos, submetendo-os aos interesses de maiorias nem sempre lícitas?  

= Já dizia Nicolau Maquiavel no seu célebre livro: O príncipe – ‘não se pode chamar de valor assassinar os seus cidadãos, trair os seus amigos, faltar à palavra dada, ser desapiedado, não ter religião. Essas atitudes podem levar à conquista de um império, mas não à glória’.

Efetivamente, muitos daqueles que nos governam precisariam de umas lições mínimas para serem capazes de perceberem que, por muito que tentem disfarçar, não conseguem esconder quais os objetivos que os movem e que, muitas das vezes, são demasiado pouco subterrâneos para não serem percetíveis nas propostas que levam a serem votadas no lugar da aprovação das leis. Neste caso da discussão trazida outra vez para o público da eutanásia percebe-se que será um novo fait-divers para esconder os problemas de não entendimento em matérias laborais, após o congresso da central pró-comunista e numa quase antecipação do carnaval, cujos eflúvios já se notam… Não basta parecer, se não se é!

Claramente se vê que isso não é sério nem se pode ser levado com seriedade, pois não passa pela cabeça de ninguém que se autorize a matar – pasme-se mais uma vez o eufemismo de ‘despenalização da morte medicamente assistida’ – como se um médico possa prestar-se para matar, quando a sua função é, digna e altamente, salvar vidas. Não brinquemos com as palavras para que estas possam ainda tomadas como forma de comunicação entre os humanos… 

= Por entre tantas posições – a favor ou contra a eutanásia – é digna de reflexão a recente da Conferência Episcopal Portuguesa. O comunicado do conselho permanente diz: «Queridos profissionais da saúde: qualquer intervenção de diagnóstico, de prevenção, de terapêutica, de investigação, de tratamento e de reabilitação há de ter por objetivo a pessoa doente, onde o substantivo “pessoa” venha sempre antes do adjetivo “doente”. Por isso, a vossa ação tenha em vista constantemente a dignidade e a vida da pessoa, sem qualquer cedência a atos como a eutanásia, o suicídio assistido ou a supressão da vida, mesmo se o estado da doença for irreversível». A opção mais digna contra a eutanásia está nos cuidados paliativos como compromisso de proximidade, respeito e cuidado da vida humana até ao seu fim natural».

Esta proclamação poderá parecer uma espécie de atitude de ‘bombeiro’ a tentar apagar um fogo já a lavrar em incêndio sem controlo. Talvez devêssemos ter tido uma ação mais preventiva sobre o tema e não de conjuntura meramente reativa como nesta em que estamos. Não soubemos colher as lições – mesmo de mobilização, de esclarecimento e de dinamização – na década em que foi discutido e votado o tema do aborto. Se a vida não se referenda, e bem; então, não se peça nunca o estratagema do referendo. Se não conseguimos apresentar a vida como valor essencial e transcendente, então de pouco adiantam estes recursos…quase dilatórios. Até quando andaremos a manquejar entre a verdade e os feitiços da mentira?           

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Unidos pelo ódio?


‘Um grupo torna-se sempre mais unido se tiver algo que odiar’.

Esta frase foi proferida por um iraniano, que é professor de psicologia numa universidade americana. Para suportar esta indicação, o professor considera que os responsáveis políticos introduzem, naquilo que dizem e no modo como atuam, conceitos como o medo e a ansiedade para condicionarem as reações e os desafios da sociedade mais aberta…  

= Mas haverá algo de abusivo naquela frase citada, ou, pelo contrário, ela revela mais do que uma mera conjetura na leitura dos acontecimentos? Será que aquela frase pode parecer incentivadora a mais ódio? Por seu turno, poderemos ver naquela frase algo que explique muito daquilo que vemos, sentimos e vivemos… mesmo sem disso nos darmos totalmente conta? Como podemos e devemos interpretar certas manifestações de ódios, onde se espicaçam traços de raça ou de etnia? Não viverá muita gente encapotada à sombra daquela frase, mesmo que teoricamente a contestem?  

= Desde logo ‘ódio’ será útil interpretá-lo como algo de positivo, pois em muito daquilo que colocamos a oposição está mais do que a mera inimizade ou a dimensão de inimigo. Se atendermos à formulação psicológica de ‘ódio’ poderemos encontrá-lo como um inverso de ‘amor’, na medida em que este possa explicar a dedicação mais do que apaixonada por algo ou por alguém, enquanto ‘ódio’ exprime o seu contrário, na linha de desejar mal a alguém.

Naquilo que envolve as pessoas humanas, o ódio exprime-se através dos insultos ou das agressões físicas. A violência tende a ser uma das consequências do ódio… No casos de países e nações é costume incentivar ódio de uns para com outros, levando – como se refere supra – a unir aqueles que poderão concretizar ações de ódio com os outros… nesse caso considerados como inimigos. 

= Atendendo à complexidade do nosso tempo talvez possa ser útil apresentar algumas situações em que ‘um grupo se torna unido, se tiver algo que odiar’. Não será isso que explica uma espécie de fanatismo (quase religioso) de certos grupos desportivos, tenham ou não a designação de claques? Por vezes não acontece de dirimirem-se contendas internas (ou intestinas), polarizando as de fora contra outros que defendem as suas cores com idêntico fervor ou mesmo ódio? Não será que alguma apatia, indiferença ou negligência, que tem vindo a criar episódios sem-sentido, quando outros se apegam a rituais nada abonatórios dos princípios que os norteiam?

Quem não se recorda dos tempos em que os cristãos eram considerados minoria social e eram até odiados pelos que não comungavam da sua fé? Nessas ocasiões – e não são só dum passado longínquo, mas também percorrem muitos locais atualmente – os cristãos uniam-se, não só porque eram perseguidos e mesmo odiados, mas porque estava em causa a sua própria sobrevivência. Vemos já nos textos bíblicos e nas reflexões da patrística essa necessidade de se unirem, não já para odiarem, mas para conseguirem ultrapassar as dificuldades colocadas pelas condicionantes exteriores.

Não será que agora – no nosso tempo e na nossa terra – baixamos a guarda em matéria de vigilância, mas também de unidade. Fomo-nos tornado mais inseridos no meio, mais pela descoloração do que pela afirmação. Se alguém destoa desta onda de boa aceitação – tanto em palavras como em ações – corre o risco de ser facilmente rotulado com fanatismo, fundamentalismo e, mais recentemente, com populismo, isto é, domesticaram o cristianismo e os cristãos com doses de compreensão anódina e de aceitação insípida de princípios, valores e critérios…

Onde está o sabor do sal, que somos? Por onde para a luminosidade proclamada nos evangelhos? Onde está a verticalidade da linguagem do ‘sim, sim; não, não’? Seremos ainda fiáveis para encetarmos a evangelização deste tempo? Daqui a meio século haverá fé nos lugares onde agora a celebramos a meio gás?

Por muito que apelemos a novos métodos de anúncio de Jesus, há um que nunca falha nem estará desatualizado: o testemunho pessoal, o encanto por Cristo e a correção de vida…na sendo do Evangelho!        

   

António Sílvio Couto

domingo, 9 de fevereiro de 2020

‘Não’ ao referendo sobre a eutanásia…


Lamento que tenham vindo a ganhar algum significado as movimentações em ordem a solicitar, ao parlamento, um referendo sobre a eutanásia. É preciso que sejamos ponderados e argutos naquilo em que nos – os que são contra a eutanásia – queremos meter.

Desde logo é preciso afirmar sem rodeios nem meias palavras: a vida não se referenda…nunca.

Mesmo que já tenham sido realizados dois referendos sobre a matéria do aborto…nenhum deles deu resultados representativos, à luz das regras previamente estabelecidas, em que só seria vinculativo o resultado se votassem mais de metade dos eleitores inscritos.

Tenha-se ainda na devida conta, que, quando se põe em marcha um processo, se devem ponderar quais serão as consequências daquilo em que nos envolvemos. Ora, os responsáveis sobre o hipotético referendo a propósito da eutanásia precisam de saber ler os sinais ‘favoráveis’ – fora e dentro do quadro da fé cristã – para com uma tal mentalidade pró-eutanásia. Os mentores da iniciativa a partir dos gabinetes têm de ouvir as ideias da rua. Os proponentes do (pretenso) referendo necessitam de vir para os espaços de opinião – internet, redes sociais, conversas e atitudes de vida – e de lerem o que se diz e não o que gostaríamos, cristãmente, que fosse dito. Não podem ser defraudados os subscritores do (hipotético) referendo, se a onda pró-morte está a ganhar mais espaço do que a sensibilidade à vida…na sua totalidade.

Tentemos, ainda que de forma abstrata, considerar a possibilidade de referendar a vida – entre a conceção e a morte natural – e de vermos diversos fatores não-aceitáveis dessa hipótese. Não basta aduzir o ‘endeusado’ tal tema da qualidade de vida para fazer da opção pela morte assistida uma imprescindível referência ideológica, pois muitas vezes quem, aparentemente, pode não manifestar essa tal qualidade de vida, à luz dos conceitos mais utilitários, talvez não seja compatível com a dedicação de outras pessoas que possam estar a precisar de mais atenção e de sincero cuidado.

Há, no entanto, na minha perspetiva, uma solene reserva para com o referendo sobre a eutanásia: uma grande maioria das pessoas – mesmo dos ditos praticantes mínimos – não subscreve a inquestionável defesa da vida humana, pois pela linguagem e, sobretudo, pelo comportamento há um ambiente bastante favorável para com a tendência eutanásica e uma derrota, em referendo, sobre a matéria tornaria o assunto enterrado – como aconteceu no aborto – enquanto a maioria sociológico/política para com a eutanásia, no parlamento, pode modificar-se, fazendo, assim reverter a matéria, quando as condições forem mais favoráveis…à vida.  

= Uma questão tenho e que me aflige: como foi possível passar com razoável facilidade a termos uma sensação de que há, no nosso país, uma maioria sociológica mais propensa para com a eutanásia? Que falhou por parte de quem tem a missão de proclamar a vida como valor? Não teremos andado mais a falar de coisas secundárias, deixando o essencial para espaço e oportunidade laterais? Não teremos andado mais a atender ao social – preocupados em dar o pão, mas não a educação – do que ao ético/moral? Dá a impressão que se quis moralizar, mas não formar as pessoas na sua consciência e na assunção das responsabilidades inerentes à vida…em todas as suas etapas de vivência.

Como dizia um prelado: a eutanásia não acaba com o sofrimento, acaba com uma vida! Ora, uma boa parte dos defensores da eutanásia fazem-no por pseudo-defesa dos direitos dos doentes, pois querem impor aos outros a sua forma de ver e de viver, mesmo que se esforcem por não sofrer. Atendendo à evolução dos meios técnicos e humanos postos ao serviço da saúde, seria aceitável que se quisesse facultar as melhores condições de médicas e assistenciais, mas não, uns tantos acham que esses meios devem ser usados para tirar a vida, mesmo que usando termos e expressões eufemísticas para dizer matar de forma irreversível.

Pior ainda é a tentativa de considerar o tema da eutanásia como se fosse um assunto religioso e não antes um assunto cultural e civilizacional. Estão, de facto, em confronto visões, entendimentos e comportamentos nos quais perpassam questões de âmbito ideológico, de antropologia e mesmo de postura onde Deus conta ou não. Será, por isso, essencial cada um de nós questionar-se sobre quem é e aquilo que anda por cá a fazer, respeitando os outros, sem lhes impor uma decisão não-desejada nem necessária.

Fique claro: embora seja contra o referendo, se este acontecer, direi: não à eutanásia…sempre!

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Dignidade e vida da pessoa…doente


«A vida há de ser acolhida, tutelada, respeitada e servida desde o seu início até à morte: exigem-no simultaneamente tanto a razão como a fé em Deus, autor da vida».

Ocorre, no próximo dia 11, o 28.º mundial do doente, sob o tema. ‘vinde a Mim, todos vós que andais cansados e oprimidos, que Eu vos aliviarei’ (Mt 11,28).

Na mensagem para este dia, o Papa Francisco apresenta-nos (sobretudo a nós cristãos/católicos) alguns aspetos, quando nos colocamos diante desta faceta da nossa vida – o ser/estar doente – e no trato para com os outros também eles a viverem idêntica situação de fragilidade.

Isto é (ou pode ser) tanto mais importante quanto está previsto para o dia 20 deste mês a discussão, no parlamento, de vários projetos de lei em ordem à almejada legalização da eutanásia. Não deixa ainda de ser significativa a coincidência, pois, nesse mesmo dia, celebra-se o centenário da morte da pastorinha de Fátima, Jacinta Marto, uma criança que morreu com quase dez anos, vítima da pneumónica espanhola que dizimou parte significativa do país…  

a) Passar pela experiência pessoal do sofrimento

«Só quem passa pessoalmente por esta experiência [do sofrimento] poderá ser de conforto para o outro. Várias são as formas graves de sofrimento: doenças incuráveis e crónicas, patologias psíquicas, aquelas que necessitam de reabilitação ou cuidados paliativos, as diferentes formas de deficiência, as doenças próprias da infância e da velhice, etc ...»

Com que importância temos de saber estar unidos aos que sofrem, cuidando e sendo cuidados. Se há vivência que nos humaniza é a do sofrimento, pois nos irmanamos como tanta gente que sofre e que procura sair desse fosso mais alentada e não derrotada. Será que vivemos o sofrimento de olhos postos em Jesus ou antes centrados em nós mesmos? Como educar para a cristianização correta do sofrimento?  

b) Comunhão de uns com os outros…em família

«Na doença, a pessoa sente comprometidas não só a sua integridade física, mas também as várias dimensões da sua vida relacional, intelectiva, afetiva, espiritual; e por isso, além das terapias, espera amparo, solicitude, atenção, em suma, amor. Além disso, junto do doente, há uma família que sofre e pede, também ela, conforto e proximidade».

A doença é sempre uma limitação e não pode ser o centro das questões. Por esta razão se fala, hoje, mais de pastoral da saúde e menos da doença. Embora seja algo de menos bom, podemos e devemos cristianizar a nossa forma de viver o sofrimento e em sofrimento. Certas expressões da nossa linguagem, porém, atraiçoam-nos, dado que dizemos: ‘estava a sofrer tanto, ainda bem que Deus o levou…’; ‘foi uma esmola ter morrido’…como se não pudéssemos crescer na maturidade pela vivência adulta do sofrimento!   

c) Sem cedências à eutanásia

«Queridos profissionais da saúde, qualquer intervenção diagnóstica, preventiva, terapêutica, de pesquisa, tratamento e reabilitação há de ter por objetivo a pessoa doente, onde o substantivo «pessoa» venha sempre antes do adjetivo «doente». Por isso, a vossa ação tenha em vista constantemente a dignidade e a vida da pessoa, sem qualquer cedência a atos de natureza eutanásica, de suicídio assistido ou supressão da vida, nem mesmo se for irreversível o estado da doença».

O Papa refere aos profissionais da saúde, onde inclui também os voluntários e tantos outros intervenientes, algumas linhas da sacralidade da vida, manifestando concordância na objeção de consciência quando tiverem todos de serem, efetiva e afetivamente, coerentes com o sim à vida e à pessoa.

Pelo que se pode enquadrar a reflexão do Papa Francisco para o 28.º dia mundial do doente pode ser uma boa oportunidade, dada aos crentes, para refletirem sobre a barbárie que os parlamentares portugueses irão cometer se aprovarem, como parece, a despenalização da eutanásia… será um grande retrocesso cultural e civilizacional cometido na linha de endeusamento dos critérios inumanos que percorrem o mundo…atual!

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Em queda…livre


Imensas coisas estão a acontecer que planam numa espécie de ‘queda livre’…

Desiluda-se quem ousasse pensar que estava a referir-me a uma tal formação partidária autoapelidada de ‘livre’, pois, pelo que lá se vê e ouve, o adjetivo não condiz, quanto seria desejável, com o substantivo…Diz o povo e com razão; quanto mais alto se sobe (ou quer subir), maior é o trambolhão ou a queda.

* Reparemos nos casos de justiça – denúncias, insinuações, acusações, tentativas de julgamento, condenações – e da comunicação social, nalgumas situações arvorada em detive, sob a alçada duma pretensa investigação. Com que facilidade se promove um delinquente cibernético/hacker em quase herói…só porque trouxe ilegalmente à luz do dia assuntos e coisas que interessavam a uns tantos ditos quase-impolutos/as… 

 * Por breves momentos olhemos para os tentáculos do fenómeno desportivo, com o futebol em particular, por entre tantas negociatas quem terá ainda capacidade para ser dizer incorrupto…dependendo do preço. 

* Campos como a saúde – e nem será preciso deixar-se tomar pelo pânico do coronavírus – ou a educação caem de uma forma tão abrupta que o lamaçal das intrigas será o palco mais do que previsível…à mistura com laivos de resolução adiada, por parte de quem tutela as áreas em apreço.

* Questões como a vida – não nascida, ainda não morta e a que pretende sobreviver – perdem importância no quadro dos valores – éticos/morais, sociais ou culturais – fazendo com que pareça mais fácil decidir quem morre (agora ou no futuro) do que quem há de ser digno de suplantar tantas das conjeturas e conjunturas da legislação e da ocasião. Não deixa de quase ser sintomático da desconformidade total que fautores do serviço à vida, como médicos e enfermeiros, entram na propagação deste clima anti-vida, reinante e inconsequente.  

* Espaços onde se exercia o mínimo de fé religiosa vão ficando vazios e menos agradáveis do que em ocasiões de antanho. A queda vertiginosa com que declinaram os praticantes faz (ou deve fazer) questionar os responsáveis, tanto da organização, como da difusão. O número de ateístas cresce a olhos vistos, senão na teoria ao menos na prática: só no nosso país serão já vinte por cento da população…com uma larga maioria a dizer que teve raízes cristãs.

* Um outro campo em progressiva degenerescência de queda livre é o das (ditas) artes – teatro, cinema, televisão, ‘stand up comedy’ em particular, rábulas e cançonetismo – pois o fácil recurso à ofensa – em especial com o recurso ao léxico religioso/cristão – denota encolhimento da imaginação, senão mesmo pelo estafado recurso a clichés nem sempre dignos e tão pouco respeitadores da prática religiosa/cristã alheia… O humor exige inteligência e capacidade de inovação, mas nos tempos que correm ela passou pelos autores/atores em maré de tempestade…improvisada!

* O modo como se enfrentam temas tão essenciais como a doença, a perda ou a morte, vai-se percebendo que a forma de estar, sobretudo nesses momentos, nem sempre questiona o como se vive, ficando numa certa apatia quase negacionista ou mesmo destruída pelo sem-nexo. Mais depressa do que seria desejável – digo desde uma postura de crente cristão – entramos em círculos vivenciais nem sempre articulados com uma cultura ou ética judeo-cristã. Dá a impressão que passamos, rapidamente, de um quase fideísmo acrítico para uma outra visão agnóstica pela indiferença…pessoal e social.  

= Como poderemos suster e até inverter esta catadupa de quedas em campos, espaços e situações onde já algo houve de bom e até de muito bom? Por onde se pode e deve começar a investir para que esta queda vertiginosa de qualidade dos intervenientes possa ser revertida? Ainda iremos a tempo de não cairmos na fossa total e mortífera?

Desde logo é preciso investir na descoberta e preparação de lideranças, pois sem pessoas capazes de porem os seus dons ao serviço dos outros andaremos a rastejar pela mediocridade. Urge elevar a qualidade daquilo que é feito e apresentado, não bastando entreter, mas questionar, educar, gerar (e não só gerir) cultura, onde os valores, princípios e virtudes sejam tidos em conta e não nos deixarmos explorar pela mera brejeirice e a malcriadez reinante. Temos de ultrapassar, urgentemente, essa nota medíocre do tanto vale o que tem interesse como aquilo que não presta, expurgando este sem medo nem receio. Temos de saber escolher entre a qualidade educada e a vulgaridade barata…até no preço.    

   

António Sílvio Couto