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segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Desmistificando a (pretensa) classe média


É recorrente ouvirmos, em Portugal, que a sacrificada com as medidas de austeridade é a ‘classe média’, que está a ser esmagada com impostos, que está a ser atingida nas suas diversas vertentes, que está em risco, que está quase a desaparecer....

Mas, afinal, que é isso de ‘classe média’? Quais são os critérios e as componentes para a definirmos? Quem faz parte dessa ‘classe média’? Quem são os promotores e os (possíveis) detractores da dita ‘classe média’? Como se entra ou como se sai da (possível) ‘classe média’?

- O que é a classe média?

Na Wikipédia apresenta-se a seguinte definição de classe média: «é uma classe social presente no capitalismo moderno que se convencionou tratar como possuidora de um poder aquisitivo e de um padrão de vida e de consumo razoáveis, de forma a não apenas suprir suas necessidades de sobrevivência como também a permitir-se formas variadas de lazer e cultura, embora sem chegar aos padrões de consumo eventualmente considerados exagerados das classes superiores. A classe média surgiu como uma consequência da consolidação do capitalismo e não antes dele devido aos fatores de segmentação social em camadas, resultantes do desenvolvimento económico; é um fenómeno típico da industrialização».

- Quem faz parte da classe média portugesa?

Em Portugal é considerado pertencer à classe média quem, ao nível do agregado familiar, tenha dois mil euros mensais de rendimentos. Se atendermos à vertente individual poderá ser considerado da classe média quem – mesmo no setor privado – ganhe cerca de setecentos euros mensais... Isto parece significar cerca de metade da população nacional!

- Certos critérios de pertença... à classe média

Pode intuir-se que os critérios de pertença à classe média são, sobretudo, os de natureza económica, incluindo tanto o fruto do trabalho como os manifestos rendimentos. Com base na definição descritiva supra citada poderemos ainda perceber que a capacidade de consumo tem uma larga afetação para se ser incluído ou excluído da (dita) classe média.

Ora, como emanação do capitalismo – que nem o socialismo e tão pouco o comunismo conseguiram debelar, antes parece que cuidaram em acentuar para uma acentuada e complexa estratificação social – a classe média é vítima e culpada de si mesma, isto é, alimenta e é explorada por quem dela se apropria ou a promove... para atingir os seus fins nem sempre claros nem honestos...

- Para um nível cultural mais do que (só) económico

Atendendo às contínuas referências para com a classe média, onde os valores económicos se sobrepujam, na maior parte das vezes, aos valores culturais e éticos (morais, psicológicos e espirituais) será de questionar como poderá esta franja – tão envolvente quão anódina – da população portuguesa ser valorizada mais pelo que é do que por aquilo que possuiu ou ambiciona possuir.

Muitos dos filhos, cujos pais eram/são da classe média – do operariado e de serviços públicos – já estão mais escolarizados, anseiando outros espaços de trabalho profissional e, na maior parte dos casos, até se deslocaram do local de nascimento – rural ou semi-industrial – para espaços urbanos ou para metrópoles com maior capacidade reivindicativa... Cresceu a capacidade e/ou obrigação de saber a razão de ser das coisas.

Temos hoje novas ferramentas para evoluirmos na avaliação dos fatos e dos momentos de afirmação dos que foram crescendo com sangue, com suor e (até) com lágrimas. Cada vez mais precisamos de saber enquadrar o nosso passado, numa adequada linguagem do presente e em crescente abertura ao futuro!    

 

António Sílvio Couto

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