Agora que parece que tudo, quase em manada, vai para férias – não consigo compreender porque todos têm de feriar em tempo de agosto e/ou do verão – há questões que podem e devem ser refletidas, se mais não seja para termos assunto para esse tempo que se deseja possa ser uma oportunidade de descanso.
1. Vejamos alguns dados disponíveis sobre o tema no quadro da união europeia (escrevemos com minúsculas por contraste com as pretensões em queremo-nos ver e em que vejam esta porção do Planeta como grande potência, que não o é de verdade) e com percentagens à nossa medida.
– Em 2022, mais dois milhões de pessoas na União Europeia não tinham dinheiro para ir de férias, em comparação com o ano anterior;
– Em França, onde, embora ainda abaixo da média da UE, quase cinco milhões de pessoas não puderam ir de férias;
– Na Irlanda, 14,8%, entre 2021 e 2022, era o número de pessoas entre a população ativa do país que não podiam pagar férias;
– Há 13 países onde a situação é pior do que a média de 14,6% do bloco, com a Roménia na cauda, com 36%;
– Cerca de metade dos trabalhadores europeus considera que o stress é comum no local de trabalho e que é uma das questões mais problemáticas em matéria de segurança e saúde no trabalho;
– 62% dos residentes da UE fizeram pelo menos uma viagem turística pessoal em 2022 e metade delas foram curtas e domésticas;
– Os alemães são os que gastam mais dinheiro em viagens internacionais, com 85,2 mil milhões de euros, seguidos de França, com 39,2 mil milhões de euros.
2. Recolhidos estes dados – segundo vários indicadores de entidades europeias ligadas ao mundo do trabalho e da economia – precisamos de olhar para a nossa realidade portuguesa, naquilo que tem de semelhante ou que possa ser mais específico. Desde logo se nos depara com a possibilidade ou não de que as pessoas possam ter férias em família e como família. Com efeito, nunca como agora se encheu a boca com a palavra ‘família’ e, dá a impressão, de nunca como até agora se fez tão pouco por esta realidade essencial da sociedade. Desde logo se deve explicar o que se entende por ‘família’ e de não nos servirmos do conceito que nos faça conveniência. Alguns entendimentos e práticas de ‘família’ são tão amplos, desconexos e complexos que melhor seria inventar outra terminologia para que se não de fale de forma igual daquilo que é, manifestamente, diferente. Veja-se a inclusão dos animais – de estimação, de companhia ou de proteção, nesse conceito de ‘família’. Certas tendências – mesmo do âmbito legislativo – deixam muito a confundir quem tenha da família um conceito mais humano e sob a conduta judaico-cristã. Dá a impressão que, sob a capa da confusão (assumida ou presumida), se vão tentando formas e fórmulas para desacreditarem a família, como célula da sociedade e vínculo de estabilidade…humana e cultural.
3. Muito mal vai um país ou uma economia se alicerçada só no turismo, vimo-lo aquando da recente pandemia (2020-2023). Ora, neste momento, o nosso tecido económico está fundado nesse aliciante, que ora pode ser lucrativo, ora poderá desabar em breves instantes. E, se quem conduz a política social e económica, tiver um mínimo de visão saberá que as apostas e propostas de investimento têm de ser continuamente aferidas, tanto aos objetivos, quanto às opções em cada momento. Olhemos, por isso, alguns dos aspetos dos tempos mais recentes: as poupanças dos emigrantes já não têm o mesmo significado nem o resultado; o investimento com fundos europeus já foram chão com resultados baratos; as grandes obras de regime foram… Ainda não aprendemos a lição de que ‘nem tudo o que reluz é ouro’!
4. Aquelas férias de promoção de estatuto social podem iludir durante algum tempo e uns tantos, mas depressa caem. Os lugares da moda passam e as deceções emergem. Verdade, a quanto obrigas!
António Sílvio Couto
Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.
terça-feira, 30 de julho de 2024
segunda-feira, 29 de julho de 2024
Provocantemente bacoco
A França laicista deu o melhor de si, quando, na abertura dos jogos olímpicos, nna sexta-feira, dia 26 de julho, quis incluir na dita abertura do evento apresentou uma rábula do quadro da ‘Última ceia’ de Leonardo da Vinci, usando uma drag queen ladeada de dançarinos...naquilo que queriam que fosse a réplica de uma passagem do deus grego do vinho e não uma alusão à cena cristã.
Passadas horas do acontecimento surgiram reações da paródia mais entendida como ato religioso cristão do que como encenação mitológica.
1. Por muito que desejem agora descartar-se da semelhança, aquilo que foi apresentado ofendeu quem é cristão e sobretudo quem não gosta de ver achincalhados os seus sinais e valores mais significativos. Num comentário simples e sincero um teólogo dominicano considerou que não mexeriam assim com Maomé. Nas reações espalhadas pelos diversos continentes gerou-se uma repulsa para com estes artistas que só olham às suas inspirações, pouco se importando com quem ofendem nas suas convicções.
2. De facto, a capacidade de ‘invenção’ artística tem vindo a denotar um vazio e um quase sem nexo, em muitos casos a roçar a ofensa e a provocação brejeira. Poderíamos considerar que esta aventura rocombolesca não passa de mais um episódio de mau gosto e de falta de qualidade. O recurso a elementos ‘lgtbq+’ são mais um degrau de quantos consideram que o cristianismo é visto como um factor de oposição às pretensões da ideologia de género, agora como que consagrado no contexto dos jogos olímpicos, como o foi já noutros eventos desportivos de grande expansão, como se deu no último mundial de futebol masculino... Pé-ante-pé se pretendem normalizar as exceções, querendo torná-las normais e recomendáveis.
3. A nota de repulsa dos bispos franceses, na manhã do dia seguinte à exibição daquela cena, dizia: “esperamos que eles entendam que a celebração olímpica se estende muito além das preferências ideológicas de alguns artistas”. Cá pela comentarice das nossas televisões logo emergiu a reação de uma certa senhora (não sei se merece este epíteto) a misturar este fait-divers dos olímpicos com as atrocidades da guerra em Gaza. Como se as coisas fossem do mesmo âmbito! Na sua douta intervenção quis trazer à liça outro quadro (‘a festa dos deuses’) que não o da última ceia. Por vezes nota-se – nesta como noutros comentadores das nossas televisões – uma razoável condescência ideológica, desde que coloque o cristianismo em situação depreciativa... Até quando teremos de aturar tais preconceitos?
4. Quem conhecer minimamente as condições históricas da evolução do cristianismo saberá que teve de enfrentar, tanto na cultura romana, quanto na civilização grega, confrontos idênticos a estes que estamos a vivenciar atualmente: a tendência ético-moral de descalabro familiar, os vários cultos idolátricos e panteístas, as vicissitudes políticas de quem se vendia e deixava comprar para estar no poder, um certo desmoronamento cívico de que os ‘jogos olímpicos’ eram uma espécie de hiato cultural com tempos ritmados pela aceitação de todos. Estamos – cristamente falando – um tempo de decadência e quase de insolvência do espiritual pelo materialismo. Desconhecer as causas não ajudará a combater as consequências: vivemos novamente numa época de ‘pão e jogos’ (panem et circenses), entretendo-nos como vulgaridades nem que para isso seja preciso depreciar os valores e os critérios com fundamento nas Escrituras Sagradas.
5. Não podemos deixar que tudo possa ser considerado igual. Se mexessem com símbolos e sinais de outros cultos religiosos, como os do islamismo, soaria outras reações. Precisamos de nos sentirmos ofendidos, defendendo os nossos sinais sagrados da fé cristã, onde a Última Ceia tem grande significado. Afinal, os traidores pululam noutras paragens. Até quando os vamos suportar sem nos salvaguardarmos do essencial?
António Sílvio Couto
sábado, 27 de julho de 2024
Temas de verão ou de devaneio?
Como quase todos os anos, numa espécie de forma cíclica, os incêndios, os programas de diversão e as festas (regionais, locais ou setoriais), a mobilidade (férias ou turismo, viagens ou coisas do religioso), os acidentes e suas consequências, as transferências de jogadores do futebol e não só (com verbas escandalosas e quase inconcebíveis), uma espécie de suspense das lides político-partidárias dentro de fronteiras…num faz-de-conta de que todos estão em ritmo de férias ou usufruindo delas.
Este ano há, no entanto, um acontecimento que deveria ser de sublime envolvimento de todos, pelo significado, abrangência e historicidade do mesmo: os jogos olímpicos, em Paris. Mais do que a competição, com os resultados apurados (uns bons e outros dececionantes), importa reportarmo-nos todos ao espírito de não-agressão da sua originalidade.
1. As temáticas do verão correm o risco de serem ofuscadas pela canícula e as apelidadas alterações climáticas… Vivendo em hemisférios diferentes quase nos esquecemos que outros estão na fase de inverno e sujeitos a condições climatéricas opostas às nossas. Por vezes falta-nos memória para compreendermos fenómenos da natureza, que deixamos perder pela velocidade a que nos querem ritmar.
2. Questões de teor mais político continuarão implacavelmente a ser notícia: as guerras na Ucrânia e no Médio Oriente, as eleições – só em novembro – nos Estados Unidos da América, os múltiplos conflitos no continente africano, ditos e factos de figuras, de personalidades ou de entidades… Nessa pretensa vivência global nem nos damos conta das tentativas globalísticas com que nos vão manipulando, a partir do nosso pequeno mundo. Há quem chame a este tempo de verão ‘silly season’ (literalmente: época ou estação palerma), isto é, em que as notícias são frívolas e ridículas para pessoas frívolas e sobre frivolidades… numa alusão a dar como importantes assuntos ou pessoas que de tal não têm nada…
3. O tempo de verão – como época de descanso e/ou de lazer, como etapa de reconfiguração pessoal ou familiar, como fase cultural e cívica – pode ter múltipla utilidade, assim soubéssemos aproveitá-lo. Com efeito, mais do que cuidar do corpo, pelos cuidados em fazê-lo bronzear ou de darmos mais atenção aos problemas da estética – essa ditadura de uma certa moda tipo questão iô-iô – seria, por certo, bem avisado dar espaço e oportunidade aos temas psicológicos e espirituais. Mal vai uma cultura ou uma sociedade se se limitar a cuidar e a dar promoção aos aspetos de índole meramente material, como parece ser a sociedade na qual, hoje, nos movemos e existimos. Enquanto virmos e sentirmos que as pessoas, na sua maioria, preferem o papel de embrulho ao conteúdo que é apresentado, estaremos a subverter a nossa identidade pessoal e comunitária.
4. Hoje como ontem os factos falam mais alto do que os argumentos e estes só servirão de alguma coisa, se explicarem corretamente aqueles. Mais do que um certo valor empírico podemos e devemos coadunar o que vivemos àquilo que pensamos, pois se for ao contrário corremos o risco de pensar como vivemos e não de vivermos como pensamos. Num tempo que se desenrola em grande parte movido por razões nem sempre acertadas com os valores do Evangelho, torna-se essencial discernirmos para onde vamos ou para onde queremos ir, tendo em conta que a água corre da fonte para a meta, numa simplicidade que essencialmente os simples captam, compreendem e vivem.
5. Num entendimento que seja sagaz e sábio deixaremos ser ajudados e ajudaremos quem de nós possa precisar a acertar com os critérios mais do Espírito do que da matéria, sem deixar que esta possa subjugar aquele, mas antes seja Ele a conduzi-la. Será que este verão poderá ser-nos útil para este processo de vida? Queira Deus que isto não seja um mero devaneio estival!
António Sílvio Couto
quarta-feira, 24 de julho de 2024
À procura do tempo certo
«Há um tempo certo para cada coisa; há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu: Tempo para nascer e tempo para morrer; tempo para plantar e tempo para colher; tempo para matar e tempo para curar; tempo para destruir e tempo para construir de novo; tempo para chorar e tempo para rir; tempo para ficar triste e tempo para dançar de alegria; tempo para espalhar pedras e tempo para ajuntar pedras; tempo para abraçar e tempo para deixar de abraçar; tempo para procurar e tempo para perder; tempo para guardar e tempo para jogar fora; tempo para rasgar e tempo para costurar; tempo para calar e tempo para falar;tempo para amar e tempo para odiar; tempo para lutar e tempo para viver em paz» (Ecl 3,1-8).
1. Diante deste texto das Sagradas Escrituras posso e devo rever-me muitas e inúmeras vezes. Mais forte me deu a necessidade ao ler uma frase do Padre Raniero Cantalamessa – que fez noventa anos de vida por estes dias, ele que é pregador da casa pontifícia quase há vinte e cinco anos e nos pontificados dos três últimos papas – com quem tenho aprendido muito em ensinamentos ao vivo, em várias oportunidades e lugares e pelos seus escritos abundantes e significativos. Dizia Frei Cantalamessa, reportando-se a Santo Agostinho – seu inspirador teológico – que, para se colocar “nos passos de Deus”, para se tornar consciente d’Ele, é preciso entrar no próprio coração. “Como Agostinho nos diz, se não voltarmos para dentro de nós mesmos, se não nos retirarmos um pouco da exterioridade, do barulho, não poderemos encontrar o Deus vivo”.
2. Num tempo ávido de sensações exteriores, ultra-sensoriais ou mesmo excessivamente hedonistas, torna-se essencial acolher as linhas-forças do texto do livro do Eclesiastes, numa tradução simples da força da Palavra de Deus em nós e no nosso interior mais profundo. Os paradoxos - contrastes e provocações - do autor sagrado: nascer-morrer; plantar-colher; matar-curar; destruir-construir; chorar-rir; triste-alegre; espalhar-ajuntar; abraçar-não abraçar; procurar-perder; guardar-lançar fora; rasgar-costurar; calar-falar; amar-odiar; lutar-viver em paz. São catorze antíteses com forte expressão da sensibilidade humana, mais do inteletual ou racional. Aqui podemos encontrar a força da emotividade e de tudo nos faz ser para além da vertente dita da inteligência.
3. Precisamos de considerar a nossa – pessoal ou comunitária – conduta muito para além daquilo que se pode percionar ou mesmo quantificar. A dimensão QE – coeficiente de emotividade – torna-se cada vez mais essencial para nos conhecermos e nos darmos a conhecer no relacionamento com os outros. Não será por aqui que se pode medir a maturidade das pessoas? Não será, neste contexto, que todos temos algo a receber e um pouco a ‘ensinar’? Por vezes o silêncio é a melhor escola!
4. Retomando chavões que nos podem servir da ‘exame de consciência’ talvez possamos aqui incluir essa análise das etapas de vida da pessoa: até aos vinte anos posso tudo (a força física); dos vinte aos trinta - sei tudo (o conhecimento sabichão); dos trinta aos quarenta - tenho algo a aprender (vamos reconhecendo que o saber é de vida e não o da instrução); depois dos cinquenta - não sei nada (a abertura à sabedoria)...
5. Queira Deus que sempre cresçamos na humildade pela verdade!
António Sílvio Couto
segunda-feira, 22 de julho de 2024
Desmotivação: razões ou desculpa?
É algo que, desde muito novo, me interpela: quais as razões que nos levam a vermos pessoas a desmotivarem-se, quando, em tempos foram tão empreendedoras e com múltiplas ideias? Foi o tempo que as fez descair ou houve interferências não-explicáveis? Poderemos encontrar as causas sem com isso arranjarmos desculpas? Será possível assumirmos os nossos erros, falhas e pecados sem termos de envolver outros, direta ou tacitamente? A idade fará amadurecer ou ajudará no risco de desistir?
1. Conheci pessoas – digo-o, sobretudo, em referência a homens da Igreja – para o bem ou para o mal, que eram focos de dinamização e que com o passar do tempo e com a idade foram descaindo não nas forças só físicas, mas nos aspestos de dinâmica. Muitos deles foram pioneiros e quase-inovadores em certas áreas e matérias e, progressivamente, vimo-los a estiolar, entrando numa rotina algo atroz. Quantas vezes as dificuldades – interiores e exteriores – colocadas pelos outros foram ou são as barreiras mais ferozes para a prossecução de ideais.
2. Cada um de nós é quem é, tendo em conta as suas circunstâncias. Diz-se com alguma acuidade: mais vale cair em graça do que ser engraçado. Com efeito, este critério é suscetível de múltiplas diversidades, sendo a de coincidência de sucessões ser uma das mais simples. Por exemplo: alguém que era belicoso e criava atritos com os outros poderá ter como sucessor um outro menos dado a conflitualidades e este último terá melhor aceitação, mesmo que o anterior fosse mais capaz...humana e inteletualmente.
3. Neste contexto deixamos, mais uma vez, a estória dos anos de vida do homem/mulher:
Diz-se que, quando Deus criou o burro lhe queria dar trinta anos de vida sobre a terra, mas o burro só quis ficar com dez anos. Por seu turno, quando criou o cão, Deus quis conceder-lhe vinte anos de existência, mas o cão também só quis ficar com dez anos. Por outro lado, quando criou o macaco, Deus quis dar-lhe trinta anos sobre a terra, mas o macaco bastou-se com vinte anos.
Ao criar o homem, Deus disse-lhe que também só lhe dava trinta anos sobre a terra. Mas o homem retorquiu: Senhor, trinta anos é pouco. Dai-me os anos que os meus anteriores recusaram: os vinte anos que o burro não quis; os dez anos que o cão recusou, também os dez anos que o macaco rejeitou...e, assim, poderei viver, pelo menos, até aos 70 anos.
E Deus concordou. Por isso, até aos trinta anos o homem vive o tempo que Deus lhe concedeu. Dos 30 aos 50, é como o burro, carregando fardos para sustentar a família. Dos 50 aos 60 anos, é como o cão, passa a tomar conta da casa. Dos 60 aos 70, já cansado, vive de casa em casa, entre filhos, se os tiver, fazendo gracinhas, de quem todos riem, é como o macaco.
4. Desculpando a consonância com a idade de cada um de nós poderemos fazer um exame de consciência sobre a nossa conduta neste tempo que vivemos sobre a Terra, pois muito daquilo que nos é dado viver tem (ou pode ter) algo em conta com as expetativas com que nos conduzimos, mesmo no nosso dia-a-dia: guiados mais para a meta do que desde o ponto de partida temos mais de olhar para o que há ainda a percorrer do que ao já andado... o caminho se faz caminhando!
5. Quando se entra numa nova fase da vida em razão da mudança de espaço ou assumindo outras tarefas, é importante situar-se quanto aos lugares e às pessoas que Deus coloca no nosso caminho: são sempre sinais e guias da nossa caminhada.
António Sílvio Couto
quarta-feira, 17 de julho de 2024
Aprender a construir Igreja (26 anos e dez meses na Diocese de Setúbal)
Neste dia em que a diocese de Setúbal dá início à celebração dos cinquenta anos de ser criada, deixo um breve depoimento/testemunho da minha passagem nos últimos anos em contributo humilde e sincero.
Sem pretensão alguma de promover seja o que for ou seja quem for, tão somente gostaria de partilhar estes anos de vivência humana, cultural e mesmo sacerdotal entre os trinta e oito anos de vida e os agora sessenta e cinco... tendo passado mais de metade do tempo como padre nesta diocese de Setúbal. Recordo bons e benéficos momentos, mas também alguns duros e de difícil gestão, humana e espiritual... Estive ao serviço com os quatro primeiros bispos da Diocese de Setúbal... como pároco, vigário forâneo, membro do conselho presbiteral e do colégio de consultores.
* Junto ao mar (13 anos menos um mês, em Sesimbra)
Simbolicamente entrei em Sesimbra no dia de S. Francisco de Assis (4 de outubro) e foi sobre a sua oração da paz que proferi as primeiras e únicas palavras nesse dia.
À época decorria a ritmo bem acelerado a preparação da ‘expo98’, onde era tratado o tema dos oceanos: entrei nas lides disso que era o ‘apostolado do mar’, colaborando com o diretor nacional e entrando num assunto que me marcou no ser e no fazer... mesmo depois desse acontecimento cultural e tendo assumido, entre 2008 e 2014 a responsabilidade de diretor nacional.
Ocorria ainda o triénio de preparação para o ‘Jubileu do ano 2000’. Isso foi motivação para desenvolver as ‘conferências quaresmais’, iniciativa que reuniu, durante treze edições, quase oito dezenas de figuras da Igreja, da cultura e mesmo da vida social. De facto, foi pela formação – em reuniões e pela escrita – que investimos e fomos ganhando a simpatia dentro e fora da Igreja. Cheguei a escrever, em simultâneo, em três jornais que se publicavam na região, alargando o âmbito a outros espaços geográficos e culturais Tentando reorganizar as forças fui percebendo que havia condições para ir mais além, dada a recetividade das pessoas e o acolhimento às propostas apresentadas: participar com um grupo da igreja nas marchas populares, incentivar o enfeite do adro pela mesma ocasião...
Numa localidade onde havia ‘os de cima? (da igreja) e ‘os de baixo’ (da capela), foi preciso algum tato e tempo para unir as duas sensibilidades e fazer uma só paróquia, onde a devoção ao Senhor Jesus das Chagas era (é) charneira social, cultural e espiritual de todos e de cada um. Que dizer do tempo de novena e da procissão a 4 de maio! Era o grande momento humano e espiritual!
Umas das mais significativas iniciativas foi o ‘Curso alpha’, que no espaço de três anos cativou mais de meio milhar de pessoas para a participação e frequência da Igreja.
* Riba Tejo (14 anos menos um mês, na Moita)
A 29 de agosto de 2010 dei entrada na Paróquia da Moita: cerca de trinta quilómetros de distância, mas com grandes diferenças do meio e das pessoas. A contra-gosto tive de aceitar uma paróquia que tem centro paroquial – coisa pouca para quem não foi preparado para ser gestor e tão pouco ‘patrão’! Mesmo sem grande conhecimento chegava a uma paróquia onde tinha havido um conflito envolvendo o agrupamento dos escuteiros, que, por sinal, estavam noutra paróquia. Soube mais tarde que o senhor Bispo quis colocar-me na Moita para derimir as contendas como tinha – segundo ele – acontecido em Sesimbra. Decorrido um ano, em 2011, os escuteiros tinham voltado ao contexto paroquial normal.
Acreditando que as propostas feita na paróquia anterior podiam resultar na Moita ainda propus as ‘conferências quaresmais’, dois anos apenas; as reuniões de preparação da liturgia e de formação cristã; as células paroquiais de evangelização... Numa tentativa de reflexão e de aprofundamento – os três centros de culto são todos de devoção mariana – fui aproveitando sobretudo o mês de maio para, em linguagem simples, tocar aspetos de orações a Nossa Senhora e também para explicar e organizar, dentro de uma certa lógica, as procissões, todas elas com dezenas de imagens em deslocação.
O tempo da pandemia – março de 2020 e maio de 2023 – transtornou ainda mais as ténues esperanças de tentar uma edição do ‘curso alpha’...
Na vertente do centro paroquial goraram-se as tentativas de construção de um novo lar, mesmo tendo sido contemplados com o PRR, mas cujos montantes atribuídos ficavam aquém dos custos... Outros o farão!
Em resumo:
Ao longo destes anos na Diocese de Setúbal, tanto em Sesimbra como na Moita, tentei vivenciar sob duas pistas de orientação: não me verem a correr como atarefado e sabendo digerir as questões – fossem quais fossem – refletindo e escrevendo – não deixando transparecer, nas palavras ditas (particularmente na liturgia), os possíveis azedumes íntimos nem as ‘naturais’ agruras pessoais.
Tive a graça de ter acesso à possibilidade de submeter alguns textos para publicação: na Paulinas Editora (20 títulos, desde 2007), na Paulus (dois títulos), na Editorial AO (dois títulos) e vários outros (num total global de mais de quarenta títulos) ainda sob a responsabilidade de associações e órgãos de comunicação social.
Sinto e rezo: depois de terdes feito tudo o que vos foi mandado, dizei: somos servos inúteis, só fizemos o que devíamos fazer!
António Sílvio Couto
segunda-feira, 15 de julho de 2024
Novos na Europa, velhos na América?
Numa espécie de quase contrassenso vemos que na Europa – concretamente em França – os políticos concorrentes às últimas eleições andavam abaixo dos trinta anos, enquanto nos Estados Unidos da América os antagonistas à Casa Branca estão na barreira dos oitenta anos.
Num tempo em que a senectude é mais motivo de preocupação do que de júbilo ver a surgir ‘rapazes’ novos a candidatarem-se em França torna-se como que uma ousadia, tanto mais que o ‘inverno demográfico’ está a calcinar a velha Europa, cheia de tiques e de mazelas de uma decrepitude crescente.
1. Há dados que nos devem fazer refletir séria e urgentemente.
Em 1923 a esperança média de vida em Portugal era de 35 anos. Já em 2020 havia 2940 pessoas com idade acima dos 100 anos. A população idosa está a crescer mais de dois por cento por ano desde 2019. O número de pessoas com mais de 65 anos é agora superior aos 2,5 milhões. Um milhão de pessoas, no nosso país, vive sozinha e mais de meio milhão são idosos.
Há mais mulheres que homens, sendo que a partir do grupo etário dos 35 aos 39 anos as mulheres estão em maioria e que quanto maior for a faixa etária mais se verifica esta tendência: duas em cada três pessoas com mais de 84 anos é mulher.
2. A longevidade coloca várias questões: umas boas e outras bem mais difíceis de resolver. Se viver muitos anos é resultado de melhores cuidados de alimentação, de saúde, de habitação e mesmo de maior consciência das questões humanas e culturais, isso mesmo traz consigo problemas de sustentabilidade dos mesmos recursos de saúde, de cuidado com os mais velhos, de capacidade em que, num futuro próximo, haja meios de segurança social para todos...
3. Nota-se algum incómodo em certos setores da sociedade com este problema de se estender no tempo a vida de uma maior parte da população na medida em que surgem novos problemas, que não estavam previstos no guião de muitas subculturas. Atendendo à idade da (dita) reforma ou aposentação continua-se a pensar em critérios em que as pessoas morriam mais cedo e não era atingida a idade por agora vivida. Que irão fazer pessoas reformadas aos sessenta e cinco anos, se ainda têm capacidade de trabalhar? Naturalmente poderá ser o de encontrar outro emprego onde ocupem o seu tempo e isso lhes renda proventos maiores a curto e a médio prazo.
4. Será que este prolongamento da longevidade tem correspondência no interesse das populações mais novas? Não poderá acontecer o agravamento de um fosso ainda maior entre ‘novos’ e ‘velhos’? Segundo dizem, será a que a geração melhor preparada pela instrução já se apercebeu das responsabilidades – cívicas, culturais, de segurança social ou de saúde, ao nível espiritual – sobre os ‘seus’ mais velhos? Até que ponto os mais novos cuidam dos mais velhos, sabendo que estes são a marca do seu futuro garantido?
5. De facto, a leitura extrema (ou mesmo extremada) entre franceses e americanos pode e deve fazer-nos refletir, pois dessas duas culturas de um de do outro lado do Atlântico sempre nos vieram as tendências de caminho na nossa cultura ocidental. Se uns acentuam a procedência sobre os mais velhos, outros já o fizeram e agora surgem novos rostos para a interpretação da conduta dos povos. Como temos de estar atentos não às modas – políticas, ideológicas ou culturais – mas ao sentido por onde corre a História, nisso a que alguns classificam como a ‘filosofia da história’, isto é, os meandros por onde Deus nos conduz e O percebemos a passar.
Assim o consigamos discernir, agora!
António Sílvio Couto
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