Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



domingo, 3 de maio de 2020

Do Costa (Afonso) ao Costa (António)



O apelido ‘Costa’ recorda-nos tantas e tão veneráveis figuras que intervieram por – boas, más ou desastrosas – razões na nossa história coletiva.

Excluímos deste plano de observação tantos ‘costas’ ilustres, em imensos campos de trabalho e de realce, variadíssimos que se destacaram no desporto ou na vida artística, na dimensão cultural e cultual… e uma infinidade de anónimos que fizeram da história um lugar de vida, de compromisso e de feitos em razão dos outros…

 O ‘confronto’ entre o Afonso e o António nada tem de rivalidade, antes mais parece que, decorrido um século e tal, podemos encontrar linhas de afinidade, vendo no do passado perspetivas para o do presente…sem outro objetivo que não seja o de construir boas leituras. Se queremos perceber alguns pontos de contato poderemos ler e aprofundar aspetos menos bem atendidos… tal a velocidade em que temos andado envolvidos. Pior, um já morreu (1937) e o outro ainda vive e, possivelmente, por muito tempo ainda.

= Breves pinceladas de afinidade:

* Afonso foi eleito, em fevereiro de 1900, deputado em razão de uma peste bubónica que atingiu o Porto entre o verão de 1899 e a primavera de 1900… António tem estado à testa do combate à pandemia do ‘covid-19’ desde o final do inverno do ano de 2019 e talvez até ao verão de 2020;

* Afonso ocupou o ministério da justiça e dos cultos, tendo-lhe sido dada a alcunha de ‘mata-frades’ pela legislação laicista que mandou publicar – lei da separação do estado das igrejas (1911) – bem como outras atitudes antirreligiosas que tomou, tal como os confrontos que provocou com a hierarquia da Igreja católica do tempo… tendo ‘profetizado’ que acabaria com a religião, em Portugal, no espaço de duas gerações… António conseguiu, junto do episcopado português, silêncio, contenção e obediência às regras civis de saúde, por ocasião da pandemia do ‘covid-19’, reduzindo o culto a atos de transmissão televisionada e com os templos fechados às assembleias religiosas…Onde estão os ‘barrosos’, os ‘vieira de matos’ e os ‘mendes belo’ do nosso tempo, nas cátedras episcopais?

* Afonso conseguiu conter o défice orçamental e equilibrar as finanças públicas, como ministro acumulado do setor (1913-1914), com um saldo só atingido, na história do país, com A. O. Salazar (1932)… Foi sob a governação de António que se deu o maior saldo das finanças públicas, em 2019, logo, rapidamente, afundado com a crise do ‘covid-19’ e a caminho daquela que muitos apelidam de maior receção nacional… mas como ainda estamos no olho do furacão não se vislumbra já o efeito total…

= Será que estes três pontos de convergência factual fazendo destes dois ‘costas’ alguém muito especial na nossa história? Os episódios – peste, religião e economia – serão suficientes para os equiparar? Que marca de diferença deixarão, com tanto tempo de distância e em épocas tão distintas? Usando armas diversas, atendendo mesmo aos tempos de vivência, os efeitos poder-se-ão prolongar em consistência, sabedoria e proveito de todos?

= Vejamos, parcelarmente, os campos de afinidade e tentemos colher do passado (Afonso), perspetivas de futuro (António):

- peste/vírus – algo funesto fez com que se destacassem, correndo o risco de poder ser visto como a construção do futuro sobre a podridão, a desgraça alheia ou o tenebroso… No entanto, temos de compreender que é nas crises onde se destacam os bons ou os ruins, os honestos ou os oportunistas, os sábios ou os exploradores da ignorância dos demais. Diz o adágio latino: ‘asinus asinum fricat’ (um burro coça outro)!

- religião – essa força que move multidões mais pela fé do que pela crença, quase sempre foi espaço para que se manifestem as conjeturas ideológicas, nem sempre claras e às claras. À provocação do Afonso, Deus respondeu, em Fátima, com um novo élan religioso e vigor de fé. Será que iremos descobrir novos sinais de fé adulta após esta crise que atingiu parte da quaresma e o tempo pascal deste ano litúrgico? Corremos o risco de ficarmo-nos na ‘religião de sofá’, acomodados às pantufas de prática religiosa televisionada… o futuro dirá quais os resultados! Não andaremos a reduzir-nos ao menos mal sem horizontes nem clareza?

economia – isso que faz mover o mundo entrou em colapso, quando se tinha atingido o sucesso este esfumou-se em menos de um mês e a austeridade virá, mesmo que clamem contra ela… Despertai!  

 

António Sílvio Couto

sábado, 2 de maio de 2020

Todos somos ‘trabalhadores’


À semelhança do que vem acontecendo com a efeméride do ’25 de abril’, assim, por ocasião do dia um de maio, uns tantos julgam-se donos e senhores do ‘dia do trabalhador’… O pior é que são os mesmos que se consideram proprietários de algo que faz parte do património comum da humanidade e não se vende às fatias em regime de feira… Além de indecente, esta apropriação é desonesta, abusiva e mesmo antidemocrática.  

= O dia um de maio como ‘dia do trabalhador’ remonta ao dia 1 de maio de 1886, quando uma greve foi iniciada na cidade norte-americana de Chicago, com o objetivo de conquistar condições melhores de trabalho, principalmente a redução da jornada de trabalho diária, que chegava a 17 horas, para oito horas. Por seu turno, a ligação a São José, foi realizada pelo Papa Pio XII, em 1955, quando instituiu a festa de ‘São José, operário’, comemorada também no 1.º de maio,  dia internacional dos trabalhadores.  

= Embora seja inadequadamente visto e vivido sobretudo como um dia de luta de alguns setores mais radicais, temos visto que as forças (ditas) de esquerda se têm assoberbado da data como se fosse um privilégio do seu campo ideológico, enquanto não há razões para que se afunile esta visão e tão pouco a sua vivência. Como dia que pretende unir toda a população não é, minimamente, aceitável que uns tantos reduzam o ‘dia do trabalhador’ a uma espécie de fetiche setorial…com marca e patente! 

= Ora, este ano, em maré de pandemia, o assunto da vivência do ‘dia do trabalhador’ revestiu outras proporções ainda mais ridículas, pois para ser levado à rua seria necessário criar condições excecionais ou entrar em transgressão. Aparentemente o modo como foi tratado o assunto pela confederação dos sindicatos mais à esquerda – onde pontificam nos seus quadros dirigentes de partidos desse espectro ideológico – deu a impressão de ter orquestrado a questão de modo a ludibriar as autoridades: o espaçamento entre as pessoas, a forma como se mascararam ou até o jeito como foi mais ou menos organizado…deixou a tal impressão de cumprir o ‘estado de emergência’ e o confinamento ao concelho de residência…No entanto, deixou escapar – com a conivência das autoridades policiais e politicas – a categoria de excecionalidade que outros setores não usufruem nem têm a cobertura por idêntica negligência. Mais uma vez se notou que há cidadãos com categorias diferentes, dependendo da cor do cartão partidário ou sindical… 

= Olhemos, então, brevemente para o corpo de doutrina da Igreja católica sobre este campo concreto do trabalho. A designada ‘doutrina social da Igreja’ (DSI) comporta dezanove encíclicas, desde a ‘Rerum novarum’ do Papa Leão XIII (1891) até à «Laudato sí’ do Papa Francisco (2015).

«A doutrina social da Igreja desenvolveu-se no século XIX por ocasião do encontro do Evangelho com a sociedade industrial moderna, suas novas estruturas para a produção de bens de consumo, sua nova concepção da sociedade, do Estado e da autoridade, suas novas formas de trabalho e de propriedade» – refere o Catecismo da Igreja Católica, 2421.

Os temas são muito diversificados: pessoa humana – dignidade, direitos e liberdades; família e paz; sistema económico – trabalho, iniciativa privada e bem comum; princípios da subsidiariedade e da solidariedade; bens da natureza – cuidado, preservação e defesa do meio ambiente; desenvolvimento integral dos povos e justiça social, etc.

Centramos a nossa atenção no tema do trabalho e podemos elencar alguns dos grandes e significativos documentos da DSI e a sua contextualização. O papa Leão XIII (1891), sentindo a urgência dos novos tempos e das “coisas novas” promulgou a encíclica ‘Rerum Novarum’. A ela seguiu-se a encíclica ‘Quadragesimo anno’, de Pio XI em 1931. O papa João XXIII publicou, em 1961, ‘Mater et Magistra’ e Paulo VI a encíclica ‘Populorum Progressio’, em 1967, e a carta apostólica ‘Octagesima Adveniens’, em 1971... sem esquecer o que o Concílio Vaticano II, na Constituição pastoral ‘Gaudium et spes’ (1965) tratou este tema do trabalho de modo longo e profundo. Da sua parte, João Paulo II sobre o tema da “questão social” e do trabalho em particular, publicou três encíclicas: ‘Laborens exercens’ (1981), ‘Sollicitudo rei socialis’ (1987) e ‘Centesimus Annus’, em 1991, pouco tempo depois da queda do Muro de Berlim e do colapso do regime comunista na Europa de Leste.
A Doutrina Social da Igreja foi apresentada de modo sistematizado e orgânico, em 2004, no ‘Compêndio da Doutrina Social da Igreja’, fruto de trabalho do Pontifício Conselho Justiça e Paz.

Efetivamente talvez nos falte a nós, católicos, um estudo suficiente sobre este tema do trabalho naquilo que a Igreja nos ensina e não andaríamos a manquejar, por entre soluções que já faliram e que de futuro só apresentam conceitos, recursos e com armas do passado, que não volta mais…     

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Aprender a lidar com um ‘novo normal’


Depois daquele bacoco, inócuo e utópico desejo – ‘vai ficar tudo bem’ – começamos a dar passos titubeantes para aprendermos a lidar com isso a que começam a chamar de ‘novo normal’…

Ao eufemismo idílico de que o ‘arco-íris’ nos guiaria, temos de saber como vai ser a nossa vida: onde o que era, acabou e em que aquilo que tínhamos por adquirido não mais voltará. O nosso existir não se constrói com rosinhas e abracinhos, mas edifica-se com pessoas capazes de trilharem a senda da mudança, seja ela mais ou menos radical, numa simbiose entre a virtude (de ‘vir, viris’, força, homem) e a capacidade de saber interpretar as coisas sem laivos de preconceitos…baratos e/ou de circunstância.

Desde logo será preciso saber o que é isso de ‘normal’, pois, a simples condição de cada um ‘sair’ ou de ‘estar em casa’ modificou-se radicalmente. Estamos numa nova configuração de vida, em que tudo deixou de ser como era. Por breves – ou poderão ser ainda mais longos – instantes estamos em suspenso. A liberdade não é mais – nem teoricamente nunca foi – fazer aquilo que se quer para passar a conjugar-se com a determinação de atender àquilo que é melhor para os outros, incluindo para o próprio.

Palavras como ‘confinamento’, ‘vírus’, ‘pandemia’, ‘emergência’ ou ‘calamidade’… Gestos e sinais como restrições à saída do concelho de residência ou à mobilidade mínima…Notícias constantes e absorventes sobre a evolução da crise… Tudo isto veio modificar o nosso dia-a-dia há cerca de dois meses e deixará rasto por longos e largos tempos, alguns conjeturam que será por anos. 

= Como se vai repercutir este ‘novo normal’ na vida de cada um de nós? Que teremos de corrigir para que haja mudança mais estrutural do que conjuntural? Estaremos disponíveis para prescindir de tanta coisa que achávamos imprescindível? Não seremos tolhidos na mente pelo condicionamento nos movimentos? As empresas – maiores, médias ou pequenas – terão meios para continuaremos a sobreviver aos abalos que sofreram por estes dias?

Estas e tantas outras questões poderemos colocar de modo a sabermo-nos posicionar neste novo xadrez de vida, onde temos de saber estar mais em atenção aos outros do que aos nossos (egoístas) interesses. Em muito daquilo que antes nos ocupávamos estava como que a tentativa de satisfazer algo que nos levou a acumular regalias e direitos, benfeitorias a qualquer preço e que, bem depressa, ruíram neste contexto de modificação do modo de ser e de estar, relativizando tudo e o resto.

Vemos, cada vez mais, crescer – assim o cremos e o desejamos – o respeito pelas pessoas, se bem que muitas não passem de números de infetados, de potenciais doentes, de portadores do vírus ou até de vítimas – contadas às centenas e aos milhares – deste surto silencioso, incolor e sem rosto, mas atroz nos seus efeitos.

Na contingência posta a nu podemos ver quanta coisa, afinal, se esboroa em poucos momentos. Quantos projetos se desvanecem por entre tantas incertezas de quem será a próxima vítima. Quantas prosápias de gente sem inteligência e lenta em compreender se apagam num ápice e sem quase deixar memória.

Vemos proliferar valas comuns em tantos países, tal a avalanche de falecidos. Sentimos a dor do luto não-feito em tantas famílias apanhadas no turbilhão deste fenómeno. Consideramos de uma tristeza marcante quem não alimenta qualquer esperança.  

= Está na hora de aprender este ‘novo normal’ do qual ninguém tem lições a dar, pois tudo é novidade no conteúdo e na forma. Com humildade deixemo-nos ensinar, partilhando o que vamos descobrindo às apalpadelas…psicológicas e espirituais.

Não, não vai ficar tudo bem…

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Telescola: novo ensino sem intermediários?





Para dar resposta ao confinamento exigido pelo ‘covid-19’ foi ressuscitado, recentemente, um método de ensino que vigorou no nosso sistema de aprendizagem durante alguns anos: a telescola, isto é, a receção de aulas através da televisão.
Se entre 1965 e 1987 [final do governo de Salazar e dois anos após a entrada na CEE], esse modo de ensinar tinha um objetivo, o agora reimplantado tem outro. Naquela época – antes, durante e depois do regime caído em 25 de abril – esse sistema coexistia com o do ensino presencial e era supletivo para quem não conseguia descolocar-se aos postos de ensino por dificuldades muitas delas económicas, a telescola reproposta agora tem outras caraterísticas.
Embora tenham existido outras experiências ligada ao ensino superior – a lecionação do ano propedêutico e também a universidade aberta – em versões de estudos televisionados, entre 1988 e 2013, vamos, no entanto, centrar a nossa atenção nos dois projetos relacionados com o ensino obrigatório.
* A telescola nos anos 60 e 80 dirigia-se aos alunos do quinto e sexto anos de escolaridade, portanto, do ciclo preparatório; o projeto =estudoemcasa envolve desde o 1.º até ao nono ano de escolaridade
* Naquele tempo a telescola era um recurso para quem tinha dificuldades de ir à escola, tanto financeiras como de transporte…chegando às zonas rurais e franjas da sociedade em expansão; agora a situação deve-se à necessidade de não haver contato entre as pessoas devido ao perigo de contágio pelo vírus;
* Naquele tempo as lições eram ministradas por um professor tutelar da disciplina, através de aulas gravadas em estúdio e acompanhadas por um outro professor em sala de aula (mais em escuta), segundo as duas seções de aprendizagem, letras ou ciências…em não muito poucos casos um dos professores-monitor era o pároco da freguesia, com o que tal significava sobre os parcos proventos económicos que auferia; agora não há sala de aula nem professor que acompanha, tudo vai direto ao aluno à distância…em casa, estando o (pretenso) estudante diante da televisão, sem ser perturbado nem sendo perturbador do aproveitamento, em aula.
= Atendendo às potencialidades das novas comunicações temos de reconhecer que foi possível pôr em marcha um plano de ensino à distância que a todos orgulha e que faz crer que somos capazes de fazer melhor do que desdenhar das faculdades alheias. Temos mais do que capacidades de desenrascanço. Já na primeira experiência da telescola nos anos 60 a 80 do século passado fomos considerados pioneiros na arte de fazer chegar a educação aos mais desfavorecidos. Agora, em menos de duas semanas, foi posto em marcha um processo de resposta às necessidades criadas pelo ‘covid-19’. Os nossos alunos e professores podem continuar o mecanismo de ensino-aprendizagem, usando tecnologias inovadoras (ou serão as suas ferramentas habituais?) em ordem a sermos eficientes na forma e com bom conteúdo.              
= Embora este panorama possa parecer simbólico/cultural – atingindo para já o último período do ano letivo – poderemos formular algumas questões um tanto preocupantes:
- a função de professor – como é conhecida e mesmo reconhecida – continuará a ser a mesma? O silêncio dos sindicatos parece ensurdecedor e comprometido, senão com a solução ao menos com a razoável confusão;
- Os alunos/estudantes não terão um novo estatuto e, com isso, possam adquirir mais autonomia em relação a quem ensina em sala de aula? Na época do ‘touch’ parece estar a surgir uma nova geração em aprendizagem.
- Os espaços de aquisição de conhecimentos não poderão ser diferentes desses que tínhamos até agora? Dá a impressão que os casos de mau comportamento na sala de aula podem ter outra solução…
- Não estará a surgir um novo modelo de ensino, que corre o risco de ser mais ideológico do que o das aulas presenciais? De uma forma mais generalizada poderão ser veiculados valores e princípios tendencialmente mais de teor estatizante, com marca mais agnóstica ou até sob a alçada de um saber humanista sem referência à divindade…isto sem esquecer essa outra visão sem valores com que tanta gente se rege, se conduz e vive.
= Sem recurso às mais básicas utopias abrilinas poderemos construir um país/nação onde todos possamos contribuir para uma sociedade mais justa porque mais fraterna, mais solidária porque mais atenta aos outros e não aos nossos vis interesses, pessoais ou de grupo. Assim aprendamos a caminhar de olhos postos na meta e não aferrados ao ponto de partida…


 António Sílvio Couto





sábado, 25 de abril de 2020

Há algum ‘milagre português’…nestas coisas do vírus?


Quem ouviu o presidente da república a falar na convocação para o 3.º ‘estado de emergência’ ter-lhe-á ficado no ouvido a referência em que ele acentuou o ‘milagre português’, naquilo que ele interpretava como a chave do (aparente) sucesso – ou melhor, no tão não-pior cenário – de combate à disseminação do ‘covid-19’ entre nós…

À boa maneira de outros momentos da nossa história coletiva há uns tantos mais habilidosos na arte do disfarce que procuram rejeitar qualquer alusão ao divino, seja naquilo que for e, particularmente, quando as coisas não forem tão dramáticas como seria expetável ou – pasme-se a subtileza! – na conveniência das suas ideias antirreligiosas. 

= Considero do mais elementar da nossa condição social e cultural denunciar que há forças – umas assumidas como braço dos aventalistas/maçónicos, outras como projeção de vários esquerdismos (marxistas, trotskistas e anarco/amoralistas) – para as quais lhes custa, minimamente, considerar, ao menos como hipótese, que não conseguem explicar logicamente o que lhes escapa…acham-se donos de tudo e do bastante, reduzem quem não seja como eles ao irrazoável de não-fé. É vê-los a pulular em programas televisivos, arvorados em intelectuais, de circunstância ou residentes no poleiro; jornalistas que precisam de afirmar a sua não-crença como se tal lhes desse mais estatuto ou superior credibilidade; intervenientes em programas de entretenimento – barato e subtil da manhã ou na versão arrastada da tarde – que puxam a conversa para a sua afirmação da descrença e não da sua posição profissional ou especialidade seja lá naquilo que for…e pelas (ditas) redes sociais é um estendal de agnósticos, de laicos (na versão de aversão ao fenómeno religioso) ou vendedores de ilusões bem mais patranhosas do que as que pretendem gatafunhar aos crentes… 

= Retornemos à leitura da situação de ‘milagre português’ nas palavras do presidente. Reportando-se aos números das vítimas do ‘covid-19’, o presidente fez-se eco, no seu discurso de 16 de abril, da forma como os portugueses foram ‘solidários e mobilizados, com disciplina, com zelo, com determinação, com coragem’, suportando fortes privações neste caminho a que tantos estrangeiros chamam ‘o milagre português’. Explicando esta expressão, o presidente considerou ainda que ‘se isto é um milagre, como lá fora dizem, então nós, povo português, somos um milagre vivo há quase nove séculos. Se isto é um milagre, o milagre chama-se Portugal’.

Este excerto da comunicação do presidente da república não nos pode fazer essa figura de inferiorizados com que tantas vezes nos apreciamos, nos catalogamos ou ainda nos golpeamos em jeito sadomasoquista.

Não será preciso recorrer ao imaginário religioso da nossa história coletiva para que não continuemos a mergulhar num tal pedantismo sem nexo que julga tudo conseguir e nada apreciar em si mesmo e nos outros. Talvez nos faltem líderes capazes de conduzirem este povo que, tantas e de tão variadas formas, faz das suas fraquezas as melhores das forças…e não é só no futebol. Nos mais diversos campos – inclusive no âmbito religioso – temos tido dirigentes lerdos, sem visão e pouco nível intelectual e cultural…não-dignos dos nossos antepassados heróis e santos.

Com facilidade nivelamos as conquistas pelo senso comum, sem ambição nem união. O servilismo das forças partidárias/ideológicas tem servido mais para promover uns certos nababos do que para reconhecer a competência e o mérito. Muitos dos ‘governantes’ – nos vários níveis e instâncias – mais parecem correias de transmissão e paus-mandados, onde só vinga quem melhor adula, onde só ascenda ao posto superior quem mais engana e mente, quem, afinal, nivela o chegar pela amarra do partir.

Porque será que em tantas das autarquias estamos a atingir a fasquia da governança do rotulado fascismo? Não haverá nessas terras gente melhor do que os da mesma cor, quarenta e tantos anos depois? Isso será democracia dinástica com direito a sucessão, sem interferência nem alternância?

 

= O milagre português começou com a lenda de Ourique, as loas de Aljubarrota, as ruturas anti-hispânicas… com horizontes e não com esses antolhos seguidistas. Portugal merece melhor!    

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 22 de abril de 2020

46 anos depois…


A comemoração do ’25 de abril’ este ano foi alvo de razoável controvérsia…mais por inépcia dos intervenientes do que pelo objeto da questão.

Novamente veio a público uma certa tendência – 46 anos depois já era tempo de ultrapassar esse complexo freudiano – de alguns que se acham donos/senhores/proprietários/administradores do ’25 de abril’. Dá a impressão que registaram a patente, mas se esqueceram do processo adstrito da marca…

Agora que as coisas da economia estão a voltar à estaca zero, emergem fantasmas de um passado que só tem deixado feridas no tecido humano e social. Num ápice aquilo que era sucesso foi reduzido a pó no almofariz da pandemia do ‘covid-19’. Esse pó vai ter de ser sorvido como cicuta social por bastante mais tempo do que seria previsível. Em escassos dois meses perdemos tudo quanto diziam que tínhamos conquistado, chorando nos mesmos locais onde antes se fazia festa. Atividades de sucesso e grandes ganhos – como turismo ou a restauração – caíram a pique e, segundo dizem, serão os maiores fornecidos de gente para o desemprego…  

= A título de partilha deixo um texto que enviei – por sua solicitação – para os serviços de comunicação da Câmara onde resido. Foi-me pedido e tornado público…no facebook camarário:

A liberdade é um dom divino concedido a todas pessoas, crentes ou não-crentes.

A liberdade não é um conceito abstrato: há pessoas livres e pessoas não-livres.

De que adianta gritar liberdade, senão houver liberdade para gritar?

Quem é livre, é responsável, respeita os outros na sua diferença, seja qual for a opinião ou a cor…

Em 25 de abril queremos comemorar a recuperação de uma certa liberdade, mas será que já o conseguimos?

Em 25 de abril de 74 disseram-nos, com gestos e palavras, que podíamos ser mais livres, mas será que somos mais livres porque respeitadores e responsáveis?

Agradeço a todos quantos me ensinaram a pensar pela própria cabeça, sendo livre.

Agradeço a quem me concedeu espaço de valorização cultural e humanista.

Agradeço a quem me ensinou a reconhecer, aceitar e pedir perdão pelos meus erros.

Em resumo: conhecereis a verdade e a verdade vos fará realmente livres.

Sejamos, então, portugueses livres, respeitadores e responsáveis, hoje mais do que ontem e amanhã melhor do que hoje!  

= Há 46 anos atrás apresentaram a ‘revolução’ com três d’s: democratizar, descolonizar e desenvolver. Vejamos como têm sido postos em marcha essas boas intenções:

* Democratizar – será que é democracia o governo de minorias para si mesmas? Será sinal de igualdade haver a sensação de uns que se sentem mais democratas do que os outros? Quem tem a patente de mais democrata, se todos parecem combinar antes a luta pelos seus direitos e não pelos deveres? As ideologias – mesmo as defuntas noutras paragens – não precisarão de refletir sobre a sua função democrática ou mais ditatorial? O melhor retrato da pior democracia verifica-se na crescente abstenção nas eleições. Nem tudo está garantido, antes como agora e no futuro…

* Descolonizar – fomos um exemplo catastrófico neste campo: deixamos quase só porcaria por onde passamos, criando mais miséria do que sucesso, entregando o poder a senhores bem piores do que antes, confundindo as populações com decisões de cobardes, que fogem na hora da verdade… A melhor referência é a miséria em que deixámos a maioria dos ‘nossos’ colonizados…depois de séculos de ocupação!  

* Desenvolver – não fora a adesão à União Europeia, em 1985, e continuaríamos ainda mais na cauda da Europa. Como país de migração – teremos quase metade dos residentes lá fora – fomos deixando escapar imensas oportunidades de crescimento, de valorização e de desenvolvimento, que seja mais do meramente económico… Teremos evoluído com sentido de responsabilidade no quadro europeu e mundial?

Ainda haverá quem insista no chavão: ’25 de abril sempre’, quando não fizemos o mínimo do sonho? Já seremos, de verdade, a terra de fraternidade que tão pomposamente proclamamos na canção-hino? 

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Depoimento sobre o ‘25 de abril’ (*)


A liberdade é um dom divino concedido a todas pessoas, crentes ou não-crentes.

A liberdade não é um conceito abstrato: há pessoas livres e pessoas não-livres.

De que adianta gritar liberdade, senão houver liberdade para gritar?

Quem é livre, é responsável, respeita os outros na sua diferença, seja qual for a opinião ou a cor… 

Em 25 de abril queremos comemorar a recuperação de uma certa liberdade, mas será que já o conseguimos?

Em 25 de abril de 74 disseram-nos, com gestos e palavras, que podíamos ser mais livres, mas será que somos mais livres porque respeitadores e responsáveis? 

Agradeço a todos quantos me ensinaram a pensar pela própria cabeça, sendo livre.

Agradeço a quem me concedeu espaço de valorização cultural e humanista.

Agradeço a quem me ensinou a reconhecer, aceitar e pedir perdão pelos meus erros. 

Em resumo: conhecereis a verdade e a verdade vos fará realmente livres.

Sejamos, então, portugueses livres, respeitadores e responsáveis, hoje mais do que ontem e amanhã melhor do que hoje!  

 

(*) Texto solicitado pelos serviços da Câmara Municipal da Moita para ser incluído nos testemunhos sobre o 25 de abril…deste ano!  

 

António Sílvio Couto