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quinta-feira, 30 de abril de 2015

Revivalismo… às escuras


A apresentação cénica do candidato à presidência da república – António Sampaio da Nóvoa – no passado dia 29, teve tanto de simbólico, quanto de escuro… no conteúdo e mesmo na forma:

- frases feitas e coladas de revivalismo cançonetista e quase panfletário – como se tudo tivesse sido só mau nos 41 anos da (dita) democracia – e ele surja como o profeta do não-realizado,

- a penumbra da sala, onde as palmas faziam ecos de concordância às críticas desfiadas aos tempos mais recentes,

- uns certos chavões refinados numa leitura mais ou menos ideológica e preconceituosa a quem pensa de forma diferente dele… no todo ou em parte,

- e, sobretudo, um ar intelectual sobranceiro de quem se diz sem participação partidária, mas que quer colher os resultados mais ou menos requentados dum certo setor amuado da sociedade portuguesa… democrata para com os que concordam com as suas posições, mas abespinhada com os adversários e opositores.

Numa palavra: para quem se diz que veio para unir, criou, desde já, demasiados ângulos e atritos que irão certamente alfinetar sensibilidades e até possíveis concorrentes...pois, alguns se perfilam para aplaudir mais pela contestação do que pelas razões racionais e culturais sérias.

1. De todos ou para todos?

Tem sido recorrente nas eleições presidenciais querer que o eleito é o ‘presidente de todos os portugueses’. Ora, não há nada de mais errado do que querer dizer que isso seja verdade. Se tivermos em conta os quatro presidentes eleitos por sufrágio direto e universal, quase sempre houve uma razoável parcela do povo português que não elegeu o dito... e muitas vezes essa porção de não-eleitores não têm sido bem tratada no que ao lugar concerne no desempenho da função... Bastará lembrar o episódio de um dos ocupantes do palácio presidencial que, nos últimos dias do segundo mandato, se entreteve, horas a fios, a condecorar tantos dos seus seguidores e quase correligionários... Isto já para não recordar esse outro que fez do palácio de Belém uma espécie de laboratório para um partido que nasceu, cresceu e morreu à sua sombra...

O presidente nunca é de todos os portugueses, mas deverá, sim, ser ‘para todos os portugueses’... O que nem sempre tem sido visto nem possível. Com efeito, há como um razoável complexo de fazer sentar naquele pelouro alguém que seja preferencialmente servidor dalgum aventalismo... Assim se poderá entender com tanto entusiasmo para com o agora tornado candidato...oficialmente.

2. Força de bloqueio ou propulsor de patriotismo?

Novamente tendo em conta os inquilinos – sem esquecer o atual – passados pelo palácio de Belém, precisamos de refletir bem mais sobre a pessoa do que sobre as (pretensas) ideias que apresente. Ou será o contrário? Sim. As ideias condicionam a função e esta faz a pessoa.

Todos se dizem – no juramento de tomada de posse – defensores da Constituição, mas a prática fá-los intérpretes de variadas posições, que nem sempre se coadunam com o espírito de uma constituição atualizada e sem peias ideológicas de épocas recuadas numa evolução cultural necessária.

Sendo um dos símbolos da Pátria – juntamente com o hino e a bandeira – o Presidente da República precisa de ser mais defendido das tropelias de certas forças ideológico/partidárias, como temos visto em tempos recentes... Com efeito, precisamos de maior dignificação da função, sendo mesmo preciso fazer cumprir a lei por todos e para todos...mesmo os prevaricadores.

De facto, alguns dos paladinos da democracia – nascida em 74 – ainda pensam que esta se constrói com murros na mesa – como disse um certo militar apoiante do candidato apresentado – ou com golpes de capitulação diante de propostas urgentes para o futuro do país. Temos de saber se estas pessoas aceitarão os resultados que não sejam os que almejam, pois a ver pelas posições inflamadas ainda sonham construir um país à semelhança do sistema que caiu com o muro de Berlim...

A julgar pelo ensaio vamos ter um longo drama. Ou será tragédia?   

   

António Sílvio Couto

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