Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Insuficiências do ‘corpo perfeito’


Temos sido matraqueados – quase a roçar a intoxicação – com notícias sobre um tal jovem ator, entre a vida e a morte no hospital, que terá exagerado na administração de anabolizantes… para ter, na sua perspetiva, um pretenso ‘corpo perfeito’.

Mais do que colocar no pedestal do julgamento, sinto alguma confusão sobre o estado a que se está a chegar, tendo em conta os possíveis conceitos subjacentes a todo isto que se vai vendo… de uma forma complacente, recorrente e quase mórbida.

O que é isso de ter ou pretender ter um ‘corpo perfeito’? A noção de tal ‘perfeição’ corporal segue que critérios? Na dança de impor ‘modas de beleza’ estaremos a ser guiados por que valores? Até que ponto esta pretensão do ‘corpo perfeito’ guia ou condiciona a vida e o comportamento…pessoal e dos outros? Porque escapou para a luz do dia este submundo da beleza encomendada, fabricada e construída à custa de mentiras e arranjos de Photoshop… psicológico-moral?  

Sejam quais forem as respostas a estas ou a outras questões, o problema que emergiu com a doença do tal jovem ator internado é algo mais profundo do que as reportagens à porta do hospital querem (ou queriam) dizer. Aquele internamento revela acima de tudo uma mentalidade que vai entretendo muitos dos jovens – alguns já com idade de terem juízo e de assumirem o que são na decrepitude – à mistura com outras desculpas de adolescentes em segunda vaga – isto é, adultos na barreira dos cinquenta e dos sessenta anos – que veem caducar o tempo de validade do físico e do psíquico menos bem assumido. De facto, é uma arte saber envelhecer e estar de bem com o seu corpo, tem ele as limitações que manifestar e revele as lacunas que não possa mais esconder. Tudo o resto soa a falsidade e a tentativa de engano sobre si mesmo e para com os outros…esses que já viram o que evitam dizer-nos, por defeito de verdade e na assunção dos erros que devem ser enquadrados…naturalmente.  

= É de longa data, na cultura humana (dita) civilizada, a exaltação do cuidado com o corpo humano. Quem não lembra da cultura geral a proposta da cidade-estado de Esparta, na Grécia? Aí ter um corpo esbelto e atlético era bem mais importante do que essa outra visão de Atenas da sabedoria, onde o tal cuidado, embora não fosse totalmente negligenciado, não tinha o mesmo destaque. Da Roma antiga é conhecido o princípio – ‘mens sana in corpore sano’: uma mente sã num corpo são – tentando aliar os dois elementos – corpo e alma – como constitutivos da nossa identidade equilibrada.

Na idade do renascimento – em reação a um certo desprezo da época medieval – recrudesceu a tentativa de conseguir um corpo que fosse modelar, à boa maneira das figuras das estátuas greco-romanas, que foram redifundidas na Europa ocidental. Se repararmos bem nesse tempo muitas das figuras masculinas da sociedade – até de papas – foram retirando a barba como forma de não impedir uma certa beleza do corpo. Nisto poderemos encontrar alguns indícios de que a beleza pode passar por retirar aquilo que impeça de que, no corpo, se manifeste alguma harmonia ao menos estética.  

= Vejamos tendências mais recentes de ostentação de certos sinais para com o corpo e no próprio corpo: o recurso a piercings, uma espécie de grafitagem através das tatuagens, a moda da barba com leituras mais abrangentes do que de descuido, as corridas e caminhadas para manter a forma à mistura com múltiplos adereços para que se possa ter – no conceito mais abrangente – ‘qualidade de vida’ naquilo que anteriormente era suposto atender-se.

Muito para além de um suporte de vida, o corpo é a nossa condição de vida e é nele e por ele que estamos na vida, embora ele não seja o elemento exclusivo, pois, nas dimensões psicológica e espiritual, nós somos muito mais do que essa matéria que nos faz mostrar quem somos. Por isso, cuidar somente do corpo, esquecendo essas outras dimensões do nosso ser, será reduzir-nos a muito pouco e quase só materialista.

Será tendo uma visão holística cristã daquilo que somos – corpo, alma e espírito – que poderemos sentir-nos bem e nisso manifestarmos os valores que conduzem a nossa existência em condição terrena: precisaremos de estar mais atentos para que não sejamos um corpo são numa alma doente, por um espírito indolente…         

          

António Sílvio Couto

sábado, 31 de agosto de 2019

Conhecer a história é alimentar a fé


Em ordem a preparar a festa de Nossa Senhora da Boa Viagem, no dia 8 de setembro, a Paróquia da Moita propõe a vivência da novena de 30 de agosto a 7 de setembro. Este ano o tema de caminhada são os azulejos que revestem a igreja matriz. Este momento da novena poderá ser uma oportunidade aproveitada para ir à descoberta da riqueza - artística, cultural, religiosa/cristã - do azulejamento da igreja matriz da Moita, servindo-nos de duas inscrições visíveis na igreja: uma colocada sob o púlpito e outra sobre a ‘capela’ batismal: ‘1719’... há 300 anos.
Dos dezasseis painéis percetíveis no azulejamento da igreja foram escolhidos nove, incluindo o texto bíblico alusivo à passagem ‘retratada’…com maior ou menos boa beleza: 1. Anunciação a Maria - Lc 1, 26-38; 2. Visitação a Isabel - Lc 1, 39-56; 3. Nascimento - Lc 2, 1-20; 4. Circuncisão e nome - Lc 2, 21; 5. Adoração dos Magos - Mt 2, 1-12; 6. Fuga e regresso do Egito - Mt 2, 13-15; 7.
Vida em Nazaré - Lc 2, 39-40. 51-52; 8. Dormição de Maria - Vaticano II, Lumen gentium, n.º 59; 9. Assunção de Nossa Senhora - Ap 12, 1-6.
Com a proposta da novena espera-se poder contribuir para o enriquecimento de quem quiser aproveitar esta caminhada da ‘novena’ deste ano, ajudando a conhecer um tanto melhor a riqueza dos azulejos da igreja matriz da Moita, por forma a ser mais cuidada, respeitada e sentida.

= Seguindo uma linha de tradição da espiritualidade da maioria das festas dedicadas a Nossa Senhora, esta novena a Nossa Senhora da Boa Viagem pretende enraizar-se naquilo que deve ser a preparação da festa, não a reduzindo a uma procissão e a alguns outros ritos subsequentes.

Diz o Diretório sobre a piedade popular e a liturgia: «tríduos, septenários, novenas, podem ser uma ocasião propícia, não só para realizar exercícios de piedade em honra da Virgem Maria, mas também para proporcionar aos fiéis uma visão adequada do lugar que ocupa no mistério de Cristo e da Igreja e da função que desempenha. Os exercícios de piedade não podem ser alheios aos progressivos avanços da investigação bíblica e teológica acerca da Mãe do Salvador; pelo contrário, devem converter-se, sem lhe alterar a natureza, num meio catequético de difusão e conhecimento» (n.º 189).

São exatamente estes os objetivos que norteiam a progressiva introdução da novena a Nossa Senhora da Boa Viagem entre os dias 30 de agosto e 7 de setembro, na Moita. Efetivamente a qualidade de uma festa – em honra de Nossa Senhora ou de algum santo – mede-se mais pela sua preparação e não tanto pelo desencadear de ritos, entre os quais a procissão. Esta, enquanto manifestação de religiosidade popular, pode conter até elementos nocivos à sua perspetiva cristã mais básica. Expurgar o que não interessa e retirar o que desvirtua a procissão como manifestação de fé cristã é tarefa de quem organiza, dinamiza e conduz.

Como refere o Diretório sobre a piedade popular e a liturgia: «para que a procissão conserve o seu caráter genuíno de manifestação de fé, é necessário que os fiéis sejam instruídos sobre a sua natureza, do ponto de vista teológico, litúrgico e antropológico» (n.º 246). 

= Retomando a novena, em concreto deste ano, de preparação da festa de Nossa Senhora da Boa Viagem, será preciso ter tempo para aprender, meditar e levar à vida aquilo que os painéis de azulejo da igreja matriz da Moita nos querem comunicar. Desde há trezentos anos que eles ali estão para os contemplarmos com olhos de fé e não de meros visitadores; para nos deixarmos referenciar a algo que nos comunica alguns dos mistérios da vida de Nossa Senhora; para nos deixarmos esclarecer por elementos contidos na sua exposição, mas que precisam de ser descodificados com simplicidade, argúcia e fé. Esta será tanto mais esclarecida quanto nos detivermos a observar cada um deles e daquilo que nos falam do mistério de Deus em Maria.

Depois de aprendermos, poderemos rezar, mesmo o Rosário, agora com novo significado, não de mero conhecimento de umas coisas acerca dos azulejos, mas daquilo que querem comunicar de fé professada, celebrada e testemunhada.

Queira Deus que esta novena nos ensine a conhecer para amar mais a arte exposta na igreja matriz da Moita através dos azulejos. Daí poderá advir maior respeito, cuidado e atenção dada àquilo que nos foi legado pelos antepassados… sabendo transmiti-lo aos vindouros. 

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Homenagens na saída, não, obrigado!


Quando alguém está prestes a terminar um determinado trabalho, que exerceu durante algum tempo com maior ou menor eficiência, podem gerar-se movimentações para que possa haver alguma ‘homenagem’ antes da sua saída. Deste modo como que se pretende dar a entender, a quem sai, algo que possa ter a ver com o reconhecimento pelo que foi feito.

Poderia haver muitos campos de intervenção para analisarmos este tema da homenagem à saída de alguém de um trabalho/tarefa/função feito, mas cingiremos a nossa observação sobre o setor eclesiástico, que nem sempre significa especialmente eclesial, mas antes reduzido a algum afunilamento para com os padres…em maré de mudança de serviço, de paróquia ou de espaço de presença pastoral mais visível.

Talvez iniciativas desta natureza da homenagem pretendam mais camuflar do que reconhecer qualquer trabalho realizado, pois, na hora da despedida podem-se cometer exageros e muitos deles parecerão ainda desculpa para algum descompromisso recauchutado de pseudo-arrependimento.

Efetivamente custa muito ver enquadrado no caixilho da homenagem aquilo que deveria ser o contentamento do dever cumprido, esse que faz de nós cidadãos/ministros que servem os outros e que não necessitam de certas adulações para continuarem a dedicar-se àquilo que é a razão de ser disso que se pretende ser, de verdade. 

= Nunca aceitei qualquer festa ou festinha por ocasião da cessação de algum serviço e, se tolero que possam promover no começo, é porque não está nas minhas capacidades diretas, evitá-lo. Com efeito, a nossa capacidade de servir deveria estar mais acertada com essa norma do Evangelho: ‘quando tiverdes cumprido tudo o que vos mandarem fazer, dizei – somos servos inúteis, fizemos o que devíamos fazer’. É nesta frase provocadora das conveniências com que vemos ou podemos ser vistos que deveríamos ancorar o nosso comportamento, não permitindo – direta ou indiretamente – que sejam feitas homenagens e tão pouco dadas ou recebidas comendas, condecorações ou promoções…por mais aplaudidas ou desejadas que forem.

Em certas circunstâncias encaixa com simbolismo redobrado a frase latina –‘asinus asinum fricat’ – de tradução: ’um burro coça outro’, numa interpretação de que ‘quem não presta, elogia quem lhe faz o mesmo’. Ora, certos momentos de homenagem ou propostas de reconhecimento de tarefas quase poderiam ser enquadrados nesta simbologia, pois alguém fará o mesmo para com quem lho fez antecipadamente… e andaríamos à volta ou à procura de idênticos argumentos para voltarmos ao princípio. 

= A melhor homenagem ou reconhecimento – no caso de trabalhos que envolvam a presença de outros – é esse da participação, quando se é chamado ou se deve prontificar para fazer parte da solução e não poder continuar a ser fator de problema pelo desinteresse ou a recusa em participar. Em quantos dos momentos da vida de uma paróquia, de uma associação ou de um grupo organizado se pode e deve fazer parte e não ficar a assistir para ver quando falha, periga ou colapsa. Quantas oportunidades são desperdiçadas para construirmos em comum, sem reclamar protagonismo, com esses que temos e não com os desejáveis que nunca chegam ou se interessam. Em quantas das etapas poderíamos usufruir dos dons e qualidades de cada um em vez de nos atermos a viver da crítica, da maledicência e até da má-fé. Enquanto as nossas paróquias, grupos ou associações forem espaços não de comunhão, mas de competição, estaremos a perder o tempo…na programação de festas e de homenagens que soam a oco, porque falsas e falseadoras daquilo que somos e do que devíamos ser todos…cristãmente.  

Urge, por isso, purificar com critérios do Evangelho tantos dos nossos comportamentos eivados de sinais mundanos e fabricados à semelhança de outros interesses que não os do serviço desinteressado, fraterno e solidário.

Com todo o gosto preferiria dizer ter recusado uma condecoração/comenda do que ostentá-la por mais simbólica que fosse… Custa muito ser cristão de vida!        


 
António Sílvio Couto

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Sinais para avaliar quem diz que serve


Há dias recebi esta estória. Por muito rude que pareça, talvez possa falar o bastante daquilo que temos estado a viver e, sobretudo, poderá ser uma prevenção para com tantos que nos tentam cativar…até para as próximas eleições. 

Numa da suas reuniões, Hitler pediu que lhe trouxessem uma galinha. Agarrou-a fortemente com uma das mãos enquanto a depenava com a outra. A galinha, desesperada pela dor, quis fugir mas não pode.
Assim, Hitler tirou todas suas penas, dizendo aos seus colaboradores: “Agora, observem o que vai acontecer”.
Hitler soltou a galinha e pô-la no chão e afastando-se um pouco dela. Pegou num punhado de grãos de trigo, começou a caminhar pela sala e a atirar os grãos de trigo ao chão, enquanto os seus colaboradores viam, assombrados, como a galinha, assustada, dorida e a sangrar, corria atrás de Hitler e tentava agarrar algumas migalhas.
A galinha o seguia fielmente por todos os lados.
Então, Hitler olhou para seus ajudantes, que estavam totalmente surpreendidos, e disse-lhes: “Assim, facilmente, se governa os estúpidos. Viram como a galinha me seguiu, apesar da dor que lhe causei?
Tirei-lhe tudo..., as penas e até a dignidade, mas, ainda assim ela segue-me em busca de farelos”.
Assim é a maioria das pessoas, segue os seus governantes e políticos, apesar da dor que estes lhes causam e, mesmo que lhes tirem a saúde, a educação e a dignidade, pelo simples gesto de receber um benefício barato ou algo para se alimentar por um ou dois dias, o povo segue aquele que lhe dá umas simples migalhas. 

Poderemos mudar o sujeito da estória…para um qualquer outro no tempo, no espaço e na história, mas muito do que nela se revela conjetura-se para além de mera ’fake news’…daquela como desta época.

- Não é verdade que o povo segue e vota em quem lhe dá, ao menos, uns trocos, mesmo que embrulhados em enganos e meras suposições?

- Não é verdade que temos estado a ser aliciados com vitórias e ganhos económicos, mas à força de sermos espremidos até ao tutano – em impostos indiretos – pela simples razão de podermos gastar agora o que amanhã nos vai fazer falta?

- Não é verdade que vai percorrendo o país uma onda de otimismo enganador, mesmo que à custa de mentiras e de bastantes inverdades, desde que bem doseadas com festas e celebrações de fachada?

- Não será verdade que a plêiade de habilidosos se esgota quando se descobre que as artimanhas têm perna curta e que os ganhos depressa se tornarão pesadelos para muitos menos do que seria aceitável?

- Não será questionável que continuem a surgir nas listas para votação – seja qual for o partido – figuras que não passam de elementos decorativos e de cedilhas ou de vírgulas colocadas a esmo num texto que não está escrito com a grafia mais adequada?

- Não será, no mínimo vergonhoso, que surjam quotas para mulheres sem competência ou figurões sem qualquer relevância, desde o passado, no presente e para o futuro? 

Dá a impressão que não temos aprendido nada com as lições do passado – mais recente ou mais longínquo – na medida em que dizemos confiar nos mesmos que levaram o país à bancarrota e à ruína, que não somos desconfiados o suficiente para colocarmos fortes reservas a quem promete tudo a todos e não faz nada a ninguém, à exceção dos que são da sua cor, da sua ideologia ou mesmo do seu grupo subterrâneo.

Pior do que tudo isso é a insuficiência de liderança com que temos estado a conviver: os melhores não se deixam submeter à arruaça de uns tantos que só conhecem a adulação, a conveniência ou os estratagemas para irem deambulando por entre a mediocridade, pois dela são corifeus e servidores. Começa a ser, para além de vergonhoso, preocupante que se vão perpetuando no poder – central, autárquico ou em setores intermédios – os que menos valem, deixando um rasto de incompetência, de banalidade e, em muitos casos, de boçalidade. Cada terá o preço com que se deixar comprar…agora ou no futuro!

 

António Sílvio Couto

sábado, 24 de agosto de 2019

Ditadura das minorias


Mais uma vez um grupo minoritário foi alçado à categoria de grande interveniente na sociedade… portuguesa.

‘Temos a estimativa de cem a duzentas as crianças e adolescentes transgénero num universo de um milhão e duzentos mil estudantes no ensino secundário’. Foi desta forma simplista que um elemento do governo, ligado à educação, explicou uma alteração prevista entrar em funcionamento dentro de dias nas centenas de escolas do país.

A questão liga-se à diferenciação entre a identidade de género e o sexo atribuído.

Algo do foro pessoal, íntimo e reservado passou a ser bandeira de certos grupos minoritários, que, afinal, querem impor a sua diferenciação à maioria e com isso poderem vir a ser maioritários nalguma qualidade, embora não o sejam ainda na residual quantidade… 

= Efetivamente tem vindo a crescer a imposição de setores minoritários àquilo que se convencionou chamar maioria, muitas das vezes mais silenciosa e negligente do que representativa seja de que posição possa ser.

Se nos ativermos às manifestações verificadas no século vinte e um poderemos encontrar a área da pessoa e da sua moralidade/ética como um dos âmbitos mais infiltrados de questionamentos sobre a sexualidade – nalguns casos quase se reduzindo tudo à mera genitalidade – e onde os direitos individuais tentam impor-se aos comunitários, isto é, uma pessoa considera-se no direito de que lhe sejam respeitadas as suas especificidades, mesmo que isso implique colidir com a organização social, educativa, laboral ou mesmo associativa…do resto.

Isto é ainda mais sintomático quando vemos forças partidárias/ideológicas de índole coletiva – marxistas, leninistas, trotskistas ou anarquistas – a serem os promotores, difusores e cultivadores dessa incongruência mental… De facto, tornam-se os militantes de causas fraturantes, mas que não passam de colagens de grupos de interesses mais ou menos subterrâneos, trazidos à luz da política por manifesto combate à cultura judaico-cristã nos campos da família e da ética pessoal e/ou social. 

= De algum modo certos nichos ou bolhas de cumplicidades têm-se organizado em partidos – alguns como conglomerações mal-amanhadas – que cativam a atenção de franjas mais ou menos pretensamente instruídas, embora lendo por cartilhas de séculos anteriores e com projetos próprios de épocas de laxismo moral e de alguma devassidão de valores, de critérios e de comportamentos. Em bloco ou em coligação, sob a capa de intuitos difusos ou de forma mais combativa e acintosa, com razoável cobertura dos mass media, muitos deles suportados exatamente por lóbis de tais interesses.

Não deixa de ser impressionante a rápida difusão de questões anteriormente resguardadas no seio familiar, que agora se tornaram fatores de discussão, motivos de petições (a nova versão da vergonhosa recolha de assinaturas de antanho), ajuntamentos ruidosos e vistosos, onde os problemas se banalizam e o folclore dos assuntos toma a forma de quase anedótico, embora não se devesse expor quem sofre e que precisa de compreensão e não de aviltamento dos seus casos…

No palco do faz-de-conta surgem as mais díspares posições, muitas delas reclamando respeito, mas desrespeitosas para com quem pensa, vive e se comporta de modo diverso dos modelos a serem seguidos…por eles/elas. Eis pequenos tiques de ditadura de ‘ou pensam como eu ou são retrógrados, homofóbicos, xenófobos e racistas’… Deste modo estaremos a criar condições para que os pequenos ditadores se imponham não pela convicção, mas pela coação.

É tempo de dizer basta a tais ‘intelectuais’ do submundo da ignorância, pois foi deste modo subtil que outros fizeram do seu combate as armas de conquista à força e sem razão.

Saídos dos armários da intransigência, eis que temos de aprender a não dar a importância que tais ditadores de minorias se nos querem impor…até à exaustão como noutras circunstâncias de menos boa memória.

Acordemos da letargia onde nos têm embalado e tantas vezes enganado…Uma mentira dita com convicção nunca se poderá tornar verdade, nem que seja recorrida à custa da manipulação!

 

António Sílvio Couto

 

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Por que têm (tanto) medo de Salazar?


De forma recorrente emerge na discussão pública algo relativo a António de Oliveira Salazar. Falecido em 1970, ainda atormenta muita gente. Por diversas vezes têm surgido iniciativas sobre a sua figura e ação política. Mais um momento em que tal recurso está colocado e com vozes, opiniões e posições a roçar o quase irracional.

Consta que pretendem construir um ‘museu interpretativo do estado novo’, que será, certamente, bem mais do que configurar tudo à volta de Oliveira Salazar, tanto no tempo como no espaço e, sobretudo, no significado das coisas, das ideias e dos resultados.

É compreensível que uma franja perseguida, aprisionada e combatida, pelo regime que se pode considerar de ‘2.ª república’, tenha para com Salazar uma atitude quase obsessiva, dado o peso da memória fantasmagórica que lhe está associada… por esses bem mais septuagenários do que na idade. Alguns se algo valem – social e culturalmente – é por ainda viverem nesse passado que não-volta-mais…

Circulam petições – uma contra a iniciativa e, pasme-se, outra a favor – com razoáveis números de assinaturas de ambos os lados. Desde logo isto pode significar que já não há tanto medo como, por exemplo, em 2007, quando os opositores tentaram silenciar quem ousasse destoar da onda…de estar contra. 

= Apesar de tudo a figura de Salazar é alguém incontornável na história do nosso país. Como todos e cada um teve qualidades e defeitos. Como é habitual foi criando admiração e controvérsia. Soube recuperar o país de uma fase muito complicada que foi a 1.ª república e na sua 2.ª etapa esta foi passando por entre os pingos das dificuldades de muitos acontecimentos mundiais, como guerras e conflitos económicos à mistura com convulsões ideológicas na Europa e no mundo.

Olhando o percurso da história desde a década de trinta até à década de sessenta do século passado, Portugal continuou fechado a muito do que foram as inovações antes, durante e depois da segunda guerra mundial. Isso atrasou-nos em muitos aspetos e não só no âmbito político. Fomos – se é que ainda não somos, ao menos na mentalidade – um país ruralista, com tiques de caciquismo acentuado, numa simbiose entre ignorância e de falta de visão para o futuro… que ainda se repercute nos nossos dias. 

= Soa, por isso, a saudosismo a acentuação do país do fado, do futebol e de alguma religião tradicionalista. Ancorados em valores de índole de conveniência temos andado ao sabor daquilo que cá chega, normalmente, com duas décadas de atraso. Já muitos países estão a rever os conceitos de natalidade e por cá defende-se o aborto como sistema de controlo da natalidade. Já em muitos países se propõe um outro sistema de trabalho e de sindicalismo e por cá vivemos aferrados a que os sindicatos continuem a ser correias de transmissão dos partidos políticos. Noutras paragens a saúde é tratada como assunto de prioridade e por cá investe-se na configuração da estatização deste setor tão fundamental à (dita) qualidade de vida das populações.

Dá a impressão que o fechamento, aludido à época de Salazar, deixou muitos tentáculos semeados nas consciências de tantos que se arvoram seus detratores, mas que conjugam, hoje melhor do que no antanho, as ideias do regime que foi deposto há quase cinco décadas.  

= Há um setor da vida coletiva que pouco mudou do tempo de Salazar para agora: as autarquias. Em muitas delas vigora um regime – contínuo, contumaz e contundente – sempre da mesma cor. Ora isso favorece o clientelismo, o caciquismo e até a usurpação de funções, tão aduzida – e bem – ao regime que caiu em 25 de abril. O problema, hoje, é que quem está no poder ainda não se apercebeu dos erros, pois o distanciamento entre o que se faz e o que devia se feito é muito reduzido. Daí vermos situações que deveriam questionar a democraticidade de certos atos, de algumas funções e de outras tantas confusões. Com alguma vulgaridade vemos os mesmos a circularem entre os diversos postos de mando, seja qual for a incidência ou o âmbito de intervenção. Será isto, democracia ou totalitarismo? Será isto, rotatividade ou corrupção? Será isto, alternância ou falta de alternativas?

Quase cinquenta anos depois falta mesmo fazer a interpretação do nosso ser português…a fundo!

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Como fazer das procissões manifestações de fé cristã?


«Nas suas formas genuínas, as procissões são manifestações da fé do povo e têm frequentemente conotações culturais capazes de despertar o sentimento religioso dos fiéis. Porém, do ponto de vista da fé cristã, as ‘procissões votivas dos santos’ [levando processionalmente as relíquias ou uma estátua ou uma efígie dos santos pelas ruas da cidade], tal como outros exercícios de piedade, estão expostas a alguns riscos e perigos» – Diretório sobre a piedade popular e a liturgia, n.º 246.

Desde já uma declaração de interesse: sou defensor das procissões, sempre as vi e as vivi como manifestações de fé e considera-as ainda como oportunidades (aproveitadas ou perdidas) de evangelização mais do que de catequese.

Tal como se diz no documento da Congregação para o culto divino e a disciplina dos sacramentos há riscos e perigos. Neste texto gostaríamos de centrar a atenção nestes sinais nem sempre positivos ou talvez mais reveladores de algum paganismo infiltrado nas ‘nossas procissões’.

Escrevo depois de uma experiência recente menos boa ou mesmo desagradável de duas procissões na mesma tarde, no contexto da mesma paróquia, mas sob a alçada de povoações rivais, controversas e um tanto complexas…

Sem exagero encontro nas ‘nossas’ procissões os riscos seguintes:

– termos pessoas que participam, levando os andores ou outros sinais, que não têm um mínimo de prática religiosa e nalguns casos nem formação humana e de educação;

– não haver uma preparação suficiente para desempenhar essa tarefa, pois não basta ter boa vontade, é necessário que tenhamos compostura, asseio e bom senso;

– podermos, até sem disso nos darmos conta, mais exaltar a vaidade do que o serviço, o bairrismo mais do que a comunhão, a discórdia mais do que a união;

– perdermos a oportunidade de apontar para Deus, que os santos e Nossa Senhora quiseram glorificar, para realçarmos facetas mais humanas e, por vezes, um tanto pagãs ou paganizadas;

– deixarmos de rédea solta quem não sabe nem quer saber do significado das procissões e da sua relação com o divino, mais do que na convulsão do humano;

– podermos confundir estas manifestações de fé com outros momentos sociais, sindicais ou políticos, misturando ou deixando que possa haver aproveitamentos menos dignos de alguns. 

= Esta meia dúzia de riscos e/ou perigos serão tanto mais potenciados quanto os intervenientes se deixam guiar por intuitos que não servem a boa-fé nem a fé boa. Com efeito, certos bairrismos onde se quer suplantar os vizinhos pelo foguetório – antes, durante ou depois – será isso digno de sentimento religioso, que deve estar presente nas procissões? Quando os adereços de (ditos) artistas de renome – às vezes não passam de embrulho e de pacotes de agência – servem para que se meça o valor da festa, será isso dimensão cultural mínima e suficiente? Quando se pretende fazer de uma festa ou de uma procissão em particular uma tentativa de afirmação social, económica ou de grupo, não estaremos a desvirtuar a genuinidade da fé que fez surgiu tais manifestações dos crentes? 

= É neste quadro de ser manifestação de fé – simples ou esclarecida, enraizada ou adventícia, mais pessoal ou popular – que devemos fazer com que as procissões não se desviem do seu sentido original, pois isso seria ofender aqueles a quem pretendemos honrar, fazendo que os imitemos na forma como se deixaram fazer santos/as. Levar para a rua essas imagens – maiores ou mais pequenas, mais bonitas ou mais rudimentares, mais singelas ou mais ricas – é sempre um compromisso em sermos dignos de quantos nos precederam na fé e devemos transmitir aos vindouros não só uma certa tradição, mas um testemunho de vida, alicerçado nos valores do Evangelho e no seguimento atualizado de Jesus, o nosso mestre e senhor.

Pelas procissões, sim, mas que tenham beleza, organização e cristianismo… Tudo o resto pode ser rapidamente exorcizado de tantas influências malignas, tendenciosas e paganizadas…

 

António Sílvio Couto