Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sábado, 15 de outubro de 2022

Onde e como fica o ‘sigilo de confissão’?

As mais recentes invetivas, que envolvem questões de Igreja (católica) como que nos colocam uma inquietação – e não é pela perda de ‘poder’ eclesiástico – pela configuração de algo essencial na vida dos católicos crentes e praticantes: não se estará a querer atingir o âmago do sacramento da penitência e reconciliação? Quem confiará em alguém que pode revelar o que escutou em contexto sacramental?

Porque não tenho visto ser abordado o problema pelo prisma mais fundo da espuma das coisas, ouso tentar refletir qualquer coisa sobre esta questão bem mais profunda do que as notícias de rodapé ou as parangonas de algum outro tablóide.

1. Efetivamente algumas das acusações vindas a público – sobre abusos de menores e não só – dizem ter ocorrido por ocasião da celebração daquele sacramento, recorrendo-se, em certas reportagens, à configuração do confessionário, para ilustrar o ‘antro’ de tais malfeitorias. É público e notório que se quis desacreditando a confisssão, servindo-se de recursos em programas de ‘faz-de-conta’, onde um dos enfeites era esse do ‘confessionário’, como espaço de desabafar, de intriga, de maledicência e, sobretudo, de querer fazer-se passar por melhor do que os outros, tentando com isso suplantá-los e vencê-los. Não vimos nisso um programa, no mínimo, insidioso senão mesmo maquiavélico? Não conseguimos perceber a astúcia de uns tantos contando com a estultícia de uns outros? Recorrermos a tais simbologias serve bem os intentos mais subtis e não-declarados explicitamente...mas que farão (ou já estão a fazer) o seu caminho contra a fé católica...

2. O que diz a doutrina da Igreja católica sobre a matéria de segredo de confissão e quais as consequências para o ministro desse sacramento? Mesmo que forma um tanto simplista, pergunto: haverá reciprocidade de segredo (sigilo) por parte dos penitentes?

«Dada a delicadeza e a grandeza deste ministério e o respeito devido às pessoas, a igreja declara que todo o sacerdote que ouve confissões está obrigado a guardar segredo absoluto sobre os pecados que os seus penitentes lhe confessaram, sob penas severíssimas. Tão pouco pode servir-se dos conhecimentos que a confissão lhe proporciona sobre a vida dos penitentes. Este segredo, que não admite exceções, é chamado «sigilo sacramental», porque aquilo que o penitente manifestou ao sacerdote fica «selado» pelo sacramento» – Catecismo da Igreja Católica, n.º 1467.
Sobre aquilo que no texto citado se dizem ‘penas severíssimas’ refere-se aquilo que diz o Código de Direito Canónico: «O confessor que violar diretamente o sigilo sacramental, incorre em excomunhão latae sententiae, reservada à Sé Apostólica; o que o violar apenas indiretamente seja punido segundo a gravidade do delito» (Cânone 1388 §1).

3. Algo de assaz complexo percorre os nossos dias e torna-se essencial não embarcarmos na singeleza de certas atitudes, por mui sinceras que possam parecer. Com efeito, tudo isto que tem estado a acontecer no âmbito da Igreja católica não é inocente nem se alinharam os astros para que viesse tudo isto – e mais que se verá em breve – a público. O problema tem sido alguma negligência no modo como os responsáveis têm embarcado na representação quase-teatral. Não podemos ainda tentar encobrir – termo quase flamegante de má impressão – que casos de pessoas desequilibradas (mesmo psicológica e emocionalmente) sempre houve e continuará a haver. O que por vezes espanta é o ar arrogante com que tantos se colocam a julgar os demais, sem olharem para si mesmos e seus pares. Certos psicólogos e psiquiatras (e afins) são bons a dar lições para os outros, mas não as colhem para eles. À semelhanpa de alguns eclesiásticos que parecem pregar uma motalidade não-praticade nas suas funções.

Dá a impressão que temos de colocar em ato aquilo que exigimos: reconhecer os seus erros parece ser mais benéfico do que tentar querer dar lições alheias! Os outros são, afnal, o nosso espelho mais sincero...



António Silvio Couto

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Símbolos de quê e para quê?

 


Os símbolos das JMJ 2023 andam na rua, percorrendo as várias dioceses do país (e não só) numa etapa de difusão, de convocação e de incentivo para esse grande acontecimento do verão de 2023, em Lisboa.

Dizem que a passagem dos símbolos – cruz e ícone de Nossa Senhora – das JMJ pelos vários locais tem sido o maior e o melhor ato de aferição dos jovens às jornadas e mesmo de incremento de sensibilização àquilo que dai se espera… desde a preparação, a vivência e as consequências.

Vamos tentar explicar os símbolos e qual o seu alcance sociocultural, bem explicitar as razões pelas quais os ditos símbolos exprimem a fé católica.

Recolhendo dados da página oficial da JMJ 2023, na internet, podemos ler:

1. Quais os símbolos e seu significado?

A Jornada Mundial da Juventude conta com dois símbolos que a acompanham e representam: a Cruz peregrina e o ícone de Nossa Senhora Salus Populi Romani. Nos meses que antecedem cada JMJ, os símbolos partem em peregrinação para serem anunciadores do Evangelho e acompanharem os jovens, de forma especial, nas realidades em que vivem.
* A Cruz peregrina
Com 3,8 metros de altura e cerca de trinta quilos de peso, a Cruz peregrina, construída a propósito do Ano Santo, em 1983, foi confiada por João Paulo II aos jovens no Domingo de Ramos do ano seguinte, para que fosse levada por todo o mundo. Desde aí, a Cruz peregrina, feita em madeira, iniciou uma peregrinação que já a levou aos cinco continentes e a quase 90 países. Tem sido encarada como um verdadeiro sinal de fé.
Foi transportada a pé, de barco e até por meios pouco comuns como trenós, gruas ou tratores. Passou pela selva, visitou igrejas, centros de detenção juvenis, prisões, escolas, universidades, hospitais, monumentos e centros comerciais. No percurso enfrentou muitos obstáculos: desde greves aéreas a dificuldades de transporte, como a impossibilidade de viajar por não caber em nenhum dos aviões disponíveis.

* O ícone de Nossa Senhora ‘Salus Populi Romani’
Desde 2003 que a cruz peregrina conta com a companhia do ícone de Nossa Senhora ‘Salus Populi Romani’, que retrata a Virgem Maria com o Menino nos braços. Este ícone foi introduzido ainda pelo Papa João Paulo II como símbolo da presença de Maria junto dos jovens. Com 1,20 metros de altura e 80 centímetros de largura, o ícone de Nossa Senhora ‘Salus Populi Romani’ está associado a uma das mais populares devoções marianas em Itália. É antiga a tradição de o levar em procissão pelas ruas de Roma, para afastar perigos e desgraças ou pôr fim a pestes.

2. Calendário da peregrinação (diocesana) dos símbolos

Entre novembro de 2021 e julho de 2023, os símbolos da JMJ vão peregrinar pelas 21 Dioceses de Portugal, anunciando assim o maior encontro de jovens do mundo que está agendado para o verão de 2023, em Lisboa. Com a presença de um mês em cada uma das dioceses, o itinerário previsto é:
Em 2021: novembro: Algarve; dezembro: Beja. Em 2022: janeiro: Évora; fevereiro: Portalegre- Castelo Branco: março: Guarda; abril: Viseu; maio: Funchal; junho: Angra; julho: Lamego; agosto: Bragança-Miranda; setembro: Vila Real: outubro: Porto; novembro: Setúbal; dezembro: diocese das Forças Armadas e Segurança. Em 2023: janeiro: Viana do Castelo; fevereiro: Braga; março: Aveiro; abril: Coimbra; maio: Leiria-Fátima; junho: Santarém; julho: Lisboa.
Antes da peregrinação pelas dioceses de Portugal, os símbolos da JMJ peregrinaram por Angola, Espanha, e Polónia.

3. Estes símbolos da JMJ 2023 podem e devem suscitar acolhimento, tanto material como espiritual, criando condições para que as jornadas sejam momentos de evangelização, de consciência de fé em Igreja e de compromisso de todos neste processo de presença dos cristãos no mundo, levando a Cruz e a intercessão da Maria, mãe e cuidadora dos jovens de todos os tempos e lugares…



António Sílvio Couto

terça-feira, 11 de outubro de 2022

‘Fazer catequese’… em tempos de convulsão

 


Por estes dias começa a retomar-se à normalidade, mesmo nas paróquias e nos serviços desenvolvidos. Depois de meses de interregno – acrescentados pela vaga de pandemia – retomam as atividades da (dita) catequese. Centramos a atenção neste setor específico das tarefas das paróquias e naquilo que pode (ou deve) ser reformulado, tendo em conta várias incidências psicológicas e espirituais, tanto das crianças/adolescentes, como daqueles/as que ‘ministram’ os conhecimentos/vivências, sem nunca esquecermos as famílias, nas suas mais díspares expressões ou acomodamentos…à mistura com feridas e novos desafios.

1. Não será que muito daquilo que andamos a fazer – numa imitação e em paralelo com a fase de escolarização – parece mais entretenimento do que comunicação de fé, de presença de Jesus e de expressividade de Igreja? Terá alguma utilidade o processo de catequização – onde os jovens devem ser também incluídos – sem a participação ativa da família de cada catequizando? Não andará a Igreja – paróquias e dioceses – a fazer de substituta de quantos deveriam serem os intervenientes e intérpretes da catequese? Atendendo à ineficácia dos resultados, não seria de estudar e de delinear, a curto e médio prazo, um novo método de catequese nas paróquias, por forma a serem mais envolvidas as famílias?

2. Perante estas e outras questões bem mais acutilantes, percorremos o ‘Diretório para a catequese’ (2020) quanto às orientações para com as paróquias e como estas devem viver o processo de catequização.

* «As paróquias, fundadas sobre os pilares da Palavra de Deus, dos sacramentos e da caridade, que por sua vez pressupõem uma rede de serviços, ministérios e carismas, oferecem «um exemplo claro de apostolado comunitário, porque congregam na unidade todas as diversidades humanas que aí se encontram e inseremanas na universalidade da Igreja» (AA 10). As paróquias manifestam o rosto do Povo de Deus que se abre a todos, sem preferência de pessoas. Elas são «o ambiente ordinário no qual se nasce e cresce na fé. Constituem, por isso, um espaço comunitário muito adequado para que o ministério da Palavra que nelas se realiza seja contemporaneamente ensinamento, educação e experiência vital» (n. º 299).

* «A relevância das paróquias não pode levar a ignorar as dificuldades de hoje, ditadas pela alteração dos espaços históricos, sociais e culturais em que nasceram» (n.º 300).

* «Hoje, as paróquias estão comprometidas em renovar as dinâmicas relacionais e em tornar as suas estruturas mais abertas e menos burocratizadas. Propondoase como comunidade de comunidades, devem ser para os movimentos e para os pequenos grupos um apoio e um ponto de referência para viver na comunhão a sua atividade evangelizadora» (n. º 301).

As paróquias mudaram, por isso, os meios de fazer catequese têm de ser modificados. Custa assim tanto!

3. Sobre a presença e participação das famílias no processo de catequização refere o mesmo ‘Diretório para a catequese’:

* «O futuro das pessoas, da comunidade humana e da comunidade eclesial depende em boa parte da família, célula fundamental da sociedade. Graças à família, a Igreja tornaase família de famílias e enriquecease com a vida destas igrejas domésticas» (n. º 226).

* «A família é um anúncio de fé enquanto lugar natural onde a fé pode ser vivida de maneira simples e espontânea» (n. º 227).

* «A família anuncia o Evangelho. Enquanto Igreja doméstica, alicerçada no sacramento do Matrimónio que tem também uma dimensão missionária, a família cristã participa na missão evangelizadora da Igreja e é, por isso, sujeito de catequese» (n. º 231).

* «Com zelo, respeito e solicitude pastoral, a Igreja quer acompanhar aqueles filhos que estão marcados por um amor ferido, que se encontram numa condição mais frágil, voltando a dar-lhes confiança e esperança»» (n. º 234).

Mesmo que mais trabalhoso do que as rotinas em que nos vimos entretendo, temos de fazer uma escolha que tenha futuro e possa retomar o essencial: a família é o melhor lastro para fazer, viver e celebrar a catequese.



António Sílvio Couto

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Chuçaram o vespeiro (versão atualizada da ‘caixa de pandora’)

 


Desde logo será útil explicar os termos usados, na medida em que cada uma das palavras contém significado conotativo. Assim: ‘chuçar’ significa o uso do chuço, isto é, um pau de ponta aguda em ferro; ‘vespeiro’ é um ninho de vespas, que são uns insetos idênticos às abelhas, mas que não produzem (quanto é percetível) nada de benéfico, antes prejudicam várias vertentes ligadas à apicultura.

A articulação entre ‘chuçar o vespeiro’ quer envolver a ação (consciente ou não) de mexer em algo – social, política ou religiosamente – que vai infetar e/ou afetar as relações que antes eram (ou pareciam) serenas, hamoniosas e concordes para se tornarem agressivas, multi-perigosas e potencialmente destabilizadoras...

Numa palavra: ‘chuçar no vespeiro’ é algo de que não sabemos as consequências, mesmo que pensássemos que conhecíamos as causas.

 1. Nos tempos mais recentes temos assistidos a múltiplos momentos em que mexeram com o vespeiro e as vespas sairam desalvoradas, atacando tudo e todos, pois foram atingidas na sua rotina e, sobretudo, incomodadas no seu casulo de refúgio. Aquilo que parecia contido num veneno de arrolhamento, agora foi solto e fará estragos imprevisíveis. Com efeito, certas questões ocultadas ou esquecidas nos idos da memória sairam da sombra e os estragos – sociais, pessoais ou institucionais – serão de longa duração. Se bem que haja confusão de protagonismos, as vespas sairam para aferrolhar os incautos ou mesmo castigar os prevaricadores. Por enquanto as vespas ainda não assentaram, mas quando o fizerem torturarão quem as incomodou, de forma propositada ou por mera inépcia em conter os estragos mais imediatos.

 2. Noutras culturas e com diferentes mentalidades dir-se-á que foi aberta a ‘caixa de pandora’. Explicando o mito. Pandora foi a primeira mulher criada por Hefesto e Atena com o auxílio de todos os outros deuses, por ordem de Zeus. Cada um deles atribuiu-lhe um dom, recebendo a beleza, a graça, a destreza manual, a capacidade de persuadir e outras qualidades. Mas Hermes colocou no seu coração a mentira e a astúcia. Hefesto fê-la à imagem das deusas imortais, e Zeus destinou-a à punição da raça humana, à qual Prometeu tinha acabado de dar o fogo divino. Enviada à terra para se casar com Epimeteu, irmão de Prometeu, levava consigo uma caixa com a recomendação de que jamais fosse aberta.Ora ela, sem conter a curiosidade, abre-a e com isso libertou de seu interior todos os males até então desconhecidos pelos homens (doenças, guerra, mentira, ódio, etc.). Pandora tenta fechar a caixa, mantendo no seu interior apenas a esperança...mas não conseguiu mais!

3. Perante estes dois quadros de leitura da nossa realidade social, humana e cultural estamos colocados entre o vespeiro e a caixa de Pandora. Qual dos dois tipifica melhor o nosso enquadramento? Se a caixa dos males os fez espalhar pela face da Terra, as dispersadas do vespeiro atacam de forma incisiva e acutilante, sobretudo os que lhes estão mais próximos. Sobre os males desencadeados da ‘caixa de pandora’ fomos aprendendo a domesticá-los de uma forma mais ou menos civilizada, mas quanto aos efeitos de terem chuçado no vespeiro ainda não aprendemos corretamente a lidar com os casos – e são tantos – mais ou menos populares e veiculados pela comunicação social... ao serviço de intentos nem sempre claros nem explicitados.

 4. Costuma-se diz: a curiosidade matou o gato. Dá a impressão que o deslumbramento de certas figuras perante determinados casos de maior envolvência mediática – diga-se pelas piores razões – não fez bem a algumas pessoas, pois, em vez de serem recatadas no tratamento dos assuntos fazem deles tempos de antena que seriam bem escusados, se houvessse tento e discernimento. Já basta o mal feito, quanto mais termos de aturar a toda a hora e momento sempre as mesmas coisas, com os mesmos protagonistas e pelas mais nefastas razões. É tempo de deixar curar as feridas e não de estarmos sempre a escarafunchar nas mazelas.... 

 

António Silvio Couto

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Situação de três em um (primeira, última e única)


 Quem não terá já vivenciado alguma situação que se tornou paradigmaticamente um símbolo de três em um; isto é, foi a primeira, poderá ter sido a última e, porque não, a única. Quando tal acontece as razões não são as mais benéficas à mistura com as consequências que poderão ser nefastas…

Digamos que este panorama é pouco agradável, senão mesmo bastante inconveniente.

 1. Quais poderão ser as razões para avaliar um acontecimento, uma situação ou um episódio com aquela grelha de ‘três em um’? Que poderá contribuir para que algo seja analisado com aquela visão de ‘três em um’? Será essa análise avaliativa de ‘três em um’ um juízo sobre alguém ou quanto a algo que nos desagradou e, por isso, foi relegado para fora de oportunidade futura? Quando atinge o âmbito das pessoas ‘três em um’ não será mais marginalizador do que inclusivo?

 2. Estas questões poderão e deverão ser respondidas com factos e tendo em conta situações mesmo que desagradáveis há mais ou menos tempo.

Parece claro que quem usa aquela conclusão – ‘três em um’ – terá vivido uma razoável deceção quanto às expetativas que acalentava ou aquilo que lhe foi dado vivenciar ficou aquém daquilo que esperava, tanto mais que não desejará repetir a experiência. Não será que isso responde à pouca adesão posterior a um acontecimento (espetáculo, conferência ou iniciativa) que antes fora apresentado como de grande interesse, mas que, afinal, não passou de um fiasco ou insucesso?

 3. Num tempo assaz marcado pela exaltação do efémero, aquela atitude de ‘três em um’ poderá ser a resposta mais diplomática para rejeitarmos o que não presta, fazendo refletir àqueles que promovem a futilidade, a manipulação e mesmo o sem-sentido… Com efeito, já chega de termos de conviver com programas televisivos de tão baixa qualidade, mas que continuam a tentar impingir-nos em doses cada vez mais serôdias, descapacitadas e imbecis. Aquilo que antes nada valia, agora mete nojo e revela um país de mentecaptos em que nos tornámos… Uma vez foi para ver, duas para detestar, três e mais para rejeitar.

 4. Há casos em que a forma de atuar hipotética ou presumida não deixa estender as situações no tempo nem no espaço: falamos da limitação de mandatos e mesmo do tempo de duração (até três anos) disso mesmo. De facto, devemos ter mecanismos de autorregulação, segundo os estatutos e a forma de proceder. Mais do que uma habilidade deverá ser uma regra feita da experiência vivida e tendo em conta as situações anteriores.

 5. Precisamos, cada vez mais e melhor, de saber estar num tempo que valoriza a superficialidade para não cairmos nisso que podemos criticar, mas, alguma facilidade, corremos o risco de promover, facilitar ou mesmo de servir sem disso nos darmos conta. Talvez valha a pena colocar esta avaliação do ‘três em um’ como grelha das desistências de certos projetos, da ausência em certas iniciativas ou como aferição à desmobilização de propostas que caíram quase antes de terem sido postas em ato.

Que a exigência que colocamos para com os outros possa ser o critério de contínua valorização daquilo que pretendemos fazer por nós mesmos… Coerência a quanto obrigas, hoje como ontem e, sobretudo, amanhã!

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 4 de outubro de 2022

Igreja sem-misericórdia?

 

Tinha acabado de ler a longa missiva que o senhor arcebispo de Braga enviou à paróquia de Joane, quando fui rezar as laudes, onde encontrei uma ‘leitura breve’, que dizia: «porque o juízo será sem misericórdia para quem não usou de misericórdia. Mas a misericórdia triunfa do juízo» (Tg 2,13).

Andei todo o dia a matutar no sentido deste texto e nas palavras algo obscuras – isto é, não-presentes – quanto ao réu do texto sobre o qual o metropolita bracarense exarou na sua mensagem. Porque me incomoda sobremaneira o silêncio de tantos responsáveis eclesiásticos, porque sinto que há um ambiente acusatório e justicialista, porque, sem esquecer as vítimas tenham o tempo que tiverem, não podemos matar – moral e psicologicamente – quem prevaricou.

Deixo esta partilha dorida, sincera e à espera de maior humanidade para com o pecador, seja ele quem for.

1. Aos que se colocaram no pedestal do juizo – os factos recentes demonstram-no facilmente – a roçar o irracional, digo, humildemente, estamos todos sob suspeita e quanto maior for o estattuto mais estará suscetível de ser acusado. Porque não sabemos quem nos possa interpretar mal e acusar; porque bastará alguém mal-intencionado para nos ‘lançar uma fama’ (calúnia, difamação); porque, como diz o povo na sua sabedoria empírica, que não devemos cuspir para o ar, pois nos poderá cair na cara; porque não é a ‘a’ ou a ‘b’ que querem atingir, mas à Igreja como instituição... cuidemos em sermos prudentes sobre quanto anda por aí espalhado!

2. Com que facilidade se deita a perder toda a história de uma pessoa – alguns com largos e longos anos de vida – pela simples razão que prevaricou há mais ou menos tempo, com maior ou menor incidência e escândalo, com implicações que devem ser julgadas pelos atos, mas não se deve matar a pessoa. Com efeito, certas possíveis figuras armadas de arrogância fazem com que se queira introduzir uma espécie de inquisição moralista, que atinge preferencialmente o âmbito da Igreja católica. Não seria mais honesto que a tal ‘comissão independente’ recolhesse as acusações de outros campos de atividade humana, como instituiçoes militares, de forças de segurança, de colégios não-religiosos, de internatos, etc? Por que a fixação naquilo que envolve quase só a Igreja?

3. Fique claro que não se pretende aligeirar as responsabilidades das más ações, mas tão-somente desejo lembrar que esses que prevaricaram continuam a ser pessoas, sofrem – digo por conhecimento partilhado – sem que os responsáveis eclesiais tenham a presença que seria desejável, mesmo que isso possa conspurcar a reputação de quem se aproxima... Dizer isto só em pensamento já seria grave, mas vê-lo na prática custa muito, mesmo para quem pouco possa ter a ver com o assunto.

4. Com todo e o devido respeito de algo em contrário, a Igreja precisa de ser misericórdia para todos os seus filhos e filhas, onde os considerados ‘prevaricadores’ são penitentes e necessitados de perdão humano e divino. Ora, quando já foram julgados e condenados – alguns passados meses ainda não tinham recebido qualquer notificação ou acusação – pela opinião (dita) pública, não será de ajudar essas pessoas a irem mais sinceramente ao encontro da misericórdia da mãe-Igreja? Esta não pode ser madrasta para com nenhuns dos fragilizados, nem as vítimas nem os acusados. Mais do que palavras azedas e condenatórias, mais do que juízos e acusações, mais do que vermos o que todos veem, precisamos de descortinar os homens e mulheres pecadores em conversão, que, afinal, somos todos nós.

5. Deus passa em nós e através de nós, servindo-se dos nossos dons e qualidades, dos nossos múltiplos defeitos e inúmeros pecados. Quem estiver sem pecado atire a primeira pedra, disse Jesus aos acusadores de mulher apanhada em adultério!



António Silvio Couto

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Quando ‘estar contra’ se torna favorável

 

Mais uma vez as eleições no Brasil revestem-se de algo a fazer refletir e não é pelos resultados ‘inesperados’, mas pela conjugação entre diversos componentes explicáveis: antes (pesquisas/sondagens), agora (resultados – Lula: 48 %; Bolsonaro: 43 %) e no futuro (próximo – a campanha; mais tarde – quem vencerá?).

Daquilo que se pode entender parece que, quando as forças estão contra, algo se adivinha de diferente, seja pelos votos expressos, seja pelas consequências sociais e políticas.

Não será que alguns votaram Bolsonaro porque não queriam Lula e que este já atingiu o máximo das preferências? Será, por isso, de incluir nas linhas de reflexão se estar contra não reverte em favor de quem será do mal-o-menos?

1. Dá a impressão que boa parte dos nossos jornaleiros (jornalista é mais isento e distante) – tanto lá como cá – estavam a ver nas eleições brasileiras como algo parecido com um jogo de futebol, onde as jogadas dos intervenientes eram aplaudidas não pelos golos marcados, mas pelo espetáculo oferecido… Em certos comentadeiros/as (comentador não usa tantos adjetivos nem se pronuncia só pelo gosto partidário) – tanto cá como por lá – via-se que estavam bastante mais interessados em ver sangue, senão real pelo menos nas palavras, do que em fazerem a interpretação dos dados já expressos. Por estas razões deixou-me algo apreensivo quanto às reações dos eleitores brasileiros votantes em Portugal: se eram do Lula porque não ficaram lá? Se eram do Bolsonaro como vão regressar, se o primeiro vencer?

2. As cores simbolicamente preferidas dos candidatos – Lula – vermelho; Bolsonaro – amarelo contêm linguagem ideológica, sensível e, nalguns casos, provocatória. Se quanto ao amarelo entendemos que está contido na bandeira do Brasil, o vermelho de Lula é, nitidamente, uma abordagem marxista das questões sociais e mesmo culturais. Pena é que tudo isto passe por entre os folclores de campanha e sob a alçada das manipulações ideológicas.

3. Acima de tudo o que considero preocupante são as inquietações de alguns setores da nossa sociedade (portuguesa) que, sem ter nada com o assunto, vibra e critica aquilo que os brasileiros – e outros, como os italianos ou os suecos – escolheram ou vão votar. Os espetadores de bancada – foi essa a referência supra feita à comparação com os jogos de futebol – por cá como que consideram a sua afinidade partidária para se vangloriarem pelos ‘seus’ ou por invetivarem os adversários. De facto, somos muito lerdos de capacidade de interpretar estes e outros episódios da vida nacional e internacional.

4. Em jeito de questionamento deixou algumas pistas que poderão ajudar-nos a sermos mais ponderados no pensar e no agir.

– As pesquisas (ou sondagens) não serão, hoje, a maior manipulação dos eleitores, sendo preciso votar ao contrário dos resultados para que apontam e para termos a verdade das escolhas?

– Não será preciso encontrar pessoas na comunicação social que sirvam a verdade e que não tentem intoxicar os que pretensamente informam?

– O futuro não nos dirá se esta forma de fazer política – marcada pelas ideologias marxistas, transversais e internacionalistas…saudosistas dos impérios soviéticos e afins – não tem os dias contados?

– Por que há tanto medo da fé cristã na política e de uma política com valores cristãos?

5. Se outros dizem o que pensam – será que pensam o que dizem? – não terei o direito de idêntica ousadia?

Numa palavra: nem Lula nem Bolsonaro… Felizmente não tenho de escolher (nem quero) nenhum deles!



António Sílvio Couto