Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



domingo, 16 de janeiro de 2022

Emplastro ou coruja?

 

Por estes dias de campanha para as próximas eleições temos visto gestos, atitudes e comportamentos que bem nos devem fazer pensar, se não na reflexão mais aprofundada ao menos na tentativa mais conjetural de ler o significado…para avaliarmos as pessoas.
Explicando as duas palavras (ou estórias) contidas no título:
‘Emplastro’ tem sido a designação dada a um tal rapaz – tais gestos não poderão ser de pessoas adultas – que aparece, sem ser chamado e sem qualquer relação com as pessoas ou os assuntos a serem tratados nas reportagens televisivas: surge nos mais díspares lugares e nas mais diversas situações, muitas vezes destoando e tornando-se assaz ridículo... (Já tive de o pôr na ordem há anos, em Vila do Conde).
A estória da coruja é bem mais antiga e resume, segundo as intenções mais moralistas, uma forma de ver e, sobretudo, de ser visto. Com efeito, a coruja como ave noturna de rapina – simbolizando a sabedoria, a inteligência e mesmo o mistério – não é de grande beleza. Ora, havia uma disputa entre a coruja e a águia sobre qual delas tinha os filhos mais bonitos. Houve mesmo um pacto de não-agressão entre ambas para que respeitassem os filhos uma da outra. Depois de uma caçada encontraram-se e disse a coruja: viste como são lindos os meus filhotes? Ao que a águia respondeu: o que vi, ali atrás, foram uns filhotes cheios de fome, de bico aberto, todos depenados e muito feios, num ninho e como estava com fome, aproveitei e comi-os. Não eram os teus filhotes, pois não? A coruja achava que os seus filhotes eram os mais bonitos, enquanto a águia não os vi assim tão lindos!

1. Olhemos agora para as circunstâncias da apresentação das ideias a serem votadas em breve, nas eleições. Vimos, há dias, dois competidores em refrega, cada qual dirimindo as ideias em contenda com o outro. Independentemente da simpatia, de quem tenha ganho ou de quem foi mais assertivo, vimos um deles a trazer para o debate um tal ‘OE’, que foi rejeitado há cerca de dois meses e que disso decorreu estarmos agora em eleições… Qual imagem subliminar – atenda-se a esta expressão no contexto comunicacional – estava o volume do ‘OE 2022’ a ser apresentado…qual emplastro inoportuno e, particularmente, como ‘filhote da coruja’, isto é, não têm nada melhor e querem que votem nele… porque aquilo é o que conseguiram engendrar, agora e para o futuro e, sabe lá, quais serão as custas a pagar…

2. Será que vale tudo (e o resto) com que uns tantos podem servir-se de tudo (ou muito mais) para atingirem os seus fins? Não deveria haver um mínimo de civismo para que não sejamos todos tratados como mentecaptos e como subservientes do poder em funções? Até onde pode ir o silêncio cúmplice de tanta da comunicação social, onde, depois dos debates, se gastam horas a desmembrar frases que não têm o mínimo significado daquilo que lhes atribuem? Até onde irá a esperteza de uns tantos, que não contam com a inteligência dos que não alinham com eles? Não será contumácia no erro (político, social e económico) ao insistirem no ‘OE’ rejeitado, por maioria, já no parlamento?

3. A coruja também simboliza ou preanuncia ‘mau agouro’, sobretudo, em certas regiões: é como que um aviso para a morte que se avizinha. Disso mesmo parece que ainda não se aperceberam os fabricantes de sondagens. Com efeito, como se explica que, dias depois do frente-a-frente entre os dois maiores concorrentes, surja uma tal ‘sondagem’ a dar mais de dez pontos percentuais de diferença entre ambos? Querem que ainda se acredite nas patranhas que engendram? Todos sabemos que certas movimentações de avaliação sobre o comportamento das pessoas dá o resultado que quisermos que deem, desde que introduzamos os dados a condizer com as nossas pretensões ou segundo os critérios preconceituosos.
A empresa de sondagens – favorável em dez pontos de diferença entre o concorrente do governo em funções e quem o desafia – é a mesma que, chegou a dar o dobro da votação a quem perdeu em Lisboa, nas eleições autárquicas…recentes. Coincidência ou mero erro de teimosia programada?
Pelo menos seria de bom-tom que não se fizesse alarido com os números… até porque os dados recolhidos – dizem – são anteriores (6 a 12) ao debate onde o emplastro sem mostrou bastante coruja de mau agoiro!

António Sílvio Couto

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Silêncio – ausência ou presença?

 


Um dia a professora, no início da manhã, perguntou às crianças se alguém saberia explicar ‘quem é Deus’. Uma das crianças levantou o braço e disse: Deus é nosso pai, Ele fez a terra, o mar e tudo o que está neles, fez-nos seus filhos. A professora, querendo ouvir outras respostas, retorquiu: como sabem que Deus existe, se nunca O viram? Fez-se silêncio na sala e o Pedrito, um tanto a medo, levantou o braço e disse: a minha mãe disse-me que Deus é como o açúcar no meu leite, que ela prepara cada manhã; eu não vejo o açúcar misturado com o leite, mas se ela não o coloca, fica sem sabor. Deus existe e está sempre connosco, só que nós não O vemos, mas se Ele sair de perto de nós a nossa vida fica sem sabor...

É estória. Não terá algo a querer incomodar-nos?
Falar sobre o silêncio poderá parecer ter conteúdo mais profundo de Deus.

1. «O silêncio: aquele espaço de interioridade nos nossos dias nos quais damos ao Espírito a oportunidade de nos regenerar, de nos consolar, de nos corrigir. Não estou a dizer que devemos cair num mutismo, não, mas devemos cultivar o silêncio. Cada um olhe para dentro de si mesmo: muitas vezes estamos a fazer um trabalho e quando terminamos procuramos imediatamente o telemóvel para fazer outra coisa, somos sempre assim. E isto não ajuda, faz-nos escorregar para a superficialidade. A profundidade do coração cresce com o silêncio, um silêncio que não é mutismo, como eu disse, mas que deixa espaço à sabedoria, à reflexão e ao Espírito Santo. Por vezes temos medo dos momentos de silêncio, mas não devemos recear! O silêncio far-nos-á muito bem. E o benefício para os nossos corações curará também a nossa língua, as nossas palavras e, sobretudo, as nossas escolhas».
Eis como o Papa Francisco, na audiência geral de 15 de dezembro de 2021, definia, incentivava e exigia que nós, cristãos, sejamos cultivadores conscientes e dinamizados pelo silêncio, à semelhança de São José.

2. Agora que surgem trocadilhos como ‘dar voz ao silêncio’, propostas artísticas: ‘silêncio que se vai cantar o fado’ ou ainda desafios a dar tempo ao silêncio num esvaziamento para o nada (das religiões exotéricas e da moda), torna-se essencial ver quais devem ser as caraterísticas do nosso silêncio cristão.
Antes de mais ‘cada um um olhe para dentro de si mesmo’. Sim, precisamos de ver a figura palradeira com que tantas vezes nos entretemos, não ouvindo nem deixando os outros ser ouvidos.
Silêncio de profundidade: com que destreza dizemos coisas, mas sem conteúdo, tal a velocidade das palavras vazias, ocas sem nexo.
Quando se tem algo a dizer com profundidade não se faz tanto barulho com os dentes – outros falariam de outros adereços mais ruidosos – nem se grita como se os outros fossem surdos, pois quando o coração fala escuta-se com respeito, veneração e significado.


3. A questão de fundo parece ser esta: o que faz adoecer mais, o silêncio ou o barulho? Com efeito, vemos tantas pessoas desequilibradas pelo basqueiro – termo regional minhoto para dizer: barulho em excesso ou confusão de vozes – em que se metem e onde tentam colocar o relacionamento com os outros. Não se calam nem um segundo, pensando com isso ganharem ascendente sobre os outros. Repare-se na insonorização que precisamos de constuir para que os debates políticos tenham qualidade de serem um pouco mais do que algazarra sem nexo nem propostas...aceitáveis.


4. Se não atalhamos com urgência, dentro em pouco será impossível comunicarmos uns com os outros. Precisamos de ter espaço e espaços onde se cultive o silêncio como método de vida e como atitude social, onde não haja música (dita) de ambiente, que mais não é do que alienação para que ninguém se escute ou possa comunicar minimamente. Até os lugares de celebração da fé cristã precisam de ser reeducados para o silêncio, onde Deus fale: nós o escutemos a Ele e uns aos outros. Silêncio, precisa-se!



António Silvio Couto

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Em processo de humilhação…social

 


Mesmo que de forma inconsciente temos estado a viver um processo de humilhação, que, por ser rotativa, ainda não fez com que todos assumíssemos que nos atingiu com maior acutilância: o confinamento por ocasião das restrições criadas pelo vírus da pandemia. Agora que se tem vindo a acelerar a quantidade de pessoas sob a alçada dessa privação necessária da liberdade talvez isso deixe de ser algo lateral para se tornar um aspeto essencial da nossa vida coletiva.

Nunca pensei que as pessoas fossem tão atrozes, quando está em causa uma espécie de perigo de contágio. Nunca julguei que certos gestos pudessem tornar-se marginalizadores, mesmo que com sentido de prevenção. Nunca considerei que alguns aspetos dissuasores da possível doença revestissem a possibilidade de afastar as pessoas sob o medo.

1. Estamos prestes a completar dois anos sob a alçada do ‘covid-19’. Aquilo que parecia uma pequena infeção tornou-se infetocontagioso em alta escala, espalhando entre todas as sociedades, desde as mais civilizadas até às mais remotas; desde os palácios mais desinfetados até aos tugúrios mais fétidos; desde os laboratórios científicos até às masmorras mais recônditas e esconsas; desde as finas figuras mais higienizadas até aos que mergulham na imundície mais sórdida… Tornamo-nos uma sociedade anónima prenhe de medos… e não foi só a máscara que nos fez anonimar, foi tudo o que foi criado em volta de nunca sabermos quando será a nossa hora de sermos submetidos à prova…

2. Até que um dia, quando menos se esperava, o teste deu positivo, mesmo que os indícios da doença sejam diluídos. Dizem que serão aos milhares os que terão de sair de circulação por mais ou menos tempo. A previsão que de todos seremos (seríamos) contaminados vai ganhando qualidade de convicção. Enquanto houver quem cuide dos outros ainda será uma contingência salutar. Os números crescem de dia para dia e aquilo que ontem era suspeita, hoje tornou-se realidade: precisar de ajuda não é mais uma fraqueza, mas uma certeza de que estamos numa cadeia de relações crescentemente vinculativas da fragilidade de todos e de cada um.

3. Artefactos como testes (rápidos ou em laboratório) e vacinação, certificados e novas testagens passaram a fazer parte da rotina para dar acesso a locais com presença de outras pessoas. Assim nos vamos enganando, sem nos apercebermos que, por muito pouco, poderemos ser fatores de humilhação (pública ou privada), se não houver tato e cuidado nas abordagens e nos comportamentos. Em todo este processo social há riscos e perigos múltiplos e sabermos entender, interpretar e vivenciar tudo isto exigirá capacidade de educação, de civismo e mesmo de compreensão básica.

4. Duas linhas parecem querer confrontar-se na interpretação do fenómeno desta pandemia: uma mais de pendor sanitário e outra de teor mais económico, como se pudesse haver saúde sem economia ou economia sem saúde. Alguns setores de atividade, como as escolas nos diversos níveis, têm andado ao sabor dos números da pandemia… abrindo ou fechando em consonância com as oscilações de maior ou menor contágio e/ou risco de difusão. Somos e estamos num contexto de interdependência de proximidade, como confiar em quem não acredita em si mesmo e tão pouco respeita os outros?

5. De entre as várias consequências destes quase dois anos de estarmos com o ‘credo na boca’ em razão do vírus, há uma que relevo: parece que nos temos vindo a tornar menos egoístas, se bem que andemos na defensiva, pois aquilo que os outros fazem têm repercussão na nossa vida e também aquilo que nós vamos vivendo pode deixar marcas nos outros: desde os cuidados higiene-sanitários, passando pela vacinação e até pelo distanciamento recomendado ou o uso da máscara… Há algo que me confunde: como é que há pessoas que, vendo perecerem tantas vítimas, ainda se julgam no direito de não respeitar os demais? Como poderemos considerar tais criaturas dignas de viverem em sociedade? Ninguém escapará sozinho!

António Sílvio Couto

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Negar a negação?

 


Por estes dias o termo ‘negativo’ pode ter sido das palavras mais ansiadas em ver escrito ou de ter ouvido… No entanto, não é desse ‘negativo’ sanitário a que nos queremos referir.

Ora, numa outra lógica da linguagem, por vezes, surge a proposta de negar duas vezes, na mesma frase, parecendo isso ser algo positivo. Isto inserir-se-ia naquela asserção (mais ou menos matemática) de que menos com menos dá mais.

 1. Nos tempos mais recentes temos andado entretidos com fraseologias algo vazias, senão mesmo ocas de significado. Veja-se o que se diz – na empestada lógica do politicamente correto – de que não há obrigação de vacinação das populações, mas para ter acesso a uma razoável quantidade de locais e serviços de possibilidade pública têm de ser apresentados documentos que obrigam à vacinação e, sem tal ‘livre-trânsito’ imprescindível, fica-se à porta. Portanto é negada liberdade de não ter sido nem de não querer ser inoculado…Mas ninguém assume a obrigação. Embora gratuito, assuma-se que não é facultativo, mas antes benéfico para todos. Fique claro: estou vacinado – a dose de reforço teve de ser adiada – e submeter-me a teste (embora a custo) não obsto.  

2. Mais uma vez emergiu – com o desenrolar da campanha para as eleições do final do mês – o fantasma que de que quem não alinha nas ideias que não sejam de uma certa esquerda não tem direito a ter opinião nem sequer pode exprimir-se com liberdade, pois esta tem de ter um rótulo da subserviência a certos valores prefabricados, embora já fora de validade em muitas latitudes.

Nota-se que há uma grela ideológica onde se tem de entrar e não alinhar acriticamente não permite ser aceite. Alguns denotam tiques de nomenclatura orwelliana dos finais do século passado, não permitindo que certos animais se destaquem dos seus congéneres. Com que subtilezas ressurgem ciclicamente estas coisas em maré de eleições, sobretudo se estão em jogo campos ideológicos mais ou menos antagónicos, desde que não se misturem nas conveniências práticas.

 3. Temas não essenciais vão ocupando espaços de longa discussão, deixando de fora o que mais interessa debater, esclarecer ou mesmo questionar. Tem algum jeito trazer à liça questiúnculas resolvidas há quase dois séculos, como a pena de morte ou a prisão perpétua? Os problemas atuais não cativam mais a atenção de quem precisa de ser educado nas convicções cívicas? Habilidosos de tal entretenimento gastam parcos minutos em frentes-a-frentes de gritaria e malcriadez. Qual jogatana de boxe ou combate de kickboxing somam os pontos após cada disputa…sem atender ao mínimo interesse dos assuntos, mas não deixando que não consigam dizer nada… Até já dão pontuações…ridículas, tendenciosas e sem nexo. Será que isso se reverte em votos ou vale antes desinteresse?

 4. Os leques de comentadeiros/as – dizem que têm carteira de jornalista – parecem não passar de arietes camuflados de forças em competição. Agora que o povo está novamente em confinamento encapotado, tais programas podem concorrem ainda mais acentuadamente para a abstenção, pois quase tudo é parece recesso, vazio e requentado de outras épocas e estações.

Há uma questão que considero abominável: uns tantos acham que os votos neles devem valer, mas se forem expressos noutros não têm idêntica valorização. Felizmente cada um só tem um voto ou será que não é bem deste modo?

 5. Não parece minimamente sério nem credível a discussão sobre a influência na votação das pessoas que possam estar confinadas por ocasião das eleições. Certas sugestões continuam a estar eivadas de marginalização de quem tem de se submetido a restrições em razão do vírus. Alguns precisariam de não se colocarem acima dessa possibilidade, pois, com tão rápido contágio, hoje posso ser obrigado a não poder sair de casa, quando ontem não o previa… Negar a negação pode não servir para tudo nem para todos!    

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

‘Vacina’ – a palavra de 2021

 


Foi divulgada a escolha da ‘palavra do ano’ de 2021: vacina.
Das palavras colocadas à votação encontramos as seguintes: apagão, bazuca, criptomoeda, mobilidade, moratória, orçamento, podcast, resiliência e teletrabalho.
Nota-se, nas palavras do ano passado, uma preponderância de termos económicos e poucas palavras relacionadas com a temática de saúde, que temos vivido com intensidade nos tempos mais recentes.

1. A sondagem-inquérito de índole cultural-popular ‘A palavra do ano’ é uma iniciativa da Porto Editora que tem como principal objetivo sublinhar a riqueza lexical e o dinamismo criativo da língua portuguesa, património vivo e precioso de todos os que nela se expressam, acentuando, assim, a importância das palavras e dos seus significados na produção individual e social dos sentidos com que vamos interpretando e construindo a própria vida.
Assim se lê na divulgação da iniciativa…na qual tenho participado, votando, nos últimos anos.

2. Nas anteriores edições – com início em 2009 – as palavras vencedoras foram: saudade (2020), violência doméstica (2019), enfermeiro (2018), incêndios (2017), geringonça (2016), refugiado (2015), corrupção (2014), bombeiro (2013), entroikado (2012), austeridade (2011), vuvuzela (2010) e esmiuçar (2009).
Pelo que podemos interpretar, nestes treze anos da iniciativa, como que ser-nos-á um tanto mais fácil fazer uma leitura sincrónica da nossa história recente…e daquilo que nos preocupou, motivou ou mesmo conduziu.

3. Se nos fixarmos, agora, na palavra-chave de 2021 – vacina – podemos captar aquilo que ela significou como resposta à pandemia que nos assolou nos últimos dois anos. De facto, perante a difusão do vírus deu-se uma notável intervenção da ciência para debelar as mazelas do ‘covid-19’. Foi, até ao momento, mais fácil enfrentar as consequências do que de encontrar as causas. Estas continuam no segredo dos deuses – sim desses que conhecem tudo e aos humanos condicionam os comportamentos – e que, no afã de querermos ser aventureiros nos temos deixado ultrapassar pela mediocridade das respostas.
De muitas e variadas formas sinto que as nossas interrogações sobre todo este mistério do ‘covid-19’ têm sido pouco ousadas e que, por falta de inteligência ou por orgulho intelectual, temos preferido continuar ignorantes a sabermos questionar verdadeiramente o nosso Deus: Ele sabe o que nos quer dizer com tudo isto, mas a soberba da vida, a incapacidade dos meios e a insuficiência de recursos têm adiado a assunção de respostas… humildes, sinceras e sensatas. Perdoando a comparação: parecemos crianças a brincar ao esconde-esconde, mas sem deixarmos que se nos mostre a solução…

4. Aos profetas do slogan bacoco do ‘vai ficar tudo bem’ podemos dizer que não passaram de mentirosos, sem tino e tão pouco bom senso, pois estava claro que a purga de velhos – em lares e famílias, mais ricos ou mais pobres, de direita ou de esquerda, crentes ou incréus, nas cidades ou nas aldeias – dizimou uma fatia de pessoas sem apelo nem agravo. Dizer que a vacinação iria colmatar as lacunas sanitárias foi outra das patranhas servidas a rodos e sorvidas sem modos. Se os confinamentos atenuaram alguns dos riscos, as tentativas economicistas deitaram quase tudo a perder, obrigando a gastar milhões em testes e vacinas como se tudo se resolvesse com remendos e não com o enfrentamento real das coisas.

5. Algo se agrava quando temos de passar pelas experiências relatadas de outros: os dias de isolamento tornam-se intermináveis; os cuidados de não contactarem connosco agravam a sensação de proscrito; a ansiedade do resultado do teste (rápido ou de laboratório) assume incapacidade de lidar com o imprevisto; a sensação de abandono – quase por Deus – como que assalta, à semelhança do salmista rezingão…
Depois de tudo isto não ficaremos iguais. Ora como dizem que mais tarde ou mais cedo todos seremos contagiados, espero que saia desta experiência uma sociedade mais sensível à fragilidade alheia e, por conseguinte, mais humana, mais fraterna e, sobretudo, mais cristã… Nada poderá ser igual, nada!

António Sílvio Couto

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

À descoberta do significado do batismo de Jesus


«9 Por aqueles dias, Jesus veio de Nazaré da Galileia e foi baptizado por João no Jordão. 10 Quando saía da água, viu serem rasgados os céus e o Espírito descer sobre Ele como uma pomba. 11 E do céu veio uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus todo o meu agrado» (Mc 1, 9-11 // Mt 3, 13-17; Lc 3, 21-22; Jo 1, 31-34).

 As circunstâncias do batismo de Jesus por João Batista são de simples compreensão: caminhando com os outros – ‘Deus connosco’ (Mt 1, 23) – apreesenta-se na simplicidade, sem se fazer avisar, para ser batizado, tendo João ripostado a tal pretensão – «eu é que tenho necessidade de ser batizado por Ti, e tu vens a mim? Jesus respondeu-lhe: deixa por agora. Convém que cumpramos toda a justiça. E João, então, concordou» (Mt 3, 14-15). Solidarizando-se com os pecadores pelo batismo, Jesus manifestava como a sua missão se distanciava do sonho judaico de um Messias triunfante (cf. Mt 11, 2-6; 16, 13-23).

Ao sair da água deu-se a teofania das três Pessoas divinas, revelando o mistério de Jesus de Nazaré. Deus Pai, com o Espírito Santo, apresenta-o solenemente como seu Filho, que assim inaugura a vida pública. Segundo Lc 3, 21, isto aconteceu quando Jesus estava em oração. Em Mt 3,17, a voz do céu é dirigida às pessoas que estão presentes. João é, simultaneamente, ministro e testemunha: ele viu e tornou-se aquele que creditou tal manifestação trinitária.

«Após esses trinta anos de vida escondida, começa a vida pública de Jesus. E tem início precisamente com o batismo no rio Jordão. Mas Jesus é Deus, por que se faz batizar? O batismo de João consistia num rito penitencial, era sinal da vontade de se converter, de ser melhor, pedindo perdão pelos próprios pecados. Certamente Jesus não os tinha. De facto, João Batista procura opor-se, mas Jesus insiste. Porquê? Porque quer estar com os pecadores: é por isso que se põe na fila com eles e faz o mesmo gesto. Ele fá-lo com a atitude do povo, com a sua atitude [do povo] que, como diz um hino litúrgico, se aproximava com “nua a alma e nus os pés”.  A alma nua, ou seja, sem cobrir nada, pecador. Este é o gesto que Jesus faz, e desce ao rio para se imergir na nossa própria condição. Com efeito, batismo significa precisamente “imersão”. No primeiro dia do seu ministério, Jesus oferece-nos assim o seu “manifesto programático”. Ele diz-nos que não nos salva de cima, com uma decisão soberana ou um ato de força, um decreto, não: salva-nos vindo até nós e assumindo os nossos pecados. É assim que Deus vence o mal do mundo: abaixando-se, e assumindo-o sobre si mesmo. É também o modo como podemos elevar os outros: não julgando, não lhes dizendo o que fazer, mas estando perto deles, partilhando o amor de Deus. A proximidade é o estilo de Deus para connosco; Ele próprio disse a Moisés: “Pensa: que pessoas têm os seus deuses tão próximos como tu me tens a mim?”. A proximidade é o estilo de Deus para connosco» (Papa Francisco, ‘Angelus’, 10 de janeiro de 2021).

Porque Deus está próximo, mesmo no nosso interior, saboreemos a sua presença, agradecendo, hoje, o dom do nosso batismo.

 * Testemunho de João – «31 Eu não o conhecia bem; mas foi para Ele se manifestar a Israel que eu vim baptizar com água.» 32 E João testemunhou: «Vi o Espírito que descia do céu como uma pomba e permanecia sobre Ele. 33 E eu não o conhecia, mas quem me enviou a baptizar com água é que me disse: 'Aquele sobre quem vires descer o Espírito e poisar sobre Ele, é o que baptiza com o Espírito Santo'. 34 Pois bem: eu vi e dou testemunho de que este é o Filho de Deus» (Jo 1, 31-34 // Mt 3, 13-17; Mc 1,9-11; Lc 3,21-22).

 Na secção de Jo 1,19-34 encontramos a importância que o evangelista confere a João Batista, num ambiente de expetativa messiânica, centrando as posições de João Batista naquilo que podemos considerar a passagem de testemunho entre ele e Jesus, apresentado como ‘o Cordeiro de Deus’ (vv. 29-30) e, particularmente pela teofania do batismo (vv. 31-34). Dá a impressão que João não conhecia bem Jesus – «E eu não o conhecia, mas quem me enviou a baptizar com água é que me disse: 'Aquele sobre quem vires descer o Espírito e poisar sobre Ele, é o que baptiza com o Espírito Santo'» (v. 33), mas tinha uma ‘informação’ de que aquele sobre quem visse o Espírito Santo manifestar-se, em forma de pomba – dizem algumas traduções – esse era «o Filho de Deus».

«Da parte de Jesus, o seu baptismo é a aceitação e a inauguração da sua missão de Servo sofredor. Deixa-se contar entre o número dos pecadores. É já «o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo» (Jo 1, 29), e antecipa já o «baptismo» da sua morte sangrenta. Vem, desde já, para «cumprir toda a justiça» (Mt 3, 15). Quer dizer que Se submete inteiramente à vontade do Pai e aceita por amor o baptismo da morte para a remissão dos nossos pecados. A esta aceitação responde a voz do Pai, que põe toda a sua complacência no Filho. O Espírito que Jesus possui em plenitude, desde a sua conceição, vem «repousar» sobre Ele (Jo 1, 32-33) e Jesus será a fonte do mesmo Espírito para toda a humanidade. No baptismo de Cristo, «abriram-se os céus» (Mt 3, 16) que o pecado de Adão tinha fechado, e as águas são santificadas pela descida de Jesus e do Espírito, prelúdio da nova criação» (Catecismo da Igreja Católica, 536).

 

António Sílvio Couto

  

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Resumindo e concluindo...certas e determinadas coisas

 


Nas conversas que temos ou que ouvimos há, por vezes, expressões – frases-feitas, chavões ou moletas de linguagem – que nos obrigam a refletir sobre o possível vazio, o recurso que utilizamos ou mesmo o sem-sentido de tais intervenções.

Depois de algum tempo a linguajar, talvez sem nexo ou de forma difusa, alguém sugere para atalhar: ‘resumindo e concluindo’, isto é, tiremos resultado daquilo que falamos,  espremámos a conversa para ver se temos conteúdos, tanta coisa de verborreia para dizer e tão pouco ou quase-nada...

Noutro sentido pode ir a expressão ‘certas e determinadas coisas’, pois nela correm o risco de se misturarem suspeitas com conjeturas, difamações com mentiras ou mesmo má-fé com acusações eivadas de preconceitos, ressentimentos ou até de ruindade.  

 1. Possivelmente a melhor forma de explicar estas duas expressões poderá passar por ‘casos’ concretos, muitos deles servidos em bandeja de engano ou sob corolário de mesquinhez. Quem não se recorda do processo algo complexo da mais recente provação a que a Igreja católica tem sido submetida na última década: a descoberta e denúncia, a exposição e difusão, de casos de abusos – de menores ou não – sobre pessoas frágeis e fragilizadas, tanto no âmbito sexual como noutras vertentes de consciência e/ou arbitrariedade de poder.

Saído das trevas do tempo este problema tem sido uma questão onde ‘certas de determinadas coisas’, quando evocadas, mais ofuscam a verdade do que as consequências, onde o manto tenebroso da suspeita mais aterroriza do que a aceitação dos erros, das maldades e das lacunas de tantos e tantas.

Com que habilidade algumas forças colocaram ‘situações’ sob a alçada de ‘certas e determinadas coisas’, desde que se possa condicionar – mais ou menos conscientemente – o apuramento da verdade. Que dizer da tal comissão dos ‘241’, que se fez ouvir com alarde, por forma a colocar tudo e todos sob suspeição, pois as comisões diocesanas de averiguação pareciam ‘incapazes’ de acertar em ‘certas e determinadas coisas’. Alguns até investidos de assistentes religiosos de movimentos de jovens preferiam a dita ‘comissão independente’, às de indole diocesana, como se duvidassem da idoneidade destas e apregoassem as certezas daquela. Se têm dados porque não os apresentam? Não será isto uma manobra para colocar na engrenagem ‘certas e determinadas coisas’, que mais não passam de efabulações do que de reais verdades. Quem assim procede a quem serve? Que pena elogiarmos os estrangeiros e denegrimos os nossos... Esta capacidade de subdesenvolvimento é atávica e funesta, hoje como ontem!

 2. Por estes dias de antecedência às eleições do final do mês poderemos ver ‘certas e determinadas coisas’ das lutas partidárias, nunca antes vistas, mas possivelmente desenterradas ‘à la carte’, pois o medo quase sempre é bom conselheiro para lançar notícias falsas ou falsidades nas notícias. Quais influenciadores da democracia, eis que se perfilam ‘personalidades’ a manipular as pretensões, quando ainda nem se sabem os resultados. Os tiques de inquisição não têm limites, desde que ‘certas e determinadas coisas’ possam correr-lhe de feição. Se fossem outros a fazerem algo idêntico como reagiriam?

 3. Resumindo e concluindo: precisamos de cuidar da nossa capacidade mínima de credibilidade, pois colocar os outros em dúvida só porque nos podem ofuscar as pretensões, além de inveja reveste a faceta de ignorância, a qual quando elevada ao poder costuma deixar marcas por longos tempos na subserviência, no caciquismo e até no despotismo...

Resumindo e concluindo: urge ter capacidade de denúncia das tropelias alheias, mas sem nunca deixar que sejamos corrigidos pelas intenções formuladas para com os outros.

Resumindo e concluindo: quão útil será atendermos aos dedos investidos em acusação, pois dos cinco, dois invetivam os outros, mas três denunciam-nos a nós mesmos. Coerência, a quanto obrigas!

 

António Silvio Couto