Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

‘Boas festas’

Um destes dias cruzei-me na rua com uma figura política conhecida no espaço onde agora vivo. Depois de breves frases de circunstância, o senhor rematou: ‘boas festas!’
Fiquei a pensar no que podia significar tal desejo, visto que – tanto quanto se sabe – o senhor que tal  expressão manifestou não é crente em Deus, embora ocupe um lugar de destaque na sociedade politico-autárquica... e pretenda ser bom cidadão.
- Embora este desejo de ‘boas festas’ ande no andar: que poderá significar tal pretensão, à luz do (não) Festejado no Natal?
- Se bem que este desejo de ‘boas festas’ possa resumir uma espécie de anseio: que alcance poderá ter para quem não reconhece que o (tal) Aniversariante nos faz irmãos?
- Atendendo a que o desejo de ‘boas festas’ pode incluir um (quase) ritual social: que significado poderá envolver, se fazemos festa a nós mesmos, desconhecendo Quem motiva a pretensa festança?

= ‘Boas festas’ de quem?
Na medida em que a sociedade se foi descristianizando, urge recolocar as referências do Natal nas palavras e no comportamento pessoal, familiar e coletivo: este é o aniversário do nascimento de Jesus, acontecido em Belém da Judeia... com o qual se fez a divisão da era histórica e social – antes de Cristo e depois de Cristo – Ele é a marca divisória inclusiva e universal. Com efeito, por muito que se enfadem certas correntes filosóficas, culturais e/ou exotéricas, ninguém divide o tempo da História entre antes ou depois de Marx, de Freud ou de Nitzeche, de Sócrates ou de César... Nem certas correntes agnósticas e (pseudo)-ateias conseguirão excluir da mentalidade as referências a Jesus Cristo, pois, muitas vezes, fazem-no por oposição a Ele, tendo de reconhecer a Sua existência e a sua influência na cultura... desde há mais de vinte séculos.
Nem a bizarra figura do ‘pai natal’ conseguirá interferir na prossecução do advento de Cristo, pois quem está subjacente àquela figura é – nem mais nem menos – um bispo católico (São Nicolau), embora explorado, no início da década de trinta do século vinte por uma marca de refrigerantes americana. Não deixa de ser sintomático que possamos refletir – neste nosso tempo dito de ‘crise’ – sobre essa ‘grande depressão’, que se abateu sobre o mundo entre as duas grandes guerras. Pode(re)mos agora exorcizar esse símbolo do consumismo, dando espaço e oportunidade ao verdadeiro sinal que celebramos no Natal.

= ‘Boas festas’, porquê?
Quando tantos e muitos dos nossos concidadãos passam dificuldades de vária ordem – económica e financeira, familiar e de emprego, alimentar e sobre as rendas de casa, etc. – porque havemos de desejar ‘boas festas’, se estas são mais alienação do que motivo de celebração. De fato, quando a ‘crise’ faz encolher os gastos e turvar o semblante das pessoas, será sinal de que as ‘boas festas’ estavam, sobretudo, centradas em coisas e não ideais ou sob objetivos de vida consentâneos com a fé.
Efetivamente, as luzes eram mais para nos seduzir e enganar e não para nos alumiar a partir de Cristo, luz do mundo e centro da nossa fé cristã.
Eis chegada, então, a oportunidade de viver o espírito do presépio – esse espaço de pobreza e de desafio à complexidade do nosso mundo – numa atitude de simplicidade, vivendo centrados no essencial, sem enfeites ou papel luzidio... onde muito se vende e tão pouco se vivencia.
Queira Deus que saibamos aproveitar este momento histórico e espiritual de entrarmos no novo ano com nova energia – 2012 é o ‘ano internacional da energia’ – dando nova condição à paz, educando – como diz o tema da mensagem do Papa Bento XVI para a celebração do dia mundial – os jovens para a justiça e para a paz.  

 António Sílvio Couto

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Diante do presépio, hoje!

Eis-nos com toda a verdade e humildade diante dos vários sinais, que são as figuras do presépio. Não são muitas as que iremos referir, mas cremos que são as essenciais... para descobrir novas lições de vida.
Tentamos, ao longo do Advento, viver e ajudar a viver esta dinâmica contemplativa diante destas figuras do presépio.  Por isso, mais do que boas intenções para os outros quisemos vivê-las... por antecipação, deixando aos nossos leitores algumas sugestões diante do presépio... sem romantismo nem sabor idílico, consideradas como desafios à nossa pressa diária.

- As ‘ovelhas’ numa linguagem de simplicidade... para sabermos compreender as palavras de Deus nosso dia-a-dia.
De fato, as simples ovelhas podem-nos acalmar, por entre tanta azáfama e correria na vida do dia a dia. A sua pacatez faz-nos bem ao nervoso (quase) inconsequente para travarmos os nossos impulsos consumistas. Perante um certo vazio de vida e duma programação sem objetivos, podemos e devemos olhar aquelas simples ovelhas como sinais de humildade e de comunhão com a natureza.

- O ‘boi/vaca e o burro’ numa linguagem de afeição e quase ternura... para deixar-nos iluminar no relacionamento mais fraterno uns com os outros.
Apesar de serem animais de outro porte e com diferente figuração, vaca e burro podem servir de aconchego a Jesus na noite fria – tal é o ideário da nossa imaginação! – de Belém, criando um ambiente menos gelado em nós e à nossa volta. Nem a ruralidade daquele quadro pode-nos distrair da consciência de afago e proteção, que estes dois animais dão ao nosso presépio, tão simples e centrado no essencial.

- A figura de São José, como sinal e presença do pai em família.. para deixamos iluminar a nossa realidade familiar pela atitude de testemunho em proximidade para com aqueles que vivem connosco.
Normalmente a imagem de São José é-nos apresentada como alguém que está de pé e em vigia sobre a Mãe e o Filho: ele dá proteção e segurança, cuida e vela, resguarda e acompanha... Numa espécie de recordação tentamos ver o lugar do pai na família, com a devida presença e o necessário cuidado sobre todos aqueles que estão sob a sua proteção. José está. E os pais também estarão, hoje?

- Maria, como figura do presépio e presença de mãe, na Igreja e no mundo...  para suplicarmos e expormo-nos ao olhar materno de Maria para connosco… rumo ao Natal.
Ela é a Mãe. Depois de muitas dificuldades, contempla o seu filho – como qualquer mãe – reclinando-se sobre ele, sem distrações nem outros afazeres, que não seja cuidar dele. Este Filho, no entanto, é Jesus, o Verbo encarnado em seu seio pelo poder do Espírito Santo. Este quadro é sublime e santo, é intenso e simples, é atual e lança sementes para o nosso futuro... O teu rosto Mãe é de esperança! O teu rosto Mãe dá confiança!

- A imagem de Jesus-Menino está ao centro do nosso presépio, chamando a nossa atenção, pois Ele é o festejado... de braços abertos para nos receber.
Com efeito, que sentido teria a festa se o festejado fosse esquecido? Por vezes, andamos tão atafulhados com tantas coisas e com tantos outros interesses, que O festejado corre o risco de nem ter lugar no nosso coração. Efetivamente foi por não haver lugar na hospedaria, lá em Belém, que Jesus teve de nascer num curral de animais. Será que Ele tem lugar no meu Natal ou vai continuar à espera?
Jesus (re)nasce em mim, neste Natal.

António Sílvio Couto

sábado, 3 de dezembro de 2011

Excesso de notícias versus paz social

Nesta época de globalização, vivemos uma espécie de intoxicação informativa onde de tudo se fala, se mostra em excesso e, sem qualquer contenção, se noticia tudo e mais alguma coisa... Pois, dentro de uam certa lógica, o que não se noticia não existe ou será, no mínimo, ignorado!
É recorrente vermos que, a partir de breves notícias, imagens ou mensagens, se faz grande alarido, se provocam convulsões sociais, se desencadeiam espirais de violência, se incendeiam multidões... sabendo mais ou menos como começa e dificilmente se percebe como acabam.
Se, como aconteceu recentemente, a ‘greve geral’ não tivesse sido (tão) noticiada, será que o impacto da dita teria a mesma proporção e interesse para os seus mentores, os fazedores ou os receptadores? Se é ‘greve geral’, então, porque é que essa tal não é para todos e só para quem pretensamente ganha com o acontecimento? Alguém parece estar a querer mentir a outrém!...
Sem pretendermos menosprezar certos fatos de alcance público, questionamos se o excesso de notícias – algumas delas feitas quase para servir os ‘donos’ (económicos, políticos e até ideológicos) das empresas que pagam aos noticiadores – não poderão reverter em desfavor da paz social. Já vimos este filme noutros países... e Portugal enferma da mesma doença destabilizadora, manipulada e manipuladora!
Sabemos que, nos regimes de ditadura – política, ideológica e cultural – a melhor forma de tentar vencer os opositores é calar quem não pensa da mesma forma que eles. Mas não será mais útil à sociedade criar critérios de bom senso do que meros servidores do sensacionalismo? Afinal, uma imagem ou uma frase podem ser manipulados, distorcidos ou tirados do contexto... ficando à mercê de quem se diz ‘independente’, segundo o critério... da sua intenção mais ou menos subtil e pretensamente isenta!

= Em respeito pela vida privada
Nesta promiscuidade de informação a que estamos submetidos, diariamente, vemos com bastante frequência ser devassada a vida de pessoas normais, tornando-as figuras (figurinhas, figuraças ou figurões) que são espremidas até à medula... criando com isso novas vítimas, atores e explorados.
Também, neste desrespeito contínuo pela vida alheia, vemos crescer uma vulgar calhandrice – termo de algumas regiões para designar esse gosto de falar dos outros, normalmente, dizendo mal – sem pejo ou sem vergonha, não olhando a meios para atingir fins e, sobretudo, vilipendiando o que há de mais sagrado em cada pessoa: a sua intimidade e o seu mistério.
Não nos venham, entretanto, insinuar que uma grande parte das pessoas gosta de espreitar pelo buraco da fechadura, na expetativa de saber ‘segredos’ da vida alheia e que essa tal fechadura como que se tornou agora num esquema bem urdido em televisão, na internet ou noutras formas de bisbilhotice tão do agrado de quem se manifesta pequenino nas suas pretensões e sem respeito até por si mesmo... por aquilo que faz ou pretende fazer.  
Nem os mais populistas programas televisivos ou das redes sociais podem ser desculpa para que haja qualquer intrusão na vida dos outros, pois da correta conduta se pode avaliar quem se é e saber quem é o outro/a, respeitando todos/as com quem nos relacionamos.

= Quando o bem comum se impõe
Porque não acreditamos na absoluta isenção de muita cobertura jornalística – embora se diga que possa haver alguma independência – nalguns dos acontecimentos recentes, cremos que será de incentivar um processo de auto-regulação dos vários intervenientes em ordem a não serem fomentadas situações de guerrilha informativa nem a sermos levados a desconfiar de tudo o que se diz, o que se mostra ou daquilo que se apresenta, questionando sobre a sua procedência e quais os veículos de tal informação.
Estando nós sobre uma espécie de vulcão, cremos que os meios de comunicação só se credibilizarão se forem capazes de informar sem fazerem dos seus potenciais consumidores gente acrítica, mas participantes esclarecidos na ‘res publica’... sempre mais exigente, opinativa e esclarecida.
Porque não há senhores da verdade absoluta, precisamos de saber gerar leitores exigentes, ouvintes responsáveis, telespetadores adultos, internautas conscientes e cidadãos com capacidade de discernimento e de humildade na aprendizagem dos labirintos da informação para que possamos ter paz social... atual e futura.

António Sílvio Couto

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Evangelizar, preferencialmente, os ricos

É muito comum ouvirmos, na linguagem habitual da Igreja e não só, uma espécie de preferência em evangelizarmos/atendermos, preferencialmente, os pobres... como que excluindo aqueles que não entram nesta categoria económica, sociológica, política, cultural e tudo o resto que se lhe queira apensar.
De fato, os pobres servem para tudo e mais aquilo que se desejar, desde que dê bom proveito a quem deles se aproveita, mesmo sob a roupagem de seus defensores, na praça pública, mas, minimamente, detratores, em privado.
Deixando, desde já uma espécie de declaração de intenções, dizemos: sou pobre, filho de gente pobre e sem qualquer aspirações a ser rico.... embora sinta que os ricos também podem e, muitos, até são boas pessoas.
No entanto, sabemos e conhecemos que há – mesmo no contexto da Igreja católica (hierarquia e setores laicais) mais ou menos assumidos, camuflados e com outras aspirações – quem defenda os pobres, mas se banqueteie nos melhores restaurantes... pagando favores; quem se diga paladino dos pobrezinhos mas só se vista com roupa de marca... a custo da qualidade de vida; quem pretenda ser associado aos (ditos) defensores da classe operária (se ainda existir!), mas que privilegie, no seu círculo de convivência, os donos do dinheiro, pois dão estatuto e promoção... à sombra de outras tantas boas intenções.
Tendo estes fatores em conta, consideramos que é importante não setorial as preferências no campo da evangelização. E, se tal tiver de ser feito, então que se faça uma opção preferencial pela evangelização dos ricos por duas razões: são eles que podem, tocados por Deus, atenuar ou até mesmo fazer desaparecer os pobres; são eles quem, pondo ao serviço dos outros a sua riqueza, numa consciência social e até espírito de serviço do seu poder de riqueza, podem gerar novos empregos e com isso tentar fazer diminuir a indigência dos desfavorecidos pela sorte e atribulados pela pobreza.

= Dos pobremente ricos aos ricamente pobres
Passado – assim cremos e esperamos – o contexto dialético-marxista da luta de classses, temos de recriar uma nova mentalidade: os fatores de produção são mais do que a força de trabalho, as mais-valias, o capital e (até mesmo) o desfavor de uns contra outros e de todos contra uma certa minoria: a capacidade de construir um mundo onde todos sejam mais fraternos é mais do que uma utopia romântica e azeda!
Vivemos num tempo onde os conceitos já não se guiam pela mera momenclatura coletivista nem o trabalho é uma idolatria adquirida sem tribulações e novos desafios.
Estamos em constante mudança e são-nos exigidos novos métodos até para continuar a ter uma oportunidade de trabalho, que é muito mais do que emprego. Sentindo o efeito da globalização, crescem os sinais de que os nossos benefícios são a desgraça dos outros e que as nossas desgraças – com a deslocalização dos postos de trabalho e outros efeitos adjacentes – podem ser os benefícios de outros.
Vivemos uma, cada vez mais acentuada, concorrência a todos os níveis e a nossa frágil sobrevivência está em constante risco.

= Insegurança a quanto obrigas!
Neste contexto temos de apostar sobretudo, na evangelização dos ricos, pois da sua adesão aos valores do Evangelho poderá surgir uma nova sociedade: mais justa, mais fraterna, mais solidária, de mais verdade, de mais lealdade e com maior caridade... uns para com os outros.
Com efeito, se os ricos – com dinheiro, com visão e com aposta no futuro – se interessarem pelo bem comum, que é muito mais do que os seus interesses particulares – de lucro legítimo, honesto e sincero – poderão ser bons criadores de riqueza em favor dos outros, tanto através de empresas, como de projetos que dêem trabalho e sustento às pessoas e às famílias. Precisamos, urgentemente, em Portugal, de  que as pessoas saibam colocar a sua riqueza ao serviço dos outros.
 Não será com certos combates anacrónicos de algumas forças político-partidárias que esses ‘trabalhadores’, em nome de quem pretensamente contestam, irão ter emprego nem futuro. Cheira a conversa requentada o discurso de alguns sindicalistas profissionais, que mais não sabem do que lutar com armas já do século passado, mas que, afinal, só prejudicam o país e o tecido produtivo... mais elementar. Será eles não são capazes de ver isto? Até onde irá a tacanhez de certos indivíduos ou a insensatez de seus seguidores?

Está na hora de mudar de rumo, podendo inverter as prioridades, mas salvaguardando os princípios, tendo em conta um dos essenciais que é: as pessoas em primeiro lugar.

António Sílvio Couto

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Regime ou mentalidade... de poupança?

Com a assumpção do estado de crise mais ou menos generalizado vão ressurgindo no vocabulário corrente termos e expressões que andavam um tanto arredios na nossa conversa, tais como: poupar e poupança, remendar e remendado, restringir, não desperdiçar... contrastando com conceitos, vivências e comportamentos bem mais contentes na nossa história (pessoal, familiar, social, nacional) recente.
Antes de mais será preciso esclarecer se estamos em regime (temporário) de poupança ou se já assumirmos que a poupança é um bem necessário e uma urgência na mudança de mentalidade. Com efeito, o ‘regime’ poderá ser adaptado, modificado e subvertido se as condicionantes económico-financeiras se alterarem, enquanto a ‘mentalidade’ cria raízes e faz viver, sobretudo, em atitude de vida.

= Em espírito de pobreza... evangélica
Se escutarmos e tentarmos aprender o significado das coisas, lembraremos uma frase emblemática de São Paulo: «sei viver na pobreza e sei viver na abundância. Em todo o tempo e em todas as circunstâncias tenho aprendido a ter fartura e a passar fome, a viver desafogadamente e a padecer necessidade» (Flp 4,12).
De fato, nós, humanos, somos muito fáceis de nos acomodarmos às situações de conveniência, criando uma razoável tendência para o menor esforço e/ou esforçando-nos o menos possível. Por isso, qualquer aceno para o facilitismo – económico, laboral, moral ou cultural – como que têm mais adeptos do que até a aceitação da verdade, seja quanto a nós mesmos, seja na proporção de tentarmos enganar os outros.
Vivendo nós uma espécie de amorfismo subjetivo, temos de detetar quais as influências que sobre nós vão sendo tentadas para que nos acomodemos, tanto à maneira de pensar de uma maioria acrítica, quanto ao comportamento de mediocridade  mais ou menos reinante à nossa volta... Nas mais díspares situações vai-nos sendo impondo quem menos presta e para pouco serve, senão contribuindo para que se vá afundando ainda mais o nosso pouco alento... coletivo.

= Queixar-se, resignar-se, lutar ou participar?
É, hoje, recorrente ouvirmos as pessoas queixarem-se por tudo e por (quase) nada, recordando os tempos passados com tal nostalgia que até parece que estavámos – economica, social ou culturalmente – melhor do que atualmente... Fomos, de fato, instruídos – ou talvez antes manipulados – pelas conquistas democráricas, sem que tivessemos dado o nosso consciente contributo para a melhoria de vida que nos foi dado usufruir.
- A União Europeia (UE) despejou sobre o nosso país dinheiro, mas não veio idêntica cultura para o trabalho. - A mesma UE quase que fomentou nos portugueses tal sensação de irresponsabilidade que muitos dos nossos melhores campos de cultivos foram deixados ao abandono, pois era mais barato comprar o que vinha de fora do que trabalhar para comer o que era (é) por nós trabalhado.
- Até cresceu uma expetativa de espírito de impunidade para quem soubesse enganar melhor os nossos ‘benfeitores’ da UE... que sempre cobram pela ajuda.
Volvidos mais de vinte e cinco anos de adesão à UE está hora de acordar e de reconhecer que ninguém dá nada a ninguém sem esperar algo em troca.
. Temos de aprender com a falência do projeto coletivista da Europa de Leste.
. Temos de voltar a saber plantar e semear, regar e mondar, colher e debulhar... pois será, quando tirarmos da terra o nosso pão, que saberemos valorizar as ajudas que nos quiseram dar.
. Basta de queixumes e de lamúrias: mãos ao trabalho, já e em força. Não nos deixemos enganar novamente pelos mentores da coletivização – agora culturalmente desgraçadista – com que alguns senhores dos (atuais) sindicatos nos vão condicionando e até entretendo... Mandemo-los regressar aos locais de trabalho/emprego e saberemos a quem servem e para aquilo que prestam!
Portugal terá futuro, quando a poupança for mentalidade e não mero subterfúgio em maré de pouco dinheiro. Seremos ainda um povo digno dos seus heróis e antepassados?

António Sílvio Couto

sábado, 12 de novembro de 2011

Mais gastadores em maré de Natal?

Segundo um estudo, recentemente, publicado, os portugueses dizem que vão gastar quinhentos e setenta e cinco euros em compras na maré de Natal, distribuídos da seguinte forma: prendas (375 €), comida (150 €) e convívio social (50 €). A tão falada crise parece, afinal, que não é vivida (tão) a sério... ao menos por alguns, embora se possa, comparativamente, verificar uma quebra de 6,3% em relação às despesas natalícias, que ocorreram em 2009.
Tendo em conta as medidas de austeridade do governo e as dificuldades financeiras em geral seria de esperar os portugueses se contivessem nos gastos. Se colocarmos os mesmos dados de referência podemos ver que os alemães pensam gastar 430 euros e os holandeses 410 euros... em compras por ocasião da Natal deste ano.
Colocando ainda como referência aquele estudo podemos concluir que as consequências das medidas de austeridade entre os portugueses sentir-se-ão mais na forma de gastar do que no valor a dispender... recorrendo menos ao crédito, antecipando as compras – sobretudo aproveitando as promoções e os saldos – e oferecendo prendas úteis e mais baratas.

= Que futuro estamos a construir?
Apesar das preocupações quanto ao emprego e aos cortes na percentagem do subsídio de Natal, os portugueses vão sendo dos europeus mais gastadores. Será que esta atitude revela inconsciência pessoal, familiar e coletiva para entendermos as coisas? Até onde vai o real diagnóstico sobre as dificuldades que são difundidas? Não haverá uma economia subterrânea, que permite viver acima das contas submetidas às finanças? Os (ditos) sinais exteriores de riqueza como é que não são detetados e taxados correta e urgentemente?
Com efeito, estas e outras questões podem assumar à nossa inquietação ao sermos confrontados com aqueles dados supra citados. De fato nem toda a gente poderá afirmar que vai fazer tais gastos na éposa natalícia em curso. Nem os cerca de vinte mil inquiridos, que serviram de critério para gerar aqueles dados de gastadores, podem esconder que há muita gente sanguessuga no sistema económico-financeiro, que tentará subverter as medidas preconizadas pelo governo.
Efetivamente que se poderá dizer dos registos em cafés e restaurantes que nos fazem pagar – sobretudo esses que nós conhecemos e que até nos conhecem – a conta pedida, mas que se furtam a dar-nos o talão de pagamento? Como se poderá viver numa atitude de transparência de impostos, quando nos apercebemos que, na máquina registadora, se escreve uma parcela que não corresponde àquilo que temos de  pagar?
Somos, de verdade, um povo de chico-espertos, que se enconcha na sua autofagia e que vive tentando enganar o Estado, pois deste tenta difundir a noção de que ainda nos rouba mais do que as nossas espertezas inventam!

= Haverá, ainda, solução?
Diante de tantas desconfianças como que surge a tentação de desistir. Perante tantos fatos de incoerência como que somos levados a entrar na onda do ‘vale-tudo’. Castigados pela inoperância da justiça podemos entrar na lógica do ‘faz-de-conta’. Acrisolados pelo torniquete dos impostos podemos tentar fugir, aliviando a carga para os vindouros...
No entanto, temos, urgentemente, de assumir a nossa tarefa de:
- Viver na verdade, segundo critérios de autêntica pobreza... à luz das fontes do Evangelho;
- Criar condições de pacificação, assumindo cada um o seu papel de construtor do bem comum;
- Gerar amor ao trabalho mais do que à preguiça e à ditadura da subsidio-dependência;
- Gerir as economias e a poupança mais do que os créditos e as dívidas não-pagas;
- Insuflar nova esperança mais do que entrar num certo desespero e na tristeza em nós e à nossa volta.
Cristamente temos responsabilidades acrescidas. Assim as saibamos assumir e compartilhar!

António Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

À descoberta do sentido da pertença...

Cada um de nós vive, aceita-se e enquadra-se, mais ou menos conscientemente, segundo vários círculos – sem qualquer linguagem esotérica nem outra afetação menos clara – de relacionamento e de comportamento: nascemos numa certa família, inseridos numa determinada localidade (mais ou menos bairrista, com beleza ou sem grande atração), no contexto de um certo concelho/distrito/província – para nos enquadrarmos na divisão territorial ainda em curso – e tendo, na devida conta, o país/nação e o continente mais alargado e culturalmente significativo.
Deixem, por isso, que concretize a minha história: nasci (ainda em casa e não na maternidade) numa família de gente honesta, simples e trabalhadora, numa freguesia semi-rural, num concelho do litoral, do distrito e diocese de Braga, inserida na província do Minho, do território de Portugal, que faz parte do continente da Europa (do sul), no hemisfério norte do planeta Terra... Tudo muito normal e simples... aparentemente!
No entanto, tudo isto condiciona a minha forma de pensar, de sentir, de reagir e até de rezar, pois aprendi a ler e a escrever, em tenra idade (graças a Deus e uma razoável ajuda humana) em português – embora tenha aprendido outras línguas com maior ou menor capacidade de expressão oral, por gestos ou na escrita – que se foi cuidando, na forma e no conteúdo, acrescentando a isto o mínimo enquadramento sócio-religioso, fazendo  a descoberta de pertença, tanto às várias configurações humanas como às incidências de leitura religiosa, que, foram quase sempre vividas, no contexto católico...
Quem quer que nos leia poderá fazer o seu diagnóstico de pertença e descobrirá, certamente, razoáveis surpresas, nas quais não tinha ainda reparado, convenientemente!

= Compreender as raízes ou abjurar as pretensões?
Pela mais simples nota familiar foi-me dado a beber que o que há de mais sagrado é quem nos dá – com que sacrifícios e em atitude de entrega – a vida e dela cuida, mesmo que à custa de muito trabalhado, esforçado, mal pago, mas honesto.
Aprendi, simbolicamente falando, a não ambicionar se não posso atingir a pretensão. Aprendi a não gastar mais do que aquilo que se pode. Aprendi a viver com pouco, mesmo que isso não seja benéfico para a nossa imagem. Numa palavra: quem não tem vícios não alimenta modas!
Sem qualquer ressentimento tenho visto que, ao perto e ao longe, há quem tente fazer crer que é pelo ter que se pretende deixar boa impressão, mesmo que à custa do incumprimento das obrigações e malbaratando os favores e ajudas... até de âmbito económico.

= Tentar construir algo de novo 
Na medida em que formos capazes de aceitar as nossas contigências – mas não em mera resignação – poderemos viver num certo estado de felicidade, onde o ser – cultural, ontológico e espiritual – se aprende não pela simples reivindicação mas pela assumpção da verdade de nós mesmos. Em nada deste plano está contido esse tão típico português do deixar correr, pois outros cuidarão do nosso futuro, mas antes temos de viver em esforço de competição, em ordem a deixarmos este mundo harmonioso e fraterno...depois de por ele termos passado, mais ou menos tempo, com maior ou menor destaque, mas sempre assumindo a construção de um mundo mais humano e mais cristão.  
Acreditamos que a nossa tarefa em tentarmos civilizar – passar do estado pagão (do campo) ao de cidadão (na cidade) – este mundo passa pela interpenetração da consciência cristã de que somos cidadãos de duas cidades – a terrena e a celeste – com plena participação em ambas, respeitando a esfera de cada uma, mas fazendo crescer a cidade terrestre pela tranfiguração ativa da missão recebida rumo à cidade celeste.
Basta de excomunhões e de anátemas sobre este mundo, pois foi neste espaço e neste tempo que Deus nos fez viver agora. De pouco adiantará tentar fugir do mundo ou refugiar-se na religião, se não formos capazes de divinizar tudo e todos à nossa volta. Pelo verdadeiro sentido de pertença é que podemos evangelizar!

António Sílvio Couto