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quinta-feira, 4 de abril de 2019

Para uma pequena mistagogia da ‘semana santa’


Considerada pela tradição católica como a ‘semana maior’ – não pela extensão dos dias, mas pelo significado de cada um deles – a semana santa reveste-se dum significado muito especial.
Nos três primeiros dias – segunda, terça e quarta – algo que nos pode e deve fazer refletir. Referimo-nos ao ‘mistério de Judas Iscariotes’, esse que foi o traidor e que entregou Jesus às mãos dos judeus para ser morto. Com efeito, os textos da liturgia da palavra da missa desses dias são assaz ‘perturbadores’ – Jo 12,1-11: Judas questiona o uso do perfume de Madalena para com Jesus; Jo 13,24-33.36-38: Jesus preanuncia a traição de Judas e as negações de Pedro; Mt 26,14-25: Judas como que negoceia a entrega de Jesus aos chefes judaicos.
* Missa crismal – dom do sacerdócio
Na manhã de quinta-feira santa reúne-se todo o presbitério com o seu bispo, numa expressão de comunhão e de renovação de compromisso. É um momento fundamental de todo o padre e da diocese: não pode haver verdadeiro ministério sem comunhão dos padres uns com os outros e de todos com o bispo diocesano…mesmo que possa ser só padre religioso!
* Celebração da ‘ceia do Senhor’
Na tarde (ou ao final da mesma) da 5.ª feira santa, a Igreja convida-nos a celebrar ‘a missa vespertina da ceia do Senhor’, confluindo para esta celebração o memorial da páscoa judaica e a instituição que Jesus faz da eucaristia, isto é, o memorial do Seu Corpo e Sangue. Tendo o rito dos ‘lava-pés’ como sinal central, esta celebração introduz-nos o centro do mistério da paixão-morte-ressurreição de Jesus. Nela meditamos, agradecemos e nos comprometemos com tudo quanto Jesus fez por nós, pela sua dádiva de amor, de oblação, de entrega… desde fazer do seu Corpo e Sangue nosso alimento até ao sofrimento da paixão – no sentido mais profundo do termo e da vivência – duma vez para sempre.
O tempo de silêncio em adoração ao Senhor não pode parecer uma vigília de velório nem sequer uma espécie de passagem pelo ‘horto das oliveiras’ como esteve o Senhor, mas antes um momento de adoração, ação de graças, intercessão e súplica em união com todos quantos celebram como nós este mesmo mistério espalhados pelo mundo unidos ao todos os cristãos.
* Na força da 6.ª feira santa
Como dia de jejum e de abstinência, este dia de sexta-feira santa faz-nos caminhar em recolhimento e até contensão de palavras, meditando a narrativa da Paixão segundo São João, vivendo a adoração da Cruz – onde nem devia estar a imagem do Senhor para que a cruz fosse sentida como verdadeiro instrumento e sinal de salvação – e sendo alimentados pela eucaristia dos pré-santificados. Neste dia é duma grande beleza e simbologia a longa oração universal, onde, desde tempos imemoriais, se reza por tudo e por todos…até pelos descrentes e ateus.
Segundo alguns costumes, nesta noite de 6.ª feira santa, faz-se a procissão ‘do enterro do Senhor’, termo indevido, pois não levamos ninguém a enterrar e tão pouco a sepultar, antes, pelo silêncio e a meditação – onde a música pode e deve ajudar-nos – caminhamos escutando textos do sepultamento de Jesus. É algo anacrónico que alguém participe na ‘procissão do enterro do Senhor’ se não viveu o resto da liturgia desse dia… Certos folclores precisam de ser purificados e exorcizados, à luz duma formação simples, aceite e crescente…
* Sábado santo: do silêncio à explosão da luz…ressuscitada e ressuscitadora
Num dia sem celebrações litúrgicas, preparamo-nos para a significativa vivência da vigília pascal, que nos coloca diante de quatro grandes dimensões litúrgicas: da luz, da Palavra, batismal e eucarística. Cada uma delas é longa e essencial para a nossa fé cristã. Por isso, a vigília pascal não pode ser feita a correr e talvez seja uma abuso fazer mais do que uma nessa mesma noite.
– na liturgia da luz contemplamos, em forma de oração, o mistério da redenção operada pela ressurreição do Senhor, luz que brilha nas trevas.
– na liturgia da Palavra percorremos os momentos essenciais da história da salvação em ordem à ressurreição do Senhor.
– na liturgia batismal acolhemos novos irmãos e renovamos o nosso batismo.
– na liturgia eucarística damos graças e recebemos o dom do Senhor vivo e ressuscitado para sempre.

 

António Sílvio Couto


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