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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Ondas de simpatia…volátil


Se quisermos encontrar alguém que simbolize esta onda de simpatia volátil poderemos servir-nos do cantautor português que venceu o festival da eurovisão deste ano: emissário nacional num processo que teve tanto de inédito quanto de esquisito; executante vitorioso numa campanha orquestrada em surdina; aclamado como ‘herói’ na receção de regresso ao país; exaltado por aduladores das mais diversas áreas e tendências; brejeiro num espetáculo sentimental após a vaga de incêndios; retira-se de cena para entregar o corpo aos cuidados da ciência…

O itinerário deste cantautor poderá ler-se como simbólico da vida do nosso país nos tempos mais recentes: quando menos se espera em sentido contrário, algo consegue encobrir a má execução com certos laivos de simpatia, que mais parece um fábula do que uma história de bom-sucesso.

* Têm vindo a vender-nos – ou será antes a impingir-nos? – uma prosperidade que tem alicerces de areia, levantada em construções de papel, onde os vários compartimentos funcionam como alçapões de interesses mais ou menos mal disfarçados, por entre suspeitas duns tantos sobre outros mais…

* Numa espécie de narcotização generalizada vemos proliferar um discurso de que quem está sem nunca ter cometido erros nem sem ter estado noutras situações de descalabro…até que se descubra a mentira ou a inoperância por incapacidade em saber gerir, governar e decidir de forma igual sem se tornar igualitária…

* Tal como no caso do estrondoso sucesso do cantautor, assim em certas autarquias e noutras formas de governação, até os falhanços – algo escabrosos e provocadores – funcionam para que haja aplausos de apaniguados (quase) acríticos num fideísmo atroz e nitidamente irracional… 

= Vejamos, mesmo que sucintamente, campos onde a capacitação económica tem servido de lenitivo ou está a ser engano geral e/ou generalizado:

- O turismo tem servido de tábua de salvação para a insuficiência do desempenho económico noutros setores. Essa ‘galinha dos ovos de ouro’ pode fechar-se a médio e curto prazo. Bastará que outros destinos retomem a segurança na oferta e facilmente ficaremos sem proventos. Se atendermos ainda à inconsistência do turismo – gasta produção, mas não dá produtividade sustentável – poderemos ver ruir muitos sonhos de exploradores e de clientes da matéria…

- O imobiliário, assente numa construção civil quase defunta, poderá ficar saturado e em sério perigo… bastará que sejam pagos os devidos impostos e a sua exploração e entraremos em colapso, com um desemprego acentuado e crescente… Sol e mar não serão suficientes para atrair visitantes e investidores sérios, capazes e com capital não-descartável…

- As tentativas de enriquecimento pelo recurso ao jogo são uma espécie de tentativa de ser rico sem grande esforço, denunciando quase um vício de se tornar milionário não pelo trabalho – este raramente faz tal ‘milagre’ – mas pela forma mais fácil e sem esforço. Há quem viva nessa expetativa quase desmedida e ao sabor da sorte…toda uma vida de ambição e de ansiedade. 

= Dado que não queremos viver na mentira – nem pessoal nem social – parece-me que seria bom que caísse a máscara com que nos queremos tantas vezes iludir e enganar. Não precisamos de mais projetos dos que querem viver ou prolongar-se no poder pelo engano ou a manipulação, pela desistência ou a abstenção e tão pouco pelas promessas e o favorecimento dos apoiantes e dos adeptos mais ou menos fiéis.

É preciso dizer basta aos que se deixam vender e aos que se expõem à compra, tanto a mais subtil como a mais capciosa e ardilosa. Parafraseando a sabedoria do nosso povo, diremos: quando a simpatia é muita, o pobre desconfia ou devia desconfiar!

Não podemos permitir que a dignidade seja vendida por um par de sorrisos nem que nos façam passar todos por papalvos, sem que sejam escrutinados na hora da decisão popular.

Etimologicamente ‘simpatia’ vem de ‘sunpatos’, isto é, ‘sofrer com’… Ora a evolução semântica do termo fez-nos olhar para esta palavra mais como ‘apresentação de sorrisos’, como se estes fossem um atropelo à capacidade de sofrer com os outros, partilhando com eles um sorriso sincero, honesto e leal! 

   

António Sílvio Couto



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