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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

‘Eutanásia’ – ironias duma programação


Depois de um debate sobre a (apelidada) despenalização da eutanásia, o mesmo canal televisivo emitiu um programa sobre Estaline/Hitler, onde foram comparados e por onde passou a longa carnificina de ambos, tanto nas trincheiras do comunismo como do nazismo… atendendo às personalidades respetivas e aos métodos usados para vencerem inimigos e correligionários.

Mais do que um mero documentário histórico, o segundo programa como que nos fez refletir – pelo menos a mim – sobre os pretensos ideais ‘humanistas’ dos proponentes da tão ‘heroica’ eutanásia… defensora da autonomia de cada pessoa… até para poder escolher a hora e o modo de morte.

– Quando certas forças trazem para a discussão pública – política, social, ética, médica e civilizacional – algumas questões de fronteira duma forma tão simplista e acintosa como que sentimos que algo está podre nesta sociedade ocidental, pois a falta de rigor nos valores éticos põe a manifesto que andamos entretidos com minudências e que questionamos o que é essencial, sabe-se lá com que propósito.

– Quando vemos surgirem na defesa e promoção de tais temas (ditos) fraturantes figuras que se reclamam – e assim têm intervindo publicamente – da área dos valores cristãos, cremos que aquilo que temos reproduzido não passam de oportunistas malformados e um tanto paladinos da mentira, que, para além dalguma incongruência entre a (possível) fé e a (devida) práxis, mais se assemelham a lacraus que mordem quem os ajuda e promove…

– Naquele programa televisivo sobre Estaline/Hitler foram apresentados números que valerá a pena recordar: Estaline no tempo do seu governo (trinta anos) terá causado a morte até 60 milhões de pessoas, enquanto Hitler e seus sequazes, sobretudo no contexto da segunda guerra mundial, terão provocado cerca de 70 milhões de mortos. Este foi o ambiente que se viveu há cerca de seis décadas na Europa e que o tal programa televisivo nos apresentou por entre conjeturas e suposições, perpassando momentos históricos do passado, apresentando números de façanhas atrozes de governantes que ainda suscitam – pelo menos na área marxista – algum saudosismo ou talvez revanchismo…

– Agora que a Europa tem vivido tanto tempo de paz como nunca antes acontecera, vemos que há forças que pretendem ocupam o seu esforço político e moral com projetos de ‘audaz pertinência’, colocando os valores em causa, relevando a desvalorização da vida para planos inclinados e até querendo fazer acreditar que muitos pensam dessa forma, mas não permitem que o assunto possa ser referendado…

– Recordo algo que já referi numa outra ocasião: uma das figuras mais defensoras desta despenalização da eutanásia morreu há uns meses. Disse-se, em desabafos nas redes sociais, que acompanharam a sua morte que o seu maior medo era o de poder morrer sozinha… Ao tempo teve cerimónias religiosas, mas não sabemos se aquilo que defendia para os outros o queria (ou quis) para si mesma… Talvez os agora paladinos da despenalização da eutanásia possam sofrer da mesma doença, isto é, a incoerência; mas, por favor, não façam (ou exijam) para os outros aquilo que não pretendem para si mesmos!

– Termino com uma breve estória. Um professor chegou a uma aula e apresentou aos alunos uma prova relâmpago. Não podiam ter nada sobre a mesa, senão algo com que escrever. Distribuiu, então, uma folha, onde numa das faces estava somente um ponto negro no meio…Perante a surpresa, o professor disse aos alunos que tinham de escrever sobre aquilo que estavam a ver…Decorrido o tempo dado, recolheu as folhas e começou a ler o que tinham escrito…Todos discorreram sobre o ponto negro…ao que o professor respondeu que todos tinham falado do ponto negro e ninguém se deteve a falar da folha em branco… concluindo que todos nós (mais ou menos) fazemos o mesmo: temos uma folha em branco, que é a nossa vida, mas, na maior parte dos casos, fixamo-nos nos pontos negros… temos tantas coisas positivas, mas temos a tendência para realçar mais os pontos negros na saúde, nas dificuldades, nos problemas familiares e de emprego… Sim, há pontos negros, mas não podemos exaltá-los mais do aquilo que há de positivo cada dia…

– Agora que se vai falar mais a sério do tema da eutanásia, que ele não seja o nosso ponto negro coletivo, distraindo-nos do que é mesmo essencial: a vida e as suas mais variadas manifestações, mesmo que por entre dores e sofrimentos. Os profetas da desgraça não podem ganhar ou, então, estaremos a criar condições para novos hitler’s e estaline’s encapotados…que andam por aí!    

 

António Sílvio Couto

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