Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Homicídio moral?


Por estes dias ouvi uma referência que, uma outra pessoa, terá manifestado sobre uma terceira: para mim, tal pessoa (...) morreu! Ora, esta frase trouxe-me à memória idêntica observação de alguém que escreveu a outrem em mensagem de sms: neste momento acabei de morrer eternamente para si!

Embora, num como noutro caso, as situações possam parecer idênticas, elas não podem ser – como agora se diz – fulanizadas nem tão pouco vistas em mera aceção pessoal, mas podem (e devem) ser colocadas numa reflexão mais abrangente e, por que não, num enquadramento psicológico/emocional, humano/espiritual, referenciado/cultural.  

= Antes de mais teremos de questionar-nos sobre o que leva pessoas – ao que parece cristãs e de frequência religiosa – a dizer tais frases. Será que elas têm o alcance daquilo que as palavras querem dizer? Se sim, porque são ditas de forma tão acintosa? Se não, porque escapam tais observações? Como se coaduna a cultura cristã com expressões, no mínimo, tão anticristãs? De facto, desejar a morte da alguém é grave e declará-lo – mais ou menos publicamente – ainda se torna mais agravado... Com efeito, a vida não me pertence, quanto mais desejar algo de mal sobre a vida de outra pessoa, por muita razão de queixa que possa ter dela... Se andássemos por aí a ‘matar’ todos que não concordam connosco, este mundo seria uma selvejaria e/ou um campo de batalha... 

= Tentemos enquadrar a questão do ‘homicídio’ no plano geral de ordenamento jurídico. Na maior parte dos códigos penais, o homicídio está inserido nos crimes contra as pessoas e na componente dos crimes (direito) contra a vida. No código penal português encontra-se dos artigos 132.º a 134.º... com as respetivas penas, tendo em conta os atenuantes e/ou os agravantes.

Não vamos abordar a questão em análise no sentido meramente jurídico, mas antes pretendemos inserir o assunto num outro plano mais de teor moral/ético...sem pretender reduzi-lo a vertentes moralizantes...  

= Certamente que quem disse/escreveu aquelas palavras, que citámos na abertura deste texto, como que desejando e manifestando a morte de outra pessoa, não deve estar muito bem consigo mesmo e, por isso, estará também um tanto desconjuntado com aqueles/as que o rodeiam. A perceber pelos contextos de quem tais frases proferiu não andaremos muito longe dalguma verdade, se bem que esta possa ser um pouco subjetiva...

É notório que, quem passa o seu tempo a dizer mal dos outros, não pode estar de bem consigo mesmo/a, revelando, pelo contrário, uma personalidade afetada, senão mesmo imatura, na compreensão dos outros, porque não se conhece nem se aceita – até nas suas naturais lacunas e falhas, os católicos não temem chamar-se de ‘pecados’ – no confronto,que não é confrontamento com os outros como diferentes, diversos e complementares... mas nunca adversários nem sequer inimigos! 

= Quem vá conhecendo um tanto melhor a condição humana poderá ser tentado a ver tantas destas situações, casos ou episódios como reveladores das doenças – muitas delas dificilmente assumidas – em que as pessoas laboram a sua personalidade. Em quantos dos casos as pessoas que ‘matam’ moralmente os outros não passam de pessoas com uma razoável menorização de auto-estima, tentando denegrir os outros para, inconscientemente, se valorizarem...mesmo que com isso possam cometer injustiças e julgamentos menos adequados, tendo em conta a (possível) fé que dizem professar.

É paradigmático que, no livro das origens – Genésis (4,1-18) – o primeiro pecado da condição humana tenha sido um crime de mantança do irmão que se destacou na diferença... Ainda hoje há por aí muitos Caim’s que não conseguem ultrapassar com benevolência a boa aceitação do irmão Abel! Ainda hoje há quem vá fazer a sua oferta ao altar e não se reconcilie primeiro com seu irmão... Ainda hoje há quem frequente os sacramentos – sobretudo onde não é conhecido/a – mas viva nos sentimentos de quase homicídio moral para com outros...dessa pretensa mesma fé! Até quando?  

 

António Sílvio Couto




Sem comentários:

Publicar um comentário