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domingo, 15 de janeiro de 2017

Em busca da pós-mentira


Tem sido recorrente vermos e lermos a referência a uma nova palavra: pós-verdade. Foi até a escolhida como a ‘palavra do ano’ de 2016 (post-truth) para o dicionário Oxford.

Em que consiste este novo vocábulo? Qual o conteúdo (ou a falta dele) para que possamos falar de algo com consistência? Será que este termo define alguma coisa sobre o nosso tempo/era? Numa linguagem morfológica, é um adjetivo ou um substantivo?

Com efeito, precisamos de explicar esta ‘pós-verdade’ para tentarmos encontrar a sua abrangência mais relevante, tendo ainda na devida conta uma outra palavra em que se quer dizer o que não se desejava exprimir: não-verdade, isto é, não se refere ‘mentira’ nem tão pouco se classifica alguém como ‘mentiroso’, mas antes se diz que usou de inverdade…

Pós-verdade há quem a descreva (mais do que defina) como um adjetivo ‘relacionado ou denotando circunstâncias em que factos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos à emoção e crença pessoal’.

Entendidos na matéria – desde a comunicação social até à dimensão política, passando pela sua expressão em conteúdos das redes sociais – consideram que a pós-verdade traz consigo o definhamento da relevância da verdade e da objetividade na vida privada e pública… exaltando a importância das emoções, tanto na vida privada como na sua expressão pública.

Atendendo ao poder que se vem conferindo às redes sociais, sobretudo onde há menor intervenção de instrumentos de controlo, podem por ali difundirem-se informações e declarações mais ou menos disparatadas… Podem circular imensas inverdades, exageros e todo o tipo de invenções não contraditadas…

Também na era da pós-verdade, cada grupo tem ou pode criar o seu conjunto de crenças, deixando de dar qualquer importâncias aos outros…mesmo que relevantes. Como que se vai valorizando mais a fragmentação do que a dimensão total, gerando-se ainda pessoas fechadas em pequenos grupos de círculos de interesses ideológicos, sociais e económicos… mais apáticos do que participativos…nos mais básicos atos cívicos! 

= Perante tal civilização da pós-verdade, teremos de construir uma nova resposta: a busca da pós-mentira. Aí haveremos de passar da superficialidade e do engano de tantas intervenções nas redes sociais para a responsabilização em difundir sempre e só o que é digno de crédito e não uma certa bisbilhotice barata – antes exercida à mesa de café ou no soalheiro, mas agora cúmplice do espreitar por novos buracos da fechaduras, que têm vindo a ser, tantos post’s entre (pretensos) amigos sem amizade…

Como não podemos continuar a deixar-nos ir no engodo de que a pós-verdade ainda possa ter algo a insinuar-se para com a verdade, cada vez melhor teremos de atender àqueles/as com que nos relacionamos – mesmo em matéria de virtualidade – sabendo gerir, nesta economia do digital, quem nos possa ajudar a crescer na responsabilização do uso das tecnologias, cultivando os valores mais essenciais e não à mera visualização factual e difusa, mas sem real consistência… 

= É preciso perder o medo de chamar à inverdade, mentira; de classificar a pós-verdade, de manipulação; para que possamos incluir no nosso léxico – pessoal e coletivo, social e político – que a pós-mentira, é tão simplesmente, uma escolha da verdade, como conceito ético/moral e, sobretudo, como vivência de programação cristã, que se vai aferindo a Verdade por excelência que é uma Pessoa e uma clara mensagem, Jesus Cristo.

Quando tantos pensam ainda que a paz – social e política, cultural e económica – dos últimos setenta anos na Europa parece garantida, precisamos de advertir: pelos indícios de pós-verdade, muito breve, poderemos entrar em colapso e só uma assunção da pós-mentira poderá fazer-nos acreditar que os problemas que nos vão noticiando poderão servir para continuarem a enganar-nos com futilidades…Vejam-se as manigâncias atribuídas ao futuro presidente dos EUA, as manobras desconformes aos que não fazem parte da proteção da geringonça, as subtilezas dos protegidos pelos vencimentos aumentados, os silêncios amordaçados de quem pensa de modo diferente…embora livremente. Servidores da pós-mentira, precisam-se! 

 

António Sílvio Couto 


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