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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Austeridade ideologizada




A ‘maioria’ que suporta o governo perdeu a memória ou, então, tem consultado um dicionário onde as palavras tem sinónimos conforme lhe convém ou com significados a gosto. Diziam que iam acabar com a austeridade, mas introduziram no orçamento medidas ainda mais duras do que os anteriores. Ou será que por virem de quem vem – a tal dita esquerda, a quem tudo é permitido sem laivos de contestação! – já perderam o sentido de contenção, de novos impostos, de acrescento ao iva, de sobretaxas sobre os combustíveis, de adiamento de medidas de rigor em contraste com benesses mal explicadas e obscuras?

A cassete de certas forças partidárias já não colhe porque o empobrecimento continua, a delapidação dos recursos não abranda, os aumentos de salário foram (e são) fictícios, o poder de compra (consumo e afins) continua a minguar em vez de se afirmar nas pretensões dos cidadãos… Nem a derrota nas mais recentes eleições os fez cair do pedestal de manipulação.

Se algo mudou foi a agressividade de certa comunicação social – comprada por forças sem rosto e sem caráter – que agora, passados quatro meses das eleições legislativas e duas semanas das presidenciais, continua a esconder os reais factos da política económica de quem está no poder, continua a dizer parte da verdade – mesmo nas negociações com quem nos empresta o dinheiro para pagar as mordomias dos que mandam – colocando certas figuras a distrair-nos da situação de colapso a que chegamos… ou, talvez, de onde nunca saímos, de verdade nem sairemos a médio prazo.

= Tendo em conta que estamos inseridos no espaço europeu não podemos fazer (só) o que nos apetece nem bater o pé a quem nos dá – ou pode ainda dar – condições para sermos algo mais do que insignificantes no contexto mundial. Não será com mentiras que irão convencer quem quer mais do que subterfúgios às contas mal feitas. Não será com ataques e arremedos de inflexibilidade que iremos atrair novos investimentos ou que evitaremos que os que por cá estão não mudem de ares. Não será com governantes que gritam sem razão que conseguiremos ter razão nos momentos de aflição. Não será com pessoas que olham mais para o passado que poderemos construir um futuro mais desafogado. Não será só combatendo os ricos que criaremos riqueza, mas antes faremos surgir novos pobres estruturais e não meramente conjunturais.

= Há coisas que me fazem muita impressão: Porque será que os sindicatos conseguem, prioritariamente, desfazer as empresas em vez de criarem, responsavelmente, novos postos de trabalho? Porque será que certos partidos conseguem passar imunes às responsabilidades de destruir o tecido económico e não são responsabilizados pelo que destroem direta e indiretamente? Quem poderá distribuir riqueza se não a constrói? Que seria de certas forças se lhes retirassem o escol de pobres que vão tendo à sua volta?

= De facto, o combate à austeridade tem servido para consagrar muitos incompetentes…alguns até já atingiram o poder. Mas o rigor esse não convence quem teme ser avaliado, examinado e mesmo escrutinado. Não se pode meramente contestar a austeridade, se não houver rigor nas contas e nas responsabilidades. De pouco adiantará combater a austeridade sem rigor se tal for para enganar os incautos e eludir os menos bem avisados. Por muito que nos custe temos de saber viver com os meios disponíveis e subverter o essencial será, no mínimo, comprar novas medidas de austeridade e de maior rigor a muito curto prazo.

Digam já a verdade e não andem a apalhaçar o que não conseguem garantir!     


António Sílvio Couto


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