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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Aprender a dizer ‘não’


«Os pais têm medo de ser pais. Têm medo de dizer “não”, de enfrentar os filhos e de os castigar. Há pais que têm de ser adultos. Uma coisa é ser maior e outra é ser adulto».
Este é o conselho de Javier Urra, um psicólogo espanhol, que numa entrevista a um diário português, deixou algumas ideias de como tratar/educar os filhos, sobretudo os mais problemáticos e agressivos... até para com os pais e particularmente as mães.
Aquele professor deslocou-se ao nosso país por ocasião da apresentação do seu livro ‘O pequeno ditador cresceu’, surgido nove anos depois de um outro de grande sucesso, em 2007, ‘O pequeno ditador’, com trinta e três mil exemplares vendidos em dezoito edições...em Portugal.
Partindo da realidade que conhece no país vizinho, Javier Urra tem um programa clínico com um campo de intervenção em internato e ambulatório...trabalhando pais e filhos nas dificuldades de relacionamento entre si, com centenas de casos atendidos.

* Nessa entrevista, Javier Urra em que se refere à ‘culpa da sociedade’ em certos transtornos de personalidade e a casos de agressividade de filhos para com os pais. «Os pais converteram a educação num espaço em que as crianças não podem sofrer, estão sobre protegidas. A criança aprende que só tem direitos e não tem deveres e os pais não lhe explicam que também têm deveres. (...) Os pais choram porque amam os seus filhos; estes também choram quando estão sozinhos ou à noite, porque também querem aos seus pais. Por isso lhe chamo a “patologia do amor”, querem amar-se mas não sabem».

* Questionado sobre o tempo que os pais devem dedicar aos filhos, Javier Urra considera que «é importante ter tempo de qualidade com os filhos. Eles têm de sair, de brincar, de correr, de ar livre, precisam de jogar, eles são criativos, têm muita imaginação, têm de tocar na terra, na água. Precisam de transcendência, não estou a falar de religião, mas de compreenderem que são diferentes dos outros animais, que são algo mais e é preciso dar-lhes esse alimento. Insisto muito na ideia de nos pormos no lugar do outro, de maneira a que eles sejam generosos e não egoístas».

* Atendendo às possíveis críticas sobre a atitude possessiva de muitos dos filhos e ao consequentemente fechamento (egoísmo e/ou agressividade) sobre as suas exigências para com os pais, Javier Urra lança um alerta de sabedoria feita de vida: «Claro que a vida é feita de conflitos, mas se os pais estiverem educados, forem alertados para a necessidade de amarem os seus filhos, de lhes darem atenção, de imporem regras, não teremos jovens violentos, mas solidários».

Aprender com humildade...na sabedoria da vida

Quando, há cerca de três décadas, participei num seminário, em França, onde a maioria das pessoas tinha bem mais que o dobro da minha idade, ouvi de um médico daquele país a narração de que tinham feito lá um inquérito envolvendo adolescentes. À pergunta: se teus pais morressem e ficasses só que farias? Os tais adolescentes franceses responderam que poriam termo à vida, pois não sabiam como conduzir a sua vida...
Percebi, ao tempo que os interrogados estavam um tanto imaturos para enfrentarem a vida e a solução seria um ato de desespero e de denúncia de insegurança.
Ora, percorridos estes anos de grande evolução tecnológica e de cultura eletrónica e informativa, vemos crescerem sinais preocupantes de abandono da relação pessoal e algo que quer fazer da vida uma espécie de percurso frenético onde os outros podem ser mais concorrentes do que companheiros, senão mesmo adversários e ‘inimigos’ na concorrência do dia-a-dia...mesmo os pais para com os filhos e vice-versa.
Saber dizer ‘não’ pode e deve ser um ato de amor e de estima...já. Amanhã pode ser tarde! Quem ama educa mais pelo testemunho do que pelas palavras…

António Sílvio Couto

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