Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Acabou a paz social?

 


Numa análise simples, correta e contundente um jornalista – desses que ainda sabe o que é o lead da notícia, que diz aquilo que pensa e avalia as análises, sem querer agradar ao patrão ou ao canal onde intervém – referia, ainda antes das eleições, que, depois destas, poderemos perceber: que acabou a ‘paz social’ em que vivemos nos últimos seis anos…talvez à força e sem grande suporte verossímil.

Quais eram (são) os indícios de que a ‘paz social’ – com a ausência de protestos, uma forte diminuição de greves, um aligeirar de conflitualidade nas ruas e nos trabalhos, um certa ‘harmonia’ entre os vários quadros intervenientes sociais, sindicais ou económicos – estaria ameaçada e que os itens apontados poderão emergir contra essa paz? Será que a ausência de conflitos abertos significava que havia paz? Não teremos vivido antes numa paz podre, com focos latentes de irascibilidade, de azedume ou de sobreposição entre ‘classes’, setores e animosidades?

Fazendo a leitura dos números da votação – maioria – poderemos encontrar algumas das respostas para o fim da tal ‘paz social’, feita de equilíbrio de tendências, de conquista de direitos ou mesmo à luz do pagamento de favores aos beligerantes, nas diversas instâncias de poder, de participação ou de manipulação.

 1. Muitos se arrepiam com os votos conquistados pelo ‘Chega’…Uns tais democratas da verborreia quase contestam quem nele votou, como se houvesse votos bons e votos indecorosos…aqueles são dos meus apaniguados, estes são dos que não pensam como eu; aqueles são de uma certa esquerda – trauliteira, aguerrida e ilustrada – numa certa visão, estes são dos ignorantes que se exprimem de forma diferente e com as mesmas obrigações e regalias…Deste modo a ‘paz social’ que vai acabar será salutar que deixe de estar encoberta e submissa aos interesses de um ‘tal povo’, com reduzida expressão… e com uns tais ‘trabalhadores’ que não passam de mitos ao serviço da dialética marxista ainda em vigor!

Nada me simpatizo com o ‘Chega’, dizendo, desde já, que votei sempre da mesma forma em quarenta anos!

 2. Como se pode dar tudo a todos, se o bolo minguou e são mais os pretendentes do que o que há para distribuir? De facto, só quando se produz, se poderá manifestar alguma abundância. Com efeito as empresas poderão pagar ordenados, se não têm meios nem condições? O fim da ‘paz social’ conquistará as ruas, se quiserem esticar os vencimentos sem meios que sustentem a sua exequibilidade. Numa mínima compreensão dos factos, teremos de considerar que só podemos distribuir riqueza se ela for produzida, amealhada e conquistada. Tudo o resto soará a demagogia, a propaganda – esta não acontece só por ocasião das eleições, é muito mais tentacular – e, sobretudo, a manipulação de quem dirige ou governa. Por isso, a ‘paz social’ é algo mais profundo do que ter dinheiro na mão para consumo: é preciso saber de onde este veio e se continuará a ser servido com verdade e justiça.

 3. Eis os resultados: PS – 41,6 % (117 deputados); PSD – 27,8 % (71 deputados); Chega – 7,1 % (12 deputados); IL – 4,9 % (8 deputados); BE – 4,4 % (5 deputados); CDU – 4,3 % (6 deputados); Livre – 1,5 % (1 deputado); PAN – 1,2 % (1 deputado)… Abstenção: 42,04 %. Que governo com esta maioria? Que estabilidade? Andamos a perder tempo e feitio! Brincar, não compensa!

 4. Houve assuntos esquecidos e/ou evitados, antes das eleições, que terão de ser tomados a sério. Em tempo já de seca, não se falou de água e esta – como sempre – é tema que envolve consciencialização tanto no uso como na racionalidade pessoal e coletiva. Não basta considerar que isso é questão rural, pois os (ditos) citadinos precisarão dela diariamente. Se não chover em breve, algo poderá caminhar para o dramático…

Quem falou da eutanásia? Mais uma vez os partidos se acobardaram sobre a temática e quererão fazer aprovar aquilo que nem sabemos o que pensam ou como resolverão o assunto de forma séria e civilizada. Matar não resolve nada, nunca!

A regionalização foi abordada? Só se foi em questiúnculas baratas. Mais cedo do que tarde pretenderão impô-la, mas como recurso de emprego a ‘políticos’ de categoria secundária. Haja seriedade e bom senso!

    

António Sílvio Couto

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Espiritualidade sem religião?

 


É recorrente ouvirmos – nas frases ditas em público ou em conversas mais pessoais – dizer: ‘eu cá tenho a minha espiritualidade e não pratico nem preciso de nenhuma religião’... Será isto possível e não passa de mais uma frase de moda e ao sabor da ocasião? Haverá nessa forma de estar algo que tenha a referir-se sobre o modo de ser? Com tanta pretensa autonomia não haverá algo de excesso de individualismo? Até que ponto este posicionamento - com algo mais intimista e menos institucional - é revelador de uma certa cultura? Não vivermos já este ambiente sócio-cultural?

1. Espiritualidade ‘à la carte’. Quem diga a frase citada manifesta por certo uma vivência que não se reduzirá à normalidade, isto é, muitas pessoas (a maioria senão uma quase totalidade) nem pensarão na necessidade de terem uma ‘espiritualidade’ que as possa guiar. O dito materialismo prático – como referia o Papa Bento XVI – não lhes deixa espaço nem tempo para se ocupar com ninharias que não sejam de índole materialista. Aspirar a reportar-se a uma espiritualidade soará a fora do normal, na teoria como na prática.

Há, no entanto, como que subjacente a quem refira aquela frase uma espécie de busca nas diferentes formas de se conduzir na vida, isso a que poderemos chamar de ‘espiritualidade’, isto é, algo que, de forma mais do foro do espírito guia e marca a diferença, senão mesmo serve de mote de conduta, nas pequenas como nas grandes coisas ou acontecimentos pessoais, de grupo ou sociais. Quem não se lembra da espiritualidade franciscana, sob a conduta da pobreza? Quem não recorda a espiritualidade de não-agressão do budismo? Quem não deteta diferença entre o modo de viver de um muçulmano ou de um judeu; de um vicentino ou de carmelita; de um jesuíta ou de um hindu? Mas serão estas ‘espiritualidades’ todas iguais, com o mesmo valor e sob o mesmo significado? Não correremos o risco de confundir as práticas com as razões teóricas? Será que uma pessoa vive sempre na mesma intensidade isso a que pretende designar de ‘espiritualidade’?

2. Sincretismo, holística ou definição? De facto, quem se reclama de uma certa espiritualidade, normalmente, sente-se mais humanista que outros, sem qualquer noção ou vivência espiritual. Só que, hoje, vemos surgirem propostas e condutas que vão recolhendo das várias espiritualidades aquilo que mais lhe convém, seja pelo interesse, seja por oportunismo mais ou menos acomodado... quase numa espécie de ‘nova religião’ sem ritos – cada um faz os seus –, sem códigos – cada qual engendra o que mais lhe convém – ou ainda sem ética – cada um gera e gere a sua...

Ao escutarmos a frase – ‘eu cá tenho a minha espiritualidade’ – podemos estar perante uma pessoa que tenta recolher das diversas expressões de espiritualidade aquilo que poderia ser considerado à semelhança do menor denominador comum e daí fazer traçar a bissetriz de todas ou quase todas.
Quem souber poderá rever na ‘new âge’ (nova era) essa espécie de sincretismo, tentaculamente recolhendo o que mais agrada nas expressões religiosas mais diversas. Os temas podem ser diversificados, tanto amplos como redutivos: a ecologia (natureza, animalidade ou um tal humanismo sem ética); lutas em favor da idêntica valorização de todas as religiões, desde que possam amesquinhar o cristianismo; defesa das liberdades individuais em detrimento das vivências coletivas; desvalorização de certos temas em relação com a vida (aborto, eutanásia ou reprodução ‘artificial’) e a moralidade (é preferido o termo ‘ética’) à luz dos valores cristãos...

3. Espiritualidade (mesmo) sem religião? Uma das consequências da pandemia que estamos a viver foi esta mesma: as pessoas foram-se fechando cada vez mais, deixando de participar nas atividades comunitárias – no caso católico, na eucaristia dominical – e reduzindo-se a uma espécie de autodefesa, quanto aos outros e mesmo na relação com o divino, se isso implicasse socialização. Deste modo fomos captando (ou capturando) um cristianismo quase a renegar as suas raízes mais profundas e significativas: a assembleia de fé celebrativa e comprometida. Isto como que favoreceu, por outro lado, um certo devocionismo à mistura com sinais preocupantes de uma espécie de religiosidade enjaulada pelo medo, o preconceito e, mais recentemente, por alguma abjuração da Igreja como instituição humano-divina, pecadora-santificada e mistério de presença de Deus em fragilidade... 

Os riscos estão aí, assim saibamos reconhecê-los e corrigi-los em conversão permanente.

 

António Silvio Couto

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Erros de paralaxe, nas sondagens e não só?

 


Quem lê, vê ou escuta os dados das sondagens – nestas eleições ou noutras quaisquer, digo por mim – fica com a sensação de algo vai mal no reino daquelas coisas de influenciar. Sim, porque, na maior parte dos casos das sondagens que nos são servidas, dá a impressão – coisa de ignorante na matéria! – que cada um introduz os dados que podem fornecer os resultados que mais lhe convenham.

Andava eu a matutar nestas questões quando me veio à lembrança uma expressão: ‘erros de paralaxe’. Fui consultar a wikipédia e encontrei a descrição definitória seguinte: «erro de paralaxe é um erro que ocorre pela observação errada na escala de graduação causada por um desvio óptico causado pelo ângulo de visão do observador». Quer dizer que o resultado da observação pode depender do ângulo de obervação, possibilitando a ocorrência de algum erro de ilusão, que outro observador não teria, se o seu ângulo for diferente...

1. Deixemos as questões técnicas e quase laboratoriais e saíamo para o mundo das coisas políticas: não será verdade que o ângulo de obervação de alguém pode influenciar a apresentação dos resultados, que se pretendiam sem erro, imunes ou quase-isentos? Não bastará introduzir uma variante de observação mais ou mesmo interesseira para que os resultados de tantas sondagens possam fornecer quadros de leitura enviesada e algo tendenciosa? Da experiência dos tempos mais recentes - particularmente nas autárquicas, há cerca de quatro meses - podemos colher que, em boa parte das ‘empresas’ de sondagens, foi um tanto não-disfarçado que, conforme a encomenda, assim se davam os resultados. Por isso, soa a complexo que se pretenda fazer crer que tudo corre de feição quando as variações se coadunam com as pretensões.

2. Com as eleições legislativas em curso, até introduziram uma nova modalidade: a sondagem diária, mas cujos descortinados não passavam de umas parcas centenas e daí se quis inferir que havia variação das sensibilidades, que as margens de erro andavam nos espaços de tendência e que até os manipulados eleitores não passavam de joguetes dos interesses das empresas de comunicação... Ao que chegamos no capítulo da informação-espetáculo, da tentativa de fazer crer que as mudanças ocorrem ao sabor dos produtos anunciados ou ainda que à força de tanto insistir há de resultar o que queremos impingir…

3. Dizem que as ‘redes sociais’ revolucionaram a forma de comunicar e que o modo de fazer política anda mais ao ritmo das pretensões de uns tantos habilidosos, que, anteriormente, eram chamados de estrategas na arte de comunicar, mas que agora mais parecem vendedores de feira em maré de saldos...

Aquilo a que chamavam comícios foram sendo convertidos em jantares-de-comer... para cada vez menos. As sessões de esclarecimento foram revertidas para a distribuição de propaganda e aquilo que eram manifestações – vulgo arruadas – se reduziram a passeios de rápidos, com pouca gente, fugindo do vírus e da sua propagação… Até os fastidiosos ‘tempos de antena’ perderam o sal, a invenção e a conotação dos cançonetistas mais apaniguados… As listas – sob o rótulo de abaixo-assinados – de apoio aos candidatos mais significativos já não cativam os mais incautos, quanto os fervorosos e infetíveis...Numa palavra_ quase tudo mudou para muito pior e mais egoísta!

4. Não será que mais estas eleições não passam de um conglomerado de erros de paralaxe, onde cada um vê o que quer e se conforta com o que lhe convém? Quando saberemos quem quer o bem da Nação e não quem anda a tentar impingir a ideologia ressabiada, de tempos idos e sem futuro? Prestes a escolhermos quem nos possa parecer mais capaz, fazemo-lo por verdade e com sentido de bem comum? Afinal, não voltaremos a ter de escolher o mal-menor e não os mais capazes e idóneos?

Continuamos a ser sebastianistas, mesmo sem disso nos darmos conta, verdadeiramente! Continuamos à espera de quem nunca chega, mesmo que possa ser um tal ‘messias’ sem lógica nem convicção! Continuamos num tempo que devia cuidar do future, com argumentos de um passado sem glória nem honra! Até quando?



António Sílvio Couto

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Filhos ou ‘animais de estimação’: (in)compatibilidades?

 


O Papa Francisco na primeira audiência geral deste ano civil (5 de janeiro) foi claro, contundente e preciso: «Há dias, falei sobre o inverno demográfico que há atualmente: as pessoas não querem ter filhos, ou apenas um e nada mais. E muitos casais não têm filhos porque não querem, ou têm só um porque não querem outros, mas têm dois cães, dois gatos… Pois é, cães e gatos ocupam o lugar dos filhos. Sim, faz rir, entendo, mas é a realidade. E esta negação da paternidade e da maternidade diminui-nos, cancela a nossa humanidade. E assim a civilização torna-se mais velha e sem humanidade, porque se perde a riqueza da paternidade e da maternidade. (...) A paternidade e a maternidade são a plenitude da vida de uma pessoa. Pensai nisto. É verdade, existe a paternidade espiritual e a maternidade espiritual para quem se consagra a Deus; mas quem vive no mundo e se casa, deve pensar em ter filhos, em dar a vida, pois serão eles que lhes fecharão os olhos, que pensarão no seu futuro. E também, se não podeis ter filhos, pensai na adoção. É um risco, sim: ter um filho é sempre um risco, quer natural quer adotivo. Mas pior é não os ter, é negar a paternidade, negar a maternidade, tanto a real como a espiritual».
O Papa falava numa catequese que vem desenvolvendo sobre São José, agora na vertente de ‘São José, o pai putativo de Jesus’.

1. Estas palavras do Papa desencadearam algumas reações dos (ditos) defensores dos direitos dos animais, tanto ao nível geral como nos nossos partizecos, que tentam mover-se na mesma linha animalista mais ou menos assanhada. Esses arautos dos animais foram desenterrar posições que o Papa Francisco tem apresentado, desde 2014, na denúncia pela troca de prioridades – ‘degeneração cultural’, nas palavras papais – entre os filhos e os animais (apelidados) de estimação. Os defensores da ‘vida animal’ chegaram ao ridículo de ironizar com o Papa por este ter escolhido como nome pontifício o de ‘Francisco’, considerado o patrono dos animais... Pior ainda é quando metem na equivalência dedicação – apelidada comummente de ‘voluntariado’ – em salvar vidas, dado que a vida seria sagrada para além da espécie. Não estaremos a confundir critérios e valores? Não estarão a misturar prioridades subjugadas por ideologias? Não se quererá jogar com palavras dando-lhes o sentido que mais possa convir aos intentos animalistas, conferindo cidadania idêntica a humanos e a animais?

2. Quanto aos ‘nossos’ argumentadores da defesa da vida animal, parece que podemos estar falados, pois eles misturam na mesma sigla ‘pessoas e animais’, acrescentando ‘natureza’ para que possam dar uns laivos de holística, sem tomar posição por nada, de forma assumida, refletida e clarividente. Os fogos-fátuos podem iludir durante algum tempo, mas não perduram o tempo todo. Isso mesmo se pode depreender de certas agremiações animalistas que mais não parecem do que correias-de-transmissão de ideias da ‘new âge’ (nova era), esse sincretismo de sabor pseudoecologista, que tende a ‘tomar a nuvem por Juno’, a árvore pela floresta ou de deitar fora a criança com a água do banho… Seja qual for a votação, a ecologia é mais abrangente do que os tiques de certos mentores… sem conteúdo, mas com alguma dose de oportunismo!

3. Vejamos as implicações socioculturais das palavras do Papa Francisco, quando nos adverte para que os animais de estimação – por muito salutares que possam ser ou de tornarem-se presença numa casa – não podem atrofiar a abertura ao dom da vida, pelos filhos, ou nem sequer podem funcionar como artefactos de substituição afetivo-emocional da paternidade/maternidade que se exprimem pela dádiva às pessoas, essas que mais se assemelham à natureza humana. Com efeito, certos ‘amores’ a animais quase deixam a nu que algo vai mal no reino da afetividade, da emotividade senão mesmo do equilíbrio de valores e de princípios.
Nalgumas situações não se poderá considerar quase uma barbaridade encafuar animais de razoável porte em pequenos andares? Não se poderá considerar que esses animais podem ser mais de estimulação (sabe-se lá do quê) do que de estimação? Para quando possa haver uma regra que proíba de usar os animais em proveito das intenções humanas, como se pode depreender do acumulado de animais na mesma casa/andar? Ora, em última instância, preferir os animais aos filhos será avanço ou recuo de civilização?

António Sílvio Couto

domingo, 23 de janeiro de 2022

Nomes de gente dados a animais e vice-versa

 

Embora assunto lateral, surgiu na campanha para as eleições: os nomes dados aos (ditos) animais de estimação de alguns dos nossos políticos... cada um com mais arremedo com nome de pessoa, não se tendo descoberto qual a razão mais razoável de tal intento.

Atendendo ao possível alcance desta onda de quase-aninalismo que percorre os nossos dias, poderá ser não displicente ir ao encontro das possíveis raízes deste fenómeno, bem como tentar descortinar as causas mais plausíveis para serem dados nomes de pessoas a animais e de, certos nomes de pessoas, nem sempre se coadunarem com a personalização das mesmas.

1. Para além de uma designação mais ou menos compreensível: o que significa ‘dar um nome’? Se tivermos em conta a linguagem bíblica ‘dar o nome’ é ter poder ou superioridade... pois ao saber o nome de alguém como que posso sentir algo que me dá um certo ‘poder’, pois até sei como se chama – seria mais lógico dizermos: ‘como é chamado’, pois ninguem se chama a si mesmo, à exceção de algum distúbio menos comum – e, ao pronunciar tal nome, o faça vir até mim, numa espécie de alusão a que eu sou como que o centro e os outros estão referidos a mim...

2. Outra questão que se pode colocar será: qual a ligação entre o nome e o sujeito com esse nome? O nome reporta-nos à identidade, numa frase bíblica que diz: ‘ele é o que o nome indica’ (1 Sm 25,25). Dizem que, nos povos índios, aquele que ia dar o nome à pessoa passava largo tempo – o que for necessário, de dia e de noite – com esse a quem seria dado nome, estudando a sua personalidade e o seu comportamento, ainda enquanto criança, para que o nome pudesse dizer algo dele e daquilo que é ou do que virá a ser.

Ao vermos por aí certos nomes, dados ou recebidos, em função da telenovela em exibição, da história da família ou mesmo do padrinho/madrinha, teríamos muito a refletir, a rever e mesmo a mudar... Como interpretar, então, os nomes de pessoas dados a animais: serão preito de estimar para com alguém que partiu ou, pelo contrário, poderão ser entendidos como possível animosidade descarregada sobre os bichos? Cada qual saberá as razões, que sejam de boa mente.

3. Outro aspeto que a referência aos animais pode trazer-nos até pode incluir uma reflexão sobre a temática dos filhos, pois aqueles podem – consciente ou inconscientemente – substituir estes, o que seria ainda complexo de analisar, agora que estamos a viver o ‘inverno demográfico’ na Europa e no nosso país em particular. Dizia o Papa Francisco, na audiência geral do passado dia 5 de janeiro, na sala Paulo VI, no Vaticano: «Há dias, falei sobre o inverno demográfico que há atualmente: as pessoas não querem ter filhos, ou apenas um e nada mais. E muitos casais não têm filhos porque não querem, ou têm só um porque não querem outros, mas têm dois cães, dois gatos… Pois é, cães e gatos ocupam o lugar dos filhos. Sim, faz rir, entendo, mas é a realidade. E esta negação da paternidade e da maternidade diminui-nos, cancela a nossa humanidade. E assim a civilização torna-se mais velha e sem humanidade, porque se perde a riqueza da paternidade e da maternidade».

4. Depois destas palavras contundentes e claras do Papa, logo emergiram – mesmo no contexto português, politico, social e associativo – condenações sobre o não-alinhamento com o progressivo animalismo da nossa sociedade ocidental e portuguesa em particular. Como se o Papa tivesse de se alinhar com as visões reinantes e marcadamente intencionais em trocar os valores essenciais – as pessoas – pelos convenientes – os animais e seus sequazes – senão na conteúdo ao menos na forma.

Em jeito de anedótico dizia-se que um certo partido ganhou algums ascendente sobre as pessoas mais velhas, que conisderavam que havia alguém que defendia os seus ‘animais de estimação’ e nada lhes pedia em troca. Mas preferir os animais aos filhos será avanço ou recuo de civilização?



António Silvio Couto

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Hora de votação dos proscritos

Depois de várias conjeturas sobre o modo de votação nas próximas eleições legislativas daqueles que se possam encontrar em confinamento devido ao contágio (infetado ou em regime profilático) do ‘covid-19’: das 18 às 19 horas, do dia 30 de janeiro, os proscritos sociais podem sair de casa para cumprir o seu dever cívico de votar… Eis a forma engenhosa que encontram para reunir todas as condições para o exercício condicionado de um direito, o de escolher (ou não) que queremos que nos governe…

1. A solução saída das decisões dos organismos máximos da saúde, em Portugal, conseguiu fazer surgir um nado-morto, pois, se alguém que não esteja condicionado pelo vírus não poderá votar naquele horário estabelecido, assim como quem estiver sob a alçada da virose social só pode votar naquela parca hora do dia, por sinal já na penumbra da noite? Fosse qual fosse o veredito tomado haveria sempre prós-e-contras. Fosse qual fosse a decisão – nem sempre com acordo absoluto de todos – uns serão beneficiados e outros prejudicados, sobretudo enquanto contarem mais os interesses individuais do que as condições coletivas e de bem comum.

2. Há, no entanto, uma lição que venho colhendo com mais acutilância nos tempos mais recentes: como reagirão os cerca de oito milhões de ainda não-contaminados pelo vírus: sentem-se acima da qualquer suspeita até ao dia que possam entrar na lista fatídica ou poderão tendem a ostracizar os já atingidos com a sobranceria de quem ainda não testou positivo? Se, como dizem, mais tarde ou mais cedo, todos seremos atingidos, não seria de bom senso cuidar das repercussões de quem, para além da provação, ainda tem de ser submetido à exclusão social e quase-política?

3. Passados quase dois anos sobre esta pandemia ainda não aprendemos lições mínimas de mudança, desde a convivialidade até às normas sanitárias mais básicas, passando ainda pela aprendizagem no cuidado que todos precisamos de fazer sobre nós próprios e os outros, respeitando-os e sendo respeitados. A custo fomos aprendendo que estamos no mesmo barco – como nos dizia o Papa Francisco, por ocasião do gesto profético de 27 de março de 2020 – embora nos pareça que o barco se possa afundar bem mais depressa do que julgamos. Em pequenos sinais podemos captar que fomos procurado ultrapassar o assunto, mas não colhemos ainda as lições mais essenciais de reaprendizagem: as pessoas valem mais do que a economia; esta só interessa se servir as pessoas, sobretudo as mais vulneráveis; estes não podem ser descartados como excremento humano, pois o animal vai ganhando foros de cidadania inexplicável…

4. Lá, onde se faz a diferença, continuamos a adiar o confronto com a mudança civilizacional em causa: poderemos estar (ou pretensamente ter) com maior ou menor qualidade de vida, se esta não for cuidada nas suas dimensões psicológica e espiritual, as regalias materiais não passarão de artimanhas de uma cultura para quem somos reduzidos à matéria mais ou menos descartável. Esta sensação de fragilidade que a pandemia nos trouxe a todos de forma acutilante, atroz e marcante... por várias décadas ainda, dever-nos-ia tornar mais humildes perante as dificuldades de saúde de tantos dos nossos contemporâneos e de nós mesmos. Precisamos de deixar cair as máscaras de autossuficiência com que nos andamos a iludir em tantos dos momentos da nossa vida. Precisamos de cuidar uns dos outros, não deixando ninguém de fora pela simples razão de estarem ou de terem estado sob confinamento em razão do vírus...

5. Este episódio da votação sob condição para com os ‘adoentados’ pode ser útil para todos nos consciencializarmos das nossas debilidades e não somente olhar os outros com algum desdém. Não podemos permitir que as (ditas) decisões políticas possam servir algumas forças, em detrimento de outros, mas fazendo com que todos assumamos as nossas responsabilidades cívicas, agora ou futuro. Não podemos permitir que haja proscritos em razão das suas fragilidades, mas que esta circunstância nos tem tornado mais cidadãos, aqui e agora!



António Sílvio Couto

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Alegria de viver

 



Quando vemos as disputas eleitorais em curso não poderemos ter a impressão de que aquelas pessoas não têm alegria de viver? Em certas palavras não parece que estamos mais perante pessoas ressabiadas, mal-resolvidas e até sob uma tristeza quase-mortífera? Não haverá, antes, mais azedume e mal-estar facilmente percetível nas palavras, nos gestos e até nos trejeitos faciais? Quando nos vemos ao espelho não nos aperceberemos que somos, de verdade, pessoas que têm alegria de viver? Pelos confrontos das ideias não será, desde logo, captado que os horizontes das reivindicações (minimalistas ou outras) não serão bastante egoístas e interesseiros?

Estas questões vieram-me à inquietação ao ouvir o cardeal Tagle - eclesiástico filipino e responsável pelas questões da Santa Sé sobre a evangelização - que intervinha, desde as Filipinas, via zoom, nas jornadas de formação das quatro dioceses do sul de Portugal a decorrerem por estes dias.
Por diversas vezes se emocionou o senhor cardeal ao dar-nos exemplos simples da sua vida pastoral e dos seus contactos em várias partes do mundo, deixando transparecer a alegria de viver, fundamentada em Jesus e vivida na Igreja.
Das duas intervenções destaco três aspetos: anúncio do Evangelho, tocar as feridas do mundo e a alegria missionária.
Embora as notas recolhidas nas comunicações do cardeal Tagle me sejam muito úteis, desde a visão deste homem de Igreja e colhendo lições do ministério do Papa Francisco, colhi algumas vertentes de reflexão que aqui coloco: serenidade e convicção; presença e humildade (sem medo de tocar as feridas), peregrinação com os outros, mudança em continuidade.

* Serenidade e convicção - para além do ambiente envinagrado de tantos dos nossos vendedores de questões políticas, poderíamos inserir a proliferação das palavras carregadas de agressividade, que incendeiam as relações entre as pessoas. Quantas vezes vemos pessoas que interveem na vida política e se tornam semeadores de conflitualidades, em vez de serem pontes de boa vontade entre pessoas, grupos e associações. Talvez tenhamos de atender aos incendiários na política e nas suas propostas de solução para o futuro próximo. Diz o povo: ‘quem semeia ventos colhe tempestades’. Esperamos que os extremismos de tantos dos políticos da nossa arena competitiva, recolham a curto prazo os resultados com o sabor a convir...

* Presença e humildade - muito para além da denúncia - nem sempre tão profética como seria desejável - urge estar próximo das dores e de cuidar das feridas dos outros. Quando vemos em continuação reclamar do endeusamento do auto-proclamado ‘serviço nacional de saúde’, dá a impressão que boa parte desses mentores nunca estiveram ao pé de quem sofria, de nunca terem sofrido com quem padecia ou de sentirem compaixão com as pessoas feridas. Parece que estamos perante pessoas onde o teor materialista como pretende subjugar a dimensão espiritual das pessoas. Só quem não passou, minimamente, pela experiência do ‘covid-19’ - de infeção, de confinamento ou do luto - poderá fazer zaping mental, quando se vê confrontado com as feridas dos outros...

* Peregrinação em mudança - aprender a caminhar, ao longo de toda a vida, nas suas várias etapas, faz-nos ser humildes em sinodalidade, onde caminhamos com os outros, aprendendo com eles, sem lhes pretendermos ensinar nada, que não seja esse estar lado-a-lado, coração-a-coração em continuidade. Precisamos de ser cada vez mais simples e de não perdermos todas as possibilidades de anunciar com alegria a presença de Jesus.
Foi isso que vi nas palavras e na presença simples, afetuosa e convicta do cardeal Tagle. Como dizia o senhor cardeal assistente da ‘Caritas’ internacional, a Igreja pede-nos tudo e oferecer-nos tudo, sendo evangelizadores que se abrem sem medo a Deus e aos outros.



António Sílvio Couto