Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quarta-feira, 16 de junho de 2021

Culpa: solteira ou viúva?

 


Na complexidade da não-assunção das responsabilidades (pessoais ou sociais) sói dizer-se que a ‘culpa morreu solteira’, querendo com tal dichote significar que os que deviam assumir o que fizeram – bem ou mal – não o assumem e/ou aligeiram a culpa para outros, que, por seu turno, a enjeitam com ar de ofendidos sem desculpa.

Isto é tanto mais preocupante quanto está a percorrer as mais diversas instâncias da presença humana no nosso país/nação, desde o âmbito mais pequeno e rudimentar até à situação mais sinuosa de trato com as coisas públicas – é costume dizer isto das ‘res-publica’, as coisas de todos e para todos – sem esquecer ainda o que envolve a necessária e suficiente capacidade das zonas intermédias, como o associativismo e as autarquias… não obnubilando até as instâncias eclesiásticas.

 1. Quando vemos figuras que ocupam lugares de responsabilidade na decisão a aduzirem desconhecimento das regras (leis, normativas ou obrigações), não será isso uma ostentação de culpa não-solteira, mas de viúva remetida para a rejeição? Quando assistimos ao ‘espetáculo’ quase-degradante de inocentizar questões de mínima responsabilidade no posto e do cargo, não será isso uma espécie de banalização da personalidade de quem está num lugar de forma impreparada? Quando podemos perceber que tantos correm para o poleiro, mas se esquecem das escadas por têm de passar, não será isto uma catadupa de intenções mal geridas em maré de crise em efervescência?

 2. Efetivamente pululam na nossa vida pública coletiva imensos exemplos da degradação ética de uma república que mais favorece os seus apaniguados e como que protege muitos dos incompetentes colocados nos lugares de direção em razão da ficha partidária ou da proteção das subtis promotoras da ascensão à custa de favores, de pagamento de benesses ou de filiações nem sempre bem explicadas. Certos peões na corrida vestem a farpela, mas não tiraram as medidas nem foram à prova – como era costume nos tempos de fazer a roupa por medida – e nota-se que a vestimenta está uns pontos abaixo do que era preciso, esbordando os excessos e tornando-se alvo da chacota geral, ou pelo menos, dos que conhecem a partitura…

 3. De facto a dita ‘solteira’ – uns sussurram em surdina que é a culpa – e outros consideram-na como que uma viúva de má reputação desde o tempo mais juvenil, achando-a mais na tarefa de promotora de todos os males (visíveis ou invisíveis)…No entanto, todos se gostam de aperaltar para que ela possa fazer parte do seu círculo de amizade, ao menos nas redes sociais. À mesa ou nos encantos da alcova, a senhora dona do poder vai seduzindo tantos dos seus servidores, mesmo que disso não se tenham apercebido fazerem parte da coorte real. 

4. Efetivamente assumir as culpas – ou seja só ‘a culpa’ – é algo de digno para quem sabe aquilo que é e não se esconde nas entrelinhas da maledicência. Não precisamos de pessoas impecáveis, mas de pecadores arrependidos. Não nos bastam só cumpridores irrepreensíveis das leis e das regras, mas de pessoas normais que sabem que erram e disso pedem perdão, aos outros, a Deus e a si mesmos. Não precisamos de ‘santos’ em estado de pré-canonização, mas de homens/mulheres que se conhecem, mesmo nos seus defeitos, e que querem estender a mão aos que com eles caminham, por forma a irmos criando uma sociedade mais fraterna porque mais perdoada e perdoadora.

 5. Tenho para comigo que as nossas relações humanas seriam bem mais salutares se fossem alicerçadas na confiança e na lealdade de uns para com os outros. Precisamos de despir a fatiota do faz-de-conta para que nos conheçamos e nos deixemos conhecer. Embora a figura do ‘palhaço’ seja necessária em certos momentos, ele precisa de ser desmontado na hora de tratarmos dos assuntos importantes e essenciais da vida. Nada nem ninguém viverá em paz interior nem a fará com os outros se não for verdadeiro, assumindo as culpas e aceitando-se, quando for caso disso, como culpado. Verdade a quanto obrigas!      

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 14 de junho de 2021

‘Respect’ – de joelhos só diante de Deus

 


Tem vindo a ganhar alguma repercussão um gesto algo temerário, aliado a uma palavra: alguns atletas colocam um dos joelhos no chão antes das partidas de futebol ou a anteceder algum outro momento desportivo… o termo adstrito é ‘respect’ (respeito).

Qual o significado do gesto de colocar um dos joelhos em terra? Com que objetivo se vai ele propagando e propagandeando? Quando se iniciou a campanha do ‘respect’ e com que finalidade? Haverá ligação ou aproveitamento de uma e de outra das situações? Como podemos e devemos – se existe – interpretar tal relacionamento? Estaremos perante uma nova linguagem, envolvida e envolvendo outros códigos?

 1. O termo ‘respect’ (respeito) foi introduzido no contexto desportivo no euro-2008, pelo então presidente da UEFA, Michel Platini, pretendendo ser uma campanha de promoção do respeito e de combate a todas as formas de racismo e de ataques ao espírito do futebol. Deste modo se desejava incentivar a diversidade, a paz e a reconciliação através do futebol, que o seja para todos e com todos, onde se possa ter saúde, haver respeito pelo ambiente e a lutar contra toda a forma de discriminação, de racismo ou de violência.

2. O gesto de colocar um dos joelhos no chão antes dos jogos – sobretudo de futebol (americano ou outro) – foi uma sugestão para colmatar a impossibilidade de cumprimento pelo aperto de mão, dadas as condições restritivas decorrentes da pandemia. Lançada esta campanha por uma associação de combate ao racismo, ganhou outra expressão social, política e cultural após a fatídica morte de um negro americano que sucumbiu à forma algo brutal com que foi preso – com um joelho a dominá-lo – e que lhe veio a causar a morte…

3. A determinada altura da convivência social vimos que foram associadas estas duas ideias: o respeito antirracista e o ajoelhar em forma de provocação, a quem cometa atos dignos de condenação e de não-respeito pela diferença, a opinião e o comportamento alheio. Só que, dá a impressão, se foi longe de mais, tornando um gesto com sabor religioso como uma forma menos digna de reconhecer a discordância, o combate e até mesmo a provocação… pior ainda se, quem não entrar nesta representação rocambolesca, poderá vir a ser referenciado como possível apoiante de ideias que certamente combate com mais força do que com este folclore barato… De facto, estamos num mundo bem mais manipulador do que se julga e ainda mais castrador da liberdade verdadeira do que se pretende…

4. ‘De pé diante dos homens e de joelhos só diante de Deus’. Eis uma frase atribuída a D. António Ferreira Gomes bispo do Porto, aquando do seu tempo de exilado pelo Estado novo.

Efetivamente, só Deus merece que nos ajoelhemos em reconhecimento da sua grandeza, não confundindo os interesses humanos com os direitos divinos. Olhos nos olhos vemos os outros na nossa mesma instância e de joelhos em terra adoramos Deus a quem reconhecemos como único Senhor. Como têm piorado as condições humanas – gerais e particulares – quando colocamos Deus fora, senão mesmo contra, aquilo em que nos envolvemos…Excluído Deus, tudo o resto poderá ser aceite quase-acriticamente.  

 5. Não será que o racismo fervilha, cresce e se manifesta pela exata correspondência em termos perdido a noção de Deus e o seu lugar na nossa vida pessoal, familiar, social e política? Tiraram Deus das coisas públicas e mais facilmente surgiram novas formas de escravatura, pois Deus nos faz respeitar os outros, quando por Ele temos maior consciência, aceitação e presença. Este acentuado ‘ismo’ vem trazer à memória tantos dos mais graves atropelos à dignidade humana e não será com gestos de rebeldia para com Deus que a nossa sociedade se humanizará, pelo contrário, está a tornar-se cada vez mais animalesca, tanto nos conteúdos como nas formas tácita ou implícitas.  

 6. Desgraçado homem/mulher que se ajoelha em idolatria diante de outro igual, sem perceber que só Deus merece adoração, louvor e reconhecimento da sua senhoria, alteza e reverência… Estou de pé ou de joelhos?

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Zás-trás-pás (pedro-adão-e-silva)…da liberdade

 


Causou grande furor e suficiente alarido a nomeação governamental de ‘pedro adão e silva’ para comissário executivo das comemorações do ’25 de abril’ de 2024. Conhecido comentador de vários canais, esta figura (pretensamente) distinta da área da ciência politica tem alguma (ou bastante) proximidade aos socialistas, tendo sido dirigente partidário em certo tempo.

Independentemente do custo – ouviu-se dizer que são milhares de euros mensais – e do tempo de duração do contrato (designação ou tarefa), esta ‘comissão de serviço’ como que tem uma feição de arranjinho pelo trabalho já feito e/ou a fazer.

E não digam que, quem discordar da matéria, quem questionar o tema ou até quem colocar suspeita ao indicado, terá de aguentar com os rótulos do costume ou de se amochar perante inquestionável decisão. Se é para ‘celebrar’ a liberdade não se poderá aduzir delito de opinião por não se concordar… O dogmatismo não era epíteto do regime derrubado em 74?  

 1. Antes de mais expliquemos a expressão: ‘zás-trás-pás’. Saída da linguagem popular pode querer dizer tanto de um bolo de fácil e rápida feitura como ainda um modo de confecionar uma sobremesa fresca para tempo de verão, que levando pouco tempo a fazer também se come à mesma velocidade.

Noutros contextos poderá ter a significação de que, estando um determinado acontecimento a terminar, logo outros se empenham em desmontar o que permitiu realizá-lo, quase sem dar tempo a perceber quer a pressa, quer a necessidade em desfazer-se do acontecido… Isto é, rapidez e eficiência em mudar…sem todos se darem conta do sucedido.

2. A habilidade de colocar em lugares de influência quem antes foi fazendo o seu trabalho de promoção da sua ideologia não é novidade nestes anos de ‘democracia’. A maioria dos partidos e forças de intervenção orientada e com fins pretendidos souberam colocar os seus peões de presença, uns mais camuflados e outros de forma mais ostensiva; uns em postos de participação clara e outros na retaguarda; uns com o nome próprio e outros sob pseudónimo ou encobertos pelo disfarce; uns de microfone na mão ou na lapela e outros segurando somente o tripé… Não basta ouvir o que é dito, é preciso saber por quem, onde e quando é dito…

 3. Eis, senão quando, chega a hora do reconhecimento mais público. Em muitos casos leva anos e talvez nem chegue o momento de sair da sombra, recolhendo os louros do ‘trabalho’ realizado. Por uma certa de verdade seria útil sabermos quantas declarações de interesses andam por aí ao serviço de entidades, agremiações ou corporativismo não-declarado.

 4. É lamentável que haja figuras e figurões que considerem ofensivo ter-lhes sido descoberto o plano e confundam a verdade com o maquiavelismo com que tentaram disfarçar os assuntos. É pena que alguns só contem com a sua esperteza e menosprezem a inteligência alheia. A pior forma de ser apanhado nas teias que se andou a tecer é esse indisfarçável pendor com que uns tantos se ofendem por interpostas figuras. Certos pundonores são de mau perder ou de incapacidade em conviver com a denúncia da mentira.

 5. Por vezes vem-me à lembrança a discussão, no lavadouro da aldeia, entre duas filhas de mães de suspeita vida, onde uma dizia à filha: olha, chama-lhe tu, antes que ela te chame a ti! Isto é, antecipa-te a rotulá-la… daquilo que ela pode fazer-te a ti.

Ora, naquilo que tem de questionável sobre a nomeação do dito senhor para o posto de comissário executivo das comemorações dos 50 anos do ‘25 de abril’, nota-se que o evento tão policromado com facilidade se presta a interpretações díspares e, tanto quanto é percetível, isso foi um solene disparate. Antes que venha outro, defenda-se o pretendente.   

 

António Sílvio Couto

Católicos agredidos em procissão


Num país das liberdades soube-se há dias que alguns católicos foram agredidos durante uma procissão.

Eis a notícia no jornal católico ‘La croix’ de 31 de maio passado:

«Une marche de prière organisée samedi 29 mai 2021 par le diocèse de Paris en mémoire à des martyrs catholiques de la Commune de Paris a dû être interrompue en raison d’une contre-manifestation d’extrême gauche qui a donné lieu à des incidents violents. Cela se voulait une procession comme tant d’autres, samedi 29 mai 2021. En mémoire des religieux exécutés le 26 mai 1871, pendant la «semaine sanglante» de la Commune, le diocèse de Paris avait organisé une «marche des otages martyrs de la rue Haxo». Violemment pris à partie par des militants d’extrême gauche, le pèlerinage a toutefois dû être stoppé. Nous étions dans une démarche de prière et de commémoration, sans aucune forme d’expression ou de revendication politique, témoigne pourtant à ‘La Croix’ Mgr Denis Jachiet, évêque auxiliaire. Nous ne fêtions pas la victoire d’un camp sur un autre. Forte d’environ 300 participants, la procession est partie vers 17 h 15 du square de la Roquette, dans le XIe arrondissement de Paris, afin de suivre le chemin des prisonniers de l’ancienne prison de la Roquette, où fut par ailleurs exécuté Mgr Georges Darboy le 24 mai 1871, jusqu’à l’actuelle église Notre-Dame des Otages. Très vite, le cortège a essuyé de la part de personnes attablées en terrasse des quolibets, dont l’historique «À bas la calotte». «Notre procession était familiale, avec des enfants et des personnes âgées, et nous avons d’abord pris cela de manière apaisée voire amusée car nous avions l’impression d’être retournés au XIXe siècle!», raconte Hubert, membre du conseil paroissial de Notre-Dame des Otages».

 1. Este texto narrativo revela algo preocupante, agora em Paris, dentro de pouco tempo em Lisboa ou Braga. Sempre assim foi e talvez será! As questões de guerrilha religiosa começam lá e, passados anos, chegam cá. Precisamos de atender aos sinais… Citamos o texto em francês, esperando que todos o possam compreender.

2. A memória da procissão em Paris era sobre uma perseguição religiosa aos cristãos no século dezanove. Os agora defensores da ‘liberdade’ atacaram. Lá como cá certas forças não gostam de ver denunciados os seus ‘crimes’ do passado, propalando a sua sanha anticristã. Por que não se viu nenhuma referência nas nossas televisões? Isso não é digno de ser mostrado ou, quando os ‘seus’ cometem asneiras, são silenciados, cá como lá? 

 3. Em Portugal somente mais de uma semana passada surgiram notícias nos meios de comunicação social ligados à Igreja católica. Faltará solidariedade na desgraça ou ainda continuamos a ser manipulados sem nos darmos conta? Não nos faltará sentido de memória para não deixarmos cair no esquecimento situações de perseguição de outras épocas? Ainda terá sentido relembrarmos a refrão –‘sangue de mártires, semente de cristãos’?

4. Depois da traumatizante vivência de termos sido encurralados na pandemia para a sacristia, precisamos de saber interpretar estes acontecimentos em terras ditas de liberdade, mas onde o cristianismo se pode confundir com um fenómeno cultural de valor discutível, ao menos, por certas forças mais combativas, ruidosas e destemidas. Estamos no fio do juízo sobre o sentido da nossa fé – muito para além da crença e de seus ritos – por parte de uns tantos educados nas ideias dialéticas (marxistas, trotskistas ou socialistas), subjacentes a tantas expressões sociais, económicas e políticas.

 5. Talvez tenhamos de estar preparados psicológica e culturalmente para ser confrontados não já com a indiferença das nossas manifestações religiosas – procissões, celebrações públicas ou atos de religião simples – mas para a contestação, a provocação ou mesmo os ataques subtis e claros. Saberemos lidar com essas vivências? Teremos cristãos capazes de dar a cara e o resto?

Pela forma silenciosa com que as notícias de Franças foram ignoradas, preparemo-nos para o pior…por cá! 

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 7 de junho de 2021

‘Cartão branco’ do fair-play


Os factos: no decorrer de um jogo de futebol numa divisão do distrital, no interior do país, o guarda-redes da equipa visitada – bombeiro do corpo de socorro de emergência – saiu do seu posto, quase a terminar o jogo, para ir assistir, num ataque de epilepsia, um espetador (de trinta e dois anos) da equipa adversária, continuando nesse trabalho de assistência até à chegada do socorro mais consistente… estabilizada a situação o jogador voltou ao seu posto e o árbitro, no final da partida, puxou do cartão branco do fair-play…

 1. No âmbito do desporto – particularmente do futebol – já conhecíamos os cartões amarelo e vermelho para advertir ou castigar infrações dos jogadores ou outros agentes desportivos no âmbito dos jogos… Há modalidades onde temos ainda o cartão azul que previne alguma falta em vista de sanção posterior… Nalguns campeonatos de futebol está a ser implementado o ‘cartão verde’ como forma de premiar um atleta que tenha tido algum gesto ou jogada, considerados bonitos ou como conduta exemplar dentro do campo…

 2. Qual é, então, o sentido do ‘cartão branco’ de que falamos supra, como e quando poderá ser exibido?

O ‘cartão branco’ é um recurso pedagógico que visa enaltecer condutas eticamente corretas, praticadas por atletas, treinadores, dirigentes, público e outros agentes desportivos. Ao ‘cartão branco’ aderiram entidades interessadas em promover valores e ética no âmbito da prática desportiva. Com efeito, o ‘cartão branco’ resulta de uma parceria entre o Plano Nacional de Ética no Desporto, a Confederação das Associações de Juízes e Árbitros de Portugal e uma marca de refrigerantes.  Desde que foi lançado, em 2015, o ‘cartão branco’ foi exibido, até finais de 2020, por mais de duas mil e quinhentas vezes...

 3. Que implicações humanas, sociais e culturais poderá ter este ‘cartão branco’ naquilo que tem de singular e de genuíno? Atendendo às diversas atividades em que estamos inseridos não seria útil e necessário encontrarmos mais candidatos ao ‘cartão branco’? Se tivermos na devida conta as incidências do ‘cartão branco’ não seria conveniente promovê-lo nas díspares atividades em que nos encontramos? Daríamos um cartão branco pela nossa atitude compreensiva para com os outros? Aceitaríamos que no-lo dessem pelo modo como nos comportamos?

 4. Por vezes sinto, penso e até digo: ‘como era feliz, quando era ignorante’. Refiro-me a situações em que, pelas mais diversas circunstâncias, passei a conhecer um tanto melhor as pessoas, a sua história ou mesmo as razões de serem como são… De facto, há momentos em que cai dos olhos essa espécie de escamas subsequentemente às quais vemos os outros com outros olhos e talvez com menos filtros. Outrossim poderá e/ou deverá acontecer na experiência dos outros sobre nós mesmos… damo-nos a conhecer e podemos dececioná-los. Escrevia há tempos: ‘enganei-me e fui enganado’…

 5. Ousamos sugerir situações da nossa vida ordinária/habitual/do dia-a-dia que poderiam ser submetidas à apreciação social do ‘cartão branco’ de fair-play:

- os casos de maledicência – direta ou pelas ditas redes sociais – sobre a vida alheia;

- as tropelias no trato de uns com os outros, particularmente quando tentamos disfarçar os nossos defeitos com as acusações aos demais;   

- quando julgamos os outros mais pelas aparências, mesmo que incluindo as roupas, o carro, a casa ou o pretenso estatuto social;

- nas pretensões arrolhadas pela inveja quanto ao que os outros têm, sobretudo através do seu trabalho, dedicação e empenho…

 6. O ‘cartão branco’ do fair-play não passa, afinal, da correta articulação de todos e de tudo em sociedade, particularmente pelo exercício das virtudes cristãs mais básicas, essenciais e verdadeiras.

Merecerei um ‘cartão branco’ de fair-play no jogo da vida quotidiana?

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Vacinas (6), abusos e ‘normalidade’

 


Num método quase rotineiro vamos tentando fazer uma espécie de ‘reset’ das coisas da pandemia – desde meados de fevereiro de 2020 até à data em avaliação – recorrendo a vários itens: vítimas (contagiados, recuperados ou falecidos), passando pelas possíveis soluções (regras sanitárias, testagem, vacinação ou imunidade) e interpretando os diversos aspetos…mais ou menos percetíveis.

Se, na maioria das situações, boa parte da população cumpre as regras, noutros casos vemos emergirem abusos e quase atentados à saúde pública…colocando muitas dúvidas sobre a pretensa normalidade.

 1. Depois da confusão generalizada instalada na sociedade sobre o ‘sars-cov-2’ vimos emergirem um tanto rapidamente projetos de vacinas: BioNtech.Pfizer, Moderna, Oxford.Astrazeneca, Janssen/Johnson&Johnson, Novavax, SputniK V… as mais divulgadas e usadas, com as três primeiras na dianteira na sua administração ao nível mundial, europeu e português. Até final de fevereiro deste ano havia um total de 69 vacinas, entre as que estão já em utilização e as que se encontram em ensaios clínicos. É nítido o esforço para combater esta pandemia, dado que ainda não sabemos bem como e onde começou, tão pouco vislumbramos a total irradicação, se tal poder acontecer! 

 2. A população já vacinada tem vindo a decrescer, isto é, começou pelos mais velhos – dizem que os mais vulneráveis à contaminação – e vai descendo em idade e – assim o desejamos – em eficiência naquilo que alguns apelidam de imunidade (ou bolha) de grupo. Neste sentido foram-se verificando situações de alguma irresponsabilidade por parte de grupos etários mais baixos, criando-se, deste modo, algo suscetível de não ser corretamente controlada a disseminação do vírus…

 3. Desde meados de maio deste ano fomos verificando momentos coletivos de menor atenção aos cuidados primários para a não-difusão do vírus: por sinal ligados ao fenómeno do futebol, na capital, na região norte do país e também no Algarve. De todos o mais bizarro foi o que envolveu pessoas vindas do estrangeiro: sem máscara, em grupos de ‘arruaceiros’, sob forte influência do álcool e provocando as autoridades policiais. Aos de cá faz-se cumprir as regras, colocam-se limitações e restrições várias… aos de fora fez-se vista grossa, como se tivessem vindo trazer dinheiro às carradas, quando o que deixaram foi lixo, destruição e má influência para os prevaricadores… Desgraçado país que faz o seu turismo de copo – com muita cerveja mais alcoólica do que a deles – na mão e de toalha ao sol! Basta um pequeno percalço e treme o esqueleto da nossa incipiente economia…

4. Desse mesmo país – de quem dizem ser o nosso mais velho aliado comercial – vieram, menos de uma semana decorrida, novos condicionamentos às deslocações de-lá-para-cá e de-cá-para lá. As explicações governamentais são de uma pífia resolução. As medidas a tomar não têm consequências. As vítimas – por vezes ufanas do sucesso residual – contentam-se com umas ajudas prometidas e quase nunca recebidas. Enquanto alicerçarmos a nossa economia em expedientes da restauração estaremos sempre a começar do zero e andaremos a querer vender um produto que facilmente fica fora de validade…

 5. Mais uma vez estamos a perder a oportunidade de fazermos uma reestruturação séria dos nossos critérios de conduta pessoal, familiar e social, pois continuamos a adiar essa reflexão que saiba viver mais no sistema da poupança e do que no regime dos empréstimos, valorizando o trabalho que produz e não os gastos na sedução da preguiça… Continuam a enganar-nos ao lançar dinheiro sobre os problemas e não em sabermos reconfigurar o nosso tecido social, económico, cultural e moral, segundo as nossas reais possibilidades e não alimentando as ambições consumistas, materialistas e de baixa felicidade.

Este vírus ainda não nos ensinou a compreender a nova normalidade, pois parece que queremos refazê-la sem mudar de valores, de critérios e de condutas…         

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Festas em tempo de pandemia


 Pelos mais recentes exemplos – jogos e comemorações do futebol, de âmbito nacional ou com trejeitos mais internacionais – teremos de reconsiderar se já estaremos capacitados para aliviar as medidas de contenção neste tempo de pandemia.

Desde fevereiro do ano passado que muito do convívio social foi posto em suspenso: da recusa do mínimo contato até às higienizações quase doentias, o recurso contínuo à máscara, os distanciamentos compulsivos…fomos sobrevivendo e até lidando com os cuidados pessoais à mistura com os alheios.

Percorrida a fase da testagem e ensaiando a etapa da vacinação foi-se criando a sensação de quase segurança no controle do vírus, mesmo que desconfiando de tudo e de quase todos…Ténues esperanças se vislumbram e a pretensa normalidade parece dar pequenos e titubeantes passos.

 1. Eis que fatores menos bem controlados deixaram o medo no ar… Sim, é no ar que paira o vírus fatal. E pelo ar de descontração de uns tantos – talvez mais prevenidos ou até inconscientes – poderemos correr o risco de deitar meses de sacrifício a perder. Não ficamos indiferentes aos atropelos de nacionais em festejos do futebol nem foi digno de convivência social mínima assistir aos abusos de ingleses por estes dias à boleia do futebolês… Vimos policiamento, mas onde estava a autoridade?

 2. Surgidos os primeiros laivos de calor eis que as praias se foram enchendo de pessoas mais ou menos respeitadoras das regras sanitárias. Por outro lado, também quase de forma recorrente emergiu o medo de que somos um povo menos atento e logo seria necessário implementar medidas repressivas, vigilâncias policiais e até coimas para os incumpridores. Pintado o cenário mais atroz, não se verificou… Dá a impressão de que não confiamos nos outros porque somos inseguros e estamos de mal connosco mesmos. Fantasmas a precisaremos de serem exorcizados…

 3. Num mês rotulado de ‘santos populares’ parece que está algo em suspenso: umas vezes parece a espada de Dâmocles sobre a cabeça de todos, noutros casos vivemos na apreensão de que o pior ainda não veio e, regra geral, a culpa é de quem não decide porque eu sou responsável e os outros que se desenrasquem como eu vou tentar fazer… Pode vir a fiscalização, que iremos fintá-la nem que seja com mentiras e subterfúgios quase-infantis… pensarão alguns.

 4. Arrolhados que foram os momentos de convivência social, por ocasião das festas mais significativas no ano passado, nota-se uma certa apreensão sobre o que vai acontecer este ano… Ainda não aprendemos a lidar com a diferença, julgando que vai ser um retomar do que era antes, em vez de sabermos aprender com as novas e exigentes circunstâncias. O fatídico slogan – ‘vai ficar tudo bem’ – tem de ser rasgado e lançado ao lixo do oportunismo ou da ignorância mais imbecil. Precisamos de aprender a adequar-nos à diferença, sabendo ler, interpretar e viver com olhos novos, lavados e sinceros…

 5. Tudo quanto nos aconteceu – e vai continuar a ser permitido conhecer – traz exigências diferentes dos tempos do passado recente: quase nada daquilo que antes tínhamos vai ser vivido da mesma forma, após este intervalo de provação de todos e para todos. Para aqueles que têm a esperança num tempo novo será urgente reaprender a estar, nesse entrecruzamento de leituras e perante a busca de respostas…Ninguém dará lições a ninguém, antes vamos aprendendo com os sinais da vida o que esta nos trará de sempre novo.

 6. À memória de crente me vem o poema de Manuel de Jesus Ferreira – ‘se me envolve a noite escura e caminho sobre abismos de amargura, nada temos porque a luz está comigo’. É isso: poderemos ansiar fazer festa, mas esta só acontece quando estamos centrados no essencial. Em tudo isto que fomos tentando perceber, fica a sensação: Deus está a falar. Já O compreendemos?

 

António Sílvio Couto