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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Do ‘cristianismo sociológico’ ao ‘cristianismo da escolha’


Há poucos dias foi nomeado o novo arcebispo de Paris, Mons. Michel Aupetit, em substituição do cardeal André Vingt-Trois, que esteve à testa da igreja parisiense nos últimos doze anos. A terminar o seu múnus episcopal, este apresentou ao recém-nomeado os grandes desafios que terá de enfrentar – ele que já foi bispo auxiliar da capital francesa e agora regressa de Auxerre – a saber: a passagem dum cristianismo sociológico para um cristianismo de escolha, arriscando ‘consagrar o essencial das forças da Igreja a fortalecer aqueles que escolheram’ deixar de esquecer os outros… assegurando a transmissão da fé num contexto de secularização generalizada.

Segundo dados do jornal católico francês, Paris tem quinhentos padres para cento e seis paróquias, com mais de oitenta seminaristas, num modo de formação muito específico: em pequenas casas…

Filho da grande diocese parisiense, tal como os seus dois predecessores, Mons. Michel Aupetit conhece a diocese com mais de dois milhões e duzentos mil de habitantes, num quadro de um milhão e meio de praticantes, isto é, de 70% de frequentadores habituais, mas onde os problemas de perda da fé tem vindo a marcar distância num mundo crescentemente secularizado e bastante laicizado. 

= Lucidez para ‘ver-julgar-agir’?

Quem conheça, minimamente, o pensamento francês saberá que eles pensam razoavelmente bem, isto é, com lógica progressiva e com tendência clara, mas nem sempre são capazes de serem bons executantes daquilo que engendram, fazendo com que outros o levem à prática simples, normal e exequível.

Parece ser razoável perceber ainda que a cultura francófona tem vindo a perder estatuto e visibilidade no contexto mundial e europeu. Hoje falar francês é menos fluente do que há décadas (senão séculos) atrás. Com efeito, a cultura anglo-saxónica têm-se imposto com maior agressividade e referência, isto é, a língua de comunicação entre os povos é sobretudo o inglês, mesmo que tenha algum acento americanizado.

Também no pensamento eclesial, o francês tem passado a um campo secundário, onde até a literatura escrita é um tanto residual, seja na quantidade, seja mesmo na qualidade. A outrora ‘França católica’ tem dado espaço a manifestações mais de índole muçulmana do que com incidência cristã. Lembro-me de ter lido, em tempos não muito recuados, que para se falar da ‘quaresma’ naquele país como tempo religioso de expressão católica de jejum e de oração, alguém teve de se socorrer da comparação com o ramadão islâmico ou os ouvintes não captariam o que se pretendia dizer…  

= Cristianismo de rotina ou de rutura?

Deste modo a observação que motiva esta reflexão/partilha sobre a passagem do ‘cristianismo sociológico’ para um ‘cristianismo de escolha’ atinge alguns dos fundamentos da nossa condição de cristãos neste tempo, nesta cultura e mesmo nesta condicionante da história. Efetivamente há sinais que nos devem fazer refletir sobre o modo como chegamos à progressiva laicização da sociedade, senão mesmo da Igreja – não reduzimos a sua expressão à dimensão católica – sobretudo na cultura ocidental, mais de consumo do que de compromisso. Com efeito, os valores e critérios deste tempo andam mais pela área da satisfação material do que da exigência moral/ética. As questões de âmbito espiritual como que têm sido reduzidas ao foro intimista, relegando as expressões de fé para a conduta do privado. Ora, isto faz parte dum plano de amorfismo mais ou menos consentâneo com uma espécie de sacralização do Estado e da sua ética (na maior parte dos casos) republicana, laica e tendencialmente agnóstica. Nesta caminhada parece que convém que se exaltem certos ritos tradicionais, com outras vivências exotéricas à mistura, desde que não entrem em confronto com ‘tradições’ ocas e de verniz social. Como não ver ainda em certos momentos de ‘sacramentos (pretensamente) sociais’, onde se dá atenção mais à forma do que ao conteúdo? Como não sentir ainda que certos batizados e casamentos – tendo por cenário a igreja – não passam de momentos sociológicos sem implicações na vida e na conduta social cristã?

É urgente, também no nosso país, que se faça essa passagem do cristianismo sociológico e de verniz carunchoso para a opção de fé esclarecida, celebrativa e comprometedora da vida no espaço do mundo!     

 

António Sílvio Couto


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