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quinta-feira, 6 de abril de 2017

Hibernação eucaliptal


Quem visite o nosso país e quem leia ou veja notícias deste torrão à beira mar plantado poderá ser levado a concluir: vive-se num país onde não há greves, não se verifica contestação a nada nem a ninguém – no sentido político – e até certas instituições tão intervencionistas, como o tribunal constitucional ou mesmo a comunicação social vivem num quase anonimato e sem se dar por eles…

Fique claro que não sou defensor da alteração da ordem pública ou do conflito sem mais, antes pelo contrário, advogo que se procure viver e fazer por viver em harmonia e concórdia entre todos, particularmente para com os que pensam de forma diferente, defendendo o direito à opinião, com liberdade e responsabilidade.

Mas o que me faz confusão é esta hibernação de sindicatos – em especial em setores tão atribulados como os transportes, a educação, a saúde ou mesmo a segurança (social ou de ordem pública) – e um certo fenómeno de eucaliptização duma grande parte dos contestatários e seus sequazes, bem como uma espécie de amorfismo em que estamos a viver coletiva e individualmente.

Sabemos como o eucalipto seca tudo em volta de si, sugando as fontes de alimentação até ao mais profundo da condição ambiente à sua volta. Não será isto que está a verificar-se com certas forças ideológico-partidárias? Conseguidos os intentos de atingir o poder, não há como saber calar e manietar quem não alinha nas pretensões ansiadas… Vemos que, hoje, quem achava pensar de forma diferente da maioria dominante ficou sem espaço de intervenção e nem mesmo uma dita comunicação extra-regime se faz eco de qualquer discordância, por mais subtil que possa insinuar-se… 

= Ao nível do mais alto dignitário da nação vemos que tudo está conciliado e nota-se um clima conciliador… com cheiro a populismo. Mas será que é isso que o resto dos cidadãos precisam? Onde está a voz tribunícia, que se ergue em defesa de quem não se revê neste sistema de condução dos destinos coletivos? Não foi para isto que foi eleito o presidente da república para ser uma espécie de caixa-de-ressonância dos interesses partidários instalados na governação por acordo nas catacumbas do parlamento… Não foi para vermos como porta-voz de conluios entre forças patrióticas de internacionalismos, que o mais alto dignitário se limita a não fazer ondas nem a assumir-se efetivamente como defensor dos mais fragilizados, antes a ser visto como comensal duma parte do eleitorado, que nem foi o dele…na origem.  

= Cresce, entretanto, uma onda de individualismo por entre as posições da maioria dos cidadãos nacionais. Já lá vai o tempo dum certo idealismo da partilha, que caraterizou os primeiros anos após a revolução abrilina. Excluindo os exageros de tantos que se aproveitaram da inépcia duma parte significativa da população, houve tempos em que éramos um povo mais solidário e nem os atropelos cometidos por uns tantos habilidosos deixou de gerar uma força de atenção aos outros e, sobretudo, aos mais desfavorecidos. Dessa época já restam poucos desses idealistas…com tino e bom senso.

Hoje vivemos – num galopante sentimento de incómodo – mais fechados aos outros, nesse egoísmo individualista que coloca o eu em primeiro lugar e só no final da lista os outros…mesmo familiares. As remessas de fundos vindos da Europa – com mais fulgor na década de 90 do século passado – foram-nos tornando mais e mais refinadamente interesseiros, fechando as mãos e cerrando os punhos, que antes eram de contestação, para se irem tornando sinais de posse e de possessão endeusada de bem-estar ou de exaltação dos direitos…adquiridos, sabe-se lá com que legitimidade.

Nalguns casos nem as instituições e os responsáveis religiosos ficaram à margem desta onda de materialismo prático, já que os resquícios do pragmatismo dialético foram sendo aveludados com promessas e recebimento de subsídios ao não-trabalho. Quanta habilidade foi emergindo em tantas situações, que descobertas mais tarde, se tornaram focos de escândalo e matéria de más notícias…

Efetivamente, a hibernação eucaliptal tem vindo a ser conduzida – ou será manipulada? – sem nos darmos conta com clareza, podendo cada um de nós correr o risco de pensar à maneira do modo como vive e não a viver à maneira daquilo que pensa… com valores e critérios mais humanos porque mais cristãos!

   

António Sílvio Couto



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