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segunda-feira, 9 de maio de 2016

Sobre o túnel…do Marão


 


A recente inauguração e, posterior colocação em funcionamento, do túnel do Marão trouxe à luz das notícias muitas e diversas observações: extensão – 5,6 Km; faz a ligação entre Amarante e Vila Real, na A4; quase oito anos de obras (com algumas interrupções de permeio); portagem – entre 1,95 euros (classe 1) e 4,90 (classe 4); custos globais da obra – 398 milhões de euros… numa comparticipação de 90 milhões de euros por fundos comunitários; abreviando em trinta e cinco minutos a viagem entre Porto e Bragança… com um tempo de travessia do túnel em vinte minutos…

Ao ato de inauguração estiveram os governantes que lançaram o projeto e o atual chefe do governo…por sinal do mesmo partido político…tendo-se recusado a estar outro (de partido diferente) que preencheu o espaço entre ambos…

Só nas primeiras vinte e quatro horas de abertura à circulação passaram – na maioria dos casos, disseram alguns dos escutados, por curiosidade – mais de dezoito mil veículos, pagando as respetivas portagens…

Houve quem considerasse esta obra pública como a mais importante dos últimos cinquenta anos em Portugal… só comparável com a travessia do Tejo entre Lisboa e Almada. Por entre avanços e recuos – no conjunto o tempo de paragem na construção perfaz quase metade (quatro anos) da execução – se tentou desfazer o adágio transmontano: para lá do Marão mandam os que lá estão! Tal como noutras ocasiões houve chavões que pretendiam qualificar esta obra… mas o grande beneficiado é o público utilizador, que deverá pagar pela sua utilização! 

= Esta obra, para além de significativa pelo investimento e pela nova etapa de desenvolvimento que traz à região, pode tornar-se algo de simbólico, pois o maior túnel rodoviário da Península Ibérica como que representa uma opção dos gastos públicos em Portugal: inserido nas parcerias público-privadas foi engordando com o passar do tempo e com repercussões nas contas públicas, que tantos custos têm dado aos contribuintes. De facto, à política do betão-armado tem-se seguido o prolongamento de projetos que se arrastam no tempo e fazem malbaratar os impostos de todos… uns pagam e outros usufruem, desejando não pagar o uso dos benefícios!

É contra este estado de coisas que sentimos que o túnel do Marão não pode ser engalanado com discursos de circunstância nem com desfiles de ‘lixos tóxicos’ – um dos participantes na festa foi assim considerado por outro agora no poder – que fazem com que possam parecer benfeitores dos negócios alheios. Temos de fazer um maior escrutínio das decisões dos governantes, fazendo-os assumir as consequências das suas decisões e não permitindo que sejam ilibados de culpas quando nos fazem pagar por cada quilómetro do túnel mais de setenta milhões de euros… 

= Esta obra (quase) faraónica não pode continuar a ser considerada uma pérola do investimento público, quando outros setores da nossa vida social precisam de ser atendidos e não relegados para as periferias das decisões governativas. Incluímos nesta leitura as áreas da educação (ensino e emprego), da saúde (cuidados e hospitais) e da própria segurança social. E nem a tentativa de fazer coincidir com os feriados de final de abril ou do princípio de maio, podem encobrir as más decisões – há quem lhes chame ‘interesseiras’ ou até ideologizadas – nestes setores com as vistosas festas de autarcas beneficiários ou as regalias dos que mais contestam ou exigem.

A luz que já brilhou ao fundo do túnel do Marão não poderá encandear os mais incautos, que podem ser tentados a ficarem-se nas danças do presidente em viagem de Estado ou nas declarações ‘ofendidas’ daqueles que não gostam quem lhes apontem os erros e facilmente se lamuriam por não serem compreendidos nos pretensos bons propósitos de serviço público… até ver!

O túnel do Marão continuará a ser uma boa fonte de inspiração para aqueles que querem ultrapassar as dificuldades, unindo esforços e capacitando todos quantos estão ao serviço dos outros…agora e no futuro!     

 

António Sílvio Couto




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