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terça-feira, 31 de maio de 2016

Correr com a bicicleta ao lado…


Um atleta alemão do triatlo, sofreu um furo na bicicleta, enquanto participava numa prova em Lisboa, recentemente. O atleta tinha duas soluções: ou desistia ou, como fez, corria descalço durante dez quilómetros que faltavam com a bicicleta ao lado… e as sapatilhas da prova de ciclismo (adequadas só à bicicleta) penduradas… Enquanto corria referiu: ‘nunca te desvies do caminho só porque algo não correu como planeaste. Tens de te manter forte, concentrar-te nas razões pelas quais corres. E fazer o melhor que puderes. Só me restam oito quilómetros e aí sim, poderei calçar as minhas sapatilhas’.

Não sabemos em que lugar ficou, no final, da prova, mas o acontecimento está a percorrer mundo e as palavras/imagens – como agora se diz – tornaram-se virais… 

= Como poderemos interpretar o que foi dito, inserido, particularmente, no contexto em que foi feito? Que lições comportam esta atitude deste atleta? Como foi possível dizer com tanta nitidez o que foi citado, estando em prova e sob pressão?

Desde logo se nota uma presença de espírito e de reflexão que espanta, pois uma parte significativa de nós ficaria transtornado com um episódio inesperado e pouco diria com nexo e racionalidade. Isto que foi feito denota uma preparação psicológica excecional e de superior qualidade, tanto na forma como no conteúdo. Dir-se-á que mais do que o valor atlético, podemos encontrar uma fibra de valor humano muito grande e acrisolada no treino e nas provas já prestadas. 

= Num tempo tão ávido de protagonistas – numa maior parte são-no pelo facilitismo e pela vulgaridade – podemos ver neste atleta alemão algo dum espírito, seja daquela nação, seja da complexidade com que vivemos, por agora, na Europa. Por vezes, nota-se – sobretudo nos países latinos e do sul do continente – uma certa superficialidade em compreendermos as atitudes e vivências do norte da Europa. É um facto, que somos diferentes e que muito daquilo que estamos a colher – nos vários âmbitos humanos sociais, económicos, políticos e até morais – são resultado duma mentalidade que se foi aprimorando com a capacidade de sabermos enfrentar as dificuldades pessoais e coletivas. Na maior parte dos países do sul da Europa não tivemos de unir-nos para recuperarmos dos estilhaços da segunda guerra mundial, enquanto os do norte lutaram para terem o nível humano que se lhes reconhece… Ainda hoje continuamos a viver numa espécie de preguiça social, mais ou menos lânguida do sol e da pacatez das nossas terras, que até vão produzindo sem termos de trabalhar muito…

Somos, efetivamente, herdeiros do epicurismo – ‘carpe die, sape vinem’ (vive o dia a dia e saboreia o vinho) – dos romanos e com alguma tolerância de vida queremos ter sucesso, se possível, sem muito trabalho… que implica esforço, persistência e sacrifício. Isso mesmo é revelado na pretensão em termos um (dito) Estado-social, onde este cuida das nossas carências, mas nós pouco ou nada contribuímos para que se enriqueça o bem comum. Tentemos olhar para a catrefada de feriados com que vivemos – ainda mais se aliados às pretensas ‘pontes’ – e como até os desvirtuamos na origem para que foram instituídos. Viu-se isso no mais recente do ‘Corpo de Deus’, que muito poucos usaram para a marca que lhe está adstrita, a de ‘dia santo’ católico.

Dizem que, nalguns países do norte da Europa, também foram retirados – em momentos de maior contenção económica – alguns feriados, mas que não foram logo repostos, quando essa razão mudou. Lá continuam a trabalhar e nós, por cá, bastou um leve aceno de recuperação – que brevemente será contrariada com factos e medidas de nova e acentuada crise – para entrarmos nessa distribuição de favores e prebendas. Veremos até quando!  

Temos de mudar de mentalidade: não se enriquece de forma honesta sem trabalho. Não podemos continuar a querer viver como ricos, quando não passamos duns tesos perfumados e vaidosos endividados. Basta de tentarem enganar-nos com pão e jogos…fornecidos ao desbarato e sem mérito. Os romanos caíram com essa presunção e petulância! E nós teremos idêntico futuro…brevemente. Sejamos realistas!

 

António Sílvio Couto




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