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sábado, 31 de outubro de 2015

‘Filho-único’ sem decreto…à portuguesa



Por estes dias o regime comunista da China – reinante desde 1949 – deu por terminado o decreto, que desde o final da década de 90 do século passado, exigia a cada casal que tivesse só um filho (preferencialmente rapaz), pondo, assim, termo a uma intromissão estatal na vida das famílias chinesas…com resultados que já se revelam catastróficos e difíceis de socialmente serem geridos…
Ora, se observarmos o que aconteceu, em Portugal, mais ou menos desde essa ocasião histórica, como que temos vivido uma espécie de ‘regime de filho-único’ não decretado, mas tacitamente assumido, promovido e desejado!
Vemos – enquanto nos queremos inserir numa visão cristã das questões – esta atitude por razões variadas, envolvendo motivações mais ou menos egoístas e de acentuado teor de bem-estar camuflado de cinismo nem sempre assumido.
Porque o assunto é demasiado sério e pode até envolver questões do foro moral, teremos de solicitar compreensão para com quem não teve a experiência de ter mais irmãos/ãs e de não saber o que é isso de ter de repartir o que não se tem em questões materiais, mas que são colmatadas com outras vivências de ter mais irmãos/ãs com quem se possa brincar e até se pode ter brigas de criança…mas que fazem crescer em tantos aspetos de partilha… sincera e genuína.

= Reizinhos, ditadores e protegidos
Não será necessário ter uma grande perspicácia psicológica – pois a formação na escola da vida dá sabedoria e competências – para percebermos, desde o jardim-de-infância, quem são as crianças ‘filhas-únicas’. Com efeito, há tiques de protagonismo que não conseguem disfarçar o berço de onde se vem. Nalguns casos se nota algum enfezamento de capacidade em saber repartir os meros brinquedos, quanto mais não será um certo centralismo em tentar chamar a atenção… consciente ou inconscientemente.
Se muitos pais e mães não souberem distinguir o essencial do secundário terão imensos problemas, pois o demasiado óbvio pode tornar-se um problema de enquadramento de questões até fúteis…mas, se empoladas, criarão dificuldades à socialização dos seus ‘reizinhos’ de pés de barro, isto é, que pensam ser importantes, mas que não o são, tanto quanto julgam… Com que facilidade vemos – mesmo nos espaços públicos – crianças a fazerem birras, a chorar e mesmo a gritar quando são contrariadas em situações mínimas. Se é esse o espetáculo na rua, o que não será em casa!... Deste modo vamos adulando pequenos ditadores que, mais tarde ou mais cedo, farão dos pais servidores dos seus amuos e lamentos.  
Será digno de registo que uma coisa é cuidar da proteção aos filhos/as, outra muito distinta é ser protecionista, não deixando as crianças sujarem-se nem magoarem-se porque podem correr perigo… Sim o perigo será não deixar que as crianças brinquem e façam as suas tropelias – segundo a sua idade – pois nunca aprenderão a autonomizar-se e a defenderem-se…
Com todo o devido respeito parece ridículo o protecionismo que vemos por parte de muitos pais/mães e outros tantos como avós, quando está na hora de sair da escola primária… Não é desta forma obsessiva que se consegue que as crianças cresçam… Elas não precisam que façam por tudo por elas… Há pequenas tarefas – como o simples carregar da mochila – que podem ser assumidas com responsabilidade… sem tanta infantilização!

= Agora que certos regimes autoritários vão deixando cair a máscara do protecionismo estatal, cremos que está na hora de fazermos algo mais do que reduzirmos a vida à renovação da espécie – para isso cada casal teria de ter, ao menos, dois filhos/as…o que nem sempre tem acontecido no nosso país – mas temos de criar condições para uma sociedade mais equilibrada e adulta, gerando novas etapas de valorização da convivência humana e de salvaguarda até da sobrevivência dos vindouros.
Aos cristãos está acometida uma tarefa de responsabilidade maior, pois se guiam pelos valores da vida, da ética e mesmo da paternidade/maternidade responsabilizada e responsabilizadora. Será que queremos deixar de ser (só) religiosos/as para sermos construtores duma sociedade justa, fraterna, solidária e com futuro?

António Sílvio Couto

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