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terça-feira, 20 de outubro de 2015

‘Boda’ para os sem-abrigo!



Aconteceu nos EUA, na semana passada, uma noiva, cujo casamento foi cancelado pelo noivo dias antes, ofereceu o conteúdo da refeição a mais de uma centena de sem-abrigo da cidade… de Sacramento. Os cerca de trinta e um mil euros já pagos de caução para a boda foram encaminhados para pessoas idosas e solitárias e ainda famílias que estavam a passar por dificuldades…

Interessante foi ler os comentários colocados na sequência da notícia. Houve quem agradecesse aquele gesto de solidariedade… quem desejasse que a noiva ‘suspensa’ possa encontrar quem a mereça… quem sentisse que uma derrota assim há de reverter em vitória!

= Não quero nem posso fazer qualquer julgamento sobre aquele ato de alguém, a menos de uma semana, ter deixado a noiva sem casamento. Quantos haveria que podiam (ou deviam) ter igual força, mas outros valores se elevam ou rebaixam!...

No entanto, neste nosso mundo, há tantas situações a exigir reflexão que certos factos só não nos comovem porque andamos demasiado ocupados com múltiplas futilidades, que nem conseguimos questionar a nossa negligência e falta de atenção aos outros… Vive-se numa razoável vulgaridade da espuma dos acontecimentos e os factos de verdade não deixam, facilmente, marca na consciência e no comportamento, seja no questionamento pessoal, seja na abrangência dos problemas sérios e não das distrações de insensibilidade aos outros.  

 = Como dizia, uma vez, um responsável pastoral: o casamento começa a preparar-se duas a três gerações antes… isto é, logo desde que os avós ou pais se venham a casar. De facto, o que estamos a colher, hoje, é resultado dalguma banalização com que temos vindo a enfrentar os problemas da família… uns vistos de forma mais tácita, outros de modo mais explícito e tantos outros com razões de preocupação…

Uma das vertentes mais claras do afundamento da família – como valor humano ou como realidade social – é o do abandono da presença de Deus na cultura familiar. Mesmo que iniciado através do matrimónio nem sempre é notório que Deus conte como Alguém de referência, seja nas palavras, seja nas vivências dos momentos comuns do contexto familiar. Isto para não falar da quase total ausência do tempo de oração da família. Poderá acontecer que cada um reze pela sua parte, mas poderá faltar a oração comum como expressão da mesma família. Note-se como a participação na missa dominical – sobretudo paroquial – nem sempre é cultivada como algo identitário da família e da sua manifestação comunitária.

= Outra frase que poderemos citar neste tema da família é a da relação, do compromisso e da estabilidade das pessoas. Lembramos aquele casal de velhos a quem perguntaram o segredo para se manterem casados tanto tempo, ao que um deles respondeu: ‘no nosso tempo, quando alguma coisa se partia, consertava-se e não se deitava logo fora, como hoje’. Com efeito, a fragilidade das relações emocionais/afetivas das pessoas é hoje notória, desde as questões mais complexas até às mais simples e quotidianas. Parece que as pessoas se tratam como se fossem elas mesmas algo de descartável: valem e gosta-se até quando se descobrem defeitos e se detetam falhas… custa muito ver e deixar-se aceitar nas fases de menor brilho e de menos boa atração… tanto ao nível humano como psicológico. E na dimensão espiritual algo haverá a que se atenda? Talvez não, pois não há tempo nem preparação para entender os outros para além do meramente visível…

Como nos vem, repetidas vezes, dizendo o Papa Francisco, vivemos numa cultura do descartável sem tempo nem espaço para atender aos cuidados que os outros possam necessitar… tudo corre bem até que não caía a máscara da boa figura e mesmo de ‘boa pessoa’, na medida em que não conseguiremos disfarçar sempre e com todos…

O Sínodo dos Bispos, em Roma, não terá tratado destas temáticas relacionadas com a família, mas nós podemos e devemos abordar estas simples questões, que nos ajudarão a compreender a doutrina e outros problemas mais complexos… Na base da família está a educação humana e cultural, cívica e espiritual, que se bebe desde o berço!

  

António Sílvio Couto

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