Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Fazer crescer a cultura da ternura e da compaixão

 

«Nesta mudança de época que vivemos, especialmente nós, cristãos, somos chamados a adotar o olhar compassivo de Jesus. Cuidemos de quem sofre e está sozinho, porventura marginalizado e descartado. Com o amor mútuo que Cristo Senhor nos oferece na oração, especialmente na Eucaristia, tratemos das feridas da solidão e do isolamento. E deste modo cooperamos para contrastar a cultura do individualismo, da indiferença, do descarte e fazer crescer a cultura da ternura e da compaixão».

Este excerto da mensagem do Papa Francisco para o 32.º dia mundial do doente, que celebramos, como habitualmente, no dia 11 de fevereiro, pretende chamar-nos a atenção «a todos a abrandar os ritmos exasperados em que estamos imersos e a reentrar em nós mesmos».
Partindo da frase bíblica - ‘não é conveniente que o homem esteja só’ - o Papa trata do tema ‘Cuidar do doente, cuidando das relações’.
Respigamos algumas das palavras desta mensagem papal:
- Fomos criados para estar juntos, não sozinhos. E precisamente porque este projeto de comunhão está inscrito tão profundamente no coração humano, a experiência do abandono e da solidão atemoriza-nos e olhamo-la como dolorosa e até desumana. E isto agrava-se ainda mais no tempo da fragilidade, da incerteza e da insegurança, causadas muitas vezes pelo aparecimento dalguma doença grave.

- Associo-me, pesaroso, à condição de sofrimento e solidão de quantos, por causa da guerra e suas trágicas consequências, se encontram sem apoio nem assistência: a guerra é a mais terrível das doenças sociais e as pessoas mais frágeis pagam-lhe o preço mais alto.

- É preciso assinalar que, mesmo nos países que gozam da paz e de maiores recursos, o tempo da velhice e da doença é vivido frequentemente na solidão e, por vezes, até no abandono. Esta triste realidade é consequência sobretudo da cultura do individualismo, que exalta a produção a todo o custo e cultiva o mito da eficiência, tornando-se indiferente e até implacável quando as pessoas já não têm as forças necessárias para lhe seguir o passo. Torna-se então cultura do descarte... O abandono das pessoas frágeis e a sua solidão acabam favorecidos ainda pela redução dos cuidados médicos apenas aos serviços de saúde, sem serem sapientemente acompanhados por uma «aliança terapêutica» entre médico, paciente e familiar.

- O primeiro cuidado de que necessitamos na doença é uma proximidade cheia de compaixão e ternura. Por isso, cuidar do doente significa, antes de mais nada, cuidar das suas relações, de todas as suas relações: com Deus, com os outros – familiares, amigos, profissionais de saúde –, com a criação, consigo mesmo.

- Recordemos esta verdade central da nossa vida: viemos ao mundo porque alguém nos acolheu, somos feitos para o amor, somos chamados à comunhão e à fraternidade. Esta dimensão do nosso ser sustém-nos sobretudo no tempo da doença e da fragilidade, e é a primeira terapia que todos, juntos, devemos adotar para curar as doenças da sociedade em que vivemos.

= Breve reflexão provocatória:
Somos todos doentes, antes, durante e depois do tempo em que vivemos. A fragilidade nos marca, sobretudo, com o avançar da idade. Como o aceitamos?
Pelo muito que significa a vida de cada de nós, a condição de doente é mais do que certa, mas saber vivê-lo à maneira de Jesus é essencial e com Ele havemos de entregar a nossa condição à sua redenção ativa e atuante neste tempo e de olhos postos na meta, que é Ele.
Queira Deus que aprendamos, de forma eucarística, viver a nossa fragilidade e de doença, mesmo sob a celebração do sacramento da Unção dos doentes, hoje.



António Sílvio Couto

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

A quem ganhar as eleições - congratulações ou condolências?

Eis que de repente o ano de 2024 poderá ficar na história como um dos mais marcantes do nosso ser coletivo. Para além de ocorrer o cinquentenário da revolução de ‘abril’ teremos eleições para quase todos os gostos - regionais nos Açores, em fevereiro; legislativas antecipadas, em março; regionais na Madeira, em maio ou junho; europeias, em junho; legislativas novamente (caso não haja maioria real ou fabricada após março) talvez em outubro... De todas só as ‘europeias’ estavam previstas, o resto têm sido impostas por fatores exteriores à condição politico-social, sobretudo sob a influência do poder judicial.

1. Tendo em conta as causas e como que advertindo os resultados, os vencedores poder-se-ão tornar merecedores não de encómios, mas de lamentos, tais poderão ser as dificuldades em fazerem vingar os seus objetivos mínimos e suficientes. Por muito que se tente diluir a leitura de bipolarização - direita/esquerda - é cada vez mais nítido o traço que divide as propostas dos partidos de um e de outro do lado da barricada, que, embora, virtual vigora desde sempre nos intentos das forças submetidas a votação. Mais Estado ou mais iniciativa privada, mais capacidade de viver à custa de todos ou sobrevivendo segundo os méritos pessoais e individuais, segundo as exigências do (pseudo) ‘estado social’ ou complementando com a autonomia dos bens e serviços prestados... eis alguns dos itens que podem e devem fazer com que as escolhas na hora de votar nos faça acreditar que a subsidio-dependência não gera riqueza e tão pouco a distribui com justiça...

2. Os assuntos em discussão mais recorrentes, por estes dias, andam em volta da economia, educação, segurança, saúde, habitação... Outros poderiam e deveriam ser acrescentados e colocados com serenidade, com verdade e,sobretudo, ouvindo os que todos têm a dizer, sem inflacionar o que não presta e não tratar condignamente o que é essencial. De facto, há setores da ‘nossa’ política - onde boa parte da comunicação entra quase acriticamente - segundo os quais se consideram donos e senhores de alguns assuntos. Veja-se o tema da ‘habitação’, onde uma certa esquerda manipula as ideias, mas não faz nada pela resolução do problema, inclusivamente escorraça quem não seja da mesma ideologia como se tem visto nalgumas iniciativas feitas ‘à la carte’ - quanto ao lugar e aos cartazes exibidos - para que os chefes partidários possam aparecer como recolhetores dos resultados em revindicação. Isto será sério ou andamos a brincar com coisas sérias demais e a fazer-de-conta que tudo não passa de cenário?

3. Mesmo que seja considerado o ‘terceiro poder’, a justiça, vive hoje dias atribulados, muito por culpa do vetor legislativo. Com efeito, aquele decide em razão do que é legislado. Ora, se a capacidade de legislação está infetada de preconceitos (quase) ideológicos, o poder judicial corre o risco de não decidir de forma livre e isenta. O que temos visto é uma certa contestação de quem governa pela possível ingerência do poder judicial - nos seus vários órgãos - nas questões de índole político-partidária. Mas não foram eles, os legisladores, que deram suporte para quem tem de exercer a justiça? Já só faltará que se façam leis que protejam os que governam, atendendo às repercussões das más decisões que tomam... Estes tiques andam por aí salpicando mentes e interesses...

4. Por muito ‘científicas’ que se pretendam impingir, as sondagens são o que há de mais funesto, tenebroso e enganador para votantes e votados, pois fazem estes acreditam naquilo que, uns tantos, dizem para que o resto creia que é por aí que vai a onda... Não deixa de ser, no mínimo, esquisito que, de entre os milhares de inquiridos, nunca tenha sido abordado para responder a nenhuma dessas sondagens. Não andarão sempre à volta dos mesmos, ludibriando e sendo enganados?

5. Muito honestamente digo: quem ganhar em qualquer das eleições que se aproximam irá chorar mais do festejar, pois os sinais de desemprego, os juros da economia, os problemas sociais não enganam, os problemas da educação e das forças de segurança: o tempo das ‘vacas gordas’ acabou, já!



António Sílvio Couto

sábado, 27 de janeiro de 2024

Quando deixei de ser surdo, caí

 

Estávamos no verão de 2010, tinha chegado há parcos dias à terra onde moro há quase catorze anos e decorria a apresentação das festas locais - dizem que era a primeira vez - e acontecia no reduzido ‘adro’ da igreja, tendo esta por horizonte.

Solicitaram-me que dissesse umas palavras. Não conhecia ninguém, não sabia o terreno que pisava e tão pouco estava preparado para fazer ‘discurso’.
Saiu-me, então, a breve ‘estória’ da corrida de sapos: numa aldeia simples do interior convocaram toda a população para assistir à corrida de sapos, que constava em colocar alguns desses batráquios no sopé da torre da igreja e deixá-los subir até ao topo. Como sempre a assistência começou a opinar e a dizer: não conseguem chegar lá acima, é muito alto, não conseguem... Um a um foram desistindo... por cansaço ou em razão das críticas e observações negativas da assistência. Mas eis que um sapo conseguiu ir trepando, afanosamente, e chegou ao alto da torre, ganhando a corrida... Por que teria ele conseguido tal proeza? Depois de o terem examinado descobriram que era surdo e não ouviu os comentários, seguindo, sempre e só, o seu caminho...

- Desculpando a declaração de interesses, desejo fazer a avaliação destes anos aqui vividos e qual a razão recente de ter mudado de opinião, isto é, de dar por terminado algum tempo - no conjunto mais de duas décadas e meia - de diáspora nas terras setubalenses e longe da família e das origens sociais, religiosas e culturais...

- Talvez tenha deixado de ser tão surdo como houve tempos em que consegui ser e, pelo contrário, ter aceitado certas vozes de desânimo, senão mesmo de desencorajamento. Confesso que, por vezes, se torna um tanto complicado não ver a mínima recetividade às propostas apresentadas. Mesmo por entre dúvidas e contrariedades torna-se algo confrangedor ver a indisponibilidade por parte de pessoas que deveriam corresponder a sugestões simples e insistentes. É impressionante esbarrar com a indiferença de tantas pessoas que bem podiam aproveitar as oportunidades propostas para saírem da sua contumaz ignorância.

- Olhando o futuro, será possível crescer depois de ter caído como tantos outros sapos que se deixam desanimar pelas vozes de derrotistas e derrotadas. Dizem que dos falhados não reza a História, mas esta está cheia de caídos que se levantaram ou se deixaram erguer com ajuda, mesmo que isso signifique mudar de trilho ou, enquanto é possível, mudar de rumo...sempre em vista do Bem maior que é Deus e servindo-O na sua Igreja.

- «Fiz-me tudo para todos (omnibus omnia factus sum), para salvar alguns a todo o custo» (1 Cor 9,22). Este tem sido o meu lema. Nem sempre tem atingido os objetivos desejados…



António Sílvio Couto

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Trânsfugas - como entender?

 

Nunca como agora se ouviu tanto falar que elementos de um certo grupo partidário troque de cor e de opção ideológica. Na maior parte dos casos isso, anteriormente, tinha a designação de ‘independente’, mas agora emerge uma nova figura que tem tanto de bizarro quanto de patético. Mesmo que forma algo superficial este novo fenómeno da nossa política merece alguma reflexão senão mesmo uma análise atenta, cuidada e prospetiva.

1. A simples zanga com quem manda ou a não-presença nas listas a votar serão razões para mudar de partido e de campo ideológico? Ser de outra facção diferente de quem reina ou não se rever nos atuais dirigentes explica que se deixe incluir numa lista anteriormente adversária e concorrente? Quem tem razão nesta disputa: os que saem ou os que continuam? Quais as facetas psicológicas e inteletuais manifestadas por estes trânsfugas em abundância? Serão tantos assim ou isso fará parte de uma campanha de fraqueza do sistema partidário algo anquilosado senão mesmo bafiento?

2. Perante a evidente falta de qualidade de liderança da maior parte dos partidos políticos portugueses somos, agora, confrontados com esta onda de trânsfugas em busca de não quererem sair do seu terreno de ganha-pão. Isto diz bem da incapacidade de saberem ver a sua incompetência, arrastando-se nos postos de mando os que menos valem e que, nalgumas circunstâncias, poderão ser os mais oportunistas. Deste modo é como que trucidada aquela que era considerada uma arte - a da política - convertendo-se num espaço desvalorizado, menos bem frequentado e, possivelmente, abrindo caminho para espertos ditadores, mesmo que votados, legitimados e tolerados... Já foi assim noutras épocas da História!

3. Nota-se que é cada vez mais é difícil encontrar pessoas que estejam disponíveis para estarem na política ativa, isto é, de se submeterem a ter a vida espiolhada a todo o tempo, sem privacidade nem resguardo de si e da sua família. Este ambiente é clima tortulhoso para crescerem os que não prestam, aliados aos interesseiros mais subtis e em vias de assaltarem os lugares de governança. Veja-se o espetáculo da constituição das listas de candidatos/as ao próximo parlamento. Repare-se na desqualificação orquestrada com que certa comunicação social embala e promove uns tantos, denegrindo outros. Atente-se aos excertos dos discursos de alguns para depreciar as intervenções daqueles que menos lhes agradam... Não serão estes também trânsfugas e promotores de maior dissidência?

4. Com estas condições poderemos ver que a participação no próximo ato eleitoral será um teste à sobrevivência da (dita) democracia, que, com quase cinquenta anos, ainda tem muitos tiques de adolescência. Os paladinos deste regime de faz-de-conta serão os potenciais vencedores, pois ao promoverem a ignorância vão reinando sobre os incautos e descrentes da política como serviço de todos e para todos. Assim poderão perpetuar-se e aos seus no poder sem mérito nem glória!

5. «Os cidadãos devem, tanto quanto possível, tomar parte activa na vida pública. As modalidades desta participação podem variar de país para país ou de uma cultura para outra. «É de louvar o modo de agir das nações em que, em autêntica liberdade, o maior número possível de cidadãos participa nos assuntos públicos».
A participação de todos na promoção do bem comum implica, como qualquer dever ético, uma conversão incessantemente renovada dos parceiros sociais. A fraude e outros subterfúgios, pelos quais alguns se esquivam às obrigações da lei e às prescrições do dever social, devem ser firmemente condenados como incompatíveis com as exigências da justiça. Importa promover o progresso das instituições que melhorem as condições da vida humana» - Catecismo da Igreja Católica, n.os 1915-1916.
Numa palavra: o cristão - cidadão e eleitor - tem obrigação moral de votar e de decidir, segundo, os valores da doutrina da Igreja católica, participando no bem comum... Tudo o resto será de grave culpabilidade.

António Sílvio Couto

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Consagração ao Imaculado Coração de Maria no ‘verão quente de 1975’

 


Por estes dias tive conhecimento – através de alguém entendido na matéria e em razão do local que ocupa como reitor de um santuário mariano – que, em 1975, o então Presidente da República, Francisco da Costa Gomes, fez, no dia 14 de setembro (festa da exaltação da Santa Cruz, por sinal nesse ano era domingo), a consagração de Portugal ao Imaculado Coração de Maria, mãe de Deus.

Eis o texto:
«Santa Maria, Imaculada Conceição, Rainha e Padroeira das gentes e das terras de Portugal, certo da Vossa particular amizade ao Povo Português, como primeiro Chefe desta Nação, entrego e confio hoje para sempre ao Vosso Coração Imaculado e Materno, no meu nome pessoal e de todos os portugueses, esta nossa Pátria, os seus territórios, os seus cidadãos, as almas, os haveres, os trabalhos e instituições, todas as formas de vida, todos os quadrantes da palpitação nacional.
Aceitai ó Virgem Santa Maria, Mãe de Deus e Mãe Nossa, Senhora de Portugal, a Pátria Portuguesa, que hoje Consagro à Vossa Guarda, certo de que a tomareis para futuro à particular protecção, que sempre lhe confiastes ao longo de toda a sua História, desde o seu nascimento e nas horas mais difíceis de seus caminhos.
Prometemos honrar com filial respeito e atenção, as exigências da Vocação Cristã que os Portugueses têm por Maria desde o berço de Portugal como ao longo dos oito séculos de sua Vida, e os pedidos que em Fátima deixastes nas nossas mãos para a Paz e o Bem nosso e de todo o Mundo destes Tempos.
Peço ao Anjo de Portugal, Anjo da Paz, que em 1917 visitou o seu Povo, que nos tome com Força de Sua Guarda, junto da Senhora, Mãe de Deus, e nos alcance o Bem da Fidelidade e da Aliança com Sua Graça, no Seu Querer e na Sua Santa Vontade».
Recordemos que decorridos dois meses sobre a data desta consagração feita pelo Presidente da República se deu a reposição da normalidade política tão ameaçada nesse ‘verão quente de 1975’... De referir ainda que só em 1995 esta consagração presidencial foi tornada pública a um pequeno número de pessoas.

Em jeito de enquadramento histórico lembremos os momentos de consagração de Portugal ao Imaculado Coração de Maria:
Consagração Episcopal de 1931 e Consagração Episcopal de 1938 [Estas Consagrações de 1931 e 1938, feitas pelo Episcopado Português, segundo o Santuário de Fátima, foram renovadas em 1956, 1957, 1975, 1981, 1983 e 1992];
A consagração Presidencial de 1975;
A consagração Real de 1998, com as consagrações Reais subsequentes: de 2001 e de 2002;
A consagração Episcopal de Portugal e Espanha de 2020.

= Mesmo que de forma simples tentemos discernir o que tem sido o mistério da proteção de Nossa Senhora para com o povo português... Embora nem sempre o vejamos como queríamos, decorrido este tempo podemos testemunhar que a proteção da Nossa Senhora ao nosso país/nação é atenta, simples e eficiente. Que dizer, então, daquilo que se está a passar, em surdina, atualmente: já reparamos que a famigerada lei da eutanásia, aprovada há meses (25 de maio de 2023), ainda não foi desta que entrou em vigor por falta de regulamentação? O governo saído das próximas eleições terá essa tarefa de fazer a sua regulamentação... Não haverá, nesta matéria, Alguém a conduzir as coisas, muito para além do meramente humano? Em questões ético/morais não teremos o suporte de Nossa Senhora a suster o descaminho de tantos/as eivados de mentalidade antirreligiosa e, sobretudo, anticristã?
= Ao termos trazido à liça esta consagração feita pelo Presidente Francisco da Costa Gomes quisemos confiar na proteção de Deus e na ação dos humanos, mesmo quando não visto totalmente. Assim o consigamos continuar com fé e confiança...



António Sílvio Couto

sábado, 20 de janeiro de 2024

Repreendido por ter dito: ‘Jesus Cristo’

O episódio além de bizarro pode ser revelador de algo mais profundo que perpassa uma certa cultura, sendo mais do que um caso ‘à americana’.

Segundo uma mãe, do estado de Mississipi, seu filho com apenas sete anos foi repreendido pelo professor por ter dito – ‘Jesus Cristo’ (considerado um palavrão), quando deixou cair um dos seus brinquedos. O processo envolveu um recado da escola para casa, com a notificação de ‘linguagem inaceitável’.

1. Este episódio poderia parece quase uma anedota, não fosse a possibilidade de envolver outras questões e, sobretudo, tendo em conta a precocidade da criança e as reações à invocação do nome de ‘Jesus Cristo’ no meio escolar. Será isto uma espécie de fundamentalismo anticristão? Envolverá algo mais do que uma advertência? Como reagiríamos por cá a um episódio idêntico? Será que dizer ou invocar ‘Jesus Cristo’, por ocasião de uma falha, mesmo em brincadeira, constituirá, de facto, uma ofensa à convivência humana e social?

2. Parece ser cada vez mais recorrente vermos tentativas de retirar da linguagem das pessoas a referência a Jesus Cristo e aos valores cristãos, mesmo que isso seja feito de forma tácita, capciosa ou sem grandes alaridos: nas conversas, nas escritas, nas codificações, nas diversidades…na educação/ensino, nas comunicações sociais (falada ou visionada) encontramos como que um ambiente com tendência a anatematizar tudo quanto seja (ou possa ser) referência a Jesus Cristo, aos valores e critérios do Evangelho.

3. Num tempo que se reclama tanto de liberdade em todas as áreas da intervenção humana vemos crescer uma espécie de ostracização de quem possa, minimamente, afirmar-se cristão, tanto pelas palavras como pelos gestos, atitudes ou comportamento. Efetivamente a campanha anti-crucifixos por volta do ano 2010, no contexto europeu, era algo que preanunciava um ambiente a desenvolver-se cultural e civicamente. Temos de andar mais atentos àquilo que acontece numa parte deste dito Planeta, pois com facilidade se difundirá a tendência noutros locais…

4. Como bem caraterizou o Papa João Paulo II, por ocasião do jubileu do ano 2000, a perseguição aos cristãos é hoje mais do que nunca intensa, organizada e, sobretudo, silenciosa, mas efetiva. Os milhões de mártires que o século vinte fabricou – muito mais do que as perseguições no início do cristianismo – é disso um exemplo claro e palpável. Como nos referem as Sagradas Escrituras devemos ser prudentes como as serpentes e simples como as pombas, não ao contrário. Precisamos de estar vigilantes para as artimanhas com que nos tentam enredar, obrigando-nos a sermos tolerantes para com os outros, mas quase nunca o são para com os cristãos: estes estão sob a mira da obrigação e não dos direitos mínimos e iguais.

5. A terminar coloco uma espécie de provocação ao inconsciente de cada um de nós: quando algo de menos bom, de contrário ao que espero ou de negativo me acontece, qual é a interjeição que me sai da boca? Seja qual for, revela muito de mim mesmo, mais do que gostaria que mostra-se…



António Sílvio Couto

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Enterro da paróquia?


– Quero comunicar-vos que, logo à tarde, na habitual missa das 18 horas, vou celebrar uma “missa de corpo presente”, a que se seguirá o “enterro” desta paróquia.

E continuou com a celebração da missa, como se o que acabara de dizer fosse a coisa mais natural do mundo.

Algumas das presentes não perceberam logo à primeira, e perguntaram a quem estava mais próximo o que é que o padre tinha dito. Mas como nenhuma das presentes percebera bem o “anúncio” que tinha sido feito, umas delas, mais afoita, no final da missa, foi ter com o padre à sacristia e perguntou-lhe o que é que ele quis dizer com aquelas palavras.

O padre só respondeu: venham e verão!

Rapidamente a notícia do “enterro da paróquia” chegou aos ouvidos de todos os habitantes, de tal modo que, ainda as seis horas da tarde vinham longe, já a igreja estava apinhada de gente batizada ou não, de crentes e de não crentes, de católicos, de agnósticos e de ateus, num número tal que transbordava para o adro.

Chegada a hora marcada chegou à porta da igreja o cangalheiro da vila, no seu veículo, transportando uma urna fechada.

– Não se importam de dar aqui uma ajudinha. Preciso de quatro homens fortes.

Sem que houvesse necessidade de repetir, pois a curiosidade era imensa, e não havia tempo a perder para que se fizesse o “enterro da paróquia”…

Após a celebração da missa de “corpo presente” e, no final, dirigiu-se a todos os que ali estavam, dizendo:

– Antes de mais quero agradecer a presença de todos neste momento em que vamos proceder ao “enterro da paróquia”. Mas, antes de levarmos o caixão até ao cemitério, quero convidar-vos a todos, sem exceção, para, individualmente, vos despedirdes da falecida. Façam uma fila ao centro e aproximem-se da urna, calmamente.

O padre abriu o ataúde e… quando o primeiro lá chegou, deu um grito e um salto enorme, afastando-se rapidamente do caixão, benzendo-se repetidamente. E o mesmo aconteceu com todos os outros.

Qual teria sido a razão de tal comportamento?

O padre tinha colocado dentro da urna um enorme espelho, de tal modo que, quando alguém olhava lá para dentro, o que via era a sua própria imagem refletida no espelho.

Isto é uma pequena estória…inventada, mas que pode e deve fazer-nos refletir mais do que tentarmos arranjar desculpas ou acusações para com outros.

Para quem tenha um mínimo de conhecimento destas coisas de organização e de dinamização da Igreja católica saberá que a paróquia. Diz o Catecismo da Igreja católica: «A paróquia é uma certa comunidade de fiéis, constituída estavelmente na Igreja particular, cuja cura pastoral, sob a autoridade do bispo diocesano, está confiada ao pároco, como a seu pastor próprio». É o lugar onde todos os fiéis podem reunir-se para a celebração dominical da Eucaristia. A paróquia inicia o povo cristão na expressão ordinária da vida litúrgica e reúne-o nesta celebração; ensina a doutrina salvífica de Cristo; e pratica a caridade do Senhor em obras boas e fraternas» (n.º 2179).

Ora, perante esta espécie de definição descritiva podemos encontrar alguns elementos essenciais para que uma determinada porção do povo de Deus seja considerada uma paróquia:

– uma comunidade de fiéis de forma estável como Igreja particular, sob a autoridade do bispo diocesano, cuja cura pastoral está confiada ao pároco, como pastor próprio;

– é um lugar onde todos os fiéis se reúnem para a celebração da eucaristia, sobretudo dominical, onde se ensina a doutrina da salvação de Cristo e onde se praticam as obras de caridade.

Mais do que um espaço de serviços religiosos, a paróquia é, por natureza, um lugar onde todos se sintam irmãos, construtores de tudo quanto possa ajudar a serem participantes e não meramente assistentes. Com a mobilidade dos nossos dias, ser paróquia traz desafios superiores a viverem num determinado espaço geográfico. Embora haja clareza de ideias, precisamos de nos questionarmos aprendendo a ler os sinais dos tempos e não só repetir o que já deu frutos no passado, mas que precisam de ser aferidos aos tempos atuais…



António Sílvio Couto