Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



domingo, 13 de março de 2022

Quaresma 2022 - figuras da Paixão

 

3. Pilatos: executor político


Pilatos é uma figura com reconhecimento histórico – presente nas palavras que rezamos no Credo niceno-constantinopolitano: Jesus ‘padeceu sob Pôncio Pilatos’ – como que nos reporta a uma autoridade que tem poder, mas este nem sempre lhe confere autoridade! Pilatos, de alguma forma, simboliza os autoritários de todos os tempos, inclusive os dos nossos dias.
«28 De Caifás, levaram Jesus à sede do governador romano. Era de manhã cedo e eles não entraram no edifício para não se contaminarem e poderem celebrar a Páscoa. 29 Pilatos veio ter com eles cá fora e perguntou-lhes: «Que acusações apresentais contra este homem?» 30 Responderam-lhe: «Se Ele não fosse um malfeitor, não to entregaríamos.» 31 Retorquiu-lhes Pilatos: «Tomai-o vós e julgai-o segundo a vossa Lei.» «Não nos é permitido dar a morte a ninguém», disseram-lhe os judeus, 32 em cumprimento do que Jesus tinha dito, quando explicou de que espécie de morte havia de morrer.
33 Pilatos entrou de novo no edifício da sede, chamou Jesus e perguntou-lhe: «Tu és rei dos judeus?» 34 Respondeu-lhe Jesus: «Tu perguntas isso por ti mesmo, ou porque outros to disseram de mim?» 35 Pilatos replicou: «Serei eu, porventura, judeu? A tua gente e os sumos-sacerdotes é que te entregaram a mim! Que fizeste?» 36 Jesus respondeu: «A minha realeza não é deste mundo; se a minha realeza fosse deste mundo, os meus guardas teriam lutado para que Eu não fosse entregue às autoridades judaicas; portanto, o meu reino não é de cá.» 37 Disse-lhe Pilatos: «Logo, Tu és rei!» Respondeu-lhe Jesus: «É como dizes: Eu sou rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. Todo aquele que vive da Verdade escuta a minha voz.» 38 Pilatos replicou-lhe: «Que é a verdade?»
19 1 Então, Pilatos mandou levar Jesus e flagelá-lo. 2 Depois, os soldados entrelaçaram uma coroa de espinhos, cravaram-lha na cabeça e cobriram-no com um manto de púrpura; 3 e, aproximando-se dele, diziam-lhe: «Salve! Ó Rei dos judeus!» E davam-lhe bofetadas.
4 Pilatos saiu de novo e disse-lhes: «Vou trazê-lo cá fora para saberdes que eu não vejo nele nenhuma causa de condenação.» 5 Então, saiu Jesus com a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Disse-lhes Pilatos: «Eis o Homem!» 6 Assim que viram Jesus, os sumos-sacerdotes e os seus servidores gritaram: «Crucifica-o! Crucifica-o!» Disse-lhes Pilatos: «Levai-o vós e crucificai-o. Eu não descubro nele nenhum crime.» 7 Os judeus replicaram-lhe: «Nós temos uma Lei e, segundo essa Lei, deve morrer, porque disse ser Filho de Deus.»
8 Quando Pilatos ouviu estas palavras, mais assustado ficou. 9 Voltou a entrar no edifício da sede e perguntou a Jesus: «Donde és Tu?» Mas Jesus não lhe deu resposta. 10 Pilatos disse-lhe, então: «Não me dizes nada? Não sabes que tenho o poder de te libertar e o poder de te crucificar?» 11 Respondeu-lhe Jesus: «Não terias nenhum poder sobre mim, se não te fosse dado do Alto. Por isso, quem me entregou a ti tem maior pecado.»
12 A partir daí, Pilatos procurava libertá-lo, mas os judeus clamavam: «Se libertas este homem, não és amigo de César! Todo aquele que se faz rei declara-se contra César.»
13 Ouvindo estas palavras, Pilatos trouxe Jesus para fora e fê-lo sentar numa tribuna, no lugar chamado Lajedo, ou Gabatá em hebraico. 14 Era o dia da Preparação da Páscoa, por volta do meio-dia. Disse, então, aos judeus: «Aqui está o vosso Rei!» 15 E eles bradaram: «Fora! Fora! Crucifica-o!» Disse-lhes Pilatos: «Então, hei de crucificar o vosso Rei?» Replicaram os sumos-sacerdotes: «Não temos outro rei, senão César.» 16 Então, entregou-o para ser crucificado. E eles tomaram conta de Jesus» (Jo 18,28-38 // Mt 27,1-2.11-26; Mc 15,1-15; Lc 23,1-7.13-25; Jo 19,1-16 // Mt 27,27-31; Mc 15,16-20).

O evangelho de São João dá grande importância e destaque ao processo de Jesus perante Pilatos (1). Nota-se, no desenrolar da narrativa, um grande contraste dos intervenientes: serenidade e segurança de Jesus, enquanto os seus ‘inimigos’ manifestam agitação e ansiedade… e onde Pilatos flutua ao sabor das suas inconstâncias pessoais e de poder.
Numa leitura dinâmica vemos que esta etapa do processo de Jesus decorre em sete cenas, no exterior e no interior da ‘sede do governador’ Pilatos. Eis os momentos:
- ‘Pilatos veio ter com eles cá fora’ (v. 29) - dá-se o diálogo inicial e de acusação-entrega de Jesus ao braço político do acontecimento, numa espécie de mistura entre o sagrado e o profano;

-’Pilatos entrou de novo no edifício da sede’ (v. 33) - verifica-se o primeiro diálogo entre Pilatos e Jesus, tendo por base a questão da realeza de Jesus, desfazendo-se a impressão de que era um poder temporal até se compreender que essa ‘realeza’ é do foro espiritual e terminando com a questão de Pilatos sobre ‘o que é a verdade? (v. 38 a);

- Pilatos ‘foi ter de novo com os judeus’ (v. 38 b) - baralhado com a conversa tida com Jesus, onde nada daquilo que suspeitava - o perigo ao seu poder - Pilatos confronta-se com os judeus - já não só os chefes e introduz um novo item: quem desejam que seja, este ano, libertado: o ‘rei dos judeus’ (sem qualquer crime) e um tal Barrabás (um salteador), que foi trazido de repente à colação? A escolha está inquinada e a turba manipulada... (2). Pilatos percebe que as autoridades do templo e a multidão têm critérios diferentes dos seus e, numa espécie de populismo barato, deixa-se ir pelo que deseja a maioria, mesmo que fosse injusta.

- ‘Pilatos mandou levar Jesus e flagelá-lo’ (19, 1) - numa espécie de intervalo - passamos para o capítulo 19 - e, num contexto interior, é referida a técnica romana da flagelação (3), que mudará em maior agressividade para com Jesus

- ‘Pilatos saiu de novo’ (v. 4) - Pilatos apresenta Jesus: ‘eis o homem’ (v. 5), flagelado, coroado de espinhos e, por troça, revestido com um manto de púrpura. Pensando que arrefecia os ânimos com aquela figuração, Pilatos recebeu, da parte dos sumos-sacerdotes e dos seus sequazes, um grito de condenação ainda mais atroz, a crucifixão... Parece que tudo muda em desfavor de Jesus, pois é introduzido um novo elemento: a lei divina - ‘Nós temos uma Lei e, segundo essa Lei, deve morrer, porque disse ser Filho de Deus» (v. 7). Não era, afinal, essa a razão - o de se ter feito ‘filho de Deus’ - do julgamento já produzido pelos chefes religiosos? Ao introduzir isto no braço político vemos que se unem todas as forças contra Jesus...

- Pilatos ‘voltou a entrar no edifício da sede’ (v. 9) - o poder de Pilatos parece estar em risco, pois, pode ter diante de si um ‘ser divino’. O diálogo, que antes fora cordial e de alguma ascendência sobre Jesus, passa, agora, a ser de medo - ‘ficou assustado’ (v. 8). Mais uma vez Jesus desfaz os mitos que povoavam Pilatos, o seu poder é de outra natureza, que não interfere nos seus pequenos poderes terrenos...

- ‘Pilatos trouxe Jesus para fora e fê-lo sentar numa tribuna’ (v. 13) (4) - chegamos ao momento derradeiro do julgamento - político, instrumentalizado pelo religioso, que, por seu turno manipulou as multidões - feito por Pilatos. A perícope relativa a Pilatos começa com a referência à celebração da Páscoa (18,23) e termina com a alusão ao ‘dia da preparação da Páscoa’ (v. 19,14) - de manhã cedo até por volta do meio-dia (ou hora sexta)... Condenado à crucifixão, Jesus toma a cruz...«às costas» (v. 17). São João é o único dos evangelistas que faz referência ao levar a cruz às costas...

O evangelista São Mateus regista ainda dois outros aspetos sobre Pilatos: a advertência do sonho da mulher (cf. Mt 27, 11-19) e o gesto de lavar as mãos, em sinal de não-compromisso com a decisão de condenarem Jesus (cf. Mt 27, 24-25). Este último gesto referido em relação a Pilatos – o lavar-das-mãos – tem sido usado, na cultura popular, ainda insuflada por alguns critérios e imagens cristãs, para significar ou exemplificar a cobardia e o não-tomar decisões difíceis, numa linha de incoerência e de fuga ao compromisso em Jesus e com Jesus… Não haverá tantos que usam esta mesma técnica, numa fuga para o lado? Pior do que não tomar posição, é fazer-de-conta que se é anódino, neutro ou de um diálogo sem resposta…

«O facto é que a realeza de Jesus é bastante diferente daquela mundana. «O meu reino – diz a Pilatos – não é deste mundo» (Jo 18, 36). Ele não vem para dominar, mas para servir. Não chega com sinais de poder, mas com o poder dos sinais. Não está vestido com insígnias preciosas, mas está nu na cruz. E é precisamente na inscrição colocada na cruz que Jesus é definido “rei” (cf. Jo 19, 19). A sua realeza está deveras além dos parâmetros humanos! Poderíamos dizer que ele não é rei como os outros, mas é Rei para os outros. Pensemos nisto: Cristo, diante de Pilatos, diz que é rei no momento em que a multidão está contra Ele, ao passo que quando o seguia e o aclamava, ele distanciou-se daquela aclamação. Por outras palavras, Jesus mostra-se soberanamente livre do desejo de fama e glória terrena. E nós – perguntemo-nos – sabemos imitá-lo nisto? Sabemos governar a nossa tendência a sermos continuamente procurados e aprovados, ou fazemos tudo para sermos estimados pelos outros? No que fazemos, particularmente no nosso compromisso cristão, pergunto-me: o que conta? Contam os aplausos ou conta o serviço?» (5).



1. Pilatos aparece-nos referido por Flávio Josefo (37-100 d.C.) e Tácito (56-117 d.C.), escritores/historiadores, respetivamente, judeu e romano, e de forma pouco abonatória sobre a sua ação, nalguns casos, ofensiva para com os sentimentos religiosos dos judeus. Os evangelhos referem-no sobretudo como juiz do processo de Jesus. Vide Dicionário enciclopédico da Bíblia, col 1190-1191.
2. Cf. Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré, Lisboa, Esfera dos Livros, 2007, pp. 72-73.
3. A flagelação era uma das penas mais duras previstas no Direito romano, jamais aplicável a um cidadão romano. Os golpes, sem conta prevista, eram desferidos nas costas nuas da vítima atada a uma coluna, com chicotes de tiras de couro munidas de peças de metal ou osso nas extremidades, uma tortura suficiente para causar a morte. Em Mt e Mc, a flagelação aparece depois da sentença de condenação, como habitualmente sucedia, para debilitar as forças dos condenados à cruz (Mt 27, 26; Mc 15,15); em Lc, é anunciada como um castigo prévio (Lc 23,16); em João, que parece reproduzir com mais rigor o que se passou na realidade, tem o carácter de mais um expediente para evitar a sentença de morte contra um inocente: um rei tão abatido e esfacelado não constituía perigo para ninguém. Vide nota a Jo 19, 1-7 na Bíblia Sagrada (dos capuchinhos).
4. O texto permite outra tradução: “Pilatos...sentou-se”; mas a cena passa-se no exterior do tribunal e não há sentença. Esta ambiguidade parece intencional, para exprimir que o prefeito romano só na aparência é que é juiz; ele apenas entroniza Jesus, aquele que faz o julgamento decisivo (12,31). Esta entronização de Jesus poderia visar pôr a ridículo as autoridades judaicas (v.14.19-22), ao jeito de Pôncio Pilatos. Vide nota a Jo 19, 13, na Bíblia Sagrada (dos capuchinhos).
5. Cf. Papa Francisco, ‘Angelus’, 21 de novembro de 2021

António Sílvio Couto

sexta-feira, 11 de março de 2022

4 cavaleiros do Apocalipse

 

Os 4 cavaleiros do Apocalipse são símbolos que nos aparecem no livro de Apocalipse de São João, que no capítulo sexto nos descreve como o Cordeiro foi abrindo os selos do livro da vida. Ora os quatro primeiros selos, libertam diferentes cavalos, onde cavalga um cavalheiro, com significados diversos: o primeiro cavaleiro monta um branco que simboliza a conquista, o segundo é vermelho e descreve a guerra, o terceiro é preto e representa a fome e o quarto é pálido e tem o significado da morte.

Citamos o texto e tentaremos fazer uma leitura sobre os acontecimentos presentes.

1. Cavalo branco

«Depois, na visão, quando o Cordeiro abriu o primeiro dos sete selos, ouvi um dos quatro seres viventes que dizia com voz de trovão: «Vem!» E vi que apareceu um cavalo branco; o cavaleiro levava um arco e foi-lhe dada uma coroa. Depois, partiu vencedor para novas vitórias» (Ap 6, 1-2).
Ao primeiro selo do ‘livro do Cordeiro’ é referido que apareceu um cavalo branco, cujo cavaleiro com o arco e a coroa pode simbolizar a esperança da vitória dos cristãos, perseguidos ao tempo em que este livro é escrito. Ainda hoje os cristãos são tão perseguidos - de forma clara nalguns países ou de modo tácito em tantas nações - em tantas partes do mundo... Não é por acaso que se afirma que o século XX fez mais mártires que todas as perseguições dos quatro primeiros séculos do cristianismo...

2. Cavalo vermelho
«Quando Ele abriu o segundo selo, ouvi o segundo vivente que dizia: «Vem!» E saiu outro cavalo, que era vermelho; e ao cavaleiro foi dado o poder de retirar a paz da terra e de fazer com que os homens se matassem uns aos outros. Foi-lhe dada, igualmente, uma grande espada» (Ap 6, 3-4).
O segundo cavalo, associado à abertura do segundo selo do livro do Cordeiro, está associado à guerra com a cor vermelha de caraterização. A guerra esse flagelo que mata sem rosto e deixa um rasto de destruição por longo tempo. Cada vez que surgem sinais explícitos de guerra ficamos sob a possibilidade de serem cometidas as maiores atrocidades, sobretudo para com os mais frágeis e inocentes. Não é isso que temos visto nos últimos dias na terras da Ucrânia?

3. Cavalo preto
«Quando Ele abriu o terceiro selo, ouvi o terceiro ser vivente que dizia: «Vem!» Na visão apareceu um cavalo negro. O cavaleiro tinha na mão uma balança. E ouvi algo semelhante a uma voz no meio dos quatro seres viventes que dizia: ‘Uma medida de trigo por um dinheiro e três medidas de cevada por um dinheiro. Mas não estragues o azeite nem o vinho’» (Ap 6, 5-6).
Ao cavalo preto está associada a fome, tanto ou mais mortífera que a guerra, pois atinge ainda mais fragilizados e sem meios de defesa. Continuamos a viver como se este drama ainda não continue a matar... É vergonhosa a promoção da sociedade de consumo, quando tantos não têm o mínimo de sobrevivência?

4. Cavalo esverdeado
«E, quando Ele abriu o quarto selo, ouvi a voz do quarto ser vivente que dizia: «Vem!» Na visão apareceu um cavalo esverdeado. O cavaleiro chamava-se «Morte»; e o «Abismo» seguia atrás dele. Foi-lhes dado poder sobre a quarta parte da terra, para matar pela espada, pela fome, pela morte e pelas feras da terra» (Ap 6,7-8).
O quarto cavaleiro galopa em promoção das doenças, da peste e da morte. Não foi isso que vivemos nos dois últimos anos, sob a configuração da pandemia? Será que conseguimos perceber este manto de morte, através das epidemias? Não andaremos excessivamente ocupados com futilidades para sermos capazes de nos questionarmos quanto ao que estamos a viver?

À semelhança da interpretação que os cristãos deram da mensagem do Apocalipse, assim hoje precisamos de nos a ajudar a discernir todos estes sinais, sem dramatismos, mas com fé e de olhos postos em Deus...



António Silvio Couto

domingo, 6 de março de 2022

Quaresma 2022 - figuras da Paixão

 2. Anás e Caifás: decisores religiosos

 


São duas autoridades religiosas que intervieram no processo da paixão de Jesus, apresentando ‘assuntos’ religiosos que O pudessem incriminar… Anás e Caifás como que simbolizam os inquisidores de todos os tempos, mesmo dos nossos.

 «19 Então, o Sumo-Sacerdote [Anás] interrogou Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina. 20 Jesus respondeu-lhe: «Eu tenho falado abertamente ao mundo; sempre ensinei na sinagoga e no templo, onde todos os judeus se reúnem, e não disse nada em segredo. 21 Porque me interrogas? Interroga os que ouviram o que Eu lhes disse. Eles bem sabem do que Eu lhes falei.» 22 Quando Jesus disse isto, um dos guardas ali presente deu-lhe uma bofetada, dizendo: «É assim que respondes ao Sumo-Sacerdote?» 23 Jesus replicou: «Se falei mal, mostra onde está o mal; mas, se falei bem, porque me bates?» 24 Então, Anás mandou-o manietado ao Sumo-Sacerdote Caifás» (Jo 18,19-24 // Mc 14, 55-65; Mt 26, 57-68; Lc 22, 66-71).

 Anás e Caifás (1) aparecem-nos evangelhos associados ao exercício de serem sumos-sacerdotes. Caifás era o sumo-sacerdote em exercício naquele ano (cf. Jo 18,13), enquanto Anás seria o sumo-sacerdote mais antigo, se quisermos o ancião da família, e que exerceu funções entre 6 e 17 d. C… era o sumo-sacerdote quando Jesus – na passagem dos evangelhos da infância (cf. Lc 2,41-52) – foi ao Templo, com doze anos. 

Sigamos, então, o interrogatório de Anás a Jesus sobre a sua pessoa, a sua doutrina e os seus seguidores.

Quem não conhece a expressão popular - ‘andar de Anás para Caifás’? Por certo quem usa tal frase, para além de conhecer, minimamente o contexto bíblico, quererá dizer que alguém quer adiar a solução de um problema e com isso, burocraticamente, usa os outros para não-resolver.

É precisamente nesta passagem de Jo 18,19-24 que encontramos a referência à expressão popular citada, isto é, Jesus é jogado e julgado – como num tribunal – entre os dois sumos-sacerdotes em funções na circunstância do seu julgamento (2).

Em primeira instância Jesus é interrogado por Anás sobre a ortodoxia da sua doutrina. Já em Jo 7,26 se fazia uma alusão àquilo que Jesus ensinava: «vede como Ele fala livremente e ninguém lhe diz nada! Será que as autoridades se convenceram de que Ele é o Messias?».

Uma questão: por que é que João narra este interrogatório de Anás a Jesus? Porque ele teve acesso ao espaço onde Jesus foi interrogado, em razão de ser «conhecido do sumo-sacerdote e pode entrar no seu palácio ao mesmo tempo que Jesus» (Jo 18,15)... coisa diferente aconteceu com Pedro, que só entrou em razão de ‘o outro discípulo’ ter conseguido tal favor...

No interrogatório, através da resposta de Jesus – «Eu tenho falado abertamente ao mundo; sempre ensinei na sinagoga e no templo, onde todos os judeus se reúnem, e não disse nada em segredo. 21 Porque me interrogas? Interroga os que ouviram o que Eu lhes disse. Eles bem sabem do que Eu lhes falei» (vv. 20-21) – podemos perscrutar que Jesus sabia que fosse qual fosse a sua resposta, o veredito já estava traçado, por isso, apela a que sejam chamados a serem testemunhas aqueles que, anteriormente, O escutaram e se entusiasmaram com as suas palavras, isto é, os seus discípulos: eram eles quem credibilizavam a sua doutrina...Jesus falou publicamente - na sinagoga e no templo - não andou a subverter pela calada da noite, como eles engendram na suas conspirações e artimanhas.

A agressão de um dos guardas a Jesus como que deixa expresso o desrespeito por Ele e que culminará na troça dos soldados romanos, após a sua condenação política, através de Pilatos. Não deixa de ser significativo que Jesus, silencioso em todo o processo, riposte à agressão: «Jesus replicou: «Se falei mal, mostra onde está o mal; mas, se falei bem, porque me bates?» (v. 23). Quererá dizer que, quando a injustiça é excessiva, não se pode ficar calado? Quererá dizer que, mesmo previamente sentenciado, não se pode calar a revolta, se ela for causada pela falta de conformidade entre a causa e o efeito? Como noutros momentos da paixão de Jesus, há perguntas que continuam a ecoar na História e exigem-nos, como discípulos de Jesus, uma resposta coerente e consequente...

E manietado, Jesus é enviado a Caifás, o tal que tinha profetizado após a ressurreição de Lázaro: «Mas um deles, Caifás, que era Sumo-Sacerdote naquele ano, disse-lhes: «Vós não entendeis nada, nem vos dais conta de que vos convém que morra um só homem pelo povo, e não pereça a nação inteira.» Ora ele não disse isto por si mesmo; mas, como era Sumo-Sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus devia morrer pela nação» (Jo 11,49-51) e posteriormente, já no contexto do interrogatório de Anás, voltado a dizer: «tinha dado aos judeus o conselho: convém que morra um só homem pelo povo» (Jo 18,14). Com efeito, «o conteúdo da ‘profecia’ de Caifás é, antes de mais, de natureza absolutamente pragmática e, sob este aspeto, possui para ele, uma razoabilidade imediata; se por meio da morte de um indivíduo (e somente assim) se pode salvar o povo, a morte desse indivíduo é o mal menor e a via politicamente justa. Mas aquilo que soa assim e é entendido primariamente em sentido puramente pragmático alcança todavia, com base na inspiração ‘profética’ [do sumo-sacerdote Caifás], uma profundidade muito diferente. Jesus, o indivíduo, morre pelo povo, transparecendo o mistério da função vicária, que é o conteúdo mais profundo da missão de Jesus» (3). Esta função vicária vemo-la já, nos textos do Antigo Testamento, na figura do ‘bode expiatório’ (cf. Lv 16, 7-10) e mesmo na figura do ‘servo de Javé’ em Isaías (cf. Is 53,11), em que um morre por todos, tal como se diz em Jo 11,52: «E não só pela nação, mas também para congregar na unidade os filhos de Deus que estavam dispersos».

Em jeito de transição para o interrogatório perante o governador romano Pilatos, poderemos considerar que Jesus, ao ser levado diante do Sinédrio – composto por sacerdotes, anciãos do povo e escribas – foi inquirido sobre a sua identidade messiânica: «és o Messias, o filho de Deus» (Mt 26,63); «és tu o Messias, o filho de Deus bendito» (Mc 14, 61); «declara-nos se tu és o Messias… Tu és, então, o filho de Deus» (Lc 22,67.70). Por seu turno, as respostas de Jesus abrangeram temas diferentes, segundo cada um dos evangelistas, nunca negando nem furtando-se a dizer quem era. «Jesus assumiu o título de Messias, que, com base na tradição, apresentava diversos significados, mas ao mesmo tempo o especificou de tal modo que só podia provocar uma condenação; esta, porém, poderia tê-la evitado com uma rejeição ou uma interpretação atenuada do messianismo» (4). O gesto simbólico da condenação vemo-lo nos rasgar das vestes, acompanhado da expressão: blasfemou! (cf. Mt 26, 65), com a declaração da sentença, que Pilatos haveria de ratificar, politicamente…   

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1. Anás é um sumo-sacerdote judeu, cujos cinco filhos e o genro, Caifás, e o neto Matias, foram também sumos-sacerdotes. No Novo Testamento é mencionado três vezes: Lc 3,2 - em referência ao ministério de João Batista; Jo 18, 13.19.24 - no contexto do interrogatório a Jesus; At 4,6 - no interrogatório a Pedro e João. Caifás aparece-nos nas mesmas passagens referidas a Anás, seu sogro. Em Mt 26, 3-4 coloca-se em relevo a intervenção de Caifás naquilo que foi a decisão de prender Jesus, à traição, e matá-lo. Vide Dicionário enciclopédico da Bíblia, Petrópolis, Vozes, 1992, col 69 e 222.

2. Em Lc 22,66-71 refere-se que Jesus foi submetido a um tribunal, o Conselho dos judeus, termo que designava a assembleia ou o lugar das reuniões. Segundo Lucas, só há uma sessão do Conselho de manhã; Mateus e Marcos falam de duas, uma de noite, outra de manhã. Lucas omite os depoimentos das testemunhas, apresenta o mistério de Jesus como Filho de Deus entronizado no seu Reino pela Páscoa e ignora a sentença do Conselho. Vide nota a Lc 22, 66, na Bíblia Sagrada (dos capuchinhos).

3. Cf. Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré – da entrada em Jerusalém até à Ressurreição, Cascais, Principia, 2011, p. 143.

4. Cf. Idem, p. 149.

 

 

António Sílvio Couto

 

 

sábado, 5 de março de 2022

Batalha dos corações


 Desde que eclodiu a ‘guerra na Ucrânia’, pela invasão da Rússia, no passado dia 24 de fevereiro, que temos visto e ouvido as mais díspares interpretações, explicações, leituras, rotulagens e mesmo expressões descritivas ou informativas… De entre tantas dessas ouvi, porque foi na rádio, uma que ficou a ressoar em mim com mais intensidade: ‘batalha dos corações’.

Que lugar tem esta expressão, por entre tantos títulos ou gestos? Que envolvência pode significar, perante tantas ações de benemerência? Qual o alcance desta expressão naquilo que queremos que seja o fim desta anormalidade civilizacional? Onde poderemos ancorar esta expressão como proposta humana e desejo cultural?

Tentando responder a estas questões, deixo algumas pistas:

1. De facto, esta guerra na Ucrânia, pela invasão da Rússia, trouxe à vista tantas pretensões de povos que já foram grandes em vários momentos da História: foram impérios e tornaram-se ditaduras; subjugaram povos e trituraram civilizações; criaram utopias e fomentaram animosidades; marcaram épocas e deixaram feridas… Tudo isso e muito mais podemos ler na história da Rússia. Por isso, este episódio já no século vinte e um poderia não passar de mais um trejeito imperialista, não fosse vivermos numa era de globalização e da informação continuada… Há meia dúzia de anos aconteceu a anexação de uma parte do território da Ucrânia, a Crimeia, e quase passou desapercebido à vista dos povos e das televisões. Agora está a verificar-se algo de diferente e talvez de mais agravado pelas possíveis consequências no resto da Europa.

2. Boa parte da impressão desta ‘guerra’ recai sobre uma figura, algo sinistra e, porventura, bem mais maquiavélica do que se julgava: W. Putin, o presidente da federação russa. Parece ser mais uma personagem surgida daquelas paragens do extremo leste da Europa que veio para ficar na memória dos povos e nações. Por certo não faltarão adjetivos para substantivar o seu comportamento, que tem tudo menos de democrático, no entendimento de certas culturas ocidentais. Mesmo escarafunchando nos anais e registos, pouco ou quase nada nos é fornecido. Se atendermos que, à sua volta, está montada uma armadura de resguardo ou mesmo uma teia de intrigas, ficaremos sem conhecer quem será, embora o possamos identificar nas fotografias e nos arquivos bem manipulados.  

 3. De entre os efeitos que esta guerra na Ucrânia pela invasão da Rússia trouxe à Europa foi uma mais nítida capacidade de união, tanto ao nível político, como na ultrapassagem de peias em relação à defesa. Poucos destoaram desta unanimidade.

À exceção de alguns partidos (ou ideologias) saudosistas dos impérios fundados na Rússia, a condenação deste ato torpe e soez, deixou a sensação que temos um longo e largo caminho a fazer em ordem à pacificação do mundo ocidental, estando de atalaia quanto a fatores de não-paz ao perto ou mais longe.

 4. Como não admirar e exaltar a onda de solidariedade e de comunhão com aqueles que estão a sofrer as consequências desta guerra. De forma rápida, espontânea ou subtil vimos crescer a capacidade de ir ao encontro dos desalojados, prófugos, refugiados… pessoas que fogem, uns com nexo e em vista de encontrar familiares e outros à deriva, salvando a vida e dos mais novos…

Comboios de carros e noutros meios levam ajuda. Recolhido o apoio é preciso fazê-lo chegar a quem se destina. Vimos que muitos corações entraram na batalha de apoiar a todos, sobretudo dos mais fragilizados e precisados de refrigério.

 5. Numa marca indelével de fé vimos e ouvimos orações e atos de comunhão com quem sofre, suplicando ao Céu que venha em ajuda dos que vivem estas agruras. Queira Deus que nos comportemos com mais capacidade de fé do que nos recentes anos de pandemia. De olhos bem abertos para com os outros, abramos ainda mais ao coração à conversão sincera e humana.

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 3 de março de 2022

Quaresma 2022 - figuras da Paixão

 1. Malco: ofensa do medo?



Este ‘acidente’ poderá ajudar-nos a interpretar os nossos acidentes na vida, quantos deles quase inexplicáveis. Não será que Deus os pode curar?

«10 Nessa altura, Simão Pedro, que trazia uma espada, desembainhou-a e arremeteu contra um servo do Sumo-Sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. O servo chamava-se Malco. 11 Mas Jesus disse a Pedro: «Mete a espada na bainha. Não hei de beber o cálice de amargura que o Pai me ofereceu?» (Jo 18,10-11 // Lc 22,49-51; Mt 26,51-54).

Este episódio da orelha decepada e a sua recolocação é mais do que uma espécie de fait-divers por ocasião da prisão de Jesus, no Jardim das Oliveiras, pode comportar uma posição sobre a possível resposta cristã na hora da adversidade. Numa atitude de agressividade mais do que de defesa, Pedro toma a espada e corta a orelha direita a Malco – nome fornecido também por São João – de quem é dito que era servo do sumo-sacerdote.
Para além da contestação da violência, Jesus pretende entrar na lógica da vontade do Pai - «Não hei de beber o cálice de amargura que o Pai me ofereceu?» Em São Lucas refere-se que Jesus recolocou a orelha decepada (cf. Lc 22, 51).
Mais do que uma cena subliminar – como a passagem do jovem que foge nu, em Mc 14, 51 – este episódio entre Pedro e Malco como que nos coloca, através das palavras de Jesus, que uma resposta à agressividade não se dá com violência ou, por outras palavras, a resposta à perseguição não usa as mesmas armas dos perseguidores… que serão vencidos pelo testemunho humilde.

«O discípulo de Cristo, não somente deve guardar a fé e viver dela, como ainda professá-la, dar firme testemunho dela e propagá-la: «Todos devem estar dispostos a confessar Cristo diante dos homens e a segui-Lo no caminho da cruz, no meio das perseguições que nunca faltam à Igreja». O serviço e testemunho da fé são requeridos para a salvação: «A todo aquele que me tiver reconhecido diante dos homens, também Eu o reconhecerei diante do meu Pai que está nos céus. Mas àquele que me tiver negado diante dos homens, também Eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus» (Mt 10, 32-33)» (Catecismo da Igreja Católica, 1816).


António Sílvio Couto

quarta-feira, 2 de março de 2022

Semear ainda com humildade...

 

Estamos na Quaresma: são quarenta dias de intensa vida espiritual, ao nível pessoal e na dimensão eclesial, podendo manifestar-se nas vertentes familiares e sociais.


Mais uma vez este ano não tivemos a distração – talvez salutar, se fosse levada a sério – do carnaval. Pois este foi-nos proposto, originalmente, como etapa preparatória da vivência da quaresma. Se não tiver sido vivenciado como que correremos o risco de não mais ter a necessária intensidade quaresmal.

1. Na pedagogia da fé, o Papa Francisco escreveu-nos uma mensagem para a quaresma deste ano, servindo-se da citação de Gl 6, 9-10 a: «Não nos cansemos de fazer o bem; porque, a seu tempo colheremos, se não tivermos esmorecido. Portanto, enquanto temos tempo, pratiquemos o bem para com todos». Aqui se faz insistência em três aspetos da nossa caminhada: sementeira – colheita; não nos cansemos de fazer o bem; a seu tempo colheremos, se não tivermos esmorecido. De facto, depois de um tempo de desânimo pela provação da pandemia e mais recentemente confusos pelas imagens de guerra na Ucrânia, como que se pode tornar algo audaz acreditar que vale a pena semear, sobretudo se tivermos em conta que este semear se fará numa visão turva e pouco clara nos objetivos e/ou nos possíveis resultados.

2. ‘A Quaresma convida-nos à conversão, a mudar mentalidade, de tal modo que a vida encontre a sua verdade e beleza menos no possuir do que no doar, menos no acumular do que no semear o bem e partilhá-lo’. É nítido que já não temos paciência para esperar que a semente lançada seja colhida por outros. Vivemos no afã do imediatismo: da semente ao fruto queremos que seja breve e curto o passo e pouco ou nada nos faz crer que um é o que semeia, outro o que cuida e outro ainda o que colhe... Estas etapas, desgraçadamente, pretendemos vivê-las com o máximo de brevidade. Ainda teremos mentalidade de esperança e não de reivindicação? Ainda conseguiremos dar tempo para a maturação? Ainda saberemos estar em gratuidade sem exigências e apressamento nos resultados?

3. ‘Perante a amarga desilusão por tantos sonhos desfeitos, a inquietação com os desafios a enfrentar, o desconsolo pela pobreza de meios à disposição, a tentação é fechar-se num egoísmo individualista e, à vista dos sofrimentos alheios, refugiar-se na indiferença’. Quantas vezes o desânimo nos assalta porque não vemos compromisso da parte daqueles de quem esperávamos correspondência aos desafios. Quantos daqueles em quem punhamos alguma expetativa nos desiludem e nos desiludimos com medo de recomeço... A multidão desses a que um teólogo pós-conciliar chamava de ‘cristãos anónimos’, faz-nos temer pelo presente e para com o futuro da Igreja. Por quê semear outra vez, se a semente cairá em terreno pedregoso e. possivelmente, infrutífero?

4. ‘Cada ano, a Quaresma vem recordar-nos que o bem, como aliás o amor, a justiça e a solidariedade não se alcançam duma vez para sempre; hão de ser conquistados cada dia’. Confesso que o ‘mito de Sísifo’ quase tem mais impacto do que a confiança e a esperança semeada pela constância. Ao vermos os sinais que nos são dados perceber parece bem mais viável desistir do que recomeçar de olhos postos na meta. Nem mesmo a dinamização da caminahda sinodal parece desinstalar um pouco da relutância em apostar em novos caminhos ou em limpar os já andados porque mal cuidados.

5. Deixamos uma citação final da mensagem do Papa como itinerário simples e humilde: ‘Neste tempo de conversão, buscando apoio na graça divina e na comunhão da Igreja, não nos cansemos de semear o bem. O jejum prepara o terreno, a oração rega, a caridade fecunda-o. Na fé, temos a certeza de que «a seu tempo colheremos,se não tivermos esmorecido», e obteremos, com o dom da perseverança, os bens

prometidos para salvação nossa e do próximo’. Assim o queremos!



António Silvio Couto

terça-feira, 1 de março de 2022

‘Big brother’ da guerra

Como seria expetável as imagens da ‘guerra na Ucrânia’ tornaram-se uma espécie de ‘big brother’ informativo. Sobre a designação de ‘big brother’ consideramos essa amostragem contínua de cenas com pessoas retidas numa casa, sob o desejo de ganhar um prémio mais ou menos chorudo e deixando ver (quase) tudo daquilo que fazem (farão) até de lá saírem.
Quanto à ‘guerra na Ucrânia’ tornou-se, por estes dias, o centro das notícias, com uns certos ingredientes medievalescos de conquista de um povo – os russos – sobre outro povo – os ucranianos – num tempo que se desejava de paz e de respeito dos povos entre si…

1. Nos mais diversos lugares surgiram, neste fim-de-semana, manifestações de comunhão com o povo da Ucrânia, ansiando a paz e abjurando tudo quanto possa dar continuidade àquela guerra e aos seus sinais. Também na Moita, no passado domingo, à noite se reuniram dezenas de pessoas ao pé do monumento público a Nossa Senhora da Boa Viagem para marcarem a solidariedade e sintonia com aqueles – ao longe ou mais perto – sofrem as agruras do momento presente. Mais do que uma ação religiosa ou de índole política, pretendeu-se que esta ocorrência fosse uma manifestação cívica, onde aquelas vertentes estivessem presentes, mas não fossem preponderantes. De entre os vários cidadãos contaram-se elementos dos órgãos autárquicos, das Igrejas, dos setores sociais e eclesiais e, sobretudo, contamos com a presença de um padre ucraniano (e outros concidadãos) que acompanha os imigrados desde há alguns anos…no nosso país. Foi um tempo simples e sereno, tentando emitir tais sentimentos para aqueles que a mais de quatro mil quilómetros não estão a viver tais fragâncias.

2. Há perguntas que se fazem, umas audíveis e outras mais interiores, sobre tudo quanto está a acontecer na Ucrânia. Com que direito o presidente da Rússia faz esta invasão de um país, querendo impor à força as suas ideias e os seus projetos? Onde está o respeito mínimo para com os outros, mesmo que possam ser menos bons vizinhos? A pretensão de reconstruir a ‘grande Rússia’ dos czares e do império bolchevique soviético justifica o desenvolvimento desta guerra? Todos os meios serão aceitáveis para conseguir os fins? Até onde irá a concretização das pretensões do chefe e a obediência dos subordinados? Neste tempo de cultivo de fazer tudo o que se possa para aparecer – simbolizado no tal ‘big brother’ – este episódio da guerra não fará parte da programação mais subtil e engenhosa? Nesta imposição da futilidade reinante não andaremos a ver mais os erros alheios do que atentarmos corrigir as nossas lacunas mais recônditas?

3. Este clima de confusão instalou-se no ambiente mundial. Por momentos parecemos todos presos pelas consequências de mais um desvario de alguém que denota perturbação mental mínima, pois não se percebe que um dirigente desequilibrado possa arrastar todos para a desgraça. Só que esse tal ‘louco’ não está só e, mesmo que nos custe, poderemos encontrar um tal de ‘putin’ – ditador, mau e intransigente – no interior de cada um de nós. Com efeito, nele podemos encontrar a representação mais funesta e quase macabra daquilo que pode emergir nas nossas atitudes, palavras, gestos e comportamentos de intolerância à diferença, de reação à menos boa aceitação e até de desagregação do meio em que vivemos, quando não aceitamos corretamente as advertências dos outros.

4. Numa última referência talvez devamos considerar, em tudo isto, um apelo à conversão pessoal e social que estes momentos de convulsão criados pela guerra nos podem proporcionar. Desde logo a alusão à conversão da Rússia como nos foi alertada em Fátima, pelas manifestações de Nossa Senhora. Os factos desse tempo eram outros, mas os perigos continuam hoje. Quem possa tornar-se sinal do mal não falta por aí e quem continue a viver mais no materialismo do que na dimensão espiritual é incontornável… Por isso, precisamos de parar e de escutar; de serenar e de refletir; de questionar-nos e não de nos desculparmos; de nos humanizarmos e não de nos enfurecermos, pois tudo mudará, quando eu começar a mudar…
O processo pode iniciar-se hoje!

António Sílvio Couto