Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sábado, 14 de agosto de 2021

Gratidão – virtude humana e/ou dom divino

 


«Com licença», «obrigado», «desculpa». Estas palavras realmente abrem o caminho para viver bem na família, para viver em paz. Trata-se de palavras simples, mas não tão fáceis de pôr em prática!

(...) Em geral, para nós elas são as palavras da «boa educação» – Papa Francisco

 

Que dizer da ingratidão, se até Jesus ficou ofendido, admirado e interrogativo, quando dos dez leprosos curados, só um lhe foi agradecer…e era um ‘samaritano-estrangeiro’?

Antes de mais a gratidão é (ou deve ser) uma virtude humana, isto é, cultivada, manifestada e testemunhada na vida social e mesmo cultural.
Tempos houve em que as pessoas usavam com simplicidade e leveza a expressão: ’muito obrigado’ para exprimirem para com outrem algum reconhecimento por um favor recebido, palavra dada ou atenção colhida. Embora a educação não tenha sido suspensa, vemos que, hoje, as pessoas se consideram mais reivindicativas e com direitos adquiridos, obnubilando essa linguagem da gratidão humana e até para com Deus.
O Papa Francisco tem vindo a reintroduzir na nossa linguagem de vida cristã o uso de três palavras que ele reputa de importantes – com licença, obrigado, desculpa. Através destas palavras/expressões podemos e devemos ser educados uns para os outros, pela sensibilidade que temos para com Deus…
 
* Vejamos algumas incidências desta faceta importante da nossa vida humana e cristã que é a gratidão ou a ação de graças, pois se formos portadores de gratidão, o mundo poderá tornar-se um espaço mais humano, com mais equilíbrio e melhor equidade entre as pessoas e todos poderemos confiar mais uns nos outros…
«Como na oração de petição, qualquer acontecimento e qualquer necessidade podem transformar-se em oferenda de ação de graças. As cartas de São Paulo muitas vezes começam e acabam por uma ação de graças, e nelas o Senhor Jesus está sempre presente: «Dai graças em todas as circunstâncias, pois é esta a vontade de Deus, em Cristo Jesus, a vosso respeito» (1 Ts 5, 18); «perseverai na oração; sede, por meio dela, vigilantes em ações de graças» (Cl 4, 2) (Catecismo da Igreja Católica, 2638).
 
* Eis os elementos contidos na ‘oração de ação de graças’: temos algo a agradecer, que nos foi dado – talvez nem o merecêssemos – e que nos coloca em referência a outrem, isto é, não é de todo só mérito nosso, embora possa ter (e teve) a nossa/minha participação; porque me sinto agradecido exprimo-o de forma 
‘Dar graças’ é reconhecer-se pequeno perante Alguém, que nos concede dons e graças, benefícios e bênçãos, podendo voltar para Ele o nosso olhar em atitude de gratidão, agradecendo e abrindo-se a novas graças. Numa das suas intervenções o Papa Francisco considerou que o mundo está dividido em dois tipos de pessoas: os que não-agradecem e os que o fazem…isto é, os que reconhecem Deus e os outros como presença d’Ele e outros mais autossuficientes e ingratos para com Deus e mesmo para com os outros.
 
* A atitude de gratidão/ação de graças dizemo-lo em relação a Deus e de uma forma mais exponencial na eucaristia – o termo grego original diz mesmo: ‘ação de graças’. No diálogo no início do prefácio da missa temos esta forma de entendimento: ‘demos graças ao senhor nosso Deus’ – ‘é nosso dever, é nossa salvação’…prosseguindo o presidente da assembleia – ‘é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação, dar-vos graças sempre e em toda a parte por Jesus Cristo, vosso amado Filho’ (prefácio à oração eucarística II). Dir-se-á que aqui se traça, na linha programática de Santo Inácio de Loyola: ‘para a maior glória de Deus’… tudo e sempre! 
 
* A ‘ação de graças’ faz-nos, com efeito, humildes de pé, sabendo quem somos e reconhecendo a Quem devemos o que recebemos e o dom maior é sempre o da vida. Quantas dívidas de gratidão acumulamos ao longo da nossa existência. Quantos sinais que nos escapam para sabermos convenientemente agradecer. Quantas vezes seríamos mas gratos para com os outros se fizéssemos equivaler para com eles as reclamações de gratidão que lhes cobramos…
  

António Sílvio Couto

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Padres ricos ou pobres padres?

 


Foi tema de reportagem num canal televisivo: um padre recém-ordenado recebeu como prenda das (três) paróquias, onde estivera a fazer estágio, um carro no valor de vinte e três mil euros…

Se tivesse sido um professor, um médico ou um engenheiro o beneficiado com um carro idêntico teria tido ‘honras’ de cobertura televisiva? Não terão sido vendidos por esses dias veículos ainda mais caros, mas não houve parangonas de notícia… A quem interessava trazer para a liça este ‘escândalo’: a alguém discordante da prenda ou a outrem mais fundamentalista e contestatário daquele ‘sinal exterior de riqueza’ de um padre?

Porque sabemos – este plural não é encobrimento sobre a opinião no singular – que os padres estão sob escrutínio de bem e de mal-intencionados, quero fazer uma reflexão por escrito sobre assuntos algo melindrosos…

 1. Desde logo será útil, benéfico e oportuno refletir sobre o ditado popular: ‘bem prega frei Tomás, segui o que ele diz e não aquilo que faz’! Com efeito, esta observação coloca-nos diante da exigência de coerência entre o que se diz – no caso ‘bem prega’ – e o que faz, isto é, a vida que apresenta. As pessoas são – e bem – exigentes para com quem quer apresentar valores, sobretudo, se forem no campo do evangelho. Com facilidade cobram as incoerências, mas, com toda a certeza, não se reveem nas suas mesmas incongruências.

 2. Usando a asserção do Papa Francisco – ‘os padres são como os aviões, só se fala deles quando caem’. De facto, a busca por episódios de escândalo são mais noticiados do que a vivência normal do ministério. Ora, os pretensos ‘escândalos’, normalmente, percorrem os campos do sexo e do dinheiro…um e outro parecem fazer a delícia dos espetadores, dando a entender que os casos trazidos à luz do dia podem configurar algo que denuncia as prevaricações de todos, quando vividas só por um…e ainda na forma presumível, mas que que se torna afirmativa, quando não passará de uma mera suspeita.

 3. Por estes dias celebrou-se a festa litúrgica de um santo mártir que teve, por incumbência dos perseguidores, no século III, de apresentar ao imperador os tesouros da Igreja de Roma, dado que constava que eram de grande valor. O diácono – estava adstrito ao seu ministério a administração dos bens da Igreja – apareceu, três dias depois, com os pobres da Igreja romana, dizendo: ‘eis os nossos tesouros, que nunca diminuem e podem ser encontrados em toda a parte’. Esta espécie de ironia valeu-lhe ser queimado vivo…

 4. Parece ser de grande e atroz incompreensão para muitos setores da nossa vida social e cultural a capacidade de entender os conselhos evangélicos – pobreza, obediência e castidade – que têm norteado milhões de homens e de mulheres desde há vinte e um séculos. «Os conselhos evangélicos são, na sua multiplicidade, propostos a todos os discípulos de Cristo» (Catecismo da Igreja Católica, 915). Isto é tanto mais difícil quanto as propostas do mundo – isso a que o evangelho chama de opositor a Deus em muitas das circunstâncias – são, exatamente, o contrário: riqueza, poder e luxúria… onde cada um se faz dono e senhor de si mesmo, fazendo, tantas vezes, os outros seus súbditos e quase-escravos.  

 5. Contava-me um bispo, em serviço num país africano de expressão portuguesa, que, um dia, um rapaz se aproximou dele e lhe perguntou: bispo, já alguma vez pecou contra a luxúria? Não, que eu saiba – respondeu o prelado. Mas, querendo explicar a que se referia, ao aplicar a palavra ‘luxúria’, o pequeno diocesano ripostou: o bispo tem um jeep novo e pensei que tinha pecado contra a luxúria… Aqui se compreende que confundiu um possível luxo, do jeep novo, com a luxúria, como sensualidade e concupiscência…

 6. Recordo-me ainda de uma observação de um velho padre – eu teria uns trinta anos e ele já caminhava nos oitenta – que me observou com perspicácia: ‘sabes, eles não conseguem dominar-se e pensam que nós somos como eles’… Refleti, nessa ocasião, sobre as incidências que ocorriam quanto ao possível apego ao dinheiro que lhe era atribuído, muito mais do que qualquer outro dos conselhos evangélicos supracitados.

 7. Deixo, em jeito, de questionamento de toda a Igreja católica, algumas perguntas, mas podem também ser para outros: temos sabido selecionar, para a vida de sacerdócio ministerial, quem procure viver, de verdade, os conselhos evangélicos? Certos sinais de possível riqueza serão compatíveis com o testemunho mínimo de vida? Teremos sido capazes de viver mais afirmação da dimensão cultural do que na roupagem do cultual? Certos aspetos de valorização são de exterioridade ou mobilizam a real opção de vida? Padres ricos ou pobres, de quê? Ser pobre (ou rico) de quê, como e com que sentido?

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Mesa da refeição – que significado em família?


Desde logo podemos e devemos questionar o lugar e a importância que tem a mesa – em especial – da refeição na nossa casa, seja no contexto de família ou mesmo de incidência mais singular. Mais do que um objeto material, a mesa é um espaço de vida ou de falta dela… Reparemos na pressa com que tantos dos nossos coevos não a usam como experiência de vida, de partilha e/ou de refeição! Talvez devamos ainda refletir sobre a vulgarização da ‘mesa de restaurante’, que nem sempre envolve a tenacidade da vida em partilha, em sintonia ou mesmo em gosto que se saboreia pelo comer (ou comida) familiar. Não andaremos a subverter a mesa da refeição com o recurso de comermos fora, no restaurante? Não estaremos a perder a identidade pessoal e familiar com o excesso de irmos comer ao restaurante? Não correremos o risco de ficarmos desestruturados culturalmente ao substituirmos a mesa de família por outras formas de convívio que são menos afetivas e de presença aos outros?
Talvez valha a pena fazermos uma análise ao significado da refeição à mesa naquilo que faz e constrói a família, hoje:

1. Diz-me com quem comes e aquilo que comes, que dir-te-ei quem és. Sempre esta frase terá mais sentido quando mais agora que as pessoas parecem não ter tempo para estar à mesa, seja para saborear a comida feita sem pressa, seja para vivenciar a partilha com os comensais. ‘Companheiro’ significa ‘comer do mesmo pão’ (cum pannis). Hoje perdemos a paciência para cozinhar – o micro-ondas tornou-se um dos símbolos da superficialidade da nossa vida – e até para saborearmos a alimentação. Aqui, como noutros campos da vida, a pressa é inimiga da eficiência. Que dizer da ‘presidência’ da mesa da refeição de sua excelência a sacrossanta televisão? Ou como obviar à moda, cada vez mais habitual, do telemóvel omnipresente e tantas vezes obstaculizador da conversa entre todos? Estar com os outros não basta só de corpo presente…

2. Parafraseando um pensamento que vi escrito no guarda-vento de uma igreja – ‘família que reza unida permanece unida’ – assim: família que come unida, permanecerá unida! Mais do que deglutir os alimentos é importante comungá-los com os outros que connosco vivem. Com efeito, ter tempo para tomar as refeições em família, além de ser mais uma forma equilibrada de alimentação, é uma forma salutar de vida pessoal e familiar…agora e para o futuro.

3. Se, na cultura judaica, a casa era um lugar teológico por excelência, a mesa era-o por muito maior incidência, pois era aí que se celebrava o ‘shabbat’ semanal, com as orações, gestos e sinais próprios de quem aprendia e ensinava a história do Povo de Deus à mesa da refeição em família. Nos textos bíblicos vemos por diversas vezes a mesa como um lugar privilegiado da presença de uns aos outros e mesmo da revelação de Jesus. Depois do chamamento de Levi (Mateus), Jesus reúne-se numa refeição na casa dele com outros publicanos (cf. Mt 9, 9-13). Numa refeição em casa de um fariseu, Jesus é abordado por uma pecadora pública (cf. Lc 7,37). Por excelência a narrativa do lava-pés (cf. Jo 13,1-20) acontece quando Jesus se encontrava à mesa… na ceia pascal… o momento de exemplificar a mensagem é bem mais forte do que as lições teóricas.

4. A mesa como lugar da experiência humana (na diversidade das pessoas, dos tempos e das vivências) e da partilha da refeição, em consonância divina (onde Deus é visto e não meramente imposto) tem de ser mais do que um etéreo propósito. Há sugestões que podem emergir da vivência familiar da eucaristia dominical, fazendo da mesa da refeição familiar um prolongamento dessa outra onde Jesus se tornou pão eucarístico para todos, isto é, comunitariamente, mas que se traduzirá na incidência de cada casa, de cada família: a mesa da família cristã torna-se a expressão do altar em família.
Outro aspeto, cuidado desde sempre na vivência do cristianismo e quase como prolongamento da vivência judaica, é a bênção da mesa. Encontramos já nas ‘Constituições apostólicas’ (século IV) uma proposta – que por ser tão simples e incisiva – transcrevemos…até como sugestão de ‘oração da mesa, bênção para a refeição’: ‘És bendito, Senhor, que me alimentas desde a minha juventude, e dás o alimento a toda a criatura; enche os nossos corações de felicidade e de alegria, para que, tendo sempre e em tudo quanto nos é necessário, usemos do que sobre todas as boas obras, em Cristo Jesus, nosso Senhor, por quem a Ti glória, honra e poder, pelos séculos dos séculos. Amen’.

5. Confesso que me custa um tanto perceber, mesmo através dos filmes, que, por ocasião da apresentação de uma refeição, sejam os cristãos de índole mais protestante a orarem antes das refeições. Os católicos também podem e devem ser gratos ao Deus que os alimenta…Desde tenra idade necessitamos de aprender e de viver esta dinâmica da mesa em nossa casa.
Como seria vivamente recomendável incluir, na oração da mesa, o ‘Pai-nosso’, sobretudo tendo em conta essa petição em que solicitamos ao Pai que nos dê o ‘pão nosso de cada dia’…


António Sílvio Couto

sábado, 7 de agosto de 2021

Família: santuário da vida

 


João Paulo II chamou à família de “santuário da vida”. Ora ‘santuário’ quer dizer que é um‘lugar sagrado’. É na família que a vida humana surge como de uma nascente sagrada, é cultivada e formada. É missão sagrada da família, guardar, revelar e comunicar ao mundo o amor e a vida.

Já no Concílio Vaticano II se tinha cunhado uma outra expressão para definir a família: ‘a Igreja doméstica’ (1), onde Deus reside, é reconhecido, amado, adorado e servido, ensinando ainda que: ‘a salvação da pessoa e da sociedade humana estão intimamente ligadas à condição feliz da comunidade conjugal e familiar’ (2). Desta forma a família, na qual convivem as várias gerações, que se ajudam mutuamente em adquirir maior sabedoria e em harmonizar os direitos pessoais com outras exigências sociais, constitui o fundamento da sociedade.
Na ‘Carta às Famílias’ (1994), João Paulo II considera que ‘antes de criar o homem, o Criador como que reentra em si mesmo para procurar o modelo e a inspiração no mistério do seu ser’. Todos os seres criados, exceto o homem, já nascem dotados de tudo o que precisam para se tornarem completos na sua natureza. Connosco, humanos. é diferente, pois Deus nos quis semelhantes a Ele e construtores do nosso próprio futuro. É o que Deus disse ao casal-premigénio: “Crescei e multiplicai-vos e dominai a terra”. (Gn 1,28).

Na visão bíblica, homem e mulher são chamados a, em comum, continuar a ação criadora de Deus, e a construção mútua de ambos. Só ao casal humano dá a inteligência para ver, a liberdade para escolher, a vontade para perseverar e a consciência para ouvir continuamente a Sua voz. Esta é a alta dignidade que Deus confere à criatura feita à sua imagem e semelhança. Para corresponder a esta grandeza dada pelo Criador, o homem deve viver a sua liberdade com responsabilidade. Pecar será sempre abusar da liberdade que Deus nos deu; isto é, vivê-la sem responsabilidade e sem verdade. ‘Ponho diante de ti a vida e a morte, a benção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas com a tua posteridade, amando o Senhor teu Deus, obedecendo a sua voz e permanecendo unido a ele’ (Dt 30,19-20).
Ao falar da família no plano de Deus, o Catecismo da Igreja Católica, diz que ela é ‘vestígio e imagem da comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Sua atividade procriadora e educadora é o reflexo da obra criadora do Pai’ (Catecismo da Igreja Católica, 2205). Essas palavras indicam que a família -- constituída e construida na base de um relacionamento estável entre um homem e uma mulher -- é, na terra, a marca -- ‘vestígio e imagem’ - do próprio Deus, que, através dela, continua a sua obra criadora.
Efetiva e afetivamente a família é ‘a célula originária da vida social... É a sociedade natural na qual o homem e a mulher são chamados ao dom de si no amor e no dom da vida...a família é a comunidade na qual, desde a infância, se podem assimilar os valores morais, em que se pode começar a honrar a Deus e a usar correta mente da liberdade. A vida em família é iniciação para a vida em sociedade’.
Neste sentido, a família é o eixo da humanidade, é a sua pedra angular. O futuro da sociedade e da Igreja passam inexoravelmente por ela. É ali que os filhos e os pais devem ser felizes. Quem não experimentou o amor no seio de um lar -- equilibrado, feliz e harmonioso - poderá ter dificuldade em conhecê-lo fora dele ou pior, terá maior dificuldade ainda em quer e viver isso como projeto de vida para a sua vida. Com efeito, ‘a importância da família na vida e no bem-estar da sociedade implica uma responsabilidade particular desta no apoio e fortalecimento do matrimónio e da família. A autoridade civil deve considerar como seu grave dever «reconhecer e proteger a verdadeira natureza do matrimónio e da família, defender a moralidade pública e favorecer a prosperidade doméstica’
(3). Com tantos ataques à família assim construida, na base do relacionamento entre um homem e uma mulher, não teremos de considerar que tais fomentadores desses temas fraturantes quanto à família, afinal, não reproduzem mais do que a má ou deficiente experiência de vida familiar...

1. Cf. Concílio Vaticano II, Constituição dogmática ‘Lumen gentium’ sobre a Igreja, 11
2. Cf. Concílio Vaticano II, Constituição pastoral ‘Gaudium et spes’ sobre a Igreja no mundo atual , 47.
3. Cf. Catecismo da Igreja Católica, 2210.

António Sílvio Couto

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Caranguejos, lacraus e minhocas…à portuguesa

 


Apesar dos diferentes habitats em que se desenrolam, estes três ‘bichos’ podem tipificar a nossa condição de portugueses: luta de caranguejos, ataques dos lacraus e sobrevivência das minhocas…servir-nos-ão para enquadrar a nossa conduta coletiva e, porque não, de teor mais individual.

Não pretendo dar lições a ninguém nem induzir seja quem for em erro, pois, estes três ‘sinais’ sociais da nossa condição de portugueses são muito mais comum no tecido humano, cultural, político e económico do que julgamos, misturando-se na mesma situação a versão caranguejo com a de lacrau e até a convulsão de minhoca se atravessa na ética – pretensamente republicana – de uns tantos…

 

1. Luta de caranguejos – Contaram-me este episódio algo bizarro: um indivíduo estava a apanhar caranguejos, quando um outro se aproximou e, vendo-o, a colocar os caranguejos num balde destapado, lhe perguntou: então, não tens receio que os caranguejos saiam do balde e que fiques sem nada? ‘Não’, retorquiu ou outro: ‘são caranguejos portugueses, quando virem uns a sair, puxam os outros para baixo para que não saiam’.

O júbilo com que vimos certas forças e meios de comunicação social a tratar algumas figuras a contas com a justiça, deu a entender que há gente que é incapaz de distinguir entre o sucesso alheio e a acusação de malfeitoria sobre todos os que não pactuam com a sua coloração ideológica. Nem todos os capitalistas são ladrões e corruptos, nem todos os empresários se comportam como outros patrões, nem todos os que dão emprego exploram os trabalhadores. Esta mentalidade de caranguejo com que certos políticos de ‘esquerda’ tratam os demais nunca fará do nosso país outra coisa que não seja um antro de preguiçosos pendurados no fazer o menos possível, ganhando o máximo que possam… Não era tempo de sacudir esta mentalidade dialético-marxista, que tantos prejuízos tem trazido ao mundo do trabalho, ontem como hoje?

 

2. Ataques do lacrau – diz a velha fábula que, um dia, um lacrau, querendo atravessar um rio, mas não tinha condições por não saber nadar. Por perto estava uma rã, essa sim com experiência de andar na água e de atravessar charcos e rios. O lacrau (escorpião) disse à rã se lhe fazia o favor de o transportar nas suas costas, ao que, avisada pelo conhecimento que tinha do comportamento fatídico do lacrau, ripostou em não aceitar o desafio. O lacrau insistiu: se eu te picar, morreremos ambos. Concordando com a proposta, a rã carregou o lacrau e, no meio do rio, sentiu uma picada, dizendo: por quê isto, se vamos morrer os dois. Ao que o lacrau respondeu: está na minha natureza…  

Quanta gente ingrata anda por aí! Quantos aferrolham nas costas dos que lhe fizeram favores! Quantos se servem dos outros para se promoverem sem olharem a meios para atingirem os seus fins! Quantos conjugam o verbo atraiçoar nos diversos tempos e formas, sem pejo nem vergonha. Agora que nos perfilamos para novas eleições autárquicas, começamos a perceber que uns tantos não merecem que lhes confiemos o voto, pois nos atraiçoaram em tempos recentes.    

 

3. Psicologia da minhoca – quem conhecer, minimamente, as minhocas saberá que vivem em lugares húmidos, lamacentos e que se deslocam ondulando o corpo sobre si mesmas, sem levantarem muito a cabeça, sobrevivendo enterradas, escavando galerias e canais no solo e procurando abrigo e alimento na terra.

Num tempo de gente sem coluna, chamar-lhe minhoca poderá ainda ofender as que o são e tentam sobreviver para não acabarem como isco de pesca. Não é de forma gratuita que se aplica o termo ‘minhoquice’ para caraterizar o não-assunto com que certas pessoas se entretêm. Sim, as minhoquices são tropelias de quem não tem vida própria e se ocupa da alheia…nas redes (ditas) sociais, nas conversas de café, nas intrigas de facebook ou mesmo nas suspeitas que lançam, alimentam e reproduzem.

É verdade: quem não sabe andar de pé, rasteja e faz-de-conta que os outros lhe ligam importância. Tantas minhocas povoam o nosso mundo, favorecendo e sendo aduladas por idênticos na sua insignificância.

 

= Dos caranguejos invejosos, dos lacraus venenosos e das minhocas peçonhentas, livrai-nos, Senhor.

 

António Sílvio Couto

Nesse socialismo de côdea…rapada

 


Por mais loas que pretendam tecer à nossa conjuntura politica, estamos sob a alçada de um regime que já deu frutos desastrosos noutras latitudes e pouco mais vinga do que na península ibérica. Seremos – espanhóis e portugueses – casos de estudo pela inverosimilhança entre tantas outras situações, sobretudo na Europa? Quando caírem da esfera do poder certas forças, que por cá vão reinando, isso será benéfico? Quem assim se sustenta no poder deve-o à sua qualidade ou à subtil habilidade? Este regime de côdea (rapada) serve a quem? Não haverá concorrentes que ficarão fora da luta pela sobrevivência…politica?

 1. Efervescente entre 2015 e 2019, o regime tropeçou com a pandemia. Aforrados com austeridade de alguns cobres foi uma espécie de fartar em reversões para pagar favores a quem suportou a nova forma de governar. Encontradas nos cofres umas pitadas de poupança foi um desabrido processo de contentar quem antes contestava: agora podiam estar à mesa, pois enquanto se reina nada se cuida. E assim se foram calando os protestos com dinheiro atirado para os problemas e não pela solução de fundo para os ditos.

 2. Tudo corria bem, quando, em finais de 2019, se começaram a ouvir zumbidos provenientes do Oriente: de lá vinha um vírus que rapidamente sacudiu as certezas, enclaustrou os passeantes, fechou lojas, restaurantes, diversões e tudo quanto pudesse mexer e/ou tornar-se transmissor da doença…a pandemia fez ruir o sonho de sucesso, de bem-estar e de qualidade de vida. Podem ainda querer disfarçar, mas a máscara não engana!

 3. As ruas, antes pejadas de gente, tornaram-se desertos a perder de vista. Os investimentos para o turismo – alojamentos, viagens, espaços lúdicos – esfumaram-se como nevoeiro em época de veraneio. As esperanças de enriquecer sem muito trabalho repercutiram-se nos subsídios quase a bel-prazer. Continuam a rejeitar a crise, mas esta escondeu-se para vir a aparecer com mais ferocidade, muito em breve…Podem tentar eludir-nos por algum tempo, mas não nos conseguem enganar a todos, o tempo todo! 

 4. Temáticas relacionadas com a saúde emergiram como questões incontornáveis: higiene, limpeza, cuidados, febres, sintomas…vírus, covid-19, surto, grupo de risco, testes, triagem, vacinas… infetados, em confinamento, isolamento profilático, internamento, quarentena, assintomático, transmissão…estado de emergência, de calamidade… Desde março de 2020 que vimos a ter mais cuidado com tantas destas coisas, enquanto uns outros se aprimoram em defenderem a estatização da saúde, tanto pelos meios como pelos agentes. Desgraçadamente querem fazer acreditar que SNS só vale para ‘serviço nacional de saúde’, quando deveria ser significativo de ‘sistema nacional de saúde’, envolvendo coisas do público e também do privado.

 5. Deste modo podemos constatar que a côdea rapada do socialismo à portuguesa serve mais os interesses das fações reinantes do que os das populações em geral e dos mais necessitados em particular. Isso mesmo se pode verificar, por antecipação, com o tal ‘PRR’ – plano de recuperação e resiliência. Os milhões que estão a chegar não servirão mais os interesses estatais do que os das pessoas? As verbas distribuídas não cairão no saco dos do costume e menos naqueles – os privados com obra feita investimento com resultados – que fazem avançar o país com os seus impostos? Estas verbas não chegam na hora de fazer caciquismo para as eleições autárquicas? Os da cor do governo não serão mais beneficiados para apresentarem obra de promessa? Uns pozinhos de ideologia podem fazer toda a diferença, hoje como ontem!

 6. Fique claro: não acredito minimamente nas boas intenções – a côdea rapada do socialismo não é capaz de se recauchutar, pois os vícios estão demasiado entranhados nos comportamentos, tal como as benesses serão pagas com dinheiros subtilmente desviados… Foi assim no passado, dificilmente será diferente no presente! Está na hora de acordar, como aconteceu noutros países da Europa, que meteram verdadeiramente, o socialismo na gaveta para que não continuassem as tropelias conhecidas, promovidas e anunciadas…

Portugal merece muito melhor!

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Para um ‘código de compaixão’

 


Num tempo em que as pessoas parecem ter esfriado nas suas relações humanas – os sinais de afeição tiveram de ser tolhidos pelo combate à difusão do vírus – como podemos e devemos manifestar uns para com os outros essa capacidade de compaixão? Como podemos chorar com quem chora, mesmo que não se tenha conseguido fazer o luto das perdas, no contexto de pandemia? Até onde irá a nossa sintomia cristã com os que choram, sejam quais forem as causas desse choro, lamento ou aflição?

Efetivamente é urgente sairmos do reduto do nosso conforto mais ou menos egoísta para sermos capazes de viver a compaixão – ‘cum-passione’: sofrer com…; ‘sun-patos’: simpatia – tornada ato de vida e não mera intenção vazia. Por entre tantos e tão diversificados casos de sofrimento, de dor e mesmo de angústia torna-se fundamental estar atento, aberto e lúcido para saber discernir o que é essencial sem o confundir com o mero urgente, pois este, por vezes, pode baralhar as prioridades com aquilo que realmente é importante.

À luz das diversas e intensas intervenções mais recentes dos Papas poderemos intentar propor um ‘código da compaixão’, ousando percorrer algumas das lacunas dos nossos tempos: Cuidamos uns dos outros, olhando para eles como Jesus, mostrando-o em sinais, pela presença mútua, acolhendo-os, integrando-os num xadrez de vida, que se torna capaz de anunciar e de oferecer Jesus a quem dele precisar:

Cuidar – urge promover a ‘cultura do cuidado’, onde vivamos em atenção aos outros, sobretudo nas suas debilidades, fraquezas e doenças:

Olhar – à semelhança de Jesus, que se fixava no sofrimento dos outros, devemos olhá-los sem indiferença nem sobranceria mas compassiva e misericordiosamente;

Mostrar com gestos, palavras e sinais que os outros são companheiros na vida e segundo as circunstâncias do tempo e do lugar; 

Presença – na linguagem da ‘oração dos dedos’ (1), podemos e devemos ser presença aos outros atentamente bem como a nós mesmos;

Acolher – mais do que uma mera simpatia – termo grego que é equivalente a compaixão, em latim – o acolhimento implica atenção e escuta do outro, desde o mais simples até ao mais alto nível cultural; 

Integrar – numa leitura atenta dos acontecimentos do mundo, torna-se essencial a integração da dimensão espiritual da pessoa humana, que passa pelo respeito de todos, mesmo dos diferentes;

Xadrez – por entre variegadas situações de vida – essa espécie de xadrez algo rebuscado – podemos encontrar a dimensão da verdade como dinâmica de diálogo cultural e mesmo civilizacional;

Anunciar – nessa compreensão de que a dimensão cristã se situa entre o ‘vinde’ e o ‘ide’, somos chamados a anunciar a presença de Jesus como Aquele que responde às questões essenciais da vida em condição terrena;

Oferecer – naquilo que pode e deve ser a proposta de Jesus àqueles que Ele coloca no nosso caminho, temos de saber oferecer-lhes um Cristo vivo e vivenciado, um Cristo alegre e compassivo, um Cristo de futuro e com esperança.

A nossa capacidade de compaixão tem Jesus por critério e medida: n’Ele, por Ele e com Ele seremos suas testemunhas, levando consolação como Ele o fez, entre outros, para com a viúva de Naim.

 

1. ‘Oração dos dedos’ - atribuída ao Papa Francisco:

O polegar, «o dedo que te é mais próximo», faz-nos pensar e rezar por quem está mais próximo de nós, «as pessoas de quem nos recordamos mais facilmente», rezar por todos os nossos entes queridos «é uma doce obrigação».
O indicador recorda-nos de rezar por quem tem a função de dar indicações aos outros, isto é, «aqueles que ensinam, educam e tratam», categoria que compreende «mestres, professores, médicos e sacerdotes».
O médio, o dedo mais alto, lembra «os nossos governantes», as pessoas «que gerem o destino da nossa pátria e orientam a opinião pública… precisam da orientação de Deus».
O anelar «é o nosso dedo mais fraco, «recorda-nos de rezar pelos mais fracos, por quem tem desafios a enfrentar, pelos doentes» que têm necessidade da «tua oração de dia e de noite», bem como pelos esposos...é nele que é colocada a aliança de casamento.
Por fim, o mindinho, o dedo mais pequeno, «como pequenos nos devemos sentir diante de Deus e do próximo», convida a rezar por nós próprios: «Depois de teres rezado por todos os outros, poderás compreender melhor quais são as tuas necessidades, olhando-as na justa perspetiva».

 

António Sílvio Couto