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sábado, 18 de maio de 2019

Os outros são o nosso espelho!




Na sua sábia e apurada vivência da vida, os adágios populares podem servir-nos de alavanca de reflexão sobre aquilo que somos, o que desejamos ser ou aquilo que poderemos vir a ser.

Assim o ditado popular – ‘os outros são o nosso espelho’ ou ‘os outros são o espelho do que somos’ – como que nos poderá servir de motivo de análise para algumas das questões mais sensíveis…coletivas e pessoais. Com efeito, têm sido muitas e díspares (nalguns casos disparatadas) as reações degeneradas em catadupa sobre o modo como um tal ‘self-made man’ madeirense, que fez fortuna na África do Sul e encantou com os seus sucessos os governantes, os banqueiros e uma onda da moda nos espaços ligados à compra/venda de obras de arte de grande valor.

Uma boa parte dos reacionários – os que reagiram – ao tal senhor não conseguiram perceber que ele tipifica um tempo/época, um país/nação, um estilo/modo de estar de tantos/as portugueses/as. De facto, a forma (quase) meteórica como ele venceu cá pelas terras do continente tornou-se um caso de estudo, pois à sua sombra e à sua volta muitos subiram também… esses mesmos que se sentem incomodados por constarem das fotografias e dos vídeos com ele, atacando certos trejeitos do seu feitio como se fossem arrepios por se verem denunciados em idênticas lacunas…

Alguma comunicação social promove, incentiva e ataca o tal senhor, mas foi a mesma que o engrandeceu, beneficiou e se regalou com festas e vernissages de uma sociedade do faz-de-conta à mistura com resultados de outra dimensão não-assumida. Como é recorrente também aqui se passou de ‘bestial a besta’ num ápice, bastando, agora, que se arvorem em moralistas da chafurdice não lavada. Efetivamente, muita da comunicação social apadrinhada pelas redes sociais desempenha visivelmente a sua função de abutre banqueteando-se com os destroços ainda não incinerados…

Numa leitura ética/moral – pelo menos o que se sabe e/ou se vai dizendo – o que tem aparecido, esta figura tão malquista põe-nos a todos à radiografia do que somos ou que vamos disfarçando enquanto é possível. Eis alguns aspetos que considero poderem ser lidos e analisados:

- Sucesso antes de trabalho – esta leitura algo recorrente nos tempos mais próximos (para trás e para a frente) parece que cada português está fadado para ser uma reprodução do tal senhor de sucesso, sem grande esforço e, se possível, sem trabalho. Ora só no dicionário é que ‘sucesso’ aparece antes de ‘trabalho’…

- Reinar quanto baste – nos anseios de muitos de nós, portugueses, é preferível aproveitar o que dá enquanto dura, antes que se esgote a fonte do que prevenir, poupando, para quando possa vir a faltar. O consumismo tornou-se a nova e mais seguida religião…popular.

- Chama-lhe antes de que te chamem – como em certas discussões de bairro é preferível colocar em causa a honorabilidade dos outros, antes que reparem na nossa desfaçatez. O anátema lançado sobre o tal senhor como que parece exorcizar muitos dos nossos fantasmas de incongruência e de mentira encoberta…  

= Este senhor é uma espécie de bode expiatório de tantos dos erros de políticos, de jornalistas, de autarcas, de governantes, de fazedores de opinião, de homens/mulheres da rua, pois enquanto olham para ele e invetivam o seu comportamento poderão corrigir as manhas de tantas situações graves e gravosas. Não basta exigir justiça sobre um caso, quando tantos outros – mais culposos e culpáveis – parecem continuar impunes, senão no juízo ao menos no julgamento no lugar correto.

Ao espelho daquilo que podemos ver, exige-se-nos que aprendamos as lições daquilo em que podemos ter prevaricado. Quantos ‘berardos’ se pavoneiam nos carros de alta-cilindrada, se banqueteiam nos restaurantes caros, fazem compras nos espaços mais exotéricos, emitem comentários pelos posts mais efusivos ou se escondem até que os descubram envergonhados das façanhas menos recomendáveis!...

Deixamos um pensamento do Evangelho: cuidai de conseguir amigos com o vil dinheiro para que eles vos acolham na hora da dificuldade… Todos temos telhados de vidro bem mais quebráveis e esburacados…do que pensamos.   

 

António Sílvio Couto

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