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sexta-feira, 23 de novembro de 2018

‘Sexta-feira negra’…do consumismo


‘Black Friday’ (‘sexta-feira negra’) é o dia que inaugura a temporada de compras para o Natal, verificando-se significativas promoções em muitas lojas retalhistas e em grandes armazéns. É o dia seguinte ao ‘dia de ação de graças’ nos Estados Unidos, que, por seu turno, se celebra na quarta quinta-feira do mês de novembro. Esta festividade da ‘6.ª feira negra’ começou nos Estados Unidos e com a ajuda das novas tecnologias e a promoção deste dia por parte das diversas empresas tem-se estendendo pelo resto dos países do mundo… tal como outras datas americanizadas pela sociedade de consume.
Com várias explicações da sua origem e a data em que terá começado a ser mais divulgada, a ‘sexta-feira negra’ tem ainda a ver com a forma como os retalhistas, no início da década de 80 do século passado, assinalavam os seus produtos: a cor vermelha para referir o valor negativo das suas finanças e a cor preta para assinalar os valores positivos...sobretudo após o ‘dia de ação de graças’ dos americanos... Deste modo os descontos favoreciam quem desejava comprar, particularmente com mais benefícios na hora de pagar! 

Atendendo a estas caraterísticas da ‘6.ª feira negra’ poderemos associá-la a um razoável incremento do consumismo, podendo e devendo fazer-nos refletir sobre esta nova religião a quem tanto e de tantas formas prestamos culto nos nossos dias.

Vejamos uma advertência do Papa Francisco sobre este tema do consumismo:

«O consumismo hedonista pode-nos enganar, porque, na obsessão de divertir-nos, acabamos por estar excessivamente concentrados em nós mesmos, nos nossos direitos e na exacerbação de ter tempo livre para gozar a vida. Será difícil que nos comprometamos e dediquemos energias a dar uma mão a quem está mal, se não cultivarmos uma certa austeridade, se não lutarmos contra esta febre que a sociedade de consumo nos impõe para nos vender coisas, acabando por nos transformar em pobres insatisfeitos que tudo querem ter e provar. O próprio consumo de informação superficial e as formas de comunicação rápida e virtual podem ser um fator de estonteamento que ocupa todo o nosso tempo e nos afasta da carne sofredora dos irmãos. No meio deste turbilhão atual, volta a ressoar o Evangelho para nos oferecer uma vida diferente, mais saudável e mais feliz» (Alegrai-vos e exultai, n.º 108). 

Não será que esta coisa da ‘6.ª feira negra’ não passa de mais uma artimanha do consumismo para nos entreter e iludir? Como andamos tão enganados e seduzidos! Como conseguimos deixar-nos manipular por tão pouco! Como as coisas materialistas nos convencem muito mais facilmente do que as coisas espirituais! Como nós celebramos com tanta pompa o que bem depressa será expelido para o lixo!

Será preciso experimentar outros prazeres muito para além do meramente sensitivo no âmbito do corpo para poderemos não nos deixarmos aprisionar só por aquilo que conhecemos…de forma materialista. Com efeito, falta a muitos dos nossos contemporâneos a vivência dos designados ‘prazeres espirituais’, esses que motivam, dinamizam e preenchem a vida, dando-lhe sentido, força e significado.

A ‘6.ª feira negra’ continuará a ter os seus seguidores, enquanto não descobrirmos as tentações que nos vão fascinando, seduzindo e cegando. Na medida em que outros ideais forem descobertos o consumismo poderá não ter grande futuro nesta sociedade que nos tornou cativos do mais imediato, ao sabor daquilo que satisfaz mas não convence. Queira Deus que o saibamos entender o mais depressa possível…

 

António Sílvio Couto  

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