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terça-feira, 13 de novembro de 2018

Milhares no facebook…três em concerto



Uma banda americana de música rock – Threatin, nome do chefe, mas cujos músicos ajuntava na hora de atuar – tinha milhares de fãs nas páginas do facebook, mas, quando foi para o terreno só tinha três espetadores num concerto…

Tinham programada uma tournée na Europa com dez concertos em quinze dias e tudo foi cancelado pela simples razão de que nem os pretensos bilhetes vendidos correspondiam ao mínimo da verdade. Diziam que um dos seus vídeos tinha quase um milhão de visualizações, mas nada disso correspondia à verdade…

Este episódio está a ser encarado como algo de insólito do propagandeado sucesso nas redes sociais, mas um grande fiasco na vida real… a exigir reflexão séria.

À luz deste ‘acontecimento’ poderemos tentar ler tanto de fictício que anda por aí espalhado, tendo a internet, as redes (ditas) sociais, os amigos que se diz ter, os sucessos apresentados e tantas outras vertentes da mentira com que vamos sendo entretidos e/ou entretendo-nos.

De facto, o recurso às redes sociais, como forma de socialização, tem-se revelado uma boa forma de fazer nascer, fomentar e alimentar tanta da mentira, do faz-de-conta, do engano, da patranha e do embuste com que somos hoje aliciados e manipulados na vida que devia ser em sociedade mais honesta, sincera e verdadeira. Porque será, então, que este fenómeno das redes sociais vingou tão depressa no relacionamento das pessoas umas com as outras? Porque se vai fomentando mais esta forma de estar na vida do que o trato simples e próximo? Porque, vendo estes sinais preocupantes à escala mais larga, não suspeitamos daquilo que se pode passar connosco à nossa razoável dimensão? Não tenhamos dúvidas seremos mais facilmente enganados do que julgamos enganar os outros, pois as armas que usamos para com eles serão, irremediavelmente, usadas connosco, mais cedo do que tarde! 

= Pode a humanidade evoluir como se pensa ou deseja, que a componente humana mais profunda continua a ser a mesma: a inveja que fez Caim matar Abel, a mentira que fez Jacob suplantar-se a Esaú, as artimanhas de David para tentar encobrir o adultério com a mulher de Urias, os amuletos que fizeram descobrir as crenças idolátricas dos judeus na guerra dos Macabeus… e tantos outros episódios extraídos das narrativas bíblicas continuam hoje a ter lugar, espaço e condições na era das redes sociais e no trato de engano, de adulação e de malquerença com que nos tratamos…mesmo sem disso nos darmos totalmente conta.

De verdade o facebook consubstancia o que há de mais subtil da bisbilhotice entre pessoas, sobretudo daquelas que estão mais próximas. Agora já não é preciso assomar à janela nem perguntar pela vida alheia, que, pelas redes sociais, ficamos a saber os podres dos outros e disso fazemos alarde quanto baste e que nos possa fazer crer que sabemos alguma coisa sem nada conhecermos. A leviandade com que se fala dos outros, se comentam particularmente os defeitos, está a tornar uma doença social infetocontagiosa galopante. E contra ela não há ainda vacina que torne ninguém imune, até porque ainda não chegamos ao fundo do que é previsível…  

= Na vertente de formação humana, cristã e moral será urgente cuidar desta nova forma refinada de pecado, pois ofendemos os outros e mesmo Deus, na medida em que criamos – ou podemos criar – um ambiente de suspeita, de maledicência, de difamação, de desonra ou mesmo de perjúrio. Detetadas as causas precisamos de combater as consequências. E estas poderão ser muito prejudiciais para todos, dado que poder-se-á vir a criar uma sociedade de desconfiança, de medo e de insegurança e de confronto entre as pessoas.

Pior ainda: num tempo tão propenso à superficialidade de tudo e de todos, nada nem ninguém estará a salvo de ser vítima de difusão, de julgamentos, de desinformação ou mesmo de difamação sobre algo que só o próprio poderá ser o último a saber. Quantas vezes uma frase tirada do contexto ou algo que se fez que foi mal interpretado pode entrar nesta lógica do ‘disse-disse’ sem fundamento ou por maldade feito difundir.

Não podemos continuar a iludir os riscos em que vivemos nem estaremos – seja lá quem for – acima de qualquer suspeita, de forma direta ou presumida. Ninguém se engane os ‘amigos’, os ‘gostos’ e os ‘comentários’, as ‘partilhas’ no facebook não passam de algo virtual, hoje e amanhã… depois esquece!     

    

António Sílvio Couto  


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