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segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Novecentos filhos…de ‘pai incógnito’


Segundo dados publicitados recentemente há 901 crianças que foram, até ao final do terceiro trimestre deste ano, registadas sem lhes ter sido dado o nome do pai… Só há cerca de vinte anos (1998) é que se tinha registado um número semelhante, atendendo à situação de não ser dado à criança o nome do progenitor masculino.

Qual a razão deste fenómeno? Num tempo dito de abertura e de maior liberdade, que há de mais significativo para que seja escondido o nome do ‘pai da criança’? Isto será um avanço ou um recuo na forma de entender os filhos e de quem os ‘produz’? Será por falta de informação ou por excesso da mesma que tal se verifica nos nossos dias? Numa época eivada de sinais de maior e progressiva emancipação da mulher este fenómeno será algo mais do que mera coincidência?

Tem cerca de trinta anos uma reivindicação que ouvi a certas jovens que diziam: filhos sim, marido não! Nesse tempo tais ousadias redundavam em situações de grave abandono das mulheres (muito jovens na sua maioria) por parte dos ditos pais das crianças, tornando-se mães solteiras com todos os riscos inerentes à condição e aos condicionalismos sociais e familiares. Em muitos desses casos notava-se alguma falta de maturidade e/ou de necessidade de chamar a atenção para as suas lacunas afetivas e emocionais. Será que hoje as razões serão muito diferentes? Não será que muitos dos casos continuam a ser uma reprodução de novos casos de filhas sem carinho dos pais e das mães? Poder-se-á dizer que as coisas mudaram um pouco, mas as pessoas e os seus problemas não tanto assim…

Confesso que vem desse tempo a sensibilidade para o desafio da ‘bênção das grávidas’, pois se, ao nível humano, muito havia (e há) a fazer pela consciencialização do dom da maternidade, muito mais é preciso realizar na dimensão da confiança em Deus e nas suas formas de se tornar presente na vida das pessoas, tenham elas ou não ambiente familiar enquadrado, equilibrado e normal…

Quantas situações de aborto poderiam (ou poderão) ser evitadas se houver quem escute, mais do que conteste ou reclame da vida. Quantas vivências de coragem vi – e acontecem ainda hoje – se dermos condições de afirmação da vida sobre a morte. Quantas palavras de moralismo poderiam ser evitadas se, no devido tempo, fossem dados os ensinamentos quanto à vida e à responsabilidade em fazê-la manifestar-se com dever consciente, ontem como hoje. 

= Nota-se, na sociedade do nosso tempo, uma desregulamentação acelerada do erotismo e da não-assunção de responsabilidades de quem se pretende livre, mas o que vive é em libertinagem. A forma despudorada como se tratam certas questões de âmbito sexual revelam a nítida falta de respeito da pessoa por si mesma. Dá a impressão que, podendo falar de tudo, se deixou escapar ao filtro da consciência aquilo que é de índole mais pessoal e íntima à mistura com a vulgarização dos seus erros e a fanfarronice dos seus vícios. E – pior do que tudo – a confusão está, sobretudo, no comportamento dos mais velhos, pois parece que vivem numa espécie de nova adolescência das emoções ao sabor do destampar dos seus mais profundos erros e recalcamentos… Aquilo que se pensava ter sido ultrapassado pela maior informação e conhecimentos das coias, tem vindo a verificar-se que nem sempre há conexão entre o saber e o viver, fazendo, antes, com que este pareça mais um arremedo de ignorância àquilo que se pensava ser conquista de humanização…

Quem consultar registos de meados do século vinte – décadas de 40 e 50 – poderá ser confrontado com muitas crianças batizadas sem nome da mãe, isto é, filhos de mãe incógnita. Ora isso revela – pois o conferi em duas povoações mais antigas entre o Tejo e o Sado – que algo havia no tecido social da época que levava as mães a não darem o nome aos filhos, pois isso poderia trazer riscos para a sua reputação social, familiar e religiosa. Anos mais tarde tornou-se mais vulgar acontecer isso com o lado masculino, aparecendo mais os pais incógnitos, mas, como se dizia em certas terras, bem conhecidos…

Chegados ao final do primeiro quinto do século vinte e um vemos que não evoluímos tanto quanto julgávamos, antes pelo contrário: estamos na estaca quase zero, ao sabor duma amoralidade, que é muito mais grave e preocupante do que a imoralidade, pois naquela parece que tudo vale e quase não há diferenciação entre o correto e o incorreto… É tempo de refletir sobre o assunto, urgentemente!       

    

António Sílvio Couto  

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