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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Saúde e paz


Se fizéssemos uma apreciação média global dos augúrios populares para este novo ano, acabado de iniciar, teríamos quase unanimidade em ‘saúde’ e ‘paz’, tanto em separado como no conjunto dos desejos.

Se aquilo que se exprime dá significado ao que se diz, então como que poderemos ser levados a crer que saúde e paz são realidades que já vivemos e que desejamos que continuem ou que não as tendo já almejamo-las que aconteçam em 2018… 

= Em quase todas a as sedes de distrito – nalguns casos também de concelho – houve festejos de novo ano, uns mais vistosos e noticiados, outros com maior investimento musical, uns tantos com toneladas de fogo-de- artifício, rivalizando num bairrismo quase doentio… A organização da capital parecia de algo perigoso, se virmos certos tiques securitários, as medidas de prevenção adstritas como que trataram os milhares de participantes como potenciais criminosos e ninguém falou, contestando (ao menos que fosse visto, ouvido ou mostrado)…tal era a nebulosa racional e o manto de inconsciência que cobria os foliões!

Quando tantos ecologistas andam – e bem! – preocupados com o aquecimento global do Planeta, quando não deixam escapar uma incorreção, por mínima que seja, sobre a matéria por parte do presidente americano, quando emergem como fundamentalistas a propósito de algo que não condiga com o endeusamento da mãe-terra… fez-se um longo e atroz silêncio sobre os festejos com o recurso aos disparos e à poluição gerada pelos ‘celebrações’ da passagem d’ano. Não será preciso inventar outra forma de fogo – ou de algo que ilumine em festa – que não deixe esse rasto poluente, tanto sonoro como atmosférico? Os milhões de disparos ao nível global não trazem algo de desacerto no alcance globalizado? Andarão todos narcotizados ou a dormir pela simples razão de que alguns setores – comerciais, económicos, autárquicos ou conjunturais – precisam destes momentos para prestarem serviço ou justificarem a sua existência?

Onde agora habito não houve qualquer estralejar de foguetes – nem um sequer! – por iniciativa autárquica e tão pouco participei em qualquer local de réveillon, mas só estive a ver o espetáculo daquilo que os vários canais noticiosos davam em competição e nem sequer uma gota de festejo auferi, por opção! Com efeito, há coisas que, se vistas com algum distanciamento, não parecem essenciais, mas antes adventícias ou razoavelmente escusadas… 

= Que augúrios poderemos, então, desejar para este novo ano? Serão os dois supra citados – saúde e paz – suficientes para resumir os bons desejos para todo este ano civil de 2018? Se trouxermos à colação que ‘saúde’ pode resumir a vivência do nosso estado físico e tudo quanto lhe está ligado e ‘paz’ aquilo que se pode encontrar resumido da dimensão psicológico-espiritual, então estas duas palavras aglutinam bem a conciliação entre aspetos fundamentais do nosso ser, corpo, alma e espírito.

Embora possa parecer um tanto simplista esta visão, nela podemos ainda encontrar que não será por muito pretendermos que se cumpra aquilo que ansiamos, que tal se tornará efetivo. Com efeito, há rituais de passagem d’ano que revelam um pouco (ou bastante) de paganismo, senão mesmo de superstição. Ora esta é um campo propício para ir crescendo a ignorância, em vez de a combater pela instrução e a iluminação da luz divina.

Infelizmente a presença dos conceitos e valores cristãos estão a ser relegados para fora dos comportamentos pessoais, familiares e coletivos/sociais. Nota-se uma crescente neo-paganização, senão no pensamento ao menos no comportamento e como muitas pessoas vão passando a pensar como vivem, podendo perceber-se com relativa facilidade que as pessoas justificam aquilo que fazem e não vivem já segundo o modo que pensam (ou pensavam)… Com efeito, neste tempo ávido de novidades, o que vemos é retoma dalguns critérios e condutas que têm mais a marca do anticristão do que mesmo do sinal pagão nunca evangelizado. Isso mesmo aconteceria se questionássemos muitas das pessoas que estiveram em festejos de passagem d’ano, pois muito daquilo que é dito, feito ou desejado está fora duma tal fé que dizem ter ou tacitamente praticar.   

Como exclamava Cícero: O tempora, o mores…Ó tempos, ó costumes! Em que tempos e costumes vivemos!

    

António Sílvio Couto



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