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terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Indícios de guerra…em termos de ‘desporto’



Quem tiver um pouco de tempo e/ou de paciência poderá ainda aguentar alguns dos programas de jogo-falado com que a maioria dos canais televisivos/noticiosos – gerais ou de clube – martirizam quem lhes der espaço. As posições clubísticas são do pior que se possa imaginar, tentando cada um ser ainda mais maldizente – talvez o termo devesse ser malcriado – do que o outro, inserindo argumentos e diatribes do mais baixo nível que se possa suspeitar. Alguns nem imaginam que só a sua presença afasta quem quer que esteja sintonizado no mínimo.

Mas será este assunto assim tão importante para fazer perder tempo quem possa estar a ler-nos? Os programas não são sobre futebol – outros desportos quase são esquecidos – e tendo em conta a táticas, as habilidades ou os resultados? Não se deveria dar algum desconto à coloração de cada interveniente e não tentar generalizar, de algum modo, as questões?

A cada uma destas perguntas dizemos: sim e não – ‘sim’ porque muito tem subjacente o dito futebol e ‘não’ porque este ambiente é já do foro político, pois se está a germinar um estilo de fazer, de discutir e de tomar posição como o daqueles ralhadores de serviço e, nalgumas situações, as discussões ali geradas servem de cortina de fumo para problemas sociais, económicos e até laborais mais fundos e não abordados corretamente. 

 

= A partidarite dos clubes – agremiações muitas delas centenárias e de ascendências sociais distintas – funciona como uma espécie de divisão entre os adeptos, os sócios e os simpatizantes, tentando cada qual tirar proveito para se dizer com mais expressão social, com melhor relação económica ou até para fomentar uma espécie de sublimação de inconscientes coletivos mais ou menos racionais. Com efeito, o teor de adesão a um determinado clube é mais do foro emocional do que da área da razão, por isso, é que com muita dificuldade se muda de clube nem que ele ande pelas ruas da amargura. Há na afinidade clubística uma espécie de mística que talvez nem certos aspetos de religião consigam explicar, quanto mais fazer perceber a quem não for dessa cor…

A cativação dos mais novos para a simpatia por um clube e a antipatia para com outro tem muito a ver com as épocas de vitória e de identificação com os sucessos, nessa vivência coletiva das falhas pessoais. Até mesmo a valorização dum determinado jogador e a sua posição no campo leva a que possa haver preferência por um e não por outro dos (pretensos) grandes clubes…nacionais ou estrangeiros.

Casos há, na atual circunstância, em que as lutas partidárias são colocadas em plano secundário e as convulsões clubísticas se sobrepõem a tudo o resto. Nalguns programas chegam a ser todos do mesmo partido (de fações diferentes ou não), mas bem distintos nas leituras dos futebóis em radical distinção…

 

= Ao contrário do que seria desejável os jogos fazem-se fora do campo e onde os que fabricam a ‘festa’, isto é, os jogadores são o elo mais fraco. Pelo contrário, os dirigentes, os árbitros, os treinadores – estes merecem mais respeito, se se derem a tal – e mesmo os responsáveis de comunicação fazem agora parte do descontentamento, atiçando guerras e conflitos, incendiando as massas, gerando e gerindo o mal-estar crescente e belicoso… antes, durante e, sobretudo, depois de cada jogo ou jogada…Este mundo aparte que é o futebol mobiliza paixão e milhões, podendo fomentar a concórdia, mas que também pode ser gerador de intrigas, de falcatruas, de corrupção e mesmo de sinais de guerra. Se nada se ganha num jogo, pelo contrário, tudo poder-se-á questionar se as pessoas perderem o respeito dumas pelas outras e, particularmente, quando, por entre pão-e-jogos, se vai alienando o povo…manipulado, ignorante e néscio!

 

= Está na hora de denunciar quem tenta fazer do desporto – e do futebol em especial – uma distração para que não se diga a verdade. Está na hora de haver quem assuma as suas responsabilidades nas tensões que vai introduzindo entre pessoas e regiões, entre autarquias e bairros, entre os mais fracos e os mais poderosos… Acabou, é certo, o amor à camisola, mas não se faça da luta pelo poder um subterfúgio para atingirem os seus intentos e sucessos económicos… Antes que seja tarde, acordemos, já!

 

António Sílvio Couto  

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