sexta-feira, 26 de novembro de 2021
’25 de novembro’ sempre atual
Recordemos – eu relembro muitos deles com memória e aflição ao tempo – alguns dos acontecimentos que fizeram história…que importa nos esquecer, até porque em época de eleições precisamos de entender os intervenientes de hoje à luz das façanhas do passado.
Eis um breve sumário:
Entre 1974 e 1975, diversos acontecimentos marcaram a sociedade portuguesa. Entre os quais, o apelo do general António Spínola à ‘maioria silenciosa’ a 28 de setembro... com a sua demissão do cargo de Presidente da República, dois dias depois, substituído por Costa Gomes. A 11 de março de 1975, uma tentativa de golpe de estado deu origem a uma viragem substancial do processo revolucionário, que teve o seu epílogo nos acontecimentos de 25 de novembro de 1975.
Explicando as etapas:
- As dissidências no seio do Movimento das Forças Armadas (MFA) e na sociedade portuguesa foram crescendo depois do 25 de Abril, acabando por convergir nos acontecimentos do 28 de setembro de 1974, em que o general Spínola, então Presidente da República, apelou à “maioria silenciosa” para que manifestasse a sua oposição ao processo revolucionário.
- Ultrapassado este confronto com o afastamento do general Spínola e a nomeação do general Costa Gomes para a Presidência da República, a agitação social não deixou de se acentuar, vindo a atingir novo ponto de rutura em 11 de março de 1975.
- O período de tensão que se seguiu ficou conhecido como “Verão Quente”. Neste excecional período de menos de nove meses ocorreram profundas transformações da sociedade portuguesa.
- Através de movimentos espontâneos ou mobilizados para grandes manifestações resultantes do seu enquadramento sindical ou partidário, as pessoas e os grupos sociais tiveram oportunidade de exprimir o seu posicionamento e de manifestar a crescente consciência dos princípios e dos valores em jogo... cuja expressão mais significativa foram as eleições para a Assembleia Constituinte, em 25 de Abril de 1975, com a maior taxa de participação de sempre: 90% dos eleitores…
- Refira-se que, a partir de 11 de Março, as forças intervenientes no processo político se foram posicionando: de um lado forças de esquerda mais radicais, onde se pretendia fazer prevalecer a importância das conquistas revolucionárias e do outro lado - literalmente da barricada - outras forças ligadas às linhas socialista e social-democrática, tendo por meta a realização de eleições e a adequação do modelo de sociedade aos resultados eleitorais.
- Atendendo à especificidade da situação portuguesa, onde as Forças Armadas, através do MFA, desempenhavam um papel de relevo, as prioridades de cada projeto são transferidas para o interior do MFA, vindo este a transformar-se no lugar privilegiado de confrontação, percebendo-se isso nas ‘correntes’ (moderada ou extremista) em confronto no seio do MFA., e do ‘conselho da revolução’ em particular... reflexo da sociedade e refletindo-se nela e nos partidos/ideologias/tendências...
- Não podemos ainda esquecer o clima de ‘guerra fria’ entre os blocos ocidental e de leste na configuração geoestratégica.... foi um tempo de agitaçãop social.
- Para abreviar: tudo isto culminou com as movimentações militares de 25 de novembro de 1975 e a vitória definitiva dos que pretendiam um sistema político segundo os padrões europeus, baseado em eleições democráticas e na vontade popular.
Que lições…46 anos depois?
Tantos anos decorridos já percebemos o significado desta aferição democrática iniciada no 25A? Não andará muita gente à deriva da sua identidade, quando se fala do 25N? Por que teremos de aceitar a celebração de um e não cuidamos do não-esquecimento de outro? Até quando esconderão as vítimas da revolução?
António Sílvio Couto
quarta-feira, 24 de novembro de 2021
‘Drill’ – música de guerra?
O 'drill' será um estilo de música – à maneira de rap – que incentiva os jovens a uma guerra total contra tudo e contra todos. Segundo observações mais atentas nas letras os rappers de bairro apelam ao controlo do território pelas armas.
O fenómeno já chegou a Portugal e está a espalhar-se com velocidade nos bairros
degradados dos subúrbios. O 'drill' pode ser uma possível causa da guerra de
gangues que está em curso neste momento na região de Lisboa.
Atendendo a este contexto, começam a ser feitas algumas conjeturas sobre este
fenómeno: qual o seu significado social, económico ou cultural? Quem participa
neste estilo musical esconde algo mais do que manifesta? Os adereços que
apresentam – gorros, máscaras, facas ou outros objetos de ataque – envolvem
organização ou são consequências das circunstâncias de onde provêm? A julgar
pelos primeiros resultados, não deveriam as autoridades investigam as causas?
Será um fenómeno de jovens/adolescentes ou encripta outras envolvências sociopolíticas?
António Sílvio Couto
domingo, 21 de novembro de 2021
Proteção de menores
É hoje um assunto recorrente, embora seja afunilado para a vertente sexual, este tema da ‘proteção de menores’ ao que, comummente, acrescentam, ‘em risco’, sendo, nalguns casos especificadas as situações. Ora, de entre as mais referidas, há uma que tem sido reportada com maior insistência: ‘os abusos sexuais’, num sentido geral e mais reduzido (corre-se até o risco de ser redutor), ao longo do tempo, nas instâncias da Igreja Católica.
Dada complexidade do assunto tentaremos abordá-lo no sentido descritivo (social, jurídico ou ético) e, no que à Igreja católica se refere, com o recurso às posições oficiais e às incidências mais particulares.
1. CPCJ – comissão de proteção de crianças e jovens: finalidade e ação. Segundo as informações disponíveis, as ‘comissões de proteção de crianças e jovens’ são instituições oficiais não judiciárias com autonomia funcional que visam promover os direitos da criança e do jovem e prevenir ou pôr termo a situações suscetíveis de afetar a sua segurança, saúde, formação, educação ou desenvolvimento integral (n.° 1 art.° 12.° da Lei n.° 147/99 de 1 de setembro). As sinalizações da CPCJ envolvem as seguintes situações de perigo: abandono; sob maus tratos físicos, psíquicos ou sexuais; sem cuidados ou afeição adequadas à sua idade; sob atividades ou trabalhos inadequados à sua idade. As sinalizações de perigos podem ser feitas pessoalmente, por escrito ou pelo telefone... O anonimato, segundo as circunstâncias, também vale, muito!
2. Se tivermos em conta alguns dados sociopolíticos corremos o risco de que as crianças e/ou jovens com dificuldades, podem com facilidade ser ‘nacionalizados’, isto é, o pai-Estado apropria-se daqueles que, estando mais ou menos fragilizados, ele assume na gestão das situações. Dizem alguns ‘entendidos’ na matéria que o Estado gasta, por cada criança ou jovem que assume para resolver os problemas à sua maneira, o encargo de mais de mil euros por pessoa, quando paga uns míseros euros de abono de família – no Orçamento de Estado previsto para 2022 era de cinquenta euros/mês, em média… Esta é a justiça social em vigor! Efetivamente a família vale menos do que a aposta nos empregos das instituições… de regeneração!
3. Comissão pontifícia para tutela de menores. Por indicação do Papa Francisco, desde março de 2014, foi estabelecida esta comissão para lidar com o escândalo de abuso sexual de menores, procurando proteger crianças e adultos vulneráveis no contexto da Igreja. Tem sido uma autêntica ‘bola de neve’ todo este processo no seio da Igreja católica, com posições firmes e atentas a tudo quanto pode ter sido inadequado, senão mesmo imperdoável, nesta matéria. As diversas dioceses portuguesas puseram em marcha a forma de agilizar esta verificação dos factos, de permitir encontrar os prevaricadores – tenham o estatuto que possam apresentar – e de dar voz às vítimas…tantas vezes ignoradas, silenciadas ou negligenciadas…Tudo isto está em funções, nas vinte e uma dioceses, desde junho de 2020…com técnicos, peritos e especialistas sobre as diversas matérias englobadas neste tema dos abusos sexuais a menores e pessoas fragilizadas.
4. Petição dos ‘241’: ousadia ou provocação? Nas vésperas da mais recente reunião da Conferência Episcopal Portuguesa (meados de novembro), um grupo de 241 personalidades fizeram chegar àquele órgão dos bispos portugueses uma carta-petição para que fosse constituída uma ‘comissão independente’ sobre a matéria, quase fazendo tábua-rasa do já implementado, desde que se possa dizer o que interessa…sabe-se lá a que custo e com que consequências. A CEP foi lesta em dar carta-branca aos peticionários, como que desautorizando as ‘suas’ comissões diocesanas. A CEP ‘democratizou’ facilmente o assunto, permitindo que se possa valorizar mais o abstrato e menos o concreto, isto é, o que possa ser ouvido ao longe (ou ao largo) poderá não precisar de ter o aval daquilo que está mais próximo… Que não haja medo da verdade…correta!
5. Quem defende quem ou quem acusa do quê? Fique claro: as vítimas – de abuso ou de acusação – devem ter a prioridade. De facto, não podemos cometer injustiças com pressas justiceiras. Não podemos ser justos e retos se cometermos ofensas à verdade e à caridade. Que estejamos todos centrados no essencial: as pessoas.
António Sílvio Couto
sábado, 20 de novembro de 2021
Os sonhos são dos pobres
Numa daquelas frases quase estereotipadas li na legenda de um filme: ‘os sonhos são dos pobres’, como se se quisesse dizer que os pobres acalentam sonhos para sobreviverem na caminhada da vida…enquanto os ricos já terão concretizados tais pretensões, por isso, não as sonham nem as incluem nas expetativas de virem a ser realizadas…
Agora que caminhamos a passos rápidos para o tempo do Natal – época propícia a sonhar ou ao menos a desejar algo mais viável – como que poderemos acalentam sonhos, não de meros pobres, mas de cidadãos em caminho neste tempo e nesta Terra.
1. À boa maneira das crianças, em maré de pedidos de prendas/presentes, poderíamos como que listar alguns dos sonhos que gostaríamos que se pudessem realizar…porque não já neste Natal. Quando vemos que as relações humanas parecem caminhar alicerçadas na crispação, não seria desejável que as pessoas vivessem em respeito mútuo e em diálogo fraterno? Não haverá muito mais uma vivência feita pela reivindicação do que pela construção humilde e participativa naquilo em que somos chamados a estar? Não serviremos mais a contestação azeda do que a moderação inclusiva para com todos? Não dá a impressão que, nalgumas circunstâncias, quase somos atraiçoados pelo desfasamento entre o que queremos e aquilo que, de facto, fazemos? O maior sonho desta nossa condição humana de peregrinos é a arte de saber entretecer o possível com o imaginável e de sabermos articular os anseios individuais com as possibilidades alheias…
2. Colocados sob a suspeita de estarmos a entrar na 5.ª vaga do ‘covid-19’, não seria desejável que nos saibamos respeitar para que os efeitos do vírus se diluam e possamos reaprender a estar uns com os outros? Até onde irá este ambiente do ‘salve-se-quem-puder’, entrando em tensão com as regras mínimas de convivência social e ambiental? Não estaremos, hoje, mais egoístas do que há vinte meses, no início da pandemia? Não dá a impressão de que desaprendemos as mais básicas linhas de educação, se é que as tínhamos adquirido? Efetivamente não teremos evitado tomar as medidas necessárias, enquanto quisemos conduzirmos pelas mais urgentes?
3. O que vivemos nos tempos de pandemia – ainda em curso – não nos fez sair do pesadelo mais atroz de ficarem a nu as nossas ‘certezas’ cheias de lacunas, de erros, de misérias ou de petulâncias irrisórias. Os sonhos desfeitos com as diversas vagas de covid-19 em vez de nos terem amolecido parece que nos enquistaram – senão na teoria ao menos na prática – para connosco mesmos e uns para com os outros: em pequenos sinais podemos perceber que estes vinte meses parece que se tornaram oportunidades perdidas para nos conhecermos melhor, mais a fundo e olhando para o Além. Embora os nossos olhos tenham ficado a descoberto da máscara higiénica, dá a impressão que não temos sabido ver com propriedade tanta da nossa incoerência: não crescemos em humanismo nem em simplicidade, antes pelo contrário fomos alimentando a ilusão de que isto da pandemia não era coisa séria nem exigente… De facto, pelo menos três em cada dez portugueses foram atingidos pelo vírus… em qualquer das suas manifestações!
4. Os sonhos mortos de tantos dos nossos contemporâneos não foram coisa suficiente para questionarmos a nossa ‘vidinha’ (o diminutivo é sarcástico) prenhe de falsas ambições, enfeitada de diversas provocações ou mesmo inventada por imensas ilusões. Pior do que os sonhos dos pobres, é a indigência de tais idílios. Com efeito, o recurso ao jogo rápido e barato para ser rico depressa; os enganos publicitários de facilidade em conseguir tais desejos; a pressa em atingir os intentos sem olhar a meios; os fins conseguidos à custa de pisar tudo e todos; as tentativas em ludibriar até que se descubra a falsidade… são alguns dos itens em que vamos vivendo senão a sonhar pelo menos a efabular. Já o percebemos?
5. Os vendedores de sonhos para tantos dos ‘nossos’ pobres depressa serão descobertos e, quando o forem, cuidem das consequências… sociais, políticas, ético-morais ou religiosas. Quem semeia sonhos…
António Sílvio Couto
quinta-feira, 18 de novembro de 2021
5.ª vaga da ‘covid-19’ já chegou?
Depois de mais de vinte desde o primeiro confinamento, em março de 2020, eis-nos chegado, em meados de novembro de 2021, à 5.ª vaga de ‘covid-19’, com todas as consequências que advirão do reavivar de traumas dos momentos anteriores.
Se quisermos sistemarizar as quatro vagas anteriores podemos encontrar os momentos de manifestação da ‘covid-19’: 1.ª vaga – março a maio de 2020; 2.ª vaga – outubro a dezembro de 2020; 3.ª vaga – janeiro a abril de 2021; 4.ª vaga – julho a setembro deste ano...
Em cada uma destas etapas tivemos números estrondosos de infetados, de internados, de falecidos e também de recuperados... Mas tudo se modificou com a introdução das vacinas, sobretudo, na passagem entre a terceira e a quarta vaga, portanto, já neste ano de 2021.
1. Até à data (meados de novembro) houve em Portugal: 1,11 milhões de casos confirmados, com mais de um milhão de recuperados e ainda 18.283 mortos... à mistura com mais de 15 milhões de doses (as duas) de vacinas administradas e ainda 20 milhões de testes efetuados. Há, no entanto, cerca quarenta e sete mil casos ativos.
2. A forma como as pessoas foram enfrentando este tema da ‘covid-19’ foi evoluindo ao longo do tempo, passando por diversas fases, desde a estupefação, o medo, o terror...o cumprimento das regras mais básicas, como a higienização até à aplicação de medidas restritivas e ao acatamento dos confinamentos, passando ainda pelos testes e os condicionamentos: económico, social, sanitário, religioso... Regra geral temos sido cumpridores das mais díspares deliberações político-alarmistas, numa conjugação quase-bélica, onde não sabemos de onde vem o inimigo, embora todos lhe sintamos os efeitos.
3. O carrocel de medidas – nem sempre bem explicadas ou até corretamente aceites – foi gerando resistência nalguns setores socio-económicos, sobretudo dependentes da presença de público gastador. Turismo, restauração ou espaços de diversões (sobretudo) noturnas foram campos assazmente atingidos à mistura com tentativas de explicação, trazidas à liça por ‘técnicos e peritos’ das áreas da virologia, da epidemiologia, da desinfeção e mesmo de prevenção, tratamento ou dos cuidados de saúde... Produtos atinentes ao combate ao vírus emergiram com força e em quantidades rapidamente consomidas... Temos sabido adaptar-nos às circunstâncias, desde as mais primárias até às mais complexas e quase funestas.
4. Ao nível religioso, depois de algum tempo de confusão e quase-horror, tivemos capacidade de nos aferirmos aos novos desafios, desde os de contenção até aos de adaptação: recursos nunca antes usados foram-se tornados vulgares, desde as missas on-line até às reuniões em zoom, passando mais pela acomodação do que pelo modo de resolver as questões com novos métodos, linguagens ou mesmo orientações...mais claras, sensatas e/ou ousadas. Missas transmitidas pela internet e outros meios digitais não são aquilo a que tentamos recorrer, isto é, o de divulgar o que já fazíamos, mas sem as técnicas próprias de tal comunicação. Foi o que se pode arranjar...
5. Com o eclodir desta 5.ª vaga temos de aprender lições não-colhidas dos momentos anteriores: precisamos de continuar em prevenção e não disfarçando que tudo acabou; precisamos de voltar à normalidade, mas de forma consciente de que o vírus continua a fazer estragos pessoais e sociais; mais do que em desconfiança precisamos de viver na vigilância sobre tudo e para com todos; continuando a usar certos artefatos – higienização das mãos, da máscara e do distanciamento (dito) social – temos ainda um longo caminho a percorrer, sem medo mas com cuidado... Querer queimar etapas já deu para perceber que nos fará voltar à estaca zero ou ao menos ao ponto anterior! Isto não foi um intervalo, é, de verdade, um novo filme!
António Sílvio Couto
terça-feira, 16 de novembro de 2021
Mudanças ou incongruências?
‘Odiavam ir ao domingo à missa e agora passam horas no yoga. Odiavam abster-se de comer carne na quaresma e agora tornam-se vegans. Odiavam rezar ao Santíssimo Sacramento e agora fazem meditação [transcendental]. Odiavam confessar-se e agora contam as suas misérias a um psicólogo, pagando-lhe’.
Li este texto e considerei que ele retratava – mesmo que de forma simplista – muitos dos ‘nossos’ católicos, que se tornaram fervorosos praticantes de outras ‘religiões’ bem mais atrativas… a seu juízo!
‘Mutatis mutandis’ é como aqueles ‘nossos’ cristãos enfastiados com as homilias e quase avessos a escutarem a Palavra de Deus, em contexto católico, mas que, fascinados pelas testemunhas de jeová, descobrem a Bíblia e tornam-se leitores atentos, estudiosos metódicos e, por vezes, difusores daquilo que, por desconhecerem, desprezavam…
1. Trocar a missa pelo yoga – será algo comparável? – Desde logo estes dois modos de ser e de estar são como que incompatíveis: yoga acentua a centralização no eu – na linha de perceção daquilo que acontece com a pessoa e com o seu corpo – em nítido contraste com a dimensão comunitária fundacional da vivência da missa, isto é, somos muitos (Igreja) unidos pelo mesmo Cristo… Pode haver sessões (com muitas pessoas) de yoga, mas cada um faz o seu percurso, experimenta a sua respiração, mesmo que possa sentir a dos outros…Por seu turno, na missa, mesmo que poucos estamos em condição comunitária, isso mesmo se exprime pela oração do ‘Pai-nosso’, onde cada um reza sempre no plural e não singulariza a sua oração.
2. Mudar para vegetariano? – De alguma forma vemos a incongruência das pessoas quando contestam o jejum como método espiritual e o adotam como atividade estética ou seguindo orientações mais ou menos capciosas da sua mentalização em função de uma tal moda (um tanto aceite e divulgada), isto é, há quem siga o jejum – de aspetos alimentares – como regime e não como sistema de mudança de vida. De facto, há pessoas que se adaptam momentaneamente mas não mudam intrinsecamente…Mais cedo do que tarde voltarão ao ponto de partida, até porque as etapas custam mais do que os resultados.
3. Rezar o quê, a quem e como? – Nas palavras citadas faz-se uma contraposição entre a adoração eucarística e a meditação influenciada por outras propostas religiosas. Como se fossem comparáveis ou mesmo tivessem o mesmo valor…Com efeito, a grande questão é a necessidade de ter tempo de oração, tendencialmente diário. Ora isso falta à maioria das pessoas, que vivem flutuando sem terem tempo de se encontrarem consigo mesmas e tão pouco de darem espaço à escuta de Deus. É essencial que tenhamos tempo e vivência de nos encontrarmos no ‘sacrário do nosso coração’ – como tão belamente se referiu o Concílio Vaticano II, na Constituição pastoral ‘Gaudium et spes’ sobre a Igreja no mundo atual, n.º 16. Na medida em que lermos, meditarmos e rezarmos a partir da Sagrada Escritura teremos algo mais do que comprazimentos de aferição em autoestima…A Palavra de Deus converte, sempre!
4. Reconhecer-se pecador diante de quem? – A crise da confissão é muito mais do que confusão de fé, é, sobretudo, alienação de quem se considera impecável (sem pecado), insensível (às faltas alheias) e, tantas vezes, intratável, dado que não se reconhece nas suas falhas, antes se exalta no seu orgulho e inventa desculpas para não ser normal, isto é, com qualidades e defeitos, com erros e falhas, com virtudes e pecados. Aquilo que é de graça – sem custo e dado por misericórdia – na celebração da confissão sacramental foi dando lugar a umas sessões terapêuticas – pessoais ou em grupo – pagas a bom preço e, quantas vezes, despudoradamente lesivas da dignidade da pessoa humana. Cada um saberá escolher o que mais lhe agrade ou onde se sinta respeitado e respeitador…
= Estes aspetos poderão ser úteis desenvolver com mais simplicidade e exigência…cristãmente em Igreja!
António Sílvio Couto
segunda-feira, 15 de novembro de 2021
Ridículo e ridicularização…
Recordo do meu tempo de estudante que um professor nos ditou para o exame a seguinte questão: ‘evidência e evidenciação na teoria do conhecimento’…e, por duas horas rigidamente contadas, tivemos de dedilhar os conhecimentos, as teses, os resumos e as múltiplas conjugações da matéria estudada…
Seguindo o método neotomista, antes de mais, tínhamos de fazer uma exigente definição dos termos para não estarmos a falar de coisas diversas usando idênticas palavras.
Atendendo a esta aprendizagem vamos tentar conjugar os termos filosóficos com as palavras que servem de título a este texto. Será o ‘ridículo’ uma evidência e a ‘ridicularização’ uma evidenciação? Não será o binómio ‘evidência-ridículo’ uma visão demasiado evidente e onde poderemos fazer uma leitura da realidade dos nossos dias? Por seu turno, o paralelo ‘ridicularização-evidenciação’ poderá ser explicativo de tantas subtilezas ainda não compreendidas?
1. Se as coisas televisionadas podem representar – pelo simbolismo ou pela valorização dada – algo da nossa vida, então, somos tentados a conjeturar que o ridículo está em ponto-de-rebuçado, pois vemo-lo desde as notícias até aos programas de entretenimento, passando pelas telenovelas ou mesmo pelos debates. Em múltiplas situações só pelo ridículo se compreende que se gastem horas a falar de assuntos inúteis – veja-se as tricas do futebol e de alguns clubes em particular – e com tal veemência que os mais incautos podem ser ludibriados pelas questões… O valor das matérias em discussão não se mede pelo tempo ocupado, mas pela importância para a vida de quem possa escutar ou estar interessado no assunto…
2. A vertente da ridicularização também é servida a rodos nas conversas, nas ‘comunicações’ das (ditas) redes sociais ou nos espaços de influência sucedâneos das conversas de café... O léxico português tem alguma variedade de palavras para exprimir esta nossa apetência – quase congénita – para fazermos do falar-da-vida-dos-outros um assunto de ocupação do tempo. Quem não identifica bisbilhotice como essa intromissão na vida alheia, recorrendo ao dizer-mal-dos-outros como tema? Noutros lugares usa-se calhandrice, mexeriquice, fofoquice… Há ainda termos regionais para se referir a esta atitude de intromissão, por menos boas (ou más) razões na vida-dos-outros: ‘cabaneira’, termo minhoto que significa alcoviteira e que, à porta da sua casa (cabana), se entretinha a falar da vida alheia…certamente denegrindo quem era falado… Também a palavra ‘sendeiro’, no significado no masculino de trapaceiro e troca-tintas ou que usa o que sabe para entalar os outros, tentando sobressair-se sobre os demais…Que dizer ainda de ‘trampolineiro’ como vigarista ou de fazer muito ‘basqueiro’, como sendo uma forma de armar barulho para confundir as ideias de quem não entende o nosso linguajar? Riqueza não falta. Entendimento, precisa-se!
3. Ora, nos tempos que decorrem, temos de estar atentos ao alcance das palavras, dos gestos e dos sinais daqueles/as com quem comunicamos. Com efeito, se houver desfasamento entre emissor e recetor, a mensagem pode não ser descodificada. Efetivamente, muita da comunicação em curso usa de razoáveis artimanhas, numa tentativa de manipular quem possa estar à escuta: com que habilidade vemos alguns dos comunicadores – em certas situações usando de imagens subliminares (breves, fugidias e quase impercetíveis) – ardilosamente a aparecerem com trejeitos de quem não sabe o que dizer, mas que encobre com artifícios bem montados para distraírem do essencial, fixando-se no secundário e/ou acessório, mas que os intermediários (os vários órgãos de comunicação) se encarregarão de sublinhar, embora o importante possa ficar sem ser visto, dito ou mostrado…A isto não se poderá chamar ridicularização do ridículo?
4. Numa avaliação de alguns momentos recentes da nossa vida coletiva como que poderemos considerar uma ridicularização quase sem ridículo, tais como as derrotas do mundo do futebol – da seleção ou dos clubes mais representativos – ou ainda dos insucessos inesperados de outros setores ou de ações (militares ou outras) que já nos deram grande ostentação. Não será que ainda não percebemos que a exceção não faz a regra e que esta nem sempre se conjuga com sucesso sem trabalho… Só no dicionário tal se antecede!
António Sílvio Couto







