Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



terça-feira, 16 de maio de 2023

Vivência comunitária personalizada

 

Ao aproximarmo-nos da celebração do Pentecostes talvez possa útil que nos acerquemos dos relatos do mesmo nos Atos dos Apóstolos e possamos ver as consequências do Espírito Santo na vida da Igreja nascente. Algo de novo aconteceu. Como o podemos atualizar? Que vertentes precisamos de aprofundar? Estaremos vivos na força do Espírito Santo?

Ora, se há dimensão que revela riqueza humana e espiritual é a força da comunidade dos irmãos, desde os primórdios da Igreja. No entanto, essa dimensão poderosa e essencial do cristianismo não se dissolve num ‘coletivo’ ou num anonimato, pelo contrário, cada pessoa é e faz a Igreja, tornando esta, com o seu contributo, um espaço de maior presença de Deus.

Após a acrisolada época da pandemia somos sentindo uma espécie de abandono dos participantes na vida comunitária regular da Igreja. Depois da ‘religião das pantufas’, servida no conforto do sofa, torna-se difícil voltar a sair de certos clichés de acomodação: estar com os outros precisa de vencer barreiras de egoísmo e de defesa higienista. Atendendo a essa frase atribuída a Bento XVI poderemos considerar que muitos ‘não sairam [da Igreja comunidade e templo] porque nunca chegaram a entrar’.

Lemos nos Atos dos Apóstolos: «Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações» (2, 42). Estes aspetos são considerados os pilares da comunidade primitiva: o ensino (didaskalia), a comunhão (koinonia), a fracção pão (eucaristia) e as orações… todos estes aspetos sob a expressão ‘eram assíduos’, isto é, numa participação comprometida de todos.

Centramos a nossa atenção nestes quatro pilares da comunidade, tendo ainda em conta outros sumários do livro dos Atos dos Apóstolos (cf. 4, 32-35; 5, 12-15)… tentando descobrir, hoje, implicações destes mesmos sinais:

* Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos

Esta fundamental vertente de formação na doutrina da Igreja percorre os mais diversos estados e estádios da caminhada cristã: todos e nas mais diferentes idades precisamos de aprender, dado que nada nem ninguém está formado completamente. Eclesiásticos, religiosos/as e leigos/as precisam sempre de estudar as coisas de Deus, pois se não o fizerem correm o risco de entrar na rotina e cairão com facilidade na reprodução de ideias já feitas e vazias, logo sem resposta aos desafios de cada tempo.

Se nas ciências e atividades humanas é preciso estar em continua atualização tanto mais nas coisas sobre Deus, dado que Ele se revela a quem dele se aproxima e com Ele passa o seu tempo de vida. Nalguns casos pode-se chamar ‘atualização permanente’, noutros dir-se-á que é preciso ter gosto por aprender, mas sempre numa crescente fidelidade ao conhecimento de Deus, nas pequenas como nas grandes coisas do dia-a-dia.

Precisamos de recorrer à doutrina da Igreja (em tantos dos seus aspetos e vertentes), conhecê-la, estudá-la e, sobretudo, vivê-la. São Jerónimo (século IV) dizia que desconhecer a Sagrada Escritura é ignorar o próprio Cristo. Não haverá por aí muitos ignorantes, mesmo sem o reconhecerem?

«A Igreja é apostólica, porque está fundada sobre os Apóstolos. E isso em três sentidos:
– foi e continua a ser construída sobre o «alicerce dos Apóstolos» (Ef 2, 20), testemunhas escolhidas e enviadas em missão pelo próprio Cristo;
– guarda e transmite, com a ajuda do Espírito Santo que nela habita, a doutrina, o bom depósito, as sãs palavras recebidas dos Apóstolos;
– continua a ser ensinada, santificada e dirigida pelos Apóstolos até ao regresso de Cristo, graças àqueles que lhes sucedem no ofício pastoral: o colégio dos bispos, «assistido pelos presbíteros, em união com o sucessor de Pedro, pastor supremo da Igreja» (Catecismo da Igreja Católica, n.º 857).

* Eram assíduos à união fraterna (comunhão)

Esta vertente decorre da presença aos irmãos, através da força interior de Deus neles e na sua expressão exterior de uns para com os outros. A comunhão fraternal (koinonia) exprime-se pela comunhão de sentimentos e de fé, bem como pela partilha de bens (cf. At 4, 32-35: tinham tudo em comum e ninguém chamava seu ao que lhe pertencia). Com efeito, esta vivência da partilha fraternal revela e cimenta a força daquela comunhão enraízada na força do Espírito Santo. A unidade – comum-unidade – é um factor bem acentuado na comunidade de Jerusalém e que há de repercutir-se em toda a vivência e testemunho dos discípulos de Jesus.Os sinais de rutura – heresia ou cisma – serão combatidos desde a primeira hora. Nada nem ninguém pode atentar contra a comunhão dos irmãos. A oração sacerdotal de Jo 17 é disso um testemunho por excelência: unidos como irmãos, tal o Pai e o Filho.

Por vezes podemos ser ‘instrumentos’ de divisão – mesmo sem disso nos darmos conta – mais do que seria desejável. Estarmos atentos aos possíveis sinais de rutura da comunhão é tarefa de continua vigilância. Não podemos ficar numa saudosa utopia de que os primeiros cristãos viviam em comunhão e nós hoje não conseguimos tal desiderato; na medida em que o Espírito de Deus faz comunhão, assim devemos comprometer-nos em fazer da nossa vivência em Igreja um testemunho de fraternal caridade ativa e não presumida.

* Eram assíduos à fracção do pão (eucaristia)

Antes de mais é preciso explicar esta expressão naquilo que tem de raiz judaica e como foi vivida no contexto dos cristãos da comunidade inicial.

«Fracção do Pão, porque este rito, próprio da refeição dos judeus, foi utilizado por Jesus quando abençoava e distribuía o pão como chefe de família, sobretudo aquando da última ceia. É por este gesto que os discípulos O reconhecerão depois da sua ressurreição e é com esta expressão que os primeiros cristãos designarão as suas assembleias eucarísticas. Querem com isso significar que todos os que comem do único pão partido, Cristo, entram em comunhão com Ele e formam um só corpo n' Ele» (Catecismo da Igreja Católica, n.º 1329).

Este terceiro pilar da comunidade de Jerusalém coloca-nos diante da realidade da eucaristia, como o sacramento da fracção do pão. Com efeito, nos evangelhos encontramos referência ‘à fracção do pão’ (cf. Lc 24, 35) numa alusão à eucaristia, bem como em 1 Cor 10, 16: «o pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo?»

Na celebração atual da eucaristia temos e vivemos ainda este gesto da fracção do pão. Com efeito, como diz a Instrução Geral ao Missal Romano (n.º 321), quando se refere a este sinal: «o gesto da “fracção do pão” – assim era designada a Eucaristia na época apostólica – manifesta de modo mais expressivo a força e o valor de sinal da unidade de todos em um só pão e de sinal da caridade, pelo facto de um só pão ser repartido entre os irmãos».

* Eram assíduos às orações

«Estas orações são, em primeiro lugar, as que os fiéis ouvem e lêem nas Escrituras; mas eles actualizam-nas, em particular as dos salmos, a partir da sua realização em Cristo. O Espírito Santo, que assim recorda Cristo à sua Igreja orante, também a conduz para a verdade integral e suscita formulações novas que exprimirão o insondável mistério de Cristo operante na vida, sacramentos e missão da Igreja. Estas formulações desenvolver-se-ão nas grandes tradições litúrgicas e espirituais. As formas da oração, tais como as revelam as Escrituras apostólicas canónicas, continuam a ser normativas da oração cristã» (Catecismo da Igreja Católica, n.º 2625).

O espaço da realização comunitária era o culto, do qual faziam parte a fracção do pão – a Eucaristia (cf. At 2, 46; 20,7; Lc 24,35) e as orações; no conteúdo, estas deviam ser cristãs (cf. At 1,14; 4,24; 14,11.18), embora os crentes continuassem a frequentar o templo (cf, Lc 24,53).

Feito este percurso comunitário pelos quatro pilares da Igreja primitiva, onde fica a intervenção pessoal de cada pessoa na construção, por cada um de nós, desta Igreja onde nascemos, celebramos, crescemos e vivemos?

De facto, ao refletirmos sobre algumas das figuras dos evangelhos e dos Atos dos Apóstolos (*), cada um a seu modo, um contributo para que a Igreja fosse crescendo. Todos, a partir da referência a Jesus, foram chamados e enviados como testemunhas. O que seria a Igreja sem o contributo de Pedro ou de Paulo, de João ou de André? Que dizer ainda sem a participação de Agostinho de Hipona ou de Bento XVI (Joseph Ratzinger), de Francisco de Assis ou de Teresa de Ávila?

O Espírito Santo derramou em cada um os seus dons, fazendo-os carismas para as comunidades e a Igreja. Hoje, como no passado, temos de amadurecer esta complementar vivência do compromisso pessoal na força comunitária, um e outra fazem de cada cristão um convertido de mãos dadas com seus irmãos e irmãs em igual processo de humilde caminhada na fé, pela esperança e com caridade.



António Sílvio Couto

sábado, 13 de maio de 2023

Eutanásia: Fátima e Nossa Senhora


As quatro últimas datas de aprovação da eutanásia – eufemisticamente dita de ‘despenalização da morte medicamente assistida’ – têm alguma proximidade a Fátima e aos acontecimentos ali verificados. Referimo-nos apenas aos momentos mais recentes e têm por pano de fundo – com a lei votada pelos deputados em maioria – de permeio com as idas-e-regressos (em três anos e três meses) entre o Parlamento, a Presidência da República, o Tribunal Constitucional e seus adjacentes: 20 de fevereiro de 2020 (em plena pandemia) – festa litúrgica dos pastorinhos Francisco e Jacinta Marto; 7 de dezembro de 2022 – véspera da Imaculada Conceição; 13 de fevereiro de 2023 – memória do falecimento da Irmã Lúcia, vidente de Fátima; 12 maio de 2023 – véspera da primeira peregrinação aniversária das aparições na Cova de Iria.

1. Será coincidência com tais datas? Haverá alguma marcação ao fenómeno de Fátima? Será uma estratégia de distração por parte da camada dos políticos, tentando ofuscar quem foi ou vai a Fátima? Estará subjacente uma espécie de contestação à mensagem de sofrimento, por vezes, acentuada pela mensagem de Fátima? Quem se dei contar de que as datas em apreço valem mais do que dias do calendário?

2. O problema foi tão reiterado que quase venceu pelo esgotamento os antagonistas. Foi idêntico o processo quanto ao aborto: pé-ante-pé entramos – como dizem os promotores – na senda da civilização. Mas será a opção pela morte – prévia ou antecipada – um rasgo de civilização? Para mim é um retrocesso atroz e que pode tornar-se irreversível. Sou pela vida, por isso, é mais um dia triste a somar a tantos outros, mesmo que possa ser de festa para outros ‘mais inteligentes’...

3. Sinto pena por haver pessoas que aplaudem estas decisões em favor da morte, tenha ela a faceta que tiver. Claramente estamos em pistas diferentes e seguimos valores antagónicos. Devia haver, no entanto, mais compreensão para quem não quer a eutanásia. Ora isso não se vê nos defensores da dita, pois consideram – pelos trejeitos e observações – que, quem não pensa como eles, não passa de um troglodita quase medievalesco surreal.

4. Efetivamente joga-se muito mais do que parece em todo este cenário pró-eutanásia: a vida só é digna quando é feliz e risonha ou quando todos me fazem a vontade… Como poderemos ser tão superficiais se ainda estamos neste grau de cultura humana e civilizacional. O que mais apreciamos não foi aquilo pelo que mais nos deu luta pela conquista? Como conciliar o amadurecimento de uma pessoa, se esta desistir ao primeiro problema? Este facilitismo materialista trará consequências, particularmente, para os mais novos, pois se não tiverem as coisas a seu jeito poderão não vingar na vida e com sucesso?

5. Sejamos claros e honestos: a vida nunca se referenda. Acredito que poderá surgir uma nova vaga – e não tem a ver com nenhum partido político – que reflita sobre o valor da vida e possa reverter as decisões por agora tomadas. E nem a obrigação constitucional do Presidente da República em promulgar a lei será capaz de nos entristecer. Na semana em que se comemorou a vitória sobre o regime nazi, podemos ver outros populistas – de alguma esquerda, trotskistas e, sobretudo, desmiolados – a fazerem vingar a condenação de inocentes…Ao menos haja coerência!

6. Recordando o mandamento da Lei de Deus: ‘não matar nem causar outro dano a si mesmo ou ao próximo’.



António Sílvio Couto

quarta-feira, 10 de maio de 2023

A caminho de Fátima…

 


Por estes dias temos visto, através das televisões sobretudo, imagens de imensos grupos de peregrinos a caminho de Fátima, tanto do norte como do sul…todos fazem do santuário da Cova da Iria o termo de suas caminhadas… As modalidades são diversas, as motivações das mais díspares, as organizações muito diversificadas: todos querem atingir o almejado por forma a estarem lá para as celebrações.

1. Pelo que se pode dizer e saber, encetar o ‘caminho de Fátima’ continua a ser algo de muito pessoal, por vezes religioso e nem sempre tão católico, mas acima de tudo envolvendo o mistério do relacionamento entre os humanos e Deus, mesmo que este possa ser visto numa nebulosa de crença. De ano para ano cresce esta expressão religiosa. Creio que ninguém ousa julgar seja quem for e muito menos depreciar o esforço de meter pés a caminho e gastar alguns dias nesta romagem simbólica de vida e da própria vida.

2. Andando em busca de estórias sempre surgem relatadas vivências do foro pessoal-íntimo que nos deixam admirados do misto de razões e da complexidade das reações. Correndo o risco de exagerar quase se pode dizer que cada peregrino – e são aos milhares – tem motivações, que exprime de forma visível e tantas outras que guarda no mais profundo segredo do seu coração. O respeito pelas atitudes dos peregrinos faz dos caminhos de Fátima uma enciclopédia de sábia consulta para conhecermos a natureza humana, hoje como ontem.

3. Acrisolados pela recente pandemia não sabemos se houve um aumento de peregrinos a percorrerem os caminhos de Fátima. Parece, no entanto, haver uma melhor organização dos grupos, onde a dimensão espiritual é contemplada à semelhança dos aspetos físicos, de saúde e alimentares. É nesta confluência de dimensões que podemos atender à visão integral e integrada da experiência de peregrinação. Estima-se que não seja desvirtuada a caminhada com outros fatores mais mundanos e dalguma moda…

4. Estamos numa época de encruzilhada, notando-se mais os sinais de individualismo do que de sentido comunitário, onde se sobrepõe o ‘eu’ ao ‘nós’, mesmo quando este parece estar numa conjugação de pequenos ‘eus’. Não está em causa avaliar quem se faz peregrino dos caminhos da Fátima, mas antes precisamos de discernir as reais motivações e as implicações na vivência/celebração da fé cristã em Igreja. Com efeito, muitos dos fregueses do santuário de Fátima situam-se nas franjas da vida paroquial, deixando bastante a desejar sobre o compromisso no concreto da vida… de Igreja católica.

5. Agora que temos estamos em abordagem da sinodalidade na Igreja, urge investir na formação de cristãos que atendam mais aos outros do que a si mesmos, dando tempo e espaço para que consigamos aceitar os dons dos outros e favorecendo a possibilidade de que esses dons se tornem carismas, isto é, graças em favores dos demais. Qual tem sido a função do santuário de Fátima neste aspeto da Igreja? Não se favorecerá mais a vida individualista do que a dimensão comunitária? Apesar de algum esforço não se atende mais à promessa cumprida do que às consequências do compromisso pelos outros?

6. Segundo dados mais ou menos oficiais, os números dos peregrinos de Fátima que comungam nas missas ali celebradas não atinge um décimo dos participantes. Não será este um fator a ter em conta na pastoral daquele santuário? Mesmo com tanta gente a frequentar o santuário, torna-se importante não nos quedarmos pelas aparências, pois estas podem enganar quem se fique pelas exterioridades… Fátima é caminho, mas também pode ser espaço e oportunidade de mais e melhor conversão a Deus e aos outros, em Igreja!



António Sílvio Couto

segunda-feira, 8 de maio de 2023

Dia da mãe

 


Neste dia da mãe quero dizer-vos, Senhor:
- Obrigado pela dádiva
da maternidade,
pois através desta fonte
de renovação da existência
nos mostrais como é grande
o vosso amor para connosco,
quando tantas mães aceitam fê-lo
com generosidade e entrega em ternura.
Hoje, Senhor quero colocar-vos
todas as mães pela sua correspondência criadora.
Através delas, Vós, Senhor,
celebrais a vida
que de Vós jorra continuamente.
Hoje, Senhor quero apresentar-vos

também as mães psicológicas
e espirituais,
pois através da sua entrega
dais coração e consolo a tantos
dos vossos filhos e filhas
sem aconchego e ternura.
Hoje, Senhor, quero ainda
pedir perdão por tantas mães
que ofenderam o dom da maternidade
pela recusa de seus filhos,
recorrendo a opções de morte.
Perdoai-lhes, Senhor,
e recolocai-as na Vossa paz
pelo arrependimento
e pela confiança em Vós.
Maria, nossa mãe, rogai por nós.

Eu trabalhador, me acuso!

 

Deixa-me sempre alguma confusão ver e ouvir certos ‘sábios’ do sindicalismo reclamarem do aumento dos salários, tendo como parâmetro médio o número de cerca de mil e quatrocentos euros/mensais. Estes dados (mais ou menos oficiais) referem que os atingidos são pessoas com formação superior ou formação técnica na área e que trabalham nas grandes cidades do nosso país.

Quando se quer falar de dinheiro – auferido e vertido em impostos – convém comparar com outros países. Em que ponto estamos na escala europeia? Talvez seja útil ver ainda o número de portugueses que recebem o ‘ordenado mínimo’... em contexto estamos na linha da produção de riqueza. Com que meios poderemos fazer tais aumentos reclamados?

1. Segundo as instâncias europeias com o assunto das estatísticas podemos recolher os seguintes dados: a média anual dos salários na União Europeia anda pelos 33,5 mil euros. Os dados de Portugal situam-se nos 19, 3 mil euros. Os salários mais elevados estão no Luxemburgo (com 72 mil euros), na Dinamarca (63 mil euros) e na Irlanda (50 mil euros). Itália, Espanha, Malta ou Chipre também apresentam uma média mais alta do que Portugal. O salário médio mais baixo é registado na Bulgária (10,4 mil euros), na Hungria (12,6 mil euros) e na Roménia (13 mil euros). A Grécia também está entre os países com um salário médio mais baixo do que Portugal. O salário médio em Portugal corresponde assim a 58% da média da UE e a 68% da média em Espanha.

2. Segundo dados do governo português mais de 50% dos trabalhadores receberam salários inferiores a mil euros, em 2022, uma percentagem que sobe para 65% no caso dos jovens com menos de 30 anos. Seguindo ainda dados oficiais na análise aos salários médios pagos no mercado de trabalho português pode perceber-se que, no final de 2022, o salário médio nas atividades ligadas à agricultura, produção animal, caça, floresta e pesca era de 933 euros, o mais baixo entre os diferentes tipos de atividade... enquanto nas atividades de eletricidade, gás, vapor, água quente e fria e ar frio, a remuneração média era de 3.521 euros, quase quatro vezes mais... Outro dado digno de registo é que empresas com um a quatro trabalhadores registavam um salário médio mensal de 1.027 euros, enquanto empresas com 250 a 499 trabalhadores pagavam, em média, 1.909 euros.

3. Desde janeiro deste ano que o salário mínimo nacional é de 760 euros. Estima-se que 30% da população usufrua deste ‘vencimento’ mensal.

4. Vejamos coisas concretas e com incidências pessoais. De facto, ao ver os dados dos salários nacionais quedo-me abaixo dos da agricultura/pesca e um pouco acima do ‘ordenado mínimo’ em vigor. Recebo 850 euros ilíquidos... não atingindo os treze mil euros anuais e que, por um pouco menos, quase ficava fora da declaração obrigatória...Isto de se ser normal no trato com as coisas dos impostos, obriga-nos a cumprir e dá-nos direito de reclamar. Já passou o tempo em que os eclesiásticos eram vistos como exceções no relacionamento com o dinheiro, pois eram vistos como ‘alguém’ que não se submetia às obrigações dos outros cidadãos e podiam colocar-se (ou ser colocado) em plano superior de entidade quase-fora deste mundo. Hoje vivemos fruto do nosso trabalho e usufruindo de todos os direitos e obrigações de quaisquer outros trabalhadores... Não sei se outros da vida pública poderão dizer e confirmar o mesmo?

5. «No trabalho, a pessoa exerce e cumpre uma parte das capacidades inscritas na sua natureza. O valor primordial do trabalho pertence ao próprio homem, seu autor e destinatário. O trabalho é para o homem e não o homem para o trabalho. Cada um deve poder tirar do trabalho os meios de subsistência, para si e para os seus, e a possibilidade de servir a comunidade humana» (Catecismo da Igreja Católica, n.º 2428).



António Sílvio Couto

quinta-feira, 4 de maio de 2023

Água: símbolo da vida e sinal de cultura

 


A água é um dos elementos mais significativos da história da Humanidade, nela, dela e por ela podemos compreender a cultura dos povos e mesmo as diversas expressões religiosas. Embora seja um elemento natural, a água exprime diferentes modos e atitudes do ser humano e das civilizações. Tida durante muito tempo como recurso quase-inesgotável, vemos, cada vez mais, a água como sinal em risco e meio de vida a preservar.

1. Será muito útil que assumamos a relação com a água – no nosso concreto com o curso do Rio Tejo – mesmo como componente de índole religiosa cristã. Se atendermos ao contexto da diocese de Setúbal mais de quatro quintos das paróquias têm relação com a água dos rios – Tejo e Sado – e mar numa extensão significativa. Mas haverá alguma diferença nessa abordagem? Percebe-se pelo anúncio da Palavra de Deus – pregação ou religiosidade – que estamos na proximidade das águas? Sensibilidade às coisas marítimas reduz-se a certos artefactos mais ou menos ligados ao mar e ao rio? Como se pode fazer uma correta leitura e vivência das coisas com sabor a água, enquanto fonte de diálogo humano e religioso?

Vamos tentar esmiuçar estas questões:

2. De facto, não se nota – grosso modo – diferença entre a expressão de fé em sequeiro e essa outra com alguma ligação a água. No entanto, é muito diferente a forma de propor e de viver a fé em cada um destes contextos. Valerá a pena olhar a sábia forma de comunicação de Jesus através das parábolas para compreendermos a diferença e o modo específico de o viver. Pena seja que não haja a mínima sensibilidade dos responsáveis diocesanos, quando têm de equacionar as mudanças nas paróquias – diga-se párocos e não só – pois tal atenção mediria se estamos a atender para onde se vai mais do que para resolver a função de quem vai para aquele lugar…


3. É de todo em todo importante não só saber qual a mensagem a comunicar, mas sobretudo deve ser tido em conta a quem essa mensagem é dirigida. O código marítimo é simples, mas não simplório, tornando-se essencial adequar a linguagem ao público a que ela é destinada. Reparemos mais uma vez no método de ensino de Jesus: foi com palavras simples e imagens interpelativas que o Mestre soube dar-se a conhecer e interpelar quem O ouvia. Por vezes complicamos o que é fácil e embrulhamos nas teias da confusão aquilo que quanto mais simples melhor é.


4. Não será pela assunção de colocar artefactos marítimos – redes, remos, boias… barcos ou simples miniaturas… roupas ou adereços – no contexto da celebração da fé – missas ou procissões, encontros ou colóquios – ou na sua proximidade, que fará de uma iniciativa algo que tenha a falar de Deus, com Deus ou para Deus…com sabor a sal e com mensagem recebida dos elementos da natureza onde a água está presente. Torna-se importante saber onde se quer chegar para que não caiámos no ridículo de termos sinais muito bonitos, mas pouco (ou nada) interessantes para a mensagem que se deseja comunicar.

No caso do rio Tejo há elementos que precisam de ser alocados aos espaços ribeirinhos, mas não podem ser buscados para entreter nem para ocuparem um ‘buraco’ de não-interesse à luz dos desejos daqueles que usam tais adereços. Depois de tanto tempo de costas voltadas para o rio, o movimento de olhar de frente o Tejo estava emperrado, mais pelo desinteresse do que por razões racionais e emotivas.


5. As terras de ‘ribatejo’ – de uma de outra margem – precisam de se unirem para verem com verdade e sensibilidade aquilo que as une e não tanto os motivos que as molestam e/ou separam. Por muito que isso possa ‘custar’ as certas forças, a dimensão religiosa do Tejo sobrepõe-se mesmo aos intentos económicos, tanto os do passado como os atuais. Já reparamos que há tantas ‘senhoras’ (de grande devoção) nas fraldas do rio Tejo? Como se explica que muitas dessas invocações tenham a ver com as atividades humanas desenvolvidas, tendo o Tejo por cenário? O teor marítimo dessas festas não se esgota em atividades de entreter nem se pode confundir com uns barcos em desfile mais ou menos lustroso.


6. O Tejo é, sobretudo, um veio de união, mas essa parece andar fugidia de habitantes e visitantes. Naquilo que há cultura de índole cristã diz respeito torna-se urgente criar sinergias entre todos sem preconceitos nem clichés ideológicos. Não há donos do rio nem assalariados do lazer, mas antes todos – e são muitos e bastante diversificados – devem dar o seu contributo em abertura de uns aos outros. O rio Tejo merece mais do que campanhas ou propostas enganosas: saído da fonte deve unir povos e culturas por onde passa.


7. Quando percebermos o rio descobriremos a nossa identidade marítima, sobre as águas, ao sabor da maré e perscrutando a voz de Deus por aí…


António Sílvio Couto

segunda-feira, 1 de maio de 2023

Visão de governantes sobre os governados, ontem como hoje

Eis uma estória... verdadeira ou não, mas simplesmente provocadora:

Numa da suas reuniões, Hitler pediu que lhe trouxessem uma galinha. Agarrou-a fortemente com uma das mãos enquanto a depenava com a outra. A galinha, desesperada pela dor, quis fugir mas não pôde.
Assim, Hitler tirou-lhe todas as penas, dizendo aos seus colaboradores: “Agora, observem o que vai acontecer”.
Hitler soltou a galinha no chão e afastou-se um pouco dela. Pegou num punhado de grãos de trigo, começou a caminhar pela sala e a atirar os grãos de trigo ao chão, enquanto os seus colaboradores viam, assombrados, como a galinha, assustada, dorida e a sangrar, corria atrás de Hitler e tentava agarrar alguns grãos. A galinha seguia-o para todos os lados.
Então, Hitler olhou para os seus ajudantes, que estavam totalmente surpreendidos, e lhes disse: “Assim, facilmente, se governa os estúpidos. Viram como a galinha me seguiu, apesar da dor que lhe causei?
Tirei-lhe tudo... as penas e a dignidade, mas, ainda assim ela segue-me em busca de farelos”.
Assim é a maioria das pessoas, seguem os seus governantes e políticos, apesar da dor que estes lhes causam e, mesmo que lhes tirem a saúde, a educação e a dignidade, pelo simples gesto de receber um benefício barato ou algo para se alimentar por um ou dois dias, o povo segue aquele que lhe dá umas simples migalhas.

1. Quem não for governante como que se pode rever na fase de governado, mesmo que ainda não se sinta totalmente galinha depenada ou não corra já atrás dos grãos lançados do ‘poder’ para a sua autossustentação ou até em ordem à manipulação. Com que subtileza as forças do poder usam os outros para que se calem e obedeçam. Com que desfaçatez se engendram truques para ter os governados presos pela boca. Com que habilidade são apresentadas ‘soluções’ que manipulam os que delas são favorecidos.

2. Mesmo que de forma subtil há muitos governantes que são – consciente ou inconscientemente – seguidores das técnicas de Hitler, esse famigerado ditador a quem ninguém deseja ser associado. Alguns pretensamente ‘democratas’ articulam esquemas idênticos ao da galinha depenada, pois conseguem criar nos votantes a sensação de que vão resolver os ‘seus’ problemas, mas o que fazem não passa de arregimentar aduladores que, seduzidos pela boca, vão nas pisadas daqueles que os seguem, quase de forma acrítica e ideológica. Os ‘sistemas’ de ajuda aos (apelidados) mais pobres como que fazem destes galinhas amestradas e seguidistas, dado que os subsídios prolongam a dependência no tempo e no espaço... Até quando estaremos calados? Por que nos querem comprar com benesses de baixo valor?

3. Por vezes estamos tão envolvidos nos factos e apanhados pelas circunstâncias que quase se torna difícil discernir aquilo que nos pode afetar, dizemo-lo mais da parte dos governados, pois os governantes têm os seus artefactos mais elaborados para nos conquistarem. Há quem se queixe de que os ‘políticos’ só nos vendem as suas patranhas, em forma de promessas, quando surgem as eleições. Depois como que esquecem tais façanhas e retomam a rotina de tentarem enganar o mais tempo possível e adiarem ser descobertos. Deste modo o eixo causa-efeito fica à espera das consequências. Com o escrutínio das redes sociais o assunto tem vindo a encurtar a avaliação…

4. À luz das artimanhas da ‘estória’ supra-citada, urge detetar os grãos de trigo lançados na sedução dos nossos dias, pois muitos deles aparecem-nos sob a forma de subsídio, de complemento de reforma ou até na redução do ‘IVA à taxa zero’. Cada vez mais é preciso estar atento às manigâncias do poder, seja ele quem for e atinja às áreas mais diversificadas.

5. O trabalho é um direito, mas fazê-lo com honra e dignidade é um dever. Não será que falta uma visão correta do trabalho, sem o reduzir à força do seu exercício? Pensar também é trabalho e do bom…



António Sílvio Couto